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sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

5215) As casas velhas da infância (2.1.2026)



 
Havia um ritual noturno, quando eu era menino, que me deixava cheio de importância. Era a hora de botar as trancas nas portas. 
 
Muita gente pode nem se lembrar, mas nas casas daquele tempo já existia um pouco desse medo pânico de hoje em dia, esse medo da invasão e do assalto. Esse medo que enriquece os serralheiros e cobre de grades as fachadas das casas e dos edifícios. 
 
Naquele tempo (eita como eu tenho usado essa expressão!) não se pensava ainda em cercar a casa de grades, como se fosse uma gaiola. No máximo, eram os cacos de vidro pontilhando o muro, que ficava parecendo (era a minha comparação mental) um cemitério de estegossauros. 




O mais prático era reforçar as portas e janelas, por dentro, pois ninguém tinha dinheiro para instalar portas e janelas de madeira-de-lei. E era aí que entravam as trancas. 
 
As trancas são traves horizontais que se coloca por dentro das portas para evitar uma invasão. Mesmo que um intruso apareça com uma cópia da chave, ou consiga arrebentar a fechadura, ele não consegue entrar – ao empurrar a porta, ela esbarra na tranca. 
 
-- Braaaaulio!... Hora de se deitar. Feche a janela dos fundos, e bote a tranca! 
 
Herói medieval, eu fechava as duas folhas de madeira da janela, enfiava para baixo o ferrolho de baixo, subia numa cadeira, enfiava para cima o ferrolho de cima, descia. Pegava a tranca que ficava encostada, em pé, no canto da parede e a colocava transversalmente, garantindo que a janela não abriria para dentro. Depois, fazia o mesmo com a porta. 



Havia dois sistemas. Um deles era o de chumbar dois suportes de metal pelo lado de dentro, e a tranca repousava em cima deles. Outro, que se usava mais nas janelas (quando as paredes eram bastante largas) era o se cavar pelo lado de dentro da janela, no próprio portal, dois buracos frente a frente, à altura do meio da janela. A gente enfiava uma ponta da tranca num deles, e depois a deslizava até encaixar a ponta oposta no buraco oposto. E aí dava uma boa sacudida, para comprovar a segurança. 
 
As trancas eram feitas de madeira, e não eram poucas as que, durante o dia, eu usava como espingardas nos meus tiroteios intermináveis pela casa afora, ora defendendo as tropas de Napoleão do ataque traiçoeiro dos prussianos, ora dizimando índios apaches e iroqueses. 
 
Também usavam-se canos de ferro, que eram o modelo preferido de meu pai. Às vezes ele pegava um cano velho sem serventia, mas sem ferrugem, serrava no tamanho certo e usava como tranca. “Esse aí ninguém quebra,” afirmava ele, seguro como o rei Salomão. 
 
Eu levava muito a sério essas tarefas. Leitor de Karl May e de Conan Doyle (o dos romances históricos, não apenas o dos contos sherlockianos) sabia do quanto um forte precisa ser defendido com unhas e dentes, e sabia que uma janela ou porta cambaia é meio-caminho-andado para que um latagão de peixeira em punho bote aquilo abaixo com duas ombradas, e penetre no recesso de um lar. 
 
Tínhamos medo de arrombadores, embora por mais que eu remexa no baú dos traumas não me lembre de nenhum que tenha acontecido conosco ou com gente próxima. 
 
Naquele tempo (eita) ninguém tinha medo de arrastão, tinha medo dos silenciosos assaltos noturnos, capazes de pegar uma família desprevenida. 



Um dos terrores da infância eram os ladrões que vinham armados de cigarros de maconha. Segundo voz corrente, eles pulavam o muro do quintal à noite, agachavam-se junto à porta (podia ser a da frente ou a dos fundos, tanto faz), acendiam o cigarro da maconha, davam tragadas profundas e depois sopravam a fumaça pelo buraco da fechadura. A fumaça ia se espalhando aos poucos pela casa, narcotizando a família. Então eles arrombavam a porta e carregavam o rádio, a geladeira, o fogão, os livros de aventura... 
 
Fui crescendo e começando a fazer perguntas. A primeira delas foi: “Se basta o sopro da fumaça para adormecer a gente, como é que o cara que fuma o cigarro não adormece?”  A resposta era: “Eles são treinados. Têm uma técnica para isso.” Argumento irrespondível, pelos meus critérios. 
 
As família contra-atacavam. O melhor antídoto para os sopros da maconha (dizia-se) era colocar um copo cheio de água encostadinho na porta , bem abaixo da fechadura. A água absorvia a maconha e evitava que ela se propagasse pela casa. 




(Reefer Madness)


Havia ladrões à solta, todo mundo sabia. Um famoso lá em Campina Grande era um tal de João Cabeludo, que assaltava, matava, vivia sendo perseguido pela polícia. João Cabeludo era ladrão, mas havia um tal de Barba Rala que era um tarado. Ninguém nunca me explicou o que era um tarado, nem por quê ele era perigoso; mas na infância as melhores explicações estão no rosto dos adultos. Quando eles se apavoram, é sinal para liberar o pavor geral. 
 
Daí que, mesmo com todas as portas e janelas devidamente trancadas, restava o teto como elemento imprevisível. As casas em que a gente morava tinham telhado, mas não tinham nenhuma laje ou forro de gesso isolando as telhas do resto do ambiente. De qualquer aposento da casa bastava erguer os olhos para ver a viga principal da cumeeira (a “linha”), as ripas transversais, as telhas por cima delas, arrumadinhas como escamas de peixe. 


 
E se alguém destelhasse a casa?  Não havia uma menção, no Almanaque do Porto (que meu pai colecionava) a um ladrão português famoso, Zé do Telhado? 
 
Sim. O ladrão podia vir munido de uma escada, ou então se subir num dos tonéis do quintal – tonéis de metal, forrados de cimento pelo lado de dentro e cobertos com tábuas, que eram nossa reserva de água.  
 
Dali, era somente subir, e destelhar a casa. Ainda hoje esse verbo, “destelhar” sempre me soa com algo de solerte, sinistro, cheio de más intenções. 
 
Apagadas as luzes, o quarto ficava naquela penumbra. Em noites de lua clara, filtrava-se alguma luz por entre as telhas, a gente ficava vendo aquele quadriculados das vigas e enquanto meus olhos estivessem abertos eu ficava na expectativa de perceber uma telha daquelas sendo arrastada para o lado, quase sem ruído, e depois outra, e outra... até que eu conseguisse ver um quadrado de céu com estrelas, e visse surgir ali a cara malevolente e barbuda de Long John Silver, ou a cara leprosa do capitão Sharkey.  Eu fechava os olhos e dormia. 
 
Claro que havia temores mais realistas, Havia os morcegos, que volta e meia ficavam esvoaçando de um lado para o outro, no escuro, me trazendo à memória os versos de Augusto dos Anjos: 
 
Vou mandar levantar outra parede... 
— Digo. Ergo-me a tremer. Fecho o ferrolho 
e olho o teto. E vejo-o ainda, igual a um olho, 
circularmente sobre a minha rede! 
 
Havia as lagartixas, rapidinhas, pressurosas... Inofensivas, dizia minha mão; comem os insetos. (Adiantava MUITO dizer isso!...) Havia as baratas, ratos talvez, fugindo pelos caibros... E os lacraus. Eram lacraus daqueles pequenos, fininhos, cor de mel, habitantes dos buracos no alto das paredes. 
 
Uma noite, um deles caiu. Eu devia ter uns cinco ou seis anos, e dormia no quarto com a minha tia. Senti alguma coisa cair do teto bem junto do meu rosto, bater no travesseiro e fugir às pressas. Dei o alarme, como um Sheldon Cooper que se preza, e pulei da cama. 


(Young Sheldon)
 

Minha tia se levantou, acendeu o candeeiro, expliquei tudo. Reviramos o quarto inteiro, e ela dizia: “não caiu bicho nenhum, isso é manha sua”, procuramos por todos os lados, nada feito. Ela me ordenou que dormisse feito gente, abaixou o lume do candeeiro, e cada qual se deitou em seu canto. 
 
Foi só pousar a cabeça no travesseiro (que eu havia jogado para o alto no primeiro susto) e eu senti alguma coisa se mexendo ali embaixo, alguma coisa viva, presa, raspando, rac rac rac... 
 
Dei um segundo alarme, ela levantou de novo, mas agora eu tinha a prova. Erguemos o travesseiro e lá estava ele, feroz e assassino (ou talvez mais assustado do que nós), aguilhão erguido e trêmulo, pinças tateando o ar. Tia Adiza desceu-lhe o chinelo em cima, esbagaçou o pobre sem dó nem piedade, depois ajuntou-lhe os restos mortais usando os dois chinelos, e os jogou dentro do penico. 
 
Dormi como um santo, porque nada tranquiliza tanto a alma de um indivíduo como perceber que os horrores do mundo são reais, sim, e que ele não está ficando doido. 
 






sábado, 6 de novembro de 2021

4761) Eu me lembro - 23 (6.11.2021)



1.

Eu me lembro dos “jornais da festa”, que eram pasquins em formato tablóide, ou menor ainda, vendidos em Campina durante as festas de fim de ano. Cheios de propagandas pagas, de boa vontade, pelo comércio local, porque as tiragens eram grandes e todo mundo passava os jornais de mão em mão. Os que eu mais gostava eram “O Detetive” e “O Disco Voador”, por motivos óbvios, mas também lembro de “O Oião”, que tinha a imagem de um olho enorme. Ainda lembro de cor um versinho de pé-quebrado que fizeram com meu pai: “Nilo Tavares / parecendo o satanás / paletó lascado atrás / na festa”. Era a moda dos paletós com um corte vertical na parte traseira, que em Campina, evidentemente, dava origem a todo tipo de piada impublicável. E lembro uma décima que fizeram mangando de Zé da Guia, funcionário dos Correios e Telégrafos: “Ó monstro da estratosfera / ó sacatrapo de angola / ó boitatá, tatu-bola / ó cara de besta-fera / se Satanás que te espera / de ti não der logo cabo / há de dizer: ó quiabo, / Zé da Guia do Correio / é um bicho muito feio / termina criando rabo!”.


2.

Eu me lembro que quando conheci os gêmeos Rômulo e Romero Azevedo toda a nossa conversa era um desfilar ininterrupto de informações e todo tipo de detalhes sobre cinema, e eu ficava fascinado porque até então (eu tinha 16 anos, eles 14) nunca tinha conhecido ninguém que fosse mais nerd do que eu. Eles falavam alternadamente; quando um fazia um ponto-parágrafo e respirava, o outro pegava a frase no ar e prosseguia. E sabiam tudo de cor (ainda sabem). Naquele tempo os telefones em Campina Grande tinham quatro algarismos. O da minha casa era 3666, e eles disseram: “Eita, é a tripla Besta do Apocalipse”. Eu perguntei: “E o de vocês?” Um deles respondeu: “Um Cão Andaluz e O Manto Sagrado”. Precisei de alguns segundos para deduzir que era 2853.

 

3

Eu me lembro que com uns oito anos de idade eu gostava muito de desenhar, e tia Adiza me dava de presente cadernetas, e uns livros-razão de contabilidade, sem utilidade, cheios de páginas em branco. Uma vez eu peguei uma dessas cadernetinhas de bolso, onde há um quadrado referente a cada dia do ano, e onde tinha o anúncio de um feriado eu fazia a ilustração correspondente. “Carnaval” – eu fazia um palhaço, as curvas das serpentinas, os pontinhos dos confetes... “Descobrimento do Brasil” – eu rabiscava mal e mal uma caravela, com as velas enfunadas e uma cruz na vela grande. Aí embatuquei, porque chegou um feriado cujo nome era: PENTECOSTES. O que diabo será isso? Depois de muito pensar, desenhei um cara barbudo, com chapéu de cowboy, pendurado numa forca. Alguém viu aquilo e me perguntou por quê, e se eu sabia o que era “Pentecostes”. E eu respondi: “Isso parece o nome de um ladrão de cavalos”.

 

4

Eu me lembro do meu primeiro relógio de pulso, que era da marca “Lanco” e tinha ponteiros luminosos. Fiquei tão entusiasmado com esse pequeno prodígio científico que durante meses mantive o costume de, deitado para dormir, no quarto escuro, olhar o mostrador por baixo das cobertas, a todo instante, para ver se ele ficava aceso mesmo. Depois, já com mais de 20 anos, tive um da marca “Fortissimo”, cujo grande charme, a meu ver, era a ausência de acento agudo, o que o transformava aos meus olhos em relógio importado. Se brincar, ainda deve estar guardado, sem pulseira, em alguma das minhas caixas de traquitanas.

 

5

Eu me lembro que em 1968, o auge dos Beatles, a gente se reunia na casa de Jakson e Marcos Agra para ouvir um programa na BBC de Londres. Ouvir rádios estrangeiras era uma prática comum naquele tempo, porque, como diziam alguns locutores, “música não tem idioma e a arte não tem fronteiras”.  Eu sabia que a BBC era uma rádio londrina, mas era tão abestalhado que ficava surpreso com o fato de eles se darem o trabalho de ocupar um horário inteiro com um programa em português chamado “Iê-iê-iê na BBC” – na minha cabeça a BBC era uma rádio como a Rádio Borborema, tinha somente um canal de transmissão. Lembro da noite em que nos reunimos todos para acompanhar a primeira audição do “Álbum Branco” dos Beatles, lançado naquele dia. Era uma novidade atrás da outra, e a certa altura o locutor disse: “E agora uma canção de George Harrison, intitulada ‘Meu Violão Chora em Surdina’”, e eu pensei: “Vige que título cafona”.

 

 

 

 






sábado, 22 de maio de 2021

4706) Quem foi Conan Doyle (22.5.2021)



 
Quando eu tinha uns dez anos de idade, minha tia Adiza me comprou de presente (em módicas prestações, e remessas mensais) a coleção Obras de Conan Doyle, que a Editora Melhoramentos estava lançando. Eram 26 volumes, divididos em três coleções de cores diferentes: “Sherlock Holmes” (vermelha, 9 volumes), “Ficção Histórica” (azul, 8 volumes) e “Contos e Novelas Fantásticas” (verde, 9 volumes).
 
Todo mês ela pagava uma prestação, e ia comigo ao Correio, na Praça da Bandeira, receber um pacote com 2 livros; isso aconteceu durante treze meses. A primeira remessa trazia Um Estudo em Vermelho e A Companhia Branca. Preciso dizer que são até hoje dois dos meus livros preferidos?



 
Tive a coleção inteira, reli cada volume vinte vezes, e tenho ainda. Recomprei tudo nos sebos cariocas – porque pra mim as traduções recentes não têm interesse. Eeu quero o mesmo livro, a mesma capa, a mesma tradução, a mesma fonte.
 
Doyle é conhecido apenas como o criador de Sherlock Holmes, um mérito que qualquer escritor invejaria, mas de certa forma é uma injustiça para com o grande escritor que ele foi. Ninguém admira Holmes mais do que eu, que gosto até dos defeitos; mas me sinto no dever de reconhecer que a ficção histórica e a ficção científica de Doyle são ainda superiores às aventuras do maior detetive do mundo.

 
Eu aconselharia o leitor a conhecer este díptico de aventuras medievais, ambientado no século 14: The White Company (1891) e O Escudeiro Heróico (Sir Nigel) (1905-06). Os dois abordam o mesmo personagem, mas em cronologia inversa.
 
No primeiro livro, o jovem Aleine Edricson abandona o mosteiro onde era estudante e sai pela Inglaterra afora, tendo aventuras de estrada até tornar-se escudeiro do nobre Sir Nigel Loring, líder da Companhia Branca, uma espécie de milícia independente de soldados mercenários. É um Bildungsroman, um romance de formação que mostra um rapaz ingênuo, intelectual e cheio de conceitos abstratos deparando-se com a malícia, a rudeza, a violência e o bom humor da vida real.
 
No segundo livro, Doyle retroage no tempo e conta a juventude do próprio Sir Nigel, um rapaz de família nobre mas arruinada que consegue tornar-se cavaleiro e conquistar glórias no campo de batalha, durante a Guerra dos Cem Anos entre a Inglaterra e a França.

Outro personagem notável de Doyle é o Brigadeiro Gerard, Étienne Gerard, dos hussardos de Conflans. Um jovem oficial do exército de Napoleão: fanfarrão, conquistador, brigão, vaidoso, simpático, meio ingênuo... Um personagem engraçado mas complexo, um tipo de desenho psicológico que Doyle sabia executar muito bem. 

Ele “faz uma ponta” no romance Reminiscência de um Império (“Uncle Bernac”, 1897), mas suas aventuras propriamente ditas foram recolhidas em forma de contos, em dois volumes impagáveis: As Façanhas do Brigadeiro Gerard (1896) e As Aventuras de Gerard (1903). É um personagem que muitas vezes imaginei sendo interpretado no cinema por Gérard Depardieu com 30 anos de idade.



 
Além das aventuras serem divertidas e mirabolantes, Doyle consegue mostrar (isso está principalmente em Uncle Bernac) a pessoa de Napoleão, o modo como se relacionava com generais e nobres à sua volta.

Outro personagem doyleano, este bem mais famoso, é o grande Professor Challenger, que ele explorou em alguns romances de FC que estão entre o que a literatura inglesa produziu de mais interessante em sua fase vitoriana de “Scientific Romances”.


O mais famoso, e o melhor, é O Mundo Perdido (“The Lost World”, 1912), em que um grupo de exploradores ingleses vem à Amazônia e descobre seres pré-históricos ainda vivos. No livro, o Monte Roraima teria se separado do resto do terreno por um sismo qualquer, e graças a isto seres como iguanodontes, pterodáctilos e outros continuaram vivendo e reproduzindo-se. É Doyle em sua veia julioverniana, com um grupo de exploradores (Prof. Challenger, Lord John Roxton, Prof. Summerlee e o jovem jornalista Malone) atravessando a floresta, correndo perigos e discutindo sem parar.
 
O Veneno Cósmico (“The Poison Belt”, 1913) pega o mesmo grupo de personagens enfrentando uma situação apocalíptica: a Terra penetra numa região do espaço ocupada por um gás que ameaça matar envenenada a humanidade inteira. Eles conseguem se isolar, e depois percorrem a cidade de Londres deserta, coberta de cadáveres, até que... Mas não darei spoilers.
 
Challenger é um personagem explosivo, amedrontador, capaz de gestos afetuosos e de vociferações aterrorizantes contra a família, os amigos, os empregados. “Cheio de razão” (como se diz na Paraíba), não admite ser contestado nem questionado, e por isso quando se mete em alguma enrascada o leitor sente-se vingado um pouquinho. É o que ocorre em contos semi-humorísticos como “Quando o Mundo Gritou” e “A Máquina Desintegradora”, incluídos no volume O Veneno Cósmico.


Tem também
A Cidade Submarina (“The Maracot Deep”, 1929), em que um inventor meio maluco, o Dr. Maracot, cria uma batisfera que o leva ao fundo do mar, onde ele descobre uma espécie de Atlântida protegida por uma cúpula e entra em contato (e em choque) com essa civilização submarina.
 
Os contos fantásticos e de FC de Doyle são todos imaginativos, movimentados, e eram escritos para publicação nas revistas da época. Curiosamente, boa parte desses contos foi reunida aqui em duas coletâneas cujos títulos se fincaram na minha memória. Eu pensava que eram dois gêneros literários “oficiais”, de modo que na adolescência ainda passei muitos anos lendo um conto qualquer de um Fulano qualquer e classificando: “Isto aqui é um conto da-penumbra-e-do-invisível”.



Outro romances mostram Doyle em sua atividade constante, obstinada, de tornar-se uma espécie de sucessor de Sir Walter Scott em termos de romances históricos. Doyle pesquisava muito para escrever seus livros, e não foram poucas as vezes em que, lendo alguma coisa sobre a Inglaterra medieval, me deparei com episódios históricos que eu já tinha lido, tintim por tintim, em seus romances. Tinha sobre Scott a vantagem de uma prosa mais moderna, mais ágil, um olho observador enriquecido por todo um século 19 de realismo literário. Seu uso do diálogo é fluente, vívido, para romances de um século atrás. Seus tipos humanos são memoráveis.


 
A Curiosa História de Rodney Stone ("Rodney Stone", 1896) narra como o boxe surgiu na Inglaterra (o autor tem também uma coletânea chamada Contos do Ringue e de Guerra), como um canal de ascensão social para um jovem de origem humilde. Os Refugiados (“The Refugees”, 1893) funciona como dois romances num só: na primeira parte, vemos a corte francesa de Luís XIV, católica, na época em que era tramada a perseguição e exílio dos protestantes huguenotes; n segunda parte, esses huguenotes desembarcam na América do Norte e ali se envolvem em aventuras com índios, colonos, vaqueiros e caçadores.
 
Sobre o primeiro romance histórico de Doyle, A Narrativa de Miquéias Clarke (1889), escrevi aqui:
 
https://mundofantasmo.blogspot.com/2020/10/4631-o-soldado-e-o-fanatico-religioso.html
 
Uma excelente recolha de seus contos fantásticos, insólitos, “da penumbra e do invisível”, foi publicada recentemente pela Editora Bandeirola:


A obra de Conan Doyle demonstra que os gêneros literários são uma criação dos editores, dos livreiros e da imprensa, muito mais do que dos escritores. O meio século em que durou a carreira de Doyle (entre 1880 e 1930 aproximadamente) foi um período que a literatura da Inglaterra talvez nunca venha a igualar, em qualidade e quantidade. Doyle tinha como contemporâneos, concorrentes, e muitas vezes como amigos, autores como H. G. Wells, H. Rider Haggard, Arthur Machen, G. K. Chesterton, M. R. James, Oscar Wilde, Bram Stoker, Algernon Blackwood, Lord Dunsany, Rudyard Kipling, R. L. Stevenson...
 
Todos esses autores escreviam o que se chama hoje de romances policiais, romances de aventuras, romances de ficção científica, romances de costumes, romances de crítica social, romances de horror... Escreviam com liberdade, com ousadia, usando as fórmulas do momento mas sem se deixarem usar por elas. Tinham algo a dizer, e não uma receita a repetir. Cada um deles tinha uma voz literária própria, capaz de dobrar diante de si as convenções de qualquer gênero artificialmente criado pelos classificadores.
 
Hoje, 22 de maio, é a data do 162º. aniversário de nascimento do escritor. Aqui embaixo, coloco o link para o saite "Literatura Policial", que compartilhou esta entrevista, talvez o único registro da voz e da imagem de Doyle falando para uma câmera de cinema. Durante dez minutos, ele comenta a origem dos romances de Sherlock Holmes e do seu interesse posterior pelo Espiritismo.
 
https://literaturapolicial.com/2017/05/19/assista-ao-video-de-arthur-conan-doyle-falando-sobre-sherlock-holmes/
 





domingo, 26 de maio de 2019

4470) Eu me Lembro - XV (26.5.2019)




1
Eu me lembro de quando minha Tia Adiza começou a comprar para mim, por volta de 1959, pelo Reembolso Postal, a coleção das Obras Completas de Conan Doyle (Edições Melhoramentos, a coleção vermelha/azul/verde), e me levava no Correio para que eu tivesse o gosto de receber pessoalmente o pacote (vinham 2 livros por mês). E me lembro de ir lá de novo em 1974, para receber livros de Jorge Luis Borges da Ed. Emecé, no mesmo balcão, no mesmo guichê, à esquerda de quem entra.





2
Eu me lembro de quando eu tocava nos Sebomatos (portanto foi em 1969) apareceu em Campina um dinâmico produtor que dizia se chamar John Louis, ou Johnny Lewis, já que nunca vimos o nome dele por escrito; vinha vender um show de Bob Lester, o cantor de rock e sapateador, acho que já sessentão, naquela época. Precisava de uma banda local para acompanhar o ídolo, e tinham indicado a gente. No espaço de 24 horas arranjou-se divulgação, ensaio, o Teatro Municipal, uma venda de ingressos da qual não faço idéia, porque tudo que a gente queria era tocar num palco de verdade, e cantar em microfones (a gente tinha guitarras e amplificadores, mas ensaiava na guela). O sucesso foi absoluto e felliniano.





3
Eu me lembro dos bichos empalhados que tinha na vitrine da loja Palacinho da Criança, onde minha mãe e minha tia levavam a gente para admirar, ali numa transversal da Maciel Pinheiro. A loja era pequena, mas a vitrine tinha os bichos em pose bem real e uma iluminação meio mágica. Vizinho à loja ficava o caldo de cana de Hipólito, onde quinze anos depois ficaria exposta a foto dos Sebomatos, porque o fotógrafo era Telmo.





4
Eu me lembro do dia em que o Brasil ganhou a Copa do Mundo de 62, porque na de 58 eu não era torcedor ainda. Agora já. Me lembro depois do fim dos 3x1 sobre a Tchecoslováquia (era um país que tinha naquele tempo) eu parado no terraço da casa dos meus pais no Alto Branco, olhando à minha frente o perfil completo da cidade enquanto ela pipocava em foguetões, chega parecia uma purpurina rebrilhando. Lembro de uma crônica de alguém que li na época celebrando a vitória, que foi de virada: “...o tímido sorriso de esperança com o gol do empate, de Amarildo; a alegria esfuziante do gol de Zito; e o grito uníssono de vitória com o terceiro gol, de Vavá”.





5
Andei relendo uns livros da saudosa Coleção Futurâmica, das Edições de Ouro. É uma pulp fiction tipo filme B. Vai do pior clichê à coisa mais inesperada e tem pelo menos um livro genial: “A Cadeia das 7” (La Mort Vivante) de Stefan Wul, e os paradoxos temporais de F. Richard-Bessière. Lembro de quando os livros de bolso começavam a ser vendidos em Campina, a partir de 1959. Meu box preferido era um da parte de trás do Abrigo Maringá, lá dentro mas virado para a praça. Surgiu nessa época aquele tipo de display de metal giratório, com escaninhos onde se podiam amontoar vários títulos. Depois, já em meados dos anos 1960, abriu a poucos metros dali, nas primeiras portas da descida da Irineu Joffily, virada para o Capitólio, uma lojinha montada pelas próprias Edições de Ouro. Era um espaço minúsculo e muito bem aproveitado, forrado de escaninhos de alto a baixo.





6
Eu me lembro dos tempos do Cineclube de Campina Grande em que a gente programava filmes que só eram disponíveis nas distribuidoras do Recife. A gente reservava o aluguel por telefone. No dia da exibição (que era à noite) um de nós pegava o ônibus de manhã para o Recife, chegava lá 4 horas depois, ia a pé da antiga Rodoviária para a distribuidora, que ficava perto do Mercado São José. Se identificava, pegava o filme, que era uma caixa de madeira, com alça de couro, amarrada com tiras de couro e fivelas, trazendo no interior 2 ou 3 rolos de película em 16 mm. Voltava para a Rodoviária, pegava o ônibus de volta, chegava em Campina no fim da tarde. O filme era exibido à noite, e no dia seguinte outro de nós refazia o mesmo trajeto, devolvia o filme e pagava o aluguel. E me lembro que um dia um dos gêmeos (Rômulo ou Romero Azevedo) ficou preocupado porque carregando a caixa na rua cheia de gente, bateu com ela e quebrou a lanterna traseira de um carro estacionado. (Só falta agora aparecer o dono do carro e cobrar a indenização.)





7
Eu me lembro que logo no começo do Cineclube de Campina Grande a gente fez um convênio com o Colégio das Damas (que tinha auditório e projetor) para fazer sessões de Cinema de Arte ali. O primeiro filme exibido, depois de acaloradas discussões diante dos panfletos das distribuidoras (que naquele momento só tinham filme fraco) foi Ato de Misericórdia, de Anatole Litvak, um filme de guerra preto-e-branco do qual não lembro rigorosamente nada. O público deu algo em torno de 10 pagantes. Novas discussões acaloradas, em que condenamos o elitismo de nossa escolha. Na semana seguinte, passamos Louras, Morenas e Ruivas, com Elvis Presley, e deu 5 pessoas.









sábado, 9 de março de 2019

4443) Eu me lembro XIV (9.3.2019)



1
Eu me lembro das lojas de instrumentos agrícolas que havia na rua João Pessoa, quando eu era garoto e às vezes passava uns dias no apartamento de Tia Adiza, lá no final da rua, no Monte Santo. Em algumas lojas havia tratores vermelhos, com rodas traseiras imensas, muito maiores do que as rodas dos carros, pneus com sulcos profundos e geométricos. O banco do motorista era pequeno, desconfortável, sem acolchoado, mas eu olhava de longe e tudo que eu queria na vida era sentar ali pelo menos uma vez. A cor vermelha era profunda, brilhante. Muitos anos depois, foi a cor desses tratores que me veio à mente quando escutei a canção”Meu Nome é Pablo”, com Milton Nascimento: “Meu nome é Pablo, como um trator é vermelho”. E quando li o famoso poema de William Carlos William, “The Red Wheelbarrow”: “Tanta coisa depende / de um carro-de-mão vermelho / brilhante de água da chuva / entre galinhas brancas”.


2
Eu me lembro que na campanha presidencial de 1960 meu pai torcia pelo general Henrique Teixeira Lott e minha mãe por Jânio Quadros. As pessoas usavam adereços de metal dourado que pregavam na roupa (isso era muito antes dos buttons, que as pessoas hoje chamam de bóttons). O símbolo de Lott era uma espada, o de Jânio uma vassoura. Eram adereçozinhos pequenos, com uns 2 centímetros no máximo, presos à roupa com um broche. Eu torcia por Lott meio por identificação com meu pai, e porque a espada me parecia um símbolo masculino, e a vassoura um símbolo feminino. Lembro também de uma propaganda de Jânio que era um disco fonográfico gravado em cima de um cartaz do tamanho de um livro: a gente colocava na vitrola e ele tocava uma música: “Ele vem aí, não demora não... ele vem aí com a vassoura na mão! / Tanto faz ser de Mato Grosso / tanto faz ser de Macaé / o que interessa é ser bom brasileiro / isso ele é!”.


3
Eu me lembro, ainda no capítulo sobre “espadas”, que eu tinha tamanha idéia-fixa com as histórias de aventuras medievais, fantasia heróica, etc., que os meus dois santos preferidos eram São Jorge e Santa Joana d’Arc, porque eram os únicos santos que eu via vestidos de armadura e empunhando uma espada. Eu também tinha uma devoção por Santa Luzia, de quem tinha uma gravura, uma mulher alva, de roupa preta, segurando uma bandeja onde havia dois olhos humanos. Dizia-se que os olhos dela tinham sido arrancados durante uma sessão de tortura, e por isso ela era protetora da vista. Como eu tinha muito medo de ficar cego, todas as noites, depois de rezar, eu dizia: “A bênção Santa Luzia, protegei a minha vista.”


4
Eu me lembro das peladas no Alto Branco, na beira da estrada; eu teria uns 12 anos e a única bola que a gente tinha era a famosa Bola Verde, que era de plástico e tinha um rasgão, de modo que cada vez que a gente “prensava uma bola” tinha que parar o jogo e desamassar a respectiva com as mãos. Nossa independência começou depois que comecei a trabalhar no Diário da Borborema, com 15 anos, e eu e Severino Brasil, que também trabalhava lá, rachamos o preço de uma bola de couro no. 3, com gomos marrons e brancos, na Casa Esporte, quase em frente à TV Borborema, e descemos eufóricos no fim da tarde pelo Beco dos Bêbos, a rua Alexandrino Cavalcanti, o Ponto Cem Réis, a ponte do canal e a subida do Alto Branco, correndo e trocando passes pelo meio da rua até chegar na casa dele, que era pertinho da nossa.


5
Eu me lembro que meu pai, charadista nato, colecionava uma revista portuguesa chamada Brasil Enigmista, cheia de charadas, palavras cruzadas, rébus, etc. A revista tinha uma seção chamada “Você é o Sherlock”, escrita por Leiria Dias, com pequenos casos policiais cuja narração era interrompida a certa altura. Havia concursos para ver quem deduzia quem era o assassino (e justificava). Publicavam contos também, e me lembro de ter lido uma história de "William Irish" (pseudônimo de Cornell Woolrich) chamada “Prato Frio”, um crime dentro de um elevador enguiçado e cheio de gente.


6
Eu me lembro que minha mãe, costureira dedicada, colecionava uma revista chamada Jornal das Moças, cheia de matérias sobre moda, vida doméstica, beleza, etc.  Tinha também uma seção de piadas, e uma de curiosidades com o nome “Tudo Isto é Verdade”. E tinha uma história em quadrinhos, serializada, em preto e branco: “Mark Taylor”, com as aventuras de um cara no norte gelado dos EUA, ou Canadá. Como eu pegava as revistas fora de ordem, acabava lendo esses quadrinhos como quem pula capítulos rayuelamente, numa ordem totalmente imprevista, mas que não nos impede de montar o quebra-cabeças.

















sábado, 14 de maio de 2016

4113) A arte de improvisar histórias (14.5.2016)



(ilustração: Julie Paschkis)

Um velho clichê diz que violão é o instrumento mais fácil de tocar e mais difícil de tocar bem. (Violão porque é o que eu toco; imagino que qualquer músico já ouviu dizer isso a respeito do seu instrumento.) Eu diria que inventar histórias de improviso é a coisa mais fácil de fazer e a mais difícil de fazer bem. Em rodas de conversa com amigos já pratiquei a nobre arte de começar uma história meio sem pé nem cabeça, depois de dois minutos dizer para o cara ao lado: “Agora vai tu”, e cada um ir adicionando seu trecho e passando adiante.

(Digressão: esse sistema é o que em inglês chamam de “round robin”, uma criação coletiva com cada autor pegando a história onde o outro larga. Existe na FC e no romance policial, por escrito, não improvisado. Os surrealistas franceses gostavam de improvisar histórias, poemas ou narrativas de sonhos em voz alta. Um dos meus contos preferidos de Conan Doyle é “Cipriano Overbeck Wells, mosaico literário”, onde numa alucinação meio machadiana o narrador vê-se cercado de autores como Jonathan Swift, Bulwer-Lytton, Walter Scott, Daniel Defoe e outros, improvisando em “round robin” uma história para ele.)

Fazer de improviso é mais difícil se o cara for se preocupar com aspectos que já são complicados no texto escrito: coerência do enredo, originalidade da idéia, riqueza de descrições, profundidade psicológica... 

Não, uma história inventada em voz alta deve ir se jogando para a frente sem saber o que vem depois, e a imagem que me vem à cabeça é um macaco saltando de galho em galho, largando-se de um galho forte que se enverga e o arremessa como uma catapulta bem no meio da copa de outra árvore onde por certo não faltará com o quê se pegar. Assim vai o narrador de improviso.

Já improvisei muita historinha para meus filhos na hora de dormir, a única regra era que não podia ficar bolando sinopse meia hora antes. Eu só me permitia pensar na história depois de pronunciada a fórmula mágica do Era uma vez. Depois disso eu olhava em torno, via a janela aberta e dizia: “Um dia, o Macaco vinha andando pela floresta de noite e viu de longe uma janela acesa, num lugar onde ele nunca tinha visto casa nenhuma”. O que vem depois não sei, mas qualquer coisa pode se encaixar aí.

Escrever assim (porque isso faz parte de escrever) requer certas precauções. Me lembro muito das histórias que Tia Adiza contava para a gente, mais de meio século atrás, nesse mesmo ritual de botar pra dormir. Ela vinha com umas histórias bem concatenadas, que eu acho que eram menos improvisadas do que exumadas da memória. E de vez em quando aparecia algo como:

“Aí o Rei mandou prender o rapaz no calabouço, os guardas jogaram ele no porão, fecharam o alçapão lá no alto e botaram uma pedra em cima. O rapaz ficou preso. Mas certa hora ele ouviu um barulho na grade.” 

“Que grade, tia?”  

“Oi, não falei na grade não? Num canto do porão tinha uma portinha baixa, gradeada, que dava pro lado de fora!”

Elementos narrativos brotavam assim, do-nada, de acordo com as conveniências do herói, e dela. Eu já ficava com medo de imaginar a cena, porque podia haver uma porção de elementos deus ex machina que ela estava vendo e eu não. 

“Aí o rapaz ia caminhando pelo descampado, aí se deitou pra descansar. Foi quando ele ouviu um tropel, lá vinha um touro furioso, imenso, correndo pra cima dele!...”  

“Eita, tia, e o que foi que o rapaz fez?” 

“Ele subiu correndo na árvore! Oi, não falei na árvore não? Era uma mangueira bem alta...”

Quem está inventando em voz alta precisa dessa cara de pau. Quem escreve, não. Quando ele perceber que faltou informação prévia ao leitor (que não aceita ouvir falar pela primeira vez em algo quando nesse algo repousa todo o peso de uma cena), ele pode voltar atrás quanto espaço for necessário para “plantar” a informação sobre a gradezinha ou a mangueira. De preferência, dando-lhe um contexto que não sugira de que maneira será utilizada a seguir.

Se o fluxo principal da história for atraente, o ouvinte perdoa muita coisa, perdoa que a moça seja loura numa cena e morena na outra, como as mulheres fatais de Buñuel. Perdoa que um táxi ou uma carruagem que o herói deixou esperando por ele estejam à sua espera até hoje após o fim do livro. Perdoa que o herói tente alcançar seus objetivos da maneira mais tortuosa quando com duas manobras poderia resolver tudo. 

O ouvinte-leitor sabe e sente que, se fosse assim, não haveria história. Ele aceita as maiores inverossimilhanças, desde que estas tornem a história mais vívida, e não menos. Os melhores filmes de Hitchcock se baseiam nesse tobogã narrativo onde cenas implausíveis se sucedem da maneira mais emocionalmente plausível que se possa imaginar.






quinta-feira, 12 de março de 2015

3759) Onde foi que eu vi (12.3.2015)



(Oscarito)

Para um crítico ou historiador das artes narrativas existe sempre uma pergunta que pode ser aplicada a qualquer tipo de criação: Quem foi o primeiro que fez isto?  O crítico sabe que um filme ou um livro é apenas um fotograma (rico de informações, é claro) de um filme mais longo, onde aquela idéia sofrerá suas próximas e sucessivas mutações. Aquela obra é o instantâneo atual daquela idéia. Mas o espectador (leitor, fã, etc.) tem uma pergunta diferente, quando ele pensa em todas as histórias que já foram contadas.  Ele pensa: Onde foi que eu vi isso pela primeira vez, e minha alma nasceu, ou nasceu de novo?

Leitores muitas vezes têm suas epifanias mal acompanhados. Quando ele lê uma das grandes cenas da literatura, que encanta a humanidade há milênios, vai ler numa versão contemporânea, mal traduzida ainda por cima, mas vai ser uma epifania do mesmo jeito. A primeira vez em que li sobre o jardim das veredas que se bifurcam foi num romance de F. Richard-Bessière aos dez anos. Fiquei pronto para conceber o espaçotempo como os fios de uma tapeçaria que não enxergamos por inteiro. Sabemos apenas que nosso fio vai em tal e tal direção, muda de cor aqui e ali, e que se isso não acontecesse o desenho final ficaria maculado ou incompleto.

Onde foi que eu vi minha primeira máquina do tempo?  Foi no filme de George Pal, e sem ele eu não teria ido atrás de um escritor chamado Wells, que eu na verdade pensava ser um ator de cinema que tinha inventado uma invasão de discos voadores num programa de rádio.  Qual foi a primeira vez em que eu vi uma mulher nua no cinema? Acho que foi uma vez no cine São José de Campina Grande (que está em processo de restauração, salvou-se uma alma!). Eu tinha uns nove ou dez anos.  Tia Adiza me levou, como fazia quando era à noite, para ver uma chanchada qualquer com Oscarito, Zé Trindade, Ankito... aquela turma. Antes do filme, entrou um trailer onde aparecia (em preto e branco, anos 1950) uma dançarina usando o que uma rainha de bateria de Escola de Samba usa em 2015.  Um cronoclasma, na terminologia de John Wyndham.

Na volta, após o filme, vínhamos a pé pelo balde do Açude Novo e alguém comentou: “Que absurdo!”, com minha tia. “Sim, é um absurdo, passar uma coisa daquela num filme que as crianças vêm ver,” disse Tia, com luterana convicção. Eu estava ansioso para botar alguma coisa pra fora e tentei concordar com ela: “Eu, pelo menos, venho sempre que posso”.  A ousadia masculina dessa frase, aliás absurda nas circunstâncias “presentes”, me sobressaltou. Eu pensei baixinho: “Quem vê diz que tu pode vir sozinho.”  E respondi, mais baixo ainda: “Um dia eu venho, e aí vocês vão ver.”




quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

3433) Quando eu era criança (27.2.2014)


(Eu e Tide no carnaval)

Tem um blog impagável (http://coisasqueeuachavaqdoeracrianca.tumblr.com/) onde as pessoas contribuem com suas lembranças de infância, aqueles pequenos equívocos meio absurdos que toda criança comete por não entender direito o mundo dos adultos. Exemplos do blog: “Eu pensava que em hotéis só entravam homens, e em motéis, mulheres”; “Eu pensava que uísque 12 anos era para crianças de 12 anos tomarem”; “Eu achava que sexo oral era de hora em hora e sexo anal de ano em ano”, etc.

Bem... Eu me lembro que eu achava que a Terra boiava solta no espaço, junto com planetas e estrelas, e que por baixo de tudo havia o Oceano Atlântico, que se expandia até o infinito em todas as direções.  Outra: meus pais mandavam ter cuidado com giletes, dizendo que havia perigo de alguém se cortar, etc., de modo que sempre que eu via uma gilete de bobeira eu a pegava, me trancava no banheiro, quebrava-a em pedacinhos, jogava na privada e dava descarga. Quando pequeno, eu ouvira dizer que o Inferno era embaixo do chão, então quando eu via um buraco qualquer na terra eu me agachava para espiar, para ver como era o inferno.

Uma vez perguntei a minha mãe o que tinha dentro do corpo da gente, eu ficava apontando: “E aqui?”, e ela dizia: “O fígado”, etc., até que a outra pergunta ela respondeu distraída “o ovário”, e dias depois eu disse: “Não posso ir pra aula, estou com dor no ovário”. Ainda nos mistérios sexuais, eu lia nos contos da época coisas como “e daquele beijo apaixonado nasceu um dia nosso filhinho...” e imaginava que as mulheres engravidavam com um beijo, o que trouxe um suspense adicional a qualquer filme, pois bastava haver um beijo e eu ficava imaginando que a mocinha ia ser botada de-casa-pra-fora.

Uma vez, ouvindo uma novela de rádio, eu lamentei que não fosse TV para a gente ver as aventuras dos heróis na selva, e minha irmã Clotilde disse: “Não, se fosse TV a gente ia ver uma sala cheia de microfones e as pessoas lendo o texto em folhas de papel”, e eu achei a TV uma decepção. Minha Tia Adiza, que era solteira, morou conosco muitos anos, e como ela todo dia trocava de roupa e ia para o trabalho, tal como meu pai, eu perguntei a minha mãe se Tia Adiza era mulher ou homem.

Durante algum tempo acreditei que quando alguém era condenado a prisão perpétua ele ia para a cadeia e nunca mais morria. Uma vez discuti com Tide sobre a pronúncia do nome Washington, que eu dizia que era Uachínton e ela dizia que era Vasguitón.  Vendo filmes de guerra, eu cheguei à conclusão de que quando dois países entravam em guerra eles mandavam os respectivos exércitos brigar na África, que era uma espécie de continente baldio.