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sexta-feira, 3 de setembro de 2021

4740) O Filme Misterioso (3.9.2021)


 

Eu vivo rastreando uma tendência nas narrativas modernas – e não somente nelas, porque isto vem de mais longe, mas o acúmulo de exemplos leva a gente a se concentrar em obras mais recentes, dos últimos cem anos.
 
(Digressão: quando alguém se refere aos últimos cem anos como os tempos “mais recentes”, dá para perceber que vem problema por aí.)  
 
Estou falando daquele enredo complexo, cheio de surpresas, mistérios e reviravoltas, no qual tudo gira em torno de um livro, que eu chamo O Livro Misterioso. Uma obra escrita cuja existência era duvidosa, ou negada, ou insuspeitada, ou interrompida, ou impossível. E nesse Livro Misterioso está cifrado, de certo modo, o destino humano nos tempos modernos.


 
É a Enciclopédia de Tlon no conto famoso de Jorge Luís Borges, revelando um universo paralelo que está prestes a invadir o nosso. 

É O Nome da Rosa de Umberto Eco com o seu volume desaparecido da “Poética” de Aristóteles, o livro de filosofia que redime, resgata e vindica o humor. 

É o Necronomicon de Abdul Alhazred, inventado por H. P. Lovecraft, como uma espécie de evangelho do Mal. 

É o romance-rádio escrito por uma doida, no manuscrito inacabado de Julia Marquezim Enone, que Osman Lins imaginou em A Rainha dos Cárceres da Grécia.


Os exemplos são incontáveis, e vou parar de lembrá-los aqui porque preciso subir um degrau, rumo ao estágio seguinte, que eu chamo O Filme Misterioso.
 
Sendo o mundo o que é, este Filme Misterioso (que cumpre funções extremamente semelhantes ao Livro) aparece como “McGuffin” (=pretexto para uma narrativa melodramática com ação, mistério e suspense) tanto em livros quanto em filmes. Podemos dizer que se trata de uma fase híbrida, uma fase intermediária, uma fase em que o Objeto Transcendental (o Filme) tanto pode ser evocado na nova linguagem (o Filme) quanto na antiga (o Livro).
 
Temos na literatura mais-ou-menos recente muitos exemplos de Filmes Misteriosos que servem de Santo Graal para as pessoas mais variadas, e nós conhecemos esses filmes através das vidas delas, das experiências delas, e dos seus olhares.


Nem precisaríamos pisar no terreno da ficção, porque existem na própria vida real exemplos de Filmes Misteriosos ou míticos. Filmes que existem, mas que viraram lenda. Como o Limite de Mário Peixoto, talvez o maior mito reconstituído do cinema brasileiro. Ou como The Other Side of the Wind, de Orson Welles, que passou décadas sendo remontado, restaurado, recomposto (sabe-se lá até que ponto) de acordo com o que seu criador tinha imaginado.
 
Mas na ficção a gente tem os Filmes Misteriosos. Que muitas vezes não são um só: são uma obra inteira, como a obra estranha e perturbadora de Max Castle, diretor de filmes B, no romance Flicker (1991) de Theodore Roszak. (Sim, o mesmo autor de A Contracultura.) Filmes em que estão ocultas mensagens subliminares destinadas a desestruturar o subconsciente das platéias.



Algo muito parecido ocorre no livro de William Gibson Pattern Recognition (“Reconhecimento de Padrões”, Ed. Aleph, São Paulo). Nesse futuro próximo, uma série de filmagens, chamada “the Footage”, aparece meio aleatoriamente na Internet. Trechos de um misterioso filme em preto-e-branco que ninguém sabe quem filmou, nem onde, nem quando, nem por que motivo surge de maneira tão misteriosa, e arrasta atrás de si um culto tão obsessivo.



No filme Zeroville, de James Franco, um montador de filmes meio amalucado descobre, em todo filme que assiste, um fotograma “fora do lugar”. Ele passa a furtar cópias, recortar esses  fotogramas, e tenta montar com eles O Filme Misterioso.
 
E na TV cinema a gente tem The Grasshopper Lies Heavy, o conjunto de documentários em 16mm que aparecem na série da Amazon Prime The Man in the High Castle (Frank Spotnitz). No livro original de Philip K. Dick, era um romance. Na série de TV, adequadamente, é um filme em 16mm, que em termos de tecnologia atual é algo mais pré-histórico do que um livro.
 
Tudo isto parece reproduzir a nossa tendência a acreditar que certas obras de arte parecem vir de outro mundo, parecem trazer em si verdades transcendentais e nos abrir janelas conceituais para ver o mundo de outra forma. (Não é uma má descrição do fenômeno artístico em geral.) Os Livros Misteriosos e os Filmes Misteriosos nos hipnotizam, nos arrebatam, nos transmitem uma sensação de que tudo é possível, de que vale a pena buscar mais fundo, de que “a vida não é só isto que se vê, é muito mais”.
 
O fato de projetarmos esse portal de transcendência num livro, e depois num filme, me leva a pensar: o que vem depois?


Provavelmente pensaremos num Videogame Misterioso, porque o game está para o século 21 como o cinema esteve para o século 20. A mais perfeita tradução da época em que surge.
 
Há precedentes como o eXistenZ de David Cronenberg, um jogo onde é possível penetrar fisicamente, existir em-matéria no universo representacional.
 
Já deve haver por aí uma lista razoável de Games Misteriosos, e nem me refiro às sugestões mirabolantes de Peter Molyneux, via Twitter (@pmolyneux). Um game onde a realidade se deixa manipular de maneiras inesperadas, impossíveis, insólitas. Um game com easter-eggs escondidos sabe-se lá onde, revelando sabe-se lá o que. Um universo paralelo? Uma viagem no tempo? Um pipôco, e o jogador vira pó?...
 
Ou talvez não seja um videogame, seja O Zap Misterioso, um grupo de mensagens num hiper-aplicativo destinado a substituir WhatsApp, Telegram e congêneres. Onde seja necessário fornecer certos dados. Onde seja obrigatório baixar certos mecanismos capazes de... (não direi o quê: o mundo não está preparado para tais revelações.) Mas que traga em si algo do livro, do filme, essa aura de ser o modo preferencial de projeção de nossa fantasia em busca de outros mundos, de outros universos; de hipóteses mais suportáveis do que esta Realidade sem opções.



(Zeroville)
 
 
 





sábado, 20 de junho de 2015

3845) "eXistenZ" (20.6.2015)



Coordenei para a Escola de Cinema Darcy Ribeiro (Rio de Janeiro) uma Mostra do Cinema Fantástico, com filmes nos sábados às 14:00h, entrada franca. A escola fica na esquina da Rua 1º. de Março com Rua da Alfândega, pertinho do CCBB. (Após a sessão, neste sábado, haverá debate com o prof. Sérgio Almeida.)

Hoje, sábado 20 de junho, será exibido o último filme dessa mostra: eXistenZ de David Cronenberg (1999). O diretor tem realizado thrillers policiais realistas nos últimos anos, mas marcou sua posição no cinema com uma série de filmes semi-FC descrevendo os tipos mais incômodos e delirantes de relacionamento entre seres humanos, máquinas, criaturas monstruosas em geral, num clima de estados alterados de consciência e morbidez mental generalizada. Ele já filmou autores como Don DeLillo, J. G. Ballard e William Burroughs, sempre encontrando neles pontos de contato com sua própria visão.


eXistenZ tem essa grafia no título, ao que parece, porque dois produtores do filme são húngaros, e a palavra “isten” em húngaro significa “Deus”. E o filme, embora não seja propriamente sobre Deus, é sobre o conceito de realidade, mostrando pessoas que mergulham num videogame que é plugado ao usuário via uma porta cibernética implantada na espinha dorsal, com o auxílio de cordões umbilicais biotecnológicos. Como geralmente se dá nessas situações, depois que o personagem dá o primeiro salto para a “outra realidade” (o game), nunca mais vai ter certeza de onde está, se de fato voltou à realidade onde estava antes, ou se está saltando para níveis cada vez mais remotos de realidades ilusórias.

Saber em que plano está acontecendo cada cena é um dos passatempos deste filme que, segundo dizem, Cronenberg teve a idéia de escrever quando entrevistou Salman Rushdie, na época escondido do mundo devido à “fatwa” islâmica que ofereceu um prêmio por sua cabeça. O diretor pensou em explorar num filme uma situação assim vivida por um designer de games perseguido por um grupo armado.

É um filme com atentados, perseguições, fugas, conflitos. Há momentos arrepiantes em que o “jogo” fica em pausa e seus personagens sorriem, paradões, sem nada ver, enquanto os dois protagonistas comentam o que farão em seguida. Uma incerteza tipo Philip K. Dick permeia o filme, além das eventuais imagens bizarras e meio repulsivas que parecem fascinar o diretor. (O filme é mais leve, contudo, do que pesos-pesados como Videodrome, Almoço Nu ou A Mosca). É um cinema fantástico que deve igualmente à psicanálise, à cibernética, à teratologia, à teoria dos universos múltiplos, às aventuras pulp-ficcionais de heróis por acaso.


quinta-feira, 23 de outubro de 2014

3638) Cronenberg escritor (23.10.2014)


O diretor David Cronenberg (Videodrome, A Mosca II, eXistenZ, etc.) acaba de lançar seu primeiro romance, Consumidos (Alfaguara/Objetiva, 2014).  O livro é descrito como “a narrativa bifurcada do assassinato canibalístico envolvendo um casal de famosos filósofos franceses e um médico que está por trás de uma doença sexualmente transmissível e sua estranha filha”.  Se eu tivesse lido esse resumo sem saber o autor, pensaria: “Esse cara deve estar vendo muitos filmes de Cronenberg”.

Fiquei curioso em saber como foi esse processo para quem, como ele, escreveu não só seus próprios roteiros mas também adaptou alguns romances (Naked Lunch de William Burroughs, Cosmópolis de Don DeLillo, Crash de J,. G. Ballard, etc).  Não conheço muitos romances de estréia de diretores com carreira já consolidada, ou seja, alguém que dirigiu mais de meia-dúzia de filmes e de repente resolveu escrever um livro. Numa entrevista no saite The Daily Beast (http://tinyurl.com/py385c4), ele comenta o processo.

“Romance e roteiro não se parecem em nada. Um roteiro é um tipo bizarro e híbrido de escrita, onde a qualidade de sua prosa é irrelevante. Na verdade, tanto melhor se for uma prosa rasa e simples. Quando a gente lê um roteiro de um escritor frustrado, a gente o odeia, porque ele vai, e vai e vai, descrevendo coisas irrelevantes. (...)  O roteiro tem que ser uma leitura rápida e clara, que possa lhe dar uma idéia de como sua equipe pode fazer com que aquilo aconteça. É uma escrita restritiva, comprimida. Um romance é totalmente diferente. Descobri, para minha surpresa, que escrever um romance parece muito mais com dirigir um filme. Você escolhe o elenco, faz a iluminação, os figurinos, as locações, os efeitos sonoros, efeitos especiais, música.  Você faz tudo.  Não é assim quando se faz um roteiro.”

Essa maneira de colocar a questão recupera o lado literário do cinema, a capacidade de criar artificialmente a sensação de uma realidade em torno da imagem. Não basta o salão do palácio parecer verossímil, é preciso fazer o público acreditar que há um palácio em volta do salão, mesmo sem vê-lo.  Cronenberg diz que o cinema tem algo de escultural, e que sempre precisa ter uma idéia clara do espaço, da posição e dos movimentos dos atores, mas que Tolstoi já fazia isso na literatura, antes do cinema. O difícil do roteiro é reproduzir, com uma escrita “minimalista”, essa impressão de espaço, de realidade física, de modo a que diretor, atores, técnicos, etc., lendo o roteiro, cheguem a um consenso rápido sobre como tudo aquilo deve ser preparado para que, visto na tela, passe aquela mesma idéia para o espectador.


quarta-feira, 20 de março de 2013

3138) Clube da Barruada (20.3.2013)



Me desculpe quem tiver achado plebeu demais esse termo usado no título. Num dos clubes a que pertenço é assim que se designa colisão de veículos, quando são duas pessoas de verdade falando. Quando o cara se dirige a um público invisível ou indiferenciado, diz colisão de veículos. 

O termo completo em inglês é Party Crash, que poderia ser traduzido como “Festa da Barruada”, mas quem o está utilizando é Chuck Palahniuk, o mesmo cara que escreveu Clube da Luta, sua história mais conhecida.

Este livro é de 2007 e chama-se Rant. Numa época imprecisa, grupos de desocupados ou de aventureiros meio existencialistas passam a noite num incessante “pega” de automóveis. Cada grupo em seu carro, eles passam a noite inteira batendo uns nos outros, obedecendo a um complicado sistema de regras, penalidades e premiações simbólicas de variada natureza. Palahniuk aqui está usando parachoques como se fossem punhos, e tratando como iguais rosto humano e lataria.

A subcultura barruadeira dessa turma lembra a sensação de vício virtual produzida por algumas horas de jogar Grand Theft Auto (GTA), sacolejando por aquelas ruas tão verazes, capazes de seduzir e convencer o olho, se bem que não o corpo inteiro. 

A perseguição, em Rant, pode ter algo de Bullitt ou Operação França, pode ser algo galhofeiro e despropositado como qualquer invenção maluca dos irmãos Coen ou de Tarantino; pode mostrar a promiscuidade fria e entomológica de J. G. Ballard e de David Cronenberg no livro e no filme Crash.

Existe uma mini-humanidade completa no universos desses folguedos sobre quatro rodas, que lembram Halloween, galera que dá cavalo-de-pau na multidão.  A subcultura deles é constantemente alimentada por uma estação de rádio que descreve, com detalhes incômodos, os ferimentos sofridos pelas pessoas que acabam de sofrer acidente de carro em algum ponto da rodovia.  

Uma rádio que todos ligam, mas que, ao contrário do DJ negro em Vanishing Point de Richard Sarafian, age de forma impessoal e cuidadosamente planejada. Uma equivalente dos “Globocops” em geral, que mistura o sensacionalismo explícito dos tablóides populares e o ar sem-frescuras, direto-ao-ponto, da moça que recita as previsões da meteorologia.

Alguns personagens do livro poderiam ser chamados meteorólogos do trânsito urbano, e Palahniuk avisa que esse nicho da marginália ocupado por alguns milhares de “party crashers” surgiu de pesquisas sobre fluxo de trânsito, acidentes planejados que tornaram-se divertidos demais para que alguém os mantivesse sob controle por muito tempo.  Party Crash é apenas um dos cinco ou seis aspectos dignos de discussão em Rant.









quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

3108) "Cosmópolis" (13.2.2013)





Não li o romance em que se baseou este filme de David Cronenberg. O filme tem tantos diálogos interessantes e frases tipo guilhotina (aquela que faz vapt! – e joga você no espaço) que deu vontade de ler o livro original. Nunca cheguei ao fim dos dois livros de DeLillo que tenho, e o curioso é que o acho um excelente escritor. Talvez seja mesmo, e eu é que sou um leitor relapso. Talvez ele seja um autor para ser lido num ambiente de silêncio e concentração, e não na fila do Banco ou durante uma circular do 184.

Cronenberg é um dos meus diretores preferidos, desde os pesadelos mórbidos do começo da carreira até os seus recentes thrillers, rudes e impiedosos (Marcas da Violência, Senhores do Crime). Cosmópolis me lembrou em certos momentos o Crash – Estranhos Prazeres (1996), baseado em J. G. Ballard, onde ele mostrava um grupo de pessoas com obsessão sexual por automóveis e acidentes. Cosmópolis sugere pelo título uma compressão de espaço: o universo comprimido numa cidade, a cidade comprimida no interior de um carro. Eric Packer (Robert Pattinson) é um bilionário de 28 anos, o que significa dizer que ele só tem uma idéia muito vaga de por quê se tornou bilionário. O hipercapitalismo gera tanta riqueza virtual que ela tem que ir para as mãos de alguém; é como a Mega-Sena. Alguém acaba ganhando. Cada um tem seus truques na arte de fabricar fortunas na especulação financeira; os que ganham não precisam ser os mais inteligentes ou mais capazes. Geralmente são (como Packer) meros manipuladores de pessoas talentosas.

Packer se arrasta por Manhattan numa limusine e vai se encontrando com os coadjuvantes de seu delírio: a esposa, os assessores e conselheiros, os seguranças, o médico... A cidade está um caos, com passeatas, demonstrações, enterros, atentados terroristas. É impressionante a quantidade de pontos em comum entre Cosmópolis e um filme que em princípio não tem nada a ver com ele, Holy Motors de Leos Carax (comentado aqui em 14 de dezembro), onde, igualmente, um cara passa o dia inteiro dentro de uma limusine (desta vez em Paris) relacionando-se com gente estranha. Curiosamente, os dois filmes estrearam no Festival de Cannes de 2012; o de Cronenberg foi concluído antes do início das filmagens do de Carax, e além do mais se baseia num romance bem conhecido. Não deve ser imitação ou influência, talvez seja um sintoma coletivo. Estamos no mundo das limusines, que são um equivalente móvel dos condomínios cobertos por vigilância high-tech. Do “realismo histérico” de Cronenberg ao surrealismo de Carax as limusines parecem estar virando as novas carruagens-abóboras dos contos de fadas urbanos.



quinta-feira, 3 de março de 2011

2494) “eXistenZ” (3.3.2011)




É assim que se escreve o título deste filme que David Cronenberg lançou em 1999. É algo bem da cultura hip-hop essa negócio de desobedecer à regra das maiúsculas e minúsculas, não é mesmo? Em todo caso, vi no IMDB que dois dos produtores do filme são húngaros, e que a palavra “isten” significa “Deus” naquele idioma. Vivendo e aprendendo.

eXistenZ é mais um mergulho de Cronenberg na zona crepuscular entre realidade física e pesadelo freudiano. Usando o pretexto de um videogame coletivo, ele mergulha os personagens num jogo de perseguição e assassinatos, no qual aparecem de vez em quando as imagens bio-teratológicas que são obsessão do diretor: objetos vagamente humanos, parecendo reconstruções em plástico de órgãos sexuais deformados. Os filmes de Cronenberg são pesadelos biológicos, onde a toda hora nos defrontamos com seres ou coisas que parecem objetos de uma sex-shop mórbida. Ou então um daqueles museus de ceras pretensamente científicos que visitavam nossas cidades quando a gente era pequeno, cheios de púbis de manequins com doenças venéreas.

Os dois temas preferidos de Cronenberg são: 1) a incerteza philipkdickiana sobre o que é real e o que é ilusão; 2) o horror e o fascínio pelos aspectos físicos do corpo (incluindo-se aí o sexo, a excreção, a gravidez e reprodução, a mutilação, a deformação, etc.). É como se Algo o chamasse o tempo inteiro para ir viver num universo puramente cartesiano e mental, um universo feito de idéias metafísicas e de computação gráfica, onde as coisas acontecessem de acordo com a imaginação e o desejo. E, ao mesmo tempo, um outro Algo o arrastasse de volta para um mundo incômodo onde existe a carne humana e suas necessidades fisiológicas, onde existem a doença, a dor e a morte, mas ao mesmo tempo existe o “desejo maciço e permanente”, como dizia Vinícius de Moraes, pela textura pecaminosa dessas partes pudendas, dessas regiões proibidas.

Transportar-se para um videogame é pular para uma região virtual onde podemos matar e ser mortos sem que nada de verdade nos aconteça. Mas, de que adianta?! Para que nossa mente possa estar ali, precisamos do maldito corpo, que precisa estar num quarto de hotel vagabundo, plugado no console de um jogo! Os filósofos medievais viviam devaneando sobre o corpo ser a prisão da alma. O mundo moderno parece acreditar que a mente cometeu algum delito e sua punição é ficar presa a um corpo.

E isso logo agora, no umbral do século 21, quando finalmente conseguiremos criar o projeto Trans-Humanista de transferir nossas mentes para uma realidade virtual em que elas não estejam presas, por cordões umbilicais pegajosos e úmidos, a esses corpos cheios de mucosas, esfíncteres, glândulas de secreção interna e externa, superfícies viscosas e cavidades pulsantes. Cronenberg é o cronista desse momento de transição, das últimas gerações de humanos que possuíram carne e osso, e as primeiras gerações dos que serão feitos apenas de zeros e uns.

domingo, 18 de abril de 2010

1926) Ballard e a FC (12.5.2009)




Uma página de tributo ao escritor recém-falecido J. G. Ballard foi criada no saite Omnivoracious (http://tinyurl.com/cavvsj), com links para numerosos depoimentos. 

Para quem quiser conhecer melhor suas idéias, antes de chegar aos livros propriamente ditos, um bom começo é o saite “Ballard”, em http://www.jgballard.ca/. 

Ballard era um homem culto, de informação variada e surpreendente, além de extremamente articulado. É notável a sua capacidade de jogar idéias espantosas e verossímeis no colo do interlocutor, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. Seu livro de ensaios e artigos A User’s Guide to the Millenium (1996) tem sido uma fonte permanente de temas para esta coluna. Um saite com um grande número de entrevistas, que vão de 1966 a 2008, é: http://tinyurl.com/y29w2d4.

Para os espectadores de cinema, Ballard tornou-se mais conhecido através de dois filmes. O primeiro deles é O Império do Sol de Steven Spielberg, a história de um garoto inglês que, durante a II Guerra Mundial, se perde dos seus pais em Xangai, onde moravam, e acaba passando o resto da Guerra num campo de prisioneiros. É a infância do próprio Ballard, que ele recontou num livro autobiográfico e Spielberg adaptou com sensibilidade e estilo. O outro filme é Crash de David Cronenberg (não confundir com Crash – No limite, filme vencedor do Oscar há alguns anos). Baseado num livro de Ballard, é a história de um grupo de homens e mulheres que têm fixação erótica em automóveis, em acidentes de carro e em pessoas mutiladas por esses acidentes. Com James Spader e Rosana Arquette, é um filme doentio, incômodo e verdadeiro sobre o fetichismo do corpo e da máquina, e o impulso simultâneo do auto-erotismo e da auto-destruição.

Uma das grandes influências na obra de Ballard foi o Surrealismo dos anos 1920, e talvez por isto sua ficção científica destoe tanto da FC norte-americana, que parece não ter tomado conhecimento de André Breton e seus seguidores. O que é uma pena. O Surrealismo e a obra de Freud, que para Ballard estão sempre próximos, lhe serviram para criar o conceito de Espaço Interior (“inner space”) que ele contrapôs ao Espaço Exterior (o sistema solar, as estrelas, a galáxia), domínio preferencial da FC clássica. Ballard argumentava que o mundo da mente era mais amplo, mais surpreendente e mais acessível do que a Via Láctea, e não via motivo para que a ficção científica se limitasse a “ir lá para fora” sem dar muita importância ao que ocorria “aqui dentro”.

Comentando a obra de William Burroughs, com a qual ele tanto se identificava, disse Ballard: “A conclusão a que Burroughs chega em sua obra é de que a guerra entre a sociedade e a liberdade individual, uma liberdade que consiste apenas em ser um indivíduo, nunca pode acabar, e em última análise a única escolha que nos resta é viver em nossos próprios pesadelos ou nos pesadelos dos outros”.





quarta-feira, 7 de abril de 2010

1880) Judeu se Suicida num Cinema (19.3.2009)



"No Suicídio do Último Judeu do Mundo no Último Cinema do Mundo”: este é o ominoso título de um curtíssima-metragem (três minutos) de David Cronenberg, que faz parte da compilação Chacun son Cinéma, um filme coletivo (com 33 diretores e 33 episódios) exibido nas comemorações do aniversário do Festival de Cannes. Cada cineasta recebeu a missão de fazer um episódio de três minutos, do jeito que bem entendesse, com a única exigência de que no filme aparecesse um cinema.

O curta de Cronenberg começa mostrando o rosto de um homem (o próprio diretor) próximo à câmara, distorcido pela lente grande angular; apontando um revólver para a testa, depois para a boca, etc. Por trás dele um cenário pouco visível, que aos poucos percebemos ser o banheiro de um cinema. E ouvimos as vozes de um casal de locutores típicos dos canais a cabo norte-americanos descrevendo, em estilo CNN, o que aparece na imagem. (Reproduzo de memória os nomes e os diálogos, que não são exatamente assim.) O homem diz: “Ah, pronto, já temos imagem. Já estamos com imagens ao vivo, Mary”. Ela: “Exatamente, Bob. Já temos imagem ao vivo da nossa reportagem, que vai registrar o suicídio do último judeu na última sala de cinema do mundo”. Bob: “Você disse última sala de cinema, Mary? Poderia situar melhor isto, para os nossos assinantes?” Mary: “Claro, Bob. As salas de cinema foram eliminadas, mas a polícia localizou esta última sala clandestina, que será demolida depois de nossa reportagem de hoje”.

A imagem não muda: o homem, rosto quase colado à câmara, experimenta a posição ideal do revólver de encontro à própria cabeça. E a reportagem prossegue nesse tom típico de descontração e indiferença. Mary informa a Bob que aquele indivíduo é o último judeu do mundo, o último representante de uma raça extinta. Bob: “E esta raça, Mary, a julgar pelas informações que recebemos, tinha alguma relação com a indústria do cinema? E é por isto que o suicídio terá lugar num cinema?” Mary: “Precisamente, Bob. Pode-se dizer até que os judeus eram a indústria do cinema. Embora isto, é claro, deva ser entendido num sentido muito amplo”.

São apenas três minutos, mas a crueldade e o absurdo são cumulativos. O homem enfia o cano da arma na boca, no olho, no ouvido, enquanto os locutores discutem a maneira mais eficaz de alguém se suicidar; e por fim a imagem se congela quando ele aperta o gatilho.

Cronenberg (com A Mosca, Gêmeos – Mórbida Semelhança, Crash e outros filmes) é um dos principais diretores do que poderíamos chamar de um “cinema da crueldade” de hoje, Em seu livro Le Cinéma de la Cruauté, André Bazin analisa as obras de Erich von Stroheim, Carl Dreyer, Preston Sturges, Luís Buñuel, Alfred Hitchcock e Akira Kurosawa. Hoje, poderia incluir David Lynch, os irmãos Coen, Cláudio Assis, Quentin Tarantino e David Cronenberg, autor deste pequeno e irretocável filme que também poderia se intitular “A Morte do Século 20”.

segunda-feira, 22 de março de 2010

1811) Alguns filmes de 2008 (28.12.2008)



O melhor filme de 2008 foi Não estou lá, de Todd Haynes, uma biografia fictícia de Bob Dylan através de meia-dúzia de personagens com nomes e histórias diferentes, que nunca se cruzam, interpretando fases de Dylan ao longo de suas sucessivas encarnações. Não é documentário, não é ficção: não é doc, não é fic. É um filme diferente de todos, magnificamente fotografado, e com interpretações notáveis, principalmente a de Cate Blanchett no papel de “Dylan em 1966”, que no filme se chama “Jude Quinn”. Já vi o filme três vezes e ainda não acertei um ângulo de abordagem para comentá-lo aqui nesta coluna; mas já que estou dando um balanço, fique o registro. Ah, falei na trilha sonora? Nem precisava.

Falar “o melhor filme” é de uma arrogância sem par, o cara dá a entender que viu todos os outros. Não vi nada. Nem os críticos profissionais vêem, quanto mais eu. Vou pouquíssimo ao cinema. Quando um filme me interessa, espero pelo DVD. Ainda assim, vi alguns bons lançamentos. Meu nome não é Johnny foi o melhor lançamento brasileiro que vi este ano. Não é um grande filme, no sentido de que o Encouraçado Potemkin e Deus e o Diabo...” são grandes filmes. Mas é um filme necessário para discutir uma das grandes questões do mundo: o fato de que metade da população urbana quer tomar drogas e a outra metade quer proibi-las. Além disso, tem uma direção segura, e grande interpretação de Selton Melo no seu estilo largadão/elétrico.

Já falei aqui sobre Across the Universe, aquele filme baseado nas canções dos Beatles. Na História do Cinema ele se situa mais ou menos naquela altura em que “Little Child” se situa no cancioneiro de Lennon e McCartney; mas é uma bela experiência áudio-visual acompanhar os novos arranjos e as ilustrações visuais de cada canção. Só o coloco na lista por ter sido um dos poucos filmes que vi mais de uma vez.

Juno, aquele filme sobre uma adolescente que fica grávida, foi um dos filmes mais simpáticos do ano. Já falei aqui sobre ele, comparando-o a Little Miss Sunshine: uma luz de esperança para um cinema americano que foge dos super-heróis em Som Dolby e 3.500 cópias. Um cinema que quer contar histórias simples e imprevisíveis sobre gente imprevisivelmente complexa, porque não há personagem mais simples que um Super-Herói, e ninguém mais complexo do que a filha adolescente do vizinho do lado.

O Gangster de Ridley Scott e Senhores do Crime de David Cronenberg foram dois policiais violentos e verazes, centrados em personagens sólidos, interpretados por Denzel Washington e Viggo Mortensen, respectivamente. A Culpa é de Fidel é um filme político de segunda geração, que em vez de se concentrar nas atividades revolucionárias dos pais registra a perplexidade dos filhos, que se sentem jogados para escanteio. Dirigido pela filha do para do cinema político, Costa-Gavras, tem uma função de ajuste de contas levada a cabo com discrição e sensibilidade.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

1568) Os Senhores do Crime (22.3.2008)



David Cronenberg tornou-se um dos precursores do cinema cyberpunk com uma série de filmes de FC onde se misturavam as tramas mirabolantes e uma certa tendência aos efeitos especiais repulsivos que lhe valeram o apelido de “Cronen-bleargh”: Scanners, Videodrome, A Mosca. Dirigiu filmes psicológicos explorando zonas sombrias da alma humana (Gêmeos, mórbida semelhança, M. Butterfly) e adaptou obras literárias que mexem fundo com sexualidade, perversão e drogas (Crash, Almoço Nu). Na verdade, essa subdivisão é desnecessária, porque Cronenberg foi sempre o diretor da morbidez, da paranóia e da perversão, e talvez o diretor, em toda a história do cinema, que produziu as imagens mais repulsivas e inquietantes do corpo humano em estado de destruição, mutação ou mutilação.

Nos últimos anos, ele parece ter abandonado (ou esgotado) essa temática e vem se voltando para o thriller policial. Um bom exemplo disto é Os Senhores do Crime, em cartaz na Paraíba. Qualidade narrativa à parte, não parece um “filme de Cronenberg”, parece um filme de Martin Scorsese ou Clint Eastwood. A história não roça nem de leve pelo fantástico, e explora o envolvimento casual de uma jovem parteira de Londres com as guerras internas das Máfias russa e turca. A única sequência que “parece Cronenberg” é a da sauna, em que o protagonista, nu, enfrenta dois assassinos profissionais vestidos e armados, e derrota ambos – um balé cuidadosamente coreografado e filmado, cuja imensa improbabilidade se dilui justamente pelo insólito do ambiente em que transcorre.

O papel principal é de Viggo Mortensen, que trabalhara com Cronenberg em seu filme anterior na mesma linha: Marcas da Violência. Em ambos os filmes Mortensen tem um personagem que leva vida dupla, e no transcorrer da história revela-se muito mais complexo (e mais perigoso) do que aparenta ser. Em Marcas da violência ele é um pai de família pacato que, depois de reagir à bala a um assalto, passa a ser assediado por mafiosos que dizem ser ele um ex-colega; em Senhores do crime ele é o motorista de um mafioso que parece estar fazendo jogo duplo.

Poderíamos dizer que Cronenberg tem como uma de suas fixações o desdobramento de um indivíduo em duas criaturas, uma delas aparentemente normal, a outra maléfica ou pervertida. Os gangsters de Viggo Mortensen, o transexual de M. Butterfly, os mutantes de Scanners, o escritor drogado de Almoço Nu, o cientista de A Mosca, e assim por diante. Cada um deles traz dentro de si outra criatura, uma criatura com tendências predadoras e monstruosas, que luta para romper o casulo e emergir. Quando o faz, convém aos transeuntes afastar-se o mais depressa que possam. Cronenberg pode ter abandonado os efeitos visuais escatológicos, mas não a sua visão “dark” e mórbida sobre as possibilidades de violência e monstruosidade que jazem por baixo de nossa maquilagem de civilização.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

0946) Os homens elefantes (29.3.2006)



O leitor deve conhecer, pelo menos de ouvir falar, o filme de David Lynch O Homem Elefante (1980), inspirado na vida de John Merrick, um inglês que ganhou este apelido por causa de uma grave doença deformadora. Merrick voltou a ser lembrado na imprensa dias atrás, por causa do estranho resultado de uma experiência de laboratório na Inglaterra.

Um grupo de oito voluntários se inscreveu como cobaias nos testes de uma nova droga produzida pela Parexel, empresa farmacêutica sediada em Boston (EUA). A droga, provisoriamente designada como TGN-1412, é um tipo de anticorpo desenvolvido pela alemã TeGenero, para tratar leucemia e problemas imunológicos, e provocou em alguns voluntários uma reação violenta. Dois foram internados em estado crítico, quatro foram seriamente afetados; dois voluntários que tomaram um placebo (substância neutra, para ver se ocorrem efeitos meramente psicológicos) nada sentiram.

Segundo um destes dois, minutos depois de tomarem a droga os outros seis pacientes entraram em choque. Um deles gritava: “Doutor, minha cabeça dói, minhas costas doem, não posso respirar, socorro!”. Todos vomitavam sem parar. A noiva de um deles declarou: “Ele está muito mal, o sistema imunológico dele simplesmente desapareceu”. E um deles foi chamado de “Homem Elefante”, porque sua cabeça e seu pescoço incharam até ficar três vezes maiores do que o tamanho normal.

A empresa declarou: “Reações tão fortes são extremamente raras neste tipo de teste. Usamos todos os procedimentos padrão que se empregam para testar uma droga em seres humanos pela primeira vez. Há todo um protocolo de precauções, preparado pela empresa e aprovado por comitês de ética e entidades reguladoras”. O fabricante afirmou: “Estes resultados são totalmente inesperados e não refletem os resultados que obtivemos nos testes iniciais de laboratório, os quais nos permitiram experimentar a substância em seres humanos”. Cada voluntário recebeu cerca de duas mil libras, ou 3.500 dólares, para participar do teste.

Há muitos livros e filmes sobre efeitos imprevistos neste tipo de experiência. No Scanners de David Cronenberg, os sujeitos acabam conseguindo explodir a cabeça uns dos outros com um simples esforço mental. Em Jacob’s Ladder de Adrian Lyne, Tim Robbins perde o contato com a realidade e se vê transportado para um mundo de pesadelos e criaturas ameaçadoras. Quando a gente fala sobre “o flagelo das drogas”, geralmente está se referindo às drogas ilegais do prazer (maconha, cocaína, ecstasy, etc.), mas esta é apenas uma face do problema. Existem as drogas legalizadas do prazer (cerveja, uísque, cigarro, etc.); e as drogas terapêuticas legalizadas. Cada uma delas é um abismo de perigos, e uma fonte de alívios. Fomos nós que as inventamos, permitimos que (legais ou ilegais) se tornassem mercados de bilhões de dólares, e, num certo sentido, hoje é sua indústria e comércio que vai na frente, e nós a reboque.

domingo, 16 de março de 2008

0264) A Larva Eletrônica (24.1.2004)




(Videodrome, de David Cronenberg)

Existe dentro de cada um de nós uma pequena larva, um embrião de ectoplasma esperando para crescer. É minúscula: não passa de um filete que sobe ao longo da medula espinhal, e que quando alcança o cérebro se ramifica numa árvore fractal, ao longo das cadeias de neurônios onde nossa consciência habita e pulsa. Esta larva faz parte dessa consciência, tanto quanto os sistemas automáticos que, independentes de nossa vontade, fazem nosso coração pulsar, nosso estômago e nossos intestinos funcionarem, nossa perna dar um pinote quando o médico nos martela o joelho. Essa larva é a nossa consciência imagética, e durante milhões de anos viveu em nós adormecida.

Em mim ela deve ter despertado na primeira vez em que vi minha imagem na televisão, andando falando, sorrindo, respondendo perguntas com minha voz, debatendo com minhas idéias. Não era meu corpo; meu corpo estava aqui diante da TV, o que eu podia confirmar, apalpando-me. Era o corpo de quem, então? Hoje sei a resposta: era o corpo “dela”, da minha Larva Eletrônica. Ela é uma alma que existe no meu corpo, mas o corpo dela não é feito de carne e osso, é feito de sinais eletrônicos, cuja vibração de som e imagem é capaz de despertá-la. Indiferente à minha imagem no espelho, a Larva é ativada pela minha imagem da TV, estremece, desperta, sente-se viva.

Talvez venha daí essa minha fascinação em me ver na telinha, essa sensação de alívio, de que agora sim, finalmente, graças a Deus: despertei. Todos os meus momentos de vida meramente biológica são um perambular de sonâmbulo. Só desperto de verdade (meu deus, é a Larva que está escrevendo estas linhas?) quando meu corpo surge na TV, brilhando em seus pixels reluzentes de códigos digitais e relâmpagos eletrônicos. Claro que Braulio Tavares continua existindo fora desses momentos, continua a funcionar vida afora como um bom mamífero antropóide, como um ator que cumpre seus papéis sociológicos. Mas quando ele se vê na televisão, quando ele “me” vê, ele respira fundo e se sente existindo por completo.

Sim, sei que é uma teoria mirabolante, mas somente ela explica que tantas pessoas sejam capazes de tantos absurdos; que sejam capazes de negar tudo o mais em si, que sejam capazes de inimagináveis concessões, pactos, servidões clandestinas, auto-violências morais. Tudo isto para que a Larva possa se ver em seu espelho colorido. Tudo isso para que sintam em seu cérebro e sua medula espinhal o fremir da Criatura. Ela veio embutida em nosso DNA, talvez como uma combinação casual, mas que começou a ser despertada pela pintura, pela escultura, pela fotografia, pelo cinema, para finalmente brotar, viva, inteira e completa, como se a cabeça de Júpiter se abrisse e dali brotasse não a deusa Minerva, mas uma Górgona eletrônica que se rejubila em sua existência híbrida e brada com voz cavernosa: “Eu existo! Agora eu sei que existo! Eu me vi na TV!”