Mostrando postagens com marcador Tolkien. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Tolkien. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 6 de outubro de 2022

4870) A arte da trilogia (6.10.2022)



O sucesso da trilogia fílmica O Senhor dos Anéis (2001-02-03 ) de Peter Jackson enfiou esse conceito trilógico no juízo das pessoas, como se fosse uma verruma. Ninguém fala mais: “Vou escrever um romance”. Romance é para os fracos. É só “vou escrever uma trilogia”.
 
Pra que tanta pressa? Custa nada escrever um livro, para confirmar que pode, e depois “alçar mais altos voos”, como diria o poeta? Uma coisa que sempre questionei foi o fato de que trilogia não é um conceito literário (como “romance” ou “conto”), mas editorial. É uma forma de publicar obras de ficção muito longas.
 
E as trilogias não surgiram com Tolkien – que se irritou muito com seus editores quando estes sugeriram publicar Lord of the Rings em três volumes. Ele queria um livro só, porque assim foi concebido. Os editores explicaram que o livro tinha cerca de 1.500 páginas, ficaria muito grande e muito caro. Por outro lado, a estrutura narrativa interna comportava uma divisão em três partes bastante nitidas. Tolkien concordou, com a condição de que os livros saíssem com uns seis meses de intervalo, o que aconteceu. Foi a decisão mais acertada.
 
Aliás, trilogia não é o único modelo, porque na literatura mainstream temos o “Quarteto de Alexandria” de Lawrence Durrell (Justine, 1957; Balthazar, 1958; Mountolive, 1968; Clea, 1960), e na FC temos a insuperável decalogia Missão: Terra (1985-1987, dez livros, com cerca de 4 mil páginas ao todo).


Robert J. Sawyer, um autor canadense talentoso e premiado, é meio que um especialista nessas séries caudalosas. E tem uma interpretação interessante a respeito, numa entrevista à Locus (#600, janeiro 2011).
 
Diz ele que existe a trilogia próxima ao caso de Tolkien, a que nasce de uma única história que acaba se estendendo demais, o que dificulta a publicação num só volume. No caso dele, Sawyer fornece como exemplo sua trilogia “WWW”, em que uma garota cega recebe implantes que lhe permitem “ver” por dentro a World Wide Web. Os três volumes são Wake (2009), Watch (2010) e Wonder (2011).


Diz Sawyer (trad. BT):
 
Vistos em conjunto, penso neles como um só romance. Lembro de tudo que acontece ali, mas é preciso um esforço real, de minha parte, para saber em que ponto específico, de qual livro, algum fato ocorre. Se o público teve alguma queixa a respeito de Wake, a reclamação mais frequente foi de que há linhas narrativas que não foram devidamente encerradas. Todas se encerraram no final de Wonder – e de uma maneira espetacular, eu acho!
 
Existe um segundo tipo, para Sawyer. São três livros diferentes, mas que formam uma espécie de tríptico, de conjunto que se complementa de forma harmoniosa. Ele dá como xemplo sua trilogia conhecida como “The Neanderthal Parallax”, onde ele narra o contato de um grupo de cientistas com uma realidade paralela onde os homens de Neanderthal se desenvolveram e criaram uma civilização análoga à nossa. Os três volumes são Hominids (2002), Humans (2003) e Hybrids (2003).
 
São narrativas que envolvem uma complexa comparação entre sistemas sociais parecidos e diferentes – duas humanidades evoluindo ao longo de linhas que divergem em alguns pontos e convergem em outros, suscitando questões antropológicas, filosóficas, biológicas, religiosas, etc.




Diz ele:
 
Num caso assim, você escreve um livro em que um habitante desse mundo vem até o nosso; depois um livro onde um de nós vai visitar o mundo dele, e por fim um livro em que uma co-existência entre os dois mundos se desenvolve de forma estável. Isto produz uma trilogia natural.
 
Não li nenhum destes romances, e estou me baseando apenas nas declarações do autor. Creio que para descrever de forma mais precisa essa idéia dele – a de um triptico, três histórias diferentes formando um conjunto temático – seria preciso haver diferenças significativas de livro para livro, para que a obra não se tornasse um mero “livrão” dividido em três pedaços. Três elencos distintos de personagens principais, por exemplo, ajudariam a dar a cada livro esse tipo de autonomia narrativa, mas não sei se é o caso.  


 
O terceiro tipo, segundo Sawyer, é uma espécie de trilogia involuntária. Diz ele:
 
Neste caso, você escreve um livro que faz muito sucesso. Aí, recebe a encomenda de uma continuação, que também faz um sucesso muito grande. Aí você escreve um terceiro livro e avisa: “Pra mim, chega”.
 
Sawyer cita, a este propósito, sua trilogia chamada “The Quintaglio Ascension”, composta pelos livros Far-Seer (1992), Fossil Hunter (1993) e Foreigner (1994). A premissa, bastante ousada, é de que em tempos remotos uma civilização alienígena transportou dinossauros terrestres para um planeta remoto com condições físicas semelhante à Terra, e ali os dinossauros desenvolveram inteligência, cultura, tecnologia e ciência – a série, inclusive cria equivalentes sáurios a Galileu Galilei, Isaac Newton e Sigmund Freud.
 
No caso da trilogia involuntária, há que considerar que no primeiro volume o autor teve que proceder a uma “construção de um mundo” cheia de detalhes, exigindo pesquisas, etc., e de certa forma, mesmo sem querer, isso deixava meio caminho andado para um volume dois e um volume três. O alicerce já estava assentado. Isto não é a mesma coisa, contudo, do que sentar e preparar três resumos longos e detalhados para os volumes 1, 2 e 3 de uma série – o que seria o segundo exemplo.
 
Séries de romances oscilam entre esses três modelos sugeridos por Sawyer, que tem a seu favor a longa experiência prática.




Se pegarmos uma série famosa de FC, o “Book of the New Sun” de Gene Wolfe (quatro livros publicados entre 1980 e 1983), vemos aí o modelo tolkieniano perfeito, porque trata-se de uma única história, narrando o percurso de vida e amadurecimento de um personagem central, Severian, que evolui de aprendiz de torturador (no livro 1) até Autarca do Império (no volume 4). Não são livros que possam ser lidos fora de ordem, ou isoladamente. É uma história só, inteira, contínua.
 
Tentei pensar num exemplo de “tríptico”. Me ocorreu que o próprio Gene Wolfe tem uma obra modelar, se considerarmos “uma trilogia de noveletas”. The Fifth Head of Cerberus (1972) é um livro com três noveletas diferentíssimas, mas compartilhando o mesmo universo, e ao ler cada uma delas a gente tem revelações essenciais sobre o enredo e o significado das outras duas. Se alguém fizer isso com três romances...



É mais ou menos o que Jeff VanderMeer fez em sua trilogia “Comando Sul” (Southern Reach), que traduzi para a Ed. Intrínseca sob os títulos Aniquilação, Autoridade e Aceitação. Três histórias em torno de um mesmo fenômeno espantoso (uma visitação alienígena no litoral da Flórida), onde os personagens se repetem, mas há várias mudanças de ponto de vista, e cada livro esclarece coisas que estão ausentes dos demais.
 
Aliás, é interessante o viés editorial que faz os autores darem as mesmas letras iniciais para os diversos livros – uma estratégia de “recall”, fazendo o leitor associar com rapidez os volumes uns aos outros (e correr pra comprar o que falta).
 
William Gibson, o inventor do cyberpunk, já tem na estante umas três ou quatro trilogias com um perfil diferente. A primeira e mais famosa tem Neuromancer (1984), Count Zero (1986) e Mona Lisa Overdrive (1988), que pode, sim, ser considerada um tríptico, porque são três histórias cronologicamente sucessivas, onde alguns personagens se repetem, mas cada uma delas se conclui satisfatoriamente. Não é necessário ler o que vem depois – embora essa leitura, claro, acabe iluminando certos aspectos do que foi contado no livro anterior.



No Brasil, temos um exemplo de trilogia de FC talvez não planejada. Jorge Luiz Calife publicou em 1985 seu Padrões de Contato, depois que Arthur C. Clarkle lhe agradeceu publicamente por algumas idéias para escrever 2010, sequência de 2001, uma Odisséia no Espaço. Na época, Calife enfrentava três preconceitos, como ele mesmo relata com bom humor: era brasileiro, era desconhecido, e escrevia FC. Ou seja, não havia a menor garantia de que viesse a publicar um segundo livro, mas publicou (Horizonte de Eventos, 1986). As vendas devem ter sido o pinga-pinga habitual de todos nós da FC brasileira; mas anos depois ele fechou a trilogia com Linha Terminal (1991), pela Ed. GRD. A trilogia saiu completa num só volume, pela Devir (SP).
 
Em princípio, não há nenhum mérito ou demérito especial em conceber uma narrativa em três partes sucessivas (ou quantas forem) a serem publicadas independentemente. O problema surge apenas quando criação literária e projeto editorial entram em conflito, e isto pode ocorrer de mil maneiras.
 
No caso de uma “trilogia involuntária” pode ocorrer o caso de dois romances bem sucedidos, mas auto-suficientes, obrigarem um autor já sem novas idéias a esticar num terceiro livro uma narrativa que não tinha mais para onde ir.
 
Pode ocorrer também que uma trilogia planejada e anunciada publicamente no primeiro volume acabe se interrompendo porque o autor enveredou numa crise criativa, questionou a validade do projeto original e decidiu começar do zero um projeto novo. Foi o caso de Ariano Suassuna com o seu ciclo da “Pedra do Reino”.




terça-feira, 19 de dezembro de 2017

4297) Tolkien e os rios da Terra Média (19.12.2017)





Um dos encantos que fascinaram os primeiros leitores da trilogia O Senhor dos Anéis (1954-55) de J. R. R. Tolkien foi a impressão de realidade intensa produzido por um livro que era claramente de fantasia, que transcorria num mundo sem nenhum país reconhecível, nenhuma cultura reconhecível, mas que era intensamente real, verossímil, mesmo quando estava descrevendo cenas com seres fantásticos e forças sobrenaturais.

Já se disse que o livro de Tolkien foi um dos primeiros em que um leitor sentia o quanto custa fazer longas viagens a pé. Os personagens passavam longos capítulos para ir de um lugar a outro, numa época literária em que esse nó-górdio era cortado com fórmulas mágicas tipo: “Depois de alguns dias de extenuante caminhada, nossos heróis viram-se finalmente à beira do Rio Aligátores...”

A textura de uma roupa, a profusão de odores numa estalagem, a sensação de estar amarrado há horas e cheio de cãibras, tudo isso eram pontos positivos na criação de uma narrativa fisicamente verossímil.

E quando focalizávamos a atenção no chamado ambiente-macro, a impressão se mantinha. Aqueles personagens não eram ciscos de poeira boiando no ar. Pertenciam a famílias longuíssimas onde todo mundo tinha nome e datas, serviam a reis cujas dinastias eram descritas com minúcias ao longo de séculos. Era um mundo onde todo mundo existia de verdade, com testemunhas.

Invoco todas estas qualidades do texto de Tolkien para introduzir uma divertida crítica feita por Alex Acks (geólogo e escritor) a respeito dos rios e das montanhas da Terra Média, “Middle Earth”.

Num artigo reproduzido pelo saite da editora Tor Books, Acks faz uma série de críticas ao modo como os rios parecem se comportar na paisagem da Terra Média tolkieniana. Não vou transcrever aqui a argumentação dele, cuja íntegra pode ser lida no link original:


Basicamente, Alex diz que apesar de ser um admirador da obra de Tolkien, ele considera que os mapas incluídos nela são “os mapas mal-feitos de fantasia que deram origem a milhares de mapas mal-feitos de fantasia”. Esses mapas se tornaram um “bônus” quase obrigatório do gênero, tal como as plantas-baixas da casa onde ocorreu o crime o foram para a literatura detetivesca dos anos 1930-1950.

Diz Alex que o curso do Anduin, o principal rio, é “incompreensível”, devido a vários fatores. Um deles é o fato de que quando um rio entra em rota de colisão com uma cadeia de montanhas (um local onde o terreno “sobe”, por definição) isso tem algo de estranho. Ele faz algumas ressalvas (talvez o rio já existisse, e as montanhas tenham se erguido muito tempo depois, por uma convulsão geológica qualquer), e segue adiante.

Ele observa que o Anduin não parece ter grandes afluentes visíveis, e que os rios em volta, em vez de correram na direção dele, parecem ir cada qual numa direção diferente, o que sugere uma topografia  de relevos pouco realistas. A direção de um rio indica que existe ali uma baixa, pois a água tende a se escoar sempre para os lugares mais baixos. E essa direção dele tem que estar de acordo com as outras figuras de relevo em volta.

O que uma crítica desta natureza nos diz sobre o talento literário de Tolkien?

Várias coisas, e nenhuma delas muito grave. Tolkien era meio filólogo, meio medievalista. Era professor em Oxford, o que já é meio caminho andado para a especialização do conhecimento. O cara tende a ser um esgotador-de-um-só-assunto, e não um comparador-transversal-de-disciplinas.  É mais que compreensível que ele entendesse pouco de geologia. Todo escritor acaba errando, quando usa dados de fora de suas áreas de conhecimento. Os erros hidrográficos de JRRT não me parecem graves; pelo menos, foi a primeira vez que vi alguém falar a respeito.

Tolkien fazia uma espécie de hard fantasy, ou seja, uma fantasia que mesmo admitindo elementos sobrenaturais busca uma coerência interna, uma lógica, um compromisso de rigor. A verossimilhança de um elemento fantástico é maior quando o leitor percebe que existem regras, existe um quadro geral de forças e pressões no qual esse elemento tem que se encaixar.

Numa carta ao seu filho Christopher, em 25 de abril de 1944, quando trabalhava no Livro IV, ele diz:

Dei uma aula medíocre, depois encontrei por meia hora os Lewises [provavelmente C.S. Lewis e seu irmão] e C.W. [provavelmente Charles Williams].  Aparei três gramados, escrevi uma carta a John [o outro filho de Tolkien], e lutei com uma passagem problemática em The Ring. A esta altura, eu tenho de descobrir quanto tempo mais tarde a lua se eleva a cada noite, quando está próxima de ficar cheia; e como preparar um guisado de coelho!

Se Tolkien desconhecia os detalhes da dinâmica dos fluxos hidrográficos, ou sei lá como se chama isso, não era por burrice ou negligência, era por falta de tempo mesmo. Se pudesse, ele estaria consertando e aperfeiçoando essas coisas até hoje. Ele era desse tipo.

Os possíveis erros não influem no desenvolvimento do enredo e, principalmente, não são aqueles erros que empurram o enredo para um beco sem saída e que o autor, percebendo tarde demais, resolve mediante um deus ex machina qualquer.

Tolkien parecia ver um mapa (e assim agem muitos dos autores que o seguem) como um quadro, uma obra de arte, um retrato idealizado de uma paisagem, destinado apenas a sugerir vagamente a posição relativa dos elementos, e uma distância aproximada. (Como os mapas de metrô, p. ex.) Ali, como numa “carta enigmática”, cada elemento pictórico corresponde a uma feição do mundo exterior, mas num sentido meramente ilustrativo.

Um mapa físico, no entanto é mais do que isto: mesmo estático, ele indica a posição atual de um processo dinâmico, algo que envolve placas tectônicas, secas, alagamentos, erosão. É um caso de “a foto da nuvem”, só que uma nuvem muitíssimo mais lenta, que não muda no curso de minutos, e sim de milênios.

Existe forçosamente uma sintaxe interna entre os elementos representados num mapa científico. Isto modifica aquilo. Isto é consequência daquilo. Isto e aquilo são consequências distintas de um fenômeno que já passou.

É neste aspecto que a notável mente analítica de Tolkien, durante a criação da obra, cedeu espaço a sua não-menos-notável mente imaginativa, e seu mapa se tornou uma peça de arte gráfica, um híbrido, a meio caminho entre a descrição de fenômenos físicos e a pictografia armorial.







sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

3676) A maldição da trilogia (5.12.2014)



Há um mecanismo na mente humana que eu denomino Síndrome do Solitário Exemplo.  E defino assim: quando temos uma única experiência de algo, somos incapazes de perceber (e isto é mais do que compreensível) o que existe ali de necessário e o que existe de contingente. Em outras palavras: o que faz parte da própria essência daquilo, e o que não passa de um detalhe colateral, irrelevante, que tem importância naquele exemplo isolado mas não pertence à categoria como um todo.

Sou meio ruim de abstrações filosóficas e o jeito é correr para o abrigo do exemplo mais próximo.  Você desce num aeroporto na Turquia, país que visita pela primeira vez, e o taxista é barbudo, tem um terço católico pendurado no retrovisor, e usa óculos escuros.  Sua primeira conclusão é estender as características do Solitário Exemplo à categoria em geral e pensar que todos os turcos (ou todos os taxistas turcos) têm barba, terço e rayban. Quantas vezes ouvimos de um recém-chegado, desembarcados há meia hora, como “os cariocas” ou “os paraibanos” são gentis/grosseiros/prestativos/distraídos/faladores/...

Na literatura de Fantasia Heróica aconteceu algo parecido.  Muitos jovens leram O Senhor dos Anéis e botaram na cabeça a noção de que qualquer texto que se escreva em Fantasia Heróica tem que constar obrigatoriamente de três volumes.  Aí, o autor de 20 anos diz: “Estou com uma idéia ótima para a minha primeira trilogia”.

Sem querer entrar nos méritos estéticos ou estruturais do equívoco, me basta o argumento biográfico.  Tolkien detestava o conceito de trilogia.  Na cabeça dele, estava escrevendo um romance, a ser publicado como romance.  Seus editores tinham tido uma bela vendagem com O Hobbit e tiveram paciência bastante para passar meses argumentando.  Tolkien não era um escritor profissional.  Era um filólogo, um acadêmico, e livros com 1.500 páginas faziam parte de seu repertório de consulta habitual.  Ele mal lia a literatura de seu tempo, era carrança e ranzinza, e foi um trabalho para a editora Allen & Unwin convencê-lo a desmembrar o livro em três, mesmo tendo este uma estrutura que favorecia essa subdivisão.

Chegaram a um acordo: o livro seria apresentado como trilogia, mas a publicação seria em rápida sequência, num espaço de menos de dois anos.  Quando o leitor terminava um, o próximo já estava nas vitrines.  Mas... o carimbo tolkieniano foi forte.  O conceito de trilogia se impôs na Fantasia Heróica de um modo que nunca tinha se imposto na FC, apesar de exemplos como a Trilogia da Fundação de Asimov.  E se hoje você publica um livro no gênero, os fãs ficam perguntando “quando é que saem os outros dois”.


quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

3415) A Ordem e o Caos (6.2.2014)




As grandes batalhas cósmicas nos romances de Fantasia eram batalhas morais entre o Bem e o Mal.  Variam os sistemas éticos, mas a guerra é essa.  

Aqui, torna-se mais claro um equívoco que muitos moralistas, muitos autores e muitos leitores praticavam, e ainda praticam.  Dizem eles que a luta do Cosmos é para o Bem destruir o Mal.  Está errado.  O Mal faz parte da estrutura atômica e molecular do Bem. Deve se submeter ao Bem, e não a si próprio.  

O Bem não precisa destruir o Mal, aliás nenhum dos dois pode destruir o outro.  Eles têm um equilíbrio como o de cavaleiro e cavalo. O Bem doma o Mal.

Já outras fantasias mostram a batalha entre a Ordem e o Caos. Um trecho do Universo onde exista apenas Ordem (se isso é fisicamente possível!) é um espaço morto, e onde houver apenas Caos, idem idem.  

O mundo é um equilíbrio dinâmico constante entre milhões de sistemas físicos, químicos, biológicos, psicológicos, sociais, econômicos, etc., interagindo, competindo, cooperando e se influenciando sem parar.  Um sistema estagnado, onde nada acontece, precisa de uma injeção de Caos para voltar à vida.  Um sistema totalmente aleatório, browniano, precisa produzir padrões de estabilidade e de Ordem, para se alimentar deles, captar sua energia, e reinvesti-la de novo.  É assim que as formas físicas crescem.

O Senhor dos Anéis é um misto dos dois. Uma história cheia de discussões morais, claro, onde J. R. R. Tolkien, embora não faça uma alegoria religiosa tão explícita quanto a que seu amigo C. S. Lewis fez na série Crônicas de Narnia, conta uma história de fundo moral. 

Tolkien dá a ela um interessante volteio narrativo: para destruir o símbolo do Mal, é preciso ir de encontro ao Mal, ir à borda do motor ígneo de sua energia, seu núcleo radioativo, a montanha-vulcão de Mordor.  É preciso ir ao coração das trevas. 

Essa luta é também uma luta entre a Ordem e o Caos. De posse do Anel de Poder, Sauron, o Homogêneo, transformará o Universo num “continuum” indiferenciado multidimensional com um buraco-negro no centro. Ele e seu Anel sugarão todo o Poder para esse centro-vórtice onde tudo colapsa em ausência, estendendo atrás de si um manto de entropia exponencialmente maior. 

O Mal é uma monocultura hegemônica. O Bem é feito de pequenas coisas sem objetivos maiores e com necessidades específicas. Hobbits, anões, ents, humanos, elfos, gigantes, cavalos, elefantes, árvores, frutas, as águas dos rios e assim por diante.  

O Bem é a cosmodiversidade. O Mal (Sauron) parece desejar uma Singularidade de pixels cinzentos, parece desejar uma Ordem superior, mas acaba criando o Caos por superconcentração.






quarta-feira, 3 de julho de 2013

3228) Ariano e Tolkien (3.7.2013)






A obra de Ariano Suassuna passa por muitos territórios, que vão da música ao teatro, mas os que me interessam mais são o romance, a poesia e a ilustração gráfica. (Sem diminuir, claro, a importância dos demais.) 

Nesses três campos ele desenvolveu a vertente fantástica de sua criação: a articulação de um universo emblemático, simbolista, repleto de ressonâncias cósmicas, profundamente impregnado de um passado simultaneamente histórico e mitológico, carregado de implicações éticas e morais.

Como escritor, Ariano pertence a uma linhagem que também inclui J. R. R. Tolkien (de O Senhor dos Anéis), e há mais semelhanças entre eles do que parece à primeira vista. 

Há paralelos na vida pessoal: a perda precoce do pai e a importância da figura materna, e o fato de que ambos se dedicaram desde cedo à carreira de professor universitário, praticando a literatura nas horas vagas, por assim dizer.

A semelhança, no entanto, é mais literária do que biográfica. São escritores que têm uma profunda identificação com a tradição e o passado, e uma certa aversão a modismos e modernismos de superfície. 

Ambos católicos, criaram ciclos romanescos onde o Catolicismo está ausente como fato e presente como espírito, através de temas de pecado e redenção, e da luta do Bem contra o Mal. 

Ambos recorrem a fontes lendárias de um passado remoto – escandinavo no caso de Tolkien, ibérico no de Ariano. Ambos têm uma identificação instintiva com a simbologia da realeza e das ordens cavalarianas, com os emblemas e brasões, com a genealogia das famílias nobres, com a heráldica. 

E em ambos esse painel de heróis tem sua grandiosidade e nobreza contrastadas à presença de protagonistas humanos, frágeis, mas igualmente notáveis: os pequenos hobbits de Tolkien, e, em Ariano, a figura picaresca, plebéia e moralmente escorregadia de Quaderna.

Do ponto de vista técnico, ambos produziram trilogias épicas (a de Ariano ainda em progresso) recheadas de poemas bem integrados à trama. Ambos revelam um fascínio pelo grafismo, e produziram numerosas ilustrações para os próprios textos. 

Tolkien, filólogo, criou um idioma élfico com alfabeto próprio. Ariano produziu também um alfabeto armorial, inspirado nos desenhos dos ferros de marcar gado. Seus admiradores recorrem constantemente a esses alfabetos nas obras relativas ao universo de cada um.

O mundo de Tolkien é totalmente fictício; o de Ariano, em comparação, é de um realismo histórico-geográfico quase excessivo. 

O que aproxima os dois é o avistamento de um Passado grandioso, semi-histórico, semi-lendário, que se superpõe ao Real na obra de Tolkien, e na obra de Ariano é um pólo energizador do Presente.






sábado, 14 de abril de 2012

2844) Reescrever um livro (14.4.2012)



(Neil Gaiman, por Mizzy Chan)

Grande parte das carreiras literárias são resultado de uma experiência inesquecível de leitura que faz alguém pensar: “Quero escrever assim também”. Ninguém começa a escrever sem ter lido algo que o emocionou, que lhe deu uma nova maneira de pensar, de ver as coisas. Jean-Paul Sartre, na infância, copiava à mão romances de aventuras, trocando os nomes dos personagens e algumas peripécias, e os assinava com seu próprio nome. August Derleth era um fã tão ardoroso das histórias de Sherlock Holmes que inventou um detetive praticamente idêntico, mas para poder publicar as histórias trocou o nome do personagem para Solar Pons. Outras vezes, a motivação pode vir de um livro ruim. Diz-se que Fenimore Cooper trabalhava como marinheiro e um dia, numa daquelas longas esperas a que os marinheiros são submetidos, estava lendo um livro de aventuras. A certa altura jogou-o para um lado dizendo: “Que coisa idiota, até eu seria capaz de escrever um livro melhor do que este”. Os amigos riram dele, fizeram algumas apostas, e Cooper escreveu O Último dos Moicanos.

Neil Gaiman, o autor de Sandman, falou numa palestra sobre a impressão que lhe causou a leitura de O Senhor dos Anéis de Tolkien. Totalmente arrebatado pela obra, diz ele, “cheguei à conclusão de que O Senhor dos Anéis era, provavelmente, o melhor livro que poderia ser escrito, o que me colocou numa espécie de sinuca. Eu queria ser um escritor quando crescesse. Não, não é verdade: eu queria ser um escritor naquele momento exato. E eu queria escrever O Senhor dos Anéis. O problema é que ele já tinha sido escrito”. Esse tipo de entusiasmo é resolvido, hoje, pela existência do que chamamos “fan fiction”, histórias escritas pelos fãs utilizando o universo e os personagens de uma obra que admiram. Prolongamentos, extensões amadorísticas de uma obra profissional em sua origem. É uma atividade ironizada por muita gente, mas que acho positiva, porque ajuda o jovem fã a treinar sua mão dentro de um contexto dramatúrgico que ele já conhece bem e onde sabe se movimentar.

Depois da fan fiction, entretanto, pode surgir a literatura profissional. Neil Gaiman não reescreveu Lord of the Rings, em compensação criou a série Sandman de quadrinhos e uma porção de ótimos romances, como Neverwhere, American Gods, The Graveyard Book. Será que são tão bons e tão historicamente importantes quanto obra de Tolkien? Não importa: são os livros de Gaiman, os livros que ele tirou de sua própria imaginação e de sua memória afetiva, livros modernos ambientados em Londres, nos EUA, em cidadezinhas imaginárias... Livros que Tolkien não poderia ter escrito.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

2265) A jabulani e a vuvuzela (11.6.2010)



Começa hoje a Copa do Mundo! O idioma português já sofre o enxerto de duas palavras turistas. Jabulani é a bola a ser utilizada na Copa, uma bola da qual pouca gente gostou. Robinho disse que quem a fabricou nunca jogou futebol e Luís Fabiano considerou-a “sobrenatural”, porque toma direções imprevisíveis, desconcertando tanto o atacante quanto o goleiro. Já a vuvuzela é nossa conhecida desde o ano passado, na Copa das Confederações: é a ensurdecedora corneta soprada pelos torcedores sul-africanos.

Antes da Copa, a televisão nos abarrota de informações sobre a África do Sul, o país de Mandela, do “apartheid”, do bispo Desmond Tutu, etc. Quero lembrar a presença do país sul-africano na biografia de dois dos meus escritores favoritos (até agora ninguém tocou no assunto).

Foi ali que nasceu em janeiro de 1892, na cidade de Bloemfontein (que será sede, entre outros jogos, do duelo entre África do Sul x França) o autor de “O Senhor dos Anéis”, J. R. R. Tolkien. Apesar de filho de duas famílias inglesas, Tolkien nasceu na África do Sul porque seu pai tinha sido nomeado gerente do Bank of Africa. Em Bloemfontein nasceram ele e seu irmão mais novo Hilary. Tolkien guardou poucas recordações dali, porque em abril de 1895, quando tinha apenas três anos, sua mãe (que nunca se adaptou ao clima africano) trouxe os meninos de volta para a Inglaterra. Das suas memórias, ficou um episódio em que foi picado por uma tarântula, o que pode ter ajudado na criação da terrível Shelob, a aranha gigante que Frodo e Sam Gamgee têm que enfrentar (em “O Retorno do Rei”) na sua entrada no reino de Mordor, para a destruição final do Anel.

Se o menino Tolkien voltou para a Inglaterra em 1895, por diferença de poucos meses seu navio não cruzou com o navio que trouxe para a África do Sul, em janeiro de 1896, um outro menino chamado Fernando António Nogueira Pessoa, cujo padrasto, João Miguel Rosa, havia no ano anterior sido nomeado cônsul interino de Portugal. Fernando Pessoa tinha sete anos quando sua mãe, para acompanhar o segundo marido, transferiu-se para a cidade de Durban (onde o Brasil enfrenta Portugal no dia 25). Ao contrário do que ocorreu com Tolkien, a permanência na África do Sul marcou Pessoa profundamente. Ele morou ali (com ocasionais visitas a Portugal) até os dezessete anos, quando, em agosto de 1905, voltou definitivamente a Lisboa, para seguir o curso de Letras.

Pessoa tornou-se poeta em Durban, e seus primeiros escritos literários, tanto em prosa quanto em poesia, dividiam-se entre o inglês e o português. O poeta permaneceu bilingue durante o resto da vida. Seus poemas ingleses são de alto nível: “Antinous” (1918), “35 Sonnets” (1918), “Inscriptions” (1921), “Epithalamium” (1921), mas têm ficado em segundo plano nas análises de sua obra, eclipsados (compreensivelmente) pela obra em português. E foi como tradutor de cartas comerciais que o poeta ganhou a vida, bem ou mal, até falecer aos 47 anos.

sábado, 28 de fevereiro de 2009

0850) As Crônicas de Narnia (7.12.2005)



Está em todas as livrarias onde entro, espreitando-me do balcão principal, a maciça cabeça de um leão de olhos pensativos. Trata-se da tradução brasileira (Ed. Martins Fontes, 750 pgs.) das Crônicas de Narnia, o clássico de literatura infantil de C. S. Lewis, pela primeira vez com todos os sete livros reunidos num único volume. Cheguei a ler o primeiro, The Lion, the Witch and the Wardrobe, mas era difícil encontrar os títulos na ordem certa, e acabei deixando pra lá. Lewis foi um grande amigo de J. R. R. Tolkien, e não duvido de que o sucesso recente de O Senhor dos Anéis tenha trazido o nome e a obra dele à lembrança dos produtores de cinema (o filme de “Narnia” vai estrear em breve) e das editoras.

Lewis e Tolkien são uma dupla curiosa de escritores. Eram amigos, ambos ensinavam em Oxford, ambos eram homens introspectivos, ambos tinham um profundo problema religioso. E tornaram-se, quase ao mesmo tempo, dois dos principais autores de literatura fantástica da Inglaterra. Tolkien criou seu gigantesco universo da “Terra Média”, onde ambientou as histórias de O Hobbitt, O Senhor dos Anéis, O Silmarillion e tantas outras. Lewis escreveu uma trilogia de romances de ficção científica (Out of the Silent Planet, 1938; Perelandra, 1943; That Hideous Strength, 1945), em que os planetas do Sistema Solar servem como cenário da luta entre o Bem e o Mal. No final dos anos 1940, ele começou a publicar a série das “Crônicas de Narnia”.

Lewis era anglicano, Tolkien era católico. Os dois discutiam extensamente questões de literatura e religião, e tiveram profunda influência na obra um do outro. A rigor, quem quer que se interesse pela obra de Tolkien precisa dar uma espiada na obra de Lewis, para entender melhor o contexto em que as duas foram criadas. Não se pode esquecer também um terceiro escritor, Charles Williams, também autor de obras fantásticas; s três formavam um grupo informalmente chamado “os Inklings”. Lewis foi um típico intelectual solteirão até a idade madura, quando conheceu uma americana com quem se casou e teve um breve episódio de felicidade conjugal até a morte dela, poucos anos depois. Há um belo filme contando esta história, Shadowlands, com Anthony Hopkins e Debra Winger.

“As Crônicas de Narnia” foram lidas por milhões de crianças no mundo inteiro pelo simples prazer das aventuras que narram, e foram estudadas por centenas de acadêmicos pela complexa simbologia cristã que encerram. Fico meio temeroso quando vejo Hollywood adaptar obras desse tipo, porque na melhor das hipóteses o que pode acontecer é o que Walt Disney fez com “Alice no País das Maravilhas” de Carroll – um desenho simpático, criativo, divertido, mas a léguas de distância da riqueza de referências contidas no livro original. Em todo caso, os livros estão disponíveis em português, tanto na edição conjunta quanto em volumes separados.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

0655) Lula e Frodo (24.4.2005)



Fico perplexo com muita coisa que vejo na Internet, mas o que mais me inquieta hoje são os ataques que circulam por aí, voltados contra o Presidente Lula. Crítica fazem parte da política, e o governo Lula tem uma série de equívocos que sem dúvida acabam com a paciência dos mais ansiosos. Mas, francamente, nunca vi tanta coisa de baixo nível contra o Presidente. Nem Fernando Collor, que me lembre, foi tão insultado. Quando Lula era apenas um sindicalista, depois um deputado, um candidato à presidência, era chamado de comunista, imbecil, paraíba, pau-de-arara, bronco, analfabeto, grosso, sem-dedo, pelego, e o mais que vocês imaginarem. Quem o chamava assim era a Direita e eram também aqueles setores neo-liberais, cosmopolitas, sofisticados, que raciocinam em dólar e que se pudessem fariam uma cirurgia no País para extirpar o Nordeste.

Pois bem, hoje em dia quem diz isso de Lula, e muito pior, são os seus ex-eleitores, decepcionados pelos rumos que o governo toma. Dizia o poeta que no Inferno não há fúria que se compare à de uma mulher desprezada. Pois digo eu que há, sim, é a fúria das “categorias” que apostam tudo na eleição de um governante, achando que daí em diante vão se dar bem, e de repente percebe que o sujeito depois de eleito “aliou-se ao outro lado”, e eles ficaram de fora da festa.

Eu tenho minhas críticas ao governo Lula, como por exemplo as minguadas verbas para a Cultura, e o fato de pagarmos fortunas em juros de uma dívida que já estávamos pagando antes mesmo de contraí-la. O Brasil vive hoje como aqueles trabalhadores braçais que vão derrubar mata lá no fim do mundo, e a cada mês se endividam cada vez mais “na caderneta da bodega”. Quanto mais ganham, mais estão devendo ao patrão. Pois é isso – em vez construir hospitais, escolas, consertar estradas (nem falo em abrir estradas novas), pagamos não sei quantos bilhões por causa do superávit primário. Transferimos todo nosso dinheiro para um dinossauro moribundo, um sistema financeiro internacional cuja quebra já está à vista. Eu daqui já sinto os tremores. Vai ser pior que a Queda da Bolsa de 1929 e o Tsunami da Malásia. E quando isso acontecer, de nada adianta “ter crédito internacional” com o dinossauro morto. Só vai suportar o choque inicial (que durará anos) quem estiver com sua infra-estrutura interna bem montada -- indústria, comércio, saúde, estradas, escolas e tudo o mais que estamos deixando de lado.

Coitado de Lula. Sonhou em fazer uma revolução pacífica, mas para fazê-la tinha que ir para Brasília. É como Frodo, no Senhor dos Anéis, que para destruir o Anel do Mal tem que ir justamente para dentro dos domínios do seu maior inimigo. Brasília é Mordor, e o Palácio do Planalto (ou o Congresso – há controvérsias) é a Montanha da Perdição. Lula ainda não destruiu o que foi lá para destruir. Pelo contrário: dá sinais de ter feito com Gollum um acordo em que cada um usa o anel um pouquinho, e depois devolve pro outro.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

0576) Harry Potter vs Tolkien (22.1.2005)


(J. R. R. Tolkien)

O sucesso das séries “Harry Potter” e “O Senhor dos Anéis” tem levado muita gente a colocar os dois no mesmo saco. Afinal de contas, são muitos os pontos que as duas obras têm em comum. Ambas são de autores britânicos, abordam um universo fantástico, têm um poderoso apelo junto aos jovens, vendem milhões de livros no mundo inteiro, deram origem a filmes que também tiveram enorme sucesso. Isto faz com que muita gente raciocine como certa vez vi alguém dizendo: “Está faltando quem faça literatura de boa qualidade, e isso cria um vácuo por onde acabam entrando essas coisas tipo Harry Potter, Senhor dos Anéis...”

Peço licença para discordar. Peguemos os livros de J. K. Rowling. Ela não é uma grande estilista, sua imaginação é vulnerável a clichês (mas só percebe isto quem lê muita Fantasia inglesa), e parece ter uma tendência a escrever de forma cada vez mais prolixa. Tirando isto, seus livros são excelentes aventuras para garotos na faixa dos 8 aos 14 anos (estou falando garotos europeus, pois nem todo garoto brasileiro de 8 anos lê um livro sem figuras daquele tamanho). Têm histórias bem imaginadas (dentro das convenções do gênero), um protagonista interessante. E têm um forte senso de finalidade: o leitor sabe que cada um dos sete livros previstos irá narrar um dos sete anos necessários para a formatura de Harry como feiticeiro na escola de Hogwarts. A própria Rowling, na TV, mostrou certa vez um caderno onde ela diz ter a sinopse de todos os livros. O final já existe. Todos esperam chegar lá um dia.

Harry Potter é um entretenimento agradável, que não faz mal nenhum a um garoto, pelo contrário, dá-lhe a bendita e inesquecível experiência de “ler um livro grosso até o fim”. Li apenas os dois primeiros, e não tenho nada contra.

O Senhor dos Anéis é outra história. Tolkien é um erudito, um estilista, um poeta, e um indivíduo de pensamento profundo, com idéias vastas e complexas sobre o mundo, e que escolheu o gênero da Fantasia Heróica para exprimir estas idéias. Compará-lo com J. K. Rowling é como comparar Ingmar Bergman com George Lucas. Tolkien é um autor do mesmo time de (no Brasil) Guimarães Rosa, Ariano Suassuna e Euclides da Cunha. Pertence a uma linhagem literária de enorme valorização da tradição, do nacionalismo, e da firme convicção de que o Mundo é um campo de batalha onde se defrontam o Bem e o Mal. Seu estilo é um tanto pesadão mas clássico; os poemas que ilustram seus romances são obras impecáveis. O mundo fantástico que criou não tem paralelo. Pode-se discordar dele, mas não negar sua estatura.

Rowling e Tolkien não surgem num vácuo de ausência de boa literatura. Surgem num contexto em que a literatura fantástica vem sendo reavaliada e recriada por escritores e leitores, bem à frente, com a crítica tentando alcançá-los pouco a pouco. O mais notável deste processo é que ele seja simbolizado por autores tão distantes e tão diferentes quanto estes dois.

quarta-feira, 30 de julho de 2008

0478) As almas crepusculares (30.9.2004)




(estátua de Nathaniel Hawthorne)

Quando um dia eu tiver tempo, ou energia, ou inspiração, vou escrever um livro de 400 páginas dedicado ao estudo de um certo tipo de escritor que denomino “as almas crepusculares”. São aqueles indivíduos silenciosos, introspectivos, com pouco ou nenhum contato com o mundo exterior, que passam a vida inteira mergulhados nos livros ou nas suas próprias meditações, e cuja obra reflete essa condição de alheamento. 

Em geral são sujeitos puritanos, com pouco contato com mulheres. A maioria nunca se casou, vários deles mantiveram-se praticamente virgens até a morte, e outros conseguiram encontrar uma esposa compreensiva o bastante para aceitá-los e manter-se ao lado deles a vida inteira, cuidando deles, sem atrapalhar.

Um deles foi Jorge Luís Borges, um dos sujeitos mais tímidos que a extrovertida cultura argentina já produziu. Sua vida sexual foi menos movimentada do que a de muitos bispos norte-americanos. Morou a vida inteira com a mãe, lendo livros de filosofia e tecendo labirintos mentais. 

Outro desses foi H. P. Lovecraft, o mestre das histórias de terror, que afirmava ser uma alma do século 18 perdida no século 20, e cujo principal contato com o mundo eram as cartas de 20 ou 30 páginas que mandava para os amigos. 

Não devemos esquecer de Nathaniel Hawthorne, mergulhado no coração puritano na Nova Inglaterra, um recluso que disse certa vez: “Me transformei num prisioneiro dentro de um calabouço, e mesmo que a porta estivesse aberta teria medo de sair.” 

Não está muito longe deles o nosso Augusto dos Anjos com seu temperamento sombrio, mergulhado numa vida imaginativa de rara intensidade. Ou Franz Kafka; Cornell Woolrich; J. R. R. Tolkien.

Não estou radicalizando, não afirmo que esses sujeitos nunca tiveram vida social. Estou colocando-os num extremo de uma escala que no extremo oposto tem indivíduos sanguíneos, extrovertidos, saudavelmente animais, intensamente gregários: gente como Hemingway, Neruda, Henry Miller ou Vinicius de Morais. 

Também não digo que estas “almas crepusculares” fossem somente homens: basta pensar em Virginia Woolf ou Emily Dickinson.

Chamo-os “crepusculares” não apenas pelo clima de melancolia e solidão que cercou as suas vidas, mas também porque todos viveram naquela “Twilight Zone” em que realidade e fantasia pouco se distinguem. Todos cultivaram o hábito da introspecção, dos longos dias de solidão meditativa, da leitura e escritura de textos voltados para o seu próprio mundo mental. 

Não foram homens de ação, não foram adeptos de intensas atividades físicas, não cultivaram o prazer sensual, as aventuras amorosas, a variedade de experiências sexuais. Contentaram-se com o celibato, ou com um casamento sisudo e sem surpresas. Pareciam pedir ao mundo físico à sua volta que andasse na ponta dos pés, que não fizesse barulho, que os importunasse o mínimo possível, porque eles se sentiam no umbral de outro mundo, que só eles viam, e onde se sentiam muito mais em casa.




sábado, 3 de maio de 2008

0381) Tolkien no Far-West do futuro (9.6.2004)




Acabei de ler um livro que me deixou pensativo: The Gunslinger, o primeiro volume da série “The Dark Tower”, escrita pelo subestimado Stephen King. São sete enormes livros que King começou a escrever em 1970 e concluiu no ano passado, ou seja, 33 anos depois. 

Diz ele que quando leu O Senhor dos Anéis aos 19 anos teve um impulso imediato de escrever uma história parecida. Centenas de jovens tiveram o mesmo impulso, daí a existência, hoje, do gigantesco mercado de histórias de Fantasia, não só na literatura (Terry Brooks, Stephen Donaldson, Fritz Leiber, George R. R. Martin, Marion Zimmer Bradley, etc.) como no cinema, nos quadrinhos, nos “role playing games”.

A primeira idéia de King foi fazer o que todos fizeram: escrever uma batalha épica entre o Bem e o Mal, com elfos, orcs, dragões voadores, espadas mágicas... Mas ele não se sentia à vontade escrevendo uma fantasia baseada em campônios ingleses e ambientações escandinavas. 

A revelação lhe veio ao assistir O Bom, o Mau e o Feio, faroeste italiano de Sérgio Leone, e ver “um Clint Eastwood com dez metros de altura” e “um Lee Van Cleef com rugas que pareciam desfiladeiros”. Os dois universos se fundiram em sua mente: 

“Percebi que o que eu queria escrever era um romance que tivesse o mesmo sentido épico e mágico de Tolkien, mas cuja história acontecesse naquele ambiente do Oeste, majestoso, absurdo.”

The Gunslinger conta a história do pistoleiro Roland de Gilead, e de sua caça ao Homem de Preto, feiticeiro do Mal (uma espécie de Saruman). Ao longo da história vamos percebendo que aquele mundo fica vagamente no futuro. A ambientação é de faroeste, mas aqui-acolá os personagens evocam um passado onde havia grandes cidades, arranha-céus... Das areias do deserto, emergem maquinarias gigantescas e enferrujadas. 

Ficamos com a sensação de que em algum ponto do século 21 houve o colapso da nossa civilização, e que a humanidade se reorganizou como pôde. Nesse faroeste futurista, existem mutantes radioativos, ferrovias subterrâneas abandonadas, e pianistas de “saloon” que tocam “Hey Jude”. 

Quem quiser mais informações sobre a série, pode achá-las em: http://www.stephenking.com/DarkTower/.

Não é mais Tolkien, portanto. É uma resposta orgulhosa e viril dos sertanejos norte-americanos à obra de Tolkien, da qual o livro de King guarda aquele mesmo espírito épico, mas traduzido em elementos próprios (o faroeste, a ficção científica). 

Em “Tolkien e Guimarães Rosa” (14.1.2004) e em artigos nos dias seguintes, comparei estes dois autores, e agora quero colocar Stephen King nessa mesma prateleira. Aquietai-vos, ó críticos: não estou dizendo que King é um estilista comparável a Rosa. Mas ser escritor não é apenas ter estilo, é também ser fabulista, como disse Drummond. 

King é injustamente chamado de “fast-food” literário, mas para mim seu livro é uma carne-de-sol com macaxeira e um café bem forte, que é como eu gosto dessas coisas.





sábado, 15 de março de 2008

0259) Canudos, Lepanto, Cartago, Waterloo (18.1.2004)




Quem acompanha a série de filmes O Senhor dos Anéis deve lembrar-se das suas memoráveis cenas de batalha, especialmente no segundo e no terceiro filmes. O que parecem ser dezenas de milhares de extras fantasiados de orcs é na verdade uma criação de computador. Com exceção dos atores e figurantes que combatem de verdade diante das câmaras, todo aquele tapete de guerreiros armados até os dentes, que parece se estender até o horizonte, é gerado por computação gráfica. Para maior realismo, os programas fazem cada um desses “figurantes gráficos” se comportar de maneira ligeiramente diversa dos demais, para que tudo não fique parecendo um balé ensaiado ou uma coreografia de loops repetitivos.

Acontece que os programas vão se sofisticando. Há videogames onde é possível determinar no computador o que cada soldado daqueles vai fazer. Ele está sendo “pilotado” por um programa capaz de observar o cenário, deslocar-se no terreno, registrar e avaliar os movimentos dos outros figurantes, trocar golpes com o inimigo. Um técnico envolvido nesse processo queixou-se certa vez de que o grande problema era que os “figurantes virtuais” muitas vezes batiam em retirada, fugiam do campo de batalha. Quando o programa percebia que matematicamente suas chances eram poucas, eles passavam sebo nas canelas, corriam com a sela, davam às de vila-diogo. O técnico se queixava: “Não podíamos tornar os computadores burros o bastante para serem obrigados a lutar.”

Rapaz, isso na mão de um filósofo pode ficar muito engraçado. Veja o Oriente Médio. Conseguimos obrigar seres humanos jovens, instruídos, racionais, a vestir uma farda para ir matar gente num cu-do-judas qualquer. Ao mesmo tempo, uma mera simulação de computador consegue mandar a batalha às favas e cair fora. E ainda falam em que não há determinismo, e que o ser humano tem livre arbítrio. A julgar por esse pessoal que vai pra guerra, o livre arbítrio do ser humano é equivalente ao de uma baleia amestrada, como a Free Willy.

A liberdade é menor na vida real, mas vai se tornando mais alcançável no mundo dos jogos cibernéticos. Os superespetáculos, daqui a (quantos?) anos, serão uma mistura do cinema tela-grande com som Dolby estéreo, que temos hoje, com os jogos online como Última ou Counter Strike. Assim como neles, os espetáculos futuros juntarão milhares de personagens, que povoarão uma cidade ou entrarão em combate: e cada um deles é “pilotado” por um cara diante de um computador (ou com um PC no pulso) em qualquer parte do mundo. Filmes prontos, “obras fechadas”, virarão uma raridade cult. O público vai querer interatividade e competitividade. Irá se ampliando o espaço para os filmes improvisados por milhares de players. Em seus episódios mais dramáticos, eles serão transmitidos pela TV, ou reproduzidos em salões com imensas telas digitais diante de uma platéia onde se misturam jogadores e meros espectadores. Seremos Frodo, alguém será Sauron.

0258) Da Terra Média ao Sertão (17.1.2004)




(ilustrações: Poty / J. R. R. Tolkien)

A trilogia O Senhor dos Anéis foi trazida para o cinema por Peter Jackson com a fidelidade possível quando se trata se adaptar um livro tão imenso – na edição de bolso que possuo, ele ultrapassa as 1.500 páginas.

A comunidade internacional de fãs de J. R. R. Tolkien teve um papel importante nisto, pressionando diretor, roteiristas e produtores, e impedindo as catástrofes dramatúrgicas típicas das adaptações dos clássicos feitas em Hollywood. Assim, grande parte da substância do livro acabou tendo um equivalente aceitável na tela.

Tolkien era um sujeito introvertido, ascético. Teve uma terrível experiência nas trincheiras durante a I Guerra Mundial, quando perdeu vários amigos. O Senhor dos Anéis foi escrito entre 1936 e 1949, durante a II Guerra, portanto.

É comovente (e educativo) nos dias de hoje, ver Tolkien afirmar que o manuscrito inteiro foi duas vezes datilografado por ele próprio, porque mesmo sendo professor em Oxford não podia pagar um datilógrafo.

Era um conservador, apaixonado pela Idade Média, sobre a qual falava aos seus alunos com entusiasmo; conta-se que costumava encerrar essas descrições dizendo: “E aí veio a Renascença, e estragou tudo.”

Era profundamente católico, misoginista como muitos britânicos de sua geração, detestava a tecnologia e a modernização.

O “Condado” (Shire) onde vivem os hobbits é sua utopia pessoal, uma visão idealizada de uma Inglaterra rural, pacífica mas resoluta, amante do sossego e dos livros, mas capaz de ganhar uma guerra se ameaçada de invasão.

O Senhor dos Anéis, apesar de ser aquele catatau, é apenas a ponta do iceberg ficcional de Tolkien, que imaginou uma história-do-mundo completa, desenhou mapas, criou genealogias, idiomas e alfabetos.

Tolkien fundou o que podemos chamar de “ficção catalográfica”, onde o autor inventa todos os detalhes de um mundo. Ele inventou primeiro o idioma dos elfos, e ao imaginar sua História começou a inventar as narrativas que hoje conhecemos. Neste aspecto, sua obra tem uma coerência e um mapeamento interno muito maior que a obra de Guimarães Rosa.

Rosa era meticuloso ao pesquisar, e totalmente intuitivo e instintivo ao escrever. Seus arquivos guardam uma quantidade impressionante de material, mas ele não lhes deu a coerência catalográfica que existe na obra de Tolkien.

Extrovertido, vaidoso, bem-humorado, cosmopolita, Guimarães Rosa era em muitos aspectos o avesso de Tolkien.

Seus heróis (Riobaldo, Diadorim, Augusto Matraga) são tomados muitas vezes por uma alegre ferocidade, uma euforia-de-batalha que está ausente nos heróis dos “Anéis”.

Por outro lado, o romance de Tolkien é otimista (dos nove membros da Irmandade do Anel, apenas Boromir morre), enquanto que o Grande Sertão é no fundo a história de um fracasso, ou de uma vitória de Pirro: no final, Riobaldo é feliz no jogo (na guerra) e infeliz no amor.

Tolkien era um homem triste que sonhava com finais felizes, e Rosa um homem alegre que temia o Final.



0257) Frodo e Riobaldo (16.1.2004)





(Elijah Wood como Frodo)

Na coluna de ontem, comparei o perfil do Riobaldo de Grande Sertão: Veredas com o de Aragorn em O Senhor dos Anéis. Chamo isto de “recorrência arquetípica”. Todo autor, ao recriar um tipo clássico de personagem (no caso, o Guerreiro Heróico) dá-lhe (mesmo sem perceber) traços que pertencem a uma tradição literária. 

Aragorn e Riobaldo são grandes guerreiros, merecedores do posto mais alto do Poder, mas cheios de dúvidas e de hesitações. A literatura está cheia de riobaldos, mas nenhum como o de Rosa, e de aragorns, mas nenhum como o de Tolkien.

Há outro herói no Senhor dos Anéis, contudo, que tem muitos traços em comum com Riobaldo: é Frodo Baggins (na tradução brasileira, “Frodo Bolseiro”). 

Se Aragorn é o Herói Guerreiro a quem cabe derrotar os exércitos do Mal e unificar sob um poder central os clãs rivais, Frodo é, como Riobaldo, o sujeito pacífico sem vocação para herói mas que, é jogado pela circunstâncias no meio de uma batalha, e vira guerreiro a contragosto. 

É, assim como Riobaldo, um herói problemático, pouco à vontade com este papel (Riobaldo: “Sou de ser e executar, não me ajusto de produzir ordens”). E, como Riobaldo, é também um herói atormentado pela presença do Diabo.

Riobaldo, embora se torne grande guerreiro, foi criado para uma vida pacífica, e entrou na jagunçagem por acaso. Muito apegado aos livros, é contratado para ser professor e secretário de Zé Bebelo, o capitão das tropas que perseguiam os jagunços. Ao ver o primeiro combate de verdade, desgosta-se daquilo e abandona o patrão. 

Uma série de acasos o faz entrar em contato com o bando de jagunços de Joca Ramiro, entre os quais reconhece o “Reinaldo”, ou Diadorim, um menino que conhecera anos antes. E é por essa amizade, depois transformada em amor, que Riobaldo se junta ao grupo, e de intelectual vira guerreiro.

Riobaldo vai à encruzilhada das Veredas Mortas para fazer um pacto com o Diabo. O Diabo não aparece, mas o jagunço volta de lá transformado, mais seguro, mais ambicioso, e pela primeira vez disposto a tornar-se líder do bando. 

Nos “Anéis”, Frodo, tendo colocado o Anel, entra em contato direto com Sauron, o Senhor das Trevas, fica daí em diante sob a mira deste, e acaba oferecendo-se a contragosto para destruir o Anel e fazer desmoronar o império do Mal. 

Tanto Frodo quanto Riobaldo são heróis contaminados por esse contato com o Mal. Frodo diz, após o fim da aventura: “Estou ferido, Sam, ferido, e nunca vou me curar.” Riobaldo, na encruzilhada: “Nunca em minha vida eu não tinha sentido a solidão duma friagem assim. E se aquele gelado inteiriço não me largasse mais.” Cada frase poderia ter sido dita pelo outro.

Note-se também que ambos exorcizam o Mal virando “escritores”: Riobaldo constrói oralmente sua epopéia, ditando-a a um interlocutor invisível (implicitamente o próprio Guimarães Rosa); Frodo é o cronista que passa para o papel a Guerra dos Anéis, finalizando o manuscrito iniciado por Bilbo.






0256) Aragorn e Riobaldo (15.1.2004)




(Viggo Mortensen, como Aragorn)

Já me referi nesta coluna aos pontos em comum entre a obra de Tolkien e o Grande Sertão: Veredas de Guimarães Rosa. 

Em ambos se descreve uma batalha épica do Bem contra o Mal, onde as tropas do Bem são conduzidas por um herói problemático, cheio de dúvidas e hesitações. 

O herói do Grande Sertão é Riobaldo, um jagunço a quem cabe liderar o bando na jornada de vingança ao seu líder, Joca Ramiro, assassinado à traição por um dos seus sub-chefes, Hermógenes. 

Joca Ramiro tem a estatura épica e o caráter íntegro de um rei medieval (Riobaldo o chama de “par-de-França”). Com sua morte, os jagunços ficam divididos em bandos menores, cada qual comandado por um sub-chefe: Medeiro Vaz, João Goanhá, Titão Passos, Sô Candelário, etc.

Riobaldo é o melhor atirador do grupo, o jagunço mais frio no gatilho, o de melhor pontaria, talento que o torna respeitado e lhe vale apelidos honrosos: “Tatarana”, “Urutu-Branco”. Ele junta-se por fim ao grupo de Medeiro Vaz que, à morte, oferece-lhe a chefia. Ele recusa. 

É um típico herói-em-dúvida, herói moderno, diferente dos heróis mitológicos que em nenhum momento questionam a própria coragem, as próprias motivações. Riobaldo pergunta-se: “Por que estou fazendo isto tudo? Por que fazer isto? E por que logo eu?” 

Crivado de dúvidas, ele recorre ao pacto com o Diabo, na encruzilhada das Veredas Mortas, para a qual vai descrente, e de onde retorna sem ter certeza se encontrou mesmo o Diabo ou não. 

Mas a partir desse episódio ele parece mudado, imbuído de uma autoridade que não parecera ter até então. Sob seu comando os bandos dispersos de jagunços são unificados, e encurralam os “hermógenes” ou os “judas”, como chamam aos inimigos, até derrotá-los na batalha final do Paredão.

Em O Senhor dos Anéis, Aragorn é o legítimo herdeiro do trono, por ser filho de Isildur, o rei que decepou a mão de Sauron, o Senhor das Trevas, tomando dele o Anel do Poder. 

Aragorn, órfão, é criado pelos elfos, que somente na idade adulta vêm a saber de sua linhagem. Ele torna-se um “Ranger”, patrulha as fronteiras da Terra Média, e adquire não só experiência de batalhas e de privações como passa a conhecer profundamente o território e o povo. Ele poderia repetir a frase de Riobaldo: “Assim conheço as províncias do Estado, não há onde eu não tenha aparecido.” 

Sabe que é destinado a ser rei, e que para isso terá que unificar os diferentes reinos que se opõem a Sauron (Gondor, Rohan, etc.). Mas sabe também que seu pai, Isildur, cedeu à tentação do Anel e em vez de destruí-lo ficou com ele. 

Como Riobaldo, ele não questiona a própria bravura ou sua competência como guerreiro, mas, até ser arrastado pelos acontecimentos, hesita diante da missão que lhe cabe. Ambos pertencem a uma estirpe de heróis (como o Paul Atreides de Duna) que enfrentam a Morte sem medo, mas que hesitam diante do Poder, por saberem que nenhum Poder é conquistado com mãos limpas, por melhores que sejam as intenções do Herói.






0255) Tolkien e Guimarães Rosa (14.1.2004)




Uma vez, conversando com amigos estrangeiros, perguntaram-me quem era o maior escritor brasileiro; respondi que era Guimarães Rosa. Ninguém tinha ouvido falar nele; quiseram saber que tipo de escritor era. Eu disse: “Imagine os romances de J. R. R. Tolkien escritos por James Joyce.” 

Riram porque pensaram que era piada, mas não era, era um mero exagero. A crítica literária brasileira, especialmente a que sofreu influência do Concretismo paulistano, sempre compara Rosa com Joyce; nunca vi ninguém compará-lo com Tolkien. E no entanto a obra dos dois tem imensas semelhanças, que me voltam à mente ao assistir o terceiro episódio da magnífica trilogia O Senhor dos Anéis de Peter Jackson.

Tanto Rosa quanto Tolkien imaginaram uma região mítica, fundada em suas vivências pessoais e em suas fantasias metafísicas. 

O Sertão de Rosa é, para usar uma linguagem meio pedante, semanticamente realista (porque tudo ali é observado, é anotado em caderneta, é pesquisado junto aos mais-velhos: usos, costumes, lugares, plantas, bichos) mas sintaticamente mágico, porque os acontecimentos e os destinos dos personagens parecem orquestrados por potestades invisíveis. 

Esse sertão que na superfície é tão mineiro, tão geográfico, tem uma escala épica que o transforma no campo de batalha entre as forças de Deus e as do Diabo.

Quanto a Tolkien, criou a Terra Média (Middle Earth), supostamente uma era remota no passado do nosso planeta, povoada por reis, guerreiros, e raças fantásticas (elfos, anões, orcs, trolls, etc.), que foram varridas da Terra depois que o Homem tornou-se o seu dono. 

À primeira vista, o mundo de Tolkien é totalmente fantástico, mas basta ler uma biografia sua (especialmente a de Humphrey Carpenter) para ver como seu processo criativo era realista. 

Tolkien compunha para seus reis árvores genealógicas inteiras, que se estendiam por milênios. Os elfos têm uma linguagem completa, toda inventada por ele (e falada pelos atores em trechos dos filmes). Seu cuidado ao descrever as aventuras de Frodo o fazia calcular desde a fase da lua em determinada noite até quanto tempo alguém levaria para ir a pé ou a cavalo de um lugar para outro (aspecto em que autores de romances não-fantásticos, como Walter Scott, muitas vezes se fazem de doidos).

Apesar das evidentes diferenças entre Grande Sertão: Veredas e O Senhor dos Anéis, ambos têm um sopro épico semelhante, ambos são a epopéia de um grupo pequeno de guerreiros do Bem enfrentando um grupo impiedoso de guerreiros do Mal. 

Os “orcs” da Terra Média e os “hermógenes” que Riobaldo enfrenta nas batalhas sertanejas são personificações do Mal que um herói hesitante e problemático precisa derrotar. 

Há muitos paralelos de detalhes que podem ser traçados entre as duas obras, mas mais importante do que isto é o espírito de nobre maniqueísmo medieval que os dois autores compartilhavam. O Bem existe. O Mal também. E é preciso pegar em armas para combater o Mal.