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quarta-feira, 27 de maio de 2015

3825) O romance anagrama (28.5.2015)



A literatura experimental exige uma faísca apenas de imaginação – e uma paciência infinita. Certas experiências literárias radicais do nosso tempo se parecem com auto-punições, com castigos que ninguém teria coragem de impor a outras pessoas mas que, um belo dia, um cara resolve impor a si mesmo. Vejam só o caso de Kabe Wilson, artista multimídia britânico. Quatro anos atrás ele estava pensando na arte do anagrama (misturar as letras de uma palavra para obter uma palavra diferente). Wilson pensou: “E se alguém usasse essa técnica com as palavras de um livro? E se alguém pegasse todas as palavras de um livro, inclusive as repetições, e as misturasse para dar origem a outro livro?”.

O resultado está aí: é o romance experimental Of One Woman Or So, cujo texto tem as 37.971 palavras do livro-ensaio de Virginia Woolf A Room of One’s Own (1929), arrumadas noutra ordem e produzindo um livro diferente. Para combinar, o título do livro é um anagrama do título original, as mesmas letras combinadas para formar novas palavras. (Ver aqui: http://tinyurl.com/lv7jux2).

Wilson usou computadores, processadores de texto, tesoura, cola, papel, para se certificar de que não estaria usando a mais, ou a menos, palavras comuns como “the” ou “be”.  Ele usou palavras do original para aludir a autores nossos contemporâneos, como Edward Said, e para inserir no novo livro menções a Harry Potter ou ao time de futebol Manchester United. “O mais difícil de tudo,” diz ele, “é que eu não sabia se ia ser possível ou não, e só poderia descobrir quando chegasse no fim. O meu medo era de compor o livro inteiro e ficar no final com 300 utilizações de uma mesma palavra, sem nenhum lugar para encaixá-las”.

Isso é literatura? Para mim é, apesar de ser uma versão mais complicada da criação literária, que já tem dificuldades de sobra. Mas Kabe Wilson diz: “Eu me vejo mais como um artista plástico do que como um escritor. Era importante ter, no final do processo, alguma coisa que eu pudesse colocar numa exposição”. O livro está exposto em 145 pranchas tamanho grande, com todas as palavras recortadas e coladas em suas novas posições.

Nesta coluna, escrevi dias atrás sobre “Livros interferidos”. Os textos literários (e os livros impressos que lhes dão suporte) estão se tornando uma nova matéria-prima, um novo material bruto. Visto geralmente como o fim de um processo literário, o livro impresso é agora o ponto de partida para um novo processo de criação. Reflexo de uma época de abundância de informação, tecnologias de manipulação do texto a custo zero, atitude de ambígua veneração para com as obras canônicas.



sábado, 16 de janeiro de 2010

1532) Simetrias aleatórias (9.2.2008)




Por falar em coincidências, temos que prestar atenção nas pessoas que constroem complicados sistemas interpretativos do mundo baseados nelas. 

Exemplo um: o pessoal que fica relendo e reinterpretando os versos de Nostradamus (que era uma espécie de Augusto dos Anjos renascentista) e acreditando que ali estão profecias de tudo, desde a morte de Kennedy até o pênalte que Zico perdeu contra a França. 

Exemplo dois: os exegetas do chamado Código da Bíblia, em que o sujeito faz permutações de letras com versículos da Bíblia e encontra textos que valem como profecias de tudo, desde o atentado ao World Trade Center até a cabeçada de Zidane em Materazzi.

Simetrias aparecem nos lugares mais improváveis. Os anagramas, por exemplo – frases cujas letras misturamos, obtendo uma frase completamente diferente. 

Certas pessoas fazem anagramas de nomes próprios como uma arte divinatória, uma espécie de Tarô: “Farei um anagrama do teu nome, e dir-te-ei quem és”.

No útil e prazeroso livro Palindromes and Anagrams de Howard W. Bergerson (Dover, 1973) existem exemplos que nos dão o que pensar – todos no idioma inglês, claro. O nome de “Miguel de Cervantes Saavedra” fornece o anagrama “Gave us a damned clever satire” (“Deu-nos uma sátira danada de esperta” – referência ao Dom Quixote, claro). 

“William Shakespeare” pode ser anagramado em “We all make his praise” (“todos nós fazemos sua louvação”). 

Até com títulos de obras literárias obtemos resultados surpreendentes. É o caso de “Ivanhoe, by Sir Walter Scott”: basta misturar as letras e obtemos “A novel by a Scottish writer” (“um romance de um escritor escocês”). 

Se eu fosse um cara místico, já tinha fundado uma religião baseada nisso.

Anos atrás eu estava me correspondendo com um amigo que gostava de investigar anagramas, e comentei que o filme de Luís Buñuel L’Âge d’Or (“A Idade de Ouro”) poderia ser anagramatizado em inglês sem perder o sentido: “Gold Era”. Somente depois de mandar minha carta me dei conta de que o nome do meu correspondente, Geraldo (...Pires e Albuquerque), era também um anagrama de ambos os títulos.

Os anagramas exprimem nossa personalidade? Talvez. O melhor que já fiz do meu próprio nome foi: “Tu és ar, bar, viola” – que talvez não me defina por completo, mas descreve com acurácia o que foi minha vida dos 20 aos 50 anos. 

Pois bem – todo este arrazoado irrelevante é para tentar demonstrar que simetrias podem ser obtidas das maneiras mais diferentes, porque o número de elementos que manipulamos (as 23 letras do alfabeto) não é tão grande assim, e a possibilidade de recombiná-las acaba nos conduzindo a caminhos previsíveis. 

“Anagrams”, em inglês, nos dá “Ars Magna” (“grande arte”) em latim. O que é isso? Um sinal dos deuses? Não, apenas isto: somos obstinadamente capazes de recombinar elementos até percebermos que eles se encaixam numa forma que faz sentido. E nada nos reconforta tanto quanto qualquer coisa que parece fazer sentido.





sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

1448) O soneto anagrama (3.11.2007)





(o quadro de Leutze)

A intersecção da Literatura com os quebra-cabeças (jogos em que uma regra arbitrária precisa ser seguida à risca) nos dá os palíndromos, os lipogramas e outros barroquismos já comentados nesta coluna. 

Folheando o magnífico livro de Douglas Hofstadter Le Ton Beau de Marot (New York: Basic Books, 1997), que examina problemas abstrusos de linguagem e tradução, encontrei um soneto de um tal David Shulman, intitulado “Washington Crossing the Delaware”. O título alude a uma famosa pintura a óleo de E. G. Leutze que retrata um momento da Guerra da Independência norte-americana em 1776, quando George Washington cruzou com suas tropas o Rio Delaware para pegar de surpresa as tropas britânicas.

Não transcreverei aqui o soneto inteiro. Para ilustrar minha tese (que é a mesma de Hofstadter) basta-me o primeiro quarteto, que assim diz: 

A hard, howling, tossing water scene: 
strong tide was washing hero clean. 
‘How cold!’ Weather stings as in anger 
O silent night shows war ace danger!

Os versos dizem algo como: 

Uma cena fluvial árdua, cheia de uivos e de agitação: 
uma poderosa maré lavando por inteiro o herói. 
‘Que frio!’ O tempo dá agulhadas, como que furioso. 
Oh, noite silenciosa, que mostra ao ás da guerra o perigo! 

Não boto a mão no fogo por esta tradução, porque o texto original me parece truncado, sem beleza. (Quem quiser o soneto todo é só pedir.)

Mas... Faça uma pausa, amigo. Confira as letras de cada verso, e perceba que cada uma das quatro linhas citadas acima é um anagrama perfeito (ou seja, contém exatamente as mesmas 29 letras, inclusive as repetições) do título do soneto. 

E o soneto todo é assim: suas catorze linhas são catorze anagramas do próprio título, e conseqüentemente todas são anagramas umas das outras. E o soneto inteiro retrata, de maneira aceitável, a cena descrita. É aquilo que os franceses chamam de “tour de force”, uma demonstração fenomenal de habilidade.

Isto é poesia? Não sei. Tecnicamente é, pois se trata de um soneto que obedece às regras básicas da forma, ainda que não seja um grande soneto, ou sequer um bom soneto. 

Coloca uma questão curiosa: um péssimo poema é poesia? O que define a presença da poesia: a presença de um conjunto de regras, ou a qualidade literária do resultado? 

O texto de Shulman pertence a uma zona intermediária entre a literatura e o que eu chamo de “ludismo verbal”, que inclui desde os travalínguas dos repentistas até os caligramas (poemas cujas palavras criam um desenho na página) dos poetas barrocos portugueses ou de Guillaume Apollinaire.

A façanha de Shulman talvez só seja possível numa língua como o inglês, mais monossilábica que a nossa. Duvido que alguém consiga compor em português um soneto com quinze anagramas (título mais catorze versos) que faça um mínimo de sentido. 

(Pronto, já sei que acabo de atrapalhar a vida de meia dúzia de malucos, os quais de agora em diante se dedicarão a provar que é possível, sim.)





sábado, 8 de março de 2008

0110) A arte do lipograma (29.7.2003)



Já falei aqui sobre a arte do anagrama e a do palíndromo. Igualmente fascinante, para quem gosta de jogos de palavras, é a arte do lipograma.

O lipograma é qualquer texto onde esteja obrigatoriamente ausente uma ou mais letras. Será que o leitor é capaz de escrever um texto das dimensões desta coluna sem usar nem uma vez uma das letras do alfabeto? (Atenção – não valem letras como K, W ou Y).

Quando eu era pequeno, as revistas de jogos e passatempos traziam com frequência problemas como: “Num escritório, a máquina de escrever perdeu a tecla A, e a secretária teve que se virar para escrever a seguinte carta...” Seguia-se uma carta toda arrevesada, onde as palavras onde deveria aparecer um “A” eram substituídas por sinônimos tortuosos, mas no final das contas a gente só percebia a ausência da letra porque o enunciado do problema nos avisara.

A simples lógica nos mostra que é mais fácil produzir um texto curto que seja lipogramático do que um que inclua todas as letras do alfabeto. Quase toda frase tem várias letras faltando. Um lipograma deliberado, contudo, é um desafio que muitos escritores encaram com entusiasmo.

A tradição é antiga: o poeta grego Lasus (séc. 6 a.C.) escreveu uma ode aos Centauros e uma canção à deusa Ceres sem usar a letra “S”. Fulgêncio, autor latino, escreveu um livro de 23 capítulos que omitiam, sucessivamente, cada uma das letras do alfabeto. Um monge francês do século 12 fêz o mesmo num livro em versos sobre temas do Antigo Testamento. O ibérico Lope de Vega escreveu cinco poemas omitindo sucessivamente as cinco vogais.

Os maiores “tours-de-force” dos tempos modernos são o romance norte-americano Gadsby, de 1939 (a que já me referi no meu artigo de 20/6), um lipograma em “E” (que omite a letra “E”), e o do francês Georges Perec, La Disparition, que omite a mesma letra ao longo de suas 319 páginas.

Um caso radical do Lipograma é o que denominamos “Monovocalismo”: um Lipograma em quatro das cinco vogais, deixando apenas uma. Também pertence a Perec um dos marcos no monovocalismo, com um texto de 466 palavras onde se omitem E, I, O e U, e a a única vogal é o “A”. Eu próprio já publiquei um monovocalismo intitulado “A Arca”, com 574 palavras, onde é esta a única vogal utilizada.

Antevejo a inevitável pergunta: “Mas isso não é uma enorme perda de tempo”? Não sei. Talvez seja, sim, uma perda de tempo, como também o são coisas como jogar xadrez, soprar bolas de sabão, espiar a Lua com uma luneta, fazer cosca na barriga de um bebê, ficar um tempão sussurrando bobagens ao ouvido da namorada, fazer uma listagem das atividades que possam representar uma perda de tempo.

Também é, se você estiver fazendo na marra, por obrigação. O que não é o caso do presente artigo – que aliás é um Lipograma, omitindo uma letra que deixo ao leitor a tarefa de descobrir. Não é difícil. Eu faço essas coisas brincando.





sexta-feira, 7 de março de 2008

0084) A arte do anagrama (28.6.2003)




Falei dias atrás sobre a arte do palíndromo, que é primo do anagrama. 

Um palíndromo é uma frase ou palavra que, lida de trás para diante, é a mesma coisa. Um anagrama é uma frase ou palavra cujas letras são misturadas, formando uma frase diferente. 

Talvez o anagrama mais famoso de nossa língua seja o nome IRACEMA, que, reza a lenda, José de Alencar formou a partir das letras de AMÉRICA. 

Anagramas serviram muitas vezes como pseudônimos literários. Bocage, cujo primeiro nome era Manoel, adotou o pseudônimo de Elmano; e François Rabelais assinou-se às vezes como Alcofribas Nasier.

Como o jeitinho brasileiro já existia mesmo antes do Brasil existir, os anagramatistas da antiguidade permitiam-se algumas liberdades na transposição de letras, como fazer equivaler o “U” e o “V” (traço característico da escrita romana), ou o “I” e o “J”. O que não muda, no entanto, é a contagem: se na frase original a letra Q aparece cinco vezes, tem que aparecer cinco vezes na frase resultante.

A maioria dos anagramas só têm a ver com o nome original por uma forçação de barra no raciocínio: “Humberto Castelo Branco” resulta em “Combater contra esbulho”, e “Carlos Lacerda” nos dá “Calor de lascar”. 

No entanto, muitos praticantes desta arte procuram descobrir, entre os anagramas possíveis de um nome, algum que pareça revelar uma verdade oculta, uma profecia, uma premonição. Nada mais adequado do que o nome “Clint Eastwood” resultar em “Old West action”; muitos maridos ingleses entenderão que “mother-in-law” (“sogra”) resulte em “woman Hitler” e “William Shakespeare” nos dê “We all make his praise” (“Nós todos o elogiamos”). Quem procura, acha. 

No meu próprio nome achei a frase “Tu és ar, bar, viola”, e não consigo pensar numa auto-descrição melhor do que esta.

Não se deve, contudo, levar a coisa longe demais. Um francês chamado André Pujom descobriu em seu nome “pendu à Riom” (“enforcado em Riom”), e acabou cometendo um crime e sendo enforcado naquela cidade, num desses casos de profecia que cumpre a si mesma. 

O misticismo associado a esta arte parece advir dessas coincidências. Será coincidência que as letras de The Life and Adventures of Nicholas Nickleby resulte em “Fine tale; find thou a novel by Charles Dickens” (“Bela história; descubra um romance de Charles Dickens”)? 

Daí que os interpretadores de Nostradamus, usando esta arte combinatória, encontram em suas Centúrias profecias para tudo, desde a ascensão dos Sex Pistols até o resultado da Batalha do Riachuelo. Os cabalistas fazem isto há séculos com o texto hebraico da Bíblia, e ainda não pararam, como prova o recente best-seller O Código da Bíblia.

Os computadores aceleraram enormemente a penosa tarefa da transposição de letras, e hoje é possível achar na Internet saites dedicados a fornecer anagramas (em inglês) para qualquer palavra ou frase. Confiram em http://www.anagramgenius.com/server.html, e http://www.wordsmith.org/anagram/index.html.