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sexta-feira, 30 de setembro de 2022

4868) O Universo conspira a meu favor (30.9.2022)




É um truísmo muito antigo, e foi popularizado por Paulo Coelho em alguns dos seus livros místicos. O seu teor é mais ou menos este: “Quando você se envolve na busca de um objetivo, o Universo inteiro conspira a seu favor”.
 
É uma frase muito lembrada sempre que acontece uma coincidência favorável. Vou na barbearia, tem um cliente na minha frente, entro numa livraria para enrolar meia-hora e acho o livro raríssimo que procurava há anos, e está por dez reais. Alguém me encarrega de um trabalho e penso em recorrer a um cara cujo contato perdi há muito tempo; na volta para casa, encontro-o no metrô e o problema está resolvido.
 
Paulo Coelho popularizou essa expressão, mas nos últimos anos já a vejo sendo substituída por “o algoritmo de Deus”. “Rapaz, eu precisava saber urgentemente o autor de uma citação que vi na época da Faculdade, liguei para várias pessoas, aí resolvi relaxar, peguei um livro policial... e lá estava a informação, porque o algoritmo de Deus não perde tempo.”
 
Cabe aqui, portanto, a indagação séria: é possível que o Universo inteiro conspire a favor de uma pessoa, para que ela alcance os seus objetivos? Ou isso não passa apenas de mais uma cenoura de otimismo pendurada diante das ventas de burros-de-carga como eu, para que eu continue “buscando o meu objetivo”, “me esforçando para superar os obstáculos”, “acreditando no meu potencial”, “conquistando meu espaço no mercado de trabalho” e outras receitas da escravitude empreendedorista?
 
Acreditar nisso significaria acreditar que esse Universo Conspirador possui consciência, possui vontade, possui poder de ação localizado, e que ele se importa comigo. Com a minha insetóide presença nas suas entranhas.


Lembro disto porque numa festa de São Pedro em Campina, anos atrás, estávamos em turma tomando alguma coisa ao redor de uma fogueira. Um amigo meu (chamemo-lo Rogério) estava mergulhado na sua tese de doutorado, as dificuldades de pesquisa, as necessidades de consultas bibliográficas. A certa altura, falou que conhecera por acaso, numa parada para abastecer o carro, alguém que tinha um documento científico obscuro do qual ele precisava; e saiu-se, bem satisfeito, com essa bendita frase sobre o Universo.
 
Eu tinha tomado algumas doses de Matuta e resolvi cortar o trunfo dele. Acendi um cigarro e perguntei:
 
– Tu acredita mesmo que o Universo, um departamento tão ocupado, larga as suas tarefas mais urgentes só pra ajudar na tua pesquisa?
 
– Não é assim que funciona – replicou Rogério, que não é bobo. – O que estou dizendo é que nas ações humanas existe um sistema invisível de correspondências, uma espécie de convergência estatística. A nossa percepção individual aprende isso de forma empírica e não-verbalizada ao longo da vida.
 
– Converse mais que eu pago seu lanche – disse alguém.
 
– Vocês são uns fariseus do conhecimento – rebateu ele. – Só acreditam no que diz no Manual. Pois eu digo a vocês que o Universo percebe, sim, o que nós precisamos, e age de acordo.
 
– Ele manda botar um livro numa prateleira dum sebo só porque viu que você dobrou aquela esquina e vai passar na frente?
 
– Não é assim tão simples. Há linhas de convergência. Enquanto minha mente consciente se preocupa com a necessidade da informação, há camadas mais profundas avaliando: Onde pode haver esse dado? Que tipo de livro? Que tipo de local acessível? Como estimular a Mente Consciente dele, essa senhora tão pedante e egocêntrica, a procurar a informação no lugar mais provável?
 
– E se a informação estiver num açougue, numa sapataria ou numa lanchonete?
 
– Não está, é claro. O Universo não é caótico. Há linhas de convergência.
 
– Eu já passei semanas numa biblioteca atrás de um dado qualquer e não achei – disse alguém. – O Universo estava de mal comigo?
 
– Eu poderia dizer que é porque você não estava suficientemente focado no seu objetivo – disse Rogério, – mas prefiro ser diplomático e dizer: Nem tudo na vida dá certo sempre. Por que teria de ser assim? São processos instáveis, sujeitos à influência de muitas variáveis. Às vezes você até pegou o livro certo, onde estava o tal dado; mas se interessou pelo título de outro capítulo e foi noutra direção... coisas assim.



– Mas por que motivo o Universo simpatizaria com um ser humano? – questionei. – Muito paternalista esse seu Universo. Muito bonachão... um universo querendo ajudar os jovens... Isso é coisa de quem já estudou em Seminário.
 
Toquei no calcanhar-de-Aquiles dele, que abespinhou-se.
 
– Existe uma energia subjacente, que permeia tudo – afirmou. – Nós somos sensíveis a ela, e ela a nós.
 
– Por que essa energia não salvou Saulinho? – disse alguém. Saulinho era um amigo nosso que tinha sido atropelado na véspera e estava no hospital, enclausurado em gesso.
 
– Excelente exemplo – tornou Rogério. – As sociedades humanas se organizam de um modo muito semelhante à dinâmica dos fluxos da energia natural. O trânsito precisa fluir, certo? Fluxos convergentes precisam parar de vez em quando para dar vez ao outro, e depois retomar seu curso. Saulinho é um abestado, vinha pensando na namorada e entrou no fluxo errado.
 
– E aí o Universo conspirou contra ele.
 
– Não “conspirou”, criatura. Isso é terminologia de filme de James Bond. As energias do universo circulam de acordo com lei do menor esforço, lei da economia energética... Quando estiver num avião, olhe a trajetória de um rio. O que é aquilo? Água solta, sendo atraída para o “centro virtual da Terra”, e procurando caminho ao longo de um terreno acidentado. A energia invisível é a mesma coisa. A gente larga uma balsa no rio e o rio vai levando, sem precisar de vela, de remos, de nada. Isso seria um exemplo do “conspirar a favor”, mas na verdade o que ocorre? A gente entende como aquela água está se comportando, e usa a nosso favor. Apenas isso.
 
– São as leis na Natureza – disse alguém que finalmente achou um meio de entrar na conversa.
 
– Chamar isso de leis é o mesmo que chamar de conspiração. Não são “leis”. São constantes, padrões de regularidade da matéria. A matéria se comporta de modo coerente. Temperatura, pressão, movimento, aceleração, ciclos biológicos, tudo isso se comporta de maneira constante, e a gente estuda isso há 10 mil anos.
 
– Mais – disse eu.
 
Ele fez um gesto de olímpico desdém, e prosseguiu:
 
– São detalhes. O homem usou o ímã, o magnetismo metálico, durante milênios, sem saber por que acontecia aquilo, mas entendendo como, e pronto. O conhecimento vai galgando degraus, de um em um.



Eu voltei à carga:
 
– Certo. Mas esse fato que você contou. O carro da UFCG parou para abastecer no Riachão. Vocês aproveitaram para tomar um café. Ficaram conversando, aproximou-se um cara que reconheceu você de uma palestra anos atrás. Puxou um assunto, depois outro, você descobriu que ele tinha a cópia de uma pesquisa de um professor dele, de “xis” anos atrás...
 
– Sim. Desculpe ter falado em conspiração-a-favor. Na verdade, foi uma convergência. Se eu faço uma palestra sobre um tema científico para 200 pessoas do ramo, estou lançando 200 anzóis com isca, sabendo da possibilidade de que mais cedo ou mais tarde algum dos 200 pegue num documento precioso e pense: “Ih rapaz, professor Rogério da UFCG mexe com isso... será que ele se interessa?...”  Convergências.
 
– E quem fez o carro parar para abastecer justamente ali, naquela hora?
 
– O Acaso. Um lance de dados jamais abolirá o Acaso.
 
– Então basta só esperar pelo Acaso.
 
– O Acaso funciona muito pouco com quem está esperando. Estar parado é fechar janelas de possibilidade. Estar em atividade constante é abrir, multiplicar janelas. Se eu não tivesse encontrado o cara lá no Riachão, talvez batesse com ele uma semana depois, um mês...
 
– Ou talvez depois de ter publicado a tese com um buraco no meio.
 
– E daí? Toda tese tem mais buracos do que a defesa da Seleção Brasileira. E a gente precisa ajudar o Acaso. Precisa ser como aquele atacante que estava de costas para o gol, numa confusão dentro da área, a bola bateu na trave, bateu nas costas dele e entrou. Se ele não estivesse ali, o gol não acontecia.
 
– Coitado de Saulinho! – disse alguém. E bebemos à saúde dele.
 
 





quinta-feira, 15 de setembro de 2022

4863) A arte aleatória (15.9.2022)



(Heitor Villa-Lobos)


Há um pequeno ensaio de Julio Cortázar, em seu livro-almanaque A Volta ao Dia em 80 Mundos, com o título de “Eu poderia dançar esta cadeira, disse Isadora”.
 
É possível “dançar uma cadeira”? Sim, se você é Isadora Duncan, a bailarina que fez uma revolução na dança moderna, expandindo o espaço gestual do balé clássico para assimilar outros movimentos, outros impulsos coreográficos, outras relações com o palco e com o público, e assim por diante.
 
Isadora sugeria (ou é Cortázar quem sugere, nem lembro mais) que é possível olhar para uma cadeira e ver o artesanato que a produziu, a relação entre matéria e forma (ou seja, madeira e design), captar a impressão geral que ela produz – de pesada solidez, de leveza sofisticada, de simplicidade rústica, de impessoalidade industrial – e reproduzi-la através de movimentos de dança.
 
É possível? Talvez sim, talvez não... Em todo caso, é um desafio. Por que não tentar?
 
Em última análise, não é muito diferente de pegar um livro como Guerra e Paz de Leon Tolstoi, que demanda algumas dezenas de horas de leitura, e transformá-lo, “dançá-lo”, num filme de uma hora e meia. E tantos outros exemplos por aí.
 
Adaptar é traduzir. Se Rubens Figueiredo traduziu Guerra e Paz do russo para o português, King Vidor o traduziu da literatura para o cinema.
 
E tanto a tradução quanto a adaptação são atos criativos, mesmo sendo atos condicionados, restritos, presos a limitações obrigatórias. Não se pode (em princípio) colocar na tradução algo que não estava no original. Mas mesmo para colocar o que já estava, é preciso criar, é preciso ser imaginativo, porque sempre se trata de dançar uma cadeira.
 
A perda recente do prof. Maurício Lissovsky, falecido no Rio de Janeiro, fez alguns amigos compartilharem nas redes sociais alguns textos seus, e um deles me chamou a atenção porque tocava exatamente ness questão de criar algo tendo como ponto de partida um estímulo de natureza completamente diferente.
 
O artigo completo de Maurício, cujo tema era a fotografia, está aqui:
https://revistazum.com.br/radar/fotografia-e-musica/
 
A certa altura, ele diz:
 
Isso foi em 1950 ou 1951. O maestro Heitor Villa-Lobos entrou em uma das turmas do Conservatório Nacional de Canto Orfeônico no Rio de Janeiro, colocou uma fotografia no quadro e perguntou aos alunos: “e então, que música ela toca?”. Não era a primeira vez que surpreendia os estudantes com uma proposta inesperada. Gostava de improvisar – todo mundo sabia. 
 
(...)   A fotografia circulou entre os alunos. A silhueta das montanhas era copiada em um papel, e as notas musicais eram distribuídas, a critério de cada um, pelos picos e vales, suas durações e intervalos sugeridos pelo relevo. No final do exercício, cada aluno, de olho na linha melódica que escrevera, cantava a sua “cordilheira”. Encerrada a aula, Villa sugeriu que procurassem fazer a mesma coisa olhando as montanhas do Rio. 
 
(...)  O método de composição – que era igualmente um instrumento pedagógico – foi denominado “Gráfico para fixar a melodia das montanhas” e consistia em cobrir uma fotografia com papel de seda milimetrado e desenhar nele o contorno das montanhas. Do encontro dessa linha com a grade milimétrica emanava a melodia e, eventualmente, dependendo da habilidade e disposição do estudante ou do professor, o ritmo e a harmonia. 
 
(...)   Talvez tudo não passasse de uma anedota, como uma história de Frederic Chopin que o professor espanhol poderia ter contado à minha mãe. Afinal, dizia-se que o compositor das célebres mazurcas divertia- se pregando papéis pautados em árvores e disparando contra eles uma carga de chumbo. Depois, para deleite de George Sand e sua turma boêmia, improvisava melodias no piano de acordo com os buracos. Música disparada, no tempo em que as máquinas fotográficas ainda não faziam clique.  (...) 



Um leigo despeitado, daqueles que acham que todo artista é picareta, pode ver nisso uma confirmação de que toda criação artística é uma vigarice, uma pegadinha. Que a Arte é uma contrafação para fazer de bobas as pessoas que nunca se interessaram por Arte, que nunca se sentiram à vontade diante dela, que por uma lacuna de formação viram-se sempre incapazes de decifrar seus idiomas. No mundo da Arte, tais pessoas sentem-se sempre estrangeiras, sempre refugiadas, nunca bem-vindas.
 
Na verdade, os exercícios de Villa-Lobos e a brincadeira improvisatória de Chopin não são o núcleo-duro do trabalho artistico (que geralmente é concentrado, é cansativo, exige uma absorção incessante de novos conhecimentos, exige um pensamento sempre alerta, sempre ligado, como uma luz sempre acesa). Isso aí são experimentalismos, tentativas meio às cegas, atividades descontraídas que têm algo de brincadeira com objetivo e algo de pesquisa sem compromisso.
 
Chopin usa o acaso para espalhar na partitura as “bolinhas pretas” das notas musicais. Sai uma música pronta disso aí? Dificilmente. Mas pode surgir uma forma incompleta de melodia que, percebida pelo artista, pode ser reelaborada. Pode ser, mais adiante, transformada numa peça musical séria. Pode resultar numa música executada pelos violinos de praxe, arrancando do “leigo despeitado” um suspiro de conforto, e quem sabe um murmúrio de: “Isso sim, é música de verdade...”
 
Por que tantos artistas plásticos e tantos escritores usam música, escutam música sem parar enquanto trabalham? Porque a música, sendo abstrata, emociona sem interferir. Fornece uma sucessão de estados emocionais que servirão de combustível para que o pintor imagine figuras, misture cores; ou para que o escritor articule situações e faça brotar diálogos carregados de significado... Música é energia. Carrega as baterias da alma.
 
E quantos escritores não gostam de se inspirar folheando revistas ou álbuns de fotografias? Para muita gente que escreve, basta virar uma página e encontrar uma foto banal de pessoas anônimas para começar a imaginar quem são, o que estão fazendo ali, que momento foi aquele que um fotógrafo captou num clique e foi embora, sem nunca mais pensar naqueles figurantes desconhecidos – e sem saber que seu clique levou um escriba a passar dias e noites seguidos contando (criando) a história de gente que nunca existiu, a partir daquela imagem de gente que talvez nem exista mais, e que nunca soube que foi fotografada.


(Maurício Lissovsky)








quinta-feira, 21 de abril de 2022

4815) Coincidências literárias (21.4.2022)



Existe uma tendência inconsciente da natureza para fazer “rimar” certos fatos dos livros que a gente lê e os fatos da vida real que a gente vive aqui fora?
 
Parece às vezes que os dados viciados do Destino teimam em jogar em cima do feltro verde da existência um 5 e 5, ou um 3 e 3, ou os olhos da cobra (1 e 1) ou as duas caveiras dando risada (6 e 6)...
 
Minha mente racional me diz que não. Diz que é apenas a minha percepção ligada, acesa, que acaba registrando quando, entre mil estímulos sucessivos ou alternados, aparecem dois com alguma coisa em comum.
 
Por exemplo, hoje estou lendo alternadamente um livro da dinamarquesa Karen Blixen (Sete Contos Góticos, 1934) e um do pernambucano Hermilo Borba Filho (Margem das Lembranças, 1976) e em dois dias consecutivos leio, num e no outro, cenas em que na hora de um casamento o noivo “dá no pé”, “capa o gato”, escafede-se, eclipsa-se, celibata-se para sempre e deixa a noiva desmaiada de vergonha diante dos convidados e da congregação. Coincidência? Lugares comuns que se repetem?  É. Pode ser.
 
Num saite dedicado à obra de Philip K. Dick (ele próprio um farejador emérito de recados da Esfera Armilar da Consciência Cósmica) vejo o recado preocupado de um leitor dizendo:
 
Todas as obras de Philip K. Dick têm um modo bizarro de nos fazer pensar que foram escritas tendo em mente você, o leitor, o que por um lado é inquietante, e por outro está totalmente em sintonia com a pulsação de paranóia que lateja no âmago de quase todos os seus romances, de um modo ou de outro. Daí, no mesmo dia em que eu li A Maze of Death eu tinha comprado os ingredientes para preparar um carneiro ao curry (mencionado na página 24), assim como tinha recebido, um ou dois dias antes, a encomenda de uma garrafa de uísque Seagram (página 31). (trad. BT)
 
Mais uma vez, os Amanuenses da Banalidade argumentarão que são comidas e bebidas estatisticamente frequentes no mundo em que Dick e o leitor viviam. Dada a quantidade de pequenos elementos do cotidiano usados nesses romances para lhes dar verossimilhança ambiental (marcas de carros, de bebidas, de eletrodomésticos, nomes de filmes, canções que tocam no rádio, etc.) difícil vai ser colocar um detalhe que não acabe sendo visto como coincidência por algum leitor desses livros. Livros cujas tiragens certamente estão na casa das centenas de milhares de cópias, no mundo inteiro.
 
Comigo acontecem coisas assim o tempo todo.
 
Em novembro, estava eu de banho tomado e roupa trocada esperando um Uber que me levaria para fazer uma palestra em Itaipava (RJ), e ao ler um conto de Ana Rusche vejo uma menção a Itaipava. (A sensação, philipkdickiana, é de que o livro nos pisca o olho e cochicha: “Estou sabendo da sua agenda”.)
 
Dias depois, no café da manhã, li uma citação de Jorge Luís Borges (no livro Curso de Literatura Inglesa) de um verso de um poeta inglês que se referia a “the ghost of a rose”. Algumas horas depois, no mesmo dia, vi uma postagem no Facebook sobre o fotógrafo Jean Manzon. Ele teria penetrado meio disfarçadamente na casa de saúde onde o bailarino Nijinski estava internado (com uma crise psíquica) e para fotografá-lo botou na vitrola o disco de Weber, “Le spectre de la rose”, que Nijinski havia dançado: com isso, extraiu dele uma reação emocional e fez a foto.
 
O Amanuense da Banalidade me explica que eu sou um indivíduo que lê dezenas de páginas por dia, e de quebra ainda passa entre três e cinco horas fiscalizando as redes sociais e as publicações eletrônicas online. Uma pessoa assim entra em contato, todo dia, com milhares de nomes, títulos, marcas, etc.  De vez em quando, duas dessas referências ocorrem no mesmo dia. O espantoso seria se isso nunca acontecesse.
 
Uma anotação de 9 de setembro de 2021 diz (transcrevo):
 
Para minha coleção de coincidências. Ontem à noite eu estava revendo o filme "As 8 vítimas", onde um cara escreve suas memórias na véspera de ser enforcado. Alguém cita para ele a frase do Dr. Samuel Johnson: "Quando um homem sabe que vai morrer no dia seguinte, sua mente se concentra que é uma beleza". Agora à noite, recebi a circular semanal do saite A Word A Day, onde alguém cita a mesmíssima frase. Qual a chance matemática disso acontecer?
 
No conto “A Biblioteca de Babel” (1941), Borges imagina uma biblioteca cujos volumes registram todas as combinações possíveis de letras e números – uma quantidade inconcebível, mas não infinita, de palavras. Se todas essas combinações fossem postas por escrito, cedo ou tarde alguns trechos reproduziriam, ao pé da letra, todos os livros escritos pela Humanidade.
 
A Borges isso não basta – ele postula que caberiam também todas as versões truncadas ou levemente distorcidas de cada um desses livros, todas as versões que diferem entre si em apenas uma palavra ou uma letra.
 
E de vez em quando, no meio de léguas de páginas cobertas com “nsdbdgdt iegsh t2tsdk hrury”  apareceriam palavras como “a cãibra de gesso”, e ficaríamos maravilhados com a coincidência dessas letras surgirem assim, tão bem compostas, parecendo uma coisa intencional.
 
O que é a coincidência? Segundo os filósofos, tudo é coincidência, tudo coincide, uma vez que tudo está presente, lado a lado. O que nos inquieta e nos fascina é a coincidência significativa, a coincidência na qual a mente humana é capaz de projetar um possível significado. Ao Universo, para quem essas coisas são indiferentes, o fato de num banco do metrô sentarem lado a lado dois indivíduos chamados Ademir é um fato irrelevante, uma fatalidade estatística. Para um ser humano, criatura que se move num labirinto onírico de objetivos, finalidades, causas-e-efeitos, isso parece indicar um recado misterioso, uma intenção secreta.
 
 





quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

4673) Serendipismo ou serendipidade (11.2.2021)




Para quem ainda não conhece a origem dessa palavra, ela se refere ao conto “Os três príncipes de Serendip” de Horace Walpole, de 1754. O conto se refere à lenda de três príncipes que tinham muita sorte e a toda hora estavam encontrando, de maneira absolutamente casual, coisas das quais tinham grande necessidade.
 
A palavra em inglês para essa tendência afortunada é “serendipity”, que algumas pessoas traduzem como serendipismo, serendipidade, serendiptismo ou serendipitia. É uma palavra ótima, o problema dela é ser pouco sonora.
 
A base do serendipismo é a coincidência, ou seja, a convergência de duas coisas que não têm nada a ver uma com a outra. Você está precisando saber, por exemplo, o nome do autor do conto “Os três príncipes de Serendip”. Está numa casa de praia, sem biblioteca, sem internet, sem telefone. Abre ao acaso uma revista velha, numa pilha enorme. Lá no meio acha uma foto: “Esta é a mansão inglesa onde moraram figuras ilustres como Horace Walpole, autor do conto Os três príncipes de Serendip...”
 
Parece inventado? Comigo acontece com frequência. Vou dar um exemplo recente, tão preciso que anotei.
 
Ano passado, eu estava lendo (pela primeira vez) um conto de Isak Dinesen, no livro Last Tales (Vintage, New York, 1991): “The Cardinal’s First Tale”. Nele, um cardeal e uma dama aristocrata estão conversando sobre a arte de contar histórias, e a certa altura ele exemplifica:
 
(...) A história tem uma heroína; e no momento em que ela ergue sua lamparina para admirar a beleza do seu amante adormecido, isso faz com que uma gota de óleo quente caia no ombro dele.
(pag. 25, trad. BT)
 
Nada mais é dito sobre esta cena, mas assim que a li eu a achei familiar. Um homem jovem adormecido, uma mulher entra com uma daquelas lamparinas de óleo, para observá-lo sem ser vista, mas a gota de óleo acorda o rapaz. É uma história conhecida (e é nesse contexto que o personagem a usa como exemplo), mas, de onde?
 
Imaginei (talvez pela presença da lâmpada a óleo) que fosse algo das Mil e Uma Noites, e deixei pra lá.
 
No fim da tarde (no mesmíssimo dia), pego ao acaso a revista Locus (dezembro de 2007) e estou lendo uma entrevista de Elizabeth Hand, autora de quem já li alguns contos excelentes. E na página 7 da revista ela diz, sobre um livro que acabara de publicar na época (e que eu não conheço: Generation Loss):
 
No início, eu tinha imaginado em escrever uma variante da história de Eros e Psiquê. Psiquê se apaixona por Eros, mas quando a gota de óleo quente pinga sobre ele, ela foge, e volta para junto da mãe dele, Afrodite, a qual lhe impõe uma tarefa que ela terá de cumprir para ter seu amado de volta.
(trad. BT)
 
Ou seja, poucas horas depois de surgir a dúvida, veio a resposta, de maneira absolutamente aleatória. (Quando peguei a revista, eu a puxei do meio de um monte de outras, para ter o que ler depois do jantar. Não tinha idéia do conteúdo da entrevista.)
 
Num artigo (“How To Be Lucky”) na revista online Psyche, Christian Busch argumenta que o serendipismo não é um simples esbarrão casual entre duas coisas parecidas. Há uma estrutura.
 
https://psyche.co/guides/how-to-open-up-to-serendipity-and-create-your-own-luck
 
Ele diz que ao contrário do que costumamos pensar o imprevisto não é tão imprevisto assim, nem o inesperado tão inesperado. Temos mecanismos permanentes de atenção contra qualquer surpresa que possa nos ferir ou prejudicar: são mecanismos de defesa. Quando atravessamos uma rua, muitas vezes não olhamos apenas na direção de onde vêm os carros, mas também na direção da contra-mão... porque nunca se sabe.
 
Busch acha que existe um mecanismo oposto, um mecanismo de atenção para “o inesperado positivo”, que nem todo mundo desenvolve.
 
Minha pesquisa sugere que o serendipismo tem três características essenciais. Ele começa com um gatilho que o deflagra – o momento em que você encontra algo inusitado ou imprevisto. Depois você precisa ligar os pontos – ou seja, observar esse gatilho e fazer a conexão entre ele e algo aparentemente não relacionado, percebendo assim o valor potencial daquele evento aleatório (às vezes este é referido como “o momento Eureka”). Finalmente, são necessárias sagacidade e tenacidade para avançar nessa direção e produzir o resultado positivo inesperado. O encontro casual de uma informação é um mero evento, mas o serendipismo é um processo multifacetado.
 
A dica de Busch, bastante óbvia aliás, é de que não basta estar atento a uma bicicleta na contramão (como eu vivo no Rio de Janeiro, onde já escapei dezenas de vezes de ser atropelado): é preciso estar atento às surpresas positivas, às informações randômicas que o mundo faz chover sobre nós.
 
Temos (diria eu) uma mente-observadora passiva, e uma mente-observadora ativa. A primeira apenas recebe as informações sensoriais, com um mínimo de esforço; é o chamado “piloto automático”. A segunda ataca as informações, cai sobre elas concentradamente, disposta a arrancar o que elas tenham para fornecer.
 
A mente passiva é aquela com que observamos o mundo da janela de um ônibus, cruzando a cidade, uma atenção dispersa, desfocada, desligada. Para alguma coisa nos “acordar” precisa ser um evento fora do comum: uma batida de carro, uma briga na rua, uma pessoa conhecida que avistamos na calçada.
 
A mente ativa é a que botamos para funcionar quando estamos ao volante de um carro, num bairro desconhecido, procurando um endereço.
 
A maioria das pessoas lê livros com a mente passiva, meramente decodificando aquelas palavras em língua portuguesa. (Eu leio assim, com frequência.) Não encara as frases. Não questiona. Não as vira de um lado para o outro. Não interrompe a leitura por meio minuto para pensar naquilo fora do contexto do livro.
 
Alguém há de se queixar que ler assim é muito lento, muito trabalhoso. Ler pensando cansa. É melhor ler sem pensar, ler apenas decifrando o texto e deixando que ele ecoe na mente, como se fosse a voz de uma professora recitando uma lenga-lenga qualquer enquanto a verdadeira atenção da gente está lá fora, no que a gente vai fazer quando conseguir largar aquele livro.
 
Se for para ler assim, melhor largar o livro. A pessoa pode até correr os olhos por algumas verdades profundas, ou pelo segredo fundamental do universo, e não tem serendipismo que a salve, porque ela vê mas não é capaz de perceber o que está vendo.
 
 





segunda-feira, 23 de novembro de 2020

4644) O Livre Arbítrio e o Destino (23.11.2020)




O determinismo e o livre-arbítrio são duas faces de um problema: até que ponto somos responsáveis pelas nossas ações e podemos interferir nos acontecimentos à nossa volta, moldando-os de acordo com nosso interesse?
 
Como os filósofos discutem esta questão há milênios, não serei eu a lançar uma luz inédita sobre o assunto. Posso, no entanto, escolher alguns exemplos dentro da literatura, não da Filosofia, para ilustrar essa questão mais que antiga e mais que fascinante.
 
Existem dois tipos de histórias: aquelas onde os seres humanos estão sujeitos a um Destino irrecorrível, inapelável, um Destino de ferro. E existem aquelas onde, mediante alguma forma de Poder adquirido, eles conseguem impor sua vontade, seu interesse, seu arbítrio, e fugir ao que parecia ser um Destino traçado.
 
Na ficção científica, seriam aquelas histórias em que Viajantes no Tempo se transportam para o Passado e tentam mudar a História, mas não o conseguem porque o Destino é inegociável; ou então a modificam sem querer, de forma desastrada, pelo chamado “efeito borboleta”, onde pequenas alterações têm consequências gigantescas.
 
Na literatura fantástica, seriam, respectivamente, as histórias de Fatalidade e as histórias de Magia – porque a Magia é basicamente o comércio oculto, clandestino e ritualizado com esses poderes desconhecidos.




Claro que para os adeptos do Determinismo basta uma coisa acontecer para já estar decidida há um milhão de anos, como dizia Nelson Rodrigues de certos resultados no futebol. Um conto recente de Ted Chiang (“What’s Expected of Us”, no livro Exhalation, 2019) propõe um pequeno aparelho destinado a destruir a idéia de livre arbítrio: o Preditor. Explica ele:
 
Para os que ainda não viram um, é um pequeno aparelho, como o controle remoto que abre a porta do seu carro. Ele exibe apenas um botão e uma grande LED verde. Essa luz pisca quando você aperta o botão. Especificamente, a luz pisca um segundo antes de você apertar o botão. (...) O cerne de cada Preditor é um circuito com um sinal negativo de tempo; ele envia um sinal na direção do passado. (...) 
 
Não importam os truques e negaceios executados pelo usuário, estes dois fatos sempre aparecem nessa ordem, com um segundo de intervalo: a luz se acende, e o usuário aperta o botão. Aos poucos, as pessoas percebem que é impossível desobedecer a isto. E ele adverte:
 
Os médicos tentam argumentar com seus pacientes, quando estes ainda permitem se envolver numa conversação. Estávamos todos vivendo vidas felizes e ativas antes, dizem os doutores, e também nesse tempo não tínhamos livre arbítrio. Por que teria que ser diferente agora?  “Nenhuma das ações que você praticou no mês passado foi mais livremente escolhida do que as que você praticou hoje,” dizia um médico. “Você pode continuar se comportando assim.” Os pacientes invariavelmente respondiam: “Mas é que agora eu sei.” E alguns deles jamais voltavam a falar novamente.
 
Julio Cortázar (em O Fascínio das Palavras – Entrevistas com Omar Prego, Rio, José Olympío, 1991, trad. Eric Nepomuceno) dá um exemplo de sua percepção do Fantástico como um fenômeno de causalidade estranha:
 
Eu sempre senti, desde muito menino, essas coisas que ocorriam, e pareciam coincidências ou casualidades, como que correspondendo a um sistema de leis diferente do sistema de leis aceitável e compreensível para todo mundo. Sentia que quando acontecia um elemento A, seguido de um elemento B – o que as pessoas chamariam de coincidência ou casualidade – havia um terceiro elemento C, que podia ser alcançável, compreensível ou não, mas de todas as maneiras eu sentia que o triângulo, a figura, se fechava. (...) Por exemplo: uma porta batia e eu sentia um cheiro. Então algo em mim sabia que o cachorro ia latir em algum lugar da casa; e o cachorro latia. (p. 80-81)



A literatura é um espaço onde podemos criar modelos de causalidade, de determinismo, de livre arbítrio, até mesmo de caos indiferenciado. Porque na literatura de ficção o autor é como o Deus Todo-Poderoso das antigas religiões, determinando quem nasce e quem morre, quem faz e quem se omite, quem ganha e quem perde. O Autor é uma espécie de Deus. Faz parte da nossa cultura acreditar que uma história depende apenas das decisões de um indivíduo sentado à frente de um teclado.
 
Um autor possui o livre-arbítrio de colocar ali as palavras que quiser. Eu posso, por exemplo, escrever frases sem sentido: gangorra celerado polá polé mardu-konkon natiê. Posso enfileirar letras sem sentido: ddewyey jddsfg ioewtwtw.

 
Acontece que esse frenesi espaçoso não pode durar muito tempo e essa minha liberdade acaba confluindo na direção dos variados gargalos por onde precisa obrigatoriamente passar – no presente caso, um artigo de blog que consiga amarrar a atenção de leitores aleatórios. Sou livre, mas não sou tanto. Posso encher o prefácio com letras caóticas, só para afirmar meu livre-arbítrio? Posso – mas, e daí? Não posso afirmar minha liberdade assim o tempo inteiro.
 
Ninguém negocia mais sua liberdade do que um escritor de gênero, porque um gênero literário consiste sempre, em última análise, num conjunto de regras e de fórmulas que precisam ser obedecidas. Mesmo quando um autor jovem, ambicioso, vanguardeiro, se decide a desobedecê-las, é em função disto, e delas, que está escrevendo. São elas que indicam a direção, mesmo para quem se obriga a seguir na direção oposta.
 
No campo do misticismo, do ocultismo, da fé religiosa e da superstição, a fatalidade sugere a existência de Poderes muito superiores a nós e sugere também que todo o nosso destino, até os nossos menores gestos, já estão “escritos nas estrelas”, são irrecorríveis. Estava escrito que eu iria escrever estas frases agora.
 
E o conceito oposto à fatalidade é o conceito da Magia, segundo o qual temos poderes também, somos capazes de interferir no Destino, somos capazes de rasurar o que estava escrito no código-fonte do Universo e criar ali um palimpsesto, um pentimento, um enxerto humano nas linhas da Vontade Divina.
 
Toda magia (feitiçaria, bruxaria, etc.) é uma tentativa de passar por cima da vontade dos deuses, uma gambiarra humana contra a fatalidade universal, e por isso ela é tantas vezes (na literatura) punida de uma maneira tão aterrorizante.
 
 







quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

4413) Cineasta, o administrador de acidentes (13.12.2018)



Orson Welles dizia que um diretor de cinema era na verdade uma espécie de administrador de acidentes. Interpreto isto como um cara que vai esbarrando em imprevistos à medida que avança, mas consegue assimilar esses imprevistos e encaixá-los no projeto. E de repente até consegue usá-los como trampolins para a imaginação, ou rotas de fuga para fora de um impasse narrativo.

Tem gente que acha que o cinema profissional é excessivamente planejado e burocratizado – eu, por exemplo. Mas ele precisa mesmo ser assim, porque é sujeito a uma quantidade injusta de incógnitas e de variáveis.

São trinta, cinqüenta, cem pessoas (com transporte e alimentação para todos), toneladas de equipamento, de materiais diversos. Uma logística complexa que tem necessidade de sol, ou de chuva, ou de vento, ou de mar agitado, não importa: numa filmagem (que não seja em estúdio) sempre se tem necessidade de que no dia de amanhã a Natureza se comporte exatamente assim.

Lembro de novo a história de que Nelson Pereira dos Santos arribou-se do Rio de Janeiro com sua equipe para ir rodar Vidas Secas na Bahia, mas quando chegou lá tinha chovido, o Sertão estava num verde constrangedor. Nelson hospedou todo mundo, mexeu nuns papéis, escreveu, rascunhou, e eles fizeram Mandacaru Vermelho pra não perder a viagem.

Um cineasta que depende do tempo, inclusive meteorológico, é uma espécie de lavrador, sempre de mão à testa, perscrutando o horizonte. Tal como o plantador, ele precisa de uma conjunção de conveniências que não dependem dele.

Isso é na escala mais ampla, mas na escala miúda do dia de filmagem as coisas não são diferentes. O movimento de câmera imaginado não vai ser possível por uma razão técnica qualquer, e a cena tem que ser concebida de novo, de improviso, com a equipe toda esperando.

Uma história do folclore de Hollywood fala da demora de Chaplin para resolver uma cena crucial de Luzes da Cidade, onde ele precisava fazer com que a vendedora de flores, que era cega, pensasse que o vagabundo Carlitos era um sujeito rico. A equipe ficou ganhando diárias e devorando quentinhas durante dias e mais dias até que o diretor teve o “eureca!” e filmou a cena. (Ele fez o vagabundo atravessar uma rua com o sinal fechado passando por dentro de uma limusine com o banco de trás vazio; ao ouvir a porta da limusine batendo, a cega pensa que ele é o dono do carro.)

Alguns diretores são extremamente minuciosos no roteiro justamente para evitar esse tipo de ocorrência; para reduzir ao máximo a chance de um imprevisto. Alfred Hitchcock e Luís Buñuel eram famosos pela exatidão do seu planejamento. Hitchcock desenhava tudo em storyboards com tal precisão que, se quisesse, bem poderia ir para casa e deixar que um assistente qualquer coordenasse a filmagem em si. Buñuel fazia apenas um take de cada cena, para economizar negativo, o que deixava os montadores de cabelos brancos, porque se um daqueles takes se perdesse não teriam um take alternativo para substituí-lo. Roberto Farias era um diretor meticuloso e prático: Walter Carvalho conta que em Os Trapalhões no Auto da Compadecida praticamente todos os planos filmados foram usados no filme.

Não se pode aplicar os critérios de um cinema produzido assim a um outro tipo de cinema onde uma equipe pequena sai para a rua com duas ou três páginas de diálogos e de indicações, rabiscadas à mão. Esta é um sistema que não apenas está pronto para acolher o imprevisto, mas também faz dele um ingrediente essencial.

A definição de Orson Welles citada no início poderia ser modificada então para “administrador de imprevistos”, porque existem também os acidentes positivos, que vêm para ajudar, e não para atrapalhar. Tudo que não é previsto pode gerar numa tensão num filme de preparação muito rígida, mas pode ser uma resposta bem vinda num tipo de produção que não se importa de acolher o que lhe cai do céu.

E não só nesse tipo. Stanley Kubrick, durante a produção de 2001, uma Odisséia no Espaço, estava encalacrado com o problema da famosa sequência em que o computador HAL se rebela contra os astronautas e tenta assumir sozinho o controle da missão.

Kubrick precisava mostrar que os dois astronautas, interpretados por Keir Dullea e Gary Lockwood, conspiram entre si para desligar HAL, mas este toma conhecimento do plano. Foi Lockwood quem sugeriu a Kubrick a idéia de que os astronautas se trancassem numa pequena cápsula para discutir o assunto, com o sistema de som desligado, mas o computador fosse capaz de ler os seus lábios, o que é indicado com movimentos laterais da câmera (ponto de vista de HAL) para a boca de um e do outro, alternadamente.

Idéias dos atores são bem vindas quando de fato se enquadram no tom do filme e contribuem para o roteiro. O ator Rutger Hauer, que faz o andróide Batty em Blade Runner de Riddley Scott, foi um entusiasta do filme desde o início, um dos que mais acreditavam  estar trabalhando num futuro clássico do cinema. A cena da morte do andróide no final, na cobertura de um prédio banhado pela chuva, murmurando lembranças das batalhas que presenciou, e soltando uma ave que sobe voando ao céu, foi em grande parte uma contribuição do ator, assimilada e incorporada pelos roteiristas e pelo diretor.

Quando existe esse tipo de sintonia entre diretor e elenco, qualquer imprevisto pode ser transformado de acidente em efeito. No filme Django Livre de Quentin Tarantino há uma cena famosa em que Django e seu comparsa estão jantando na mesa de um fazendeiro (Leonardo DiCaprio) do qual pretendem roubar uma escrava. O fazendeiro acaba descobrindo; fica furioso, ergue-se na mesa e começa um discurso violento contra os visitantes e contra os negros em geral.

Na empolgação do discurso, DiCaprio, que segurava uma taça de vinho, quebrou a taça sem querer e deu um corte fundo na mão, que começou a sangrar, mas ele continuou “no personagem”, sem interromper a cena, e o diretor também mandou seguir. Ele esfregou a mão ensangüentada no rosto da escrava, e subiu o tom do discurso enquanto envolvia a mão num lenço. O pequeno acidente acabou tornando a cena melhor do que era, devido à capacidade de improvisação do ator e à percepção do diretor – que se fosse um cara menos experiente talvez tivesse gritado: “Corta!” ao ver o acidente.

Estes exemplos são exemplos extremos. Cada dia de filmagem, desde o mais caro blockbuster de super-heróis até um curta-metragem feito por estudantes, está cheio de exemplos dessa dimensão aleatória do cinema , cuja essência pode ser definida mais ou menos assim: É indispensável planejar, e é indispensável estar aberto para o que não pôde ser previsto.



domingo, 1 de fevereiro de 2015

3726) Confluências (1.2.2015)



Alguns anos atrás eu comprei na Berinjela um livro de Jean Gattégno sobre Lewis Carroll.  Não é propriamente uma biografia, no sentido cronológico, mas são trinta e tantos capítulos sobre temas específicos como “Fotografia”, “Política”, “Pseudônimos”, “Sexualidade”, “Teatro” e assim por diante.  No final, um retrato bem variado do criador de “Alice”.  Eu estava de madrugada folheando o livro, quando cheguei à cronologia da vida de Carroll.  Dizia a certa altura: “1898: no princípio de janeiro, um leve resfriado evolui para bronquite; Charles Lutwidge Dodgson morreu em paz em 14 de janeiro.”  Nesse momento ergui os olhos para o calendário sobre a mesa: estávamos, já, nas primeiras horas de 14 de janeiro, e o ano era 1998.  Talvez eu tenha lido essas palavras exatamente cem anos depois que o reverendo bateu o trinta-e-um.

Qual a chance de eu pegar aquele livro (não lembro se foi no mesmo dia em que o comprei, ou algum tempo depois) justamente no dia da morte do cara?  Eu nunca soube essa data, não podia ser memória inconsciente.  E aliás não é tão raro.  Outra vez, de madrugada, eu estava lendo as linhas iniciais de The Eye in the Pyramid, um thriller psicodélico-surreal de Robert Shea e Robert Anton Wilson. O narrador diz:

“Por exemplo, não estou muito seguro nem sequer a respeito de quem sou eu, e meu constrangimento nesse aspecto me leva a imaginar se alguém será capaz de acreditar no que digo.  Pior ainda: neste momento eu estou agudamente consciente de um esquilo, no Central Park, perto da Rua 68, em Nova York, e esse esquilo está pulando de um galho para outro, e acho que isso acontece na noite de 23 de abril (ou madrugada de 24?).”

Preciso dizer?  Era exatamente isso: eu estava começando a ler aquele livro, no qual pegava pela primeira vez, nas primeiras horas da madrugada de um 24 de abril, o ano não importa.  Nossa geração, felizmente, criou um jargão para isso: falha na Matrix.  E nomear uma coisa misteriosa com um jargão não reduz seu mistério, mas facilita a gente pegar aquela coisa e botar no fim de uma lista. 

Para ser científico, devo informar que esses dois casos (não lembro se houve algum outro) me animaram a prestar mais atenção, e dessa época em diante foram numerosíssimas as datas que pipocaram num trecho de ficção e foram rapidamente desmentidas pelo calendário.  Mas...  O que me leva a pegar um livro ao acaso, numa estante, abrir numa página qualquer, e daí a pouco ver impressa, no texto, o dia e o mês em que estou eu agora, de livro em punho?  Como uma daquelas operações “macro” do editor de textos, onde premindo uma combinação de teclas fica registrada na tela a data e a hora atual.




terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

3413) Bowie e Burroughs (4.2.2014)





(foto: Terry O'Neill)


Em 1974, a revista Rolling Stone publicou um bate-papo entre o roqueiro David Bowie e o escritor William Burroughs, ocorrido no ano anterior, através do repórter Craig Copetas.  

Bowie estava no primeiro auge de sua carreira (que teve vários), após o lançamento do álbum Ziggy Stardust; Burroughs, já famoso por livros como Naked Lunch e Nova Express, estava superando uma das suas muitas fases de pindaíba, bebendo muito, escrevendo pouco. 

Os dois se conheciam mais de fama do que de obra. Bowie tinha lido Nova Express, Burroughs conhecia duas canções do outro (“Five Years”, “Starman”) mas tinha lido todas as suas letras. (A entrevista completa aqui, em português: http://bit.ly/1b88FE0, e no original: http://bit.ly/1lmyolJ). 

Bowie disse: 

Nova Express me fez lembrar de Ziggy Stardust, que pretendo transformar numa performance teatral. São 40 cenas, e seria legal que os atores aprendem todas elas de modo a que a gente pudesse misturá-las num chapéu, à tarde, e determinar a ordem em que seriam encenadas à noite. Peguei essa idéia de você, Bill... a de que tudo poderia ser diferente a cada noite.” 

Burroughs foi um defensor de numerosas técnicas para fazer o acaso interferir na criação e/ou apresentação de uma obra de arte, inclusive na literatura.

Falando do aspecto ficção científica do show, Bowie comentou a dificuldade de conseguir efeitos especiais para reproduzir um “buraco negro” no palco, e Burroughs comentou: 

“Sim, um buraco negro no palco daria uma despesa astronômica. E seria uma performance contínua, engolindo primeiro Shaftesbury Avenue, e depois o resto.”  

A FC e a arte de vanguarda eram dois territórios em comum entre artistas tão diferentes; foram também as interfaces que depois levaram Burroughs a trabalhar junto com roqueiras como Patti Smith e Laurie Anderson.

Bowie comentou, sobre novas mídias de então: 

“A próxima coisa é o videotape, e depois serão os hologramas. Nesse ínterim, vão ser criadas bibliotecas inteiras de videocassetes. Você não consegue gravar tudo que passa de interessante na sua TV. Eu quero poder escolher minha própria programação. É preciso criar software para isso. (...) A mídia ou é nossa salvação ou nossa morte. Prefiro achar que é salvação.”

Essa “terra de todos” que envolve rock/jazz, FC, arte de vanguarda, novas mídias e novas tecnologias é a origem de algumas das coisas mais interessantes que temos hoje. 

Pessoas como Burroughs e Bowie estavam no início desse processo, e a presença ubíqua de ambos na Web é uma mostra dessa afinidade de espírito.  Ele reúne o lado mais intelectualmente inquieto do rock, o lado mais lúdico da vanguarda e o lado mais aqui-e-agora da FC.


terça-feira, 29 de maio de 2012

2882) Games e literatura (29.5.2012)



Discussão constante no universo dos games: conciliar a estrutura fixa de um romance preexistente e a estrutura aberta de um game (cujo desfecho é uma consequência das ações do jogador).  

Num universo que tem cada vez mais adaptado obras literárias (Agatha Christie, Conan Doyle, até Dante Alighieri já foram transpostos para videogames) essa questão é crucial.  E ela se parece com uma das questões filosóficas mais sérias do mundo real: Existe o Destino? Nossas vidas são programadas de antemão, ou são nossas ações que determinam o futuro?  

Ontem mesmo vi o Fluminense ser eliminado da Libertadores com um gol no último minuto; um jogador afirmou, desconsolado: “Hoje era o dia deles”. Claro que ele se matou em campo tentando ganhar; mas, como nos comportaríamos sabendo que, não importa o nosso esforço, o fim da história é predeterminado?

Este é o problema com a transposição para os games de obras preexistentes (claro que romances futuros poderão ser escritos de outras formas).  O livro-que-já-existe é um universo governado por um Destino inarredável, pela lei do “estava escrito”. 

Num game de Madame Bovary, de O Tempo e o Vento ou de 20 Mil Léguas Submarinas não existe espaço para o livre arbítrio, não há chance de que toda aquela atividade do jogador tenha a mínima influência no resultado. Um final diferente seria a própria negação do livro original. Uma Madame Bovary com final feliz? Isso é Flaubert?!

Um artigo de Matthew Wasteland avalia a possibilidade de adaptar, digamos, Moby Dick. Ele sugere por exemplo, que seja mantido o essencial do enredo, e que nos intervalos o jogador possa navegar, caçar baleias, meter-se em aventuras, etc.  

Para muitos, no entanto, isso seria uma enganação.  O final estaria pré-fixado, igual ao livro: o Capitão Ahab consegue arpoar a baleia mas é arrastado para o fundo do mar, e Ismael, o narrador, sobrevive “para contar a história”.  Todo o esforço do jogador para chegar a outro final teria sido desnecessário, inútil, porque desde o começo estava estabelecido que “era o dia da baleia”. Mas ele diz: 

“Se Melville tiver acenado com a possibilidade, mesmo a mais remota, de que Ahab vença, a mensagem do livro e sua interpretação podem mudar. Ao invés de destino e fatalidade, estaremos falando de probabilidade e sorte”. 

Imagino que não deva ser difícil conceber um game de tal forma que haja 10% de chance de que o capitão mate a baleia, desde que o jogador tome as decisões adequadas ao longo do jogo. 

Pelo visto, os games se prestam mais a adaptar romances pós-modernos, ambíguos, sujeitos a muitas interpretações, onde nunca se pode dizer com certeza “o que de fato aconteceu”.








quinta-feira, 17 de novembro de 2011

2716) Getúlio, Jânio, Tancredo (17.11.2011)





A política é um gigantesco mecanismo coletivo que repousa, com um peso às vezes injusto, em cima de indivíduos. 

É possível prever em linhas gerais o desenrolar e o desfecho de campanhas eleitorais, campanhas de oposição, movimentos de massa pacíficos (“Primavera Árabe”, etc.) ou armados. Nunca se pode saber, porém, como os indivíduos vão reagir àquilo, por mais que os conheçamos. 

Um indivíduo é um “x”, uma incógnita, uma variável escorregadia que já nos deu (e nos dará) muitos dribles.

Ano: 1954. Getúlio Vargas é o homem mais idolatrado e mais perseguido do país. Ninguém já teve tanto poder popular quanto ele, por tanto tempo. (Não comparem com D. Pedro II; era outro Brasil.) Perseguido pela oposição e pela imprensa, acusado de corrupção, de ordenar assassinatos, de mergulhar num “mar de lama”. 

Imaginava-se que Getúlio fosse capaz de prender, arrebentar, dar outro golpe de Estado, renunciar, vingar-se, pendurar as chuteiras... Fez o que ninguém imaginava: deu um tiro no peito e mudou a História.

Ano: 1961. Jânio Quadros era um político estabanado e veemente, com um discurso moralizante que agradou muito à classe média conservadora e cristã. No poder, fez avanços surpreendentes e teve uma porção de atitudes de Odorico Paraguaçu. Ninguém sabia o que ele faria no dia seguinte; ele próprio parecia não entender o que tinha feito na véspera. 

O Brasil apertou o cinto de segurança e preparou-se para quatro anos de turbulência. Com menos de oito meses de governo, Jânio fez o impensável: renunciou. Por quê? Não se sabe. Temos 735 teorias, o que equivale a não ter nenhuma.

Ano: 1985. Eleito presidente pelo Colégio Eleitoral, Tancredo Neves foi um improvável ponto de convergência entre direita, centro, esquerda, conservadores, liberais, o escambau – todos concordaram em que naquele momento ele era a melhor pessoa para assumir o leme do barco. 

Uma euforia juvenil fervilhava nas ruas. Depois da derrota do “Diretas Já”, a eleição de Tancredo era uma saborosa vingança. Na véspera da posse, a TV anunciou que o futuro presidente não seria empossado: sofreria uma cirurgia de emergência no hospital de Base de Brasília. 

Quem esperava por essa? Ninguém. Nem mesmo José Sarney, que tomou posse no lugar do presidente eleito.

Isto é a política, isto é a História, isto é a vida. Podemos calcular a trajetória dos grandes movimentos sociais. Mas vemos os indivíduos com a incerteza do físico que tenta calcular a velocidade e a posição de uma partícula subatômica. 

Na História, o indivíduo não é importante por ser grandioso, genial ou heróico, e sim porque é nele que giram as dobradiças do Imprevisível.









quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

2452) O Ultra-Google (13.1.2011)



Este novo fenômeno do mundo digital vem comprovar minha tese de que tudo no mundo se deve ao Acaso, e mesmo os outros fatores que parecem contrabalançá-lo – a Vontade, a Necessariedade, o Determinismo, o Livre Arbítrio, a Convergência Sócio-Estatística – não passam de bolsões isolados no corpo do Acaso, como minúsculas bolhas de ar aprisionadas na massa densa de um iceberg. Uma década atrás, o sonho e xanadu mental de todo brasileiro eram as seis dezenas cabalísticas da Mega-Sena. Hoje, são os oito algarismos do telefone do Ultra-Google. Um programa especial os altera sempre que alguém acerta, de modo que quem tiver essa chance pode fazer um pedido, por mais complexo que seja; depois, não adianta discar de novo, porque o número mudou. Suas chances voltam a ser as mesmas de todo mundo.

Muitos amigos meus devem ter discado esse número por engano e perdido a oportunidade apenas porque estranharam a resposta calma e polida do outro lado da linha: “Ultra-Google. Em que posso servi-lo?”. O primeiro que teve uma resposta à altura foi meu amigo Dedé, da carvoaria, que, respondeu em cima da bucha: “Rapaz, me traga aqui em casa duas dúzias de Skol bem geladinhas, um prato de moela, e uma mulher!” Riu e desligou. Meia hora depois, tocou-lhe à campainha uma moreninha no capricho, com a encomenda em dois isopores. E a conta, claro. Que ele pagou e não se arrependeu. Depois matutou como o Ultra-Google sabia seu endereço, e deduziu que era através da conta do celular com que ligou.

João Paulo, aquele baixinho que trabalha na Chesf, ligou um número aleatório e quando ouviu a resposta disse, pra testar: “Quero uma pizza grande metade calabresa e metade pepperoni, uma Coca dois litros, uma camiseta preta tendo impressa minha foto e meu telefone, o livro novo de Veríssimo e um celular TIM em meu nome”. Meia hora depois recebeu a encomenda, pagou em cheque, e só reclamou do preço da camiseta (50 reais).

Oito números! Parece quase nada, mas vivo tentando, tentando... Jodélzio, que mora aqui no andar de baixo, mangou de mim dizendo que isso era lenda-urbana da operadora para fazer as pessoas ligarem mais e pagarem mais. Fiquei meio dubitativo, mas aí me chegou um email entusiasmado de Germana, que é produtora executiva na Sempre-Vídeo. Ela ligou para um fornecedor (estavam fazendo um longa-metragem sobre Villa-Lobos) e o Ultra-Google atendeu. De mau humor, ela disse: “Preciso de um palacete mobiliado estilo 1930, um trem de ferro e duas orquestras sinfônicas”. Preciso falar mais? O filme já ganhou três prêmios.

Ultra-Google! Por que não pensei nisto antes, por que deixei os americanos mais uma vez passarem na minha frente na árdua maratona das invenções que mudam o mundo? Continuo aqui, celular em punho, polegar infatigável. Meu pedido está pronto e decorado na ponta da língua. É só uma coisa, uma coisinha só, uma coisica de nada, nada, nada-nadinha... Atenda, Ultra-Google, por favor!