Não
existe gênero literário mais chato do que a Utopia. (Existem, sim, e são muitos
– mas qualquer indivíduo que já tenha lido meia dúzia de romances utópicos
sente um impulso instintivo em concordar com isto.)
Um
romance utópico narra basicamente a chegada imprevista de um visitante a uma
cidade (reino, país) de cuja existência ele não suspeitava, sua recepção por
algum tipo de cicerone local, e um passeio pelo locus utópico, acompanhado de longuíssimas explicações sobre as
vantagens do sistema local.
É
típico do romance utópico que o visitante seja um mero receptáculo das
informações fornecidas pela população local, via cicerone. De vez em quando
acontece que ele se meta numa aventura passageira ou num leve mal-entendido,
cujo efeito narrativo é mínimo, serve apenas para que novas coisas lhe sejam
explicadas.
Um
esforço notável, embora não totalmente bem sucedido, para escapar dessa
camisa-de-força demonstrativa, é o romance Viagem
(São Paulo: Martins, 1955) de Guilherme Figueiredo, republicado, com
modificações, como Viagem a Altemburgo
(Rio de Janeiro: Atheneu-Cultura, 1990).
O
crítico Wilson Martins, cujas avaliações tenho sempre em alta conta, diz a
respeito da obra:
Todo o atrativo
do romance utópico reside, compensando a sua carência de humanidade, na
inteligência de sua crítica, na finura da sua ironia. Nesse particular, coloco Viagem,
sem hesitação, entre os mais perfeitos da espécie. (...) [E]scrito em inglês, o
livro de Guilherme Figueiredo já lhe teria trazido celebridade internacional e
o aplauso de, pelo menos, todos os admiradores de Swift, de Huxley, de Orwell.
(“História
da Inteligência Brasileira”, vol. VII, págs. 362 e seguintes)
Para
vocês verem que até um crítico respeitável escorrega nesse clichê bobão do “se
fosse escrito em inglês”.
Viagem a Altemburgo conta a história de um
paraquedista brasileiro cujo avião cai num ponto indefinido da Antártida. Ele é
salvo pelos habitantes de Altemburgo, uma cidade-estado fundada séculos atrás
por pessoas insatisfeitas com a civilização ocidental, e que existe às ocultas.
O
visitante recebe o nome local de “Amicus” (muitos nomes próprios em Altemburgo
têm forma latinizada) e fica hospedado na casa do prefeito, Evandrus, que tem
uma filha lindíssima, Luscínia, e uma espécie de assistente-discípulo, Leo. Esses
três, principalmente, irão ciceronear Amicus em suas andanças.
Uma
das primeiras coisas que ele percebe é que as pessoas em Altemburgo se vestem
de maneira totalmente extravagante e pessoal; cada um traja o que lhe der na
telha, e o paraquedista, logo nos primeiros capítulos, conta:
Ganhei uma túnica
de linho, sandálias com fitas de trançar nos tornozelos, e recusei um diadema
de miosótis que a banhista-chefe me ofereceu. (p. 15)
E
depois:
Alguém suspendeu
a cortina lateral da sala e entrou. Era um jovem de seus trinta anos, de quase
dois metros de altura, com grossos bíceps à mostra, tostados de sol e ornados
de argolas de metal. Vestia um saiote vermelho e branco, caído até as coxas, e
atado à cintura por um cordão também vermelho e branco, de onde pendia uma
sacola. Seus cabelos, arrumados em cachos, desciam encaracolados até a nuca.
Uma fita cingia-lhe a fronte; trazia coturnos de corda e um bastão longo e
nodoso. Era um tipo extraordinariamente belo, de duros olhos azuis dardejantes
e forte maxilar cerrado.
(p. 25)
A
variedade de trajes é grande, mas na maioria são variações de trajes
greco-romanos. É outro lugar comum na ficção científica, inclusive em inglês: a
tentativa, raramente bem sucedida, de visualizar roupas plausíveis para pessoas
do futuro, ou de civilizações imaginárias. (Valeria a pena pegar dois clássicos
da FC norte-americana, Ubik de Philip
K. Dick, e Triton de Samuel R.
Delany, e fazer uma análise comparativa dos figurinos que eles sugerem.)
As
pessoas levam Amicus para toda parte, explicam-lhe a origem histórica de
Altemburgo, fazem-no participar de cerimônias públicas, dão-lhe acesso a
documentos... e assim vai sendo cumprido o estatuto narrativo do romance
utópico. Ou talvez fosse melhor dizer “estatuto descritivo”, porque não
acontece muita coisa, a rigor, a não ser a ida de Amicus de ambiente em
ambiente, de conversa em conversa.
(Guilherme Figueiredo, 1915-1997)
Guilherme
Figueiredo cita nominalmente, e demonstra conhecer bem, a literatura utópica
que o precedeu: H. G. Wells, Edward Bellamy, Thomas Morus, Aldous Huxley, Samuel
Butler... O narrador demonstra uma certa consciência da natureza do gênero
literário onde caiu de paraquedas:
O velho falava
na certeza do meu interesse, convicto de que me prestava informações da maior
utilidade. Mas enquanto isto, eu refletia sobre a espécie de mania pedagógica
que atacava todos os altemburgueses e os conduzia sempre a um permanente desejo
de expor, contar e exibir. (p.
159)
É
a prosa vigorosa de Figueiredo que diferencia seu livro, positivamente, na
comparação com outros clássicos do utopianismo brasileiro: São Paulo no Ano 2000 (1909) de Godofredo Barnsley, O Reino de Kiato (1922) de Rodolfo
Teófilo ou A Liga dos Planetas (1923)
de Albino Coutinho.
O
livro é bem superior a todos estes, em termos de empuxo narrativo, de riqueza
na observação de detalhes, de verossimilhança humana na narração de pequenas
cenas, e principalmente nas páginas e mais páginas de críticas à sociedade
brasileira da época do autor, críticas acaloradas, irônicas, sarcásticas,
emotivas, sensatas ou não, arrazoadas ou não, mas demonstrando uma energia
literária ausente nos exemplos acima.
Wilson
Martins se refere com entusiasmo ao Capítulo X do livro, onde Amicus produz uma
violenta catilinária contra “a Civilização da Lata”, que é a civilização
moderna. Diz o crítico, após citar parágrafos de Figueiredo:
A esse mundo que
já existe, e no qual vivemos uma civilização de lata, não é difícil prever um
porvir ainda mais enlatado: futuramente, até os banhos de sol e de mar virão
enlatados, servidos a domicílio, em latas de quilo e de meio quilo... Faremos,
igualmente, estações de água em lata, sem sair do apartamento, e, como a
literatura já começa a ser gravada (o que Evandrus ainda não sabia), teremos,
dentro em pouco, o livro enlatado: as livrarias serão substituídas por casas de
discos, transformando-se em livrarias enlatadas...
(“História
da Inteligência Brasileira”, vol. VII, pág. 364)
Figueiredo
escrevia em 1955, Martins comentava em 1979: a lata de conservas lhes servia
como símbolo de um futuro estandardizado, massificado, artificial.
(Uma estação de águas, em Oito e Meio de Fellini)
Curiosamente,
um dos exemplos de experiências humanas a serem artificializadas, segundo
Martins, são as “estações de águas”, que imagino serem aqueles períodos que as
pessoas passam hospedadas em hotéis de cidades onde há fontes de água minerais
com propriedades balsâmicas ou terapêuticas. Coisa mais século-19 eu não consigo
imaginar.
A angústia de Wilson Martins é a angústia de um personagem de Thomas
Mann ou Henry James diante da invasão de massificações brutais como os desenhos
de Walt Disney, o supermercado e a comida em conserva. No fundo, é a peleja do
século 19 contra a década de 1950.
É
o mesmo receio da novidade que vemos hoje com relação a tudo que é digital,
virtual, online, photoshopado. É o receio de quem está se vendo obrigado a sair
da “zona de conforto” (uma das expressões definidoras de nossa época) para a terra
de ninguém, para um planeta onde o real e o fake são indistinguíveis, onde a
bússola pode apontar em qualquer direção, um mundo conflagrado “where black is
the color, where none is the number”, no dizer de Bob Dylan.
Viagem a Altemburgo é um livro com as limitações
de sua época e de seu autor (se me perdoam esse truísmo). Seu defeito mais
evidente é o fato de que Guilherme Figueiredo, quando resolve deixar de lado o
turismo sociológico, embarca numa love
story centrada no mais previsível dos enredos. Amicus, bem brasileiramente,
se apaixona para bela Luscínia, a filha do seu anfitrião, consegue levá-la para
a cama (por entre véus de elipses), e depois exige que ela pertença a ele, só a
ele, pelo simples motivo de que ele a ama.
Luscínia
tenta explicar-lhe, com riqueza de arrodeios, que lá em Altemburgo as pessoas
vão para a cama com diferentes parceiros, sem pertencer a nenhum deles. Apesar de gostar muito de Amicus, ela acha
que se se prender monogamicamente a ele vai causar uma conflagração social em
Altemburgo, devido ao tamanho da ofensa. Além do mais, o pobre Amicus tem como
primeiro rival possível o jovem Leo, descrito mais acima, o “tipo extraordinariamente belo, de duros
olhos azuis dardejantes e forte maxilar cerrado”.
Essa
situação igualmente século 19 desencadeia, nos capítulos finais, um desfecho
aventuroso, cheio de peripécias, fugas, perseguições, tiroteios, mortes.
Guilherme
Figueiredo é um narrador vigoroso, como já falei, e mesmo sendo ainda
engravatado demais para competir com os melhores nessa área, está anos-luz à
frente dos nossos utópicos tupiniquins. Seu livro torna-se chato quando ele (ao
que me parece) começa a enxertar textos que tinha na gaveta, dando-os como
exemplos da literatura de Altemburgo. Aliás, esse defeito era muito mais
visível na edição de 1955, como ele próprio reconhece no prefácio que antecede
a edição de 1990:
O crítico Wilson
Martins (...) aconselhou o autor a, em futura edição do livro, suprimir todo um
capítulo. A professora Laura de Paula, como leitora de Editora Atheneu-Cultura,
sugeriu ao autor a eliminação de trechos e digressões inúteis.
Tenho
ambas as edições; tendo lido a mais recente, bastaram alguns minutos de
comparação para ver que de fato os cortes foram feitos, e em grande benefício
do livro.
Figueiredo
foi autor teatral de sucesso, é um prosador de talento, e devo a ele um dos
livros mais divertidos da minha juventude, o Tratado Geral dos Chatos (Rio: Civilização Brasileira, 1962), um
volume fininho que passou anos na minha cabeceira, cheio de virtuosismo
estilístico e de fina observação dos defeitos humanos.
Ele
é também, aliás, um dos autores da famosa toada (e “politicamente incorreta”)
“Maria Chiquinha” (“Que é que ocê foi fazer no mato, Maria Chiquinha? Eu
precisava de cortar lenha, Genaro meu bem...”).
Como
escritor, demonstra muito mais recursos do que os utopistas brasileiros citados
acima. Nem mesmo Rodolfo Teófilo, romancista de sucesso, o supera em sua abordagem
do gênero. O humor (sarcástico, ácido) é um dos elementos que o distinguem dos
demais utopistas, que tendem a assumir atitudes professorais e moralizantes.
“Homem
do seu tempo”, Guilherme Figueiredo deixa bem claro o quanto o seu narrador,
Amicus, encarna os seus próprios rompantes de perplexidade masculina diante de
uma sociedade teoricamente liberal nos costumes.
Amicus é uma espécie de Nelson
Rodrigues ou Adelino Moreira perdido no festival de Woodstock ou na Amorquia (1991) de André Carneiro,
escandalizado diante daquele agarra-agarra e perguntando se aquelas pessoas
conhecem O Verdadeiro Amor. E Luscínia, a beldade ambicionada, acaba tendo
explosões deste tipo:
-- Meu pai,
perdoa-me, perdoa-me! Só eu sou culpada, só eu... Como poderia prever que este
homem, vindo de outra terra, teria por mim estranhos sentimentos? E como
imaginar que eu os aprenderia, e o amaria egoisticamente, a ponto de repelir os
meus amigos, a ponto de angustiar a todos que me amam? (p.
198)
Toda
utopia para nós é uma distopia para o nosso vizinho do lado, e mais: toda Utopia
Social reflete apenas os avanços e os recuos mentais do indivíduo que a
concebe.