Mostrando postagens com marcador Arthur Machen. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Arthur Machen. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

3337) Tome uma pela gente (7.11.2013)




De vez em quando um governo proíbe o consumo de uma droga bem popular no país, com as consequências que já se sabe. Cem anos depois, a droga volta de vento em popa, e do Governo que a proibiu só restam bustos de gesso, medalhas comemorativas e nomes de ruas.

Foi o caso da Lei Seca, quando os EUA proibiram que se bebesse bebida alcoólica no país. Durou de 1920 até 1933, e, como disseram vários historiadores, ali nunca se bebeu tanto, e nunca se bebeu tão mal. 

Arthur Machen afirmou: “Proíbam um homem de beber uma bebida alcoólica decente, e em breve ele estará alegremente bebendo álcool puro”. Os norte-americanos beberam álcool impuro durante 13 anos. O uísque era fabricado nas banheiras dos apartamentos, com ingredientes improvisados, e vendido por qualquer preço. 

A Máfia, um obscuro grupo de bandidos imigrantes, tornou-se uma das principais forças do crime organizado no país, graças à fabricação e venda daquilo que o Governo, ao invés de administrar, resolveu proibir. Triste do poder que não pode.

Li a notícia (http://bit.ly/1bshw4N) de que numa reforma realizada num dos edifícios da Universidade de Fairleigh (em New Jersey) foi encontrada uma lata de tabaco contendo uma folha manuscrita, uma verdadeira “cápsula do tempo”.  A lata estava embutida numa das paredes; quando foi aberta, encontrou-se a nota que dizia: 

“Estes banheiros foram remodelados em 1932. E. J. Parsons de Morristown fez os encanamentos, e Edw F Daniher de St Madison fez o revestimento. Outros homens que aqui trabalharam foram: (... – segue-se uma lista de nomes.) Foi durante a Lei Seca, e foi um trabalho feito sem tomar uma dose sequer. Quem encontrar esta nota, se a Lei no. 18 tiver sido revogada, tome uma pela gente”.

A Lei 18 era justamente a que entrou em vigor em 17 de janeiro de 1920, proibindo as bebidas alcoólicas. Atentem para o detalhe subversivo da “cápsula”, porque quem a colocou ali não hesitou em dar os nomes dos envolvidos no trabalho, e, mesmo admitindo que não tinham bebido nada durante aquele período, o teor da mensagem podia ser considerado (e certamente seria, basta imaginar as figuras que lessem aquilo) uma “apologia do uso das drogas”.

Um professor da Universidade local explica que (como sempre) a Lei só serviu para os pobres. Antes da sua promulgação, Ruth Vanderbilt Twombly, da elite local, “fez estocar na região uma tal quantidade de bebida que durou os treze anos da Proibição, e dava festas em estilo Grande Gatsby para mais de 600 pessoas”. 

Os operários não bebiam – assim como os remadores de Ulisses, na Odisséia, não tinham permissão para ouvir o canto das sereias. Quanto mais muda mais continua a mesma coisa.







quarta-feira, 12 de maio de 2010

2032) O “flâneur” de Baudelaire (12.9.2009)



O “flâneur”, segundo Baudelaire, é o cara que passeia sem compromisso e sem pressa pela grande cidade, registra tudo que vê, interessa-se por tudo que cruza seu caminho, entra em ruas desconhecidas, espia a vida alheia, envolve-se de maneira indireta com o que acontece à sua volta. Já foi definido como o primeiro grande personagem moderno e urbano, típico das nossas grandes cidades. Apesar de ser sido “fotografado” por um poeta, é um personagem do mundo do Romance, da narrativa em prosa em que ação, descrição, diálogo e digressão autoral se fundiram para criar o grande gênero literário urbano na segunda metade do século 19.

Há precedentes, e pensando em Baudelaire não há como não pensar em Edgar Allan Poe e seu conto-crônica “O Homem da Multidão”, a história de um velho misterioso que passa a madrugada caminhando a esmo pelo centro de Londres, abandonando um bairro mal o movimento começa a rarear, e indo às pressas para áreas da cidade em que, pela presença de cafés, restaurantes, etc., o vai-e-vem de pessoas nunca cessa. O homem da multidão é o primeiro mutante urbano, e carrega dentro de si (diz Poe) um crime não confessado, um segredo que não se pode revelar. Personagens misteriosos com este perfil estão no centro dos grandes romances de Balzac, Flaubert, Charles Dickens, Stendhal; e também nos folhetins popularescos (mas que não servem menos como radiografias da sociedade) de Eugene Sue e Ponson du Terrail. Na obra de escritores como Conan Doyle, Arthur Machen, G. K. Chesterton, Robert Louis Stevenson e outros a arte de caminhar pelas ruas à noite em busca de aventuras transformou-se num gênero literário que a crítica nunca formalizou, distribuindo essas obras por gêneros já existentes como “novela policial”, “romance de aventuras”, “histórias de terror” e assim por diante.

O “flâneur” é também o escritor-personagem, ou o personagem-escritor. Em How Fiction Works James Wood diz que este personagem baudelairiano vem do Frédéric Moreau, de Flaubert em Educação Sentimental, e prefigura o narrador dos Cadernos de Malte Laurids Brigge de Rilke. Diz ele: “Esse personagem é essencialmente um dublê do autor, é sua sentinela avançada: ele passeia indefeso, inundado por impressões. Anda pelo mundo como a pomba enviada por Noé, para trazer de volta seu relatório. A ascensão desse personagem está ligada à ascensão do urbanismo, ao fato de que esse gigantescos conglomerados de seres humanos despejam sobre o escritor, ou sobre seu preposto, enormes, espantosas quantidades de detalhes”. Wood associa esse personagem (que é “ao mesmo tempo uma espécie de escritor, sem ser escritor”) ao estilo moderno de narrar, o estilo livre indireto, em que autor e personagens observam juntos, reportam juntos, descrevem juntos, a tal ponto que o leitor não distingue (nem precisa distinguir) a qual deles se deve esta ou aquela observação.

sábado, 27 de março de 2010

1834) Gérard de Nerval, o “flâneur” (24.1.2009)




(Gérard de Nerval)

Existe uma arte em vias de desaparecimento, além do retrato a óleo, da zincogravura e do canto gregoriano. Refiro-me à arte de andar a pé pelas ruas de uma cidade, de preferência à noite, como nos versos de Cecília Meireles que já me conduziram através de muitos subúrbios adormecidos:

Alta noite, lua quieta 
muros frios, praia rasa. 
Andar, andar, que um poeta 
não necessita de casa. 
("Canção de Alta Noite", em Vaga Música, 1942)

Coisa de cavalheiros vitorianos percorrendo uma Londres que não existe mais:

Andamos seguramente três horas juntos, observando o calidoscópio da vida em constante mudança, com fluxo e refluxo, na Fleet Street e no Strand. A conversa característica de Holmes, com sua observação penetrante e poder de inferência, conservava-me pasmado e dominado. 
(Conan Doyle, Memórias de Sherlock Holmes).

Isto me vem à mente folheando Paris et Alentours de Gérard de Nerval, no qual descobri que o poeta precursor do surrealismo era também um grande caminhante, e escreveu numerosas obras descrevendo seus passeios a pé por Paris. Rabiscava o tempo inteiro nesses passeios, em pedaços de papel que guardava soltos nos bolsos. Escrevia no parapeito de uma ponte, sentado numa mesa de café, a bordo de um cabriolé.

Escrever e caminhar, para ele, eram uma única coisa. Diz-se que para descrever um por-de-sol em Chantilly, em seu romance Sylvie, passou oito horas naquela localidade. Depois comentou que a viagem a Chantilly lhe custou duzentos francos e lhe rendeu uma dúzia de linhas, e que, proporcionalmente ao que lhe rendeu, deu-lhe um lucro de 24 centavos.

Jorge Luís Borges costumava andar madrugadas inteiras pelas infinitas avenidas de Buenos Aires, ao lado dos amigos ou das namoradas platônicas.

Arthur Machen, o novelista de The Three Impostors, era outro que percorria a pé os subúrbios londrinos, e num prefácio a esse romance David Trotter lembra:

No século 19, pesquisas de ambientes urbanos resultavam não apenas em vívidas cenas de rua, mas na mitologia autoral como um todo. Os dois maiores romancistas urbanos do século, Honoré de Balzac e Charles Dickens, foram famosos caminhantes; ambos reconheciam haver uma conexão entre o ato de andar e a criatividade.

Parece que foi Baudelaire quem redefiniu literariamente o termo “flâneur” para designar o indivíduo que anda sem pressa, observando, registrando, embebendo-se da vida urbana. Este mesmo espírito impregna a obra de Chesterton, de Stevenson; e sua face mais obscura e terrível foi imortalizada por Edgar Allan Poe na vinheta “O Homem da Multidão”.

Rubem Fonseca, com seu conto “A arte de caminhar pelas ruas do Rio de Janeiro” ressuscita esta grande arte (embora seu conto, pelo que me lembro, seja diurno).

Alguém deveria escrever um romance que transcorreria inteiro ao longo de uma noite em que um indivíduo insone cruzaria sem pressa as ruas e os bairros de sua cidade natal, e cada detalhe que avistasse o faria evocar um episódio de sua própria vida, vida cujo mapa seria a paisagem urbana.