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sábado, 2 de maio de 2009

1007) Roberto Moura e Tia Ciata (8.6.2006)


(Tia Ciata)

Alguns meses atrás comentei o falecimento do jornalista Roberto Moura, vítima da febre maculosa que atacou algumas pessoas aqui no Estado do Rio, e me referi a ele como autor de dois livros sobre história do samba: No princípio era a roda (que comentei) e Tia Ciata e a Pequena África do Rio de Janeiro. Cometi um erro. Este último livro tem como autor um outro Roberto Moura, cineasta e professor da Universidade Federal Fluminense. O falecido, aliás, assinava-se “Roberto M. Moura” para evitar confusões como esta. Já me desculpei junto aos envolvidos, e agora peço desculpas aos leitores que porventura acreditavam na minha infalibilidade. Caveat lector! Também cochilava o bom Homero.

Pra não perder a viagem, quero comentar o excelente livro do cineasta Moura sobre Tia Ciata. Publicado pela Funarte em 1983, o livro é resultado de uma pesquisa para a realização de filmes sobre a história do samba. Moura descreve com riqueza de detalhes a vida das comunidades negras na virada do século passado, principalmente nos antigos bairros do centro da cidade, que depois foram “passados no rodo” para a construção das modernas avenidas. Ali era, entre outras coisas, onde se instalavam os migrantes vindos da Bahia, do mesmo modo como décadas mais tarde São Cristóvão virou o polo atrator dos nordestinos.

A intensa vida social e cultural desses bairros do Centro do Rio tem uma história fascinante, e é bem oportuna a observação de que o samba, ou pelo menos a variante carioca que se consagrou, não nasceu no morro: nasceu no asfalto, na Pequena África, e foram as reformas urbanistas que expulsaram dali os seus criadores, levando-os a ir morar nos morros em volta.

Tia Ciata, nascida em Salvador em 1854, chegou com 22 anos no Rio de Janeiro e tornou-se uma espécie de primeira dama das comunidades negras da Pequena África. Enquanto no alto da pirâmide social sucediam-se Império e República, e as elites do Rio e de Salvador dedicavam-se à ópera, aos salões de valsas e às modinhas, nas profundezas subterrâneas das comunidades negras fermentava aquilo que viria a ser o samba do século 20. A ligação profunda entre negros baianos e negros cariocas (da qual um resquício evidente é a obrigatoriedade da “ala das baianas” nas Escolas de Samba de hoje) era alimentada através de idas e vindas, migrações, viagens, um intenso troca-troca de informações, ajudas, solidariedades profissionais e econômicas que não deixa de me lembrar muito o processo parecido que se deu com os nordestinos do Campo de São Cristóvão. Desconheço se o livro de Roberto Moura foi reeditado; se não foi, merece uma reedição urgente, ainda mais agora que têm surgido livros reveladores sobre a história do Samba e teses que merecem atenção, como as de Hermano Vianna (O Mistério do Samba), Alejandro Ulloa (Pagode – A festa do samba no Rio de Janeiro e nas Américas), e Partido Alto – Samba de Bamba de Nei Lopes.

sábado, 28 de fevereiro de 2009

0849) No princípio era a roda (6.12.2005)



Faleceu recentemente no Rio o jornalista e crítico musical Roberto Moura, após contrair a “febre maculosa” que tem vitimado algumas pessoas aqui no Estado. Ao que parece, Moura hospedou-se numa pousada em Itaipava onde foi picado por carrapatos; morreu alguns dias depois. Nunca o conheci pessoalmente, mas durante anos acompanhei seus artigos na imprensa. Foi uma perda lamentável, além de tudo pelo fato de ser ele uma pessoa que pesquisava a sério a história do samba carioca, em livros como Tia Ciata e a Pequena África do Rio de Janeiro (1983) e No princípio, era a roda (2004). [Nota: fiquei sabendo depois que são dois autores diferentes, com nomes parecidos. O autor de Tia Ciata é outro.]

Moura abre este segundo livro com uma tese interessante. Resumindo, ele diz que não foi o samba que deu origem à chamada “roda de samba” (grupo de amigos que se reúne para tocar, cantar, beber, comer, divertir-se), e sim o contrário. Ele afirma que não descobriu a pólvora, que isto é algo mais ou menos sabido por todo mundo que pesquisa o samba e escreve sobre o samba, só que não havia sido ainda afirmado de maneira categórica. Ele o faz agora, e essa pequena inversão que propõe (e que me parece correta) ajuda a entender como surge esse tipo de música – e pode nos ajudar também a estudar melhor o aparecimento do forró e da Cantoria de Viola.

Inspirando-se em teses de Roberto da Matta, Moura estabelece dois tipos de ambiente para a música popular: a casa e a rua. Num, estamos no ambiente íntimo doméstico, comunitário, onde amigos fazem música para se divertir. No outro, estamos na esfera pública, do espetáculo, da organização de entidades, do profissionalismo. Na casa, vigora a roda de samba; na rua, a escola de samba. Para Roberto Moura, já aconteciam rodas de samba (ou seja, esses “pagodes de fundo de quintal”) antes mesmo do samba se firmar como gênero musical, com suas características harmônicas, rítmicas, melódicas, estruturais. Era o folguedo típico das comunidades negras cariocas no século 19 na chamada “Pequena África” – o bairro popular que se estendia do cais do Porto até a Cidade Nova, em torno da Praça Onze, e que as reformas urbanas posteriores botaram abaixo, expulsando aquelas populações para os morros vizinhos. (Daí ser historicamente inexata a expressão “o samba nasceu no morro”. O samba, neste sentido estrito, nasceu nos bairros populares do Centro, e só se refugiou nos morros bem depois).

Fim-de-semana. Um bar ou uma residência começa a se encher de gente. Instrumentos musicais vão aparecendo, um grupo se forma. Os bambas tomam a iniciativa, mas todos participam, cantam, batem com facas em pratos e garrafas. Na cozinha, as mulheres preparam panelas e mais panelas de comida. O dia se passa, a bebida circula, os grupos se revezam, a música não pára. Em torno dos músicos, conversa-se sobre futebol, sobre trabalho; casais namoram ou paqueram. Crianças circulam por ali o tempo todo, e serão elas os futuros sambistas. O samba nasceu em ambientes assim.