Eu vivo rastreando uma tendência nas narrativas modernas – e não somente nelas, porque isto vem de mais longe, mas o acúmulo de exemplos leva a gente a se concentrar em obras mais recentes, dos últimos cem anos.
É O
Nome da Rosa de Umberto Eco com o seu volume desaparecido da “Poética” de
Aristóteles, o livro de filosofia que redime, resgata e vindica o humor.
É o Necronomicon de Abdul Alhazred,
inventado por H. P. Lovecraft, como uma espécie de evangelho do Mal.
É o
romance-rádio escrito por uma doida, no manuscrito inacabado de Julia Marquezim
Enone, que Osman Lins imaginou em A
Rainha dos Cárceres da Grécia.
Os exemplos são incontáveis, e vou parar de lembrá-los aqui porque preciso subir um degrau, rumo ao estágio seguinte, que eu chamo O Filme Misterioso.
No filme Zeroville,
de James Franco, um montador de filmes meio amalucado descobre, em todo filme
que assiste, um fotograma “fora do lugar”. Ele passa a furtar cópias, recortar
esses fotogramas, e tenta montar com
eles O Filme Misterioso.
Provavelmente pensaremos num Videogame Misterioso, porque
o game está para o século 21 como o cinema esteve para o século 20. A mais
perfeita tradução da época em que surge.
Há precedentes como o eXistenZ de David Cronenberg, um
jogo onde é possível penetrar fisicamente, existir em-matéria no universo
representacional.
Já deve haver por aí uma lista razoável de Games
Misteriosos, e nem me refiro às sugestões mirabolantes de Peter Molyneux, via
Twitter (@pmolyneux). Um game onde a
realidade se deixa manipular de maneiras inesperadas, impossíveis, insólitas.
Um game com easter-eggs escondidos
sabe-se lá onde, revelando sabe-se lá o que. Um universo paralelo? Uma viagem
no tempo? Um pipôco, e o jogador vira pó?...
Ou talvez não seja um videogame, seja O Zap Misterioso,
um grupo de mensagens num hiper-aplicativo destinado a substituir WhatsApp,
Telegram e congêneres. Onde seja necessário fornecer certos dados. Onde seja
obrigatório baixar certos mecanismos capazes de... (não direi o quê: o mundo
não está preparado para tais revelações.) Mas que traga em si algo do livro, do
filme, essa aura de ser o modo preferencial de projeção de nossa fantasia em
busca de outros mundos, de outros universos; de hipóteses mais suportáveis do
que esta Realidade sem opções.

















