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segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

4537) Leituras 2019 - 3 (30.12.2019)




Encerrando as minhas anotações dos livros que li este ano, tenho aqui alguns títulos de obras que li ou reli depois de muito tempo. Este é um detalhe interessante, porque a gente lê um livro aos 25 anos e passa o resto da vida achando que já leu e que pode passar adiante. Nem sempre. Ninguém ouve um álbum de música (um disco realmente bom) uma vez somente. Um bom disco nos leva a revisitá-lo com alguma freqüência. Tudo bem que um disco dura uma hora, se tanto, e a leitura de um livro pode demorar muito mais. Mas a nossa lembrança do livro também precisa ser oxigenada de vez em quando.

Vão aqui, portanto, alguns títulos do Fantástico, ou do Insólito, ou da Ficção Científica, que não me incomodarei de reler daqui a mais alguns anos.



Tales of Neveryon (1978), de Samuel R. Delany.
O livro é de “Espada e Feitiçaria”, quando seria melhor descrevê-lo como “Espada e Economia Política”. Os contos interligados deste volume mostram uma sociedade escravocrata, no começo da sua história escrita, e mostra a enorme complexidade social, psicológica e política desses mundos pré-alfabeto. Sua abordagem dessas questões é comparável à da “Trilogia da Fundação” de Isaac Asimov, e mostra que um livro não precisa “pertencer” à ficção científica para descrever e interpretar cientificamente um mundo imaginário.



Les Fleurs Bleues (1965) de Raymond Queneau.
Este livro deveria ser incluído em toda lista de fantasias clássicas sobre o tempo.  Talvez não o seja porque não corresponde à estrutura clássica de uma aventura onde um personagem  se envolve num conflito que precisa de uma resolução. Um roteirista de Hollywood talvez se perdesse nesta narrativa onde dois indivíduos, separados por séculos, sonham que são o outro, e toda vez que o sonho de um se interrompe o do outro começa. Cidrolin, na Paris do século 20, e o Duque de Auge, na Idade Média, são duplos ou reflexos um do outro, e suas pequenas aventuras, que na têm nada de heróico, correm em paralelo – sendo que a história do Duque, a cada reiteração, está algumas décadas mais à frente, pulando de século em século, até no trecho final do romance ele aparece em Paris, com sua armadura, seu francês arcaico, seus escudeiros e seu cavalo falante. Os livros de Queneau são gostosos de ler mas devem ser difíceis de traduzir, pela exuberância de trocadilhos, arcaísmos, jogos de palavras, alusões históricas e outras referências obscuras, que mesmo assim não atravancam  a narrativa.



The Stepford Wives (1972), de Ira Levin.
Este romance curto e preciso me surpreendeu por sua economia narrativa, e me agradou pela semelhança estrutural com outro livro famoso do autor, O Bebê de Rosemary. Num subúrbio norte-americano, um casal jovem tenta se integrar à vizinhança de empresários bem sucedidos e suas esposas bem maquiladas, até que a mulher (uma feminista em botão) descobre a conspiração masculina que pretende transformar todas elas em robôs obedientes. É uma ficção científica narrativa com a estrutura revelatória de um conto de horror, onde uma personagem fica o tempo inteiro dizendo a si mesma que só pode estar ficando louca, que pessoas normais jamais seriam capazes de conceber e executar um plano tão diabólico... e a certa altura ela percebe que a “boa notícia” seria que de fato estava louca -- porque a conspiração é real.



Aura (1962), de Carlos Fuentes.
Um aspecto que muitas vezes fica em segundo plano na literatura fantástica latino-americana é que ela tem de um lado um Realismo Mágico fundamentado na mentalidade mágica, mítica, mitológica dos povos pré-colombianos, e pelo outro lado existe um Fantástico que busca inspiração nas práticas mágicas européias como o ocultismo, a alquimia, as artes divinatórias como o Tarô, a magia ritual, etc.  O choque entre Europa e América no século 16 não foi apenas do racionalismo europeu contra a mentalidade mágica indígena: foi também a pororoca entre os canais de contato com o sobrenatural que os invasores e colonizadores trouxeram consigo. Aura é também uma história de duplos e de reflexos – no caso, de uma mulher muito idosa que consegue projetar uma imagem física e palpável de si mesma, para seduzir um rapaz de quem ela precisa para cumprir uma tarefa. Aura traz também uma “aura” junguiana com sua narrativa de uma mulher que seria a encarnação de uma anima, um espírito vital feminino a cujo fascínio um homem não consegue resistir; e sua ambientação é quase expressionista, explorando uma mansão decadente, sombria, onde a iluminação é escassa e tudo se revela através de gritos, de sussurros, de ruídos, de passos, de perfumes, do toque de mãos no meio das trevas.



Del Amor y Otros Demonios (1994), de Gabriel Garcia Márquez.
Em relação ao livro de Fuentes é (como dizia o matuto) “uma coisa muito parecida, mas completamente diferente”. É a história do endemoninhamento de uma infanta, filha de um nobre decadente, que se suspeita ser vítima da hidrofobia e do vudu dos escravos negros. Seus acessos aterrorizantes de autoviolência física e de blasfêmia verbal levam a Igreja local a ordenar um exorcismo, e o padre exorcista, coitado, acaba se apaixonando (muito compreensivelmente, aliás) pela pré-adolescente que não era mais do que uma menina indomável que o desprezo dos pais levou a ser praticamente criada pelos negros da senzala. Um dos aspectos interessantes da narrativa é o prólogo em que Garcia Márquez explica que o enredo lhe surgiu a partir de um fato real que cobriu para um jornal em seu tempo de repórter – e o “fato real” que ele descreve é mais fantástico do que o livro inteiro. Que, inclusive por este detalhe, é um primor.




334 (1972), de Thomas M. Disch
Pertence ao subgênero da FC que pode ser descrito como “pesadelos das megalópoles num futuro próximo”, cultivado brilhantemente por J. G. Ballard, John Brunner, e outros. Disch descreve a vida cotidiana em torno de um enorme edifício residencial nas primeiras décadas do século 21, ou seja, hoje – num romance escrito nos anos 1970. “Romance” é um modo de dizer, porque Disch conta várias histórias paralelas, de famílias cujas vidas se entrelaçam. Ele examina essa Nova York do futuro não sob a ótica das inovações tecnológicas (que são poucas e discretas), mas das mudanças sociais provocadas por políticas de seguros, de emprego, de habitação, de estudo. Um romance mainstream ambientado no futuro, por assim dizer. Um bloco narrativo curioso envolve uma espécie de videogame ou RPG ambientado na Roma Antiga, que a personagem acessa através de drogas, e a respeito do qual ela se informa com um profissional que é meio psicólogo, meio consultor especializado. Outro bloco descreve as artimanhas de funcionários de um grande hospital para a venda clandestina de cadáveres recentes a pervertidos.




The Cosmicomics (1965), de Italo Calvino
Italo Calvino é talvez o autor mais bem informado cientificamente entre os muitos europeus recentes que cultivam um certo fantástico fabulatório, o que inclui algumas obras de Umberto Eco, Raymond Queneau, Salman Rushdie, José Saramago, Kazuo Ishiguro, Michel Houellebecq, e certamente inúmeros outros. Digo “bem informado cientificamente” do ponto de vista do leitor padrão de ficção científica: em suas Cosmicômicas, Calvino descreve a criação do Universo do ponto de vista de alguns seres primordiais que estão vagando pelo espaço desde as primeiras fusões de elementos pesados que dão origem às estrelas, seres que se comportam exatamente como italianos médios vivendo suas vidas cotidianas, suas brigas de vizinhos, seus problemas conjugais, suas disputas profissionais. Esta série de doze contos curtos (há uma sequência, T Zero, que ainda não li) é uma fusão incrivelmente bem sucedida entre a espantosa escala galáctica e supra-galáctica de (por exemplo) Olaf Stapledon e qualquer relato bem humorado da vida urbana da Itália moderna. É como se o Universo, em sua escala macro, fosse habitado por personagens de Federico Fellini.










domingo, 17 de março de 2019

4447) "As esposas de Stepford" (17.3.2019)





Este livro de Ira Levin (The Stepford Wives, 1972) é um dos pesadelos mais curiosos da literatura fantástica dos anos 1970. Teve uma boa adaptação cinematográfica dirigida por Bryan Forbes em 1975, com Katherine Ross e Paula Prentiss.  E outra, em tom de comédia, que achei bastante fraca, dirigida por Frank Oz em 2004, com Nicole Kidman e Matthew Broderick.

Mas é do livro que quero falar, e acho que o tema já é tão conhecido que não vou dar nenhum spoiler muito grave. O título, aliás, já se incorporou à linguagem corrente, pelo menos em inglês.

O casal Walter e Joanna Eberhart mora em Nova York, não aguenta mais o caos da grande cidade, e resolve aderir à vida suburbana, que nos EUA corresponde a comprar uma bela duma casa espaçosa, numa cidadezinha próxima, e ir e voltar de trem todos os dias. Eles têm um casal de filhos pequenos. Joanna é fotógrafa semiprofissional, e é feminista.

É um Romance Gótico, de acordo com a divertida definição de Donald Westlake de que “um romance gótico é uma história de uma mulher que se muda para uma Casa”. O que essa Casa representa em termos de ameaça, fica a cargo da imaginação de cada autora(a). Pense em Jane Eyre, em Rebecca, em Outra Volta do Parafuso...


O livro é fininho (160 páginas, na edição da Pan Books) e bem escrito, narrativa rápida onde cada frase conta, muito detalhes psicológicos e de ambiente bem captados com poucas palavras. Os personagens são meio personagens de série de TV dos anos 1970, com exceção da protagonista Joanna e de sua amiga Bobbie, as duas feministas da trama, as únicas que (literariamente) são tratadas como pessoas de verdade.

Escrevendo aqui no Mundo Fantasmo sobre o filme, fiz tempos atrás a seguinte comparação:

Em O Bebê de Rosemary (1968) de Roman Polanski, um jovem casal que começa a ascender socialmente vai morar num grande apartamento no Central Park. Aos poucos, a mulher vê o marido se portando de maneira estranha, e descobre, para seu horror, que ele se juntou a um grupo de vizinhos satanistas que pretendem fazer com que ela engravide do Diabo e dê à luz o Anticristo. 

Em As esposas de Stepford (1975) de Bryan Forbes, um jovem casal que começa a ascender socialmente vai morar numa grande casa no subúrbio. Aos poucos, a mulher vê o marido se portando de maneira estranha e descobre, para seu horror, que ele se juntou a um grupo de vizinhos cientistas que pretende fazer com que ela seja substituída por um andróide programado para obedecer passivamente ao marido.



Os dois livros são de Ira Levin. É óbvio que Stepford foi uma tentativa (bem sucedida) de reutilizar o plot de Rosemary. Numa oficina de romance, a leitura e análise comparativa dos dois seria muito proveitosa para perceber como certos mecanismos de enredo podem ser infinitamente readaptados sem que a maior parte do público perceba. (Agora estou me coçando para ler O Bebê de Rosemary, do qual só vi o filme.)

Stepford é uma espécie de condomínio fechado de caras ricos, que começam a frequentar o jovem casal.

Um é um ilustrador famoso, especialista em mulheres lindas: Joanna Eberhart fica vaidosíssima quando recebe a visita dele e ganha um retrato feito na hora.

Outro é um cara que trabalhou na Disneylândia, ajudando a programar os robôs eletrônicos que fazem personagens históricos como Abraham Lincoln, etc.

Um terceiro faz pesquisas linguísticas, e pede a ela que grave em fita cassete um enorme vocabulário de palavras isoladas, para captar nuances de pronúncia e sotaque.

E todos esses caras são casados com mulheres lindas, que não gostam de ler, não gostam de sair, passam o dia bem vestidas, bem maquiladas, arrumando interminavelmente a casa, polindo copos, encerando pisos, escovando cortinas, cortando grama, cozinhando, sorrindo...

Existe na cidade uma tenebrosa “Men’s Association” onde as mulheres não podem entrar e os maridos se reúnem várias noites por semana. Não leva muito tempo para na cabeça de Johanna se formar a terrível suspeita de que as mulheres de Stepford estão sendo substituídas por andróides (ou “ginóides”, para ser mais preciso) feitas à sua imagem e semelhança (com o busto sempre um pouco maior, é bem verdade) e que nunca dizem “não” aos maridos.

A melhor coisa na narrativa de Ira Levin é a cuidadosa acumulação de pequenos detalhes que vão se encaixando uns aos outros com a exatidão aterrorizante de todas as paranóias.


Tal como O Bebê de Rosemary, é a narrativa de um pesadelo de uma mulher solitária (ou que, neste caso, tem uma amiga cúmplice, solidária, fiel – e a perde da maneira mais arrepiante) que várias vezes por dia diz a si mesma que não, que não é possível, que está ficando doida, que pessoas de verdade não seriam capazes daquilo, que o marido dela não seria capaz daquilo... e veem as evidências se acumulando a cada instante.

É uma narrativa arrepiante, por ser curta – esticá-la para 300 páginas faria estalar o fio leve de verossimilhança que Ira Levin mantém retesado com sua prosa rápida. Poderia ter sido escrita por Philip K. Dick, pela enorme identificação com sua temática, embora Dick não tenha essa narrativa precisa, cinematográfica, econômica.

Quanto ao tema, é curioso que este romance de 1972, da época em que tantas mulheres jovens norte-americanas estavam lendo Betty Friedan, Kate Millet, Nancy Friday e outras autoras questionadoras, seja talvez mais atual hoje do que quando foi lançado.



***

Aqui, neste canal do YouTube, é possível ver o filme original de 1975. É um canal interrompido aqui e ali por comentários, e não tem legendas em português, mas o som e a imagem são OK, e o filme parece completo.)

E para quem já viu o filme, aqui um documentário com diretor, produtor, atores, comentando o trabalho, a importância do filme: