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quinta-feira, 30 de abril de 2009

1002) O rabo do jumento (2.6.2006)


(Elino e o jumento)

Nos meus estudos autodidatas de Filosofia, me deparo com uma questão insolúvel: como definir o que é Grande Arte e o que não é? Precisamos de critérios universais, como em qualquer definição filosófica que se preze. Mas é possível encontrar critérios estéticos universais para justificar por que razão considero “O rabo do jumento”, do recém-falecido Elino Julião, uma boa música?

Reza a lenda que Elino tinha um jumento que um dia, por descuido seu, invadiu o roçado do vizinho, um tal de Nascimento. Era um sujeito metido a brabo, que em represália puxou a peixeira e cortou o rabo do bicho. Quando Elino protestou, o cara ameaçou: “Cala a boca, senão faço a mesma coisa com você”. Mesmo não tendo rabo, Elino achou mais prudente se calar. Todo mundo nas redondezas ficou chocado ao ver o jumento naquelas condições, perguntou quem foi o autor da maldade, e Elino calado. O vizinho começou a ter remorsos. Um dia foi lá, e propôs a Elino pagar-lhe uma indenização. Aí o compositor saiu-se com a frase memorável: “Eu não quero pagamento, Nascimento. Eu quero é outro rabo pro jumento”.

Um episódio exemplar, até pelo grau de absurdo envolvido na ameaça (“Eu faço o mesmo com você!”) e no pedido final (“Eu quero é outro rabo pro jumento”). Platão e Aristóteles certamente elogiariam sua economia de meios. Tem uma função educativa e revelatória, equivalente à das fábulas animais de Esopo, aqueles episódios alegóricos típicos das pequenas comunidades rurais e pastoris. A canção tem poder de síntese (uma história complexa narrada em poucas linhas). Parece ter brotado espontaneamente (que letrista resiste a esta rima dada de graça pelo Acaso, “jumento/Nascimento”?). Como em toda boa canção, a melodia potencializa a letra. É triste, lamentosa. Em alguns momentos, ergue-se para acompanhar o protesto do autor: “Veja pessoal, que mau elemento! Não sei se o animal é ele ou o jumento!”), mas cada estrofe se conclui retornando ao mesmo refrão, monótono, teimoso, inflexível, mesma letra, mesma melodia: “Eu quero é outro rabo pro jumento”. São três acordes sucessivos, implacáveis (no tom de lá menor, os acordes de fá maior, mi maior com sétima, e lá menor).

Grande Arte? Não sei, mas, por que não? Talvez não seja uma obra-prima da MPB, talvez não seja um dos 50 maiores xotes de todos os tempos, periga não ser nem uma das 10 melhores canções de Elino Julião. Mas, julgada pelos critérios de sua forma e de sua matéria, é uma canção que surpreende pela originalidade (alguém conhece outra sobre o mesmo tema?), agrada pela concisão, faz rir pelo absurdo da situação narrada. Tem verdade social, tem verossimilhança psicológica. O personagem-narrador é um “caba” teimoso, tipo Seu Lunguinha ou Seu Mandury, muito familiar ao público que ouve canções assim. Acham que estou tirando leite de pedra, companheiros? Oxente, faz mais de 50 anos que a crítica tira leite daquela pedra de Carlos Drummond, e ela ainda não secou.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

0993) Elino Julião (23.5.2006)



Um domingo simpático de sol e céu azul no Rio de Janeiro. Acordei, tomei café folheando o jornal, liguei o computador para checar meus emails, e na lista de assuntos a primeira frase que me chamou a atenção foi: “Morreu Elino Julião”. Foi o quanto bastou para o dia adquirir a tonalidade tenebrosa e lúgubre da Visão de Toledo de El Greco.

Lembrei os anos que passei acompanhando o trabalho de Fernando Moura e Antonio Vicente para pesquisar e escrever Jackson do Pandeiro – o Rei do Ritmo (Editora 34, SP, 2001). O esforço para localizar documentos, checar versões conflitantes dos fatos. O trabalho insano de rastrear e entrevistar pessoas idosas, de fala trôpega e memória instável. Imagino que quando eu estiver com 80 anos, pesquisadores virão bater à minha porta. “O sr. ouvia Elino Julião? Viu algum show dele?” Vi, sim. Vi pela última vez o grande forrozeiro num memorável show no São João de Campina, creio que em 1999. Vi à distância, tomando cerveja com ribaçã numa barraca, e acompanhando pelo telão Elino encapetado, lá e cá no palco, com um paletó amarelo visível a dez quilômetros de distância. Não vi de perto, amigos, porque a multidão não permitiu. Era gente demais.

Bons tempos, em que os principais shows do São João da Paraíba eram de forrozeiros, e não de cantores românticos paulistas com chapéu de cowboy. Elino Julião desfiou seus grandes sucessos: “Na Tamarineira” (“Só por te amar, tô dessa maneira, e na Tamarineira, sei que vou parar...”), “O Rabo do Jumento” (“Você disse que é brabo, Nascimento... Você cortou o rabo do jumento...”), “Forró da Coréia” (“Só tem véia, só tem véia, no forró da Coréia...”), “O Burro” (“Vamos dar valor a quem trabalha, vamos dar valor a quem dá murro... O burro é quem merece uma medalha, o burro é quem trabalha, o burro é quem dá murro”)..., “Puxando fogo” (“Pra ter animação na festa, São João só presta puxando fogo”). Muitas. A lista não cabe aqui.

Elino (que ia fazer 70 anos em novembro) era um caboclo encarcado, do olho aceso, cheio de eletricidade, e com uma voz extensa de quem aprendeu a cantar sem microfone. Seus forrós tinham a vivacidade alegre das canções feitas em cima de boas idéias. Nada a ver com tanto forró que se faz por aí – uma justaposição, em linha de montagem, de clichês de letra, clichês de melodia e clichês de arranjo. Não vou ficar aqui lamentando a desatenção da imprensa, porque eu mesmo tenho esta coluna há três anos e nunca falei dele. Achei que não precisava. Eu é que ficaria orgulhoso se um cara como ele falasse um dia de mim, ou, melhor ainda, gravasse um forró meu (que nunca mandei, por timidez incurável). Daqui a 30 anos, jornalistas jovens baterão à minha porta. “Seu Braulio, o que era esse tal de forró?” E eu direi: “Rapaz, era a coisa melhor do mundo, e foi um produto de exportação nosso, antes que alguém começasse a nos vender a idéia de que a música dos cowboys ricos de São Paulo era superior à nossa”.

quarta-feira, 30 de julho de 2008

0476) A régua de cada um (28.9.2004)








Sou um consumidor voraz de cultura-de-massas (leia-se: histórias em quadrinhos, filmes, TV, pocket-books). Tenho críticas a fazer a esse tipo de produção, mas também tenho numerosos elogios. E procuro criticar dentro dos pontos de referência da própria cultura-de-massas. Se leio um livro policial mal escrito, eu não digo: “Fulano não escreve tão bem quando Henry James ou Proust”. Digo: “Fulano não escreve tão bem quanto Raymond Chandler.” Para criticar a indústria cultural não é preciso recorrer a Shakespeare ou a Beethoven. Quem faz isso é o pessoal erudito e preconceituoso, que tem medo de se contaminar lendo ou ouvindo essas obras bárbaras, e, como não tem uma visão geral daquilo que está criticando, só consegue criticá-lo utilizando parâmetros que não têm nada a ver. A literatura de cordel, por exemplo, está cheia de folhetos medíocres, mas de nada adianta dizer que são medíocres comparados aos versos de João Cabral; se são medíocres é porque não alcançam o nível de um Delarme Monteiro ou de um Manuel Camilo.

Não acredito que exista em Arte um critério universal do que é Bom, Belo, ou Importante. Não existe, e ponto final. Temos dezenas de critérios diferentes, que podem ser aplicados tanto a um quadro de Van Gogh quanto a um quadrinho de Ziraldo, e que vão se superpondo, uns somando, outros diminuindo, até a gente poder atribuir um valor relativo a cada obra. Dizer que Van Gogh é melhor do que Ziraldo, ou vice-versa, é bobagem. É como dizer que laranja madura é melhor do que calças jeans. Cada artista pertence a numerosas categorias: época, lugar, estilo, técnica, universo temático, etc. Em cada uma delas, seu trabalho pode ser confrontado com o de diferentes pessoas. Comparar Ziraldo e Van Gogh é meio complicado porque os dois só têm em comum o fato de ambos trabalharem com artes visuais. Já uma comparação entre Ziraldo e Jaguar como cartunistas e quadrinhistas, brasileiros, e da mesma geração, é bem mais sensata. Comparar Ziraldo com Ângelo Agostini, quadrinhista brasileiro de cem anos atrás, já fica um pouquinho mais difícil; e assim por diante.

Será que dá para comparar, por exemplo, a obra de Elino Julião com a de Tom Jobim? São brasileiros, são músicos populares, são contemporâneos um do outro... Mas mesmo assim tem algo aí que não me convence. Não são farinha do mesmo saco. Fazem Música Popular Brasileira, mas os departamentos em que trabalham ficam a quilômetros de distância. Dizer que Tom é melhor porque sua música é “mais complexa, mais rica, mais sofisticada” é tão injusto com Elino Julião quanto dizer que este é melhor do que o maestro porque sua música “é mais espontânea, é mais de-raiz, é mais popular”. Músicas diferentes cumprem funções diferentes, e por causa disto públicos diferentes as procuram por motivos diferentes – ou um mesmo público (eu, por exemplo) procura cada um em diferentes momentos. Difícil medir ambos por uma régua só.