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quarta-feira, 6 de agosto de 2014

3570) Os jovens milionários (6.8.2014)



A primeira Corrida do Ouro na Califórnia foi em meados do século 19, quando a descoberta de jazidas de ouro à flor do solo fez milhares de pessoas pegarem seus carroções e partirem para o Oeste; foi a Serra Pelada deles. A nova corrida do ouro não é feita de ouro e sim de silício. O Vale do Silício é o novo lugar onde rapazes ambiciosos podem ficar ricos do dia para a noite. O único problema é que, como diz a Bíblia, “são muitos os chamados e poucos os escolhidos”. Uma ótima matéria de Gideon Lewis-Kraus na revista Wired de maio (http://tinyurl.com/lvlfn8b) acompanha a saga da Boomtrain, uma empresazinha de dois rapazes que lutam para levantar um milhão de dólares e colocar no mercado um novo sistema de busca e seleção de vídeos.

Cinquenta e uma novas empresas de informática são criadas todo mês na região de San Francisco. Muitas querem ser o novo Google, o novo Facebook. Outras querem apenas crescer o bastante, atrair a atenção das grandes, e ser adquiridas. Isso gera o dilema nos seus criadores: ficar lutando mais 10 anos pensando em valer um bilhão de dólares, ou vender pela primeira oferta de 100 milhões que aparecer?  Vi muito tempo atrás um documentário sobre “os fracassados do vale de Silício”. Eram os caras que tinham percentagem numa empresa mixuruca e quando a empresa começou a crescer venderam essa percentagem por um bilhão de dólares. O problema é que a empresa era o Yahoo, o Google, a Microsoft, sei lá o quê. Um dos entrevistados, um cara de seus 40 anos, com a linda esposa no jardim deslumbrante de uma fantástica mansão, dizia: “Eu levo uma vida de príncipe, mas sempre que encontro um amigo ele me diz: Que pena que você jogou seu futuro pelo ralo, você podia ter hoje dez vezes mais.” E ele conclui: “Eu não preciso de dez vezes mais, mas não sei se digo isso só para me consolar.”

O capitalismo é alimentado fisicamente por tecnologia e dinheiro, mas ele é alimentado mentalmente pelo delírio quantitativo, a vertigem do número. Se você tem 100, você pode com esses 100 ganhar 200. Já que tem 200, por que não lutar para ter 400, uma coisa tão fácil?  E chegando aos 400, nada nos impede de chegar aos 800. É uma coisa parecida com encher um balão de soprar. Vai sempre haver um ponto em que a bolha pipoca e tudo vai pelos ares, mas enquanto a ilusão se mantém, você diz (como o viciado em droga): “Só mais este, e depois eu paro.”  Não para, ou melhor, é a bolha quem para, e aí você fica sem nada.

“Quer ser um jovem milionário?”  Todo mundo quer ser, e muitos conseguem. E muitos voltam à pindaíba porque ouviram a pergunta fatal, que vem depois: “Quer ser um jovem bilionário?”


sábado, 20 de abril de 2013

3166) Os Davis e os Golias (21.4.2013)




(Clayton Christensen)


Li mais duas matérias, num curto intervalo, dizendo sempre a mesma coisa. As megaempresas estão entrando num atoleiro preparado por elas mesmas, por seus métodos “certinhos” de buscar maxieficiência; e no espaço de seu desmoronamento surgem empresas pequenas, rápidas, que (ao contrário delas) correm riscos, fazem apostas, e se contentam com lucros menores mas certos.

A Wired de março traz uma entrevista (http://bit.ly/X3bbHe) com Clayton Christensen, autor de The Innovator’s Dilemma (1997) e The Innovator’s Solution (2003), onde argumenta que as grandes empresas preocupam-se demais com “fazer tudo de acordo com o manual” e isto lhe tira a flexibilidade de intuir o futuro e adaptar-se a ele. São dependentes do que já têm, e do que já sabem e podem fazer. E são vulneráveis ao que ele chama “inovações disruptivas” – invenções ou processos criados por companhias menores, menos lucrativas, mais ágeis, mais aflitas, precisando arriscar tudo numa cartada. Quando a cartada dá certo, a pequena companhia se agiganta e as gigantes desmoronam. Christensen apontou isso no mercado de disk-drives, de injeção eletrônica de carros, de cerâmica.

Christensen foi chamado pelo CEO da Intel, Andy Grove, e disse-lhe: “Não tenho uma opinião sobre a Intel, mas minha teoria tem”. Alertado, Grove comprou duas companhias pequenas (Cyrix e AMD) e produziu o processador Celeron. Christensen vê algumas área onde, agora, os Golias estão sendo engolidos pelos Davis: jornalismo, mercado editorial, tudo (segundo ele) “que depende de publicidade”, e a educação de alto nível. Jornalismo e educação estão começando a enfrentar concorrência via Web. A concorrência é heterogênea, difusa, mas de vez em quando surge um foco de alta qualidade. Ele cita um curso online de contabilidade da Brigham Young University que ajudou a fechar o curso de contabilidade de Harvard.

Algo parecido diz Bill Harris em seu blog Dubious Quality (http://bit.ly/XHZcBL), comparando o mercado de videogames com o de petróleo. As grandes companhias cresceram tanto que cada passo que dão custa fortunas. Só podem apostar no que é 100% certo (o que é raro aparecer). Resolvem comprar pequenas companhias de filão lucrativo, mas o leilão com os concorrentes é pesado. O lucro delas se torna um prejuízo: o preço não compensa.

Quanto mais exemplos chegarem mais nítida irá ficando essa tendência das atividades de alta previsibilidade, que já dominaram o mundo, serem suplantadas pela de alta incerteza. As disciplinas da certeza, da comprovação absoluta, dos vários níveis de redundância retroalimentada, darão lugar às que abraçam o acaso, o risco, o improviso e a imperfeição.



sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

3110) O vírus de McAfee (15.2.2013)



(John McAfee, em foto de Brian Finke)

Desde o ano passado leio notícias sobre as tribulações de John McAfee. Para quem não está ligando o nome à pessoa, ele é o criador do antivírus McAfee, que a maioria de nós já teve ou tem em seu computador. 

De tanto ver seu nome no noticiário (envolvido em crimes, drogas, tiroteios, perseguições, etc.) foi com curiosidade um ponto acima do normal que fui ler a matéria sobre ele na revista Wired de dezembro (http://bit.ly/WBS2dm).

McAfee é o que em Campina a gente chama “um pertubado” (atenção, revisão, é com um R a menos). 

Um “pertubado” é um sujeito que não consegue parar quieto num canto, que parece ter um pequenino alien roendo suas entranhas. Um cara que faz tudo certo e de repente bota tudo a perder com uma gigantesca mancada, que se mete em complicações todos os dias, que faz besteira, que às vezes é agressivo, violento ou criminoso; que não encontra paz em si mesmo nem deixa em paz que está à sua volta. E alguns pertubados são inteligentes.

McAfee era um programador que inventou um antivírus, ficou milionário, entupiu-se de drogas de todo tipo, pirou, teve surtos paranóicos que continuam a atormentá-lo. 

Com uma fortuna de 100 milhões de dólares, refugiou-se em Belize, na América Central, onde foi há pouco acusado de estar fabricando metanfetamina e de matar a tiros um vizinho que envenenou seus cachorros. 

A matéria da Wired (assinada por Joshua Davis) o mostra cercado de guarda-costas, praticando roleta russa, alimentando-se de enlatados e refrigerantes, namorando meninas adolescentes (ele diz: “Quanto mais feia a mulher, melhor o sexo com ela”). Seus delírios mirabolantes (ele é do tipo que resolve qualquer problema metendo a mão no bolso e gastando) e a crise de 2008 consumiram quase todo seu dinheiro.

McAfee é o tipo “rico excêntrico” gerado a partir do mundo internético. São diferentes dos burgueses de limusine, dos yuppies de Wall Street, dos burocratas ricos do mero capitalismo financeiro, porque são indivíduos que criaram algo concreto e difícil. Têm inteligência excepcional, e gostam de viver no fio da navalha. Têm algo de nerd, algo de pirata, algo de rei maluco. 

São os equivalentes, em nossa era, a Kurtz, a Rimbaud, a Aguirre e a Fitzcarraldo. Numa entrevista recente (http://bit.ly/XtiGWq), McAfee afirmou: 

“Não adianta estocar dinheiro. Dinheiro não é algo que você possui. O dinheiro quer fluir através de você, ele é o fluxo livre de energia, ou de capital. É como o sexo. Ele precisa fluir.” 

A sabedoria desses caras, que parecem personagens de Philip K. Dick, é “só de experiências feita”, e eu presto mais atenção nas falas deles do que nas de qualquer PhD formado em Yale ou em Oxford.





sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

3068) Patentes e trolls (28.12.2012)



(Brock David)


Idéias valem dinheiro, porque tudo que produz dinheiro nasce de uma idéia. O conceito de registrar em patente a idéia de alguém, na tecnologia, é similar ao dos direitos autorais nas artes. Nos EUA você registra uma patente e tem 20 anos para investir nela e ganhar dinheiro. Depois, ela fica acessível, para não impedir o desenvolvimento tecnológico. Só que nem sempre. Um artigo de Steven Levy na Wired de dezembro (http://bit.ly/WrRbjw) discute a ação dos chamados “trolls” das patentes. Há muitos inventores que vendem os direitos de patentes nas quais não conseguem investir, muitas vezes para firmas de advocacia que passam a viver de processos judiciais contra quem quer que, da maneira mais vaga e longínqua, pareça estar infringindo aquelas patentes.

É um jogo. A matéria de Levy conta em detalhe  a ação desses grupos que, tendo em mãos uma patente suficientemente vaga, sai distribuindo pelo país inteiro centenas de pedidos de indenização por uso indevido daquela tecnologia. Fazem pedidos de porte médio, e como as custas judiciais nos EUA são altíssimas, os acusados preferem fazer um acordo e pagar 100 mil dólares ao “troll” do que arrastar um longo e cansativo processo, gastar o triplo disso, só para ganhar no fim. Quase sempre é mais barato pagar do que questionar a cobrança, até porque em muitos casos a lei impõe uma “injunção” – a empresa acusada fica proibida de usar a tecnologia em questão até que uma decisão seja tomada. Em muitos casos, sem aquele detalhe a empresa não pode funcionar. Melhor pagar ao “troll” e ficar com o menor dos prejuízos.

Além dos “trolls” existe a estratégia das próprias empresas que, ao desenvolverem suas tecnologias, saem comprando todas as patentes disponíveis que tenham a ver com aquela atividade, para se precaver. Hoje, Apple e Google investem mais em compra de patentes já existentes do que em pesquisa própria. É uma estratégia “preemptiva”: invadir qualquer país que tenha motivos para atacar o nosso, mesmo que não o tenha feito ainda. Diz Levy: “Não é o mesmo que Picasso tentando proteger suas obras-primas. Parece mais com um artista rabiscando um esboço depois do outro e amontoando aquilo tudo no sótão, e depois entrando com uma ação judicial quando alguém inadvertidamente pinta um quadro com assunto semelhante”. Toda a discussão de direitos autorais em música, literatura, etc., se dá no contexto de uma cultura da busca desenfreada do lucro, onde o inventor original tem um papel cada vez mais reduzido e a iniciativa fica com o que eles chamam de “entidades não-praticantes” (“nonpracticing entities”), os que compram uma idéia alheia e faturam com ela – os “trolls”.


terça-feira, 4 de dezembro de 2012

3047) Molyneux e os games (4.12.2012)







A revista “Wired” de novembro trouxe uma interessante matéria sobre Peter Molyneux, criador de videogames famosos como “Populous” (1989), “Theme Park” (1994), “Dungeon Keeper” (1997), “Black x White” (2001). Ele percorreu uma rápida carreira um tanto parecida com a de George Lucas. O sucesso como criador o conduziu a posições cada vez mais altas na cadeia de comando. Segundo a revista, a partir da série “Fable” (2004 em diante), Molyneux vendeu sua empresa para a Microsoft e pareceu entrar num declive de criatividade. Não tinha mais as idéias originais e surpreendentes que lhe deram fama. Estava, como se diz, tocando a bola no meio de campo, envolvido cada vez mais com a administração e menos com a imaginação criadora.

Surgiu então no Twitter um “alter ego” que se apresentava como “Peter Molydeux” (com a sugestão de ser um “duplo” sutilmente implantada, “dois”,  no nome). Esse tuiteiro desconhecido posava de criador de games e lançava para o alto uma série de idéias para jogos, desde as mais impossíveis e absurdas até as mais intrigantes e realizáveis. Dizia ele, em 140 caracteres: “Você vive numa casinha feita de armas de fogo. Você precisa usar as armas para se proteger, mas também precisa manter seus filhos protegidos por paredes e teto”. “Um jogo de guerra em que, no final, você caminha por um cemitério olhando para as lápides de todos os que você matou e fazendo um minuto de silêncio em cada uma”. “Imagine um jogo que dura para sempre onde seus filhos e seus netos prosseguirão, usando seu perfil”. “E se seu corpo fosse em forma de ampulheta? Um game intensamente acrobático onde você tem que manter a areia sempre caindo, sem nunca parar”.

sábado, 27 de outubro de 2012

3014) Cifrões eletrônicos (27.10.2012)





Uma das coisas boas do capitalismo (sistema tão perseguido nesta impiedosa coluna!) é o fato de que ele se esforça o tempo inteiro para descobrir maneiras mais fáceis e mais fluidas de produzir, de transportar, de estocar, de expor, de vender, de cobrar, de entregar.  Vive disto, não é mesmo? – então tem mais é que aplainar os caminhos pedregosos que ligam estes processos. 

O dinheiro eletrônico surgiu para eliminar a necessidade de transferir sacos cheios de moedas metálicas de um continente para outro.  As máquinas de cartão de crédito foram um passo adiante, e agora existem sistemas como o Square em que qualquer celular pode se transformar numa maquininha dessas. Você pluga na entrada dos fones de ouvido a engenhoca eletrônica, passa ali o cartão bancário, digita seus dados (ou aperta sua impressão digital), e presto! – o dinheiro foi transferido. Para isto, claro, o celular precisa baixar o aplicativo correspondente.  O Square é uma criação de Jack Dorsey, que é também um dos criadores do Twitter. Numa matéria da Wired (http://bit.ly/KUEM27), Dorsey argumenta que os novos smartphones têm muito mais poder de processamento do que um Banco inteiro de décadas atrás, e seria bobagem não aproveitar isso para disseminar o ato da venda eletrônica.

Gigantes da transação eletrônica como PayPal e VeriFone rapidamente copiaram a inovação, e Jennifer Miles, vice-presidente desta última, admitiu: “Square pegou uma indústria sonolenta, que há anos vinha fazendo as coisas sempre do mesmo modo, e introduziu uma inovação; mas é um processo que pode ser replicado”. Também faz parte do capitalismo essa disposição constante em copiar o que o concorrente fez e está dando resultado. Dorsey não liga. Ele parece fixado (como Steve Jobs, um dos seus gurus) na maneira mais simples e prática de fazer as coisas. Diz ele: “O desafio que eu coloco para nossa equipe de produção é criar um aplicativo que eles mesmos queiram usar. Isto é uma coisa que eu aprendi na Apple. É a razão pela qual eles estão o tempo todo surpreendendo os usuários”.

O sistema de livre concorrência obriga à produção de muita bobagem desnecessária, mas em seu lado positivo ele cria uma mentalidade de design, de excelência, de aperfeiçoamento em busca da melhor forma de fazer as coisas. As futuras sociedades socialistas devem ficar de olho nesse aspecto do capitalismo. A concorrência criativa força as melhores mentes a buscarem as melhores soluções, e em certo ponto isso se torna uma corrida estética, à procura da beleza e da funcionalidade, e deixa para trás a acumulação onívora de capital, a sede predatória pelo lucro incessante.


sábado, 20 de outubro de 2012

3008) Anonymous (20.10.2012)





O que é o Anonymous, ou, talvez, quem são os Anonymous?  Eles não têm nome: têm “nicks”, “usernames” ou “logins”; não têm rosto, têm máscaras de Guy Fawkes. Nos últimos anos, têm sido o pesadelo e a nêmesis de governos, polícias, corporações. Invadem saites, roubam informações secretas e as divulgam para o mundo inteiro, bloqueiam ou desfalcam contas bancárias, convocam manifestações de rua e de praça. As autoridades os chamam de neo-terroristas, mas eles nunca (ao que eu saiba) tiraram vidas humanas. Atacam a informação e a propriedade privada. São uma bomba-de-nêutrons ao contrário: fazem ruir as infra-estruturas e deixam as pessoas intactas. Estiveram presentes na Primavera Árabe, apoiaram o saite Wikileaks em suas campanhas de vazamento de informações econômicas e militares, combateram departamentos de polícia e a Igreja da Cientologia.

Os Anonymous são o novo Anarquismo – sem bombas, mas sempre infernizando a vida dos arquiduques. Uma multidão espontânea, não-coordenada, sem líderes; na verdade são um conjunto de subgrupos de hackers e agitadores, que agem cada qual por conta própria e mandam a conta ser cobrada à griffe. Num artigo na revista Wired de julho (http://bit.ly/LVLPbf) Quinn Norton analisa esse aspecto sem-forma do movimento. Em junho de 2011 o FBI prendeu e cooptou “Sabu”, um ativista de intensa participação; até que isto foi revelado em março de 2012, “Sabu” entregou uma infinidade de companheiros. Isto quebrou a espinha do movimento? De jeito nenhum. Nos Anonymous, nenhum indivíduo é insubstituível. Conan Doyle dizia que nenhuma corrente é mais forte do que o mais fraco dos seus elos. Os Anonymous parecem ser uma corrente que só pode ser quebrada se todos os seus elos o fôrem, simultaneamente.

Quinn Norton comenta que o grupo é uma “do-ocracy”, uma “fazer-cracia”, onde tudo converge para ações específicas: “indivíduos propõem ações, outros se juntam a eles ou não, e depois a bandeira dos Anonymous é hasteada sobre o resultado. Não há ninguém para dar a permissão, nenhuma promessa de louvor ou de crédito, portanto cada ação deve ser sua própria recompensa”. É um anarquismo eletrônico, sem líderes, não hierárquico, não vertical. Ordens são dadas e obedecidas dependendo do contexto – quem obedece hoje pode estar mandando amanhã e obedecendo de novo no mês que vem. Uma combinação de brodagem com ativismo. Até hoje, quem entrava na política o fazia via política estudantil ou política sindical, até chegar na política partidária. Agora há uma geração inteira na faixa dos 15-20 anos que entra na política pela via do anarquismo eletrônico. Sei que nada será como antes, amanhã.



quarta-feira, 22 de agosto de 2012

2956) Imperativo tecnológico (22.8.2012)




Quando falamos na possibilidade de surgimento de uma Inteligência Artificial (e este “nós” implícito inclui escritores de ficção científica, jornalistas, cientistas, diletantes da ciência) temos a tendência de personalizar essas inteligências numa figura reconhecível: o robô que raciocina como ser humano e chega até a se emocionar ou ter problemas éticos; o computador capaz de dialogar conosco, dar conselhos, tomar decisões; o software capaz de psicanalisar um paciente de carne e osso; etc.  No entanto, pode ser que essa inteligência não tenha como modelo o cérebro humano, e sim a colmeia de insetos, o formigueiro de funções especializadas. Máquinas diferentes exercerão funções diferentes numa Gestalt que para elas é um ponto pacífico, algo cuja existência ou necessidade nem sequer se discute; e que nós, humanos, só perceberemos de maneira indireta, caótica, desesperada.  Ela estará administrando, invisível e não-localizada, a nossa vida; e não saberemos qual a tomada que deve ser puxada para desligar essa força.

Marc Andreessen é o criador do Mosaic e do Netscape, os primeiros browsers de viajar na Web. Falando sobre seus projetos atuais com a “Nuvem” (o conjunto de processos e aplicativos na Web, uma espécie de banco-de-dados e CPU de todo mundo), à revista Wired, ele comentou: “Nossa idéia era deixar o processo de computação fora da máquina do usuário, sendo realizada na rede. É algo inerente à tecnologia, é o que alguns pensadores chamam de ‘imperativo tecnológico’. É como se a tecnologia quisesse que aquilo acontecesse”.

Qualquer pessoa que trabalhe num processo de criação experimenta esse tipo de coisa. “Acho que essa música tá pedindo um refrão”. “O filme está precisando de um pouco mais de velocidade no final”. “Essa peça está implorando por uns números musicais pra quebrar a tensão”.  E assim por diante.  Quando estamos trabalhando na criação de um processo complexo como uma obra de arte ou uma nova tecnologia, chega sempre um estágio em que nos sentimos como que atendendo aos pedidos ou às exigências de uma inteligência que se serve da nossa, localizada fora da nossa.  Ela reside num domínio a que temos acesso (a obra) mas que está fora de nós, está sujeita a interferências de outras pessoas, e, meio misteriosamente, parece ser capaz de querer coisas por conta própria. “Nem tudo já está na Nuvem”, diz Andreessen, “mas eventualmente a tecnologia vai querer que esteja tudo lá”.  As novas tecnologias pedem a criação de novíssimas tecnologias, numa bola de neve em que nos limitamos a aperfeiçoar essa inteligência coletiva, impessoal, insetóide.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

1690) O fim de “Found” (12.8.2008)



Leitores da revista Wired no mundo inteiro estão lamentando em blogs o desaparecimento de uma das suas seções mais interessantes, principalmente para quem é leitor de ficção científica. Era a última página, sob o título “Found” (aproximadamente: “objeto encontrado”). Eram objetos aparentemente do futuro, que teriam sido descobertos de forma inexplicável. Tudo não passava de uma brincadeira criativa, mostrando engenhocas de uso cotidiano que talvez venham a existir dentro de alguns anos ou décadas. Alguns eram bizarros, outros eram plausíveis, alguns certamente impossíveis de existirem um dia, e outros nos davam uma dorzinha de nostalgia: “Ô meu Deus, era tão bom se alguém inventasse isso...”

Os objetos eram criados num Photoshop, e exibidos como se fosse uma foto digital feita casualmente por quem os descobriu. Um leitor do saite Metafilter deu-se o trabalho de linkar a maior parte desses objetos aqui (http://www.metafilter.com/73510/Artifacts-from-the-Future). Há por exemplo “Diaper”, uma fralda eletrônica que comunica e analisa tudo que acontece lá dentro (“Urinanálise – Nível de hidratação: Baixo. Análise de cocô – Proteínas: Normal. Fibras: Baixo” – etc.). Tem o curioso “Love Tester”, um aparelho parecido com um fliperama onde o sujeito coloca a palma da mão, tem seu DNA examinado, e vê sua proficiência sexual medida numa escala decrescente que vai de “Casanova” até “Eunuco”.

“Contact Lens” infelizmente não dá muitos detalhes, mas vemos uma ponta de dedo, gigantesca, segurando aquele circulozinho translúcido onde é possível perceber uma porção de números digitais indicando hora, temperatura, etc., e a caixa do produto anuncia: “Agora com Google!”. Quem me dera. Também fiquei curioso (as fotos não permitem ler as letras muito miudinhas) em saber mais detalhes sobre a “Responsibeer”, a cerveja responsável, cujo rótulo anuncia ser ela “auto-resfriante” e indicar a temperatura naquele momento; e há um contador no rótulo que parece prevenir o motorista, em tempo de Lei Seca, de quanto lhe falta para ultrapassar o limite permitido.

Nem todas as descobertas são propriamente engenhocas high-tech. Há, por exemplo, o divertido “Horóscopo” com conselhos futuristas para todos os signos, como “pegue um vôo estratosférico para Veneza antes que ela afunde”, “seu Dreamcatcher Sony captou algumas imagens estranhas”. Há em “Bookstore” uma prateleira cheia de livros de auto-ajuda, cujos títulos refletem a sociedade futura: Os Sete Hábitos dos Cyborgs Altamente Eficientes, A Dieta do Homo Sapiens Superior – Por que os pós-humanos não engordam, Uma História Breve dos Blogs, e de Por Que Desapareceram, Guia em 12 Passos Para Parar de Jogar World of Warcraft, e, do famoso Francis Fukuyama, O Fim da História – Agora é pra valer.

As criações de “Found” nos davam uma saudade danada de um futuro que somente agora parece que não vai mais acontecer.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

1343) O avião que não pousa (4.7.2007)



O sucesso é um avião que decola, com você dentro, e nunca mais pousa. Lembro-me deste aforismo todas as vezes que comparo as aspirações de um sujeito, no passado, com o que ele efetivamente veio a conquistar no futuro. É uma das ironias da vida. Ou você não tem sucesso, ou acaba tendo um sucesso muito maior do que pretendia, e ficando escravo dele. Como diz outra velha frase, “cuidado com o que você pede a Deus, porque ele atende”.

A revista Rolling Stone brasileira do mês de maio, com Darth Vader na capa, traz uma enorme entrevista com o diretor George Lucas, feita na época em que ele tinha acabado de lançar o primeiro filme da (agora) hexalogia Guerra nas Estrelas. Há duas coisas interessantes. Primeiro, o fato de que Lucas não tinha a menor idéia do espantoso sucesso que seus filmes iriam fazer. Lidas hoje, suas declarações parecem ingênuas e provincianas, mas se justificam, porque era num contexto em que filmes de ficção científica (hoje um dos pilares da indústria de Hollywood) eram execrados, porque não tinham público. E em segundo lugar, o fato de que Lucas, hoje, mantém praticamente as mesmas opiniões, embora a vida o tenha arrastado na direção oposta ao que pretendia.

Já comentei nesta coluna (“O evangelho segundo Lucas”, 3.6.2005) uma entrevista de Lucas à revista Wired em que ele dizia estar meio cansado de produzir super-espetáculos, e com vontade de fazer filmes parecidos com os filmes experimentais que fazia quando era estudante de cinema na Califórnia. Essa entrevista é de maio de 2005, e me fez ficar pensando em como um sujeito é arrastado pelo próprio sucesso numa direção que não previa. Em 1977, Lucas dizia: “Além do mais, também percebi que as vendas de produtos, junto com as seqüências, garantiriam uma renda suficiente para que pudesse me aposentar da função de fazer filmes profissionais e me dedicasse ao meu tipo de filme – às minhas coisas pessoais, bizarras, experimentais”.

Ou seja: em agosto de 1977 Lucas imaginava que os brinquedinhos de plástico associados a Guerra nas Estrelas vendessem apenas o suficiente para que ele não dependesse de fazer sucesso com outros filmes. Ledo engano. As miniaturas de Darth Vader e Han Solo são hoje uma indústria de bilhões de dólares. O pequeno estúdio de efeitos especiais criado para o primeiro filme da série transformou-se na Industrial Light & Magic, uma empresa gigantesca que produz e terceiriza efeitos especiais para o mundo todo. Lucas achava, há trinta anos, que um ou dois filmes de sucesso lhe dariam a chance de se aposentar e fazer o que gostava. Coitado! A espaçonave levantou vôo com ele dentro, e não parou até agora. Comparar as duas entrevistas, a da RS em 1977 e a da Wired em 2005 é ver a tragédia (uma tragédia bastante confortável, reconheçamos) de um cineasta que gostaria de fazer filmes “cult” e experimentais mas foi seqüestrado para sempre pelo próprio sucesso de biheteria.

sábado, 15 de março de 2008

0260) O império da Pedra do Reino (20.1.2004)




(Foto: Cavalgada da Pedra do Reino, em Belmonte)

A ficção científica popularizou o conceito da “falsa realidade”: a história onde alguém descobre que a vida real que vinha vivendo não passa de uma simulação. 

O exemplo mais conhecido é O Show de Truman, onde todo mundo, menos o ator principal, sabe que aquilo é um sitcom de TV. Os livros de Philip K. Dick exploram essa idéia desde os anos 1970; filmes recentes como O 13º andar, Cidade das Sombras e Matrix têm explorado a mesma premissa.

O velho samba de carnaval perguntava: “Que rei sou eu, sem reinado nem coroa?”. 

Um artigo de Alex Blumberg publicado este ano na revista Wired (http://www.wired.com/wired/archive/8.03/kingdoms_pr.html) examina o conceito de micronações. São pequenos grupos de pessoas que proclamam a existência de uma nação, e apossam-se simbolicamente de um pedaço de território, em sua cidade natal ou nalgum lugar remoto. Elegem governos, proclamam leis, criam sua própria heráldica e seu código de costumes. 

O que as distingue, diz o articulista, é um detalhe: há grupos que pretendem de fato criar um país e obter reconhecimento da comunidade internacional; e há outros que ficam satisfeitos só em fingir uma falsa realidade.

Entre estas micronações fictícias, há algumas curiosas, como Talossa, Freedonia, Triparia. A maior parte delas não passa de um papel-carbono das ficções histórico-geográficas adotada nos “Role Playing Games”, onde se criam verdadeiras enciclopédias de fatos fictícios. Países imaginários é o que mais tem nesse universo de jogos (eletrônicos ou não, interativos ou não). 

Acho que não vai demorar muito para algum sujeito esperto fazer a fusão jurídico-administrativa entre uma micronação e um “game”. A micronação não precisará mais de um território terrestre, por assim dizer. Será uma ciber-nação, como existe hoje no universo de jogos como “Ultima Online”; mas poderá conseguir reconhecimento internacional e cadeira na ONU. 

Se surgir apenas uma, será uma excentricidade isolada. Mas suponhamos que apareça meia-dúzia, depois uma dúzia, depois vinte, cinquenta? Esses países virtuais só existirão no interior da teia eletrônica; um mundo imaginário, paralelo ao nosso.

Os habitantes de São José do Belmonte (PE) sentiram-se entusiasmados com a grandeza épica que o Romance da Pedra do Reino de Ariano Suassuna projetou nas duas famosas pedras que se erguem naquele município como torres gêmeas, nas quais um macabro ritual de fanatismo matou barbaramente um grande número de vítimas indefesas. 

E hoje realiza-se todo ano a Cavalgada da Pedra do Reino, com a presença do Imperador Ariano. A literatura faz a fusão perfeita entre realidade e jogo; principalmente a literatura solta, desbragada, hiperbólica, que tira sua inspiração das narrativas populares. 

Daqui a quantos anos teremos o Reino Imaginário de D. Pedro Dinis Quaderna existindo entre nós, uma comunidade virtual de arianistas cibernéticos, uma micronação armorial online?