Mostrando postagens com marcador EUA. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador EUA. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 9 de maio de 2023

4940) Rita Lee (1947-2023) (9.5.2023)




“A mais completa tradução de São Paulo”, no verso de Caetano Veloso. Eu não diria a mais completa, porque acho meio utópica a idéia de que uma parte possa representar bem o todo. Eu diria que era a idéia mais femininamente charmosa de São Paulo, pois naquele tempo eu (falo de eu-adolescente, eu-dezesseis anos quando ela tinha dezenove) via São Paulo como uma cidade lúgubre, cinzenta, fuliginosa, tchecoslovaca, uma espécie de 1984 dublado em português. A São Paulo terrificante do Lugar Público de José Agrippino de Paula.
 
Rita (a Rita dos Mutantes) era luminosa, irreverente, irrequieta e dizia coisas inteligentes. Uma mistura de Janis Joplin com Gelsomina. Se o Tropicalismo daquele tempo nos parecia uma noite no circo, o número dos Mutantes já sugeria que em breve eles teriam sua lona própria e fariam turnês independentes. A voz de Rita ia desde a carícia de “Le Premier Bonheur du Jour” até o caipirês caricato de “2001” (a famosa “Astronarta libertado...”). Num dia ela aparecia vestida de noiva, no outro vestida de bruxa. “São Paulo é assim?”, pensava eu. “Se for, eu quero conhecer São Paulo.” (Só conheceria dez anos depois, mas esta é outra história.) 




Volto a dizer aqui algo que já falei sobre a imagem da mulher sexy. Minha geração (não falo pelas outras) foi submetida a um bombardeio de mulheres fatais do cinema, aquelas que Carlos Drummond chamava de “as sereias vulcânicas da Broadway”. Era Elizabeth Taylor, Jayne Mansfield, Rachel Welch, Kim Novak, Ursula Andress... Mulheres fatais, mulheres capazes de descarrilar uma locomotiva com um olhar. E vigorosas. Lembro de uma palestra de Antonio Callado em que ele se referia a personagens femininas “tão atemorizantes quanto uma nadadora olímpica iugoslava”.
 
Rita Lee era o contrário disso, e se não foi a mais completa tradução de sua cidade foi a de sua época, a época das garotas de minissaia, botinhas, boné, casaco, gola olímpica, as Annas Karinas, as Jeannes Moreaus, as garotas-do-apartamento-ao-lado. Jogando em cima disto, claro, a carnavalização figural dos Tropicalistas. Com ou sem fantasia, eram garotas da vida real que se comportavam (inclusive no palco) como gente. Você não imagina Marlene Dietrich dando uma topada no palco. Eu conseguia imaginar Rita Lee dando uma topada, se estabacando no chão, e levantando às gargalhadas.


 
Os Mutantes traziam também um fio de ficção científica – a FC que nunca mais deixei de associar à capital paulistana. Ao que parece (versões divergem), o grupo tirou seu nome do livro O Império dos Mutantes (“La Mort Vivante”, Stefan Wul, 1958), que o grupo leu sob este título na edição portuguesa (a tradução brasileira se chamou “A Cadeia das 7”). 
 
Era um livro sobre clonagem, em que o DNA de uma menina é reproduzido sete vezes (por segurança, para o caso de alguma falha) em laboratório. Algo foge ao controle (ou não seria FC) e daí a pouco temos sete meninas clones, idênticas, telepáticas e (pouco a pouco) todo-poderosas. 
 
Havia nos Mutantes, talvez, essa utopia ingênua do “somos todos um só”, o famoso “I am he, as you are he, as you are me, and we are all together”. Não eram: a banda brigou, Rita foi expelida, decolou numa carreira solo, voltou arrasadoramente no fim dos anos 1970 com “Mania de Você”, ao lado de Roberto de Carvalho; e o resto é história. Um pop brasileiro com voz feminina, pegada roqueira, doçura bolerística, sarcasmo urbano, letras de quem gostava de ler.


 
A história de Rita foi se me revelando de pouquinho, ao longo dos anos. Eu sabia desde o início que ela tinha ascendência norte-americana, e achei que “Lee” era sobrenome da família, sendo seu nome completo “Rita Lee Jones”. 
 
Nos anos 1980, já morando no Rio de Janeiro, comecei a ajudar Duncan Lindsay (“o irmão de Arto”) numa pesquisa dele sobre ex-Confederados norte-americanos que, derrotados na Guerra da Secessão, vieram morar no Brasil a partir de 1867. Entre eles, algum antepassado de Rita, cujo “Lee” não era sobrenome de família, e sim homenagem ao famoso General Lee. 
 
Segundo descobri através de Duncan, havia toda uma história de Confederados que se auto-exilaram no Brasil após a derrota, muitos indo morar na Amazônia, e outros no interior de São Paulo. Em Santa Bárbara d’Oeste, terra do pai de Rita, há um Cemitério dos Americanos. A cidade de Americana (SP), deve seu nome a essa corrente migratória. Que nos deu, afinal, a “ovelha negra” da família Jones.  
 
É mais um fio-de-aranha da História, daqueles difíceis de enxergar e difíceis de romper, ligando a guerra de libertação dos escravos norte-americanos e a formação do rock brasileiro. Como diziam os dialéticos, tudo se relaciona, tudo está interligado. Isto não quer dizer que tudo seja causa de tudo, mas que tudo é efeito-conjunto de um tecido, de um entrecruzamento de presenças. 
 
Quando algum artista morre, os coleguinhas de imprensa sempre vêm nos perguntar “qual é o legado que Fulana de Tal nos deixa”. O legado somos nós, companheiro. O legado de uma pessoa como Rita Lee é a pessoa que eu sou hoje, e não desmereço o legado dela dizendo que há mil outros legados, além do dela, teclando estas palavras.
 
Somos um tecido, um texto, fios entrecruzados por onde passa uma corrente de alguns ampères. E o mais interessante é que, mesmo que a partir de hoje um desses fios não esteja mais aqui, a corrente vai continuar passando. Por que? Não sei, só sei que a gente faz amor por telepatia. 



(ilustração by Fraga)
 





domingo, 29 de março de 2020

4564) Bob Dylan e "Murder Most Foul" (29.3.2020)




O vídeo, com a letra:

Bob Dylan acaba de lançar uma canção nova; não um álbum novo, um disco novo, apenas uma canção. Voltamos aos tempos dos anos 1950, quando as canções eram lançadas individualmente, em discos “compactos”, com a faixa importante no lado A e um complemento qualquer no lado B.

“Murder Most Foul” tem 17 minutos e tanto, e é 23 segundos mais longa do que a recordista anterior na obra de Dylan, “Highlands” (Time Out Of Mind, 1997). Não venham me dizer que esses “recordes” não são propositais.

A música inteira é um monólogo introspectivo de Dylan, enquanto dedilha o piano, e um violoncelo e alguma percussão fazem ornamentações discretas ao fundo. É uma canção política, tendo como tema o assassinato de John Kennedy em 1963. Mas não é uma canção política “de dedo em riste”, como “Hurricane”, que era uma canção vibrante, gritada, cuspida na cara das autoridades. É uma espécie de ajuste de contas de um cara consigo mesmo, catando cacos, juntando o que sobrou de sua casa depois de um incêndio.

“Murder Most Foul” é um poema recitado com fundo musical, nada mais do que isto, sem nenhuma pretensão a interpretação vocal, arranjo, estrutura. Não é uma coisa nova. Dylan já fazia isso em "If Dogs Run Free”, um improviso poético-pianístico,  em tom jazzístico, gravado em um só take no álbum New Morning (1970). Aquele mesmo álbum traz um recitativo mais solene, mais cadenciado: “Three Angels”, também uma canção não-cantada.


Talvez a melhor experiência de Dylan nessas canções recitadas seja “Brownsville Girl” ou “Danville Girl”, em algumas versões ao vivo (Knocked Out Loaded, 1986), uma parceria com Sam Shepard, autor da longuíssima letra que faz uma ponte com a canção de 2020, porque começa dizendo: “Eu estava tentando me lembrar de um filme que vi com Gregory Peck, onde um cara o mata a tiros pelas costas”.

Mas “Brownsville Girl” também não tem nada a ver com esta canção nova, afora isso, porque é uma história de amor misturada com road movie, tipo Coração Selvagem de David Lynch. É uma canção “pra fora”, vigorosa, cantada como se o cantor estivesse diante de dez mil pessoas.

Uma das coisas marcantes de “Murder Most Foul” é esse tom de voz “pra dentro”, onde o cantor parece estar sozinho num estúdio enorme, tendo os outros músicos a dez metros de distância. Eles tocam discretamente, na penumbra, para não atrapalhar o Autor, que passeia os dedos pelo piano enquanto seus olhos acompanham uma dúzia de folhas manuscritas espalhadas em volta.


O piano aqui é diferente do piano floreado e despudoradamente musical que Al Kooper faz em “If Dogs Run Free”. É um piano meio distraído. Nós usamos o verbo “cantar” para exprimir uma ação clara, firme e concentrada, de quem entoa uma canção; mas temos o verbo “cantarolar” que exprime uma maneira descontraída, distraída e casual de fazer a mesma coisa.

Proponho, então, que o verbo “tocar” (=um instrumento musical) tenha como contrapartida análoga o verbo “tocarolar”, a ação de quem toca mas toca sem querer impressionar, sem se preocupar muito com exatidão.

Na última vez que vi Dylan ao vivo (Rio Arena, março de 2008) ele mal pegava na guitarra: tocarolava o teclado, em pé, num órgãozinho menor do que o órgão d’”Os Incríveis”. Maldo eu que exige menos esforço do que a guitarra, em se tratando de um septuagenário.

“Murder Most Foul” é uma canção septuagenária neste sentido de monólogo íntimo de quem dá balanço em coisas mal resolvidas, como um Riobaldo Tatarana tentando explicar por que motivo sua vida aparentemente tão próspera foi edificada sobre um cemitério-indígena de equívocos. Ou de um Hamlet monologando sem parar (“murder most foul” é uma fala do Fantasma, na peça) sobre o assassinato do seu Rei.


A voz de Dylan, nesta gravação, está parcialmente intacta, se a compararmos com os resmungos ininteligíveis dos shows mais recentes. Ao divulgar a música no Twitter, ele avisou que se tratava de uma canção gravada algum tempo atrás (“a while back”). Os fãs (é pra isso que existem fãs) situam o timbre vocal dele nessa faixa na época da gravação do álbum Tempest, de 2012, seu último lançamento de canções inéditas.

O formato da letra é o couplet, um dos mais tradicionais da poesia inglesa, linhas longas (10 ou 12 sílabas, geralmente) rimando AA-BB-CC-DD-EE... Chamo a isso um formato “aberto”, que não se fecha numa estrofe, mas pode ser prolongado indefinidamente em poemas com qualquer número de linhas.

Dylan encaixa esses versos numa melodia que tem a estrutura genérica do tradicional blue-de-12-compassos, o que lhe permite fechar estrofes, lançando mão da melodia, não do formato da letra. Uma linha melódica que aqui e acolá lembra “Not Dark Yet” (Time Out of Mind, 1997) em seus versos curtos, “Where Are You Tonight” (Street-Legal, 1978) nos mais atropelados. E muitas outras canções, claro. É um "templeite" pessoal dele.

Not Dark Yet:
https://www.youtube.com/watch?v=7JBHyE18L3o

Where Are You Tonight:
Falar em número de sílabas nos versos de Bob Dylan é mera força de expressão, porque justamente um dos pontos fortes de sua arte é a desobediência consciente e proposital a limitações desse tipo. Mesmo quando nos versos iniciais de uma canção ele propõe e segue uma contagem fixa, frequentemente as estrofes seguintes o mostram aumentando ou diminuindo essa contagem ao sabor dos versos. Para alguns é um verdadeiro sacrilégio – para quem tem, por exemplo, a formação rígida do cordel e da cantoria nordestina, onde o número de sílabas sempre tem que bater.

Dylan é um especialista em pegar esses formatos rígidos e diluir sua estrutura puxando-os para o caos silábico da prosa. É a maneira de cantar dos “talkin’ blues”, os blues canto-falados que ele tanto ouviu na meninice e reproduziu em seus primeiros discos, em faixas como “Talkin’ New York”, “Talkin’ World War III Blues” etc.


O modo de cantar de Dylan pode ser ilustrado por uma historieta nordestina que só tem graça dita em voz alta, mas vou tentar reproduzir. É a história de um grupo de beatas que sai para uma novena, em romaria, e no trajeto têm que subir e depois descer umas ladeiras. Lá vão elas cantando na subida íngreme, prolongando as sílabas:

As viiiiirge todas proclaaaaaama...
Tua gulora e fermosuuuuuuura...

Chegam no topo da colina, e aí cantam enquanto descem apressadamente:

És a rainha do povo,
aprotetoradessapopulaçãodopovodeNossaSenhora
(chegam no fim da ladeira)
...da Raiz!

Essa, mal comparando, é uma das artimanhas de Dylan como cantor. Ele se propõe uma base fixa de sílabas/notas em cada verso, e depois canta o que bem entende, esticando as sílabas quando não poucas, atropelando-as quando são muitas, e sempre dando um jeito (não me pergunte como) de parecer que elas se encaixam nas notas musicais pressupostas.



“Murder Most Foul” tem todos esses elementos de oralidade: versos de qualquer tamanho, letra mais recitada do que cantada, uma sensação pervasiva de uma música que não ficou totalmente pronta mas que o autor está registrando para não esquecer depois o feeling inicial que a criou. E a desconfiança de que aquilo é apenas um trecho de uma música ainda maior, da qual se perdeu o começo, e também o fim.

Tematicamente, é mais uma das “Canções de Assassinato e Denúncia” em que Dylan sempre foi excelente, usando fatos reais para criar uma pequena parábola dos tempos modernos: “The Lonesome Death of Hattie Carroll”, “Only a Pawn in their Game”, “Oxford Town”, “Ballad of Hollis Brown”, “Hurricane” etc.

Que ele tenha escolhido o catastrófico momento atual para lançá-la tem decerto algum significado. Dylan está no grupo de risco, tal como nós, seus marinheiros desde a primeira viagem. Pode ser um “parting shot”, uma forma de cair atirando. De mostrar que nem tudo foi dito ainda, e não o será jamais.










segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

4433) "A Balada de Buster Scruggs" (11.2.2019)



Este filme dos irmãos Coen está em streaming no Netflix, não sei se chegou a passar nos cinemas, aqui no Rio pelo menos. Os sedentários agradecem. O Netflix, o YouTube e a UbuWeb têm seus pecadilhos, mas nada que rezar uns dois rosários não absolva. Têm crédito.

Os irmãos Coen são desses cineastas pouco convencionais que não apenas pegam idéias de todas as direções, como não fazem muita questão de fazer filmes parecidos uns com os outros. Este aqui, a meu ver, parece com E aí, meu irmão, cadê você? (“O Brother, where art thou?”, 2000), acima de tudo pela ambientação tipo Velho Oeste. E pelo agarre-o-que-puder de historietas, cáusos, anedotas.

Dias atrás eu estava comentando no meio de uns amigos o quanto o cinema de algumas décadas atrás nos dava filmes-em-episódios. As comédias italianas em episódios eram imbatíveis, fossem todos eles do mesmo diretor ou de vários.

O filme em episódios está para o longa-metragem comum assim como o livro de contos está para o romance.

Com aquela prudência de “acender velas a Deus e ao Diabo” dos comentaristas de futebol, os críticos exigem do filme em episódios que ele tenha coerência, sem por isso deixar de exibir variedade. Em Buster Scruggs, é a ambientação histórico-geográfica que dá a unidade do filme, por mais que as histórias que conta sejam diferentes em enredo, em tom, em paisagem social. É como um tecido inteiriço com várias estampas diferentes: percebe-se a mudança do desenho mas vê-se que os fios de algodão são os mesmos, independente da cor.


O primeiro episódio, “The Ballad of Buster Scruggs”, é o mais divertido, com Tim Blake Nelson fazendo um herói picaresco do faroeste, que cavalga de violão em punho na solidão dos desfiladeiros, cantando a plenos pulmões, para avisar o público que não é realismo que se deve esperar desse conto de façanhas munchausenianas.

O conto é tipo literatura de cordel, cheia de jactância verbal – um dos fios que costuram o filme inteiro. A toda hora brota um personagem com um “bife” de página e meia para recitar, com vocabulário preciosista e (os atores são muito bons) timing competente.


O segundo episódio, “Near Algodones” ainda tem algo do clima de “tall tale” do anterior, com a engenhosidade meio absurdista do caixa de Banco cheio de recursos contra assaltos, o suspense busterkeatoniano de quando o quase-enforcado vê o cavalo querendo ir embora de baixo dele, e assim por diante. É mais uma história que diverte pela imprevisibilidade.


O terceiro é “Meal Ticket”: aqui entramos no mundo meio bradburyano dos “travelling shows” em que um homem-tronco de incrível eloquência declama Shelley, Shakespeare, Lincoln e tudo o mais diante de embasbacadas platéias redneck oitocentistas.

Neste “conto”, o humor-risada se retrai um pouco. O que se produz é aquela risada-arquejo que explode e logo se contém, quando vemos algo bizarro demais para ser verdade.


O quarto conto, “All Gold Canyon”, baseado em Jack London, é um dos menos movimentados, mas tem praticamente um solo de Tom Waits como um velho garimpeiro escavando o chão escuro, úmido, de um vale espantosamente belo.

O velho é lacônico, e ademais está falando sozinho, mas aqui a gente percebe outro fio amarrando o filme: em praticamente todos os episódios um personagem canta uma canção inteira, diegeticamente (ou seja, é o personagem que canta, não a trilha sonora que aparece). Não há muita ação, a não ser na parte final; mas o personagem e o cenário sustentam tudo nas costas.


O quinto episódio, “The Girl Who Got Rattled” (baseado em Stewart Edward White) é uma história de amor que surge ao longo da peregrinação de uma caravana de carroções seguindo a famosa Trilha do Oregon, rumo à margem extrema ocidental do continente.

Um homem e uma mulher se conhecem, se ajudam, se entendem ao longo das pequenas tragédias da migração. Um casal de atores (Zoe Kazan e Bill Heck) com cenas de uma rara intensidade e contenção. Uma história que poderia ser menos cruel, mas ainda assim é a mais emocionalmente verdadeira de todo o filme. O roteiro severo ajuda a deixar a parte afetiva mais comprimida e poderosa.


O sexto e último, “The Mortal Remains”, é uma diligência com o habitual elenco de passageiros mutuamente desconhecidos que vão se revelando ao longo do trajeto. Tem um clima maupassantiano (“Bola de Sebo”), e aqui voltamos às longas perorações, cheias de retórica, que dão aos atores a chance de monólogos pitorescos. E mais duas canções dentro da diligência.

Este último episódio cria um efeito de estranhamento nas últimas cenas, como se ao longo da viagem a diligência tivesse penetrado inadvertidamente em outro filme. Ou os personagens, como num romance de Philip K. Dick, estivessem gradualmente sendo conduzidos para o Além Túmulo, sem perceber.

Os irmãos Coen conseguem harmonizar estas histórias porque é bem do temperamento deles essa facilidade em beber de todas as fontes, e de contar uma história meio surrealista com torção suficiente para que aquilo não só pareça ter mesmo acontecido, como pareça ter acontecido apenas uma vez.

A gente tem a sensação de que aquelas pessoas não se conhecem, nunca cruzaram umas pelas outras, mas tudo aquilo aconteceu meio que simultaneamente, num universo único, coerente. Mesmo os “tall tales”, com sua dose de mentira, pertencem àquele mundo, são as histórias que aquelas pessoas contam umas para as outras, em volta daquelas fogueiras entre os carroções, ou daquelas mesas de jantar de uma casa de hóspedes.

Eu sou suspeito, porque gosto de praticamente tudo que já vi dirigido pelos dois irmãos. É um jeito de fazer cinema que me agrada: ao mesmo tempo são perfecionistas e são descontraidamente leves. São eruditos e são completamente cultura-oral. Seus filmes geralmente sabem o momento certo da cena séria e da cena engraçada, da situação implausível e da situação dolorosamente verdadeira.






sábado, 7 de abril de 2018

4333) Minha bolha é o Paraíso (7.4.2018)



Nos EUA existem alguns episódios curiosos de confronto entre o estilo de vida tradicional americano e alguma manifestação randômica do ”Oriente” na vida econômica, política ou cultural dos EUA.

Um deles estou acompanhando pela série Wild Wild Country, na Netflix. É sobre o choque cultural provocado pela criação, em 1981, de uma comunidade Rajneesh no Oregon. Os membros da comunidade, de origem indiana, “do nada” compraram ali um território enorme e montaram um ashram místico. Atraíram dezenas de milhares de pessoas do mundo inteiro, já fiéis de carteirinha.

Existe uma mistura de espertezas pessoais e pureza coletiva nesse movimento que fez Rajneesh em 1981 mudar seu ashram, de uma hora para outra, da Índia para um vale perdido no Estado do Oregon. Talvez porque, entre belezas paisagísticas, o Estado permitisse que quaisquer cento e cinquenta pessoas que compartilhassem tais e tais requisitos pudessem requerer e conseguir oficialmente a condição de “cidade”. Está (dizem eles) na Constituição.

Os EUA se apresentam ao mundo como a terra onde tudo é possível, qualquer sonho pode se tornar realidade, onde basta ter dinheiro, oportunidade e estâmina que o sucesso é garantido.

O ano era 1981, muito menos paranóico no aspecto étnico do que para os norte-americanos de hoje. De início, a chegada daqueles grupos coloridos de jovens recebeu certa simpatia e acolhida no Oregon.

Os seguidores de Rajneesh vestem por comum acordo roupas nos tons de laranja, marrom, lilás, roxo, ocre, variações em torno de uma tonalidade abstrata (imagino eu) que serve como marco zero, ponto central de todas as suas variantes coloridas. A imprensa só os chama de “reds”, vermelhos.

Não que a imprensa os achasse comunistas. Eram as teorias liberais de Rajneesh com relação a sexo que incomodavam os vizinhos, levando-os a imaginar que aqueles milhares de jovens passavam as noites em orgias coletivas.

Sheela, a secretária executiva do guru, compara a certa altura seu ashram com Shangri-La, o vilarejo perdido no Himalaia onde o tempo parou de passar (Horizonte Perdido, de James Hilton). São inevitáveis os atritos entre os hillbillies e rednecks locais e aquela rapaziada loura, florida, hirsuta e colorida, ainda por cima seguindo um profeta oriental.

O documentário (série em 6 episódios, Netflix, dirigida por Chapman Way e MacLain Way, irmãos) mostra aquela história que conhecemos tão bem: uma mudança social fortuita coloca de repente, cara a cara, numa disputa por espaço vital e também por “narrativa”, duas bolhas sociais impermeáveis, cheias de boas intenções, bons argumentos e boa vontade.

Nenhuma das duas tem condições de entender o pensamento da outra, porque cada uma está voltada para “a única maneira certa de viver”, que é a sua. O atrito começa a produzir fagulhas perigosas.

Como tantos grupos de pessoas felizes, pessoas que conseguem construir um paraíso artificial coletivo, os Rajneesh queixam-se o tempo todo de que estão sendo vítimas de xenofobia, conservadorismo, preconceito racial, etc.

Por outro lado, os moradores da cidadezinha ameaçada dizem que tudo que queriam era continuar a vida que escolheram, num lugar distante de tudo, habitado por 50 ou 100 pessoas que eles conhecem desde que nasceram, e não por 10 mil jovens que parecem não tomar banho e vivem numa festa permanente e ruidosa.

Como diz um dos diretores numa entrevista, “tem horas em que eu acho que um grupo está totalmente certo, e meia hora depois aparece uma informação nova e eu começo a achar que quem estava certo era o outro”.

Não é um simples choque entre conservadores e contestadores, nem entre velhos e jovens, nem entre puritanos e hedonistas.

É o choque (que vemos todo dia, nas redes sociais, na imprensa, na vida cultural) entre pessoas tão angustiadamente aferradas à sua maneira de ver que não apenas se recusam a escutar os argumentos do outro lado, mas farão de tudo para que esse outro lado seja calado para sempre, e que elas possam continuar a viver no Paraíso Bolha que construíram.












sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

4317) "Wormwood": os crimes da C.I.A. (23.02.2018)




Uma das estréias recentes do Netflix é a série Wormwood, dirigida por Errol Morris, em forma de docudrama (documentário com alguns trechos encenados por atores). Vi os seis episódios ao longo de três dias, sinal de que gostei.

A série investiga a morte de Frank Olson, um cientista empregado pelo exército americano e depois pela CIA, que caiu de uma janela no décimo andar de um hotel de Manhattan, em 1953. Na época, o veredito foi de “acidente”, com a ressalva de que Olson “caiu ou pulou” da janela. A família recebeu um caixão selado que não teve permissão de abrir, sob a alegação de que o corpo estava muito mutilado.

Olson trabalhava em pesquisas bacteriológicas, e a Guerra da Coréia estava no auge. A paranóia da Guerra Fria pairava no ar. A família enterrou o morto e não fez perguntas.

Em 1975, uma matéria do jornalista Seymour Hersh revelou que na verdade Frank Olson tinha sido vítima de um projeto secreto da CIA que consistia em administrar LSD a pessoas, sem o conhecimento delas, para avaliar suas reações e saber se poderiam se transformar em eventuais delatores, se presos pelos comunistas.

Frank Olson tomou o LSD, entrou numa bad trip, foi levado às pressas para New York para consulta com um médico ligado à CIA. Dez dias depois de tomar a droga, pulou da janela do hotel.

O docudrama de Errol Morris reconstitui estes dez últimos dias e tem como fio condutor a investigação que o filho mais velho de Frank, Eric Olson, conduziu durante mais de 60 anos tentando entender o que tinha acontecido com seu pai.

Eric Olson acabou descobrindo que não se tratou apenas de uma experiência da CIA que não deu certo. Seu pai não se suicidou por causa de uma bad trip. Na verdade, ele foi assassinado, porque já vinha há algum tempo questionando os seus superiores sobre a utilização bélica das pesquisas bacteriológicas que fazia nas instalações de Camp Detrick (Maryland).

A exumação do corpo de Olson, em 1994, desmentiu as versões de suicídio. Como nos filmes baseados em Agatha Christie, Errol Morris encena, com ambientação de 1953, as várias versões da queda de Olson, além de seus trajetos durante aqueles dias em Nova York.

Perguntado pelo crítico Roger Ebert qual era a diferença entre documentário e docudrama, Morris respondeu: “Dois zeros”. Ou seja, para encenar aqueles trechos com atores os custos do filme (cenografia de época, figurinos, etc.) são multiplicados por 100. Vale a pena? A questão permanece em aberto.

Uma das referências alegóricas do documentário é a história de Hamlet, outro rapaz atormentado que quer saber a verdade sobre a morte do pai; cenas da adaptação de Laurence Olivier (1948) são usadas com frequência.

O diretor conta com um trunfo importante, o fato de haver um material de arquivo muito farto: filminhos 8mm de Olson brincando com os filhos, e depois os filhos já adultos, em plena investigação, acompanhados o tempo inteiro por câmeras de TV e cinema. Isso lhe permite montar o filme como se tivesse “filmado o passado” e dar uma certa continuidade ao material.

Eric Olson cresceu investigando a morte do pai, tornou-se psicólogo e criou um método particular de uso da colagem de fotos para provocar descobertas subjetivas. O diretor Morris se apropria desse método do seu entrevistado e transforma o filme (a série) numa colagem com tela múltipla, uso simultâneo de muitas câmeras, superposição de fotos e textos, etc.

Wormwood é a estrela Absinto citada no Apocalipse, a que torna amargas as águas após o toque da trombeta do anjo.

A série de Errol Morris é um complemento para aqueles romances de John Le Carré, Graham Greene, Eric Ambler e tantos outros autores de livros de espionagem. Obras cuja leitura sucessiva pode nos conduzir à depressão, porque a atividade da espionagem (“Inteligência”, “Contra-Inteligência”, “Segurança Nacional”, “Serviços de Informação”, "Departamentos de Ordem Política e Social" e congêneres) é uma sabotagem sistemática do conceito de verdade. É um mundo onde todos mentem, todos escondem, um mundo que nos tira a ilusão de que é possível conhecer a verdade sobre um fato qualquer.

O nome “Kafka” está conspicuamente ausente da série, embora seja uma referência inevitável. Eric Olson é um Joseph K. atormentado por um mistério e na tentativa de esclarecê-lo vai se deparando com mistérios cada vez maiores e mais tenebrosos. Como aqueles arqueólogos em busca de Tróia, descobrindo uma série de “cidades soterradas”, uma por baixo da outra.

Chega um momento em que o investigador percebe que cada verdade descoberta é mais dolorosa e mais deprimente do que a anterior; e ele resolve simplesmente parar de cavar.







sábado, 10 de setembro de 2016

4157) O mistério do 11 de setembro (10.9.2016)




(foto: Richard Drew / Associated Press)

Quando aconteceu o atentado às Torres Gêmeas, eu fiquei pregado à TV durante um dia inteiro, porque justamente na véspera um pequeno problema de hardware me deixara sem acesso à Internet. (Fiquei irritado porque 11 de setembro era a data marcada para o lançamento do álbum Love and Theft de Bob Dylan, e eu queria ver os clips de lançamento.)

Na época eu fazia freelancer para a Editora Guanabara, que estava para lançar um Atlas Histórico ligado à Enciclopédia Delta; e minha editora Liana Pérola Schipper me encomendou uma matéria longa, especial, sobre o assunto. Nos dias seguintes, resolvido o problema de conexão, eu praticamente não fiz outra coisa senão ler e capturar textos e imagens a respeito da catástrofe do WTC.

(Digressão: acho que isto é uma resposta neurótica comum, em mim pelo menos, diante de um fato esmagador e terrível. O processo de juntar e organizar informações sobre o fato de certa forma nos protege do perigo de pensar sobre ele. É uma fase intensa mas passageira.)

Quando o indivíduo é leitor de romance policial e de ficção científica, não há como não ser um cultor, em certa medida, das Teorias da Conspiração.

A literatura policial nos ensina que não há um limite visível para a cobiça humana por dinheiro, nem para as maldades que seres humanos são capazes de fazer para ter mais Poder. A ficção científica expande esse conceito para o Universo como um todo.

Li na época uma entrevista com um dirigente da CIA em que, depois de explicar mais ou menos (ainda se estava em plena investigação) como os terroristas tinham sido treinados para usar os aviões e tudo o mais, ele disse:

“O que me deixa mais acabrunhado é pensar que nós (a CIA) não teríamos ousado pensar num plano como este, e, se pensássemos, não teríamos acreditado que era possível.”

Modéstia do rapaz. Eu atribuo à CIA (e se não foi a CIA foi alguma outra agência da “sopa de letrinhas” de que falava John Michael Hayes, o roteirista de Intriga Internacional) um plano ainda mais mirabolante do que o de meia dúzia de jihadistas sequestrando o cockpit de três ou quatro aviões.  (Digo 3 ou 4 porque até hoje não vi o famigerado “avião” que teria sido jogado no Pentágono.)

Este link (http://www.europhysicsnews.org/articles/epn/pdf/2016/04/epn2016474p21.pdf) conduz a uma matéria do saite Europhysics News sobre o atentado, intitulada: “15 Years Later: On The Physics Of High-Rise Buildings Collapses”, de Steven Jones, Robert Korol, Anthony Szamboti e Ted Walter.

O cerne da questão é: como se explica que as duas Torres, que tinham estrutura de metal, tenham desmoronado daquela forma, se todos os testes provam que a temperatura daquele fogo seria insuficiente para fazer ceder o metal? E mais ainda: como se explica que o WC7, o terceiro prédio a desmoronar naquele dia, tenha aluído praticamente todo ao mesmo tempo, horas depois do choque dos aviões?

Já escrevi a respeito, aqui:



Em matéria de história mal contada, o World Trade Center nunca vai deixar de assombrar nossas noites mal dormidas. Mal contada – não por escassez de explicações, mas pelo excesso. A melhor maneira de esconder uma informação não é proibindo que seja divulgada, é disfarçando-a no meio de uma selva de informações irrelevantes e parecidas. (Aprendi isto com Agatha Christie.)

Poucos acontecimentos do novo século podem se comparar ao impacto da queda das Torres. Mesmo a Guerra do Iraque e a do Afeganistão, que se seguiram, foram guerras convencionais, iguais a qualquer outra guerra.  O atentado do 11 de setembro teve acima de tudo o impacto do ineditismo, do nunca-acontecido, do fato que estourou-a-costura da nossa imaginação.

Talvez um dia seja confirmado que a queda das Torres não se deveu à ação de terroristas islâmicos, e foi na verdade uma gigantesca queima-de-arquivo de empresas privadas e do Governo que estavam metidas em enrascadas mil, além de uma excelente oportunidade de sofrer um ataque estrangeiro que obriga a um revide imediato, como em Pearl Harbor.

Há muitas teorias de que na II Guerra os EUA precisavam de um pretexto para entrar numa guerra que a população via com distanciamento, e adotaram uma atitude passiva-agressiva, pedindo ao Japão: “Me dê motivo”.  Os japoneses, em sua euforia expansionista, caíram na armadilha e bombardearam o porto.

Se confirmarem um dia que os próprios EUA derrubaram as Torres, este fato será tão relevante e tão impactante quanto a queda das Torres, quinze anos atrás.

E será uma revelação crucial sobre a natureza de nossa civilização: uma civilização em que qualquer história gigantescamente absurda pode ser impingida como verdade à população, durante uma quantidade de tempo finita (mas suficiente para os objetivos estratégicos imediatos).






domingo, 21 de fevereiro de 2016

4055) Queremos a censura (20.2.2016)




(ilustração: Rubem Grilo)


Estão se multiplicando, principalmente nos EUA, os pedidos para que o Estado ou as autoridades locais exerçam algum tipo de censura sobre livros e textos em geral, para proteger a estabilidade emocional nos leitores. Um artigo de Isabel Lucas (aqui: http://tinyurl.com/zuth66b) cita vários exemplos. Obras clássicas como as “Metamorfoses” de Ovídio, a peça “Lisístrata” de Aristófanes e outras são tidas como ofensivas por estudantes conservadores. Eles pedem que os livros sejam eliminados das bibliotecas ou que pelo menos “surjam com uma advertência na capa, chamando a atenção para o ‘perigo’ para o ‘bem-estar mental’ que representam os seus conteúdos, potencialmente causadores de sofrimento, trauma ou angústia’”. Segundo o artigo, humoristas como Jerry Seinfeld estão se recusando a dar espetáculos nas universidades, alegando que os estudantes “não são capazes de suportar uma piada”.

A mania chega a extremos surrealistas. Estudantes de Direito de Harvard pediram que não fosse ensinada a lei sobre estupro, alegando que a visão desta palavra poderia reacender o trauma em estudantes que pudessem ter sido vítimas desse tipo de abuso. (Essa paranoia de negação traz à mente imagens como o avestruz que enterra a cabeça na areia diante do perigo ou o marido traído que manda tirar da sala o sofá onde a traição foi flagrada.) Para a psiquiatra Manuela Correia, “estamos diante de uma excessiva psiquiatrização da sociedade”. Os ditames protetores da psiquiatria tomam o lugar da religião, a quem cabia, até certa época, esse tipo de controle. Isso seria indício de uma infantilização da sociedade, diz ela: uma “sociedade que não consegue lidar com o medo ou a pluralidade da linguagem”.

Se a pessoa é incapaz de suportar a mera visão da palavra “estupro” (tendo sido ou não estuprada), tem todo o direito de evitá-la, é claro. Todo mundo tem fobias ou angústias. Mas nesse caso, por que diabo vai estudar Direito? Não seria melhor estudar algo mais distanciado da realidade social, algo que não a obrigasse a refletir sobre o mundo, a convivência, o atrito ideológico do dia-a-dia? Outro detalhe que inquieta é que para muitos desses espíritos defensivos não basta evitarem os temas, querem que os temas sejam proibidos inclusive para os que não têm trauma nenhum e querem se informar sobre os tais assuntos. É uma regressão emocional perigosa. São pessoas a quem o mundo de hoje assusta (e acreditem, amigos, assusta a todos nós) e preferem fazer de conta que o mundo não existe, preferem refugiar-se numa bolha de segurança fictícia que nem uma ditadura militar seria capaz de manter intacta por muito tempo.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

3701) O traidor Snowden (3.1.2015)



O criador do Netscape, Marc Andreesen, diz, curto e grosso: “Se você procurar a palavra ‘traidor’ numa enciclopédia, vai achar uma foto de Edward Snowden”.  

Diz Bill Gates: “Ele violou a lei, então eu certamente não o considero um herói. Ele não tem muita admiração de minha parte.”  

A CIA (onde ele trabalhava) e o FBI ganharão a megassena no dia em que botarem as mãos nele.  Edward Snowden é mais um norte-americano (como Daniel Ellsberg, que divulgou os “papéis do Pentágono” durante a Guerra do Vietnam) que aceitaram se tornar um Judas diante de todo o seu país, por motivos de consciência.

Snowden trabalhava em tecnologia da informação para a CIA e depois para a National Security Agency, e percebeu os desmandos que essas entidades praticavam contra o cidadão comum, violando emails e telefonemas, espionando pessoas sem autorização judicial, colocando filtros de investigação em canais públicos e privados onde não tinham o direito de fazê-lo. 

Ele era funcionário de alto escalão, com acesso a senhas e códigos.  Um belo dia, encheu o bolso de pendraives com documentos secretos a que teve acesso (cerca de 1 milhão e 700 mil) e fugiu para Hong Kong.  O material que ele copiou está hoje nas mãos de três grupos de jornalistas.

Refugiou-se na Rússia, enquanto os EUA torciam para que ele entrasse num avião que pudesse ser forçado a aterrissar num país aliado.  Uma situação surrealista: um norte-americano que defende a liberdade de informação fugindo do governo de Barack Obama e se refugiando sob o governo de Vladimir Putin.  (Nada no mundo é tão preto-ou-branco quanto nossa preguiça mental gostaria que fosse.)

Na revista Wired de setembro (http://tinyurl.com/q2gqxzz) Snowden diz como é viver num ambiente onde quem tem o Poder faz o que bem entende: 

“É como a história da rã na água fervendo. Você é exposto a um pouquinho de maldade, um pouquinho de violação das regras, um pouquinho de desonestidade, um pouquinho de trapaça, um pouquinho de desserviço ao interesse público, e vai aprendendo a deixar pra lá, e acaba justificando aquilo tudo.”  

Antes que a água começasse a ferver pra valer, Snowden pulou fora.

Jorge Luís Borges, no conto “Três versões de Judas”, propõe uma tese herética: a de que o Filho de Deus que veio salvar o mundo não foi Jesus Cristo. Ser chicoteado e crucificado, diz ele, era um preço irrisório a pagar pela glória de ser endeusado por todos os milênios vindouros.  

Foi Judas quem aceitou praticar a pior das vilanias: a traição a um amigo. E sofrer o castigo que nunca se apaga: o da infâmia.  Cada vez que execramos Judas, aumentamos o preço que ele (o verdadeiro filho de Deus) pagou para nos salvar.











sexta-feira, 31 de outubro de 2014

3646) Os candidatos (31.10.2014)


Nem sempre o melhor candidato é o melhor executivo.  Acho graça no modo como a democracia eletrônica, onde o objetivo é impor uma idéia a dezenas de milhões de pessoas desinformadas, deforma todo esse processo.  Deveríamos eleger o melhor administrador, o mais competente, o mais correto, o mais íntegro, o mais líder.  Ao invés disso, elegemos em geral o que tem sorriso mais aconchegante, o que tem rasgos oratórios que fazem explodir aplausos, os que pelas feições ou pelo traje se parecem com algum vago ideal de autoridade que trazemos adormecido em nossa subconsciência de classe. Votamos num ator.  Mesmo os bons administradores (que felizmente existem) descobriram muito cedo que para poder administrar em paz tinham que desenvolver, mesmo a contragosto, esse lado televisivo, histriônico, fotogênico.

Esse jogo foi zerado por Ronald Reagan.  Deve haver precedentes, mas eu diria que Reagan foi o primeiro caso de robô biológico na história da política moderna.  Um robô biológico é um ser humano incapaz de pensar por conta própria mas dotado de uma sólida capacidade de dizer e fazer o que lhe dizem para ser dito e feito.  Reagan tornou-se assim, para o neo-liberalismo republicano, o candidato perfeito e depois o administrador perfeito.  Foi treinado durante a campanha, e depois de eleito continuou recebendo os textos das mãos da mesma equipe.  Não sabia a diferença entre o Brasil e a Bolívia, tinha um “personal astrólogo” para lhe dizer como seria o seu dia, era um javali de terno, mas recebia os textos e aplicava a eles todo o seu charme de galã rústico de Hollywood.

A direita norte-americana trouxe mais atores à política: Schwarzenegger, Clint Eastwood...  Livro um pouco a cara deste último, que é reacionário mas parece ser capaz de pensar sozinho.  Mas o bom Arnold é um exemplo cristalino de como o mundo do espetáculo, a cada década que passa, é sugado para o interior da política.  Mais fácil do que transformar um político em ator é transformar um ator em político, afinal de contas ele vai precisar apenas ler coisas no teleprompter, porque todas as discussões já lhe chegarão brifadas e dirigidas.

Lembro de uma longínqua eleição nos EUA em que um comentarista falou: “O melhor presidente seria o senador Fulano, porque é honesto, competente, sabe costurar apoios.  Mas nunca seria eleito, porque é feioso, mau orador, gagueja.  Candidato tem que ser galã.”  A democracia eletrônica facilita a discussão e participação (via redes sociais), mas é toda voltada para a construção de uma imagem e desconstrução das demais.  Vota-se numa imagem cuidadosamente concebida e orquestrada, que não corresponde a uma pessoa real.



quinta-feira, 24 de abril de 2014

3481) Os jovens acomodados (24.4.2014)



(foto: Klaus Pichler)

Um artigo de Bruce E. Levine (aqui: http://tinyurl.com/k6zrjsz) discute o conformismo, a passividade e a acomodação por parte da juventude dos EUA, que já foi mais combativa, mais disposta a lutar por causas sociais. Os oito sintomas e causas que ele aponta são locais, mas alguns podem ser extrapolados para outros países, como o Brasil.

Um: débito educativo, e o receio que ele provoca. Cerca de dois terços dos universitários têm uma dívida média de 25 mil dólares, sendo que em alguns casos isto chega a 100 mil.  O sujeito que deve tanto ao governo (e lá essas coisas são cobradas pra valer) pensa duas vezes antes de sair à rua com cartazes de protesto. Dois: patologizar o protesto. Entre outras, a “Oppositional Defiant Disorder” (ODD) é uma doença oficialmente reconhecida: o doente “frequentemente desafia ou recusa-se a cumprir exigências ou regras dos adultos, (...) discute com frequência, (...) deliberadamente faz coisas para aborrecer outras pessoas”. Tarja-preta nele, numa cumplicidade entre pais, médicos e escola.

Três: escolas da obediência. Todo o sistema de ensino tem se voltado para fazer o jovem cumprir regras, atingir metas, temer punições, obedecer. As escolas ensinam teorias democráticas, mas são autoritárias em sua prática. Quatro: educação competitiva. Programas como “No Child Left Behind” e “Race to the Top” estimulam a ansiedade e a competição, e minimizam a curiosidade, a espontaneidade de ação, o pensamento crítico.

Cinco: valorização cada vez maior do ensino formal, em detrimento do aprendizado na família e na rua; mentalidade “quem não tem diploma não sabe de nada”. O autor diz que vai longe o tempo de Mark Twain, que dizia: “nunca deixei a escola interferir na minha educação”.  Seis: normalização da vigilância. Os jovens estão achando cada vez mais normal que a vigilância eletrônica permeie sua vida e suas atividades. Pais controlam a vida dos filhos através de CPS e câmeras domésticas, além de vigiar sua vida escolar via websaites. Isso produz nos jovens uma atitude generalizada de “De que adianta?”.

Sete: televisão (que inclui TV, computadores e celulares). Mídias cada vez mais controladas pelas corporações, programações desviando a agressividade e a energia dos jovens para atividades dissipativas que não envolvem críticas ao regime. Oito: religião fundamentalista, consumo fundamentalista. O consumo torna-se “ópio do povo”, produzindo uma população voltada para o culto ao que é produzido e massificado, e a uma vulnerabilidade maior à linguagem, argumentos e técnicas da propaganda.  Poucos espaços da vida do jovem não são ocupados pela máquina ideológica corporativa.


quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

3420) Isqueiros do Vietnam (12.2.2014)


Os soldados norte-americanos que lutaram no Vietnam criaram todo um folclore próprio em torno de drogas, de música, de episódios de combate, etc.  O saite Juxtapoz (http://bit.ly/1gfD0Ug) faz uma interessante exposição dos isqueiros usados por eles durante a guerra, isqueiros onde eles tinham o hábito de gravar seus nomes e postos, além de imagem, frases, etc.  Hoje esses isqueiros (cujos donos morreram ou voltaram para casa, e cujos objetos pessoais se dispersaram) são procurados por colecionadores de “memorabilia”; arranhados, manchados, amassados, são resíduos humanos de uma situação absurda à qual eles tentavam se adaptar da melhor maneira possível, cada um de acordo com seu temperamento.

Um deles grava em seu isqueiro: “A sucking chest wound is nature’s way of telling you you’ve been ambushed” (“Uma ferida aberta no seu peito é o modo da natureza avisar que você foi emboscado”).  Outro isqueiro diz, numa provocação aos vietnamitas: “Let me win your heart and mind or I’ll burn your god damn hut down” (“Me deixe conquistar seu coração e sua mente, senão eu toco fogo na sua maldita choupana”).  Todo soldado em combate precisa dizer a si mesmo o tempo todo que é durão e que não está com medo, mas poucos serão tão assertivos quanto o que gravou no isqueiro: “Yea though I walk through the valley of the shadow of death I fear no evil for I’m the evilest son of a bitch in the valley”; parodiando o famoso Salmo 23, ele diz: “Embora eu caminhe pelo vale da sombra da morte eu não temerei o mal, porque sou eu o filho-da-puta mais mau que tem no vale.”

Não só as bravatas dos guerreiros, existe também um certo menosprezo pelos pacíficos: “We the unwilling, trained by the unskilled, to do the impossible for the ungrateful ten minutes too late” (“Nós somos os relutantes, treinados pelos despreparados, para fazer o impossível em favor dos ingratos, com um atraso de dez minutos”). Outro afirma: “You have never lived till you’ve almost died for those who fight for it life has a flavor the protected will never know” (“Você nunca viveu se nunca chegou quase a morrer por aqueles que lutam; para eles a vida tem um sabor que os que protegemos nunca conhecerão”).

Frases curtas e definitivas: “Fighter by day, lover by night, drunkard by choice, marine by mistake” (“Guerreiro de dia, amante de noite, bêbado por escolha, fuzileiro por engano”). Ou então: “If I ever look like I give a damn call a dog” (“Se em algum momento parecer que eu me importo, chame um cachorro”). E a nostalgia final de algum californiano anônimo numa praia asiática: “You can surf later” (“Você pode surfar depois”).