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quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

5216) O "Frankenstein" de Del Toro (8.1.2026)



 
Existem algumas centenas de monstros-de-Frankenstein espalhados pelo cinema, pela literatura, pelas artes gráficas. O cientista criado por Mary Shelley, o doutor Victor Frankenstein, descobriu um ovo de Colombo: a capacidade inesgotável de criar um ser a partir de pedaços de outras criaturas. 
 
O mito de Frankenstein completou duzentos anos (o livro original de Mary Shelley é de 1818) e nada indica que esteja se esgotando. Cada escritor, desenhista ou cineasta retalha pedaços das obras alheias e com eles compõe a sua. “Frankenstein” é, de certo modo, uma vasta metáfora da reciclagem, da pirataria, da canibalização (reutilização de obras já existentes, em outro contexto), da colagem de pedaços alheios para produzir uma criatura monstruosa que em princípio nem sequer conseguiria estar viva. “E no entanto ela se move.” 



(Ilustração de Theodor von Holst para a edição de 1831 do livro)

 
O inglês Brian Aldiss advoga, desde a primeira edição de seu estudo Billion Year Spree, que a ficção científica começou com o livro de Mary Shelley, e tem bons argumentos para isto. Aldiss define assim o gênero: 
 
A ficção científica é a busca de uma definição do homem e de seu status no universo, baseada em nosso atual estágio de conhecimento (avançado, ainda que confuso) e é tipicamente delineada no modo Gótico ou pós-Gótico.
(The Encyclopedia of Science Fiction, trad. BT) 
 
Há um número espantoso de histórias de FC que de científicas têm apenas a superfície, a parafernália, os adereços. Estão a anos-luz de distância da mais básica verossimilhança científica. Parecem ignorar o método científico. Passam por cima de verdades científicas básicas, sem o menor constrangimento. Por exemplo: histórias de espaçonaves mais rápidas que a luz, ou histórias de máquinas do tempo. 
 
São fantasias científicas, na verdade. Histórias desbragadamente fantásticas que pedem emprestados os figurinos da Ciência, não para ridicularizá-la, mas para imaginar melhor, alcançar outras regiões do pensamento. 
 
E algumas dessas histórias usam de maneira até exagerada certas convenções da literatura Gótica, como sugere Aldiss. A impressão de que o mundo é governado por forças inexplicáveis (e isto não se refere nem a Deus nem ao Diabo). A sensação de pequenez e de impotência do ser humano diante de um universo hostil. A carga e o peso de uma culpa cósmica, um pecado original que não se refere ao critério religioso, mas ao simples fato de existir. 



(Guillermo Del Toro) 

 
Uma narrativa está vibrando num diapasão Gótico quando nela se verifica uma invasão trágica do sobrenatural no mundo físico, e uma invasão do Passado no Presente. 
 
E nas histórias de Ciência Gótica, essa invasão se dá mediante o uso alucinado da Ciência, o seu uso arrogante, egocêntrico, desafiador, o uso de quem tenta ultrapassar limites, fazer o que não pode ser feito. Daí que o título original do livro de Mary Shelley seja: Frankenstein, ou O Prometeu moderno. A ciência é um desafio aos deuses. 


A imaginação visual de Guillermo Del Toro parece feita sob medida para esses temas, e o seu Frankenstein está à altura da riqueza visual de seus outros filmes, em termos de direção de arte, cenografia, fotografia, iluminação, etc. Numa entrevista, o diretor lembra que o laboratório do Dr. Victor Frankenstein não é descrito no livro de Mary Shelley. É uma criação do cinema e das artes visuais. Uma criação que não cessa se se ampliar e se enriquecer, como este filme demonstra. 



 
(A Noiva de Frankenstein, 1935)

 
Del Toro comenta também que para ele o filme é uma fábula da paternidade, da relação pai/filho. Diz que se tivesse feito o filme vinte anos atrás, estaria falando de sua relação com seu pai; fazendo-o agora, está falando disto, mas também de sua relação com seus filhos. 
 
O que não deixa de lembrar o conto de Jorge Luís Borges “As Ruínas Circulares” (em Ficções, 1944), onde um mago se dedica a sonhar um ser humano, imaginá-lo mentalmente com tal intensidade que será capaz de dar-lhe existência física: 
 
Todo pai se preocupa com o destino de um filho que gerou (que permitiu) num momento de mera vertigem ou êxtase; era natural que o mago se preocupasse com a sorte desse filho, pensado entranha por entranha, detalhe por detalhe, ao longo de mil e uma secretas noites. (trad. BT)

 




Na lenda de Frankenstein a tragédia se desencadeia pela hubris do cientista, que se decepciona com sua criatura, acha-a disforme, rudimentar, monstruosa, indigna do gênio que a criou. 
 
A criatura sempre se rebela contra o criador?  O criador sempre subestima o poder da criatura?  O criador acaba sempre por desdenhar a criatura?
 
Robert Ryan (em The Penguin Encyclopedia of Horror and the Supernatural) faz um comentário muito afinado com o filme de Del Toro: 
 
Se [o Frankenstein de Mary Shelley] era de fato um protesto ou um alerta consciente, não o era contra a tecnologia em si, mas contra a tendência humana de deixar a tecnologia à vontade para criar ou descobrir sua própria ordem natural. O pecado de Victor Frankenstein não é sua criatividade, mas sua falta de empatia e de responsabilidade moral. O problema, sugeria Shelley, não é que as nossas invenções sejam refratárias ao nosso controle, mas que nós perdemos a motivação para as controlar e para lhes impor uma ordem humana capaz de refletir nossos melhores valores e ideais. (p. 161, trad. BT)
 
Talvez o monstro mais frankensteiniano produzido pela Ciência de hoje seja a Inteligência Artificial.
 
Ela também é fruto de um laboratório caríssimo, só que agora um projeto coletivo, faraônico, espalhado por todo o planeta, trabalhando em várias frentes simultâneas (ChatGPT, DeepSeek, Grok, Gemini, Midjourney...). 
 
É também um processo que se dedica também a retalhar e recombinar pedaços de uma cultura que já existe. Frankenstein recolhia e recombinava partes de cadáveres. A I. A. recolhe e recombina, inclusive, obras ainda em catálogo, de autores ainda vivos. 
 
As reações diante desse novo “monstro” variam: existe a fascinação temerosa, a exploração oportunista, e o desdém intelectual diante de algo que julgamos “incapaz de um dia possuir uma inteligência igual à nossa”. 
 
Enquanto isto, as I. A. vão proliferando, desenvolvendo-se numa rapidez quase exponencial, acumulando erros, acumulando acertos, incorporando lições, desenvolvendo um tipo de inteligência que aos poucos, em vez de tentar imitar a nossa, procurará se afastar dela, desenvolver as vantagens que têm em relação a nós, e contornar os aspectos em que lhe somos superiores. 
 
A criatura verá com que olhos os seus criadores? 
 



 






quinta-feira, 13 de março de 2025

5161) Lord Byron, Drácula, Frankenstein (13.3.2025)



 
Estou há quase um mês atracado com o livro Byron: poemas, cartas, diários, &c (Perspectiva, 2025) de André Vallias, que fez a organização, tradução e introdução ao volume. 
 
São 640 páginas que podem ajudar muito a trazer de volta às discussões literárias o nome de George Gordon, Lord Byron (1788-1824), morto aos 36 anos,  protagonista de uma vida movimentada e errante, e um dos poetas mais famosos da Europa em sua época. 
 
Antes de curtir os poemas, estou lendo a parte biográfica do livro, que tem uma longa introdução de André Vallias, e depois numerosas cartas, trechos de diários e documentos do próprio Byron. 
 
Conhecido como grande poeta, Byron é uma espécie de patrono invisível da literatura fantástica e da ficção científica. 
 
Isto não transparece em suas cartas e diários, que se concentram em questões práticas (dinheiro, namoros, viagens) e políticas – ele se envolveu em guerras nacionalistas tanto na Itália quanto na Grécia, onde acabou morrendo, de morte natural. 
 
A ligação de Byron com a literatura fantástica se dá principalmente pelo famoso episódio de junho de 1916, quando ele estava hospedado em Genebra, na mansão conhecida como Villa Diodati, em companhia do casal Percy e Mary Shelley, do médico John Polidori e de Claire Clairmont, irmã adotiva de Mary. 



(Noiva de Frankenstein, de James Whale, 1935: “Mary Shelley”, Elsa Lanchester; “Lord Byron”, Gavin Gordon; e “Percy Shelley”, Douglas Walton)
 
 
É um episódio célebre da história da Literatura, muitas vezes adaptado pela ficção e pelo cinema. Era um verão chuvoso. O grupo estava discutindo questões filosóficas e lendo histórias de terror, principalmente a coletânea alemã (traduzida ao francês) Fantasmagoriana, ou Recueil d'histoires d'apparitions de spectres, revenants, fantômes, etc., traduit de l'allemand par un amateur
 
Byron propôs que cada um do grupo escrevesse uma “história de fantasmas”, e várias narrativas começaram a ser escritas naquela noite. O próprio Byron deixou um texto incompleto conhecido hoje como Fragment of a Novel – a história da morte e sepultamento de um homem que, de acordo com a idéia inicial, deveria aparecer depois em outro país, vivo e ativo. 
 
Byron não chegou a concluir o conto, que trazia em si a idéia do vampiro, o morto aparente que depois se revela estar vivo. André Vallias informa (p. 22) que a tradução “Fragmento de Novela” foi publicada no Brasil na antologia Contos Clássicos de Vampiro (Ed. Hedra, São Paulo, 2010), organizada por Bruno Costa, com tradução de Marta Chiarelli. Byron já havia explorado o tema no poema O Giaour, de 1813; mas na verdade nunca demonstrou grande interesse por ele. 
 
O tema do vampiro – um personagem notório do folclore europeu – foi retomado por John Polidori. Ele aproveitou inclusive o nome do personagem de Byron para sua novela O Vampiro (1819), que Christopher Frayling disse ser “a primeira história que conseguiu fundir com sucesso os elementos díspares do vampirismo num gênero literário coerente”. Uma tradução brasileira do texto de Polidori está na ótima antologia O Vampiro Antes de Drácula (Ed. Aleph, São Paulo), organizada por Martha Argel e Humberto Moura Neto. 




O texto mais importante a resultar dessa noite foi sem dúvida o Frankenstein de Mary Shelley, cuja primeira edição (1818) saiu anonimamente, fazendo algumas pessoas atribuírem o livro ao pai de Mary (William Godwin) ou ao seu marido (Percy Shelley). 
 
Essa bifurcação temática faz com que Byron tenha sido, pelo menos por um impulso inicial, um inspirador tanto do personagem “Drácula” quanto do personagem “Frankenstein” – e neste caso, da literatura de ficção científica, que para muitos historiadores, como Brian Aldiss, começa em 1818 com a obra de Mary Shelley. 
 
Byron escreveu em 1819:
 
A história do acordo para escrever os livros de fantasmas é verdadeira – mas as Senhoras não são irmãs – uma é filha de Godwin com Mary Wollstonecraft – e a outra é filha da atual Sra. Godwin com um marido anterior. Tanto para a história do “incesto” do canalha Southey – nem houve qualquer relação promíscua, ambas são invenções do execrável vilão Southey – a quem chamarei assim tão publicamente quanto ele merece. – Mary Godwin (agora Sra. Shelley) escreveu “Frankenstein” – que você resenhou pensando ser de Shelley – acho que é um trabalho maravilhoso para uma garota de dezenove anos – nem ainda dezenove, na verdade – naquela época. 
(Carta a John Murray, 15-5-1819, em Byron, trad. André Vallias, p. 425-426)
 
Byron paira como um espírito inspirador por cima da narrativa fantástica inglesa, onde o tipo chamado ”o Herói Byroniano” ganhou uma projeção que vai muito além, talvez, da projeção dos seus próprios versos.  O Lord foi sucesso de vendas na sua juventude: O Corsário (1814) vendeu dez mil exemplares no primeiro dia de lançamento. 



No capítulo 5  de A Heritage of Horror: The English Gothic Cinema 1946-1972 (New York: Avon Books, 1974), David Pirie esmiuça o modo como a personalidade do Lord se impregnou na cultura inglesa, independentemente de seus poemas. 
 
Ele cita Herbert Read em Surrealism and the Romantic Principle:
 
E o calafrio moral que o simples nome de Byron provoca nos lares burgueses viria a ser intensificado por nossa aclamação. Byron não é, por medida alguma, um poeta surrealista; mas é uma personalidade surrealista. Ele é o único poeta inglês  capaz de ocupar, em nossa hierarquia, a posição ocupada na França pelo Marquês de Sade. 
(trad. BT)
 
Bonitão, rico, perdulário, bissexual, erudito, carismático, dono de um verso fluente e acessível, Lord Byron foi idolatrado e odiado a ponto de fugir da Inglaterra e nunca mais voltar. Construiu, meio por impulso, meio de improviso, meio por arrogância juvenil, uma persona dentro da qual desapareceu. 
 
Diz David Pirie:
 
O Vampiro [de John Polidori] revela a ligação entre Byron e Drácula de tal modo que torna-se impossível não vê-los como parentes literários; porque o romance de Stoker trouxe, para o consumo popular de sua época, a estirpe do Aristocrata Fatal com olhos penetrantes e ambições mortais, que Byron já havia capturado das páginas de Mrs. Radcliffe e transformado num culto a um personagem. (trad. BT) 
 
Ele encarnou em muitos aspectos o herói romântico de sua época, inclusive em sua fascinação pelas terras exóticas. Perseguido na Inglaterra por seu comportamento chocante e por dívidas, chegou a cogitar em 1822 mudar-se para a América do Sul. Apoiou os italianos em sua luta nacionalista e depois rumou para a Grécia, com dinheiro, armas e disposição para ajudar os gregos na luta por sua independência do Império Otomano. 



(Christopher Lee, o vampiro byroniano)

 
Sob este aspecto é bom lembrar o discurso nacionalista do Conde Drácula no filme de Jesse Franco Count Dracula (1970). Quando inquirido por Jonathan Harker, o Conde é tomado por um acesso de orgulho guerreiro, e diz que foram os Dráculas que se opuseram a invasões sucessivas, ao longo dos séculos, de exércitos estrangeiros que não conseguiram submeter aquele recanto obscuro da Europa. 
 
Aqui:
https://www.youtube.com/watch?v=rZJ49vOD64s
 
Byron cultivava esse impulso romântico de defender os underdogs contra os poderosos, os Davis contra os Golias, os pequenos bandos de guerrilheiros contra os exércitos, os idealistas contra os legalistas – seu primeiro discurso na Câmara dos Lordes em 1812 (transcrito no livro) foi a favor dos “luditas” que quebravam teares, e contra o projeto de lei que os condenava à morte. 



(Ada Lovelace)

 
Um último elo de Byron com a literatura de FC é bastante indireto mas não menos significativo. Sua única filha legítima (com Annabella Milbanke) foi a famosa Ada Lovelace (1815-1852), uma personagem crucial na história da computação e da informática, citada em numerosos romances de FC, entre eles A Máquina Diferencial (1991) de William Gibson e Bruce Sterling. 
 
Essa relação ganharia um ângulo novo e interessante com o romance da recriação de Byron por Inteligência Artificial, Conversações Com Lord Byron Sobre Perversão, 164 Anos Depois de Sua Morte, de Amanda Prantera, que comentei mais detalhadamente aqui: 
 
https://mundofantasmo.blogspot.com/2021/07/4720-mente-cibernetica-de-lord-byron.html
 
No próximo dia 25 de março, terça-feira, estarei conversando com André Vallias, na Livraria Travessa, de Ipanema, a partir das 19:00, sobre o seu livro Byron, tradução poética, vida e aventuras do Lorde e outros assuntos que sobrevenham. 



(A Villa Diodati, em Genebra)



 
 
 
 
 




sábado, 10 de outubro de 2015

3942) Frankenstein pirateado (11.10.2015)




(ilustração: Bleu Turrell)


Um dos pontos de discórdia irremediável entre a Religião e a Ciência é a questão da criação. A religião afirma que Deus é o responsável por tudo que se cria no mundo, e a ciência afirma que o homem não somente pode, como também deve criar coisas novas. 

A religião quer manter sua jurisdição sobre tudo que acontece, inclusive sobre as escrituras sagradas. Para os cristãos, a Bíblia não foi escrita pelos escribas, profetas e evangelistas, e sim pelo Espírito Santo. Para os muçulmanos, o Corão não é um objeto, é um dos atributos de Deus, assim como a sua onisciência e sua misericórdia.

Quando no romance de Mary Shelley o doutor Frankenstein criou a vida em laboratório, estava incorrendo no maior dos sacrilégios, o de assumir para si um direito que era apenas de Deus. 

Somente Deus podia criar a vida; ao criá-la, Frankenstein estava pirateando a criação “na garagem de casa”, gerando um produto para o qual a Divindade tinha monopólio de fabricação.

Há um texto de Martinès de Pasqually (1727-1774) que toca nessa questão, em seu Tratado da Reintegração. Diz ele: 

“Para procriar a sua semelhança corporal, tu não tens recurso a outros princípios senão aqueles das essências espirituosas que te são inerentes; e se quiseres, por iniciativa tua, empregar princípios opostos a tua substância de ação e de operação espiritual divina e temporal, disto não resultará a reprodução, ou, se isto acontecer, ela terá ocorrido sem participação divina, e será colocada entre as fileiras dos brutos; será mesmo considerada como um ser sobrenatural, e causará repugnância a todos os habitantes da natureza temporal.”

De acordo com esta ótica, a monstruosidade da criação de Frankenstein não reside no corpo bizarro, mas na ausência de alma, pois não foi criado pela Divindade. 

É curioso que esse debate se dê nos mesmos termos com que hoje em dia discutimos propriedade industrial, pirataria, etc.  O monstro de Frankenstein é um produto sem alma, ou seja, sem o código-de-barras ou o ISBN ou o selo-do-IPI ou qualquer outra formalidade atestando que aquele produto foi feito por quem tem a autorização exclusiva de fabricação.

Frankenstein retrata a Revolução Industrial e a ascensão dos estados laicos, onde não cabe mais à igreja determinar o que pode ou não ser feito. Seu clima tenebroso e pessimista tem a ver com os medos de uma época ainda tateando os limites do sacrilégio e da própria liberdade. 

O monstro de Frankenstein é o precursor do uísque fabricado na banheira durante a Lei Seca, do livro impresso e vendido sem autorização da editora, do CD ou DVD da gravadora ripado dentro de casa, da bolsa Vuitton comprada na Rua da Carioca.



quarta-feira, 7 de outubro de 2015

3939) O Duplo (8.10.2015)



(o ator Richard Mansfield como "Jekyll e Hyde")

O duplo é uma figura familiar a quem se interessa pela narrativa fantástica. Ele é chamado de “double”, de “Doppelganger”; é o reflexo no espelho, é o Outro... O conceito é rico, e por isso mesmo acaba acumulando variantes, nem todas com o mesmo DNA ou seguindo a mesma lógica. Nem todo conjunto de dois personagens muito próximos ou muito parecidos tem a mesma dinâmica, a mesma hierarquia de relacionamento. São dois. Mas são dois que obedecem a diferentes sintaxes de dramaturgia (não sei se o termo é absurdo, mas vá lá). O retrato de Dorian Gray é um duplo dele, mas em circunstâncias muito diferentes, por exemplo, do modo como a imagem do Estudante de Praga, também um “Duplo”, que sai do espelho para cometer crimes em nome dele.

Na noveleta famosa de R. L. Stevenson, a relação entre o Dr. Jekyll e Mr. Hyde não exprime o conceito do “duplo” no sentido de uma “aparente duplicação de um indivíduo, com variados graus de semelhança”. É uma relação de Criador e Criatura (que aliás não existe nos exemplos acima). O dr. Jekyll cria cientificamente o seu opositor. Sua narrativa tem o DNA da história do Dr. Frankenstein e o monstro que ele faz surgir em seu laboratório.

O erro mais frequente nas interpretações desse livro é opor um Jekyll bom a um Hyde mau. Ouve-se às vezes por aí algo na linha de “Fulano de Tal exibe a bondade e a pureza de um dr. Jekyll, mas dentro dele se esconde um Mr. Hyde.”  Bondade e pureza não se aplicariam nem a Jekyll nem a Victor Frankenstein. Talvez arrogância, hubris, descaso com precauções. No caso de Stevenson, ele indica Hyde como um inimigo de Jekyll, mas parece sugerir que ele é uma droga, um vício secreto com que o doutor se diverte mas quando menos espera tudo está a ponto de se tornar público.

O médico ilibado e o sadista de rua não são reflexos ou réplicas um do outro no sentido em que o são, p. ex., os sósias e xarás do conto “William Wilson” de Edgar Poe. Aí, sim, existe um espelhamento distorcido. Cada um é espelho do outro, com diferenças essenciais. A leitura moralista diria que um era a má consciência do outro. Mais interessante é notar que dois sósias, de nome igual, estudando no mesmo colégio têm que se autodestruir, como duas partículas subatômicas contrárias.

A ficção científica pegou esse conceito do Duplo e propôs o Múltiplo. E daí pôs em movimento caravanas de clones, de vítimas de duplicadores moleculares, de viajantes no Tempo arrastados num remanso onde acabam se chocando com versões alternativas de si mesmos. O William Wilson justiceiro podia ser uma versão eu-sou-você-amanhã do WW “frívolo peralta”.  Cada Duplo se rege por leis diferentes.



sábado, 28 de dezembro de 2013

3381) Singularidade maligna (28.12.2013)



Quando Mary Shelley criou em 1818 o seu Frankenstein, estava criando um dos mais versáteis símbolos do mundo futuro. O monstro fabricado em laboratório já serviu de alegoria para tudo. Uma das primeiras que me chamaram a atenção foi a de um crítico que disse: “O monstro de Frankenstein é o adolescente de hoje. Feioso, desajeitado, mal vestido, com um cabelo horrível... Sem saber falar direito, e sem saber o que fazer com o próprio corpo... Querendo achar uma companheira, praticando atos involuntários de violência, porque é grande demais para si mesmo...”  E por aí vai.

Talvez o primeiro grande monstro da FC seja uma metáfora para o último: a Singularidade, o momento em que o homem produzirá uma Super-Inteligência Artificial capaz de suplantá-lo. Ninguém está tentando criar isso, na verdade. Mas existem hoje no mundo milhares de pesquisas independentes que convergem todas nessa direção. A S.I.A. vai surgir pelas mãos de pessoas que não tinham a intenção de criá-la.

Softwares capazes de se reprogramar, se auto-consertar, se aperfeiçoar e evoluir. Chips, fibras, hardwares cada vez mais leves, eficazes, rápidos e baratos. Conexões sem fio ubíquas, velozes, superpostas. Tudo isto são como os pedaços de uma criatura artificial que estão sendo criados por pesquisadores independentes, que muitas vezes nem prestam atenção às pesquisas dos outros, porque estão mergulhados demais na própria.

Se quiséssemos criar a S.I.A. como um projeto civilizatório coletivo, talvez ela nunca acontecesse, porque cada passo teria que ser examinado e aprovado por dezenas de comissões internacionais. Não é o que está acontecendo. Cada pesquisa independente das outras, mas o que acontecerá quando essas partes, administradas por softwares conscientes, começarem a se coordenar e a trabalhar em conjunto?

A criação da Singularidade não deve ser muito diversa da criação da vida no tal “oceano primitivo”, há milhões de anos. Uma série de processos químicos independentes que acabaram gerando algo de natureza essencialmente diversa. No caso presente, pode-se argumentar que as pessoas envolvidas (os cientistas, as corporações, os laboratórios, etc.) sabem o que estão fazendo, mas na verdade esse “saber” é parcial, localizado, e de modo algum tem aquele objetivo em mente. Interrogados, esses pesquisadores não admitiriam ter como objetivo a criação de uma entidade bioeletrônica incontrolável. Diriam todos que “sabem muito bem o que estão fazendo” e que “não há a menor possibilidade daquele processo escapar ao seu controle”. Diriam, em suma, o que todo cientista diz antes de ser surpreendido pelo tsunami cumulativo e aleatório da ciência.


sábado, 16 de novembro de 2013

3345) Lord Byron's Night (16.11.2013)



(foto: Dani Barcellos)

Estive na 59a. Feira do Livro de Porto Alegre, para dois compromissos dentro do evento Tu Frankenstein, dedicado à literatura fantástica. O primeiro, um bate-papo com Duda Falcão e João Pedro Fleck, organizadores do evento, e os tradutores César Alcázar e Guilherme Braga. O outro, um desafio curioso. Como sabem os fãs da literatura de terror, em 1816 os poetas Lord Byron e Percy Shelley (este com sua noiva Mary) se encontraram na mansão do primeiro, às margens do Lago Genève (ou Lago Leman), na Suíça. Numa noite chuvosa, eles e mais alguns convidados propuseram uns aos outros o desafio de cada um escrever uma história de terror. Algum tempo depois, surgiram dois clássicos da literatura fantástica: O Vampiro, de John Polidori (um dos amigos presentes, e médico pessoal de Byron) e Frankenstein, ou o Moderno Prometeu de Mary Shelley.

O desafio gaúcho, chamado informalmente “Lord Byron’s Night”, consistiu em colocar 18 escritores para passar uma noite em claro dentro da Biblioteca Pública de Porto Alegre (que está fechada para restauração), sem poder sair, sem conexão de Internet, da noite do sábado até o amanhecer do domingo, com o compromisso de cada um entregar, no fim do prazo, um conto de terror. Temas e ambientação foram deixados a cargo de cada um; a única exigência era que a Biblioteca aparecesse, fosse como local da história (em parte ou no todo), ou por conter uma livro ou documento que iria desencadear o enredo, etc. No andar térreo, um bufê com sanduíches, salgados, refrigerantes, café e cerveja – para manter todo mundo inspirado e desperto.

A Biblioteca é mais antiga, mas o prédio atual, em reforma, é de 1922, e tem paredes, tetos e decoração extremamente interessantes. Iluminação indireta criava um ambiente soturno. O grupo de escritores incluía os argentinos Federico Andahazi (autor de O Anatomista) e Gustavo Nielsen, o francês Alexis Aubenque, os norte-americanos Sean Branney e Christopher Kastensmidt (este radicado no Brasil há 12 anos), e os brasileiros Felipe Guerra, João Pedro Fleck, Duda Falcão, Marcelo Amado, Celly Borges, Guilherme Braga, Cesar Alcázar, Carlos Patati, Bráulio Tavares, Simone Saueressig, Felipe Castilho, Max Mallmann e Carlos André Moreira. Os contos deverão ser reunidos numa antologia com lançamento previsto para a 60a. Feira, daqui a um ano.

Foi uma rara sensação passar a noite escrevendo, cercado pelo tlec-tlec de 17 notebooks, com pausas de hora em hora para um café e um bate-papo com os colegas, e produzir, das 21 horas às 3 da manhã, um conto de 3.200 palavras, num regime de total improviso (eu não sabia o que ia escrever até digitar a primeira frase).


sábado, 8 de março de 2008

0098) Como recordar um sonho (15.7.2003)



A primeira coisa é não abrir os olhos, não fazer o menor movimento. No instante em que você perceber que acordou, tem que continuar imóvel. Qualquer alteração física irá cortar o processo que ocorre na sua mente. 

Você já sabe que acordou, sabe em que posição está, ouve ao seu redor vozes, ruídos da rua, etc. Esqueça tudo e pense no sonho, que está se esvaindo. Um programa mental chamado Aqui-e-Agora acaba de ser ativado, e o sonho não se encaixa nele.

Esqueça quem é, e onde está. Repasse as imagens do sonho, sem tentar verbalizar, apertando o botão FF e verificando se está tudo ali. Tente fazer um balanço total do sonho. 

Sonhos têm um caráter segmentado. Às vezes recuperamos dois ou três episódios, mas havia muito mais. Quando tiver pescado o máximo possível, dê uma repassada na versão total, devagar. Depois outra, agora já tentando verbalizar alguma sensação difusa (“Eu estava querendo ir para minha casa, e era na véspera de uma data importante”) ou registrar uma ambiguidade (“Eu estava na casa de Fulano, só que era um enorme salão cheio de móveis empoeirados”). 

O importante neste momento é fazer com que a ascensão da mente, de 100% sonhando para 100% desperta, seja lenta e gradual, trazendo à tona o que foi possível salvar do sonho.

Convém ser lento ao sentar na cama, abrir os olhos, começar os gestos rotineiros. Já vi sonho dar um pipoco e sumir no vácuo só porque perdi alguns segundos procurando o chinelo. (Destino mais trágico é o dos que são guilhotinados pelo toque do telefone.) 

O sonho ainda deve ser ruminado e fortalecido durante o lavar o rosto, o tomar café, o trocar as primeiras frases com a família. Depois, se achar que vale a pena. anote.

Muitos publicam livros contando o que sonharam: Jack Kerouac (Book of Dreams), George Perec (La boutique obscure), William Burroughs (My Education). 

O mais conhecido dos poemas sonhados é o “Kublai Khan” de Coleridge, mas os exemplos literários são incontáveis. Stevenson sonhou o Médico e o Monstro, Mary Shelley o Frankenstein, Bram Stoker o Drácula. Talvez porque na época destes autores o principal analgésico era o láudano, que tem efeitos alucinógenos.

O que fazer com o sonho? Ninguém sabe, portanto cada um pode fazer dele o que lhe der na telha. O sonho é um jogo-de-Acaso. É como jogar búzios ou arcanos, só que os elementos manipulados pelo Acaso são pedaços de pensamentos nossos. 

Há quem interprete sonhos, extraia deles todo tipo de presságio, de inspiração, de justificativa. Costumo anotar os meus, porque tenho facilidade para escrever. 

Há pessoas que numa noite sonham décadas inteiras de outra vida. Há pessoas que quando dormem lembram-se de tudo sobre o mundo da vigília, e quando acordam esquecem do que sonharam. Há músicos que têm sonhos musicais, sonhos sem história, sem imagens, sem aquis, sem agoras, sonhos de harmonias que não têm limite e melodias que não têm fim.