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sábado, 11 de outubro de 2008

0592) Viva a Ecologia Musical (10.2.2005)


(Mário de Andrade, por Di Cavalcanti)

Uma das profissões que eu mais admiro é a de etno-musicólogo, esses sujeitos que saem de mundo afora, registrando manifestações musicais de comunidades obscuras, e encontrando formas de música que ninguém sabia que existiam. Por exemplo: qualquer dinamarquês ou suíço que desembarque na Paraíba e dê de cara com Zabé da Loca. O problema com a etnomusicologia é que vendo o nome assim ninguém deduz o que é, pode até pensar que tem a ver com pesquisa de vulcões. Sugiro então a criação do termo ECOLOGIA MUSICAL, cujo significado é mais intuitivo, e tem a grande vantagem de poder entrar sob a rubrica “ecologia”, que anda na moda, para conseguir verbas das multinacionais e dos órgãos do Governo.

O melhor trabalho de Ecologia Musical deste começo de ano é o CD duplo Responde a Roda Outra Vez, um projeto de Carlos Sandroni, patrocinado pela Petrobrás. A pesquisa procurou reconstituir o trajeto de uma missão cultural enviada ao Nordeste em 1938 por Mário de Andrade, então Chefe do Departamento de Cultura de São Paulo. O resultado dessa Missão são 33 horas de gravações, mais fotos, filmes, etc., hoje disponíveis no Centro Cultural São Paulo, na Rua Vergueiro. A equipe de Sandroni visitou grande parte das cidades onde a Missão de 1938 fez suas gravações, e chegou mesmo a reencontrar pessoas que tinham participado da primeira gravação. É emocionante pensar que houve uma mulher gravada pela Missão de 1938, aos 20 anos, e que voltou a cantar neste disco, aos 86.

Pretendo falar de novo no disco depois que ouvir direito (são 57 faixas, minha gente), mas cabem aqui alguns comentários sobre essa história de Ecologia Musical. Sou totalmente a favor do esforço de preservar plantas, árvores, flores raras, assim como bichos de todo tipo, sejam insetos amazônicos, peixes do Pantanal ou micos da Mata Atlântica. Nada contra, mas esse espírito protecionista poderia ser alargado para incluir, além da Natureza, o mundo da Cultura. A Cultura, produto do Homem, é um subproduto da Natureza. Um Rembrandt vale tanto quanto um gato.

Não se trata de pegar um cântico folclórico e colocá-lo num Museu, embora isso possa ter sua utilidade. No mundo da cultura popular (os folguedos, os cantos, os autos, as danças dramáticas, as danças de roda) os adultos jovens criam, os velhos (que são eles mesmos, meio século depois) passam adiante. Existe uma criação quase permanente, mas ela só existe em cima da repetição ritual do que foi aprendido. Quando você não registra e não passa adiante, impede a criação futura. Para usar uma metáfora agrícola, bem ao gosto do pessoal que mexe com isto, o Passado fertiliza o Presente para o Futuro poder brotar. Assim, quando a gente defende a preservação da Nau Catarineta, dos Teatros de Mamulengos, dos Cantos de Farinhada, e coisa e tal, não é por saudosismo do passado-que-já-se-foi, ou por estar com pena dos velhinhos. É para que a criança de hoje possa também criar, quando crescer.

sexta-feira, 7 de março de 2008

0064) Nem tudo é canção (5.6.2003)



Anos atrás participei de uma dessas coletivas musicais que duram uma noite inteira. Cantores, poetas recitando, bandas, grupos folclóricos. Quem ia se apresentar antes de mim era uma velhinha parecida com Zabé da Loca, acompanhada por violas e percussões. 

Eu estava no camarim cheio, tentando afinar o violão, quando alguém avisou ao grupo, que já ia para o palco: “Três músicas, e sai, certo?” Eles concordaram. Quando afinei o violão, fui para a lateral do palco. Passaram-se dez, quinze minutos, e o grupo cantou o que me pareceram umas oito músicas emendadas. Alguém perguntou se eu estava impaciente, e dei a resposta que dou para 90% das perguntas que me fazem: “Por mim, tudo bem.” 

Quando o grupo fez uma pausa, quinze minutos depois, o locutor apossou-se do microfone, agradeceu a presença deles e me chamou. Ao cruzar por eles, vi que a velhinha vinha danada: “Disseram que era três, e a gente só tocou uma!” A uma dela durou mais de meia hora. 

O conceito fonográfico de “canção” é uma coisa meio estranha na Música Invisível Brasileira, a música anônima que se faz nos “recantos remotos do Brasil”, ou seja, nos 90% do Brasil em volta das grandes cidades. Nos folguedos populares, nos cocos, nas marujadas, nos brinquedos de bumba-meu-boi e cavalo-marinho, a gente percebe que ninguém está preocupado com uma canção com começo, meio e fim. Não tem aquela coisa de primeira parte, segunda parte, refrão, volta a primeira e encerra. 

Na música de pés descalços, existem temas instrumentais ou refrões vocais que são puxados por uma parte do grupo, e que servem de base para que qualquer pessoa do grupo encaixe fragmentos que tenham algum tipo de parentesco com a harmonia e o ritmo usados naquele momento. 

O excelente livro de Carlos Sandroni Feitiço Decente analisa as origens do samba carioca, comparando o samba semi-folclórico que se fazia na época de Donga, e o samba urbanizado dos bambas do Estácio. Quando o “Pelo Telefone” foi gravado, um samba não tinha formato definido: era um refrão ao qual se agregavam partes com pouca relação musical e poética entre si. Não eram canções no sentido que damos hoje a essa palavra. Eram agregados poético-musicais, produzidos por associação livre de idéias, com fragmentos recordados ou improvisados pelos participantes do folguedo. 

Hoje, no Ocidente, a palavra “canção” tem um perfil nítido: há uma melodia, uma letra e um arranjo, numa estrutura composta de partes bem delimitadas, e tudo isto dura de dois e meio a três e meio minutos. É um produto industrial, criado a partir das monstruosas, barrocas, frankensteinianas “músicas” folclóricas que duram horas e só acabam se o locutor interromper o grupo. 

Mas quando coloco um CD de música oriental ou africana, de Nusrat Fateh Ali Khan ou de Ali Farka Toure, chega tenho um susto de prazer ao ver a imensa liberdade com que as canções deles parecem produtos de associação livre de idéias sem formato obrigatório. Zabé da Loca perde.