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sexta-feira, 11 de outubro de 2024

5111) João do Rio, o dândi carioca (11.10.2024)



Uma feliz coincidência entre dois fatos editoriais está trazendo à memória do leitor brasileiro (este amnésico contumaz) o nome e a obra de João do Rio, uma das figuras literárias mais curiosas de sua época. 

O primeiro fato é a publicação da coletânea Pavor Dentro da Noite (Editora Bandeirola~, SP), uma seleção de contos sombrios e mórbidos do autor, dentro da série “Clássicos Vintage” da editora, em sua linha de mistério. A pequena edição em capa dura traz prefácio de Hedjan C. S., posfácio de Julio França e fotos de Marc Ferrez. 

O segundo, last but not least, é a escolha do cronista como homenageado da Flip, a Festa Literária de Paraty. É um tipo de celebração sempre bem vindo, pois acarreta, se não uma corrida generalizada aos balcões de livraria, pelo menos um certo aquecimento nas discussões, análises e avaliações da obra do autor. 

João do Rio foi um contista-cronista típico dessa forma híbrida da prosa brasileira: o texto curto que ora é narrativo ora é reflexivo, oscila entre a história-onde-acontece-alguma-coisa e a elucubração íntima do narrador. O conto narra, a crônica comenta: não é de admirar que sejam muito raros os textos em que as duas tendências não aparecem misturadas. 

Seu nome era (há versões divergentes) João Paulo Emílio Cristóvão dos Santos Coelho Barreto, mas ele o reduziu ao thumbnail Paulo Barreto (hoje uma simpática rua de Botafogo, transversal da Voluntários da Pátria). João do Rio, o nome literário que criou para si mesmo, era mais popular, mais poético, mais verdadeiro. 

Digressão: Há em muitos artistas um movimento instintivo de atrelar ao seu nome o nome de sua cidade ou região. Alguns veem nisso uma forma de patriotada ou de bairrismo; penso, antes, que esse nome artístico – porque não é o mero nome cartorial, é uma identidade auto-construída – procura reconhecer o que há de tradição em toda novidade, e o que há de coletivo em todo indivíduo criador. 

Daí termos Robertinho do Recife, Fafá de Belém, Mississippi John Hurt, Martinho da Vila, João Pernambuco, Memphis Slim, Salgado Maranhão, Biliu de Campina...

João do Rio foi um contemporâneo de Lima Barreto; enfrentou problemas parecidos (como o racismo) mas acabou se saindo melhor do que o autor de Isaías Caminha – romance no qual, ao que se diz, Lima o retratou com outro nome. Praticou um jornalismo pioneiro indo à rua, indo aos morros, indo aos becos, anotando as falas do povo, produzindo inclusive um trabalho fundador sobre a religiosidade popular, As Religiões no Rio (1904). 



Pavor Dentro da Noite é uma filtragem de seus contos, feita pela editora Bandeirola, selecionando – para uma coleção voltada para histórias sombrias, de mistério, de terror – algumas das suas narrativas mais próximas do insólito, do mórbido, a maioria das quais extraídas do volume Dentro da Noite  (1910). 

 

E nestas narrativas emerge o João do Rio dândi, afetado, sibarita (como se dizia na época), estroina (como se dizia na época). O jornalista que não ia apenas aos morros ou aos terreiros de Umbanda, mas frequentava o café society, os restaurantes chics, as casas de chá, os salões elegantes, as mansões aristocráticas. 

Nesses momentos, era o jornalista com peso na pena. Era bem tratado, paparicado, por mais que fosse “gordo, amulatado e homossexual”, conforme o teria retratado o Barão do Rio Branco. Não importa – imprensa é imprensa, poder é poder.  João do Rio, apesar de escarnecido e insultado, sempre bateu de frente com os outros poderes da época, sem sair de perto da sua sombra. Entrou para a Academia Brasileira de Letras aos 28 anos, morreu de enfarte aos 39, e seu enterro no cemitério de São João Batista foi seguido por 100 mil pessoas, em 1921.  




Os narradores de seus contos têm sempre algo de autobiográfico, e refletem a vivência “Dr. Jekyll e Mr. Hyde” do autor, que no início da noite podia estar jantando faisão com diplomatas e banqueiros, e horas mais tarde estar bêbado e disponível num frege das “ruas de má fama” (como se dizia na época). 

 

Perversões sexuais (“Dentro da Noite”, “A Mais Estranha Moléstia”), drogas (“Histórias de gente alegre”), cleptomania (“Aventura de hotel”), ninfomania (“O carro da Semana Santa”), aparecem lado a lado, nestas narrativas curtas, com traições políticas (“O fim de Arsênio Godard”), epidemias (“A Peste”), jogatina (“Emoções”), e flertes com o sobrenatural (“O bebê de tarlatana rosa”, “Pavor”). 

 

João do Rio nos faz entrever um Rio de Janeiro plebeu e degenerado que passava apenas ao fundo do cenário (suposto, subentendido) nos livros de Coelho Neto, Humberto de Campos, e mesmo de Lima Barreto. De certa forma, ele é precursor da ficção (também semi-jornalística) de João Antonio (Leão de Chácara, etc.), a ficção da convivência nos botequins baratos, na zona do baixo meretrício.  




Nestes contos, o “narrador” onipresente mostra como as classes altas, os granfinos, os rapazes e moças da sociedade, frequentam esses lugares em busca de bebida, de ópio, de éter, de sexo anônimo, não importa se pago ou gratuito. Os extremos sociais se tocam, se frequentam, se esfregam e se desfrutam mutuamente. Sem meias palavras e sem máscaras. 

 

Não há quem não saia no Carnaval disposto ao excesso, disposto aos transportes da carne e às maiores extravagâncias. O desejo, quase doentio, é como incutido, infiltrado pelo ambiente. Tudo respira luxúria, tudo tem da ânsia e do espasmo, e nesses quatro dias paranóicos, de pulos, de guinchos, de confianças ilimitadas, tudo é possível. Não há quem se contente com uma... (...) Íamos juntos e fantasiadas as mulheres. Não havia o que temer e a gente conseguia realizar o maior desejo: acanalhar-se, enlamear-se bem. Naturalmente fomos e era uma desolação com pretas beiçudas e desdentadas esparramando belbutinas fedorentas pelo estrado da banda militar. Todo o pessoal de azeiteiros das ruelas lôbregas e essas estranhas figuras de larvas diabólicas, de demônios em frascos de álcool, que tem as perdidas de certas ruas, moças, mas com os traços como amassados e todas pálidas, pálidas feitas de pasta de mata-borrão e de papel de arroz.  

(“O bebê de tarlatana rosa”) 

 

Em “A mais estranha moléstia”, ele mostra um indivíduo de olfato ultra-sensível, que extrai prazer meramente do ato de sentir os cheiros mais variados, quase como o Grenouille de O Perfume, de Patrick Susskind. Todo o conto é uma exaltação ao olfato, chegando até os limites de sinestesia, da contaminação de um sentido por outro:

 

Ah! essa aflição que dá aos sentidos o cheiro de algumas flores, as violetas, cujas emanações são como sons de violino em noites de luar, as tuberosas. crispantes de cio, as rosas-chá que cheiram como carnes morenas, o resedá, a flor do resedá que o Fezensac cantou idiotamente num trocadilho e que entretanto guardam um frio e exasperante odor de gérmen fecundante, cheiro de marfim raspado... E, para notares a correspondência de cheiros idênticos nas coisas mais diversas, a flor que cheira a marfim, é também, cheiro resumo do cheiro inicial da vida, irmão odor do odor da semente criadora, estranhamente perdido entre as ervas... 

 

Nos contos aqui reunidos, João do Rio faz uma espécie de literatura que pode talvez ser chamada de “expressionista”, porque reproduz o mundo pressentido pela mente obcecada e distorcida de um personagem. O autor procura manter um certo distanciamento; ao contrário dos contos alucinatórios de Edgar Allan Poe, que são narrados pela própria vítima da alucinação ou da obsessão, João do Rio interpõe um narrador neutro entre o leitor e os fatos mórbidos que descreve. O narrador não é um indivíduo a quem sucedem coisas espantosas, é um ouvinte que atrai confidências espantosas. 

 

A literatura “Belle Époque” de João do Rio se prolongaria, após sua morte, em seguidores como Berilo Neves, ele também um contista-cronista especializado em salões de chá, recepções e jantares na alta sociedade – só que desta vez beneficiando-se das invenções da ficção científica da época. Os personagens de Berilo Neves pegam espaçonaves para tomar o chá das 5 na Lua, ou fazem sessões grupais de máquinas leitoras do pensamento (e, claro, reveladoras involuntárias de adultérios). No espaço entre João do Rio e Berilo Neves, a literatura transferiu-se por completo dos becos da Lapa para os salões de Botafogo. 

 










segunda-feira, 3 de julho de 2023

4958) Salve o compositor popular (3.7.2023)




Fazer uma música é um dos prazeres mais simples e artesanais que nos restam, num século em que tudo tem que ser, a) monumental, b) lucrativo, ou c) legitimador de alguma tecnologia recém-posta à venda. 
 
Há quem diga que literatura é a mais barata das artes, uma “arte a custo zero”, porque pode-se escrever um livro inteiro usando apenas papel e lápis. Pois olhe, música você pode fazer de mãos nos bolsos, e assobiando pra não esquecer a melodia. Eu já compus assim. 
 
Quantos bilhões de melodias já terão sido inventadas, decoradas e repetidas, nestes últimos milênios de História? Perderam-se?  Foram esquecidas?  Que importa? Também se perderam ou foram esquecidas as pessoas que as criaram, e mesmo assim não acho que a maioria delas creia que viveu em vão. 
 
Tenho para música aquilo que a gente chama de “ouvido duro”: dificuldade para lembrar uma melodia, para distinguir duas notas ou dois acordes muito parecidos, para perceber que uma corda de violão está semitonando. Talvez por isso mesmo, cada lararaiá que inventei me parece um triunfo pessoal sobre mim mesmo, digno de comemoração. 
 
Uma vez, na casa de alguém, eu estava conversando com um músico de orquestra sinfônica, um cara da minha idade, mas com uma carreira profissional que já vinha desde a infância. 
 
– Acho incrível a pessoa que compõe – disse ele. – Tocar, como eu toco, é fácil. Mas compor!  Nunca consegui compor uma música. 
 
– Mas é muito fácil – disse eu, com a auto-confiança dos primitivos. Peguei um violão que estava por perto, arpejei meu ré-maior básico e comecei a solar. – Tiruliruliro... tralá-laiá... Pronto, está aqui uma melodia. Compus agora. 
 
Ele recuou horrorizado, como se eu tivesse lhe exibido uma ratazana sanguinolenta. 
 
– Mas compor não é isso! – exclamou. – Não é apenas enfileirar notas. É algo muito mais complexo. 
 
Ele tinha razão. Ele é um músico erudito. Eu sou um músico popular. Eu posso compor assobiando, em pé no ônibus. Eu posso me dar o luxo do lugar-comum, do formatinho banal, da melodia naïve. O luxo da repetição, como o pintor de paisagens da Praça General Osório. Ele, não. Para ele, vale sem dúvida a máxima de Thomas Mann quanto à literatura: “Escritor profissional é aquele para quem o ato de escrever é mais difícil do que para as outras pessoas”. 
 
Minha primeira música gravada foi “Caldeirão dos Mitos”, que Elba Ramalho incluiu em seu segundo álbum, Capim do Vale (1980). Quando o disco saiu, eu tocava a faixa cinquenta vezes por dia, para me assegurar de que ela não tinha ido embora. Era bom demais para ser verdade. 
 
Uma noite, nessa época, estava bebendo com amigos num bar de João Pessoa, e a algumas mesas de distância um grupo de jovens alegres, de violão em punho, cantava músicas variadas. De repente, começaram a cantar o “Caldeirão”: “Tãrãrã-tãrãrã... Eu vi o céu à meia noite, se avermelhando num clarão...” 

Comoção geral na minha mesa; eu fiquei sem fala. Os amigos me disseram: “Vai lá!... Vai na mesa deles, fala que a música é tua!”  Eu, sabiamente, não fui. Ir para quê? Para amarrar a importância da música à presença do autor? De jeito nenhum. Música gravada é passarinho fora da gaiola. “Sabiá lá na gaiola fez um buraquinho... voou, voou, voou, voou...” 
 
Alguns anos atrás, eu estava na FLIP, em Paraty. Tinha acabado de anoitecer e eu vinha testando meus tornozelos por cima das pedras traiçoeiras daquele calçamento. Numa esquina, encontrei um ou dois amigos fazendo parte de um grupo maior. Parei, trocamos abraços, cumprimentos, apresentações rápidas, dez minutos de papo, e o grupo se desfez. 
 
Saíram todos e ficamos eu e um senhor, idoso, negro, bem vestido. 
 
– O senhor é nordestino – constatou ele, com simpatia. 
 
– Sou mesmo – disse eu. Estendi a mão e me apresentei: – Braulio Tavares, da Paraíba.
 
– Prazer – disse ele. – Sou Edeor de Paula. Fiz um samba em homenagem ao seu Nordeste. 
 
Eu não reconheci o nome, como não reconhecera o rosto. 
 
– Que ótimo. Como é o samba? 
 
Ele pigarreou e puxou: 
 
– Marcado pela própria Natureza... 
 
E eu já emendei em uníssono, no tom dele, com o verso seguinte:
 
-- O Nordeste do meu Brasil... Oh, solitário sertão, de sofrimento e solidão...



(Edeor de Paula)
 
E ali, naquela encruzilhada de um começo de noite paratiense, cantamos todo o samba “Os Sertões”, que desde 1976, quando foi lançado pela escola Em Cima da Hora, eu me acostumara a cantar em Campina Grande, na nossa batucada de fins de semana, a “Batucada de Lanka”. Cantando junto com o autor, eu me lembrei de Lanka, de Lucy, de Chiquinho, de Marquinho, dos batuqueiros que já se foram e que dariam altas gargalhadas se me vissem ali, quarenta anos depois, tirando a maior onda e cantando o samba junto com o autor do samba. 
 
Seu Edeor se comoveu, certamente; nos despedimos com um abraço amistoso, e ele deve ter experimentado pela milésima vez o raro prazer de ser conhecido por uma música que criou. 
 
Não existe fórmula nem receita para fazer música. Ela pode ser criada na calada da noite por uma pessoa sozinha, e pode surgir numa ruidosa mesa de bar, rabiscada às pressas em guardanapos, com palpites e pitacos até do garçom. O que importa é que depois de criada a música cria seu primeiro círculo de ressonância, entre os que cantam, os que escutam, os que decoram, os que repetem... 
 
A música é gravada e ai vira tudo outro patamar. A gente ouve a música no rádio do táxi, no corredor do shopping, no palquinho de um forró, no alto-falante da rodoviária, na sala de espera do dentista... É um passarinho que voa para onde quer, sem pedir outra coisa senão o alpiste de três minutos de atenção. O cara que compôs a música também escuta, mas dá menos atenção à música do que aos rostos e aos olhos de quem está ouvindo. Não basta a música tocar no rádio: ela tem que tocar as pessoas. 
 
Dizem que Oscarito, no auge das chanchadas que estrelava com Grande Otelo na Atlântida, costumava botar algum disfarce de óculos e chapéu e assistir ao filme nas sessões da tarde na Cinelândia. Entrava, sentava num cantinho... e não olhava para a tela. Olhava para a platéia. Queria ver se a piada funcionava, se o timing de uma cena tinha ficado correto... É nisso que a gente pensa: no que o público está pensando. 
 
O que bate com um preceito sábio de Bertolt Brecht, quando explicava a diferença entre o teatro tradicional e o seu teatro épico: no teatro tradicional, a platéia observa o palco; no teatro épico, o palco observa a platéia.
 
Por isso quando a gente encontra um desconhecido numa esquina e ele, sem saber sequer o nosso nome, é capaz de lembrar e cantar uma música que a gente fez, então nesse momento o circuito se fecha. A energia flui. A gente fica sabendo (mais uma vez) que aquela noite em claro não foi em vão.
 
 
 
 
 
 
 







quarta-feira, 17 de julho de 2019

4485) Quatro dias de Flip (17.7.2019)





Esta foi minha terceira ida à Flip, mas a primeira como convidado oficial. Estive lá no ano em que o homenageado foi Graciliano Ramos, e depois quando a homenageada foi Ana Cristina César.

A primeira ida me rendeu esta crônica, “Baleia na Flip”:


A Flip é criticada em alguns setores por ter um viés meio elitista – é um evento caro, numa cidade onde um prato com seis bolinhos de bacalhau custa 50 reais. “Uma bolha de intelectuais ricos”, dizem por aí. 

Verdade, mas essa bolha retangular se rompe quando a gente sai do Centro Histórico (que tem algo de Parque Temático Vintage-Futurista) e vai para a Paraty real, aquelas avenidas cheias de lotéricas, malharias, agências bancárias, sapatarias, postos de gasolina, açougues, mercadinhos, e botequins mainstream, com cerveja a preço de cerveja, tiragosto a preço de tiragosto.

É uma bolha permeável, cuja membrana fica a cinco minutos de caminhada.


Fora isso, me parece que a programação cultural está cada vez maior, mais variada e mais participativa. Mesmo com acesso livre à Tenda principal, foi o ano em que vi menos palestras, porque lá fora as oportunidades se multiplicam.

E outra coisa – muitos vão a passeio, eu vou a trabalho. Fiz duas mesas que me pareceram ótimas, a primeira sobre Literatura de Cordel, com Jarid Arraes e Sofia Nestrovski, e a segunda sobre Literatura Fantástica, com Mariana Enríquez e Rita Mattar. Sempre com a conversa fluindo bem, e público atento. Só tenho o que agradecer a todas elas.


Tive um almoço muito proveitoso com meus amigos da Companhia das Letras: Fernando Rinaldi, Marcelo Ferroni e Luara França, estes últimos parceiros antigos de vários projetos. E há mais idéias botando a cabeça na linha do horizonte.

Reencontrei amigos antigos, que não via há bastante tempo: Zuza Homem de Melo e Ercília, Lincoln Cunha e Giovana Damaceno, Juca Novaes (leia-se Festival de Avaré), Vladimir Carvalho e Lucila Garcez, Mônica Maia...

Troquei livros com o cordelista paraibano Paulo Cavalcanti, que com sua simpatia e seu chapéu de couro, à entrada da ponte, tornou-se parte da paisagem de Paraty. Gravei entrevistas para grupos de jovens que a cada ano me parecem mais jovens, e mais espertos.


Perdi muita coisa. Não vi algumas palestras que tinha muita vontade de ver: José Miguel Wisnik, Ailton Krenak & Zé Celso, Marilene Felinto, José Murilo de Carvalho... E os desconhecidos, claro – as novidades, as revelações, o primeiro encontro com uma voz e uma obra literária que daí em diante passam a fazer parte de nossas vidas.

Perdi a entrega do Prêmio Argos, na “Casa Fantástica”, cheia de amigos e conhecidos, mas fiquei feliz ao ler a crônica de Gerson Lodi-Ribeiro e ver que nosso fantástico continua fumegante como uma engrenagem steampunk. Perdi a palestra de Glenn Greenwald na Flipei, com toda a agitação e ameaça que a cercou, e que acabou sendo a principal faísca do choque de placas tectônicas por que o país está passando.


Perdi apresentações de amigos como Cátia de França e Chico César, lançamento de livro de José Teles. Não deu tempo de ir na casa dos poetas independentes, embora tenha tido breves encontros, sempre saborosos, com Mano Melo, Tavinho Paes, Marcelino Freire e outros.

Como já falei, fui a trabalho, e por conta de um projeto sobre Cordel que estou desenvolvendo, boa parte do meu tempo foi consumida, na sexta e no sábado, no espaço do cordel instalado na sede do Iphan em Paraty, na Praça da Matriz. Ali o tempo pára e a conversa nos arrebata numa espiral de risadas e rimas, com os irmãos Arievaldo e Klévisson Viana, Moreira de Acopiara, Severino Honorato, Dalinha Catunda, Anilda Figueiredo, Aninha Ferraz e tantos outros poetas.


A Flip é uma festa, sim, e como toda festa vale tanto pelo que ocorre no salão principal quanto pelo que se agita ao redor. Lembra o antigo e saudoso Festival de Areia paraibano, com as noites frias, a praça cheia de gente soprando bafo quente nas mãos e tomando cachaça pra esquentar, músicos de rua tocando forró ou jazz, grupos de gente-de-fora se cruzando incessantemente nas ruas, olhando com curiosidade cada placa, cada fachada, cada pedra do chão.

Foi oportuno, por parte da curadora Fernanda Diamant, escolher Euclides da Cunha como patrono. É um personagem que encarna, como poucos, as qualidades e os defeitos da nossa intelectualidade, dos nossos militares, dos nossos jornalistas, dos nossos homens de letras, dos nossos cidadãos, dos nossos cientistas.

Em sua palestra de abertura, Walnice Nogueira Galvão lembrou, e descreveu com detalhe, que as fake news não foram inventadas com a Internet, e que fervilharam também durante a campanha de Canudos, com dezenas de matérias pseudo-jornalísticas omitindo os massacres de gente indefesa e inventando uma suposta conspiração monarquista internacional que usaria Canudos para derrubar a República.


O Brasil ainda é o mesmo de Euclides, tanto o Brasil real quanto o Brasil oficial “caricato e burlesco” que Ariano Suassuna tanto citou (a imagem é de Machado de Assis). 

Os eventos literários nos servem de espelho, que alguns usam para retocar a aparência, e outros para procurar os sinais de mudança.

E como disse Euclides:

Se acaso uma alma se fotografasse
de sorte que, nos mesmos negativos,
a mesma luz pusesse em traços vivos
o nosso coração e a nossa face;

e os nossos ideais, e os mais cativos
de nossos sonhos... Se a emoção que nasce
em nós, também nas chapas se gravasse
mesmo em ligeiros traços fugitivos;

amigo! Tu terias com certeza
a mais completa e insólita surpresa
notando – deste grupo bem no meio –

que o mais belo, o mais forte, o mais ardente
destes sujeitos é precisamente
o mais triste, o mais pálido, o mais feio.















sexta-feira, 15 de novembro de 2013

3344) Viva Millôr! (15.11.2013)




(Quinho)



Millôr Fernandes foi escolhido como homenageado da Flip, Festa Literária de Paraty, um dos mais importantes eventos literários do país. E logo começaram os aplausos, de um lado, e os apupos, do outro. 

Vou logo avisando que estou do lado dos aplausos, e olha que eu participei de um abaixo-assinado defendendo a escolha de Lima Barreto para essa homenagem. Não deu Lima; deu Millôr. É justo?

Na rejeição de alguns a Millôr há uma defesa da “literatura propriamente dita” contra a sua contaminação por outras atividades. 

Entre nós, literatura significa romance, conto e poesia. Para ser grande escritor é preciso ter sido grande numa dessas três áreas. Tanto que aí estão os homenageados anteriores: romancistas/contistas (Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Jorge Amado, Machado de Assis, Graciliano Ramos), poetas (Vinicius de Moraes, Manuel Bandeira, Oswald de Andrade. Carlos Drummond), com a ressalva de que alguns se destacaram também em outras áreas. 

Restam os casos do dramaturgo Nelson Rodrigues, mas este também foi um romancista de peso; e do sociólogo Gilberto Freyre, mas pode-se argumentar o impacto cultural e o brilho estilístico do que escreveu.

Millôr não foi romancista, nem contista, nem poeta. Foi autor de crônicas, epigramas, parábolas, anedotas, aforismos, versinhos de ocasião. Foi excelente tradutor, e dramaturgo de sucesso. Foi um dos nossos melhores artistas gráficos, mas isto “não é literatura”. 

Tinha opiniões claras (de muitas das quais discordo, aliás) e corajosas. Ganhou inimizades porque vivia alfinetando os balões da vaidade de muitos figurões e mostrando que eram feitos de 1% de plástico e 99% de vazio.

A grande contribuição de Millôr não foi na área da ficção nem da poesia, e sim na área da linguagem. Na área da fala-escrita, dos jeitos de dizer. Poucos manejaram a língua brasileira com a mesma versatilidade e habilidade dele. Como outros jornalistas, pegou uma língua pesadona, balofa, e deu-lhe leveza e graça de bailarina ou de craque de futebol. 

Foi um dos maiores fazedores de frases num país que é fértil nesse tipo de talento; e se alguém disser que frase não é literatura é porque pensou no assunto pela primeira vez neste momento.

Isto ele compartilha com Lima Barreto: a linguagem simples, direta e riquíssima. Sua originalidade vem da ousadia das idéias expressas em palavras simples. Millôr combateu a prosa enfatiotada e oca, o beletrismo oratório que levou antas e mais antas às Academias e aos manuais escolares. 

Combateu o Monstrengo Pomposo, aquela prosa “capaz de acrisolar no cadinho do vernáculo as emoções candentes que diuturnamente se estiolam na labuta do louvor às Musas...” Vôte.










domingo, 21 de julho de 2013

3244) Lima Barreto (21.7.2013)




Há um movimento nas redes sociais, lançado por Josélia Aguiar, Álvaro Costa e Silva (“Marechal”) e André Vallias, e divulgado pela tradutora Denise Bottmann (do blog “Não gosto de plágio”) para que a Festa Literária de Paraty (Flip) de 2014 homenageie a obra de Lima Barreto. Há outros possíveis homenageados, como Rubem Braga. Essas homenagens causam sempre um momento de hesitação e remorso, porque de um modo geral todos os sugeridos merecem, e a gente, mesmo celebrando o escolhido, fica com pena dos descartados. Em todo caso, Lima Barreto é uma escolha justa, e mesmo que não se confirme vou aproveitar para conhecer melhor sua obra, da qual já li vários contos e artigos, mas nenhum romance. (Pois é, galera, não tenho problema em revelar o que não sei. O pouco que sei já me garante.)

Lima Barreto (1881-1922) teve que batalhar contra muitos preconceitos. Primeiro, o da cor, que o fez compartilhar o destino de Cruz e Sousa, Machado de Assis (em parte) e outros autores negros ou mestiços de cem anos atrás, num Brasil branco que cerrava fileiras em torno de sua brancura como um time que está ganhando o jogo de 1x0 mas sente no adversário cada vez mais volume de jogo.

Outro preconceito foi devido à bebida e à loucura, um karma permanente do destino literário. Já frequentei o prédio da UFRJ na Praia Vermelha, no Rio, inclusive para fazer palestras, e sempre alguém comenta que foi ali que Lima Barreto ficou durante suas internações psiquiátricas. Algo parecido me ocorreu quando visitei há 30 anos o antigo presídio da Ilha Grande, e lembrei de Graciliano Ramos e suas memórias do cárcere. Alguns dos grandes escritores brasileiros do futuro talvez sejam pessoas de que nem eu nem vocês jamais ouvimos falar, pessoas que talvez estejam hoje numa cadeia, ou numa clínica de desintoxicação. Quem pode garantir?

Um traço notável de Lima como escritor é a clareza e a precisão de sua prosa, sem nada daquele maneirismo dos beletristas do seu tempo. Lima era direto, coloquial, usava um português sem paletó nem gravata, e isso era muitas vezes alegado como falta de cultura. Já comentei aqui nesta coluna o livro que contrapõe artigos de Lima Barreto e de Coelho Neto sobre futebol (O Fla-Flu literário, de Mauro Rosso, http://bit.ly/13yAvnj). É espantosa a atualidade da linguagem de Lima, comparada à do autor de “Sertão” – que aliás admiro, é um dos autores queridos da minha juventude. Sua prosa ornamental e pomposa envelheceu; a de Lima parece escrita dez anos atrás, ou mesmo este ano. Mas foi escrita naquele Brasil da República Velha, engessado, costurado por privilégios raciais e feudos políticos.


quinta-feira, 18 de julho de 2013

3241) O tempo presente (18.7.2013)




(Flip 2013: Noemi Jaffe, Ferrari, Galera)

Numa palestra da Flip 2013, mediada por Noemi Jaffe, Daniel Galera e Jerôme Ferrari falaram, entre muitas outras coisas, da relação de seus personagens com o tempo. O livro de Galera, Barba ensopada de sangue (2012), fala de um rapaz que vai morar num balneário e aproveita para pesquisar a vida de seu avô, sobre o qual sabe pouca coisa. O de Jerôme, Sermão sobre a queda de Roma (2012)  fala de dois amigos que se afastam de Paris e montam um bar na Córsega, onde pretendem viver mais ou menos ao abrigo de grandes agitações e grandes mudanças.

Galera comentou a certa altura o quanto é difícil viver no presente. Na maior parte do tempo estamos preocupados com o futuro ou então estamos remexendo na memória, no passado. Jerôme observou que o projeto do bar na Córsega serve para seus personagens como a tentativa de produzir um futuro que seja a infindável repetição do presente. Uma tentativa de congelar o tempo.

O presente é feito de partes iguais de passado e futuro. É um entrelaçamento de memória e vontade, a memória checando o que ficou para trás e a vontade nos obrigando a avaliar o tempo inteiro o que nos pode suceder mais à frente.

O romance moderno superou a antiga construção cronológica tipo passado-presente-futuro, onde os fatos pareciam seguir uma sucessão numérica. No romance atual, os tempos estão todos superpostos, mesmo quando há um fio de enredo nos tranquilizando com a sugestão de uma estrutura tipo começo-meio-fim. Um romance como Os Detetives Selvagens (1998) de Roberto Bolaño avança a passos trôpegos, porque a cada página as informações sobre o passado se multiplicam; na verdade, é rumo ao passado que avançam as investigações sobre os dois poetas que são os personagens principais.

A incapacidade de viver no presente, observada por Daniel Galera, é aparentemente anulada nos romances narrados no presente do indicativo. Essa narrativa aqui-e-agora, que lembra a imediaticidade de um filme ou de um videogame, procura chamar a atenção para esse espaço instável onde memória e vontade travam um cabo-de-guerra incessante. Viver num “eterno presente” exprime o desejo de cancelar a morte mas por outro lado impede de ajustar contas com o tempo. O presente é feito de passado e futuro assim como o café-com-leite é feito de leite e café. A cada momento mudam as proporções de cada um, mas estão sempre ali, são a substância mental da nossa experiência. O romance de hoje percebe isso e busca a expressão desse tempo híbrido em que cada trecho do presente parece estar se estendendo rumo às duas outras direções, como uma corda de violão que só vibra no centro porque está presa nas duas extremidades.


sábado, 13 de julho de 2013

3238) Ensaios literários (14.7.2013)




(Flip 2013: Pires, Dyer, Sullivan)

Nascer na Paraíba foi uma das melhores coisas que poderiam ter me acontecido, porque eu sou por natureza um cidadão do mundo. Se nascesse em Paris ou Nova York, eu me diluiria em generalidades e irrelevâncias, ainda que lucrativas. Ser paraibano, estar por assim dizer perto da bandeirinha de corner do Palco do Universo me serviu (como serve a todos nós) de alerta. O alerta parece dizer: você é o centro do seu mundo mas não é o centro do mundo. O mundo é maior do que você, e não vai perceber sua existência, a menos que você faça alguma coisa importante. Te vira, véi.

Isso me vem à mente ao considerar a mesa realizada na Flip, entre os ensaístas Geoff Dyer (Inglaterra) e John Jeremy Sullivan (EUA), mediados pelo brasileiro Paulo Roberto Pires. Dyer e Sullivan são dois ensaístas literários da velha escola, ou seja, escrevem textos longos, meditativos, críticos, geralmente na primeira pessoa, mas envolvendo, em torno do objeto principal do texto, uma grande quantidade de referências pessoais, literárias, culturais, políticas, etc. Um ensaísta da velha escola, ao escrever sobre um parafuso, coloca por alguns minutos o parafuso no centro do seu mundo mental, e faz convergir tudo que sabe na direção desse pequeno objeto.

Paulo Roberto Pires observou com propriedade que no Brasil o termo “ensaio” se aplica muitas vezes ao ensaio acadêmico: duro, árido, cheio de jargão, manietado por uma estrutura referencial e demonstrativa que deixa muito pouco terreno para a expressão pessoal. Já o ensaio que estou chamando aqui de “velha escola” nada impõe em termos de estilo ou de estrutura. O autor é livre para concebê-lo, e cada um vai na direção de si mesmo. Um inglês como Dyer talvez derive (não li nada dele ainda) na direção de autores como G. K. Chesterton, capaz de falar longamente e interessantemente sobre qualquer assunto; ou na de George Orwell, cujos ensaios são tão agudos e ácidos quanto sua ficção. Um norte-americano como Sullivan (comprei dele a coletânea Pulphead) pode recorrer à farta inspiração literária de um Edmund Wilson ou à experiência de Norman Mailer, desde que saiba temperá-las com a doidice de Hunter Thompson ou Lester Bangs.

Enfim: o ensaio literário é quando o autor mobiliza tudo que sabe, tudo que leu, tudo que viveu, para falar de assuntos tão bobos quanto um show de rock evangélico, uma luta de box, uma convenção de delegados de polícia, uma eleição presidencial, uma dose de mescalina, uma briga de vizinhos... Um autor, e todo o seu mundo mental, convergindo de uma vez só sobre um assunto. Se o autor e o mundo valerem a pena, o assunto pode ser até um parafuso.


quinta-feira, 11 de julho de 2013

3235) Um Pessoa muito pessoal (11.7.2013)




Um dos momentos mais intimistas e de maior empatia da 11a. Flip (Festa Literária Internacional de Paraty) foi o recital de Fernando Pessoa feito pela cantora Maria Bethânia e pela professora Cleonice Berardinelli, “Dona Cléo”. Maria Bethânia foi uma das maiores divulgadoras da poesia de Pessoa em seus shows, a partir (creio) de Rosa dos Ventos, e depois em todos os outros em que trabalhou sob a direção de Fauzi Arap, a quem ela atribui tê-la “aplicado” com a poesia do português. Dona Cléo, aos 96 anos, considerada a maior especialista pessoana no Brasil, diz ter sido “inoculada” ainda aos vinte e poucos, por seu professor Thiers Martins Moreira, a quem dedicou um dos seus estudos sobre o poeta.

Respondendo a perguntas da platéia, entremeadas a provocações amistosas do mediador Júlio César Diniz, as duas recitaram poemas alternados dos heterônimos de Pessoa, e, às vezes, em estilo “mourão voltado”, cada uma dizendo uma linha. Poemas ditos em voz alta, principalmente por pessoas que os leem, releem e examinam há muitos anos, sempre trazem surpresas. Cada interpretação é pessoal. Certos versos parecem plácidos e tranquilos até que os ouvimos ditos com voz veemente, e percebemos que havia uma tempestade por baixo dele. Um tom interrogativo ou hesitante pode enriquecer uma frase aparentemente banal. Em geral, quando lemos, temos como único guia musical a pontuação gráfica, que serve como uma espécie de notação musical: indica pausas, força, pergunta, mudança de tom, etc.  A leitura na voz alheia nos mostra que outras pontuações, além da escolhida pelo autor, podem ser aplicadas àquelas frases.

Pessoa foi único em sua multiplicidade assumida. Depois dele percebemos que muitos outros poetas poderiam ter usado heterônimos para explicar facetas diversas de si mesmo. O Augusto dos Anjos humano e afetivo de “Ricordanza della mia gioventù” e “A árvore da serra” não é necessariamente a mesma personalidade que concebeu as visões tenebrosas do “Poema Negro” e das “Tristezas de um quarto minguante”.

É surpreendente também constatar que o baú de Pessoa tem mais material que o de Raul Seixas. Desde a morte do poeta em 1935 não param de aparecer poemas inéditos, que Dona Cléo afirma serem às vezes quase ilegíveis, pela idade do papel e da tinta, além da própria caligrafia do autor. Requerem lupa, requerem fotos e ampliações, requerem longas discussões sobre palavras borradas ou obscuras. Como se cada palavra fosse ao mesmo tempo várias outras, e cada uma dessas escolhas nos desse a possibilidade de compor, por multiplicação combinatória, incontáveis poemas diferentes.


terça-feira, 9 de julho de 2013

3233) Baleia na Flip (9.7.2013)






Ela se esgueira por entre as pernas da multidão e passeia encantada com tantas luzes e cores. Entende que está havendo festa, e quer participar. Aqui e ali jogam-lhe um osso de galinha, um resto de hot-dog que ela abocanha antes que chegue ao chão. Passa invisível e célere, vendo tudo com olhos compreensivos. 

Vê madames grisalhas com xales e chapéus de palhinha enfeitados de flores, fotografando os barcos a oscilar no rio. Jovens casais de mãos dadas e olhares paralelos. Vendedores de churros e de cordéis. Músicos de rua tentando tocar mais alto do que a algaravia dos grupos que passam diante deles e sorriem sem escutá-los. 

Baleia ergue as orelhas e recebe a música; entende o riso largo no rosto do rapaz cabeludo, de chapéu, cigarro oblíquo na boca. Ela sabe quando alguém está feliz.

Baleia vai se esquentar na banda ensolarada da Praça da Matriz, a meia distância das pessoas de papelão colorido penduradas em arames, dos pés-de-livros. Passam professoras tangendo bandos de crianças rumo a um circo azul. Homens rosados, de barbas muito brancas, caminham devagar, sempre sorrindo, principalmente quando falam sozinhos segurando algo junto à orelha. 

Na ponte embandeirada, grupos se cruzam indo e voltando, apontando para coisas que Baleia procura em vão com seus olhos obedientes. Um estralejar de rojões bem perto a faz dar um pulo e sumir correndo por entre as tendas de doce e de pipoca.

Agora é de noite. As ruas estão escuras e brilhantes, os restaurantes estão mais cheirosos, o movimento aumentou. Já não se ouve o cloc-cloc das charretes com seus cavalos imprudentes que não respeitam o direito de ir-e-vir dos cães. 

A música recrudesceu, e Baleia já sabe que onde músicas são tocadas paira uma exaltação boa e as possibilidades de osso de galinha aumentam. Ela cruza a ponte. Para diante da entrada de uma tenda gigante, cavernosa, onde ressoam vozes pausadas e cultas através de alto-falantes. Todos os dias os humanos, sempre tão agitados, se organizam em filas pacientes para ter acesso ao que ocorre lá dentro.

Baleia vai, vem, ilude uma mosca grandona que lhe persegue o focinho, senta-se alerta olhando a grande parede ocre coberta de sinais. Ela tem hoje os ouvidos cheios de canções e de conversas. 

Seus olhos estão acostumados a ver aquelas formiguinhas pretas inscritas por toda parte, e percorrem aquelas linhas, cujo sentido está quase ao seu alcance, até que se detêm na derradeira palavra. Um frêmito atávico, genético, ativado por milênios de simbiose, relampeja em seus neuroniozinhos e Baleia assoletra: “P-r-e-á-s...”. Preás! Sua cauda sorri de reconhecimento. Preás! A vida presta.