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quarta-feira, 22 de abril de 2015

3794) O minuto da marmota (22.4.2015)



(game Red Dead Redemption)

O Dia da Marmota (Groundhog’s Day) é uma festividade folclórica norte-americana, relacionada com a sucessão das estações do ano, mas acabou virando sinônimo de outra coisa. Por causa do filme Feitiço do Tempo de Harold Ramis, essa expressão virou sinônimo de “um mesmíssimo dia eternamente repetido”, como um disco enganchado, ou como uma atividade que é preciso repetir mil vezes até conseguir fazer certo.

No filme, Phil Connors (vivido por Bill Murray) a princípio se espanta, mas quando percebe que está preso num remanso do Tempo, se resigna a reviver aquele dia da melhor maneira possível. Tudo que as outras pessoas fazem é repetido sempre da mesma maneira, como se fosse um balé com coreografias bem marcadas, de modo que ele aprende a evitar pequenos acidentes. Como sabe que às 11:34 uma pessoa vai levar uma queda, ele dá um jeito de estar lá no minuto certo para evitar algo mais grave. Há uma cena impagável em que “todo dia” ele estuda o transporte de dinheiro de um Banco, e de tanto ver a cena se repetir aproveita um breve descuido dos guardas para surrupiar um dos malotes.

Comentando o filme, o diretor disse que provavelmente o personagem de Murray viveu o equivalente a dez anos (ou seja, dez vezes 365), repetindo aquele dia. Ramis disse que teria de ser mais ou menos esse tempo, já que Murray aprende a tocar piano bastante bem.

Esse conceito de uma cena revivida sem parar por uma pessoa é o mesmo que vemos nos videogames. Se num game de ação, guerra, policial, etc. o jogador precisa, digamos, invadir uma instalação militar e explodir uma bomba, ou entrar numa casa e roubar um documento, ou pegar um carro e fugir até a fronteira, cada tentativa sua provavelmente vai terminar com ele sendo abatido pelos inimigos. Quando o jogador morre, volta (como num Dia da Marmota) para o começo da mesma cena, e a repete de novo. Às vezes são necessárias dezenas de tentativas e dezenas de “mortes” para que ele por fim consiga executar suas ações da maneira ideal, sem ser abatido. Todo video-game é um dia da marmota, ou melhor dizendo um minuto da marmota, eternamente repetido, e que finda com a morte, não com o sono.

Borges dizia que, assim como a correnteza dá polimento aos seixos, gerações de pessoas dão polimento a uma história. O tempo as desbasta de tudo que é não essencial a si mesmas. Foi essa a chance que teve Phil Connors: a chance de dar polimento a um único dia de sua vida e reencaminhar alguns dos seus problemas. Digamos que ele precisou trocar um pneu com o carro em movimento, teve direito a mais de três mil tentativas dispondo de todo o tempo do mundo, acabou acertando... e o jorro do Tempo fluiu.




sexta-feira, 20 de março de 2015

3767) "Feitiço do Tempo" (21.3.2015)



Estou coordenando, para a Escola de Cinema Darcy Ribeiro (Rio de Janeiro) uma Mostra do Cinema Fantástico, com filmes todos os sábados às 14 horas, entrada franca. A escola fica na esquina da Rua da Alfândega com Rua 1º. de Março, pertinho do CCBB. (Após a sessão, haverá debate com o prof. Sérgio Almeida, e estarei presente sempre que possível, o que não é o caso de hoje.) Comentarei aqui os filmes escolhidos, e o leitor fora do Rio pode encontrar os filmes nas locadoras e na Internet, caso se interesse.

Hoje será exibido Feitiço do Tempo (“Groundhog Day”) de Harold Ramis (1993). A premissa fantástica (há uma só) do filme é que o personagem de Bill Murray fica preso num único dia, o Dia da Marmota (“groundhog”), quando nos EUA se costuma deduzir a duração do inverno em função do comportamento de uma marmota em sua toca. Murray é Phil, um repórter de TV meio cafajeste que vai cobrir essa data folclórica numa cidadezinha, acompanhado da produtora Rita (Andie MacDowell) e sua equipe. Phil quer comer Rita, e ela não o suporta. Uma nevasca os deixa presos na cidade, sem poder sair. E quando Phil acorda no hotel, na manhã seguinte, descobre que o Dia da Marmota está se repetindo, tintim por tintim: mesmos diálogos, mesmos gestos, mesmos pequenos acidentes.

O choque inicial o desorienta, mas quando dorme de novo tudo se repete.  Phil leva algum tempo para perceber que está preso num “loop” temporal, como um disco enganchado. A premissa do roteiro de Danny Rubin não é explicada, mas, como fica clara desde logo, o espectador se concentra em ver de que maneira Phil irá reagir diante das dezenas de pequenos episódios daquele dia eternamente reprisado, que aos poucos ele começa a saber de cor.


Groundhog Day se baseia numa única premissa fantástica para desenvolver complexos padrões de repetições e variantes; uma técnica de seriados como Twilight Zone e outros. O filme tem um elenco simpático e uma narrativa bem editada (quanto mais o espectador vai se familiarizando com os fatos mais rápida ela se torna). Talvez sua virtude principal seja algo que filmes fantásticos deste tipo nem sempre fazem: ele examina todas (em termos, claro) as consequências possíveis da premissa principal, todas as possibilidades do que poderia acontecer a um personagem numa situação como aquela. Como acontece com tantos bons romances de ficção científica, os roteiristas (Ramis e Rubin) se divertem em imaginar e em sugerir ao espectador uma infinita ramificação de vidas possíveis para aquele personagem, naquele mundo em que ele é o único que já sabe o que vai acontecer mas está mais prisioneiro do que todos os outros.