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domingo, 12 de junho de 2022

4832) O espião fantasma (12.6.2022)



 
Um curioso personagem de Alfred Hitchcock, no filme “Intriga Internacional” é o agente secreto Kaplan, com o qual Cary Grant é confundido logo no início da história. Durante grande parte da trama, o inofensivo publicitário Roger Thornhill (Grant) sofre sequestros e tentativas de assassinato por parte de outros espiões. 
 
A certa altura, Thornhill descobre que na verdade ninguém jamais vira o sr. Kaplan. Funcionários de hotéis e de aeroportos falam sobre ele com fluência... mas todos os contatos foram feitos por telefone, telegrama, etc.  Ninguém o viu em pessoa. Suas roupas estão no quarto do hotel, o sabonete foi usado, há caspa no pente... Mas ninguém o viu.
 
Kaplan não existe – é um disfarce criado pelo Serviço Secreto para desviar a atenção dos inimigos. Criou-se todo um universo de documentos falsos, recados, mensagens, fotos, registros... sobre um personagem imaginário. É o mais alto grau de rarefação em termos de falsas identidades. Kaplan é um ser humano puramente conceitual.
 
Já falei aqui (“O partido fantasma”, 2004) sobre esses truques de espiões, e sobre um inventado “partido comunista” holandês, criado pela espionagem ocidental, que durante anos enganou as autoridades da China. O partido inexistente tinha membros-de-carteirinha na Holanda (eles pensavam que o partido era de verdade), publicava jornais, etc.  Parecia de verdade, e com isso os holandeses conseguiram se infiltrar entre os comunistas chineses e descolar aqui e ali alguma informação importante.
 
Veja aqui:
https://mundofantasmo.blogspot.com/2008/09/0548-o-partido-fantasma-21122004.html
 
Uma nova variante dessas ficções políticas é narrada no bom filme O Soldado que Não Existiu (“Operation Mincemeat”, 2021), dirigido por John Madden, e que está em exibição no Netflix.
 
É uma história real da II Guerra, com uma premissa bem simples. Os Aliados estavam preparando a invasão do litoral sul da Europa, em 1943. Os generais do Eixo sabiam disso, e se preparavam para enfrentar a invasão; mas não sabiam onde ela iria acontecer.
 
Os ingleses queriam conquistar a Sicília, que estava bem defendida; tiveram a idéia de dar pistas falsas indicando que a invasão seria na Grécia, para que as defesas sicilianas fossem transferidas para lá.
 
Como fazer isso? Um grupo de estrategistas da Inteligência, do qual fazia parte o jovem Ian Fleming (criador de James Bond) deu uma sugestão. Os alemães tomariam conhecimento de que um oficial inglês, munido de uma  pasta com documentos secretos, fora descoberto, afogado, numa praia. Examinando os documentos, teriam pistas da suposta “invasão da Grécia”.
 
Começou então o fascinante processo de encontrar um corpo qualquer, muni-lo de roupas, objetos pessoais, fotos, documentos, uma história militar falsa que os espiões do Eixo pudessem consultar... E uma carta pessoal para uma autoridade, mencionado de passagem a suposta invasão da Grécia.
 
Esta é a premissa do filme, com Colin Firth à frente. Na Wikipédia há um bom verbete sobre a “Operação Mincemeat”, nome real do projeto, detalhando o modo como tudo foi concebido e executado. E aqui há um relato interessante (em português):
 
https://pt.worldwar-two.net/eventos/operacao_carne_picada/
 
É um daqueles filmes ingleses sólidos, convencionais, bem dirigidos, sem ousadias narrativas ou especulações históricas, com um bom elenco e algumas liberdades interpretativas – todo filme de guerra precisa ter um triângulo amoroso, por exemplo.
 
Filmes de espionagem nunca perdem a atualidade, ainda mais agora, quando todo mundo começa a se aperceber da existência de “fake news”, verdades cuidadosamente inventadas, construídas, impostas a um público crédulo ou desprevenido.
 
“Fake news” sempre existiram onde existiu imprensa. Walnice Nogueira Galvão, numa palestra na Flip, lembrou que na época da Guerra de Canudos, a imprensa brasileira estava cheia de notícias dizendo que o exército precisava exterminar logo os fanáticos, porque na costa brasileira havia navios com tropas monarquistas prontas para desembarcar e restaurar a monarquia, caso o Conselheiro triunfasse.
 
O Soldado Que Não Existiu mostra, no contexto de espionagem de guerra, a cuidadosa preparação de uma “notícia falsa” para passar informações errôneas ao inimigo. O fictício Capitão William Martin (nome atribuído ao cadáver do mendigo Glyndwr Michael) tem currículo militar completo, traz na pasta e nos bolsos uma porção de objetos miúdos que os membros da Inteligência britânica discutem exaustivamente – até porque seus superiores no gabinete de guerra duvidam que um plano tão mirabolante dê certo.
 
 
 





domingo, 3 de outubro de 2021

4750) "Os Salteadores Mascarados" (3.10.2021)




No mundo da Arte (e, numa esfera mais milionária e plebéia, no mundo da cultura pop) existe um fenômeno curioso e recorrente em que o efeito precede a causa, e de certo modo acaba sendo a causa da causa.  
 
Por exemplo: alguém escreve uma resenha ou um ensaio crítico a respeito de um livro que não existe. O ensaio torna-se tão conhecido que cedo ou tarde alguém tem a idéia de escrever esse livro imaginário, e ele acaba sendo publicado. O efeito (a crítica) precedeu a causa (o livro), invertendo a ordem natural dos fatos.
 
Isso pode ser feito com diferentes propósitos. Pode ser um recurso ficcional, como a famosa “pegadinha” de Jorge Luís Borges, que introduziu num livro de ensaios críticos (Historia de la Eternidad, 1936) uma resenha de um livro chamado “A Aproximação a Almotásim”. O livro não existia, mas o resumo e os comentários de Borges eram (são ainda) tão interessantes que Adolfo Bioy Casares encomendou o livro a uma livraria de Londres.
 
Pode ser um recurso ficcional que ao longo do tempo vai ganhando mais peso, mais dimensões, até que sua existência torna-se uma obrigação. H. P. Lovecraft inventou em seus contos de terror o Necronomicon, uma espécie de “escritura sagrada do Mal”, de autoria de um árabe louco.
 
Claro que a legião de fãs lovecraftianos acabou produzindo diferentes versões desse obscuro grimório maligno.
 
Ou seja: alguém anuncia que uma obra qualquer existe, e depois alguém se apressa em trazer essa obra à existência.
 
Não foi outra coisa que fez o editor John W. Campbell, da revista Astounding Science Fiction nos idos dos anos 1950. Um leitor da revista mandou uma carta brincalhona afirmando ter recebido um exemplar da revista “vindo do futuro”, e listando os respectivos contos e autores. Campbell levou a brincadeira ao pé da letra e encomendou desses autores os contos com os mesmos títulos. A revista foi publicada, na data “prevista” na carta do leitor.
 
A verdade é que quando uma ficção ou uma reportagem inventam a existência de uma obra imaginária haverá sempre aquele leitor criativo capaz de se deter sobre essa idéia e tentar desenvolvê-la, na base do “se esse livro existisse mesmo, como seria?”.
 
Basta um título, uma sinopse, cotações de alguns trechos, descrição resumida de alguns personagens e episódios... Tudo serve a esse leitor criativo como um mote a ser glosado. Borges não foi o criador do subgênero “Livros Imaginários”, mas soube desenvolver tão bem suas implicações que esses argumentos passaram a ser qualificados como “borgianos”.
 
Em “Pierre Menard, autor do Quixote”, ele alude a um crítico literário cujo projeto fantasioso é escrever um livro idêntico ao Dom Quixote de Cervantes, baseando-se apenas na lembrança que guardava do livro original, lido há muitos anos. Essa sensação tentadora do “livro potencial” é a mesma que experimentamos ao ouvir a descrição sugestiva, surpreendente, estimulante, inspiradora, de uma obra que não existe.
 
Uma das pegadinhas mais interessantes da música popular é a que deu origem à banda imaginária “The Masked Marauders” (Os Salteadores Mascarados), cuja existência foi anunciada num número de 1969 da revista roqueira Rolling Stone, que na época tinha Greil Marcus como editor.
 
Marcus publicou, por curtição, uma nota anunciando o lançamento de uma super-banda que estaria gravando sob esse pseudônimo. A banda seria formada por Mick Jagger, Bob Dylan, e três dos Beatles, com exceção de Ringo Starr. Observe-se que nessa época todos esses artistas estavam num dos “picos” de sua produção e criatividade. Um disco juntando os cinco seria algo para bater vários recordes comerciais, mesmo que a qualidade artística não viesse a ser grande coisa.
 
Os artistas não poderiam aparecer com seus próprios nomes por motivos de contrato, mas poderiam (teoricamente) ser reconhecidos pela voz, pelo estilo de compor, de tocar, etc.
 
Houve uma discussão tão grande nos meios roqueiros da época que os autores do hoax decidiram levar a brincadeira adiante, e contrataram um grupo de músicos para compor e gravar as canções cujos títulos tinham sido anunciados na matéria.
 
Aqui, um artigo que resume a encrenca inteira:
 
https://www.snopes.com/fact-check/unmasked-marauders/
 
Super-bandas desse tipo eram uma possibilidade na época, sendo o exemplo mais famoso o grupo Crosby, Stills, Nash & Young, que juntou de forma inesquecível quatro pesos-pesados do folk-rock e produziu alguns dos melhores discos desse sub-gênero.
 
E alguns anos depois, Bob Dylan e George Harrison (dois dos alegados “Marauders”) uniram-se a Tom Petty, Roy Orbison e Jeff Lyne para formar, sob pseudônimo, a competente banda dos Travelling Wilburys, que lançou três álbuns. As canções eram um material bastante razoável – se levarmos em conta que para quem carregava nas costas o peso dos respectivos currículos aquilo não passava de uma quantaladeirice, uma curtição, sem a menor obrigação de ser sério, apenas o gosto de curtir por curtir.
 
Seria interessante se descobríssemos, em alguma obscura banda de componentes desconhecidos, a presença real de alguns nomes de peso da música pop, “testando a temperatura da água” e vendo se o público seria capaz de percebê-los sob aquele disfarce.
 
Em 2007, Joshua Bell, um violinista consagrado, foi tocar sem qualquer propaganda numa estação de metrô de Washington, vestido com simplicidade. Um maestro e amigo previu que no máximo cem pessoas parariam para escutá-lo. Pelo que registrou a imprensa, das 1.097 pessoas que passaram por ele somente 27 “pingaram” algum trocado na caixa do violino, e apenas 7 se detiveram durante algum tempo para escutá-lo.
 
E a famosona J. K. Rowling, a criadora de Harry Potter, a mulher que já vendeu 500 milhões de livros, tem também suas crises de auto-estima. Não foi por outro motivo que publicou um romance policial com o pseudônimo de Robert Galbraith. A tiragem inicial do romance, The Cuckoo’s Calling, foi de 1.500 cópias, das quais foram vendidas cerca de 500. Quando por fim foi revelado que era ela a autora, a coisa deslanchou e a editora mandou fazer mais 140 mil cópias, por via das dúvidas.
 
Aqui, o disco completo dos Masked Marauders:


domingo, 1 de abril de 2018

4331) "Fake News" versus "Fake Art" (1.4.2018)



As ondas sucessivas de “fake news”, noticiários falsos, mentirosos, caluniosos etc. que se veem na imprensa e nas redes sociais são muitas vezes atribuídas à Internet. “Com a Internet ficou muito fácil falsificar coisas,” dizem os críticos. “Os jovens da era da Internet são ingênuos, acreditam em qualquer mentira,” dizem outros.

A Internet não inventou nada disso. Essas coisas, como se diz na Paraíba, são do tempo em que Adão era cadete.

Num contexto político acalorado, radicalizado, as pessoas querem ser as primeiras a ter conhecimento dos fatos. Quando os “fatos” correspondem aos seus interesses ideológicos (elas passam o dia procurando fatos assim) elas os encampam sem pesquisar, sem checar fontes, sem rastrear de onde veio aquela notícia tão chocante. “Nada mais crédulo do que quem quer acreditar”, como já disse o poeta.

O mais irônico das “fake news” é que nunca foi tão fácil pesquisar a autenticidade de uma informação; e nunca se o fez tão pouco.

A pior coisas dessas “fake news” são duas, na verdade. A primeira é disseminar mentiras, ódio e preconceitos. Esse é o cerne da questão.

A segunda é – e aqui eu chego por fim ao meu território de jurisdição, que é a criação artística --- produzir um discurso pouco nítido contra tudo que é invenção, contrafação, burla, metalinguagem. Existem muitos discursos desorientados contra “falsos contos”, “autores inventados”, “reportagens jornalísticas com excesso de liberdades”, “documentários fake” e assim por diante.

Tem gente que se irrita com Fernando Pessoa por ter inventado poetas que não existiam, com o Dicionário Kazar por contar a história de um povo imaginário, com pseudo documentários estilo This Is Spinal Tap, acompanhando uma banda de rock fictícia.

Há todo um universo de “arte artificial” que não tem nada a ver com mentiras destinadas a enganar alguém e aproveitar-se disto, seja politicamente, seja financeiramente.

Uma porta de entrada para essas práticas é o esclarecedor e bem-humorado filme de Orson Welles, Verdades e Mentiras de Orson Welles (“F for Fake”, 1975). (Foi onde vi pela primeira vez com destaque a palavra “fake”, e nunca mais esqueci.)

Falando de pintores que falsificam quadros, e do cara que falsificou um livro de memórias, Welles mostra que no mundo da criação artística, ao contrário do jornalismo, a invenção faz parte das regras, e nada pode ser considerado verdadeiro ou falso “a priori”. Numa obra de ficção não se aplica o critério de “é verdade ou é mentira”.

O mundo da arte está cheio de obras imitadas, inventadas ou inexistentes, que algumas pessoas bolaram com intenções estéticas – nunca com intenções de “ganhar dinheiro às custas de otários” ou de produzir ódio político.

Muitas dessas obras surgem como experiências estéticas, e o exemplo mais óbvio é o do próprio Orson Welles, quando adaptou A Guerra dos Mundos (1898) de H. G. Wells para uma transmissão em forma de noticiário de rádio, fazendo milhões de norte-americanos acreditarem que os EUA estavam sendo invadidos por marcianos.




Mais interessante do que isto, no entanto é inventar uma obra de arte que não existe, dando sua existência como certa, e administrar as consequências.

H. P. Lovecraft inventou o Necronomicon, o catastrófico manual de poderes ocultos escrito “pelo árabe louco Abdul Alhazred”. Por certo não imaginou que o livro acabaria existindo de verdade. É um livro que lido pode levar à loucura; seu poder é tão forte que os seguidores de Lovecraft já escreveram e publicaram talvez algumas dezenas de versões do “livro que não existe”.


Lovecraft talvez não tenha tido a intenção de “fazer uma pegadinha”. Mas Jorge Luis Borges, que era mais humorista do que ele, certamente a teve quando publicou em 1936, em sua coletânea Historia de la Eternidad, uma resenha detalhada e elogiosa a um livro intitulado A Aproximação a Almotásim, escrito por um indiano chamado Mir Bahadur Ali e prefaciado pela novelista britânica Dorothy Sayers.

O livro não existia, para decepção de alguns intelectuais argentinos que o encomendaram à editora Victor Gollancz, em Londres.


("capa" de George Kranitis)

Borges explicou depois, numerosas vezes, que para ele era muito mais interessante imaginar uma idéia originalíssima para um livro de 400 páginas e, em vez de perder tempo escrevendo-o, fazer de conta que tinha sido escrito por outra pessoa e comentá-lo. Com isso, a idéia central do livro passava a incorporar o banco-de-dados da literatura imaginativa, sem que ele tivesse que redigir 400 laboriosas páginas para isso.

Isto é uma fraude? De jeito nenhum: é ficção, artifício, termos que Borges trouxe para o centro de um debate literário portenho que até então se focava na missão de “reproduzir a realidade”.

No sentido que estou usando neste texto, “Fake Art” não se refere à cópia fraudulenta de uma obra famosa, como Elmyr De Hory, o falsário rico, mostra fazer no filme de Orson Welles.  “Fake Art” é o que faz Borges, dizendo que o livro tal-e-tal existe, comentando-o, levando-o a sério, e depois percebemos que o livro existe, sim, mas só sob a forma daquele comentário.

Para mim, são mais interessantes as obras (como o Necronomicon) que são inventadas e depois, por força de seu poder magnético e sugestivo, acabam sendo criadas por alguém. Como os hronir, os objetos conceituais de outro conto borgeano: mostra-se um terreno qualquer a alguns trabalhadores e se diz que ali há tais e tais objetos enterrados. Eles cavam e acabam encontrando os tais objetos – que na verdade não existiam antes, “foram produzidos pela própria expectativa de encontrá-los”. Em Tlön, quem procura, acha.

Uma divertida história no mundo do rock é a do super-grupo The Masked Marauders, cujo LP foi anunciado, coberto de elogios, numa resenha borgeana da revista Rolling Stone em 1969. A resenha (escrita por Greil Marcus, um dos meus críticos de rock preferidos, sob o pseudônimo de “T. M. Christian”) dizia que o nome da banda escondia super-astros como Mick Jagger, Bob Dylan, os Beatles e outros.



Era uma reunião bastante possível de acontecer, entre músicos amigos que resolvem tocar juntos, sob um pseudônimo. (Mais ou menos como Dylan, George Harrison e outros vieram a fazer anos depois com o grupo The Travelling Wilburys.)  A resenha foi escrita em tom de gracejo, mas começou a ser levada a sério, principalmente pelos fãs e pelos donos de lojas de discos.

Surgiu então a reviravolta genial. Uma banda californiana foi alugada para gravar o disco que não existia, mas cujas faixas haviam sido descritas na revista. A criação meramente conceitual foi concretizada no estúdio. O disco não existia – mas o sucesso da resenha fez com que ele acabasse sendo composto e gravado.

Aqui, uma matéria completa, inclusive entrevistando Greil Marcus e outros perpetradores:


Isto me lembrou um episódio meio obscuro da ficção científica, um dos momentos mais borgeanos que o gênero já vivenciou.

Quando John W. Campbell era editor da revista Astounding Science Fiction, publicou no número de novembro de 1948 uma carta de um leitor (Richard A. Hoen, de Buffalo, NY) elogiando o número de novembro de 1949 da revista, desde a capa de Hubert Rogers até alguns contos que ele citava nominalmente: “What Dead Men Tell” de Theodore Sturgeon, “...And Now You Don’t” de Isaac Asimov, “Gulf” de Robert Heinlein, “Over the Top” de Lester Del Rey e outros.

A carta, é claro, era uma brincadeira do leitor – fingindo que estava escrevendo “do futuro” e comentando contos, inventados, de uma revista que só deveria ser publicada doze meses depois.

Campbell “pegou na palavra” a previsão (ou o “cronoclasma”, paradoxo temporal, segundo John Wyndham) do leitor e teve doze meses para encomendar àqueles autores os contos cujos títulos Hoen havia imaginado. E a Astounding SF de novembro de 1949 saiu quase exatamente (foi impossível reproduzir 100%) como Richard Hoen havia imaginado.



Oscar Wilde dizia que é mais fácil a vida imitar a Arte do que a Arte conseguir imitar a vida. Episódios como estes últimos mostram que obras fictícias ou meramente conjeturais acabam às vezes adquirindo existência real porque impressionam algumas mentes criativas, as quais se dedicam, a partir daí, a trazê-las ao mundo.

Por isso contesto quem chama isso de de fraude, de picaretagem. Toda obra literária tem primeiro uma existência conjetural, imaginária, até que alguém se decida a encarar o trabalho braçal de escrevê-la. Os variados “Necronomicons” produzidos pelos fãs de Lovecraft não serão nunca a obra perfeita (ou a Abominação Absoluta) imaginada por seu criador. Mas são subprodutos dela. São filamentos da criação de Lovecraft.

Afinal de contas, todo livro escrito (de Dante a Shakespeare, de Machado a Guimarães Rosa) é um mero subproduto do livro imaginado pelo próprio autor; mas é de subprodutos assim que a arte e a literatura sempre foram feitas. Ser compararmos cada livro escrito com o livro imaginado pelo seu autor, reconheceremos que toda obra de arte é fake.













quinta-feira, 4 de setembro de 2014

3595) Hoaxes literários (4.9.2014)



Um “hoax” (ou “uma hoax”, nunca se sabe, com esses nomes neutros do inglês) é uma farsa, uma falsificação montada de propósito para parecer verdadeira. Na literatura, geralmente consiste na atribuição de um texto a alguém que não o escreveu. Pode ser um personagem famoso, como no caso dos diários falsos de Hitler comprados e publicados pela revista alemã “Stern” nos anos 1980. E pode ser uma pessoa desconhecida (ou supostamente existente) cujos escritos teriam suficiente interesse literário ou humano para justificar a publicação, como no caso do fictício viciado em drogas J. T. Leroy (ver aqui: http://tinyurl.com/qdugcw9).  Esta página do saite Abebooks lista (e oferece à venda por preços módicos) hoaxes literários de todo tipo, inclusive alguns clássicos como “As Canções de Bilitis”, de Pierre Louys, atribuídas a uma poetisa grega (aqui: http://tinyurl.com/pu5ty5b).  

A literatura, contudo, sempre recorreu ao hoax, mesmo que de modo mais aberto, mais franco. A literatura do século 19 está cheia de obras cuja autoria é atribuída, pelo verdadeiro autor, a um personagem. Em geral são “manuscritos” que o autor do livro diz ter herdado, ou descoberto, ou recebido anonimamente pelo correio. É um recurso tão habitual que Umberto Eco, que o utiliza em “O Nome da Rosa”, intitula o capítulo de abertura do livro assim: “Um manuscrito, naturalmente”. Qualquer leitor já sabe.

Os heterônimos de Fernando Pessoa poderiam ter funcionado como “hoaxes”, nas mãos de alguém mais pragmático. Borges e Bioy Casares poderiam se quisessem fingir que H. Bustos Domecq era uma pessoa real, e teriam uma boa chance de serem acreditados. Há autores que ainda dizem: “Encontrei um manuscrito misterioso de autor desconhecido contando a seguinte e extraordinária história”. Outros já dizem assim: “Conheço um autor chamado Fulano, que vive assim e assado, e eis as coisas extraordinárias que ele escreve.”

O autor inventado faz parte da literatura. Não basta inventar os personagens, é preciso inventar também a cabeça maluca que os inventou. A criação fica terceirizada. Não, não sou eu que penso nessas fantasias doentias e mórbidas: quem gosta disso é meu personagem, o autor deste manuscrito. Claro que eu não tenho nada a ver com isto, estou apenas passando adiante o texto, seguindo as instruções que recebi. Claro que não tenho a menor intenção de dizer que este livro foi escrito há 200 anos por uma poesia do País de Gales. Não, foi escrito por mim. A poetisa do País de Gales, que escreveu os versos que o livro contém, é que foi inventada por mim. É tão fácil inventar um “hoax”. Por que não fazer dele uma parte assumida da invenção literária?


quarta-feira, 28 de agosto de 2013

3276) O robô apaixonado (28.8.2013)




É uma dessas pegadinhas da Internet. Me lembra a história de São Tomás de Aquino no mosteiro. Os jovens monges, para zoar com ele, começaram a gritar, olhando pela janela: “Vinde ver, irmão Tomás! Vinde ver um boi voando!”. O santo veio à janela e pôs a cabeça para fora, procurando o boi. Os rapazes riram e disseram: “Acreditastes mesmo que um boi pode voar?” E ele respondeu: “Achei mais fácil um boi voar do que um religioso mentir.”

A história é provavelmente apócrifa, mas como a li no livro de leitura do colégio, aí vai ela, para não ficar por perdida. Algumas pegadinhas manipulam nossa tendência a acreditar em algo que, mesmo impossível, faz sentido dentro da nossa cultura. Por exemplo: um robô apaixonado. Acreditei piamente na notícia quando vi isto aqui: http://bit.ly/16BCgE8), só para vê-la desmentida minutos depois. Kenji é o robô desenvolvido nos laboratórios da Toshiba, programado para emular (imitar) emoções humanas. Ele desenvolveu comportamentos afetivos e protetores para com uma boneca, com a qual passava o dia abraçado. Quando a boneca lhe era retirada, ele perguntava por ela, insistentemente. O problema principal surgiu quanto Kenji passou a agir do mesmo jeito com uma estagiária que todo dia atualizava seus softwares. Querendo reproduzir com ela o que fazia com a boneca, Kenji recusou-se a deixar a moça sair do cubículo, e foi preciso desligá-lo.

Tudo mentira, claro. A “notícia” já foi desmentida desde 2009 (ver aqui: http://bit.ly/10sf1b5). Por que motivo eu acreditei, então? Acho que porque a história do robô me lembrou a história de Bispo do Rosário. Bispo era um doido, o que não é muito diferente de ser um robô. É um ser a quem se pode atribuir pensamentos e intenções, mas tem limitações evidentes que para nós são mais visíveis do que as nossas, e é imprevisível. Bispo apaixonou-se pela psicóloga que tratou dele na Colônia Juliano Moreira. Tratava-a como se ela fosse Nossa Senhora. No seu mundo delirante, ela era uma representação de beleza, de pureza, de amor desinteressado.

Quer dizer – isso é uma “viagem” minha em cima dos relatos feitos sobre Bispo. Sei tão pouco dos pensamentos de Bispo quanto sei do robô Kenji, mas nunca duvidei da possibilidade de algum deles se apaixonar. Se a história de Kenji é inventada, tanto faz; estamos na contagem regressiva para a produção do primeiro robô capaz de se comportar como uma pessoa apaixonada. E como saberemos se a paixão é verdadeira? Aí, amigos, ninguém sabe. Dependemos sempre da decisão de acreditar, porque jamais saberemos o que se passa noutra pessoa. Quanto a isto, estamos tão desamparados quanto um robô ou um doido.


segunda-feira, 23 de agosto de 2010

2327) Um email nigeriano (22.8.2010)



“Caro senhor: estou incorporando contato para propor oportunidade excelente que você certamente não recuse. Ela é transação comercial sem riscos de sua parte, e a possibilidade de um lucro financeiro substancial. Eu sou o advogado e o executor do testamento para o Sr. Youssef Kingston de Lagos (Nigéria), e eu fui intitulado a essa função por esse cavalheiro antes de seu falecimento no Hospital Central de Lagos. Sr. Kingston, um músico do bem-conhecido e poeta de nosso país, morrido da falha múltipla dos órgãos, deixando nenhuns viúva ou filhos, e nenhuns parentes conhecidos. Eu fui nomeado por ele para ser seu executor, em um original assinado três dias antes de sua morte prematura na idade 32. Nesse original, o Sr. Kingston autorizou-me dispor, em minha vontade, de todos seus dinheiros e propriedades, dado que não teve nenhum parente e era grato para a ajuda que eu o dei ao longo dos últimos anos de sua carreira artística.

“Pelas leis de meu país, eu não posso administrar bens e finanças do Sr. Kingston em Nigéria, mas minha posição em Banco auxilia que eu transfira recursos do Sr. Kingston a uma conta bancária em outra país. Eu escolhi Brasil devido a liberalidade conhecido com que os bancos brasileiros operam esta sorte de transferência de fundos, e também porque eu pretendo, no próximo futuro, se aposentar de meu próprio trabalho aqui em Nigéria e ir viver em Rio de Janeiro. Seu nome foi-me dado por um conhecido mútuo que preferisse permanecer anónimo.

“Conseqüentemente, eu preciso transferir responsabilidades financeiras deixadas por Sr. Kingston, além de endereço onde possa remeter seus recursos pessoais. Basicamente, estes consistem: 1) onze mil e duzentos cópias dos CDs gravados pelo Sr. Kingston com seu grupo “The Screaming Criminals”, CDs recusados por lojas sob as alegações da natureza estética e moral; 2) seis caixas de livros, panfletos, folhetos e magazines do coletivo artístico “Rape and Disorder”, grupo bem conhecido da imprensa e autoridades em nosso país; 3) onze latas seladas com fita crepe, com um peso total de dezoito quilogramas, nenhum conteúdo indicado. Em adição àquele, preciso o número de sua conta bancária pessoal, a fim fazer transferência de todos os títulos públicos, procurações e faturas deixados atrás por meu cliente, cujo balanço financeiro soma DOIS MILHÕES E DOIS CEM MIL DÓLARES AMERICANOS de pensões devidas a diversas ex-esposas, adiantamentos de companhias discográficas e editoras, além do ressarcimento de débitos acumulados a juros compostos junto a ex-locatários e ex-sócios. Eu sou certo que no ambiente financeiro brasileiro não será muito difícil para você extrair um bom lucro da herança do meu cliente. Eu agradeço-lhe para sua atenção, e olho para a frente para escutar de você. Sinceramente, Sr. Franklin Garrison, attorney-at-law.”

sábado, 1 de maio de 2010

1982) Moiré, o infotografável (16.7.2009)



(Moiré, à esquerda)

Existem pessoas não-fotografáveis, pessoas cuja imagem, por alguma razão, é impossível captar através das câmaras? Um artigo de Lytle Shaw, publicado no Cabinet Magazine (http://www.cabinetmagazine.org/issues/7/ernstmoire.php) diz que era justamente isto que acontecia com o fotógrafo suíço Ernst Moiré (1857-1929). As fotos de Moiré que sobrevivem (e que Shaw reproduz em seu artigo) mostram imagens distorcidas. Uma interferência visual impede que seus traços sejam corretamente captados pelas lentes ou reproduzidos depois no papel fotográfico. Segundo ele, Moiré deu seu nome ao efeito muito conhecido nas artes visuais, em que duas séries justapostas de linhas paralelas produzem um efeito de ondas ou de curvas distorcendo as linhas que as compõem.

Ou teria sido o contrário? O efeito já existia, e Shaw, numa jogada borgiana que hoje já virou lugar comum (eu mesmo a emprego a três por dois) inventou um autor fictício para justificar o nome? Diz ele que Moiré existiu, sim, e que, segundo o governo suíço, um fotógrafo chamado Moiré era considerado, na Suíça dos anos 1920, como impérvio à fotografia, e que esses seus desaparecimentos bizarros tornaram-se uma fonte de orgulho nacionalista. Moiré era louvado, por ser um Ludita anti-tecnológico, pelos membros anti-modernistas da cultura popular suíça, por essa sua “neutralidade visual” que driblava o rigor tecnológico. Diz-se (continua Shaw) que os arquivos municipais de Zurique abrigam uma coleção de fotografias em que aparece uma figura borrada, “ilegível”, que seria em todos os casos o próprio Moiré.

O artigo de Shaw prossegue relatando sua ida a Suíça, financiada pelo “Cabinet Magazine”, sua exumação do passado da família Moiré, e sua descoberta de outros detalhes enigmáticos da vida do fotógrafo, como o fato de que costumava não assinar os próprios documentos, e de que fez várias descobertas técnicas no campo da reprodução fotográfica mas foi incapaz de patenteá-las, sendo sistematicamente ultrapassado por outros pesquisadores que, hoje, figuram nos livros de História. A criação do termo “efeito Moiré” deveu-se a um erro de impressão (placas fotográficas mal alinhadas, produzindo um borrão) num trabalho para o governo; o sócio de Moiré, Willi Ostler, tentou esquivar-se à fúria do contratante dizendo que o defeito de impressão tinha sido culpa de Moiré.

Bem, não posso resumir aqui todo o longo artigo de Shaw. Seja ele verdadeiro ou seja uma “pegadinha” borgiana, o fato é que o tema do indivíduo infotografável foi retomado por Bruce Sterling em sua série de histórias sobre o personagem Leggy Starlitz, uma espécie de herói picaresco do século 21, eternamente envolvido com contrabando, negociatas, espionagem industrial e política. Toda vez que alguém tenta fotografá-lo ou filmá-lo, a máquina enguiça. Por que? O próprio Starlitz não sabe. Pode ser o efeito Moiré: o fato de que o Mito só é visível para a mente.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

1891) Poe: “O Embuste do Balão” (1.4.2009)



(gravura de Odilon Redon)

O conto de Edgar Allan Poe “O Embuste do Balão” (“The Balloon-Hoax”), apesar de se apresentar sob este título, contou com a credulidade de milhares de leitores. O texto noticiava a primeira travessia do Atlântico num balão, levada a efeito em três dias por um grupo de europeus. Publicado em 1844, era uma tentativa de Poe de repetir o sucesso de sua “Aventura sem par de Hans Pfaall” de 1835. Apesar do título se auto-denunciar, o início do conto era em forma de manchete com letras enormes, que logo atraíam a atenção dos leitores: “Notícias espantosas e urgentes, via Norfolk! O Atlântico atravessado em três dias! Triunfo notável da máquina voadora de Mr. Monck Mason! Chegada à ilha de Sullivan, perto de Charleston, dos srs. Mason, Robert Holland, Henson, Harrison Ainsworth e de outras quatro pessoas, no balão dirigível ‘Victoria’, depois de uma travessia de 65 horas de um continente a outro! Relato detalhado da viagem!”

O toque de plausibilidade era dado pela lista dos viajantes. Mason, Holland e Henson eram aeronautas famosos da época, e volta e meia a imprensa noticiava suas excursões em balões na Europa. Ainsworth era um conhecido escritor inglês, discípulo de Walter Scott. O texto de Poe descreve com detalhes o modelo do balão, seu modo de ascensão e descida, e depois finge transcrever textos de um diário de bordo mantido pelos viajantes. No final, diz Poe: “Esta é sem dúvida a empreitada mais estupenda, mais interessante e a mais importante já levada a efeito ou mesmo tentada pelo homem. Quanto aos acontecimentos magníficos que deverão se suceder agora, seria inútil tentar prevê-los”.

Seria difícil imaginar, hoje, alguém fazendo na imprensa um embuste – uma brincadeira de 1o. de abril, digamos – em torno de uma façanha proporcional a esta – uma nova viagem tripulada à Lua, por exemplo, ou quem sabe o desembarque de alienígenas. Na época da imprensa escrita, quando se disseminava uma notícia falsa, mas de grande repercussão, era preciso algum tempo até que os desmentidos alcançassem a mesma difusão, e nada garantia que isto acontecesse. Hoje, com a comunicação praticamente instantânea, mas interligada, rádios e TVs vigiam-se umas às outras e é muito difícil divulgar uma mentira bombástica sem que ela seja imediatamente investigada e desmentida pelos concorrentes.

Os embustes de nossa época são os embustes sutis, discretos, que vão crescendo na sombra e nos interstícios. São mitos como o da Área 51 (onde teria caído um disco voador), ou da encenação, por parte dos norte-americanos, do pouso da Apollo 11 na Lua, o qual na verdade não teria ocorrido. No tempo de Poe, e até mais recentemente, como no episódio da Guerra dos Mundos de Orson Welles, pelo rádio, era possível um ataque frontal à credulidade do público. Hoje, esse ataque é feito “pelas beiradas”, com as famosas Teorias da Conspiração, em que alguém nos “revela” fatos bombásticos e extraordinários a meia-voz, pedindo segredo.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

1885) Poe: Os embustes de jornal (25.3.2009)



Edgar Allan Poe é conhecido como precursor do romance policial e da história de terror, e se considerava acima de tudo um poeta, no sentido romântico do termo: um criador da Beleza através de palavras. 

Para sobreviver, foi jornalista a vida inteira, colaborando em jornais e editando diversas revistas literárias. E essa vivência o colocou no centro de uma tendência do século 19 que teve amplificações curiosas no século 20. 

Essa tendência foi a dos embustes jornalísticos – matérias inventadas que se faziam passar por relatos autênticos, e muitas vezes iludiam por completo um público leitor que, carente de informação mas incapacitado de encontrá-la por conta própria, acabava acreditando nas peças que jornalistas desocupados lhes pregavam. 

O primeiro embuste bem sucedido de Poe foi “A Aventura Sem Par de Hans Pfaall”, publicado no Southern Literary Messenger, de Richmond, em junho de 1835. O texto é basicamente uma carta escrita por um holandês às autoridades de Amsterdam, narrando com detalhes sua viagem de balão até a Lua, e fornecendo alguns detalhes sobre a paisagem e os habitantes lunares. 

Poe tinha conhecimentos sólidos de astronomia e de balonagem, e era um leitor veloz e onívoro quando precisava informar-se sobre algo. Seu relato, apesar do tom evidentemente satírico (e de um pós-escrito que praticamente entrega o embuste) tinha um tom de tal verossimilhança astronáutica que enganou muitos leitores. É bem possível que essa narrativa tenha fornecido a Julio Verne boa parte da inspiração para seu clássico Da Terra à Lua (1865). 

Poe preparou o terreno para o que ficou conhecido como “O Grande Embuste Lunar”, perpetrado pelo jornal New York Sun a partir de agosto daquele ano, dois meses após “Pfaall”. Os artigos proclamavam que Sir John Herschel (um dos maiores astrônomos da época) tinha descoberto pelo telescópio sinais de vida na Lua. Cada novo artigo dava mais detalhes, alternadamente verossímeis e fantasiosos, sobre a fauna selenita. O jornal conseguiu uma vendagem espantosa nesse período, e a autoria dos artigos, ainda que duvidosa, é hoje atribuída a Richard Locke, jornalista do Sun

Poe ficou um tanto enciumado. O tom satírico de seu próprio texto tinha impedido que ele fosse tão levado a sério quanto dos artigos de Locke, que eram escritos, como dizemos hoje, “na maior cara de pau”. Ele estava na época trabalhando numa continuação das aventuras de “Hans Pfaall” mas abandonou o projeto, por achar que depois do embuste do Sun ser confirmado ninguém mais poderia levá-lo a sério. 

O mais interessante dos embustes de qualquer natureza é que por mais implausíveis que sejam acabam sendo acreditados por milhares ou milhões de pessoas. Nos anos 1830, em que circulavam as mais espantosas (para a época) descobertas astronômicas através de telescópios, e que a navegação por balões se tornava uma realidade, qualquer aventura dessa natureza poderia ser acreditada.






sábado, 14 de novembro de 2009

1366) A enganação literária (31.7.2007)



Falei dias atrás sobre o escritor J. T. Leroy, autor de livros sobre sua vida como garoto de programa de beira de estrada, viciado em drogas, portador do HIV. Leroy lançou livros, teve obras filmadas, e depois descobriu-se que ele não existia. Era um pseudônimo de uma escritora que recorria a uma enteada para desempenhar o papel de “Leroy” em público. “Ele” esteve no Brasil em 2005, na Flip (Festa Literária de Paraty), e deu entrevistas que exploravam sua aparência andrógina, quase transexual. Em 2006 a verdade saiu nos jornais. E agora as pessoas (e os tribunais) discutem: Isso é crime? Falsidade ideológica, ou coisa equivalente?

Não vou discutir os aspectos jurídicos, mas os literários. Existem autores que só escrevem sobre seu próprio mundo. Escrevem com sua verdade pessoal, sua visão pessoal, sua experiência pessoal. Escritores assim são maus criadores de personagens, porque só sabem falar do que conhecem. Jorge Luís Borges e Henry Miller, por mais diferentes que sejam, têm isso em comum. Falam sobre seus próprios mundos; não saberiam, por exemplo, escrever um romance na primeira pessoa contando a vida de uma dona-de-casa numa fazenda.

Outros autores, contudo, sabem colocar-se na pele de personagens imaginários, vivenciar mentalmente situações que nunca conheceram, produzir em si próprios emoções fictícias. Quando Flaubert disse “Madame Bovary sou eu” deu a formulação mais simples desse processo, porque foi dentro dele, Flaubert, que se criaram as complexas emoções e vivências daquela mulherzinha boba, banal, ambiciosa, que, em princípio, em nada se parecia com Flaubert. Quando chamam Chico Buarque de “o Chico Xavier da alma feminina”, os críticos colocam essa questão da pseudo-mediunidade, da técnica (pois é uma técnica) de imaginar-se sendo outra pessoa, pensando com ela, sentindo com ela. Alguns sabem fazer. Outros não.

J. T. Leroy tem um livro, adaptado para o cinema, com o título The Heart is Deceitful Above All Things – “O Coração é Enganador Acima de Tudo”. O que nos traz aos versos de Pessoa: “O poeta é um fingidor / finge tão completamente / que chega a fingir que é dor / a dor que deveras sente”. Emoções podem ser verdadeiras mesmo produzidas por uma vivência não real – o cinema está aí para isso, não é mesmo? Para que recebamos por duas horas o espírito daquele personagem interpretado por Dustin Hoffmann ou Fernanda Montenegro, soframos com ele, riamos com ele, identifiquemo-nos com seus menores trejeitos faciais, com as menores inflexões de sua voz. São falsas, essas emoções que nos violentam na sala escura? Não acho. São as mesmas de um escritor que as produz conscientemente em si próprio, num gabinete silencioso, a sós diante do computador. Guimarães Rosa dizia: “De repente, o diabo me cavalga”. Não o Diabo cristão: mas o “Daimon” grego, o espírito criador que pede para dizer algo. Se lhe inventamos um nome e uma biografia, aí são outros quinhentos.

1364) A história de J T Leroy (28.7.2007)


(J. T. Leroy?)

Falei aqui recentemente sobre os “fantasmas escritores”, que não são o que em inglês se chama de “ghost writers”. Meu artigo era sobre os escritores mediúnicos como Chico Xavier ou Zíbia Gasparetto, pessoas que crêem na doutrina espírita de que a alma é imortal e pode se comunicar com os vivos. Esses escritores entram em transe, recebem (dizem eles) o espírito de escritores já falecidos e produzem novas obras literárias.

Nos tribunais americanos está rolando um processo judicial envolvendo a obra autobiográfica do escritor J. T. Leroy, que estreou em 2000 com o livro Sarah (publicado no Brasil pela Geração Editorial), onde contava sua infância sofrida como filho de uma prostituta de beira de estrada que atendia caminhoneiros. Leroy cresceu e tornou-se também garoto de programas, atendendo aos fregueses de sua mãe. A história era arrepiante, cheia de uma verdade pungente. O livro ficou famoso, vendeu pra caramba, teve os direitos adquiridos para o cinema... a trajetória habitual dos sucessos nos EUA. Aí descobriu-se que era tudo invenção. J. T. Leroy não existia: era a invenção de uma escritora chamada Laura Albert.

Os produtores do filme sentiram-se lesados. Julgavam estar comprando uma história autobiográfica; se os fatos do livro eram ficção, aquilo mudava tudo. Mas aí Laura Albert foi mais fundo. Revelou que J. T. Leroy era na verdade um “alter ego”, uma dupla personalidade real, alguém que tinha existência própria e vivia dentro de sua mente. Sua mãe testemunhou, no tribunal, que a filha tinha graves depressões, foi internada várias vezes, e era de uma timidez patológica: chegou a ficar três anos sem sair do quarto. Nesse quadro de neurose e desepero, J. T. Leroy emergiu (diz a escritora) como um respiradouro, uma válvula de escape. E foi ele quem passou a se comunicar com o mundo, por escrito.

Notem bem: a sra. Albert não alega estar captando o espírito de alguém que morreu. Tecnicamente, trata-se do contrário: alguém que nasceu dentro dela, sem ter tido uma existência corpórea. A psiquiatria trata isto como caso de “dupla personalidade”, e os exemplos na história médica são numerosíssimos. O que isto tem de interessante para a literatura é o fato de que pessoas provavelmente incapazes de escrever um livro por conta própria conseguem fazê-lo quando imaginam que são outra pessoa, seja essa pessoa um autor famoso como Balzac ou Eça de Queiroz (já “canalizados” por médiuns brasileiros) ou um autor fictício como J. T. Leroy.

A dissociação psíquica e a divisão literária da personalidade podem ser um processo consciente, deliberado, sob controle: está aí “Fernando Pessoas” que não me deixa mentir. A vida e a obra de Zíbia Gasparetto, Laura “J. T. Leroy” e Pessoa (com seus heterônimos) são talvez diferentes facetas de um mesmo processo de criação de uma “voz literária”, que deveria ser tratado pela ciência e pela crítica literária com uma percepção mais ampla do que realmente ocorre.

sábado, 29 de março de 2008

0322) O efeito Ono-Chapman (1.4.2004)


(Yoko Ono)

Quando ouvi a notícia, não acreditei, e corri à Internet para verificar. Pensando bem, se fui verificar é porque acreditei um pouquinho, não é verdade? Se não acreditasse, encolhia os ombros e ia pensar noutra coisa. Mas a notícia era tão fantástica que merecia ser checada. Yoko Ono está noiva de Mark Chapman, o assassino de seu marido John Lennon. A julgar pelas informações, nos últimos anos Yoko fêz uma série de visitas a Chapman (que cumpre prisão perpétua na prisão de Attica), como parte de uma campanha mundial voltada para a paz e o perdão. Nesses contatos, Chapman abriu o coração, e confessou as inseguranças e paranóias que o levaram ao crime. Tocada pela sua evidente sinceridade e pelo seu arrependimento, Yoko foi aos poucos se apaixonando pelo rapaz, que afinal de contas era apenas mais um beatlemaníaco como tantos outros... E os dois teriam anunciado em público o seu noivado.

Parece absurdo, não é mesmo? Tanto parece que é. É mais um dos inúmeros primeiros-de-abril (desta vez um tanto adiantado) que todo ano circulam na Internet. Quem quiser ver o texto completo da pegadinha pode ir ao saite Tomate Maravilha (http://tomate2.blogger.com.br/) . Tudo bem, era só brincadeira. Mas por que essas coisas colam? Porque, no fundo, sabemos que nada é tão absurdo que não seja possível, ou, pelo menos, nada que dependa dos sentimentos e das emoções humanas. Jorge Luís Borges comentou certa vez que os romances psicológicos o entediavam porque neles as atitudes mais implausíveis tinham plena justificação dramática: “suicidas por felicidade, assassinos por benevolência, pessoas que se adoram a ponto de se separarem para empre, delatores por fervor ou por humildade...”

Pois é: acreditei. E olhe que em todo o “affair” da separação dos Beatles sempre fui um defensor de Yoko, a quem absolutamente não responsabilizo pelo fim da banda. O problema ali era a administração caótica deixada por Brian Epstein, a ingenuidade financeira dos meninos, e muito oba-oba regado a LSD. A incompatibilidade das esposas, Yoko e Linda Eastman, pode ser sido uma mera gota dágua. Dizem que Yoko é feia e canta mal, mas, e daí? Queriam que um cara como Lennon casasse com quem – com Sandy? Yoko é uma artista competente, dentro dessa coisa nebulosa que é a arte conceitual; e, aqui pra nós, passei uns 20 anos plagiando os poemas dela em Grapefruit, excelente livro.

A gente acredita porque sabe que todo mundo é capaz de tudo. Nunca tenhamos certeza, amiguinhos. Nós mesmos, volta e meia, estamos fazendo coisas que jamais imaginaríamos. Percebi isto quando vi um clássico no “Amigão” em que Pedrinho Cangula jogou pelo Treze, e Carioca jogou pelo Campinense. Não precisa mais nada para me provar por a + b que nada é impossível, que nunca devemos ter 100% de certeza, que em qualquer situação humana o “efeito Ono-Chapman” está de emboscada, pronto para puxar o tapete sob nossos pés e nos levar ao inferno ou ao paraíso.