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sexta-feira, 30 de setembro de 2022
4868) O Universo conspira a meu favor (30.9.2022)
quinta-feira, 15 de setembro de 2022
4863) A arte aleatória (15.9.2022)
Há um pequeno ensaio de Julio Cortázar, em seu
livro-almanaque A Volta ao Dia em 80
Mundos, com o título de “Eu poderia dançar esta cadeira, disse Isadora”.
É possível “dançar uma cadeira”? Sim, se você é Isadora
Duncan, a bailarina que fez uma revolução na dança moderna, expandindo o espaço
gestual do balé clássico para assimilar outros movimentos, outros impulsos
coreográficos, outras relações com o palco e com o público, e assim por diante.
Isadora sugeria (ou é Cortázar quem sugere, nem lembro
mais) que é possível olhar para uma cadeira e ver o artesanato que a produziu,
a relação entre matéria e forma (ou seja, madeira e design), captar a impressão geral que ela produz – de pesada
solidez, de leveza sofisticada, de simplicidade rústica, de impessoalidade
industrial – e reproduzi-la através de movimentos de dança.
É possível? Talvez sim, talvez não... Em todo caso, é um
desafio. Por que não tentar?
Em última análise, não é muito diferente de pegar um
livro como Guerra e Paz de Leon
Tolstoi, que demanda algumas dezenas de horas de leitura, e transformá-lo,
“dançá-lo”, num filme de uma hora e meia. E tantos outros exemplos por aí.
Adaptar é traduzir. Se Rubens Figueiredo traduziu Guerra e Paz do russo para o português,
King Vidor o traduziu da literatura para o cinema.
E tanto a tradução quanto a adaptação são atos criativos,
mesmo sendo atos condicionados, restritos, presos a limitações obrigatórias.
Não se pode (em princípio) colocar na tradução algo que não estava no original.
Mas mesmo para colocar o que já estava, é preciso criar, é preciso ser
imaginativo, porque sempre se trata de dançar uma cadeira.
A perda recente do prof. Maurício Lissovsky, falecido no
Rio de Janeiro, fez alguns amigos compartilharem nas redes sociais alguns
textos seus, e um deles me chamou a atenção porque tocava exatamente ness
questão de criar algo tendo como ponto de partida um estímulo de natureza
completamente diferente.
O artigo completo de Maurício, cujo tema era a
fotografia, está aqui:
https://revistazum.com.br/radar/fotografia-e-musica/
A certa altura, ele diz:
https://revistazum.com.br/radar/fotografia-e-musica/
A certa altura, ele diz:
Isso foi em 1950 ou 1951. O maestro Heitor Villa-Lobos entrou em uma das turmas do Conservatório Nacional de Canto Orfeônico no Rio de Janeiro, colocou uma fotografia no quadro e perguntou aos alunos: “e então, que música ela toca?”. Não era a primeira vez que surpreendia os estudantes com uma proposta inesperada. Gostava de improvisar – todo mundo sabia.
(...) A fotografia circulou entre os alunos. A silhueta das montanhas era copiada em um papel, e as notas musicais eram distribuídas, a critério de cada um, pelos picos e vales, suas durações e intervalos sugeridos pelo relevo. No final do exercício, cada aluno, de olho na linha melódica que escrevera, cantava a sua “cordilheira”. Encerrada a aula, Villa sugeriu que procurassem fazer a mesma coisa olhando as montanhas do Rio.
(...) O método de composição – que era igualmente um instrumento pedagógico – foi denominado “Gráfico para fixar a melodia das montanhas” e consistia em cobrir uma fotografia com papel de seda milimetrado e desenhar nele o contorno das montanhas. Do encontro dessa linha com a grade milimétrica emanava a melodia e, eventualmente, dependendo da habilidade e disposição do estudante ou do professor, o ritmo e a harmonia.
(...) Talvez tudo não passasse de uma anedota, como uma história de Frederic Chopin que o professor espanhol poderia ter contado à minha mãe. Afinal, dizia-se que o compositor das célebres mazurcas divertia- se pregando papéis pautados em árvores e disparando contra eles uma carga de chumbo. Depois, para deleite de George Sand e sua turma boêmia, improvisava melodias no piano de acordo com os buracos. Música disparada, no tempo em que as máquinas fotográficas ainda não faziam clique. (...)
Um leigo despeitado, daqueles que acham que todo artista
é picareta, pode ver nisso uma confirmação de que toda criação artística é uma
vigarice, uma pegadinha. Que a Arte é uma contrafação para fazer de bobas as pessoas
que nunca se interessaram por Arte, que nunca se sentiram à vontade diante
dela, que por uma lacuna de formação viram-se sempre incapazes de decifrar seus
idiomas. No mundo da Arte, tais pessoas sentem-se sempre estrangeiras, sempre
refugiadas, nunca bem-vindas.
Na verdade, os exercícios de Villa-Lobos e a brincadeira
improvisatória de Chopin não são o núcleo-duro do trabalho artistico (que
geralmente é concentrado, é cansativo, exige uma absorção incessante de novos
conhecimentos, exige um pensamento sempre alerta, sempre ligado, como uma luz
sempre acesa). Isso aí são experimentalismos, tentativas meio às cegas,
atividades descontraídas que têm algo de brincadeira com objetivo e algo de pesquisa
sem compromisso.
Chopin usa o acaso para espalhar na partitura as
“bolinhas pretas” das notas musicais. Sai uma música pronta disso aí?
Dificilmente. Mas pode surgir uma forma incompleta de melodia que, percebida
pelo artista, pode ser reelaborada. Pode ser, mais adiante, transformada numa peça
musical séria. Pode resultar numa música executada pelos violinos de praxe,
arrancando do “leigo despeitado” um suspiro de conforto, e quem sabe um
murmúrio de: “Isso sim, é música de verdade...”
Por que tantos artistas plásticos e tantos escritores
usam música, escutam música sem parar enquanto trabalham? Porque a música,
sendo abstrata, emociona sem interferir. Fornece uma sucessão de estados
emocionais que servirão de combustível para que o pintor imagine figuras,
misture cores; ou para que o escritor articule situações e faça brotar diálogos
carregados de significado... Música é energia. Carrega as baterias da alma.
E quantos escritores não gostam de se inspirar folheando
revistas ou álbuns de fotografias? Para muita gente que escreve, basta virar
uma página e encontrar uma foto banal de pessoas anônimas para começar a
imaginar quem são, o que estão fazendo ali, que momento foi aquele que um
fotógrafo captou num clique e foi embora, sem nunca mais pensar naqueles
figurantes desconhecidos – e sem saber que seu clique levou um escriba a passar
dias e noites seguidos contando (criando) a história de gente que nunca
existiu, a partir daquela imagem de gente que talvez nem exista mais, e que nunca
soube que foi fotografada.
quinta-feira, 21 de abril de 2022
4815) Coincidências literárias (21.4.2022)
Existe uma tendência inconsciente da natureza para fazer “rimar” certos fatos dos livros que a gente lê e os fatos da vida real que a gente vive aqui fora?
Todas as obras de Philip K. Dick têm um modo bizarro de nos fazer pensar que foram escritas tendo em mente você, o leitor, o que por um lado é inquietante, e por outro está totalmente em sintonia com a pulsação de paranóia que lateja no âmago de quase todos os seus romances, de um modo ou de outro. Daí, no mesmo dia em que eu li A Maze of Death eu tinha comprado os ingredientes para preparar um carneiro ao curry (mencionado na página 24), assim como tinha recebido, um ou dois dias antes, a encomenda de uma garrafa de uísque Seagram (página 31). (trad. BT)
Para minha coleção de coincidências. Ontem à noite eu estava revendo o filme "As 8 vítimas", onde um cara escreve suas memórias na véspera de ser enforcado. Alguém cita para ele a frase do Dr. Samuel Johnson: "Quando um homem sabe que vai morrer no dia seguinte, sua mente se concentra que é uma beleza". Agora à noite, recebi a circular semanal do saite A Word A Day, onde alguém cita a mesmíssima frase. Qual a chance matemática disso acontecer?
No conto “A Biblioteca de Babel” (1941), Borges imagina uma biblioteca cujos volumes registram todas as combinações possíveis de letras e números – uma quantidade inconcebível, mas não infinita, de palavras. Se todas essas combinações fossem postas por escrito, cedo ou tarde alguns trechos reproduziriam, ao pé da letra, todos os livros escritos pela Humanidade.
quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021
4673) Serendipismo ou serendipidade (11.2.2021)
Para quem ainda não conhece a origem dessa palavra, ela se refere ao conto “Os três príncipes de Serendip” de Horace Walpole, de 1754. O conto se refere à lenda de três príncipes que tinham muita sorte e a toda hora estavam encontrando, de maneira absolutamente casual, coisas das quais tinham grande necessidade.
(...) A história tem uma heroína; e no momento em que ela ergue sua lamparina para admirar a beleza do seu amante adormecido, isso faz com que uma gota de óleo quente caia no ombro dele.(pag. 25, trad. BT)
Nada mais é dito sobre esta cena, mas assim que a li eu a achei familiar. Um homem jovem adormecido, uma mulher entra com uma daquelas lamparinas de óleo, para observá-lo sem ser vista, mas a gota de óleo acorda o rapaz. É uma história conhecida (e é nesse contexto que o personagem a usa como exemplo), mas, de onde?
Imaginei (talvez pela presença da lâmpada a óleo) que fosse algo das Mil e Uma Noites, e deixei pra lá.
No fim da tarde (no mesmíssimo dia), pego ao acaso a revista Locus (dezembro de 2007) e estou lendo uma entrevista de Elizabeth Hand, autora de quem já li alguns contos excelentes. E na página 7 da revista ela diz, sobre um livro que acabara de publicar na época (e que eu não conheço: Generation Loss):
No início, eu tinha imaginado em escrever uma variante da história de Eros e Psiquê. Psiquê se apaixona por Eros, mas quando a gota de óleo quente pinga sobre ele, ela foge, e volta para junto da mãe dele, Afrodite, a qual lhe impõe uma tarefa que ela terá de cumprir para ter seu amado de volta.(trad. BT)
Ou seja, poucas horas depois de surgir a dúvida, veio a resposta, de maneira absolutamente aleatória. (Quando peguei a revista, eu a puxei do meio de um monte de outras, para ter o que ler depois do jantar. Não tinha idéia do conteúdo da entrevista.)
Num artigo (“How To Be Lucky”) na revista online Psyche, Christian Busch argumenta que o serendipismo não é um simples esbarrão casual entre duas coisas parecidas. Há uma estrutura.
https://psyche.co/guides/how-to-open-up-to-serendipity-and-create-your-own-luck
Ele diz que ao contrário do que costumamos pensar o imprevisto não é tão imprevisto assim, nem o inesperado tão inesperado. Temos mecanismos permanentes de atenção contra qualquer surpresa que possa nos ferir ou prejudicar: são mecanismos de defesa. Quando atravessamos uma rua, muitas vezes não olhamos apenas na direção de onde vêm os carros, mas também na direção da contra-mão... porque nunca se sabe.
Busch acha que existe um mecanismo oposto, um mecanismo de atenção para “o inesperado positivo”, que nem todo mundo desenvolve.
Minha pesquisa sugere que o serendipismo tem três características essenciais. Ele começa com um gatilho que o deflagra – o momento em que você encontra algo inusitado ou imprevisto. Depois você precisa ligar os pontos – ou seja, observar esse gatilho e fazer a conexão entre ele e algo aparentemente não relacionado, percebendo assim o valor potencial daquele evento aleatório (às vezes este é referido como “o momento Eureka”). Finalmente, são necessárias sagacidade e tenacidade para avançar nessa direção e produzir o resultado positivo inesperado. O encontro casual de uma informação é um mero evento, mas o serendipismo é um processo multifacetado.
A dica de Busch, bastante óbvia aliás, é de que não basta estar atento a uma bicicleta na contramão (como eu vivo no Rio de Janeiro, onde já escapei dezenas de vezes de ser atropelado): é preciso estar atento às surpresas positivas, às informações randômicas que o mundo faz chover sobre nós.
Temos (diria eu) uma mente-observadora passiva, e uma mente-observadora ativa. A primeira apenas recebe as informações sensoriais, com um mínimo de esforço; é o chamado “piloto automático”. A segunda ataca as informações, cai sobre elas concentradamente, disposta a arrancar o que elas tenham para fornecer.
A mente passiva é aquela com que observamos o mundo da janela de um ônibus, cruzando a cidade, uma atenção dispersa, desfocada, desligada. Para alguma coisa nos “acordar” precisa ser um evento fora do comum: uma batida de carro, uma briga na rua, uma pessoa conhecida que avistamos na calçada.
A mente ativa é a que botamos para funcionar quando estamos ao volante de um carro, num bairro desconhecido, procurando um endereço.
A maioria das pessoas lê livros com a mente passiva, meramente decodificando aquelas palavras em língua portuguesa. (Eu leio assim, com frequência.) Não encara as frases. Não questiona. Não as vira de um lado para o outro. Não interrompe a leitura por meio minuto para pensar naquilo fora do contexto do livro.
Alguém há de se queixar que ler assim é muito lento, muito trabalhoso. Ler pensando cansa. É melhor ler sem pensar, ler apenas decifrando o texto e deixando que ele ecoe na mente, como se fosse a voz de uma professora recitando uma lenga-lenga qualquer enquanto a verdadeira atenção da gente está lá fora, no que a gente vai fazer quando conseguir largar aquele livro.
Se for para ler assim, melhor largar o livro. A pessoa pode até correr os olhos por algumas verdades profundas, ou pelo segredo fundamental do universo, e não tem serendipismo que a salve, porque ela vê mas não é capaz de perceber o que está vendo.
segunda-feira, 23 de novembro de 2020
4644) O Livre Arbítrio e o Destino (23.11.2020)
O determinismo e o livre-arbítrio são duas faces de um problema: até que ponto somos responsáveis pelas nossas ações e podemos interferir nos acontecimentos à nossa volta, moldando-os de acordo com nosso interesse?
Para os que ainda não viram um, é um pequeno aparelho, como o controle remoto que abre a porta do seu carro. Ele exibe apenas um botão e uma grande LED verde. Essa luz pisca quando você aperta o botão. Especificamente, a luz pisca um segundo antes de você apertar o botão. (...) O cerne de cada Preditor é um circuito com um sinal negativo de tempo; ele envia um sinal na direção do passado. (...)
Os médicos tentam argumentar com seus pacientes, quando estes ainda permitem se envolver numa conversação. Estávamos todos vivendo vidas felizes e ativas antes, dizem os doutores, e também nesse tempo não tínhamos livre arbítrio. Por que teria que ser diferente agora? “Nenhuma das ações que você praticou no mês passado foi mais livremente escolhida do que as que você praticou hoje,” dizia um médico. “Você pode continuar se comportando assim.” Os pacientes invariavelmente respondiam: “Mas é que agora eu sei.” E alguns deles jamais voltavam a falar novamente.
Eu sempre senti, desde muito menino, essas coisas que ocorriam, e pareciam coincidências ou casualidades, como que correspondendo a um sistema de leis diferente do sistema de leis aceitável e compreensível para todo mundo. Sentia que quando acontecia um elemento A, seguido de um elemento B – o que as pessoas chamariam de coincidência ou casualidade – havia um terceiro elemento C, que podia ser alcançável, compreensível ou não, mas de todas as maneiras eu sentia que o triângulo, a figura, se fechava. (...) Por exemplo: uma porta batia e eu sentia um cheiro. Então algo em mim sabia que o cachorro ia latir em algum lugar da casa; e o cachorro latia. (p. 80-81)
A literatura é um espaço onde podemos criar modelos de
causalidade, de determinismo, de livre arbítrio, até mesmo de caos
indiferenciado. Porque na literatura de ficção o autor é como o Deus
Todo-Poderoso das antigas religiões, determinando quem nasce e quem morre, quem
faz e quem se omite, quem ganha e quem perde. O Autor é uma espécie de Deus.
Faz parte da nossa cultura acreditar que uma história depende apenas das
decisões de um indivíduo sentado à frente de um teclado.
Um autor possui o livre-arbítrio de colocar ali as
palavras que quiser. Eu posso, por exemplo, escrever frases sem sentido:
gangorra celerado polá polé mardu-konkon natiê. Posso enfileirar letras sem
sentido: ddewyey jddsfg ioewtwtw.
Acontece que esse frenesi espaçoso não pode durar muito
tempo e essa minha liberdade acaba confluindo na direção dos variados gargalos
por onde precisa obrigatoriamente passar – no presente caso, um artigo de blog
que consiga amarrar a atenção de leitores aleatórios. Sou livre, mas não sou
tanto. Posso encher o prefácio com letras caóticas, só para afirmar meu
livre-arbítrio? Posso – mas, e daí? Não posso afirmar minha liberdade assim o
tempo inteiro.
Ninguém negocia mais sua liberdade do que um escritor de
gênero, porque um gênero literário consiste sempre, em última análise, num
conjunto de regras e de fórmulas que precisam ser obedecidas. Mesmo quando um
autor jovem, ambicioso, vanguardeiro, se decide a desobedecê-las, é em função
disto, e delas, que está escrevendo. São elas que indicam a direção, mesmo para
quem se obriga a seguir na direção oposta.
No campo do misticismo, do ocultismo, da fé religiosa e
da superstição, a fatalidade sugere a existência de Poderes muito superiores a
nós e sugere também que todo o nosso destino, até os nossos menores gestos, já
estão “escritos nas estrelas”, são irrecorríveis. Estava escrito que eu iria
escrever estas frases agora.
E o conceito oposto à fatalidade é o conceito da Magia,
segundo o qual temos poderes também, somos capazes de interferir no Destino,
somos capazes de rasurar o que estava escrito no código-fonte do Universo e
criar ali um palimpsesto, um pentimento, um enxerto humano nas linhas da
Vontade Divina.
Toda magia (feitiçaria, bruxaria, etc.) é uma tentativa
de passar por cima da vontade dos deuses, uma gambiarra humana contra a
fatalidade universal, e por isso ela é tantas vezes (na literatura) punida de
uma maneira tão aterrorizante.
quinta-feira, 13 de dezembro de 2018
4413) Cineasta, o administrador de acidentes (13.12.2018)
Orson Welles dizia que um diretor de cinema era na verdade uma
espécie de administrador de acidentes. Interpreto isto como um cara que vai
esbarrando em imprevistos à medida que avança, mas consegue assimilar esses
imprevistos e encaixá-los no projeto. E de repente até consegue usá-los como
trampolins para a imaginação, ou rotas de fuga para fora de um impasse
narrativo.
Tem gente que acha que o cinema profissional é excessivamente
planejado e burocratizado – eu, por exemplo. Mas ele precisa mesmo ser assim,
porque é sujeito a uma quantidade injusta de incógnitas e de variáveis.
São trinta, cinqüenta, cem pessoas (com transporte e alimentação
para todos), toneladas de equipamento, de materiais diversos. Uma logística
complexa que tem necessidade de sol, ou de chuva, ou de vento, ou de mar agitado,
não importa: numa filmagem (que não seja em estúdio) sempre se tem necessidade
de que no dia de amanhã a Natureza se comporte exatamente assim.
Lembro de novo a história de que Nelson Pereira dos Santos
arribou-se do Rio de Janeiro com sua equipe para ir rodar Vidas Secas na Bahia, mas quando chegou lá tinha chovido, o Sertão
estava num verde constrangedor. Nelson hospedou todo mundo, mexeu nuns papéis, escreveu,
rascunhou, e eles fizeram Mandacaru
Vermelho pra não perder a viagem.
Um cineasta que depende do tempo, inclusive meteorológico, é uma
espécie de lavrador, sempre de mão à testa, perscrutando o horizonte. Tal como
o plantador, ele precisa de uma conjunção de conveniências que não dependem
dele.
Isso é na escala mais ampla, mas na escala miúda do dia de
filmagem as coisas não são diferentes. O movimento de câmera imaginado não vai
ser possível por uma razão técnica qualquer, e a cena tem que ser concebida de
novo, de improviso, com a equipe toda esperando.
Uma história do folclore de Hollywood fala da demora de Chaplin
para resolver uma cena crucial de Luzes
da Cidade, onde ele precisava fazer com que a vendedora de flores, que era
cega, pensasse que o vagabundo Carlitos era um sujeito rico. A equipe ficou
ganhando diárias e devorando quentinhas durante dias e mais dias até que o
diretor teve o “eureca!” e filmou a cena. (Ele fez o vagabundo atravessar uma
rua com o sinal fechado passando por dentro de uma limusine com o banco de trás
vazio; ao ouvir a porta da limusine batendo, a cega pensa que ele é o dono do
carro.)
Alguns diretores são extremamente minuciosos no roteiro
justamente para evitar esse tipo de ocorrência; para reduzir ao máximo a chance
de um imprevisto. Alfred Hitchcock e Luís Buñuel eram famosos pela exatidão do
seu planejamento. Hitchcock desenhava tudo em storyboards com tal precisão que,
se quisesse, bem poderia ir para casa e deixar que um assistente qualquer coordenasse
a filmagem em si. Buñuel fazia apenas um take de cada cena, para economizar
negativo, o que deixava os montadores de cabelos brancos, porque se um daqueles
takes se perdesse não teriam um take alternativo para substituí-lo. Roberto
Farias era um diretor meticuloso e prático: Walter Carvalho conta que em Os Trapalhões no Auto da Compadecida praticamente
todos os planos filmados foram usados no filme.
Não se pode aplicar os critérios de um cinema produzido assim a
um outro tipo de cinema onde uma equipe pequena sai para a rua com duas ou três
páginas de diálogos e de indicações, rabiscadas à mão. Esta é um sistema que
não apenas está pronto para acolher o imprevisto, mas também faz dele um
ingrediente essencial.
A definição de Orson Welles citada no início poderia ser
modificada então para “administrador de imprevistos”, porque existem também os
acidentes positivos, que vêm para ajudar, e não para atrapalhar. Tudo que não é
previsto pode gerar numa tensão num filme de preparação muito rígida, mas pode ser
uma resposta bem vinda num tipo de produção que não se importa de acolher o que
lhe cai do céu.
E não só nesse tipo. Stanley Kubrick, durante a produção de 2001, uma Odisséia no Espaço, estava
encalacrado com o problema da famosa sequência em que o computador HAL se
rebela contra os astronautas e tenta assumir sozinho o controle da missão.
Kubrick precisava mostrar que os dois astronautas, interpretados
por Keir Dullea e Gary Lockwood, conspiram entre si para desligar HAL, mas este
toma conhecimento do plano. Foi Lockwood quem sugeriu a Kubrick a idéia de que
os astronautas se trancassem numa pequena cápsula para discutir o assunto, com
o sistema de som desligado, mas o computador fosse capaz de ler os seus lábios,
o que é indicado com movimentos laterais da câmera (ponto de vista de HAL) para
a boca de um e do outro, alternadamente.
Idéias dos atores são bem vindas quando de fato se enquadram no
tom do filme e contribuem para o roteiro. O ator Rutger Hauer, que faz o andróide
Batty em Blade Runner de Riddley
Scott, foi um entusiasta do filme desde o início, um dos que mais
acreditavam estar trabalhando num futuro
clássico do cinema. A cena da morte do andróide no final, na cobertura de um prédio
banhado pela chuva, murmurando lembranças das batalhas que presenciou, e
soltando uma ave que sobe voando ao céu, foi em grande parte uma contribuição
do ator, assimilada e incorporada pelos roteiristas e pelo diretor.
Quando existe esse tipo de sintonia entre diretor e elenco,
qualquer imprevisto pode ser transformado de acidente em efeito. No filme Django Livre de Quentin Tarantino há uma
cena famosa em que Django e seu comparsa estão jantando na mesa de um
fazendeiro (Leonardo DiCaprio) do qual pretendem roubar uma escrava. O fazendeiro
acaba descobrindo; fica furioso, ergue-se na mesa e começa um discurso violento
contra os visitantes e contra os negros em geral.
Na empolgação do discurso, DiCaprio, que segurava uma taça de
vinho, quebrou a taça sem querer e deu um corte fundo na mão, que começou a
sangrar, mas ele continuou “no personagem”, sem interromper a cena, e o diretor
também mandou seguir. Ele esfregou a mão ensangüentada no rosto da escrava, e subiu
o tom do discurso enquanto envolvia a mão num lenço. O pequeno acidente acabou
tornando a cena melhor do que era, devido à capacidade de improvisação do ator
e à percepção do diretor – que se fosse um cara menos experiente talvez tivesse
gritado: “Corta!” ao ver o acidente.
Estes exemplos são exemplos extremos. Cada dia de filmagem, desde
o mais caro blockbuster de super-heróis até um curta-metragem feito por
estudantes, está cheio de exemplos dessa dimensão aleatória do cinema , cuja
essência pode ser definida mais ou menos assim: É indispensável planejar, e é indispensável estar aberto para o que não
pôde ser previsto.
domingo, 1 de fevereiro de 2015
3726) Confluências (1.2.2015)
Alguns anos atrás eu comprei na Berinjela um livro de Jean Gattégno sobre Lewis Carroll. Não é propriamente uma biografia, no sentido cronológico, mas são trinta e tantos capítulos sobre temas específicos como “Fotografia”, “Política”, “Pseudônimos”, “Sexualidade”, “Teatro” e assim por diante. No final, um retrato bem variado do criador de “Alice”. Eu estava de madrugada folheando o livro, quando cheguei à cronologia da vida de Carroll. Dizia a certa altura: “1898: no princípio de janeiro, um leve resfriado evolui para bronquite; Charles Lutwidge Dodgson morreu em paz em 14 de janeiro.” Nesse momento ergui os olhos para o calendário sobre a mesa: estávamos, já, nas primeiras horas de 14 de janeiro, e o ano era 1998. Talvez eu tenha lido essas palavras exatamente cem anos depois que o reverendo bateu o trinta-e-um.
Qual a chance de eu pegar aquele livro (não lembro se foi no
mesmo dia em que o comprei, ou algum tempo depois) justamente no dia da morte
do cara? Eu nunca soube essa data, não
podia ser memória inconsciente. E aliás
não é tão raro. Outra vez, de
madrugada, eu estava lendo as linhas iniciais de The Eye in the Pyramid, um
thriller psicodélico-surreal de Robert Shea e Robert Anton Wilson. O narrador
diz:
“Por exemplo, não estou muito seguro nem sequer a respeito
de quem sou eu, e meu constrangimento nesse aspecto me leva a imaginar se
alguém será capaz de acreditar no que digo.
Pior ainda: neste momento eu estou agudamente consciente de um esquilo,
no Central Park, perto da Rua 68, em Nova York, e esse esquilo está pulando de
um galho para outro, e acho que isso acontece na noite de 23 de abril (ou
madrugada de 24?).”
Preciso dizer? Era
exatamente isso: eu estava começando a ler aquele livro, no qual pegava pela
primeira vez, nas primeiras horas da madrugada de um 24 de abril, o ano não
importa. Nossa geração, felizmente,
criou um jargão para isso: falha na Matrix.
E nomear uma coisa misteriosa com um jargão não reduz seu mistério, mas
facilita a gente pegar aquela coisa e botar no fim de uma lista.
terça-feira, 4 de fevereiro de 2014
3413) Bowie e Burroughs (4.2.2014)
(foto: Terry O'Neill)
Em 1974, a revista Rolling Stone publicou um bate-papo entre
o roqueiro David Bowie e o escritor William Burroughs, ocorrido no ano
anterior, através do repórter Craig Copetas.
Bowie estava no primeiro auge de sua carreira (que teve vários), após o lançamento do álbum Ziggy Stardust; Burroughs, já famoso por livros como Naked Lunch e Nova Express, estava superando uma das suas muitas fases de pindaíba, bebendo muito, escrevendo pouco.
Os dois se conheciam mais de fama do que de obra. Bowie tinha lido Nova Express, Burroughs conhecia duas canções do outro (“Five Years”, “Starman”) mas tinha lido todas as suas letras. (A entrevista completa aqui, em português: http://bit.ly/1b88FE0, e no original: http://bit.ly/1lmyolJ).
Bowie estava no primeiro auge de sua carreira (que teve vários), após o lançamento do álbum Ziggy Stardust; Burroughs, já famoso por livros como Naked Lunch e Nova Express, estava superando uma das suas muitas fases de pindaíba, bebendo muito, escrevendo pouco.
Os dois se conheciam mais de fama do que de obra. Bowie tinha lido Nova Express, Burroughs conhecia duas canções do outro (“Five Years”, “Starman”) mas tinha lido todas as suas letras. (A entrevista completa aqui, em português: http://bit.ly/1b88FE0, e no original: http://bit.ly/1lmyolJ).
Bowie disse:
“Nova Express me fez lembrar de Ziggy Stardust, que pretendo transformar numa performance teatral. São 40 cenas, e seria legal que os atores aprendem todas elas de modo a que a gente pudesse misturá-las num chapéu, à tarde, e determinar a ordem em que seriam encenadas à noite. Peguei essa idéia de você, Bill... a de que tudo poderia ser diferente a cada noite.”
Burroughs foi um defensor de numerosas técnicas para fazer o acaso interferir na criação e/ou apresentação de uma obra de arte, inclusive na literatura.
“Nova Express me fez lembrar de Ziggy Stardust, que pretendo transformar numa performance teatral. São 40 cenas, e seria legal que os atores aprendem todas elas de modo a que a gente pudesse misturá-las num chapéu, à tarde, e determinar a ordem em que seriam encenadas à noite. Peguei essa idéia de você, Bill... a de que tudo poderia ser diferente a cada noite.”
Burroughs foi um defensor de numerosas técnicas para fazer o acaso interferir na criação e/ou apresentação de uma obra de arte, inclusive na literatura.
Falando do aspecto ficção científica do show, Bowie comentou
a dificuldade de conseguir efeitos especiais para reproduzir um “buraco negro”
no palco, e Burroughs comentou:
“Sim, um buraco negro no palco daria uma despesa astronômica. E seria uma performance contínua, engolindo primeiro Shaftesbury Avenue, e depois o resto.”
A FC e a arte de vanguarda eram dois territórios em comum entre artistas tão diferentes; foram também as interfaces que depois levaram Burroughs a trabalhar junto com roqueiras como Patti Smith e Laurie Anderson.
“Sim, um buraco negro no palco daria uma despesa astronômica. E seria uma performance contínua, engolindo primeiro Shaftesbury Avenue, e depois o resto.”
A FC e a arte de vanguarda eram dois territórios em comum entre artistas tão diferentes; foram também as interfaces que depois levaram Burroughs a trabalhar junto com roqueiras como Patti Smith e Laurie Anderson.
Bowie comentou, sobre
novas mídias de então:
“A próxima coisa é o videotape, e depois serão os hologramas. Nesse ínterim, vão ser criadas bibliotecas inteiras de videocassetes. Você não consegue gravar tudo que passa de interessante na sua TV. Eu quero poder escolher minha própria programação. É preciso criar software para isso. (...) A mídia ou é nossa salvação ou nossa morte. Prefiro achar que é salvação.”
“A próxima coisa é o videotape, e depois serão os hologramas. Nesse ínterim, vão ser criadas bibliotecas inteiras de videocassetes. Você não consegue gravar tudo que passa de interessante na sua TV. Eu quero poder escolher minha própria programação. É preciso criar software para isso. (...) A mídia ou é nossa salvação ou nossa morte. Prefiro achar que é salvação.”
Pessoas como Burroughs e Bowie estavam no início desse processo, e a presença ubíqua de ambos na Web é uma mostra dessa afinidade de espírito. Ele reúne o lado mais intelectualmente inquieto do rock, o lado mais lúdico da vanguarda e o lado mais aqui-e-agora da FC.
terça-feira, 29 de maio de 2012
2882) Games e literatura (29.5.2012)
Discussão constante no universo dos games: conciliar a
estrutura fixa de um romance preexistente e a estrutura aberta de um game (cujo
desfecho é uma consequência das ações do jogador).
Num universo que tem cada vez mais adaptado obras literárias (Agatha Christie, Conan Doyle, até Dante Alighieri já foram transpostos para videogames) essa questão é crucial. E ela se parece com uma das questões filosóficas mais sérias do mundo real: Existe o Destino? Nossas vidas são programadas de antemão, ou são nossas ações que determinam o futuro?
Ontem mesmo vi o Fluminense ser eliminado da Libertadores com um gol no último minuto; um jogador afirmou, desconsolado: “Hoje era o dia deles”. Claro que ele se matou em campo tentando ganhar; mas, como nos comportaríamos sabendo que, não importa o nosso esforço, o fim da história é predeterminado?
Num universo que tem cada vez mais adaptado obras literárias (Agatha Christie, Conan Doyle, até Dante Alighieri já foram transpostos para videogames) essa questão é crucial. E ela se parece com uma das questões filosóficas mais sérias do mundo real: Existe o Destino? Nossas vidas são programadas de antemão, ou são nossas ações que determinam o futuro?
Ontem mesmo vi o Fluminense ser eliminado da Libertadores com um gol no último minuto; um jogador afirmou, desconsolado: “Hoje era o dia deles”. Claro que ele se matou em campo tentando ganhar; mas, como nos comportaríamos sabendo que, não importa o nosso esforço, o fim da história é predeterminado?
Este é o problema com a transposição para os games de obras
preexistentes (claro que romances futuros poderão ser escritos de outras formas). O livro-que-já-existe é um universo governado
por um Destino inarredável, pela lei do “estava escrito”.
Num game de Madame Bovary, de O Tempo e o Vento ou de 20 Mil Léguas Submarinas não existe espaço para o livre arbítrio, não há chance de que toda aquela atividade do jogador tenha a mínima influência no resultado. Um final diferente seria a própria negação do livro original. Uma Madame Bovary com final feliz? Isso é Flaubert?!
Num game de Madame Bovary, de O Tempo e o Vento ou de 20 Mil Léguas Submarinas não existe espaço para o livre arbítrio, não há chance de que toda aquela atividade do jogador tenha a mínima influência no resultado. Um final diferente seria a própria negação do livro original. Uma Madame Bovary com final feliz? Isso é Flaubert?!
Um artigo de Matthew Wasteland avalia a possibilidade de
adaptar, digamos, Moby Dick. Ele sugere por exemplo, que seja mantido o essencial
do enredo, e que nos intervalos o jogador possa navegar, caçar baleias,
meter-se em aventuras, etc.
Para muitos, no entanto, isso seria uma enganação. O final estaria pré-fixado, igual ao livro: o Capitão Ahab consegue arpoar a baleia mas é arrastado para o fundo do mar, e Ismael, o narrador, sobrevive “para contar a história”. Todo o esforço do jogador para chegar a outro final teria sido desnecessário, inútil, porque desde o começo estava estabelecido que “era o dia da baleia”. Mas ele diz:
“Se Melville tiver acenado com a possibilidade, mesmo a mais remota, de que Ahab vença, a mensagem do livro e sua interpretação podem mudar. Ao invés de destino e fatalidade, estaremos falando de probabilidade e sorte”.
Imagino que não deva ser difícil conceber um game de tal forma que haja 10% de chance de que o capitão mate a baleia, desde que o jogador tome as decisões adequadas ao longo do jogo.
Pelo visto, os games se prestam mais a adaptar romances pós-modernos, ambíguos, sujeitos a muitas interpretações, onde nunca se pode dizer com certeza “o que de fato aconteceu”.
Para muitos, no entanto, isso seria uma enganação. O final estaria pré-fixado, igual ao livro: o Capitão Ahab consegue arpoar a baleia mas é arrastado para o fundo do mar, e Ismael, o narrador, sobrevive “para contar a história”. Todo o esforço do jogador para chegar a outro final teria sido desnecessário, inútil, porque desde o começo estava estabelecido que “era o dia da baleia”. Mas ele diz:
“Se Melville tiver acenado com a possibilidade, mesmo a mais remota, de que Ahab vença, a mensagem do livro e sua interpretação podem mudar. Ao invés de destino e fatalidade, estaremos falando de probabilidade e sorte”.
Imagino que não deva ser difícil conceber um game de tal forma que haja 10% de chance de que o capitão mate a baleia, desde que o jogador tome as decisões adequadas ao longo do jogo.
Pelo visto, os games se prestam mais a adaptar romances pós-modernos, ambíguos, sujeitos a muitas interpretações, onde nunca se pode dizer com certeza “o que de fato aconteceu”.
quinta-feira, 17 de novembro de 2011
2716) Getúlio, Jânio, Tancredo (17.11.2011)
A política é um gigantesco mecanismo coletivo que repousa, com um peso às vezes injusto, em cima de indivíduos.
É possível prever em linhas gerais o desenrolar e o desfecho de campanhas eleitorais, campanhas de oposição, movimentos de massa pacíficos (“Primavera Árabe”, etc.) ou armados. Nunca se pode saber, porém, como os indivíduos vão reagir àquilo, por mais que os conheçamos.
Um indivíduo é um “x”, uma incógnita, uma variável escorregadia que já nos deu (e nos dará) muitos dribles.
Ano: 1954. Getúlio Vargas é o homem mais idolatrado e mais perseguido do país. Ninguém já teve tanto poder popular quanto ele, por tanto tempo. (Não comparem com D. Pedro II; era outro Brasil.) Perseguido pela oposição e pela imprensa, acusado de corrupção, de ordenar assassinatos, de mergulhar num “mar de lama”.
Imaginava-se que Getúlio fosse capaz de prender, arrebentar, dar outro golpe de Estado, renunciar, vingar-se, pendurar as chuteiras... Fez o que ninguém imaginava: deu um tiro no peito e mudou a História.
Ano: 1961. Jânio Quadros era um político estabanado e veemente, com um discurso moralizante que agradou muito à classe média conservadora e cristã. No poder, fez avanços surpreendentes e teve uma porção de atitudes de Odorico Paraguaçu. Ninguém sabia o que ele faria no dia seguinte; ele próprio parecia não entender o que tinha feito na véspera.
O Brasil apertou o cinto de segurança e preparou-se para quatro anos de turbulência. Com menos de oito meses de governo, Jânio fez o impensável: renunciou. Por quê? Não se sabe. Temos 735 teorias, o que equivale a não ter nenhuma.
Ano: 1985. Eleito presidente pelo Colégio Eleitoral, Tancredo Neves foi um improvável ponto de convergência entre direita, centro, esquerda, conservadores, liberais, o escambau – todos concordaram em que naquele momento ele era a melhor pessoa para assumir o leme do barco.
Uma euforia juvenil fervilhava nas ruas. Depois da derrota do “Diretas Já”, a eleição de Tancredo era uma saborosa vingança. Na véspera da posse, a TV anunciou que o futuro presidente não seria empossado: sofreria uma cirurgia de emergência no hospital de Base de Brasília.
Quem esperava por essa? Ninguém. Nem mesmo José Sarney, que tomou posse no lugar do presidente eleito.
Isto é a política, isto é a História, isto é a vida. Podemos calcular a trajetória dos grandes movimentos sociais. Mas vemos os indivíduos com a incerteza do físico que tenta calcular a velocidade e a posição de uma partícula subatômica.
Na História, o indivíduo não é importante por ser grandioso, genial ou heróico, e sim porque é nele que giram as dobradiças do Imprevisível.
quinta-feira, 13 de janeiro de 2011
2452) O Ultra-Google (13.1.2011)

Este novo fenômeno do mundo digital vem comprovar minha tese de que tudo no mundo se deve ao Acaso, e mesmo os outros fatores que parecem contrabalançá-lo – a Vontade, a Necessariedade, o Determinismo, o Livre Arbítrio, a Convergência Sócio-Estatística – não passam de bolsões isolados no corpo do Acaso, como minúsculas bolhas de ar aprisionadas na massa densa de um iceberg. Uma década atrás, o sonho e xanadu mental de todo brasileiro eram as seis dezenas cabalísticas da Mega-Sena. Hoje, são os oito algarismos do telefone do Ultra-Google. Um programa especial os altera sempre que alguém acerta, de modo que quem tiver essa chance pode fazer um pedido, por mais complexo que seja; depois, não adianta discar de novo, porque o número mudou. Suas chances voltam a ser as mesmas de todo mundo.
Muitos amigos meus devem ter discado esse número por engano e perdido a oportunidade apenas porque estranharam a resposta calma e polida do outro lado da linha: “Ultra-Google. Em que posso servi-lo?”. O primeiro que teve uma resposta à altura foi meu amigo Dedé, da carvoaria, que, respondeu em cima da bucha: “Rapaz, me traga aqui em casa duas dúzias de Skol bem geladinhas, um prato de moela, e uma mulher!” Riu e desligou. Meia hora depois, tocou-lhe à campainha uma moreninha no capricho, com a encomenda em dois isopores. E a conta, claro. Que ele pagou e não se arrependeu. Depois matutou como o Ultra-Google sabia seu endereço, e deduziu que era através da conta do celular com que ligou.
João Paulo, aquele baixinho que trabalha na Chesf, ligou um número aleatório e quando ouviu a resposta disse, pra testar: “Quero uma pizza grande metade calabresa e metade pepperoni, uma Coca dois litros, uma camiseta preta tendo impressa minha foto e meu telefone, o livro novo de Veríssimo e um celular TIM em meu nome”. Meia hora depois recebeu a encomenda, pagou em cheque, e só reclamou do preço da camiseta (50 reais).
Oito números! Parece quase nada, mas vivo tentando, tentando... Jodélzio, que mora aqui no andar de baixo, mangou de mim dizendo que isso era lenda-urbana da operadora para fazer as pessoas ligarem mais e pagarem mais. Fiquei meio dubitativo, mas aí me chegou um email entusiasmado de Germana, que é produtora executiva na Sempre-Vídeo. Ela ligou para um fornecedor (estavam fazendo um longa-metragem sobre Villa-Lobos) e o Ultra-Google atendeu. De mau humor, ela disse: “Preciso de um palacete mobiliado estilo 1930, um trem de ferro e duas orquestras sinfônicas”. Preciso falar mais? O filme já ganhou três prêmios.
Ultra-Google! Por que não pensei nisto antes, por que deixei os americanos mais uma vez passarem na minha frente na árdua maratona das invenções que mudam o mundo? Continuo aqui, celular em punho, polegar infatigável. Meu pedido está pronto e decorado na ponta da língua. É só uma coisa, uma coisinha só, uma coisica de nada, nada, nada-nadinha... Atenda, Ultra-Google, por favor!
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