terça-feira, 9 de janeiro de 2024

5020) Algumas leituras de 2023 - 2 (9.1.2024)


(Algumas leituras do ano passado, alguns dos livros que achei marcantes por variados motivos; livros sem nenhuma ordem especial. Como sempre, incluo apenas livros que li do começo ao fim. )


Sombras na Relva (1960), de Karen Blixen (“Isak Dinesen”), trad. Maria Luiza Newlands (Ed. 34, 1992)
Estou dando-uma-geral na obra da escritora dinamarquesa cuja carreira tem um perfil único e invulgar. No ano passado, comentei a obra de estréia, que lhe deu fama, Sete Contos Góticos. Este ano li esta pequena coletânea de quatro textos memorialísticos, uma espécie de expansão de seu livro mais famoso, A Fazenda Africana. Blixen teve uma fazenda de café no Quênia, e é impressionante a visão dessa baronesa da Dinamarca andando de jipe, calçando botas, atirando em leões, contando histórias e, principalmente, convivendo com os quenianos de diversas nações. Principalmente os somalis, que ela descreve como “altivos e ingovernáveis”. No primeiro capítulo ela lembra do somali Farah, que foi uma espécie de mordomo em sua fazenda – um homem inescrutável, elegante, que falava inglês e francês, e administrava tudo com delicadeza e mão de ferro. Em “Barua Soldani” ela fala de uma carta que recebeu do rei da Dinamarca, e que depois de mostrá-la aos nativos estes começaram a atribuir poderes mágicos à folha de papel. Em “O Grande Gesto” ela comenta o esforço de cuidar da saúde dos “kikuyu”, que têm hábitos peculiares, e diz: “Cometi alguns erros muito graves, em que ainda hoje não consigo pensar sem consternação, mas estes aparentemente não abalaram meu prestígio; às vezes, acho que as pessoas gostavam mais de mim por eu não ser infalível. Essa peculiaridade dos africanos aparece em outros aspectos de suas relações com os europeus.” E em “Ecos das Colinas” ela reflete sobre os sonhos, e conta os longos anos de correspondência postal que manteve com seus ex-criados. Tudo que ela escreve vale a pena ler.





The Cement Garden (1978), de Ian McEwan
Há um sub-gênero do insólito que podia ser chamado ”Histórias de crianças ou pré-adolescentes que após a morte ou desaparecimento dos pais tenta continuar vivendo por conta própria, sem que o mundo perceba”. Muito longo este rótulo, então talvez caiba “Os Órfãos Independentes”. É o tema de A Menina no Fim da Rua (livro de Laird Koenig, filme de Nicolas Gessner), Todas as noites às 9 (livro de Julian Gloag, filme de Jack Clayton) e deste romance arrepiante de McEwan, que começa com a frase: “Eu não matei meu pai, mas às vezes tenho a impressão de que lhe dei um pouco de ajuda.” Jack, Sue e Julie são três adolescentes que após a morte do pai ficam cuidando da mãe doente e do irmão menor, Tom. São uma família isolada, sem amigos, que não se dá com os vizinhos. Julie, a mais velha, tem independência bastante para ir ao banco receber a pensão, fazer compras. Os três mais velhos vivem infernizando uns aos outros com brigas constantes e com jogos eróticos. A mãe morre, e agora a casa é deles.
McEwan é um escritor de enorme precisão narrativa, e coloca em cerca de 150 páginas uma história de sadismo infantil, fuga da realidade, estagnação social, naqueles bairros meio pobres onde não há vida comunitária, não há futuro, e as pessoas acabam inventando fantasias necrófilas para se distrair.




Pecúlio (2023), de Jorge Filó (Recife, Ed. do Autor)
No departamento da poesia popular, registro este livro onde Jorge Filó dá uma amostra da convergência tradicional, mas que não é visível a todo mundo, entre o repente e o cordel nordestino, por um lado, e formas tradicionais, como o soneto. Para muitos críticos literários, repente e soneto são antípodas, porque instintivamente pensamos no primeiro como uma poesia oral cultivada nos pés-de-parede do Sertão, e no segundo como uma poesia refinada cultivada nos cafés da Rua do Ouvidor. Ledo engano, como comprova a obra do sonetista maior do Pajeú, João Batista de Siqueira, “Cancão” (1912-1982). Em Pecúlio, Jorge Filó traz uma caixa sortida de investidas poéticas onde tem décima, soneto, sextilha, poema longo e curto, poema irreverente e poema filosófico. Este último gênero tem raízes visivelmente filogênicas, pois o autor, que já conquistou brilho próprio, é herdeiro da linhagem do mestre Manoel Filó, de São José do Egito. Portanto... sai do meio que lá vêm os Filós: “O repente acelera o pensamento / cada verso retrata um sentimento / que nenhum outro ser, por si, revela. / A não ser um poeta improvisando / as belezas do mundo vislumbrando / do batente que Deus tem na janela.” 


 
Cuentos (Llamadas Telefónicas, 1997; Putas asesinas, 2001; El gaucho insufrible, 2003), de Roberto Bolaño
Este ano dei cabo desta excelente coletânea de três livros de contos de Bolaño, pela Ed. Anagrama (Barcelona). Bolaño é um escritor de prosa enganosamente descomplicada, que nos leva a participar de uma história a princípio totalmente comum e previsível mas aos poucos tudo vai se distorcendo numa direção ou noutra, e logo estamos dentro do insólito. Não o sobrenatural (raro nos contos dele), mas num universo de gangsters, mulheres fatais, atrizes de cinema pornô, colecionadores, adolescentes carrancudos, escritores na pindaíba, acadêmicos emproados, gente que reconhecemos no primeiro parágrafo em que surgem, mas que nos surpreendem poucas linhas depois. 
Bolaño abre o livro com uma série de “Conselhos Sobre a Arte de Escrever Contos”, onde diz: “Nunca aborde os contos de um em um. Se alguém aborda os contos de um em um, honestamente, pode estar escrevendo o mesmo conto até o dia de sua morte. O melhor é escrever os contos de três em três, ou de cinco em cinco. Se se acha com energia suficiente, escreva-os de nove em nove, ou de quinze em quinze.”
Leia mais aqui:
https://mundofantasmo.blogspot.com/2023/04/4937-as-chamadas-telefonicas-de-roberto.html
https://mundofantasmo.blogspot.com/2023/10/4996-os-segmentos-de-estoria-de-roberto.html




O corpo e o caleidoscópio (2023), de Thays Albuquerque (Recife, Ed. Castanha Mecânica)
Uma narrativa que mistura memorialismo e imaginação, um desses relatos em que a gente encontra a cada passo um pequeno marco confirmatório batendo com as informações biográficas sobre quem escreveu; mas basta isso para cancelar todo o restante, cancelar toda a parte textual baseada em improvisos, lembranças recauchutadas, memórias fugidias, reinterpretações, invenções por descuido ou por deliberação? A narradora está pesquisando a história das ditaduras militares na América Latina: Chile, Argentina, Brasil... É quando chega no Brasil que a trava emperra, porque aqui é mais fácil saber do tempo da ditadura através de obras literárias do que de obras escolares: “em 70 eu ainda nem tinha nascido, minha mãe e meu pai tinham onze anos, em muitas das nossas conversas, eu perguntava sobre a ditadura. mainha diz que era muito pequena e não lembra de nada. durou até 85, duas décadas, você se tornou adulta durante a ditadura. como não consegue lembrar? ela me olha sem entender. não diz uma palavra”. Acho que existe toda uma literatura hoje em dia, de jovens com a idade dos meus filhos, perguntando isso, como quem diz: Tudo bem, mas me fala: pra baixo de qual tapete isto foi varrido? 



The case of Erle Stanley Gardner (1946), de Alva Johnston
Este ano pude ver pela primeira vez alguns episódios da famosa série de TV “Perry Mason”, onde o advogado-detetive é interpretado por Raymond Burr (o ator que faz o assassino em Janela Indiscreta de Hitchcock). A série é divertida, com episódios curtos de ritmo frenético para a época (1957-66). Isto me motivou a ler esta curta biografia do autor, que eu tinha há anos. Gardner era uma máquina de escrever. No seu rancho na Califórnia, ele mantinha secretárias para quem ditava seus romances palavra por palavra. No início da carreira (diz Johnston) ele escrevia um romance por semana. Depois que ficou rico, tirou o pé do acelerador e passou a produzir um romance por mês. Seus livros policiais repousam no seu extenso conhecimento de filigranas jurídicas e de casos reais improváveis, que ele usava como ponto de referência para imaginar crimes onde uma pessoa inocente é acusada, recorre a Perry Mason para salvá-la, e ele o faz, descobrindo durante o processo quem foi o verdadeiro criminoso. Já li uns 30 ou 40 romances dele. A fórmula nunca falhou. 




A febre (2023), de Marcelo Ferroni
Tzvetan Todorov dizia que uma narrativa é fantástica quando, durante e após a leitura, somos incapazes de decidir se tudo aquilo foi uma interferência do sobrenatural ou foi apenas (por exemplo) uma alucinação do personagem. Este romance de Marcelo Ferroni narra uma daquelas claustrofóbicas histórias que transcorrem quase totalmente durante uma noite de medo e sofrimento, uma noite que o personagem pensa que nunca vai acabar. É uma “longa jornada noite adentro” de dois irmãos rivais e hostis cuidando do pai senil, no apartamento em que este vive, repleto de recordações do seu tempo de homem poderoso durante a ditadura. Pense numa noite em que tudo dá errado, a ponto do protagonista, Marco, começar a imaginar que seres do além estão interferindo para vingar-se da família. Marcelo Ferroni (disclaimer: Marcelo é meu editor na Alfaguara, e graças a ele traduzi H. G. Wells e Raymond Chandler) já fez incursões bem sucedidas pelo romance policial (Das paredes, meu amor, os escravos nos contemplam, 2014) e pela ficção científica (As maiores novidades, 2021, uma curiosa história de viagem no tempo ambientada no mundo corporativo). Este novo livro é a narrativa de um pesadelo cruel que aflige gente cruel e gente fraca. 


 
Regarde les lumières, mon amour (2014), de Annie Ernaux
Fiquei gostando do estilo despojado de auto-ficção praticado pela ganhadora do Prêmio Nobel do ano retrasado. Este livrinho, em forma de diário, descreve sua experiências de frequentadora do supermercado Auchan. Os franceses são catalogadores e classificadores até a medula, sentem-se na obrigação de tudo classificar, tudo descrever, tudo interpretar. O livro de Annie Ernaux parece um olhar apolíneo e distanciado avaliando e julgando a experiência do consumo, a ética e a estética das gôndolas e dos caixas, a psicologia dos frequentadores. Entretanto, a certa altura ela começa a relacionar certas catástrofes ocorridas em Bangladesh, com milhares de mortos, e a empresa dona do supermercado.
Mais comentários aqui:
https://mundofantasmo.blogspot.com/2023/03/4919-o-supermercado-de-annie-ernaux.html




Contos Encantados do Brasil (2023), de Marco Haurélio
Marco Haurélio é neste momento um dos pesquisadores mais dedicados e mais confiáveis da nossa literatura oral. O fato de ser poeta e cordelista com obra própria (e muito pessoal) não interfere nessa atividade; antes o ajuda a perceber e preservar a riqueza de sonoridades, coloquialismos e variantes dialetais de que essa literatura é tão rica. Riqueza que às vezes se perde quando o estudioso e transcritor sente-se levado a traduzi-la para o linguajar do relato jornalístico ou para o do ensaio acadêmico, que muitas vezes tendem a ser pálidos e uniformes. Estes contos, colhidos em fontes primárias e cuidadosamente anotados, deverão agradar a leitores de Ítalo Calvino (Fábulas Italianas), Angela Carter (103 Contos de Fadas) e da obra inesgotável de Altimar Pimentel, Câmara Cascudo, Sílvio Romero e muitos outros. 



A Tabela Periódica (1975), de Primo Levi (Relume-Dumará, 1994, trad. Luiz Sérgio Henriques)
Primo Levi declarava repetidamente que não era cientista e que não era escritor: era um técnico com formação em química. Não chamo a isto modéstia, a qual no mais das vezes não passa de auto-defesa de um Ego vulnerável; chamo auto-conhecimento, que em geral é uma conquista cara e sofrida. Vi há pouco o filme A Trégua (Francesco Rosi, 1997) que narra como Levi (1919-1987) sobreviveu a Auschwitz, e reconstitui sua tortuosa volta a sua Ítaca natal, Turim, após o fim da guerra. A Tabela Periódica se detém em outros episódios de sua vida, com a precisão verbal de um escritor e a imaginação meticulosa de um cientista.
Leia mais:
https://mundofantasmo.blogspot.com/2023/07/4966-tabela-periodica-de-primo-levi.html



Martina no Vale do Germânio (2023), de Eduardo Souza Lima
Vivo matutando sobre os caminhos até agora abertos pela ficção científica brasileira, e sobre as atitudes possíveis a um escritor brasileiro diante de um gênero dominado, quantitativa e qualitativamente, pelos autores de língua inglesa. (Spoiler: ainda não vejo solução.) Eduardo Souza Lima é crítico de cinema desde o tempo em que as barbas eram pretas, e neste seu romance de estreia adota o absurdismo fragmentário presente em outras obras nacionais recentes, com o Back in the URSS, de Fábio Fernandes. Um absurdismo com algo da sátira dos cineastas brasileiros que ao sucesso do seríssimo Tubarão respondiam com o escrachado Bacalhau. Ou o absurdismo com que os cineastas da Boca do Lixo paulistana canibalizavam cinema de Hollywood, cultura pop, marxismo de botequim, dramalhão latino-americano. Uma espécie de escracho reverente com que os artistas da indústria mais fraca homenageiam os da mais forte, enquanto lhes batem a carteira. Em suma: é uma ficção científica udigrudi. (Nem sei se o autor concordaria, mas eu sou como ele, não peço licença a ninguém.) 
 


Maria Amélia Mello (2023), de Marisa Midori Deaecto e Carolina Bednarek Sobral
Este perfil biográfico pertence à coleção “Editando o Editor”, da EdUsp, e traça o perfil da minha amiga e editora Maria Amélia Mello. Além do relato saboroso de suas leituras, estudos, viagens, idéias editoriais brilhantes, o livro coloca esta questão tão interessante do olhar feminino sobre a atividade editorial. Discussão que não se esgota. Na ficção científica, por exemplo, existe uma copiosa bibliografia de artigos e ensaios a respeito de John W. Campbell (1910-1971), um editor que formatou a “Golden Age” da FC com suas qualidades, mas também com suas limitações e seu conservadorismo. E pouco se escreve sobre uma editora como Judith Merrill (1923-1997) e sua esplêndida série de antologias anuais (de 1956 a 1968) onde ela, com total conhecimento de causa, misturava ficção científica, fantasia, poesia e literatura mainstream. Os caminhos são sempre abertos por pessoas, cada qual com uma visão única, irrepetível, preciosa.
Leia mais aqui:
https://mundofantasmo.blogspot.com/2023/05/4947-editando-editora-maria-amelia.html
 



sábado, 6 de janeiro de 2024

5019) Algumas leituras de 2023 - 1 (6.1.2024)



(Algumas leituras do ano passado, alguns dos livros que achei marcantes por variados motivos; livros sem nenhuma ordem especial. Como sempre, incluo apenas livros que li do começo ao fim. )




 
The Hemingway Hoax (1990) – Joe Haldeman
É uma história de viagem no tempo, cujo “ponto de divergência” (fato isolado que, tendo outro desfecho, gera uma linha-do-tempo diferente da nossa) é o famoso episódio em que uma valise com manuscritos de Ernest Hemingway foi perdida num trem da França. Joe Haldeman, que demonstra grande conhecimento da vida e da obra do autor de O Velho e o Mar, imagina um grupo de pessoas decididas a forjar uma pseudo-descoberta de tais manuscritos, num golpe semelhante ao de Clifford Irving que durante algum tempo enganou muita gente com seu pseudo-autêntico Diário de Hitler.
 
O que o trio de espertalhões não sabe é que por razões cósmicas quaisquer, é preciso que os textos de Hemingway continuam perdidos, desconhecidos e inéditos. As idas-a-vindas temporais que a trama acarreta produzem um suspense razoável. Em cada “universo alternativo” onde o protagonista vai parar, tanto ele quanto as outras pessoas são outras mesmo, têm características físicas, psicológicas e biográficas diferentes. 
 
Há algumas discussões literárias interessantes, inclusive sobre fraudes, falsificação, máquinas de escrever antigas (os tipos são reproduzidos graficamente na página do livro); ao mesmo tempo, o próprio Haldeman reconheceu que é o seu livro com mais cenas de sexo e de violência. (A maioria destas cenas não estavam incluídas na versão mais curta da história, publicada por Gardner Dozois na Isaac Asimov SF Magazine, abril de 1990, versão que ganhou os prêmios Hugo e Nebula de 1991.)



 
“A Lua na Caixa Dágua” (2021) – Marcelo Moutinho
A crônica carioca talvez seja, depois da música popular, a melhor maneira de conhecer o Rio de Janeiro, no sentido de saber o que os cariocas pensam, sentem, imaginam. E também de conhecer a “pequena história” dos bairros, das praias, das turmas, das épocas. Marcelo Moutinho é um dos cronistas que costuram a “cidade partida”, num vai e vem incessante entre a Zona Sul (a ponta visível do iceberg carioca) e o resto da cidade. Aqui se misturam lembranças de infância, comentário social, a história do samba, registros de lugares e pessoas que sumiram do mundo material mas ainda são passados adiante de geração em geração, pois o tempo tanto destrói quanto conserva.   



Notes on the Making of Apocalypsis Now (1979?) – Eleanor Coppola
A esposa de Francis Ford Coppola acompanhou toda a via-crucis da realização deste filme, e deste processo resultaram um documentário, espécie de “making of” (Hearts of Darkness: A Filmmaker’s Apocalypse, 1991) e este livro, um diário que ela manteve durante a aventura. Francis Coppola é um cineasta ambicioso, daquele tipo cujos filmes são atrapalhados por um tufão ou por uma guerra civil, e não pelos quiproquós habituais. O interessante do relato de Eleanor Coppola é o acompanhamento das incertezas do dia a dia. Logo no começo do livro, ainda na pré-produção, ela diz que Coppola teve um acesso de raiva e jogou pela janela todos os seus Oscars; quatro deles se despedaçaram. Hoje sabemos que o filme é considerado um clássico, ganhou prêmios, e não levou ninguém à falência; mas durante o livro dela nada disto aparece como garantido, porque nada é contado em retrospecto e com a vantagem de já saber o fim. O que a gente tem é a incerteza absurda da vida real, as dúvidas, as catástrofes diárias (tempestades, acidentes, enfartes do elenco, etc.), e o permanente pânico do diretor reescrevendo tudo na véspera ou no instante da filmagem, sem saber ainda que história está contando. 




Corpos benzidos em metal pesado (2022), de Pedro Augusto Baía
Os nordestinos nos queixamos de pouca exposição, pouca divulgação para o Brasil todo, mas a verdade é que a literatura nordestina tem, quando se vê o conjunto de literatura brasileira, muito mais presença do que a literatura nortista. Nos últimos anos, aparecem cada vez mais livros da região Norte, como este de ótimos contos curtos. Corpos benzidos...  (ganhador do Prêmio SESC de literatura) mostra uma vivência que em alguns momentos chega a parecer irreal: de um lado, uma floresta e um rio que parecem um acesso de megalomania da Natureza, e do lado oposto forças econômicas igualmente gigantescas e impessoais, mas que passam-o-rodo em tudo usando fuzis, dinheiro, tratores. Entre estas duas forças estão pessoas simples, que leem romances, presenciam assassinatos, ouvem música, sofrem perseguições, encontram cadáveres, discutem assombrações, sentem o corpo saturado do metal invisível que boia nos rios. A epígrafe de um dos contos cita A queda do céu, de Davi Kopenawa e Bruce Albert: “Se os brancos de hoje conseguirem arrancá-lo [=ao metal] com suas bombas e grandes máquinas, do mesmo modo que abriram a estrada em nossa floresta, a terra se rasgará e todos os seus habitantes cairão no mundo de baixo”. 




Cinema Palacio (2022), de Ivan Noé Espadas Sosa
Anos de cineclubismo me impuseram uma mania, a de ler (e achar bom) tudo quanto se refere à experiência do cinematógrafo: a atividade de fazer filmes, assistir filmes, projetar filmes, comentar filmes, inventar filmes que não existem. Ivan Noé Espadas Sosa é filho de dono de cinema, e mais uma dessas pessoas cuja infância foi contaminada desde cedo pelas idas diárias à sala de projeção. Neste livrinho (li em edição eletrônica), ele recompõe episódios que são memórias comuns a todo garoto de cidade pequena que vivia hipnotizado pela tela. São diferentes dos cineclubistas, que vão ao cinema para ver um Fellini, para ver um John Ford. Esses meninos e meninas são encarregados de pegar as latas de filme na estação do trem (como Ivan), ou são levados ao cinema enquanto a babá namora com o projecionista (como aconteceu com Rubem Fonseca), e a ida ao cinema não tem muito a ver com o filme, com o autor do filme ou o conteúdo do filme. É o cinema que constitui sua realidade emocional: a bilheteria, a sala, o vácuo morno, a escuridão, a cortina, as cadeiras barulhentas, o facho de luz... 



Leia esta canção: Beto Guedes (2023), org. Marina Ruivo
Sou meio suspeito para falar desta antologia, da qual participo com um conto. Foi uma idéia em homenagem ao histórico disco de Beto Guedes, A Página do Relâmpago Elétrico (1977), disco que marcou minha geração já marcada pela obra de Milton Nascimento e de seu Clube da Esquina. Participam da antologia alguns amigos “clubesquinófilos” como Luiz Roberto Guedes, Fábio Fernandes e Sérgio Fantini, além de textos-bônus contribuídos por Fernando Naporano, Murilo Antunes, Benedito Bergamo e Flávio Venturini. A música mineira já me encantava quando fui morar em Belo Horizonte em janeiro de 1970 (lá se vão 54 anos), via Milton, e tudo que veio depois dele foi só deslumbramento e descoberta. 



Engenheiro Fantasma (2023), de Fabricio Corsaletti
Felizmente li este livro antes que ele ganhasse o Prêmio Jabuti duas vezes (Melhor Livro de Poesia, e Livro do Ano), porque ler um livro que traz faixa-de-prêmio ao peito é sempre um peso, um ruído na comunicação. Ficamos com os impulsos contraditórios de reverenciar e de ironizar, e a leitura propriamente dita vem contaminada de impurezas mentais. Este livro pode ser visto como uma obra de ficção em forma de sonetos. Alguém objetará que isto já foi feito, mais famosamente no Eugene Onegin (1833) de Alexander Pushkin, mas há uma diferença essencial: os sonetos de Pushkin contam a vida do personagem, e no livro de Corsaletti a moldura ficcional é dada pelo prefácio, em que ele diz ter sonhado com um livro de sonetos escritos por Bob Dylan, e resolveu escrevê-lo. 
Mais detalhes aqui:
https://mundofantasmo.blogspot.com/2022/04/4811-ficcao-poetica-942022.html


 
Dream Country (1991), de Neil Gaiman
A série de TV “Sandman” me conduziu sutilmente à missão auto-imposta de ler/reler os volumes da novela gráfica, cuja amplitude e variedade sempre admirei. Neste terceiro volume da obra, Gaiman está acompanhado por artistas como Kelley Jones, Malcolm Jones III, Colleen Doran e Charles Vess – sem esquecer Dave MacKean, um dos grandes capistas deste universo. Dream Country tem quatro histórias magníficas: “Calíope”, o conto brutal de um homem que sequestra uma musa para que não lhe falte inspiração; “A Dream of a Thousand Cats”, uma história onírica somente com gatos como personagens; “A Midsummer Night’s Dream”, onde Gaiman reconstitui Shakespeare e sua trupe ambulante encenado uma peça fantástica com a ajuda de seres fantásticos; e “Façade”, em que uma super-heroína monstruosa está cansada de usar máscaras para esconder sua feiura, e recebe uma ajuda inesperada da Morte. Gaiman é um dos meus autores fantásticos preferidos, e minha intenção é ler a série completa do “Sandman” nos próximos anos. Como dizia José Saramago: “Vida havendo, e saúde não faltando...” 
 
 
(continua no próximo dia 9)
 






quarta-feira, 3 de janeiro de 2024

5018) A Literatura de Stepford (3.1.2024)




O australiano Damien Broderick, crítico e escritor de ficção científica, usa às vezes o termo “Stepford Science Fiction” para se referir àqueles livros que fazem tudo direitinho, de acordo com o figurino, mas não têm alma.
 
O termo vem do romance de Ira Levin, The Stepford Wives (1972), muito apreciado por algumas feministas. Um casal jovem se muda para a cidadezinha de Stepford, e a mulher logo descobre que algumas de suas vizinhas vivem eternamente voltadas para cuidar da casa e do marido. Andam elegantíssimas, passam o dia inteiro maquiladas e bem vestidas; dedicam-se a manter a casa “um brinco”; acham o maridão a coisa mais maravilhosa do mundo, e só conversam besteira. Parecem robôs. Ela começa a investigar, e... 
 
O livro foi filmado duas vezes. A primeira versão (Bryan Forbes, 1975), é excelente; a segunda (Frank Oz, 2004) é muito fraca. 


( a versão de 1975)


A figura do robô ou do andróide (ou da “ginóide”, no caso de simulacros femininos) é um confortável clichê da FC, e nos últimos tempos tem cedido espaço à figura da Inteligência Artificial (I.A.), um ser sem corpo, meramente comunicacional, capaz de trocar idéias por escrito, e às vezes falando via sintetizadores. 
 
Esta I.A. tem sido convocada recentemente a produzir textos literários, escrita criativa. Isto está explodindo por todos os lados ao mesmo tempo, e não se passa um dia sem que meu X-Twitter anuncie um novo software capaz de “escrever histórias obedecendo a qualquer prompt fornecido pelo usuário”. (Não, não usei ainda, não vou transferir para um software o único prazer que me resta.) 
 
Tudo parece sugerir que muito em breve a produção de “Stepford Literature” (seja de FC ou de qualquer outro tipo) irá se multiplicar exponencialmente. É um defeito humaníssimo essa fascinação pelo Menor Esforço, pela Solução Instantânea, pelo Resultado Sem Trabalho, pelo pedido à orelha de uma lâmpada árabe, prontamente atendido por um gênio todo-poderoso e submisso. 
 
O que talvez falte a essa turma seja “alma”. Essa literatura artificial é uma espécie de Embutido Verbal, uma salsicha textual – amassada, prensada, temperada e composta pela decantação de bilhões de textos preexistentes, de acordo com as especificações do prompt. 
 
O que é alma? Segundo o poeta Mario Quintana, alma é aquela parte, dentro de nós, que pergunta se temos alma. 




A Literatura de Stepford não nasceu com a Inteligência Artificial. Existe há séculos, desde que começou a produção industrial de histórias impressas. Nesse universo totalmente humano existem as histórias escritas “com alma” (com pensamento próprio, com criatividade, com vivência, etc.) e existem as histórias produzidas em série, a toda velocidade, para suprir um mercado de leitores pouco preparados e pouco exigentes. 
 
A literatura de folhetim do século 19 produziu uma literatura com alma (Charles Dickens, na Inglaterra; Dostoiévski, na Rússia; Alexandre Dumas, na França; e assim por diante) e produziu uma imensa quantidade de autores que, em última análise, não criavam muita coisa, apenas repetiam, com variações mínimas, o material que leram: enredos, descrições, ambientação, caracterização de personagens, etc. 
 
Margaret Dalziel (em Popular Fiction 100 Years Ago, 1957) define literatura popular como “os livros e revistas que são lidos apenas por entretenimento, por pessoas para quem o entretenimento é incompatível com o dispêndio de esforço intelectual ou emocional.” 



São acima de tudo histórias previsíveis, “um pouco mais daquilo mesmo”, um tipo de narrativa e de universo que o leitor precisa de apenas uns poucos livros lidos para aprender a identificar e dominar. É uma literatura baseada no conceito de “zona de conforto”, um horizonte de expectativas onde as surpresas precisam existir, senão ninguém compraria novos títulos, mas precisam existir dentro de um quadro previsível. 
 
Mesmo o dispêndio de tensão emocional e psicológica (nos romances de terror e de suspense, por exemplo) se dá numa situação controlada pelo leitor. É uma repetição do que já deu certo. 
 
Escritores profissionais fazem isso há séculos, e o desenvolvimento das “inteligências artificiais” é apenas um passo adiante nesse processo. Os algoritmos são capazes de filtrar bilhões de bytes de narrativas e identificar os pontos estruturais, recombinando-os mais ou menos como o faria um escritor apressado para receber o pagamento e liquidar as dívidas do fim do mês. 
 
Desde o folhetim europeu do século 19 até as “dime novels” da virada do século, os pulp magazines onde floresceu a ficção científica e a literatura policial, os gibis em quadrinhos, os seriados de aventuras no cinema e depois na televisão... em todos estes ambientes a reciclagem de histórias já existentes é a regra, e o talento individual residia na capacidade de tecer variantes ou de mascarar os enredos já conhecidos projetando-os em contextos diferentes. 
 
O Conde de Monte Cristo no espaço sideral resulta em The Stars My Destination – que é um ótimo livro, não por causa de Alexandre Dumas, mas por causa do talento incansavelmente inventivo de Alfred Bester. 
 
Os Sete Samurais no faroeste resulta em Sete Homens e Um Destino, que pode não ser tão bom quanto o original, mas na mão de John Sturges resulta num western que se pode ver sem tédio. 
 
Romeu e Julieta transposto para o universo dos bicheiros cariocas virou a novela Bandeira 2 de Dias Gomes, e se a novela era boa não era por se inspirar em Shakespeare, e sim por ser escrita por quem sabia escrever. 
 
Dr. Jekyll and Mr. Hyde de R. L. Stevenson virou O Professor Aloprado, e Jerry Lewis, ao invés de imitar o original, soube entender que o gancho principal da história não era uma oposição rotineira entre o Bem e o Mal, e sim a capacidade de produzir em si mesmo uma personalidade nova através do uso de drogas. 
 
The Truman Show de Peter Weir não é uma adaptação de Time Out Of Joint de Philip K. Dick, mas a idéia central é tão próxima (um mundo artificial construído só para manter a ilusão de um único personagem) que não custava nada eles terem adquirido os direitos do livro. (Acabaram fazendo um acordo depois, no tribunal.) 
 
Um dos divertimentos de quem trabalha com indústria cultural, cultura de massas, ou outro nome equivalente, reside justamente em pegar uma idéia já existente e virá-la pelo avesso, inverter sua trajetória, mudar seu contexto, mudar seu começo, mudar seu fim... e transformá-la em algo muito diferente. Isto também é criatividade. 
 
A Inteligência Artificial pode fazer isto? Talvez. Idealmente, ela deveria servir para “encurtar caminhos” a um autor de verdade. Sugerir variações, propor transformações num enredo, trazer material novo para compor personagens, etc.  De onde vem isso? Ora, vem (como sempre veio) do gigantesco banco-de-dados da Histórias Já Escritas. Tudo vem dali. 
 
A desigualdade de forças reside na enorme rapidez de processamento das I.As., seu acesso instantâneo a bilhões de informações, sua capacidade de usar um texto (meu, inclusive) sem que o autor fique sabendo e sem ter como cobrar por isso. Concorrência desleal entre a Força Bruta movida a bilhões de dólares e nossas cabecinhas minúsculas, movidas a boletos-a-pagar. 
 
É a super-mecanização do processo que nos assusta, não o processo em sim, porque é com ele que a indústria cultural vem trabalhando há séculos. 
 




sábado, 30 de dezembro de 2023

5017) Resoluções para 2024 (30.12.2023)



(Saul Steinberg, 1949)


Tirar a poeira que provavelmente se acumulou por trás dos livros nas prateleiras da estante. (Ou pagar alguém para fazê-lo, o que está mais próximo ao reino das possibilidades.) 
 
Fazer uma consulta no oculista; trocar as lentes dos meus óculos, mais arranhadas do que o escudo de Sir Lancelote; e, talvez, parar de ler os livros como se lesse em Braille com a ponta do nariz. (Bem, devo estar exagerando, mas a miopia está tão avançada que a olho nu não distingo entre enxergar e exagerar.) 
 
Entregar aquele texto atrasado, mas não esquecido. (Desculpa aí, amigos, mas o que nasce de parto natural tem seu ritmo próprio, e ainda não se inventou a cesariana literária.) 
 
Dar uma nova chance a pelo menos um terço dos livros que no ano passado não passaram no Teste do Primeiro Capítulo. (Sim, sei que o critério é brutal, mas trata-se de uma pilha com cerca de quarenta ou cinquenta obras, e nestas horas não sou mais o intelectual diletante e complacente, sou segurança-de-boate com dentes de titânio e tatuagem de Chuck Norris no bíceps, e só tem acesso quem fizer por onde.) 
 
Responder todas as mensagens ainda não respondidas, assim que for capaz de decidir se devo fazê-lo por ordem cronológica, por ordem alfabética, ou por ordem de importância. (E, neste último caso, retomar os originais dos meus Prolegômenos a uma Taxonomia Hierárquica das Motivações Subjetivas dos Meus Assim-Ditos Semelhantes, interrompida na página 638 no início da pandemia.) 
 
Investigar mais a fundo o dúbio acidente de automóvel que vitimou o escritor Albert Camus, nos primeiros dias de janeiro de 1960, e que muitos dizem ter sido um crime premeditado. (Paul Auster é um dos que defendem essa tese polêmica.) 
 
Pesquisar com detalhes o meu projeto antigo de criar na Paraíba uma reprodução do “Caminho de São Tiago de Compostela”, começando em João Pessoa (Ponta do Seixas) e indo até Cajazeiras, a última grande cidade paraibana, num trajeto feito a pé. (Calcular número de quilômetros por dia, possíveis paradas, albergues, etc.) 
 
Escrever um livro de contos intitulado “Praça de Alimentação”, com pequenas cenas, diálogos, etc., ambientados nas respectivas praças de alimentação de dez shoppings de cidades brasileiras, com detalhamento de descrição suficiente para serem identificados, mas sem dizer quem é quem. (O livro será um best-seller absoluto, porque irá impactar lucrativamente na frequência a esses recintos, e receberá um impulso comercial extra sempre que uma das praças for identificada sem sombra de dúvida.) 
 
Escrever uma biografia de B. Traven. (Já que ninguém sabe quem foi ele ao certo, embora sua obra literária seja famosa, qualquer biografia tá valendo.) 
 
Desencaixotar aquela parte da mudança de 2019 na qual ainda não tive ânimo para mexer. (Principalmente porque muitos livros sumiram na mudança, quem me garante que não estarão ali? Questão de lógica elementar!...) 
 
Redigir o piloto daquela série de TV que será um grande sucesso, “Dennis vs. Sheldon”, em que o Pimentinha dos gibis encontra o Young Sheldon, o futuro protagonista da série The Big Bang Theory. (Verossimilhança cronológica à parte, claro, porque esse detalhamento diegético fica para esse pessoal pentelhante e catador-de-lêndeas, os sheldonianos da vida real.) 
 
Separar as camisas em que é preciso pregar botão. (E mais uma vez me verei diante do dilema: aprender a costurar aquela cruzinha que sustenta o botão, ou continuar terceirizando? Fortes emoções nos próximos capítulos.) 
 
Aprender a fazer mágicas. (Sim, muitas pessoas transbordantes de solidariedade dirão que eu “já faço mágica com as palavras, etc etc...”, mas meu sonho é fazer mágica com baralho, lenço, pombo, jarro dágua, etc.) 
 
Passear nas três linhas do VLT do Rio, que praticamente não conheço ainda. (Eu não moro no Rio de Janeiro, moro no meu apartamento.) 
 
Baixar aquele software que atribui uma nota musical a cada tecla deste meu teclado de escrita, e registrar a melodia-aleatória correspondente a meus poemas mais conhecidos. (Ainda estou em dúvida se solto as melodias no YouTube e ofereço um prêmio a quem descobrir, mas isso vai bagunçar minha rotina, melhor não.) 
 
Traduzir o Eugene Onegin de Pushkin sob o título de Eugene, Oregon, mantendo o formato de “soneto pushkiniano”, e ambientar a história no noroeste dos EUA, uma história tipo aquele Paterson de Jim Jarmusch. (Pode parecer uma violentação à arte do poeta russo, mas muito pior do que isto foi o que fez Vladimir Nabokov!) 
 
Todos os dias trancar a porta do escritório, pegar o violão, e improvisar sextilhas sobre temas aleatórios durante 30 minutos. (Só começar a gravar a partir do quinto mês.) 
 
Ganhar bem muito dinheiro, comprar as casas onde já morei em Campina Grande, e cedê-las às autoridades para que sejam transformadas em bibliotecas públicas. (Para ser totalmente realista, a parte mais provável desta proposição é o seu trecho inicial.) 
 
 
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 








quarta-feira, 27 de dezembro de 2023

5016) Drummond: "Romaria" (27.12.2023)




("Deus e o Diabo na Terra do Sol") 
 

As romarias ou peregrinações são eventos curiosos, onde há de tudo – mortificação do corpo, diversão, penitência, passeio, busca da transcendência, busca do gregarismo, jornadas espirituais íntimas, afirmações coletivas de união em torno de uma fé. 
 
Penso nisto quando avalio toda a variedade de peregrinações, inclusive os caminhantes de Santiago de Compostela e os romeiros dos Contos de Canterbury de Chaucer.
 
Histórias de peregrinações são sempre “road movies”, filmes (ou romances) de estrada, de tudo que acontece aos peregrinos durante um trajeto fixo, mítico, carregado de significação em cada pedra, em cada árvore.
 
A romaria é uma forma reduzida de peregrinação – muitas vezes se dá no interior de uma mesma cidade, ou na direção de uma cidade vizinha; mas o espírito é quase o mesmo. 


 (J
uazeiro)  
 

As romarias cristãs dos brasileiros têm um pouco desses formatos tradicionais, como têm um pouco de tudo. 
 
Minha mãe fazia romaria todos os anos para o Juazeiro do Padre Cícero, geralmente na época do Dia dos Finados. Era um grupo de gente idosa e super animada; anualmente faziam uma vaquinha e alugavam um ônibus com motorista para levá-los ao Horto do Padrinho. Iam cantando de Campina Grande até o Cariri cearense. Levavam lanche, marmita, farofa. Chegando lá, rezavam, tiravam fotos, reencontravam amigos distantes, pagavam promessas antigas, faziam promessas novas, e voltavam felizes da vida. 
 
Eu já tinha minhas fumaças agnósticas, mas adotava uma postura filosófica e dizia: “Deixa, é o Woodstock deles.”
 
Pensamos na romaria como uma caminhada só de sofrimentos, talvez porque nos venha a imagem dos peregrinos auto-flagelantes, que caminham chicoteando as próprias costas e deixando um rastro de sangue. Mas toda romaria é heterogênea. Há os masoquistas, os comerciantes (romaria é como carnaval de rua, está cheia de gente com isopor vendendo alguma coisa), os festeiros, os compungidos e circunspectos, os que estão aproveitando aquela chance de sair do confinamento doméstico... 



("Deus e o Diabo na Terra do Sol") 

 
Gilberto Gil fez um dos melhores retratos na clássica “Procissão” (1967):
 
Olha, lá vai passando a procissão
se arrastando que nem cobra pelo chão...
As pessoas que nela vão passando
acreditam nas coisas lá do céu...
As mulheres cantando tiram verso,
os homens escutando tiram o chapéu,
eles vivem penando aqui na Terra
esperando o que Jesus prometeu. 
 
A procissão de Gil sempre me evocou visualmente, por motivos óbvios, aquela multidão de pedintes andrajosos que em Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964, Glauber Rocha) avança ao longo daquele buñuelesca escadaria do Monte Santo, seguindo o profeta Sebastião com seu burel esfarrapado e sua cruz que não passa de dois galhos esquálidos atados com cordas.


 
("Deus e o Diabo na Terra do Sol") 

 
Diferente é a “Romaria” que Carlos Drummond de Andrade incluiu em seu livro de estréia (Alguma Poesia, 1930). O retrato feito por Drummond é mais rico, mais variado, tem algo das procissões auto-punitivas, tem algo das procissões festivas, chega a parecer uma festa-de-largo ambulante, mas não deixa de exibir seu elenco de devotos maltrapílhos que lembram os mendigos de Viridiana ou de Los Olvidados.
 
Existe mortificação física (espinhos, pedras) mas em compensação as romeiras têm coxas, os homens cantam sem parar, joga-se baralho, fumam-se cigarros, é dia de festa. 
 
É curioso que um poema assim talvez fosse a oportunidade para um poeta cético e modernista dirigir alguma crítica ao excesso de fanatismo. O poema de Drummond parece criticar o excesso de festa, é como se dissesse: “Pessoal, vamos devagar, isto aqui não é quermesse!”. Mas... no Brasil tudo que tem multidão vira quermesse. 



("Deus e o Diabo na Terra do Sol") 

 
E os inesgotáveis pedidos! Pedem a Deus tudo quanto não têm, e não é pouco. Talvez o pedido mais patético e sutil seja o desse leproso (outro personagem buñuelesco), que traja uma opa (casacão comprido), agita um estandarte, e pede a Deus para ser curado – mas não da doença, e sim do amor que sente e ninguém retribui. 
 
   
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Romaria
              A Milton Campos

Os romeiros sobem a ladeira
cheia de espinhos, cheia de pedras,
sobem a ladeira que leva a Deus
e vão deixando culpas no caminho.
 
Os sinos tocam, chamam os romeiros:
Vinde lavar os vossos pecados.
Já estamos puros, sino, obrigados,
mas trazemos flores, prendas e rezas.
 
No alto do morro chega a procissão.
Um leproso de opa empunha um estandarte.
As coxas das romeiras brincam no vento.
Os homens cantam, cantam sem parar.
 
Jesus no lenho expira magoado.
Faz tanto calor, há tanta algazarra.
Nos olhos do santo há sangue que escorre.
Ninguém não percebe, o dia é de festa.
 
No adro da igreja há pinga, café,
imagens, fenômenos, baralhos, cigarros
e um sol imenso que lambuza de ouro
o pó das feridas e o pó das muletas.
 
Meu Bom Jesus que tudo podeis,
humildemente te peço uma graça.
Sarai-me, Senhor, e não desta lepra,
do amor que eu tenho e que ninguém me tem.
 
Senhor, meu amo, dai-me dinheiros,
muito dinheiro para eu comprar
aquilo que é caro mas é gostoso
e na minha terra ninguém não pissui.
 
Jesus me Deus pregado na cruz,
me dá coragem pra eu matar
um que me amola de dia e de noite
e diz gracinhas a minha mulher.
 
Jesus Jesus piedade de mim.
Ladrão eu sou mas não sou ruim não.
Por que me perseguem não posso dizer.
Não quero ser preso, Jesus ó meu santo.
 
Os romeiros pedem com olhos,
pedem com a boca, pedem com as mãos.
Jesus já cansado de tanto pedido
dorme sonhando com outra humanidade.
 
 
 
 
 




domingo, 24 de dezembro de 2023

5015) Natal 2023 (24.12.2023)



("A Arena", 1950, Maria Helena Vieira da Silva)


1
... e torno ao labirinto de onde escapo
sabendo que não há lado de fora:
labirinto do Hoje, o Aqui, o Agora... 
Du bist so schön, ó glorioso instante!
Meu desejo é que o tempo desencante
a si mesmo, e distenda seu elástico
transformando um só dia num fantástico
sempre-agora – incessante, inacabável...
É pecado sonhar? É condenável
brincar de crer no que não pode ser? 
 
2
Falar do Tempo é luta e é prazer,
bastidores e palco, treino e jogo.
Alguns dizem que o Tempo é como o fogo;
tanto destrói quanto ilumina e aquece. 
Outros dizem que o Tempo se parece
a um Olho que rói tudo que observa:
a carne, o chão, a água, o bicho, a erva,
a beleza, a verdade e a memória...
Corrosiva visão que cria a História:
soma do que esquecemos e lembramos. 
 
3
Por piores Natais nós já passamos!
Vamos então sorrir no que há sorrisos,
fantasiar trenós, renas e guizos
como fantasiamos hobbits e ETs...
Nada melhor do que “Era uma vez...”
pra reduzir o peso do real.
O peso do existir, ser material,
ter doenças, incômodos e achaques,
ficar sujeito à dor, aos piripaques,
às síndromes de nomes estrangeiros... 
 
4
São duzentos milhões de brasileiros
cada qual com seus corpos e seus traumas,
todos sonhando que possuem almas
e que todas vão ter segundas-chances...
Pobre de mim, que li tantos romances
e aprendi a descrer da crença alheia...
O mundo é sem Aranhas. É só Teia,
mero desenho e possibilidade;
não existe arquiteto ou divindade,
existe o espaçotempo – e a matéria. 
 
5
Sendo assim, o Natal é coisa séria;
futebol, carnaval, apendicite,
Grammy e Oscar, Nobel e dinamite,
todas as ilusões desta existência!
Tudo é sério: o humor e a ciência,
o ser e o nada, o cu e a cueca,
o deus de Roma e o alá de Meca,
a reza, a rosa, a prosa e a poesia,
a honestidade e a patifaria,
o fato, o fóton, a foto, o selfie, o fake... 
 
6
Todo palácio vale um milk-shake!
Um mendigo equivale a um senador!
Um vampiro de filme de terror
não é menos real que o cineasta.
O Real é tufão que tudo arrasta,
ventania que varre o mapa-múndi,
poeira que nos cega e nos confunde,
o tempo, o vento que nada perdoa...
Tudo é real onde existir pessoa,
esse espelho-do-ser chamado gente. 
 
7
E o Natal acontece novamente!
E Boas Festas a quem merecê-las.
“Alforje ao ombro, recolhendo estrelas”,
eu retorno, à maneira de Seu Nilo,
e de astro em astro vou enchendo um silo,
e com esperança aguardo o ano seguinte,
e brindo com meu vinho sub-20
à saúde de todos, todas, “todes”...
Irão me achar no camarim dos “roadies”
onde a conversa é mais interessante. 
 
8
Errar é humano? Eu sou judeu errante,
andarilho da idéia. I am the walrus.
Minha estrada é moebius-ouroboros,
o meu chão é de vácuo e é de vento,
um mar de mármores em movimento,
vagalhão congelado que goteja...
Pois venha o tempo, e o que vier, que seja!
Isto aqui não é sangue, é vinho tinto.
Chego à saída deste labirinto,
empurro a porta onde se lê: da capo...