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segunda-feira, 10 de março de 2025

5160) O plágio e a glosa (10.3.2025)





(Salvador Dalí, "Crucifixion", 1954) 

 
A pergunta mais clichê que se faz a um artista é: “De onde você tira suas idéias?”. Há mil respostas a essa pergunta, respostas sérias ou galhofeiras, e todas plausíveis. 
 
Comentarei aqui uma resposta com que frequentemente me deparo: “Tiro minhas idéias das idéias alheias”. Isso acontece o tempo todo – na poesia, no cinema, na música, no teatro, nas artes visuais. Você está olhando a obra de alguém e de repente percebe um detalhe, ou um efeito, ou um tema (um assunto diferente, um ponto de vista novo, etc.), e pensa: “Que legal. Posso usar isto pra fazer uma coisa minha”. 
 
A questão é: pode mesmo? Eu afirmo que sim, quando mais não seja porque pratico isto desde os meus quinze anos, quando eu já rabiscava poemas e contos policiais que felizmente se perderam. 
 
Continuo praticando hoje. Quando leio livro ou vejo filme, tenho um aplicativozinho ligado no meu juízo. Fica ali, dormente mas pronto. E de vez em quando basta uma frase num diálogo, basta a descrição de um ambiente, basta um resumo de duas linhas sobre a vida de um personagem secundário... e aplicativo se maximiza na minha tela mental, e diz: “Ótima idéia. Posso fazer alguma coisa com isto”. 



(Salvador Dalí, "The Sacrament of the Last Supper", 1955)

 
Isso é plágio, é furto de idéias? Não, mas é preciso ter cuidado. Assim como existem os autores prontos a usar idéias alheias como ponto de partida para uma coisa nova, existem “autores” picaretas, preguiçosos, sem imaginação criativa e com muita ambição monetária, dispostos a pegar uma idéia alheia, sugá-la até a última gota, passar-lhe por cima um verniz disfarçante (mudar os nomes próprios, mudar a época e o local de uma narrativa, p. ex.) e produzir um trabalho dizendo que é original. 
 
Várias vezes já recontei uma história alheia com outra roupagem, mas costumo deixar pistas suficientes a respeito do texto original e seu autor. Não estou escondendo, pelo contrário. Mas estou colocando ali uma quantidade suficiente de elementos meus para justificar a existência desta nova versão. 
 
Não há uma linha nítida entre as duas coisas, é um território nevoento, e é preciso ter cuidado ao mexer com isto. 
 
Os casos mais escandalosos de plágio são aqueles em que o trambiqueiro copia ou parafraseia uma obra alheia (geralmente obscura, pouco conhecida) e alega ter criado tudo. Para haver plágio (vivo repetindo isto) é preciso haver a intenção consciente de se apossar do objeto alheio. É preciso haver o que a lei chama dolo, a intenção de prejudicar, que é diferente da simples culpa, em que se prejudica alguém como resultado de uma ação que não tinha esse propósito. 
 
No caso da criação literária, pictórica, musical, cinematográfica, é sempre difícil determinar com clareza (=quantificar) o quanto foi aproveitado da obra mais antiga na obra mais recente. 
 
Vou usar como exemplo um caso que surgiu na web estes dias, sobre uma canção dos Rolling Stones que “pediu emprestada” alguma coisa a uma canção do grupo vocal The Staple Singers. 



 
Me chamou a atenção porque a música dos Stones é “The Last Time”, uma das minhas preferidas do álbum Out of Our Heads. Os Staple Singers (eram um grupo misto, com um homem e três mulheres) haviam gravado uma canção gospel muito bonita, cantada a capella, sem acompanhamento, com letra religiosa. No website “A-Z Lyrics”, a composição é atribuída a Roebuck Staple. O estribilho diz assim: 
 
This may (This may be the last time)
This may (This may be the last time children)
This may (This may be the last time)
May be the last time I don't know




Os Rolling Stones pegaram essa estrofe-refrão, mantiveram a melodia básica, mas dando-lhe uma pegada roqueira, e juntaram a ela algumas estrofes onde o tema de “esta é a última vez” aparece voltado para as relações rapaz-moça, no clima machista-arrogante típico da maioria das letras da banda: 
 
Olha, já te falei uma vez, duas vezes,
mas você nunca escuta os meus conselhos.
Não se esforça muito para me agradar,
e seria fácil, com tudo que você sabe.
 
Gravação de The Staple Singers:
https://www.youtube.com/watch?v=rSUhdVyDlTM&t=55s
 
Gravação dos Rolling Stones:
https://www.youtube.com/watch?v=ycoJSzjJDJc
 
Não consegui apurar a autoria da canção. A Wikipedia diz que é de Mick Jagger & Keith Richards, e o A-Z Lyrics diz que é de Harris Lloyd “B. B.” Seaton, cantor jamaicano. 
 
Isto não vem ao caso, porque agora posso ir direto ao ponto mais importante.



 
Artistas usam fragmentos de obras alheias como ponto de partida para desenvolverem idéias próprias geradas por esses fragmentos. Mais ou menos como, na poesia popular, os poetas recebem um “mote” da platéia (o mote são duas linhas, em geral) e glosam esse mote, desenvolvem sua idéia dentro da forma poética escolhida.
 
Pegando carona nos versos dos Rolling Stones, digamos que numa cantoria alguém dá ao poeta este mote:
 
Pelo sim ou pelo não,
esta é a última vez.
 
Motes assim são glosados, tipicamente, numa estrofe de 10 linhas, a décima, com esquema de rimas ABBAACCDDC, sendo que estas últimas rimas são as do mote, que no caso são “ÃO” e “ÊZ”.
 
O poeta pode glosar assim:
 
A emoção do começo
é diferente do fim.
A despedida é assim
e cada adeus tem seu preço.
Eu só quero o que mereço,
por isso digo a vocês:
Acabou? Não tem talvez,
e não cabe indecisão.
Pelo sim ou pelo não
esta é a última vez.
 
Este é o sentido da arte de glosar entre os cantadores – pegar a idéia alheia (e um par de rimas obrigatórias, pois são dois versos) e desenvolvê-la. 
 
Artistas fazem isso o tempo todo, sem pedir licença. Não é a mesma coisa da imitação descarada, do furto, da apropriação dolosa. Quando a gente cria, está muitas vezes tentando desenvolver uma idéia que pegou de uma obra alheia. 



 
Stephen King queria escrever algo parecido com O Senhor dos Anéis, uma luta do Bem contra o Mal num mundo semi-destruído. Escreveu A Torre Negra, uma série de romances numa ambientação de faroeste futurista. Isso lhe deu liberdade para comentar e desenvolver muitos temas contidos na obra de J. R. R. Tolkien, mas ele não estava furtando. Estava glosando – a seu modo. 
 
James Joyce usou a Odisséia de Homero como base para seu Ulisses. Por que? Dizia ele que Ulisses era um herói completo, um homem completo, que Homero nos apresenta como filho, como marido, como pai, como guerreiro, como estrategista, como navegador... Ele transpôs esse personagem para a Dublin de 1904 e seu romance é uma gigantesca glosa dos temas homéricos. 



(Robert Eggers, "Nosferatu", 2024) 

 
O recente filme Nosferatu, de Robert Eggers, é mais uma glosa à narrativa básica do Drácula de Bram Stoker. Eggers (como já tinham feito F. W. Murnau, Francis Coppola, Werner Herzog...) pega o fio central da história e constrói um filme novo em cima dele. Está plagiando ou adaptando? Nenhum dos dois: está glosando, desenvolvendo, ampliando a seu modo os conteúdos presentes no livro de Stoker. 
 
Guimarães Rosa gostava do “Romance da Donzela Guerreira”, um antigo poema em versos sobre uma moça que vai à guerra vestida de homem; usou essa história à sua maneira, como um elemento essencial do Grande Sertão: Veredas, a história de Diadorim. 
 
São glosas. Glosar pressupõe uma admiração pela idéia original, e por isso muitos desses autores fazem questão de deixar clara essa ligação, seja no próprio corpo da obra, seja através de entrevistas ou artigos. 
 
Voltando ao exemplo dos Rolling Stones, que deu motivo para esta conversa: se alguém pegar o rock dos anos 1960 vai encontrar um grande número de versos, trechos melódicos, estribilhos, riffs de guitarra, que foram copiados dos músicos norte-americanos dos anos 1930, 1940, por aí.  Depois da era digital, o uso de samplers e de loops só fez potencializar esse tipo de utilização.
 
Quando a gente diz que a Arte (música, literatura, teatro, o que for) é um empreendimento coletivo, este conceito inclui também a presença dessas ligações em que a mesma idéia é retrabalhada ao longo dos anos e dos séculos por visões diferentes, talentos diferentes, pontos de vista diferentes.
 
 
 






quarta-feira, 3 de abril de 2024

5048) O Banquete dos Mendigos (3.4.2024)




 
A imprensa tem comentado um filme russo recente, O Mestre e Margarida, que está fazendo grande sucesso popular, e inquietando os censores do governo de Vladimir Putin. 
 
É mais uma adaptação cinematográfica (há várias) do famoso romance de Mikhail Bulgakov, que se não me engano já tem mais de uma tradução no Brasil.
 
Nunca o li. É um romance fantástico, muito elogiado, e está naquela lista de “500 Livros Que Preciso Ler, Nem Que Seja Depois De Morrer”. 
 
Houve uma sincronicidade interessante porque vi o anúncio desse filme mais ou menos ao mesmo tempo em que estava começando a rabiscar umas notas sobre o disco Beggars Banquet (“O Banquete dos Mendigos”, 1968) dos Rolling Stones, um dos meus preferidos na extensa obra da banda. 
 
O Banquete dos Mendigos (“Beggars Banquet”, 1968) foi um disco-porrada que os Stones lançaram na segunda metade da década de 1960, quando essa hidra-de-70-cabeças chamada “rock” brotava por toda parte. 
 
Para mim, é um dos melhores discos deles, junto com Between the Buttons, Let It Bleed, Exile on Main Street, Flowers, Some Girls e certamente mais algum título inesquecível que estou esquecendo agora. 




Os Stones sempre foram mais identificados com rockão pesado do que os Beatles, por exemplo. Eram metal-quente, e parede estremecendo. Junto deles, os Beatles eram o Trio Esperança, e o que os “salvava” era a riqueza melódica, a harmonia vocal, o imenso repertório de estilos musicais (graças principalmente a MacCartney, que cresceu ao lado de um pai músico, escutando tudo). E as letras, de Rubber Soul em diante; e o carisma sorridente
 
O lado “musicalmente beatle” dos Stones ficava por conta do multi-instrumentista Brian Jones, que morreu cedo; uma perda tão grande para o rock quanto as de Jimi Hendrix e Jim Morrison.
 
Lembro que o primeiro choque que Beggars Banquet produziu em mim e na minha turma na Paraíba foi que não era tão “rockão pesado” assim, se descontarmos “Street Fightin’ Man”. Era um cardápio variado de ritmos e sonoridades, que fazia a gente escutar de cenho franzido, pensando: “Que troço estranho. Isso é rock? Onde foram achar isso? Que troço legal.” 
 
A começar, é evidente, pela faixa que abre o disco, “Sympathy for the Devil”. Reza a lenda que as primeiras “levadas” da música surgiram quando os Stones vieram pegar uma areia ensolarada em Arembepe e outros lugarejos baianos, e de vez em quando tiravam um som com os moradores locais. 
 
O famoso e hipnótico “Uh-uuh!...”, que pontua a canção do começo ao fim, não foi trazido da Bahia, como pensei por muito tempo; foi meio que improvisado pelo produtor Jimmy Miller durante a gravação, e incorporado pela banda. Todo mundo entrou no balanço.  Não duvido que Mick Jagger e Keith Richards tenham explicado, muito convictos, aos técnicos de som: “É samba”. 
 
“Sympathy for the Devil” junta-se à capa interna do disco para explicar o diapasão mental que afinava o rock daquele tempo: luxo, decadência, esbanjamento e devassidão. O Diabo, que se apresenta nos versos, é “um homem de posses e de bom gosto”, um aristocrata. E ao mesmo tempo um conspirador dos salões e dos gabinetes, um instigador de conflitos. Ele se vangloria de estar por trás da Revolução Russa, da Blitzkrieg nazista, da morte dos Kennedys... 
 
E é aí que entra a sincronicidade com O Mestre e Margarida, o livro de Bulgakov, porque Mick Jagger sempre afirmou que “Sympathy for the Devil” tinha se inspirado nesse livro, escrito por Bulgakov entre 1928 e o ano de sua morte, 1940. A tradução inglesa, lançada em 1967 pela Grove Press, e em seguida por outras editoras, teve uma influência direta na canção dos Stones, cuja letra fala em nome do Diabo: 
 
Estou rondando por aqui há muitos anos
roubei a alma e a fé de muitos homens.
Estava por perto quando Jesus Cristo
teve o seu momento de dor e de dúvida;
e me certifiquei de que Pilatos
lavasse as mãos e selasse o seu destino.
 
O confronto entre Pilatos e Cristo é uma das linhas narrativas de O Mestre e Margarida, e Jagger o transpôs diretamente para a canção.
 
Jagger e os Stones nunca foram propriamente satanistas, ao que eu saiba. Pegaram um pouco de fama por causa dessa música. Quem teve pela vida toda um flerte com o Ocultismo e os seres-de-umbral foi gente como Jimmy Page, morador numa mansão que foi de Aleister Crowley. Os Stones intitularam um disco Their Satanic Majesties Request, mas o disco lembra mais um passeio no Mundo Imaginário do Dr. Parnassus do que uma visita ao Hades.



(Their Satanic Majesties Request)


O Diabo (dizia Guimarães Rosa) não existe: existe é o homem humano. O homem de posses e de bom gosto, apreciador de uma boa debaucheria, e que é o próprio Mick Jagger e seus ajudantes. E o disco ganhou um dos melhores títulos e uma das melhores capas internas da história do rock. 



Nessa capa interna e na faixa de abertura está concentrado o espírito de dissipação e auto-indulgência do rock daquela época. Uma farra meio surrealista promovida por alguns jovens milionários: o mais velho dos Stones, o baixista Bill Wyman, tinha 32 anos, mas os demais estavam na faixa de 25-27 anos. 



(Viridiana


O fotógrafo do disco, Michael Joseph, comenta que a idéia da foto do banquete foi do diretor de arte Mike Peters, e que este teria sido influenciado pela famosa foto do “banquete dos mendigos” de Viridiana (1961) de Luís Buñuel, numa versão satírica da Última Ceia de Leonardo da Vinci. 
 
Quase toda a comida que aparece na foto é artificial, com exceção de algumas bandejas com frutas. O local da sessão foi no norte de Londres, na mansão de Sarum Chase, em Hampstead. O supervisor da casa perguntou se na foto apareceriam mulheres nuas. “Não,” disse o fotógrafo, “vai ser somente a banda. Por que?”  E ele: “Se a foto incluir mulheres nuas, cobramos 10 libras a mais.” 
 
Ao ler isto, lembrei de um amigo meu, em Campina, olhando a capa do Banquete: “Tem bebida pra caramba, tem comida, tem porco, galinha, marreco... e não tem mulher nua. Isso é lá farra!” O que não nos impedia de correr o olho pela foto, catando detalhes; ou pela reprodução feita em Campina Grande pelo saudoso Roberto Coura, então com 16 anos, reproduzindo essa foto do banquete em nanquim sobre cartolina, em 1 metro x 2,5, e que foi parar na sala de Jakson e Marcos Agra. 
 
O banquete era uma síntese entre a vulgaridade e a sujeira dos mendigos de Buñuel, e (aqui é uma conjetura minha) a famosa capa do Bringin’ It All Back Home (1965) de Bob Dylan. Capa cuja intenção, nesta foto montada, era conferir a Dylan (que tinha uma origem rústica, de Minnesota, origem de cantor folk) a imagem sofisticada de cantor agora novaiorquino. 





A foto de Daniel Kaufman o mostra numa sala, diante de uma lareira, com um gato no colo, por entre objetos descuidadamente/cuidadosamente jogados em torno: uma revista Time, um disco de Robert Johnson, uma placa de “abrigo nuclear”... e uma mulher, vestida, mas linda, em pose relaxada e promissora (é a ex-modelo Sally Grossman, a esposa do empresário de Dylan). 
 
Tenho a mais tranquila certeza de que os Stones, além de ouvirem muito esse disco, examinaram muito essa capa, e três anos depois tiveram a chance de dar a resposta. A resposta não era a Dylan, na verdade, era ao jet-set londrino que no começo os esnobou tanto quanto o jet-set de Nova York esnobou Dylan; mas o sucesso doura qualquer pílula, e ambas as capas parecem estar dizendo: Fodam-se, nós agora somos ricos também. 
 
Nem tudo eram banquetes: o fotógrafo dos Stones lembra que na noite anterior à sessão de fotos a casa de Brian Jones tinha sido invadida pela polícia, em busca de drogas (não acharam nada), e ele, sempre o mais emocionalmente instável da banda, estava ainda abalado. 




O repertório do disco, curiosamente, não fica batendo na tecla da ostentação. Há várias canções quase totalmente acústicas, fugindo às muralhas de som do heavy-metal nascente. 
 
“Factory Girl” é uma homenagem às garotas que trabalham em fábricas, cantada pelo sujeito que a espera do lado de fora (quase um “Três Apitos” de Noel Rosa), uma garota “com joelhos gordinhos, com um lenço em vez de chapéu, e uma roupa com um zíper quebrado atrás”. 
 
“Salt of the Earth” é outra canção proletária, se se pode dizer isto. A banda ergue um brinde “aos humildes de berço... aos que trabalham duro... ao soldado raso que se mata de trabalhar, à sua esposa e filhos que acendem fogos e aram a terra... vamos beber a esses milhões de pessoas que precisam de líderes, mas só lhes chegam especuladores...” Aqui, os ecos se propagam até “Working Class Hero”, da carreira solo de John Lennon. 
 
Ou seja: por mais que fossem milionários recentes os Stones não cortavam seu cordão umbilical de classe, das origens não-milionárias de cada um. E mesmo quando decolavam num dos seus rocks mais pesados e rebeldes dessa fase, “Street Fighting Man”, eles perguntam: 
 
Mas afinal, o que pode um rapaz pobre fazer
a não ser cantar numa banda de rock?
Porque nesta sonolenta cidade de Londres
não há lugar para guerreiros de rua.
 
E depois, em versos que parecem pedidos-emprestados a “Sympathy for the Devil”:
 
Então... o meu nome é Distúrbio,
eu vou gritar e ulular
eu vou matar o rei
e passar o rodo nos seus servidores.
 
Keith Richard comenta que a rapaziada inglesa de então (lembrem-se, o ano era 1968) via com certa inveja as agitações estudantis francesas que fecharam a Sorbonne e pararam Paris no mês de maio. Richard lembra que as frases iniciais desta música (“Ev’rywhere I hear the sound of marching charging feet, boy..”) se baseia na sirene de duas-notas dos carros de polícia franceses. Uma inspiração semelhante à que teve John Lennon ao compor “I Am The Walrus” (“Mister-City-p’liceman-sittin’-pretty-little-p’liceman-in a row...”). 
 
Comparada à Paris de Daniel Cohn-Bendit e de Jean-Luc Godard, Londres devia parecer uma grande Boston. Talvez por isso mesmo a banda tenha convidado Godard para filmar a gravação de “Sympathy for the Devil” no estúdio – parafraseando Chico Buarque e dizendo: “pra ver se o fogo deles, guardado em ti, nos contagia um pouco”.
















sexta-feira, 27 de setembro de 2019

4507) O Palco e o Telão (27.9.2019)




(James Taylor, Rock in Rio, 1985)


Eu conto alguns fatos da minha biografia sabendo que muita gente não vai acreditar, mas isso até me libera para contar sem preocupação.

Um desses episódios aconteceu no “Rock In Rio 1985”, quando eu praticamente entrei no palco durante o show de James Taylor.

Esse show, pelo que me lembro, foi na mesma noite dos shows de George Benson, Al Jarreau e Elba Ramalho. Os artistas tinham direito a levar para os amplos camarins um certo número de convidados, e Elba me chamou, como minha amiga e “madrinha” – um ano antes, ela havia gravado meu “Nordeste Independente” em parceria com Ivanildo Vila Nova.

Ficamos lá, tomando Malt 90 (era a cerveja patrocinadora, oferecida no camarins), e vendo os shows pela TV.

A certa altura da noite eu fui ao banheiro. Os bastidores de grandes shows desse tipo são um vasto labirinto de paredes de compensado e fórmica, sobre chãos ressoantes de madeira com pisos emborrachados. Todos os corredores são iguais, principalmente depois da décima lata de cerveja. O cara vai andando, perguntando, e dobrando. Duas à esquerda, desce uma escada, uma à direita, sobe outra... Um dia chega.

Na volta do banheiro comecei a procurar o caminho do camarim, com a cabeça zunindo e o som estrondando em 360 graus. Errei o caminho a certa altura, subi umas escadas mais longas do que as que tinha descido. De vez em quando algum segurança de terno preto estendia a mão numa tentativa de perguntar onde eu pensava que ia. Mas eu estava de crachá, tenho cara de gringo, e caminhava sorridente e altivo, com uma autoconfiança que somente o álcool e seus complementos podem proporcionar.

Eu tinha certeza absoluta de que estava retornando ao camarim cheio de amigos, e estava ali como convidado, e como artista, visto que alguma música minha iria ser tocada mais tarde... Por que hesitar? Ultrapassei sorridente a última barreira de seguranças, que se abriu à minha passagem como se eu fosse quem pensava que era.

Subi uma última escada de metal... e me vi na lateral do palco, que se abria ofuscante e tonitruante à minha direita. Eu estava a 3 metros de um baixista com uma barba maior do que a de Marco di Aurélio, e a uns dez metros do meu ídolo, o poeta de “Fire and Rain”. Dava pra ver as gotas de suor na careca.

Claro que segundos depois um armário engravatado e persuasivo me pegou pelo braço, me trouxe para baixo, escutou minhas explicações fornecidas no mais puro yázigi, e me encaminhou paternalmente para o corredor onde a paraibada em peso me esperava. (Nenhum deles acreditou na minha história, claro. Nem é preciso.)

Esse pequeno flagrante da vida real tem importância para mim porque, apesar de já ter cantado em teatros, em ginásios, em praças repletas de gente, eu nunca acho que isso tenha um sido um show de verdade, visto que era um show meu. Show de verdade foram aqueles 15 ou 20 segundos em que fiquei suspenso a dez centímetros do solo pelo casulo pulsante de decibéis que se escuta no círculo de retornos de um palco. E olha que o som de Baby James era um som mansinho, nem chegava perto do pessoal que tocara na véspera, uns tais de Queen e Iron Maiden.

Este intróito serve para colocar uma coisa interessante no mundo do Big Show, que é a superposição de dois imaginários fortíssimos da humanidade, que são A Imagem e A Presença. Nosso inconsciente pessoal e coletivo se deixa arrebatar fortemente por essas duas mágicas.

Por que vamos ao cinema? Por causa da magia da Imagem. Por que vamos ao teatro? Por causa da magia da Presença.

No cinema não estamos nem aí para o fato de que estamos olhando para uma superfície plástica refletora. Para nossa imaginação, é como se ali estivesse o espaço sideral com uma batalha de espaçonaves, ou o sertão de Cabrobó, ou um pub inglês cheio de gente cantando, ou o rosto de Bibi Andersson olhando pra gente.

No teatro, não temos que fantasiar presenças: o que estamos vendo é o que estamos vendo, tudo aquilo ali é de carne e osso e existe fisicamente no mesmo plano de realidade que nós. Se a gente der um grito, os atores escutam. E qualquer coisa imprevista que ocorra (um ator que cai e quebra a perna, ou fogo no palco, ou uma crise de hilaridade em todo o elenco) aconteceu de verdade, é a vida presente.

E os grandes shows de hoje em dia conseguem satisfazer esses dois imaginários. Quando fui, por exemplo, à Praça da Apoteose para ver os Rolling Stones e Bob Dylan cantando juntos “Like a Rolling Stone”, meu olho ia alternadamente do palco para o telão e do telão para o palco.


(Bob Dylan e Rolling Stones, Praça da Apoteose, 1998)

No telão, eu via os dedos esquerdos do guitarrista me mostrando o acorde correto, via as rugas de concentração no rosto do bardo, via os sorrisos de cumplicidade na hora do vocal colado ao microfone, via todos os detalhes inacessíveis da performance que se dava a cem metros de onde eu estava.

E aí meus olhos largavam o telão e corriam para o palco, aquele quadradinho remoto e iluminado lá no extremo oposto da multidão ululante, e com isso eu confirmava a Presença, o fato de que não era uma simples transmissão de TV, era real, eu e aqueles caras estávamos existindo no contexto do mesmo fato, no mesmo espaço, no mesmo tempo. “É de verdade, e está acontecendo agora.”

O grande show, portanto, virou uma forma de arte bicameral, onde temos a experiência do cinema (a Imagem) e a experiência do teatro (a Presença), ao mesmo tempo e pelo mesmo preço.  É por isso que todo mundo paga e não reclama.




(Rolling Stones, Praia de Copacabana, 2006)








quarta-feira, 25 de março de 2015

3770) "Gimme Shelter" (25.3.2015)



O ano era 1969, e Merry Clayton era uma cantora profissional de Los Angeles que fazia vocais em estúdio e na banda de Ray Charles. Estava grávida, era cerca de meia-noite e ela já estava deitada com o marido quando o telefone tocou. 

Era um produtor pedindo para ela dar um pulo num estúdio e fazer um vocal, coisa rápida. Ela reclamou: “Cara, já estou deitada pra dormir, não vou mais sair pra trabalhar uma hora dessas.”  O produtor insistiu, disse que seria bom pra carreira dela, e pagava bem. 

O marido pegou o telefone para discutir com ele, falou, ouviu, ouviu, aí desligou e disse: “Merry, é melhor você ir. Vai ser bom pra sua carreira”.

Ela vestiu uma capa e, de bobs no cabelo, foi direto para o estúdio, onde foi recebida pelos Rolling Stones, que estavam gravando “Gimme Shelter”. 

Quem conhece bem a música deve lembrar aquela voz feminina rasgada, lancinante, no refrão: 

"War, children, it’s just a shot away, it’s just a shot away... 
Rape, murder, it’s just a shot away, it’s just a shot away...”  

É uma canção dark, falando da guerra, da brutalidade da época, da violência onipresente.  Sentada num banquinho (“minha barriga estava muito pesada”), ela gravou três takes do vocal, onde sua voz dobra com a de Mick Jagger, e foi pra casa.

Acho difícil traduzir esse refrão. “It’s just a shot away” significa mais ou menos “está a apenas um tiro de distância”. Seria algo como: “Pra guerra, rapaziada, só falta um tiro”. Para o estupro, para o assassinato, só falta um tiro. Só falta “um tantinho assim”. 

Os Stones amenizam a mensagem no final, dizendo: “Love, sister, it’s just a kiss away”: “para o amor, minha irmã, só falta um beijo”. Concessão aos tempos do “Paz & Amor”? Pode ser, mas “Gimme Shelter”, uma das canções mais fortes da banda, não ficou marcada como uma canção de alto astral, e sim como uma canção de “os tempos estão sombrios”.  Como o “Cálice” de Chico & Milton, e tantas outras dos nossos tempos de ditadura.

Aqui neste link (http://tinyurl.com/ldz24jj) é possível ouvir a música, a faixa somente com a voz de Merry, e uma entrevista de Jagger onde ele lembra o episódio. 

Foi bom pra carreira de Merry? Difícil dizer, mas tornou-se a performance mais famosa dela. A história, contudo, não teve propriamente um final feliz. A hora tardia e o esforço desgastaram Merry Clayton, e pouco depois da gravação ela perdeu o bebê. 

“Foi um período muito sombrio para mim,” disse ela, “mas Deus me deu forças para superar. Dei a volta por cima. Encarei isso como parte da vida, do amor, da energia, e desviei noutra direção, de modo que hoje não me incomoda cantar ‘Gimme Shelter’. A vida já é muito curta e eu não posso viver no passado.”







quinta-feira, 2 de abril de 2009

0937) Bill Wyman (18.3.2006)



Ele foi o baixista dos Rolling Stones desde o começo em 1962 até 1991. Embora Mick Jagger e Keith Richards sejam considerados não apenas a cara mas também a alma da banda, diz-se que o coração da banda era a dupla silenciosa e introspectiva formada pelo baixista Wyman e o baterista Charlie Watts. Wyman abandonou os Stones depois de uma fase conturbada: choques com o egocentrismo de Jagger & Richards (que se recusavam a incluir canções suas nos álbuns), uma relação amorosa longa e problemática com uma garota de 13 anos – tão problemática que o filho de Wyman, Stephen, acabou casando com a mãe dela, que tinha 46.

Vi no ano passado uma série de especiais para TV a cabo sobre a história do Blues, em que Wyman funcionava como âncora e co-roteirista. Era um sujeito grisalho, suave, de fala mansa e bem-humorada. Nada nele fazia supor o roqueiro a quem era atribuída a façanha de ter conhecido biblicamente 265 mulheres num período de três meses de uma turnê. Ele explica: “Mick e Keith ficavam trancados compondo; Charlie era fiel à esposa; sobrava pra mim e Brian Jones”.

Wyman tinha complexo de inferioridade por sua origem operária (seu pai o tirou da escola quando ele começou a tirar notas muito boas). O rock foi uma fuga ao ambiente estreito e mesquinho onde nasceu. Era William Perks; depois que entrou na banda trocou oficialmente seu nome para Wyman, em homenagem a um colega do exército que, segundo ele, era o melhor jogador de futebol que ele já tinha visto. “Isto mudou totalmente minha vida”, diz ele. “Eu me sentia auto-confiante, tinha orgulho do meu nome”.

Quando os Stones passaram alguns meses no sul da França para gravar Exile on Main Street, Wyman gostou do lugar e ficou morando. Sua casa era vizinha à do pintor Marc Chagall; os dois se tornaram amigos, e Wyman publicou um livro (Wyman shoots Chagall) com textos e fotos narrando a sua convivência. Ele é também autor de Rolling with the Stones, um gigantesco livro ilustrado sobre a história da banda, no modelo da Anthology dos Beatles. Meticuloso, Wyman manteve um diário detalhado da história da banda durante todo o tempo em que foi um Stone (ver em: http://www.billwyman.com/index.asp).

Hoje é dono de um restaurante em Londres (“Sticky Fingers”), toca numa banda chamada Rhythm Kings (o CD Just For a Thrill é bem divertido). Outro passatempo seu é a arqueologia amadora, e ele publicou um livro chamado Treasure Islands, sobre tesouros arqueológicos encontrados nas Ilhas Britânicas. Vai completar 70 anos em outubro próximo. Wyman é mais típico da geração do rock do que os outros Stones, que continuam fazendo discos, turnês, arrastando milhões de pessoas. Estes são a exceção. Os grandes roqueiros dos anos 1960 vivem hoje confortavelmente, dedicando-se à família e aos hobbies. Tocam, cantam e gravam quando lhes dá na telha. São os sobreviventes de um furacão, e transformaram o furacão numa escultura. Palmas para eles.

terça-feira, 24 de março de 2009

0915) Os Rolling Stones (21.2.2006)



Acabo de ficar duas horas pregado na TV, vendo a transmissão do show dos Rolling Stones em Copacabana. Digo que vi a transmissão, não que vi o show. Um show de rock, por definição, só se vê em carne e osso, no local. Quem vê na TV não pode dizer que viu o show, assim como quem acompanha um terremoto pela TV não pode dizer que estava no terremoto. Os Stones são a maior banda de rock de todos os tempos, ponto final. Isso em nada desmerece as outras, assim como a existência de Pelé não desmerece os talentos de Ronaldinho Gaúcho, Platini ou Maradona. Os Stones têm, sobre seus concorrentes, a vantagem da precedência. São a única banda em atividade que não cresceu ouvindo os Stones.

Conheço bem a obra deles até a década de 1980, quando deixei de comprar-lhes os discos. Em 40 anos de atividade, até um vulcão abaixa o fogo de vez em quando. Jagger & Cia. fizeram muitos CDs desinspirados, embarcaram na egolatria e badalação das Décadas Frívolas. Virou moda dizer que os Beatles eram “bons meninos” e os Stones eram selvagens e contestadores. Ironicamente, hoje os Stones são comissão-de-frente no “establishment” da música pop, e Sir Mick Jagger continua a “podar” as letras das músicas quando quer aparecer na TV americana. Algum problema? Da minha parte, nenhum. É só para lembrar que rebeldia de milionário tem limites.

De qualquer modo, prefiro o rock milionário dos Stones a qualquer rock rebelde que seja mal composto, mal escrito e mal tocado. Como banda de rock, os Stones são um teto. Inúmeras bandas já igualaram a potência e a beleza de seu som, neste ou naquele show, neste ou naquele disco. Nenhuma os superou. Meus discos preferidos são todos do tempo em que Keith Richard não tinha rugas: Flowers, Beggar’s Banquet, Exile on Main Street, Sticky Fingers, Let it Bleed. Dos discos mais recentes, conheço pouco. Geralmente lembro a música (“Start me Up”, “Miss You”) mas não sei a que álbum pertence. Também gosto muito de álbuns menores que os críticos esnobam, como Between the Buttons e Their Satanic Majesties Request (que tem belezas como “She’s a Rainbow” e “2000 Light Years From Home”).

Como banda de rock, os Stones botam os Beatles no bolsinho de guardar moeda. Onde os Beatles deram o troco foi quando pararam de fazer turnês, trancaram-se no estúdio, e inventaram tanto a tecnologia quanto a estética da música pop contemporânea. Elogiei os Stones como banda de rock, mas é injustiça para com os autores de algumas das mais belas baladas pop de todos os tempos: “Lady Jane”, “As Tears Go By”, “Angie”, “Backstreet Girl”, “Wild Horses”, “Ruby Tuesday”; e de blues excruciantes ou debochados como “No Expectations”, “Sweet Virginia”, “The Spider and the Fly”... Já prestaram atenção em “High and Dry”, do álbum Aftermath, um forró completo, com sanfoninha e tudo? Pois é, os Stones, como Mick Jagger, ocupam todos os lugares ao mesmo tempo. Abrirei agora uma cerva gelada em sua homenagem. Vai?

quarta-feira, 11 de março de 2009

0875) O desvio criativo (5.1.2006)




Às vezes interpretamos erradamente uma frase ou uma imagem, e essa interpretação errada gera uma idéia diversa da idéia verdadeira. 

Uma vez eu estava tentando copiar de ouvido uma letra dos Rolling Stones, e copiei o refrão assim: “What a trek in his care hall!...” Fui ao dicionário, o qual me informou que “trek” era “passeio de carro-de-bois”, “care” era “inquietação”, e “hall” era “sala”. 

O verso, portanto, dizia: “Que passeio de carro-de-bois em sua sala de inquietação!...” Eu pensei cá com meus botões: “Eita, isso só pode ser efeito da maconha no juízo desses caras!”

Quando percebemos que nossa interpretação foi errada, e percebemos o que era aquilo de verdade, ficamos com aquela idéia maluca nas mãos, sem saber direito o que fazer com ela. Talvez a melhor solução seja usá-la criativamente. 

Foi o que fez José Saramago, que um dia vinha andando pela rua, passou por uma banca de revista, e, naquela olhada de relance que a gente dá para aquela profusão de capas de revistas e manchetes de jornal, leu: “O evangelho segundo Jesus Cristo”. 

Achou estranho, voltou atrás, releu: não era nada daquilo. Ele tinha lido palavras que estavam em frases diferentes, e, sem querer, montou aquele título. Saiu dali ruminando: “O Evangelho Segundo Jesus Cristo... Está aí uma idéia interessante...” E escreveu um livro inteiro tendo este título como ponto de partida.

O crítico Jonathan Rosenbaum usa um termo interessante, “creative indirection”, “desvio criativo”, para designar esse tipo de associação involuntária de idéias que acaba tendo um papel inspirador. 

Talvez o que nos fascina nessas idéias seja o fato de que, tendo sido geradas pelo Acaso, elas tenham aos nossos olhos uma cor de novidade, de originalidade. Nunca teríamos chegado a elas pelos caminhos naturais do nosso raciocínio. Quando caem do céu no nosso colo, elas nos fascinam, e parecem conter em si um significado cabalístico, misterioso. Excitam a nossa curiosidade, a qual é sempre um ótimo detonador para a criatividade. 

Artes coletivas como o cinema e o teatro também estão cheias de situações inesperadas cujo potencial criativo é percebido pela intuição de um diretor, que agradece ao Acaso e incorpora o desvio.

Grande parte da criação do Surrealismo seguiu percursos dessa natureza, produzindo choques aleatórios entre imagens ou palavras, para daí extrair uma nova sensibilidade poética. 

O movimento surrealista foi uma espécie de culto ao erro, uma embriaguez de erros voluntários que revelavam, com sua sintaxe selvagem, caminhos inesperados para a poesia. 

O Surrealismo “tout court” ficou meio isolado nas vitrines da História, mas ninguém pode negar a vantagem de sua influência libertadora em poetas como Garcia Lorca, Neruda, Jorge de Lima, etc.

Quanto ao verso dos Rolling Stones, quando vi a letra impressa constatei que era: “What a drag it is getting old!...” Que saco é ficar velho! Mas eu tinha dezoito anos, não podia mesmo ter entendido.





terça-feira, 11 de março de 2008

0241) A colonização do subconsciente (28.12.2003)




Com o passar do tempo (Im Lauf der Zeit) é o melhor filme de Wim Wenders, juntamente com Paris, Texas. Há uma cena em que dois personagens estão sentados num bar, ou numa estação de trem (não lembro direito; vi o filme em 1979), bebendo em silêncio, como alemães que se prezam. Um deles começa a cantarolar o blue “Love in Vain”, uma pequena obra-prima de Robert Johnson que os Rolling Stones tornaram famosa no mundo inteiro no seu álbum “Let it Bleed”. O outro reconhece a música, fica escutando, sorri, e depois comenta: “Os ianques colonizaram nosso subconsciente”.

Está resumida nesta breve cena a história do século 20. O capitalismo norte-americano, depois da II Guerra Mundial, saiu carimbando o mundo inteiro com o “American way of life”. Sua maior conquista não foi comprar estatais falidas ou derrubar protecionismos alfandegários, mas fazer com que os invadidos se apaixonassem pelo invasor, pela sua música, pelas suas roupas, pelas suas bebidas, pelos seus filmes, pelas suas revistas, pelos seus automóveis, pelo seus cigarros, pelos seus livros, pelas suas cidades, pelas suas canções. É um amor imposto, talvez, a ferro e fogo, na guerra surda e invisível do capitalismo selvagem. Mas amor é amor, e digo isto com sinceridade, porque é amor o que sinto pelo cinema norte-americano, pela música norte-americana, pela literatura norte-americana.

Como não sou débil mental, me precavenho estendendo este amor à França, à Rússia, à Inglaterra, à Espanha, a Portugal, ao escambau, ao mundo todo, e, last but not least, a este obstinado cinema brasileiro, a esta onipresente música brasileira, a esta inimitável literatura brasileira. Com isto, tento atenuar as sinetas pavlovianas que nossos amigos do Norte implantaram na minha cabeça. Quantas vezes me vi gastando uma nota preta para importar dos EUA o original de um gibi que li quando tinha cinco anos, ou um disco que tocava na Borborema quando eu tinha 10. Tenho amigos que moram num apartamento de 4 quartos onde dois cabem à família e os outros dois à coleção de livros de ficção científica (ou de elepês de jazz; ou de quadrinhos; ou de filmes, fotos, cartazes de filmes).

Apaixonamo-nos quando somos pequenos demais para ter um filtro crítico ou ideológico, e o detalhe shakespeariano desta tragédia é não há amor mais puro do que este. Quando vejo um filho meu comprando um disco de música pop ou um videogame, penso: “Vai comprar de novo no relançamento, daqui a dez anos; e vai comprar de novo na reedição comemorativa, daí a mais 10; e vai comprar de novo quando estiver da minha idade, só porque isso lhe traz de volta recordações boas.” Estas últimas décadas viram a alvorada de um mundo novo: um mundo onde se descobriu que em vez de vender para adultos cheios de conceitos e preconceitos é melhor vender para os cerebrozinhos livres, virgens e escancarados das crianças. Começou conosco. E não vai parar tão cedo.