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quarta-feira, 6 de agosto de 2014

3570) Os jovens milionários (6.8.2014)



A primeira Corrida do Ouro na Califórnia foi em meados do século 19, quando a descoberta de jazidas de ouro à flor do solo fez milhares de pessoas pegarem seus carroções e partirem para o Oeste; foi a Serra Pelada deles. A nova corrida do ouro não é feita de ouro e sim de silício. O Vale do Silício é o novo lugar onde rapazes ambiciosos podem ficar ricos do dia para a noite. O único problema é que, como diz a Bíblia, “são muitos os chamados e poucos os escolhidos”. Uma ótima matéria de Gideon Lewis-Kraus na revista Wired de maio (http://tinyurl.com/lvlfn8b) acompanha a saga da Boomtrain, uma empresazinha de dois rapazes que lutam para levantar um milhão de dólares e colocar no mercado um novo sistema de busca e seleção de vídeos.

Cinquenta e uma novas empresas de informática são criadas todo mês na região de San Francisco. Muitas querem ser o novo Google, o novo Facebook. Outras querem apenas crescer o bastante, atrair a atenção das grandes, e ser adquiridas. Isso gera o dilema nos seus criadores: ficar lutando mais 10 anos pensando em valer um bilhão de dólares, ou vender pela primeira oferta de 100 milhões que aparecer?  Vi muito tempo atrás um documentário sobre “os fracassados do vale de Silício”. Eram os caras que tinham percentagem numa empresa mixuruca e quando a empresa começou a crescer venderam essa percentagem por um bilhão de dólares. O problema é que a empresa era o Yahoo, o Google, a Microsoft, sei lá o quê. Um dos entrevistados, um cara de seus 40 anos, com a linda esposa no jardim deslumbrante de uma fantástica mansão, dizia: “Eu levo uma vida de príncipe, mas sempre que encontro um amigo ele me diz: Que pena que você jogou seu futuro pelo ralo, você podia ter hoje dez vezes mais.” E ele conclui: “Eu não preciso de dez vezes mais, mas não sei se digo isso só para me consolar.”

O capitalismo é alimentado fisicamente por tecnologia e dinheiro, mas ele é alimentado mentalmente pelo delírio quantitativo, a vertigem do número. Se você tem 100, você pode com esses 100 ganhar 200. Já que tem 200, por que não lutar para ter 400, uma coisa tão fácil?  E chegando aos 400, nada nos impede de chegar aos 800. É uma coisa parecida com encher um balão de soprar. Vai sempre haver um ponto em que a bolha pipoca e tudo vai pelos ares, mas enquanto a ilusão se mantém, você diz (como o viciado em droga): “Só mais este, e depois eu paro.”  Não para, ou melhor, é a bolha quem para, e aí você fica sem nada.

“Quer ser um jovem milionário?”  Todo mundo quer ser, e muitos conseguem. E muitos voltam à pindaíba porque ouviram a pergunta fatal, que vem depois: “Quer ser um jovem bilionário?”


quarta-feira, 16 de julho de 2014

3552) O desejo e o objetivo (16.7.2014)



Uma das piores coisas que podem acontecer durante uma discussão sobre literatura e mercado editorial é alguém aludir a Stephen King, J. K. Rowling ou Paulo Coelho para dar exemplo seja lá do que for. Esse pessoal que vende milhões passa para o autor novato a idéia de que o objetivo dele deve ser, também, vender milhões de cópias, o que é um erro. Na pressa de atingir esse número irreal, ele vai se oferecer pra “transar com Deus e com o lobisomem”, como dizia o parceiro do autor de O Alquimista. Não vai conseguir, e talvez acabe entrando para o clube azedo e ressentido dos que dizem: “Pois é... um país que não lê... ah, se eu escrevesse em inglês...”

Vender dez milhões de exemplares não pode ser o objetivo de ninguém que publica um livro, ainda mais se for um livro de estréia. É um objetivo irreal, que chega à beira do absurdo, mas mesmo assim vejo muitos autores jovens e autoconfiantes dizerem: “Se a série Crepúsculo vendeu tanto assim, por que um livro meu não pode vender também?”.  Isso, minha gente, não é um objetivo, é um desejo.  Todo mundo é livre para desejar o que quiser, sonhar com o que bem entender.  Mas isso não pode ser confundido com um objetivo.  Objetivo é algo que está no horizonte do possível, algo que pode ser planejado e cumprido.

Quando Dan Brown ou Stephen King fazem a tiragem inicial de um livro novo com um milhão de exemplares, isso não é um desejo, é um objetivo.  Toda a história anterior da vendagem do autor o autoriza a imprimir um milhão de cópias de uma tacada só. Ele já sabe que é possível vendê-las. (Às vezes encalha; às vezes, dependendo da aceitação do livro, mesmo Brown ou Coelho levam anos para vender essa tiragem inicial. Mas o objetivo era fundamentado, sim.)

Meus livros têm em geral uma tiragem de 2 ou 3 mil exemplares, que é a tiragem padrão do mercado brasileiro.  Alguns já venderam 40 ou 50 mil, mas nem por isto eu coloco esse número como um objetivo. Se rolar, beleza.  Mas o bom senso aconselha, a mim e aos editores, ir de pouquinho, sentindo a resposta do público, e preparando tiragens maiores se a gente vir que a aceitação é boa.

Colocar Paulo Coelho e seus não-sei-quantos-milhões de livros vendidos na conversa é despertar um desejo confuso e infantil de sucesso instantâneo, sucesso com pouco esforço. Duvido que algum novo autor se dispusesse a fazer a peregrinação que Paulo Coelho fez, com o Diário de um Mago embaixo do braço, de livraria em livraria, de rádio em rádio, de jornal em jornal, de TV em TV, de amigo em amigo, vendendo caladinho seu peixe, pensando talvez que iria ser um sucesso com 20 mil livros vendidos.


domingo, 18 de agosto de 2013

3268) O mundo do sucesso (18.8.2013)






(by Laurie Lipton)



Um escritor famoso faz uma viagem para outro país e, em cartas para os amigos, comenta a recepção que teve e a vida social em que mergulhou. Dois trechos:

1) “Esta cidade me engoliu como uma planta carnívora engole uma mosca. Tenho vivido sem fôlego há cerca de cinquenta dias. A vida aqui consiste em uma série de encontros marcados com uma ou duas semanas de antecedência: almoço, coquetel, jantar, festa à noite, são estas as várias fases de um dia, permitindo-me conhecer novas pessoas o tempo todo, para marcar novos almoços, novos jantares, novas festas e assim por diante, ao infinito. (..) Isto aqui não é a terra do imprevisto, mas é a terra de uma vida mais rica, onde todas as horas do dia estão preenchidas; a terra que nos dá a sensação de estar em plena atividade, mesmo que muito pouca coisa seja feita, a terra onde a solidão é impossível (só passei sozinho uma única noite, das cinquenta em que estou aqui).”

2) “Não me sinto feliz e estou terrivelmente rouco devido à laringite. A farra aqui é muito intensa. Você vai para um almoço com oito pessoas e no dia seguinte cinco delas o convidam para jantar. Assim, tudo que você consegue fazer é comer, beber e se entediar”.

Tudo indica que se trata do mesmo sujeito falando sobre o mesmo ambiente, mas as duas cartas têm origem diferente. 

A primeira é do italiano Ítalo Calvino falando sobre sua estadia em Nova York a partir de 1959, quando recebeu uma bolsa para passar seis meses nos EUA. 

A segunda é do norte-americano Raymond Chandler falando sobre sua estadia em Londres, em 1955, quando viajou para a Inglaterra tentando fugir à depressão causada pela morte de sua esposa.

Calvino era um rapaz de 36 anos, cheio de entusiasmo; Chandler um homem de 67, alquebrado pela bebida e pela perda recente de Cissy. Os dois, no entanto, transmitem em poucas linhas a sensação de vertigem do indivíduo caído de paraquedas no mundo da boemia e do sucesso. 

Um mundo onde não há distinção entre noite e dia, entre dentro e fora. Onde se dorme de luz acesa, vestido, com o quarto cheio de gente. Onde taças cheias de champanhe milionário esquentam esquecidas no parapeito da janela ou na bancada do banheiro. 

Onde há sempre alguém rindo e alguém gritando, onde a música não pára, onde se olha pela janela e não se sabe se é o fim da tarde ou o amanhecer, onde carros cheios de gente inebriada e lânguida percorrem a cidade, fechando um bar aqui, abrindo um bar acolá, onde as contas são pagas sem ser conferidas, onde as histórias são contadas dezenas de vezes, onde as gargalhadas se misturam na mesma algazarra que ora parece melodia, ora raiva, ora terror.









terça-feira, 4 de junho de 2013

3203) O sucesso errado (4.6.2013)




(Conan Doyle, por Charles Burns)




Muitas vezes um artista e o seu público têm opiniões diferentes sobre o trabalho dele. Ele quer ser reconhecido como o autor de “A”, mas o público só se interessa por outro trabalho dele, “B”, a ponto de irritá-lo. 

Às vezes um artista de muito sucesso popular tenta se blindar dizendo que na verdade gostaria de ”fazer algo mais sério”, por exemplo – ser artista de vanguarda. George Lucas diz que o sucesso de Star Wars o pegou de surpresa, e que na verdade gostaria de estar fazendo filmes cabeça para passar no circuito universitário. 

Caetano Veloso diz no livro Verdade Tropical que seu melhor disco, o que exprime o que ele gostaria de fazer, é Araçá Azul, seu disco mais experimental, e o mais rejeitado pela crítica e pelo público.

Lendo sobre Mark Twain, o criador de heróis popularíssimos como Tom Sawyer e Huckleberry Finn, além de inúmeros contos de humor lidos e relidos há mais de um século, vi que ele escreveu um livro chamado Personal Recollections of Joana of Arc (1897) que ele considerava sua obra prima. Não só ele: seu amigo William Dean Howells e seu biógrafo Albert Pigelow Paine diziam tratar-se de sua “suprema expressão literária”, o livro que iria imortalizá-lo. 

Ninguém conhece esse livro hoje; eu mesmo, que leio Twain há 50 anos, não sabia sobre ele. Sumiu. Ninguém se interessou, por melhor que seja.

É um caso parecido com o de Conan Doyle, que queria ser o continuador dos romances históricos de Walter Scott, e pode-se dizer que o conseguiu, com excelentes romances medievais (Sir Nigel, A Companhia Branca), sobre a época vitoriana (Rodney Stone), a corte de Luís XIV e a migração dos huguenotes para as pradarias da América (Os Refugiados), as fanfarronices e a coragem dos oficiais napoleônicos ("Brigadeiro Gerard”). Escreveu excelentes romances de FC (O Mundo Perdido, O Veneno Cósmico). 

Mas o público não queria saber disso. Só queria saber de Sherlock Holmes, o que irritava profundamente o escritor.

Estes exemplos parecem dizer que um artista nem sempre é o mais lúcido avaliador do próprio sucesso. Para Doyle, era mais importante se firmar como o continuador escocês de uma forma de literatura criada (em grande parte) por outro escocês (Walter Scott) do que ficar inventando mistérios banais para serem decifrados por Sherlock. 

Ele conseguiu seu objetivo de inscrever seu nome na literatura do século 19. O público foi quem acabou desviando sua obra e sua fama noutra direção, porque com o detetive de Baker Street ele ajudou a fundar, meio sem querer, e sem dar-lhe muita importância, o romance policial, o gênero mais popular do século 20.








terça-feira, 17 de janeiro de 2012

2768) Escritor pop (17.1.2012)



(ilustração: Domitille Collardey)

Roberval é um escritor pop. Durante séculos a classe literária mofou no abandono, no anonimato, morando em mansardas, rabiscando trilogias à luz de velas, e vendo com inveja o modo como os repórteres e os “paparazzi” se amontoavam à porta dos músicos populares e das estrelas do cinema. Mas o mundo mudou. O marketing evoluiu. Os “publishers” perceberam que se era fácil transformar um brucutu analfabeto numa celebridade, deveria ser fácil fazer o mesmo com um intelectual de óculos. E o fizeram com Roberval, cujos romances agora vendem centenas de milhões de exemplares em trinta idiomas.

Roberval desce à rua para ir na padaria, e a imprensa se acotovela: “E aí? Terminou o capítulo?”. Ela se refere, claro, ao capítulo 18 de seu romance vampiresco “Tatuagem de Sangue”. Roberval (ainda novato, ainda se julgando na obrigação de responder tudo que lhe perguntam), diz: “Ainda não... Tive que parar agora de tarde, a cena se passa em Varsóvia, tive que consultar o Google Earth...” Flashes cintilam. Em segundos, a frase estará no YouTube; fãs poloneses abrirão bandeiras de saudação no telhado, mesmo sabendo que a chance de serem vistos pelo astro é remota.

Se fosse sempre assim era uma maravilha. Mas, e quando Roberval deixa vazar pelo Twitter a morte de um personagem? Tem que desplugar os telefones, trancar-se em casa. Já foi seguido até o aeroporto pelo fã-clube de uma vítima. Outro momento delicado é o da assinatura de contrato com a editora. A imprensa se informa e o bota no canto da parede: “Por que cobrou 15% na tradução britânica, e somente 10 na tradução finlandesa?” E tome a vasculhar seus emails, e tome tentativas de quebrar seu sigilo bancário. Emissários de outras editoras vêm trazer-lhe ofertas irrecusáveis, que ele recusa sem piscar o olho. Queixa-se à esposa de que o celular do seu agente vive desligado; ela comenta que talvez lá em Ibiza o sinal não pegue.

O avanço de cada capítulo é acompanhado pela TV a cabo e pelas câmaras dos saites literários como se fosse a votação de uma emenda constitucional. É preciso justificar cada frase, porque entre seus leitores há os que torcem pelo vampiro, os que torcem pelo cientista, os que torcem pelo primaz da Igreja Ortodoxa (presente em todos os livros), os que torcem pelos agentes da Exterpol... E o pior é que depois do seu mais recente e avassalador sucesso a editora que obrigá-lo a usar um editor de texto capaz reproduzir num blog, em tempo real, tudo que ele digita e deleta em casa. Quando o mundo lhe dará um segundo de trégua? Dura é a vida de quem escreve com um milhão de fãs olhando por cima do seu ombro e dando palpites.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

2352) Obscuridade (21.9.2010)




Os artistas sonham com a fama, em parte, por uma questão banal de carência afetiva (querem ser elogiados, aplaudidos, paparicados) e em parte porque acreditam que ela lhes proporciona onipotência, superpoderes. Como se dissessem: “De agora em diante, vou fazer somente o que eu quero, e do jeito que eu quero”. 

Lamento informar que, daqui de onde vejo os famosos, não é bem assim. A fama multiplica as oportunidades, mas essa própria multiplicação subdivide o tempo e a energia do famoso. 

Uma vez vi uma entrevista da empresária de Caetano Veloso explicando a alguém que teve um pedido recusado: “Caetano recebe vinte pedidos por dia para shows ou participações em eventos. Não pode aceitar todos”. 

Numa entrevista à revista Wired, George Lucas explicou por que não costuma surfar na Internet: “Meu trabalho exige que eu me reúna com grupos que somam cerca de 250 pessoas por dia, todos os dias, e quando tenho algum tempo livre eu o dedico a minha família”.

Quando o sujeito fica famoso começa a ser chamado para coisas que sempre teve vontade de fazer, mas também para centenas de coisas que não lhe interessam nem um pouco, e que querem apenas contar com um famoso a mais em sua galeria de fotos e em sua “área VIP”. 

Essa industrialização da fama para qualquer um e a qualquer preço é uma das forças mais massacrantes que a estupidez humana botou em movimento através da imprensa. Para os carentes que citei nas primeiras linhas, é o Paraíso. São paparicados porque são famosos, e são famosos porque são paparicados. Para um sujeito que quer continuar trabalhando a sério, a fama traz mais atrapalhos do que soluções.

Poucas leituras serão tão depressivas quanto as cartas de Robert Heinlein sobre o assédio dos fãs, em seu volume póstumo de correspondência, Grumbles from the Grave. No auge da fama, Heinlein não escrevia mais literatura, porque tinha de viajar o tempo inteiro para dar palestras, participar de convenções, etc., e o tempo que podia dedicar à escrita era para responder dezenas de cartas de leitores todo dia. Para não falar nas centenas de visitantes implorando uma ou duas horas de papo. 

Aos 74 anos, doente, cortou os laços com o mundo exterior, e em poucos anos escreveu Friday (1982), Job (1984), The Cat Who Walks Through Walls (1985) e To Sail Beyond the Sunset (1987). Talvez não sejam seus melhores livros, mas, dane-se, são os livros que ele queria escrever e ninguém deixava.

Virginia Woolf, autora do célebre Um quarto só para si, disse: 

“Enquanto a fama bloqueia e constringe, a obscuridade envolve uma pessoa como se fosse uma névoa; a obscuridade é escura, ampla, e livre; a obscuridade permite que a mente trace seu caminho sem encontrar obstáculos. Sobre o indivíduo obscuro pousa a impregnação suave das trevas. Ninguém sabe onde ele vai nem de onde está vindo. Ele pode ir em busca da verdade e pode proclamá-la; ele é o único que é de fato livre; o único que é verdadeiro, o único que experimenta a paz”.










domingo, 27 de junho de 2010

2199) Três histórias de fãs (26.3.2010)



A primeira história diz respeito a Spider Robinson, norte-americano, autor de histórias de ficção científica ambientadas num bar chamado Callahan’s, nome do seu proprietário. É um bar frequentado por alienígenas, viajantes no Tempo, etc., e ali se contam histórias divertidas. Robinson conta que certa vez estava com a esposa numa convenção de FC, e um grupo de fãs os convidou para jantar. Como estavam sem um centavo, aceitaram. Entraram num carro. Rumaram para o subúrbio, pegaram a estrada. O tempo passando, e tome estrada. Robinson e a mulher impacientes; e os fãs piscando uns para os outros e dando risadas. Uma hora e meia depois, pararam num restaurante, chamado, é claro, “Callahan’s”. Diz Robinson que não apenas a comida era horrível, mas descobriram que os fãs também não tinham grana para pagar o jantar.

Um cantor profissional me contou que chegou na cidade onde ia fazer um show à noite, e no aeroporto foi recebido por um sujeito que disse ser da produção local, encarregado de levá-lo para o hotel. Ele guardou a bagagem e o violão no carro do sujeito, e os dois seguiram. No meio do caminho o cara perguntou se o artista se incomodava de passar antes num local onde ele precisava pegar alguma coisa. “Tudo bem”, disse ele. Daí a pouco desceram numa casa onde estava rolando o maior churrasco, e o motorista anunciou: “Aqui está ele!”. O cantor teve que descer, sentar, fingir que bebia, até conseguir ligar para o verdadeiro produtor local ir buscá-lo; mas antes teve que pegar o violão e cantar algum dos seus grandes sucessos.

Affonso Romano de Sant’Anna narra o episódio ocorrido com Michel Foucault, em sua vinda ao Rio de Janeiro em 1973. Foucault veio fazer conferências na PUC-RJ, com cobrança de ingresso. No primeiro dia, ele e Affonso foram abordados por estudantes de filosofia que se queixaram de não poder comprar ingresso. O filósofo se dispôs a falar de graça para eles em outro horário. Depois, contou a Affonso que os estudantes o levaram para uma cobertura em Ipanema, onde ficou bastante claro que eram muito mais bem-de-vida que o próprio filósofo.

Nem todo fã apronta situações desse tipo, é claro. Mas acontece tanto que dá o que pensar nessa relação meio canibalesca que o fã mantém com seu ídolo. Os jovens leitores que levaram Spider Robinson para aquela roubada estavam querendo não só homenageá-lo, mas querendo que ele achasse graça na piadinha deles. O pessoal do churrasco e os ouvintes de Foucault certamente eram admiradores sinceros de suas vítimas (não aprontariam aquilo com qualquer um), mas narcisistas, acima de tudo. Fizeram aquilo para sair dizendo coisas como “Fulano cantou no meu churrasco”, “Foucault esteve lá em casa semana passada...” O fã é capaz de extremos de altruísmo e de extremos de egoísmo, porque existe no seu Ego uma fome voraz que só o ídolo sacia. Quanto mais importante a gente se torna para um fã, mais cuidado precisa ter com ele.

terça-feira, 25 de maio de 2010

2078) O perigo do pensamento positivo (5.11.2009)




Um artigo de Barbara Ehrenreich (publicado no New York Times e reproduzido em seu blog) vem corroborar uma série de diagnósticos sobre a recente crise dos 4 trilhões de dólares. 

Como se sabe, investidores (= “indivíduos que investem em cima do dinheiro alheio como gatos investem em cima de ratos”) no mercado imobiliário norte-americano passaram anos financiando imóveis em condições “irresistíveis” para pessoas que não podiam pagar por eles. Isso era visto como um incentivo à compra da casa própria, como uma ajuda a populações de baixa renda, um trabalho social, etc. Acontece que as pessoas começaram a não pagar e os investidores começaram a falir.

Já falei aqui sobre a influência do café nesse processo, como droga euforizante (“O capitalismo e a Starbucks”, 15.11.2008). 

O artigo de Ms Ehrenreich fala do efeito deletério do pensamento positivo, essa praga que arruína o mundo dizendo no ouvido das pessoas: “Todos os seus desejos serão realizados, basta querer”. 

Diz ela que existe na cultura americana um esforço generalizado, que vai desde programas de TV a pastores de igreja, desde estratégias de mercado até livros de auto-ajuda, levando as pessoas a “acreditarem que elas irão conseguir o que querem, não apenas porque isso as fará sentir-se melhor, mas porque pensar positivamente nas coisas, visualizá-las, ardentemente, com concentração, fará com que elas aconteçam”. É o bom e velho otimismo norte-americano erigido em força mágica.

Ela prossegue: 

“Todo mundo sabe que você só consegue um emprego que pague mais de 15 dólares a hora se for uma pessoa positiva, uma pessoa livre de dúvidas, sem visão crítica, e sorridente. (...) Os livros nos aeroportos gritam contra o negativismo e advertem o leitor a ser otimista o tempo inteiro, cheio de confiança. As empresas reforçam isto proporcionando aos seus funcionários palestras motivacionais cheias de histeria”. 

É algo entranhado na cultura dos EUA, essa crença maníaca de que não apenas as coisas podem dar certo, mas darão certo mesmo, se quisermos pra valer.

Daí, segundo Ehrenheich, que “ninguém estava psicologicamente preparado para tempos duros, quando eles chegaram, porque, de acordo com as premissas do pensamento positivo, pensar em problemas é atraí-los”. 

E toda essa bolha de trilhões de dólares era administrada por “uma nova classe de bilionários e centi-milionários que moram em Lear-Jets e se hospedam em hotéis de milhares de dólares a noite, e que podem mandar um avião particular comprar seu vinho preferido ou trazer o animal de estimação que deixaram para trás”.

Isto quer dizer que devemos ser derrotistas, lúgubres, medrosos? De jeito nenhum. Essa é a burrice equivalente no extremo oposto. Mas não tenho dúvidas de que a economia mundial entrou nesta crise devido, em grande parte, a essa crença absurda de que basta querer para conseguir, de que nossos desejos existem para serem satisfeitos, se os desejarmos com força suficiente.






segunda-feira, 10 de maio de 2010

2024) Budd Schulberg (3.9.2009)



Morreu este mês o escritor e roteirista Budd Schulberg, hoje conhecido apenas por cinéfilos. Para estes, ele era o cara que ganhou o Oscar de Melhor Roteiro, em 1954, com o filme Sindicato de Ladrões, de Elia Kazan. Para os de viés mais politizado, era o delator indigno que, ao ser acusado de comunista durante a época da caça-às-bruxas no Macartismo, entregou uma porção de colegas esquerdistas, ajudando a mandá-los para a Lista Negra de Hollywood. Para mim, mais do que isso tudo, Schulberg é o autor de O que faz Sammy correr? (“What makes Sammy run?”), romance de 1941 que é um dos retratos mais impiedosos da indústria cinematográfica americana e dos indivíduos carreiristas que em grande parte a compõem.

Li esse livro na adolescência, numa versão condensada na “Seção de Livros” de Seleções. Vim reler no original, depois de adulto, e recomendo com entusiasmo. (Há traduções brasileiras, várias, que podem ser encontradas no portal Estante Virtual.) O narrador, um jornalista, começa a prestar atenção num office-boy que faz seu trabalho a toda velocidade e não deixa escapar nenhuma oportunidade de “mostrar serviço” e subir na escala profissional. Em pouco tempo, Sammy é promovido a repórter, redator, editor... Logo está em Hollywood, e poucos anos depois o narrador, que continua um jornalista mal pago, vê Sammy Glick transformado num dos grandes “tycoons” de Hollywood. Os dois mantêm uma relação tensa de amizade (em lembrança dos velhos tempos) e raiva, porque o narrador não se conforma com a falta de caráter e o oportunismo de Sammy, que é capaz de qualquer coisa para subir na vida.

Schulberg ficou marcado em Hollywood por ter sido um dos que, durante a perseguição aos comunistas na era do Macartismo, denunciou alguns colegas. Isto lhe valeu a fama de dedo-duro que abalou sua reputação. Entrevistado pouco antes de morrer, ele minimizava a importância do episódio. Ex-comunista, tinha se desiludido com o comunismo depois da execução de vários escritores russos de quem tinha ficado amigo, entre eles o contista Isaac Babel. “Além do mais,” disse ele, “não dei a eles nenhum nome novo. Todos os nomes de comunistas que citei, como Ring Lardner Jr., eram de pessoas que eles já conheciam”. Todo mundo enxerga Sindicato de Ladrões como uma auto-defesa de Schulberg e do diretor Elia Kazan (que também denunciou comunistas durante o Macartismo), mostrando que em certas circunstâncias ser um delator (como Marlon Brando no filme) é um ato de rebeldia e coragem.

Para mim, Schulberg será sempre o criador de Sammy Glick, o carreirista desenfreado, um personagem feito de palavras inglesas mas que eu próprio já reencontrei com nomes e rostos diferentes, e falando bom português. Oportunista, plagiador, blefador emérito. Como diz uma personagem: “Sammy, você é grande. Que outro roteirista seria capaz de comparar o roteiro que ainda nem escreveu com um clássico da literatura que nunca leu?”.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

2002) A consciência da glória (8.8.2009)




(Stendhal)

André Gide, em seus diários, conta que aos 20 anos ficava enraivecido quando caminhava pelas ruas de Paris e as pessoas não percebiam, pelo seu olhar, as obras-primas que ele viria a criar um dia. 

A consciência precoce da própria genialidade poderia ser um dos atributos típicos da genialidade, caso não existisse um fenômeno quase indistinguível dela: a ilusão precoce de que se é um gênio, sem ser. 

As mesmas ruas de Paris por onde caminhava André Gide estão sendo percorridas hoje (e o foram há dez anos, e há vinte, e há trinta) por outros jovens de olhar igualmente intenso e chamejante, conscientes das obras-primas que trarão ao mundo – mas que acabam não trazendo nada além de muita conversa em mesa de bar, algumas dúzias de artigos acadêmicos e muita fumaça de cigarro sem filtro.

Sem contar que muitos gênios em potencial não comungam dessas certezas. Criam, mas não crêem; criam massacrados pela descrença em si próprios. Kafka, nos seus Aforismos, diz: 

“Antes eu não entendia por que não recebia nenhuma resposta à minha pergunta, hoje não entendo como podia acreditar que era capaz de perguntar. Mas realmente não acreditava, só perguntava”. 

 Hoje em dia, numa época de Egos bombados a poder de esteróides, duvidamos que alguém possa criar uma obra de peso baseada na dúvida e na insegurança, mas não há dúvida de que muitos criaram assim, criaram quase a despeito de si próprios.

No contexto em que vi a citação, não fica claro se Gide escreveu em seu diário quando tinha 20 anos e era anônimo (o que daria mais credibilidade ao seu sentimento) ou se o fez depois de consagrado. Se foi este o caso, sua frase pode ser uma espécie de desabafo “a posteriori”, depois de conquistado o objetivo. Como aqueles torcedores que nos minutos finais da vitória do seu time erguem para as câmaras de TV uma cartolina com a frase “Eu já sabia”.

Em todo caso, é o mesmo fenômeno que, ao que parece, se dava com Stendhal. Num ensaio que li há anos e cujo autor não lembro agora, vi um comentário a respeito do autor de O Vermelho e o Negro dizendo que ele só veio a publicar sua obra-prima na idade madura (aos 47 anos, mais ou menos), mas que durante a vida inteira se comportara como se já fosse o seu autor. 

Se for verdade, pode ser um desses casos de um indivíduo naturalmente seguro de si e até meio arrogante, que, quando produz uma obra de peso, de certa forma justifica seu modo de ser. 

Mas pode ser também um desses sujeitos que têm certeza de que algo importante lhes está reservado no futuro. Alguns (como Stendhal ou Gide) encontram-se um dia com esse destino. 

Outros não. São como o protagonista de A Fera na Selva de Henry James, que pressente algo de grandioso em sua existência futura mas, a certa altura da vida, percebe que o momento passou... e nada aconteceu. Infelizmente, esse “nada acontecer” acontece com mais frequência do que O Vermelho e o Negro ou Os Subterrâneos do Vaticano.




quarta-feira, 7 de abril de 2010

1881) Os livros impublicáveis (20.3.2009)



Não há nada mais satisfatório, para um autor de sucesso, do que relembrar, do alto de milhões de exemplares vendidos, ou de numerosos prêmios literários, todos os editores que rejeitaram seu livro agora famoso, ou todos os críticos que receberam seu aparecimento inicial com ironias e menosprezo.

A única certeza na indústria cultural é que nunca se sabe o que vai fazer sucesso. Tudo que é feito, é feito com essa intenção, inclusive os grandes fracassos, os grandes micos, as grandes quebradas de cara, os grandes prejuízos. Nos círculos eruditos é costume citar o exemplo de Proust, que teve o primeiro volume do Em busca do tempo perdido rejeitado por André Gide, encarregado da avaliação. Há também os casos de James Joyce com Ulisses e de Henry Miller com o Trópico de Câncer, mas aqui trata-se mais de uma questão de censura – eram livros com conteúdo sexual muito forte para a época.

Um caso pouco conhecido do grande público é o do escritor Stephen R. Donaldson, autor de uma série de romances de fantasia heróica (do tipo J. R. R. Tolkien) cujo conjunto se intitula As Crônicas de Thomas Covenant, o Descrente, num total de seis romances enormes publicados entre 1977 e 1983. (Recentemente, Donaldson retornou ao universo dessa série, com mais dois livros publicados em 2004 e 2007). Thomas é um norte-americano médio que na década de 1970 vê-se arremessado num universo paralelo que está (como o mundo de Tolkien) ameaçado de destruição por um arqui-vilão, Lord Foul. Sua missão, cumprida com relutância e estranhamento, é salvar essa terra desconhecida. Um romance de fantasia igual a tantos – com a diferença de que Thomas é um leproso.

Reza a lenda que Donaldson ofereceu o primeiro livro da série a todas as 47 editoras listadas na revista Literary Marketplace, de uma em uma, por ordem alfabética; e todas o recusaram. O livro acabou sendo publicado pela Del Rey Books, numa segunda rodada de oferta. Donaldson ganhou o Prêmio John W. Campbell de “Melhor Autor de 1979”, e alguns livros da série receberam prêmios de “Melhor Romance do Ano”. No total, a série de Thomas Covenant já vendeu mais de dez milhões de livros. O título mais recente, Fatal Revenant (2007) chegou a 12o. lugar na lista dos mais vendidos do New York Times.

Alguém dirá: “como são burros os editores!” E eu responderei: caro leitor, você investiria seu precioso dinheiro num livro de fantasia de um autor estreante, de 30 anos, cujo protagonista é um leproso? Thomas é um sujeito que fica o tempo inteiro verificando se suas extremidades estão intactas (ele perde 2 dedos nos primeiros livros da série). A obra de Donaldson discute sérias questões éticas e morais. Dentro da fantasia norte-americana, muitas vezes frívola ou infantilóide, seus livros são consideradas obras sérias, de peso, ainda que um tanto soturnas. Ninguém poderia prever o sucesso que obtiveram. Não, não se pode, ninguém pode saber, jamais.

quinta-feira, 25 de março de 2010

1822) O clap-clap e o tlin-tlin (10.1.2009)



O que é mais importante na arte: o clap-clap dos aplausos, ou o tlin-tlin da caixa registradora? Sucesso simbólico ou sucesso financeiro? Elogios ou saldo bancário? Questão ainda mais desconcertante quando as pessoas começam a achar que um é a negação do outro. Quando começam a achar que Arte não tem nada a ver com Comércio, que artista talentoso é artista pobre, que sucesso de público não pode ser acompanhado por sucesso de crítica, e assim por diante.

Arte e Mercado são o Yin e Yang de uma coisa multiforme e instável chamada Cultura, e mesmo quando um predomina o outro está ali, por baixo, emboscado, se preparando para dar um bote e assumir o controle na primeira oportunidade. Fulano de Tal é um grande artista. Passa metade da vida fazendo obras elogiadíssimas e deficitárias. No dia em que por acaso produz um grande sucesso, abrem-se para ele as portas do Mercado e lá vai ele ladeira abaixo, cada vez mais rico e menos significante. Parece os Titãs, depois que descobriram o repertório de Roberto Carlos e a expressão “um milhão de discos”.

O mesmo acontece com quem faz sucesso ganhando dinheiro de dia e sonhando à noite, entre lençóis de seda marroquina, com os elogios da crítica e as teses de mestrado dos acadêmicos. Um belo dia faz algo que parece uma obra de Arte, e é “descoberto”. E lá vai ele ladeira abaixo, produzindo fracassos de bilheteria cada vez maiores, num esforço vão de cortejar aquela elitezinha que, como uma mulher bonita e metida a besta, é amada por ele e o despreza. Mais ou menos o que ocorreu com Woody Allen, comediante de sucesso que sonhava em ser um artista de verdade como Ingmar Bergman.

Pode-se conciliar qualidade de público e quantidade de lucro. Um dos exemplos mais simples (e que já devo ter citado nesta coluna) é o que ouvi uma vez de Egberto Gismonti, no programa de Jô Soares. Divulgando seu disco mais recente (era ainda a época do LP) Gismonti disse que ele tinha vendido apenas 10 mil cópias. Jô Soares perguntou se ele não preferiria fazer algumas concessões e vender 100 ou 200 mil. O músico respondeu: “Mas Jô, eu vendo 10 mil aqui no Brasil. Como já tenho uma carreira internacional, vendo mais 5 mil nos EUA, 12 mil na França, 8 mil na Suécia, 15 mil na Alemanha, 18 mil no Japão... Se somar tudo, dá os mesmos 100 mil, e eu não preciso fazer concessão nenhuma”.

Alguém pode se queixar: “Ah, mas essa solução de Gismonti não serve para mim, eu não tenho carreira internacional”. Concordo, mas lembro que Gismonti não procurou imitar a solução de Seu Ninguém. Ele criou uma solução própria, em função de quem era, do que já tinha feito e do que podia fazer. Soluções de carreira são sempre pessoais – desde que as carreiras sejam pessoais, individualizadas, “artísticas”. Quando não, o cara vira a Banda Mastruz Com Leite, em que se trocam todos os músicos e a banda permanece a mesma. O que só interessa, em última análise, ao cara que fatura com a banda.

sexta-feira, 5 de março de 2010

1746) Machado: “Um Homem Célebre” (15.10.2008)




São muitos os artistas insatisfeitos com o próprio sucesso, e quase todos por um mesmo motivo: queriam fazer sucesso, sim, mas com outra coisa.

Woody Allen perde meses inteiros filmando dramas familiares pelos quais ninguém se interessa; todos só o querem fazendo comédias. Conan Doyle fez tanto sucesso com os contos de Sherlock Holmes que acabou matando-o, porque o detetive eclipsava seus romances históricos e de ficção científica (até melhores, aliás, que os livros de Holmes). O público e as libras esterlinas lhe impuseram a ressurreição.

Vejam o Pestana, deste conto de Machado. Era doido para compor música clássica, mas só lhe saíam polcas, as quais, pela crueldade inocente da vida real, faziam enorme sucesso. Pestana sentava-se à noite ao piano, olhando a parede repleta de retratos a óleo dos grandes mestres, e tentava emular-lhes a inspiração; debalde. Acontecia-lhe o que acontece a todos nós: ficar duas ou três horas seguidas remoendo-se de ansiedade, sujeito a um sem-número de falsos arranques que não dão em nada, para afinal largar tudo em desespero, apagar a luz e ir dormir.

Pestana sofre com o fracasso, e sofre ainda mais com o sucesso, porque suas polcas vendem-se que é uma beleza – sim, amigo, isto se passa no tempo em que compravam-se partituras de uma canção, para reproduzi-la ao piano, e o compositor recebia direitos autorais. Mais que vendidas, são assobiadas na rua, termômetro infalível do sucesso popular.

Pestana faz de tudo para compor como Beethoven, Mozart ou Haydn, mas só lhe saem polcas, cada qual mais popular. Uma vez compôs para a esposa um Noturno. Quando o mostrou, sem dizer nada, ela perguntou-lhe se não era Chopin. Era. Diz o autor: “Pestana achara-o em algum daqueles becos escuros da memória, velha cidade de traições”.

Pestana se parece com aquele escritor best-seller a quem não basta vender dez milhões de livros: quer entrar para uma Academia, quer ser objeto de teses de doutorado. Quer, em suma, o reconhecimento do Andar de Cima, esta mítica cobertura do nosso mundo cultural, onde a mobília é bem mais rastaqüera do que a do andar térreo, mas dizem que a vista é melhor.

Não importa o sucesso do nosso mercadinho de secos-e-molhados ao rés-do-chão, sempre queremos ter o direito de freqüentar o andar superior da torre de marfim. Cobiçamos isso como eles, o de lá de cima, cobiçam o tilintar da nossa caixa registradora.

O conto de Machado registra um momento crucial na nossa cultura: o surgimento da Música Popular Brasileira. No seu tempo eram as polcas, as valsas, maxixes, lundus e cateretês. Eram as músicas que o povo dançava nas festas e assobiava nas ruas. 

Pestana é essa espécie eternamente em-vias-de-extinção: o músico erudito, ou eruditamente formado. Ele continua vivo e a ver com angústia o crescimento dessa hidra de mil cabeças, a Música Popular, um samba-de-uma-nota-só, que ele contempla com desdém e (quando tem sorte) cultiva com remorso.






domingo, 10 de janeiro de 2010

1500) O bem sucedido (3.1.2008)


Era um ator maduro, bem-sucedido, cheio de prêmios e de admiradores. Dando entrevista num programa de TV, começou a rememorar seu início de carreira. “Nunca pensei que entraria para o teatro”, disse ele. “Mas quando eu tinha uns dezoito anos namorei com uma garota que era atriz de um grupo estudantil. Por causa dela, passei a frequentar os ensaios, e depois que a peça estreou eu ia todas as noites. Daí a pouco já era amigo de todo o grupo, inclusive o diretor. Um dia adoeceu um ator que fazia um papel pequeno, com duas ou três falas, e como eu tinha um tipo físico parecido, me pediram para substituí-lo por aquela noite. No outro dia o ator, que se chamava Oséas Martins, também não veio, e eu voltei a substituí-lo. E acabei fazendo o papel até o fim da temporada”.

Daí em diante ele foi pegando gosto pelo trabalho, e participou de outras peças. Entrou para um grupo profissional. Fez cursos, oficinas. Estudou teatro por conta própria, comprando livros e mais livros. Ganhou prêmios, Viajou pelo país. Participou de filmes, que o levaram, em imagem e em carne e osso, para outros continentes. Ficou famoso, rico, comprou uma mansão, casou e descasou várias vezes, teve meia-dúzia de filhos.

E ele encerrou o depoimento dizendo: “Mas olhe, ainda hoje, aos setenta anos de idade, eu tenho um receio. Sabe qual é? É que uma noite eu esteja na minha mansão no Morumbi, descansando, ou estudando o meu próximo papel, e a campainha toque. Um dos criados virá até meu escritório trazendo um rapazinho de dezoito anos, muito parecido comigo quando eu tinha essa idade. E esse rapaz me dirá: Eu sou Oséas Martins, e vim buscar tudo que é meu”.

Sartre, em As Palavras, tem um trecho muito divertido em que ele diz sentir-se, no Mundo, como um passageiro que está viajando de trem sem ter comprado bilhete, e temendo que a qualquer instante o condutor apareça para cobrá-lo. Todos nós temos, principalmente quando somos bem-sucedidos, essa sensação mista de culpa e de não-merecimento. No caso do ator, ele reconhece que todas as chances que teve e que aproveitou com mérito próprio resultaram de uma casualidade, do fato de um ator obscuro ter adoecido e abandonado uma peça. Claro que o que ele conseguiu na vida não era exatamente o que Oséas Martins conseguiria se tivesse prosseguido com o grupo. As situações, as opções, seriam todas diferentes. Mas ele reconhece, na sua angústia, que num momento decisivo entrou o fator sorte para colocá-lo no caminho certo, e isso enfraquece suas certezas.

Sartre livrou-se do condutor negando a religião. Afirmou que o trem, ou seja, o universo, não tem maquinista, não tem condutor, nada. O trem surgiu por acaso, não há nenhuma empresa emitindo bilhetes, e quem viaja ali não precisa ter cumprido nenhuma formalidade prévia. A existência precede a essência: a gente surge dentro do trem, e só depois é que as negociações começam, porque não existe estação nem bilheteria.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

1357) O Tesouro de Harry Potter (20.7.2007)




O mundo pegou fogo de novo. Está saindo mais um livro de Harry Potter, e mais um filme. A imprensa inteira se vê obrigada a falar a respeito, e isto pode ser um bom sinônimo de sucesso. 

“Sucesso é quando todo mundo quer falar de você, mesmo que você não queira”. 

Uma das perguntas mais repetidas é: qual a razão do sucesso de Harry Potter, das dezenas de milhões de livros vendidos, etc. e tal? Ninguém sabe nem saberá. Sucesso é algo imponderável, não tem fórmula. Se tivesse, todo mundo aplicava. 

Fala-se de marketing, de campanhas publicitárias, etc. e tal. Bobagem. Campanha nenhuma arranca um livro da estaca zero. As campanhas, os cartazes, os fã-clubes, os bonecos de plástico, os bonés e mochilas... tudo isso alavanca as vendas de um livro, mas somente depois que o livro já fez sucesso. 

O primeiro milhão de livros vendidos é o mais difícil, mas depois dele, é como diz Paulo Coelho, “o Universo inteiro conspira a favor”.

O gosto do público, felizmente, ainda é imprevisível. Podemos, talvez, avaliar o que fez sucesso no ano anterior. Se o Homem Aranha ou o Código da Vinci arrebanham milhões de compradores aí está um bom sinal. De imediato, candidatos a milionários começam a rodar filmes intitulados O Homem Lacrau ou a escrever O Código Michelangelo, crentes que vão vender a mesma quantidade – e não vendem. O público não é burro. Somente uns 10% se deixam enganar por esses aproveitadores de última hora. 

O editor que lançou Paulo Coelho, Nelson Liano, dizia que recebia por semana 20 ou 30 livros com as palavras “Mago” ou “Alquimista” no título, sem contar os numerosos livros de gente que percorreu a pé o Caminho de São Tiago. Sabe quantos desses venderam um milhão? Somente o primeiro, que não tinha ambições tão altas. O resto, que tinha, afundou.

Dentro dessa engrenagem mortal a que chamamos O Mercado, existe uma lei não-escrita que rege todos os comportamentos e define todas as estratégias: 

“O sucesso é contagioso, e o fracasso também”. 

Se quisermos entender o cinema de Hollywood, o show-business musical, as Bolsas de Valores, as articulações políticas do Congresso brasileiro, e o comportamento dos nossos adolescentes, temos que levar em conta essa Lei de Newton que rege todos os fenômenos de atração e repulsão social. 

Quando você está subindo, está aparecendo, está vendendo, está fazendo sucesso, todo mundo quer se aproximar. Todo mundo fala bem de você, todo mundo jura que é seu amigo “desde o tempo em que ele era um joão-ninguém”, todo mundo telefona só para bater papo, todo mundo chama para um projeto, todo mundo convida para uma participação especial, todo mundo tem uma grande idéia e acha que você é a pessoa certa para participar dela. 

Por que? Por causa da Mágica de Contato, coisa que os antropólogos descobriram há muito tempo junto aos índios. Comprar e exibir um livro de Harry Potter é participar do sucesso de Rowling. E depois ainda dizem que mágica não funciona.






segunda-feira, 2 de novembro de 2009

1343) O avião que não pousa (4.7.2007)



O sucesso é um avião que decola, com você dentro, e nunca mais pousa. Lembro-me deste aforismo todas as vezes que comparo as aspirações de um sujeito, no passado, com o que ele efetivamente veio a conquistar no futuro. É uma das ironias da vida. Ou você não tem sucesso, ou acaba tendo um sucesso muito maior do que pretendia, e ficando escravo dele. Como diz outra velha frase, “cuidado com o que você pede a Deus, porque ele atende”.

A revista Rolling Stone brasileira do mês de maio, com Darth Vader na capa, traz uma enorme entrevista com o diretor George Lucas, feita na época em que ele tinha acabado de lançar o primeiro filme da (agora) hexalogia Guerra nas Estrelas. Há duas coisas interessantes. Primeiro, o fato de que Lucas não tinha a menor idéia do espantoso sucesso que seus filmes iriam fazer. Lidas hoje, suas declarações parecem ingênuas e provincianas, mas se justificam, porque era num contexto em que filmes de ficção científica (hoje um dos pilares da indústria de Hollywood) eram execrados, porque não tinham público. E em segundo lugar, o fato de que Lucas, hoje, mantém praticamente as mesmas opiniões, embora a vida o tenha arrastado na direção oposta ao que pretendia.

Já comentei nesta coluna (“O evangelho segundo Lucas”, 3.6.2005) uma entrevista de Lucas à revista Wired em que ele dizia estar meio cansado de produzir super-espetáculos, e com vontade de fazer filmes parecidos com os filmes experimentais que fazia quando era estudante de cinema na Califórnia. Essa entrevista é de maio de 2005, e me fez ficar pensando em como um sujeito é arrastado pelo próprio sucesso numa direção que não previa. Em 1977, Lucas dizia: “Além do mais, também percebi que as vendas de produtos, junto com as seqüências, garantiriam uma renda suficiente para que pudesse me aposentar da função de fazer filmes profissionais e me dedicasse ao meu tipo de filme – às minhas coisas pessoais, bizarras, experimentais”.

Ou seja: em agosto de 1977 Lucas imaginava que os brinquedinhos de plástico associados a Guerra nas Estrelas vendessem apenas o suficiente para que ele não dependesse de fazer sucesso com outros filmes. Ledo engano. As miniaturas de Darth Vader e Han Solo são hoje uma indústria de bilhões de dólares. O pequeno estúdio de efeitos especiais criado para o primeiro filme da série transformou-se na Industrial Light & Magic, uma empresa gigantesca que produz e terceiriza efeitos especiais para o mundo todo. Lucas achava, há trinta anos, que um ou dois filmes de sucesso lhe dariam a chance de se aposentar e fazer o que gostava. Coitado! A espaçonave levantou vôo com ele dentro, e não parou até agora. Comparar as duas entrevistas, a da RS em 1977 e a da Wired em 2005 é ver a tragédia (uma tragédia bastante confortável, reconheçamos) de um cineasta que gostaria de fazer filmes “cult” e experimentais mas foi seqüestrado para sempre pelo próprio sucesso de biheteria.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

1045) Rolando o lero (22.7.2006)




Juvêncio é um quase-vizinho cujo sucesso profissional acompanhei de perto, visto que nos encontramos com freqüência na mesma padaria, na mesma agência bancária, no mesmo botequim. 

Juvêncio exerce a nebulosa função de “produtor cultural”, sempre a braços com projetos que vão de musicais para o teatro até gravação de CDs evangélicos, de simpósios sobre psicanálise até festas de debutantes. 

Solteiro, morava, quando o conheci, num quarto-e-sala modesto, mas agora mora numa das melhores coberturas das redondezas e acaba de comprar, “na planta”, afiançou-me, um apartamento na Barra com quatro suítes.

Juvêncio é um dos expoentes de uma cultura que, aqui no Rio, se auto-define com o lema “quem não deve, não tem”. Dias atrás compartilhamos no bar alguns chopes, acompanhados por cubinhos de provolone espetados em palitos, e Juvêncio saiu-se com esta pérola: 

-- Adoro essas coisas pobres. O pessoal diz que eu sou esnobe, mas eu também sou sentimental, adoro me lembrar daquele tempo quando a gente se conheceu, quando a gente vinha aqui, como dois pés rapados. 

Lembrei-lhe que eu continuava a “vir ali”, e continuava pé rapado, e ele rebateu: 

-- Que é isso, BT. Você é poeta, é paraíba... Tem mais é que gostar dessas coisas mesmo.

O sistema que mantém Juvêncio à tona é simples. Ele ficou um tempo na pindaíba, sem poder pagar os seus numerosos cartões de crédito. No começo, pagava uns com os outros, numa prestidigitação financeira que nunca entendi, mas que ele me asseverou ser possível. Depois, chegou à conclusão de que era muito mais fácil acumular a dívida, fazer todo mês o famoso “Pagamento Mínimo” e deixar que o futuro se encarregasse do problema. 

Como a dívida não parava de aumentar, em breve ele estava pagando de juros o mesmo que pagava de despesa total um ano antes. Começou a recorrer aos Bancos, e em breve fazia com eles o que fazia com os cartões: para pagar o empréstimo do banco A levantava uma grana no banco B, e daí a um tempo pagava o B pegando dinheiro em C...

A dívida que Juvêncio acumulou nos últimos anos é mais dinheiro do que eu ganhei em toda minha vida. Ele parece viver segundo a sábia frase atribuída a Getúlio Vargas: “Dívida velha não se paga. E dívida nova deixa-se envelhecer”. 

Juvêncio vive numa bolha irreal de prosperidade, como aliás vive a maioria dos países do mundo, desde o Brasil até os EUA. Tudo na economia de hoje é pago com cheques pré-datados para 2050 ou coisa parecida. Os outros aceitam nossos cheques sem fundos, nós aceitamos os deles, e a economia avança aos trambolhões, alimentada por esse placebo financeiro em que todos fingem acreditar. 

Me lembra os velhos tempos em que a gente bebia no Bar de Benedito, na Rua João Pessoa, todo mundo liso que só um muçu. Quando pedíamos a conta, ela ultrapassava em muito o que tínhamos nos bolsos, e, como não tínhamos com que pagar, o jeito era pedir mais um galeto-na-brasa e uma rodada de cervejas. Quem não deve não come.






quinta-feira, 16 de abril de 2009

0985) A Propedêutica da Epistemologia (13.5.2006)




Numa fria manhã de inverno, o Budista Tibetano acordou com batidas insistentes à porta da cabana. Demorou a atender, mas quando abriu a porta sorriu ao se deparar com seu colega de juventude Wing Su Shi, a quem não via há trinta anos, e que era agora o filósofo mais respeitado da China. 

Sentaram-se na pequena sala com duas xícaras de chá fumegante, recordaram bons momentos do passado, trocaram informações sobre o paradeiro dos amigos comuns, e então Wing Su Shi contou o propósito de sua vinda.

– Atravesso uma situação difícil, ó meu velho companheiro! – disse ele. – A China inteira reverencia meus ensinamentos, estuda meus escritos, segue meus conselhos. Quando passo pelas ruas, os velhos me abençoam, e os jovens vêm pedir-me a bênção. Toda semana sou chamado ao palácio pelo Imperador, que quer minha opinião sobre assuntos de Estado. Os nobres disputam a minha atenção. Livros clássicos da Filosofia estão sendo recopiados para poder incorporar meus comentários, os quais, segundo os estudiosos, enriquecem sobremaneira os textos originais.

Vendo que o Budista Tibetano fazia uma cara de quem não vê situação difícil alguma, ele prosseguiu: 

– O problema é que eu não sou nada disto que pensam! Sou cheio de dúvidas sobre meus raciocínios, de incertezas quanto às minhas premissas. Meu conhecimento livresco é cheio de lacunas, mas eles pensam que eu tudo li, tudo assimilei. Atribuem aos meus aforismos de ocasião uma densidade metafísica que eles não comportam. Quando apareço, ficam todos na expectativa de mais uma verdade transcendental. E eu não sei de nada, não entendo de nada ! No fundo, sou uma fraude!

O Budista Tibetano deu dois tapinhas consolatórios no joelho do amigo. 

– Wing Su, estas ansiedades apenas demonstram tua honestidade e tua profunda sabedoria. Li em algum lugar que em séculos futuros serão inventados aparelhos chamados circuladores-de-ar. Nós, filósofos, somos meros circuladores de idéias. Não as fabricamos, mesmo quando as estamos exprimindo pela primeira vez. Mesmo um médico incompetente pode curar um enfermo, se receitar um remédio que lhe sirva. Quando te elogiarem, toma isto como um incentivo para que continues escrevendo e trabalhando, mas não te deixes iludir, como aliás já o fazes. Não és uma fraude. És para o conhecimento como um agricultor é para o trigo: não és seu criador, és apenas o parteiro que o trouxe ao mundo.

Wing Su Shi agradeceu efusivamente, os dois se abraçaram e o Budista Tibetano ficou olhando o amigo, montado em seu burrico, descer a trilha tortuosa que levava ao vale, ainda envolto na fria névoa matutina. 

Fechou a porta, e retornou ao quarto quente e escuro, onde sua gueixa o esperava sob as cobertas aconchegantes. 

– Quem era? – perguntou ela. 

– Um velho amigo enviado pela Providência, – disse ele. – Veio trazer-me a resposta para uma dúvida que me torturava há anos. Que os deuses abençoem sua sabedoria! 

E meteu-se embaixo do edredom.







quinta-feira, 2 de abril de 2009

0938) O sósia violinista (19.3.2006)




Vejo às vezes aqueles concertos de música erudita na TV Cultura. Conheço muito pouco de música erudita. Não sei distinguir autores nem estilos: se você botar uma música eu nunca vou saber se aquilo é Mozart ou Brahms, Beethoven ou Schubert. 

Mas, como qualquer sujeito criado em nossa cultura, entendo o que é a música sinfônica. É uma das muitas coisas que me seduzem pela sua beleza crua, sem análise da técnica ou subtextos de estilo ou época.

Gosto de ver na TV. No disco, aquela música parece estar brotando de algum lugar celeste, ao norte da Esfera dos Serafins e a sudoeste do Jardim do Éden. Parece que aquilo tudo sempre existiu, sem que ninguém precisasse compor ou tocar. 

Quando vejo na TV é que me dou conta da complexidade do processo, da energia exigida para que aqueles sons existam e se ergam todos ao mesmo tempo, se entrelacem, se correspondam, se afastem e reaproximem, numa tapeçaria de vibrações sonoras. 

É o pianista que numa breve pausa joga para o ar o cabelo e uma chuva de gotas de suor; são os violinistas no “acelerando”, de olho encatitado para não perder uma nota sequer; são os velhinhos dos metais que ficam na boca-de-espera para, no segundo exato, desfechar uma frase complicadíssima e depois ficar novamente em guarda... Creiam-me, amigos, é ainda mais difícil do que maracatu.

Muito tempo atrás, liguei a TV para me distrair. Estava deprimido por causa de um livro recém-publicado que passou em branco. Pensava eu: 

“Agora danou-se mesmo. Tenho a maior dificuldade para escrever um livro. Quando finalmente escrevo, ninguém publica. Quando publica, ninguém compra. Quando alguém compra, não lê. Quando lê, não entende. Quando entende, não gosta. Quando gosta, me manda um email perguntando por que é que um escritor tão genial como eu não faz mais sucesso do que Paulo Coelho”.

Voltei a olhar a orquestra, e tive um susto. Tinha um violinista que era a minha cara. Rosto, cabelo, tudo igualzinho. Fiquei com a sensação esquisita de estar contemplando um universo paralelo onde alguém me teria botado numa Escola de Música desde pequeno, e pronto, ali estava eu. Tocando um concerto de Bela Bartok! Maravilha. 

Fiquei olhando o sujeito tocar e isso me deu uma certa paz. Afinal, em que é que eu era melhor do que ele? O cara estudou pra caramba, sabe fazer um monte de coisas dificílimas, ganha a vida honestamente, e mesmo assim ninguém sabe da existência dele. 

A imensa maioria dos artistas, e artistas de talento, é assim. Só quem sabe que eles existem é a família e os amigos. Mesmo quando estão trabalhando, trabalham no meio de uma equipe enorme, e ninguém os enxerga. É o iluminador do teatro, o câmera do cinema, o backing-vocal de banda... Milhões de pessoas no mundo inteiro, fazendo arte de primeira qualidade, e ninguém sabe que eles existem. Fama coisa nenhuma. Eu não deixaria de ser violinista em minha orquestra só pra ser “aquele cara famoso porque atirou no Papa”.






quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

0816) A piscina dos artistas (28.10.2005)



Numa entrevista à revista inglesa Mojo (a melhor revista de rock que conheço), Paul McCartney refere um episódio divertido da carreira dos Beatles. Diz ele que, no auge da Beatlemania, Lennon (então casado com Cynthia) tinha comprado uma casa em Weybridge, perto de Londres. Eles estavam trabalhando nas canções do filme Help, e Lennon disse: “Ei, eu estou precisando de uma piscina aqui em casa”. “OK,” respondeu Paul, “então vamos compor uma piscina. Tem alguma idéia?” Lennon (cantarolando): “Eight days a week...” “Grande idéia! Isso vai dar uma piscina!” E logo a música estava composta. Diz McCartney, hoje: “Claro que isso era apenas um tipo de brincadeira que a gente fazia para manter a sanidade mental no meio daquela loucura. Mas não estávamos compondo qualquer porcaria só para construir uma piscina. Nós conseguíamos a piscina compondo músicas que julgávamos ser obras de arte”.

O conceito de “minha arte por uma piscina” dos Beatles coincide com um exemplo conhecido no campo da ficção científica, o de Robert Heinlein, o autor de Um Estranho numa Terra Estranha. O editor John W. Campbell declarou certa vez: “O problema com Bob é que ele não tem necessidade de escrever. Quando eu quero arrancar uma história dele, a primeira coisa que preciso é pensar em algo que ele gostaria de ter e não tem, como uma piscina. Em segundo lugar, tenho que convencê-lo de que ele precisa da piscina. E em terceiro lugar preciso convencê-lo de que ele precisa escrever e publicar uma história para poder pagar pela piscina”.

Tem um sutil detalhe psicológico aí. Existem indivíduos que não têm a ambição do dinheiro propriamente dito, a ambição do enriquecimento. Eles gostam das coisas boas que o dinheiro pode trazer-lhes, mas nem mesmo elas são um estímulo suficiente para que eles queiram enriquecer. É preciso às vezes surgir uma necessidade específica, uma bobagem, talvez, mas de qualquer modo algo que eles efetivamente queiram e precisem, para mobilizá-los, mobilizar sua energia criativa.

Os Beatles e Heinlein são um meio-termo entre os Ambiciosos (os que depois da primeira piscina precisam de uma segunda, uma terceira, etc.) e os Desambiciosos, para quem não vale a pena se esforçar para conseguir seja o que for, porque “podem muito bem passar sem aquilo”. Estes últimos muitas vezes produzem uma obra simplesmente pelo prazer que a criação artística lhes traz, pelos desafios “internos” do seu próprio trabalho (“será que conseguirei escrever este livro, pintar este quadro, fazer este filme do jeitinho que o imaginei?”), mas não se sentem motivados pela perspectiva de ganhos materiais. Pra motivar um ambicioso, basta colocá-lo em movimento, e ele nunca mais vai parar, porque não existe limite para o acúmulo de coisas materiais. Para motivar o outro, é preciso mantê-lo ligado no desafio da criação propriamente dita, os únicos capazes de fazê-lo arregaçar as mangas e pôr mãos à obra.