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segunda-feira, 3 de junho de 2019

4473) "Do amor e outros demônios" (3.6.2019)



Os estudiosos da obra de Gabriel Garcia Márquez citam o parágrafo de abertura de Cem Anos de Solidão (1967) como um dos mais brilhantes da literatura. É o famoso trecho onde ele se refere ao gelo e ao pelotão de fuzilamento.

Numa entrevista a Armando Durán, em Caracas (1968), o escritor comentou um aspecto importante de sua técnica de escrita.

O problema mais árduo é escrever o primeiro parágrafo. Pode levar muitos meses, e inclusive muitos anos, até que eu tenha a noção exata de como deve ser. Só quando está escrito o primeiro parágrafo se pode decidir, de forma definitiva, se a história tem futuro, e só então sabemos qual será seu estilo e sua extensão, e quanto tempo será necessário para escrevê-la.

Parece um exagero, mas isto tem muito a ver com a curiosa personalidade desse autor, uma mistura interessante de objetividade e fantasia.

Li há pouco sua novela Del Amor y Otros Demonios (1994), um relato de paixão sexual e possessão diabólica que poderia ser comparado, por um resenhista menos respeitoso, a um cruzamento entre Lolita e O Exorcista.


É a história de Sierva Maria de Todos los Ángeles, uma menina de doze anos, com uma cabeleira que lhe desce abaixo da cintura, e da paixão catastrófica que ela desperta no padre Cayetano Alcino del Espíritu Santo Delaura y Escudero, encarregado de seu exorcismo.

A menina não está propriamente possuída pela demônio. Seu pai, um nobre de Cartagena das Índias, tem motivos para supor que ela contraiu hidrofobia, mas os acessos a que ela é sujeita levam o bispo local a providenciar para que ela seja exorcizada, pois a mera raiva não seria capaz de produzir os fenômenos ofensivos que a acometem.

Eis o primeiro parágrafo do livro (tradução de Moacir Werneck de Castro):

Um cachorro cinzento com uma estrela na testa irrompeu pelos becos do mercado no primeiro domingo de dezembro, revirou mesas de frituras, derrubou barraquinhas de índios e toldos de loterias, e de passagem mordeu quatro pessoas que se atravessaram no seu caminho. Três eram escravos negros. A outra foi Sierva Maria de Todos los Ángeles, filha única do marquês de Casalduero, que fora com uma empregada mulata comprar uma fieira de guizos para a festa de seus doze anos.


Garcia Márquez era um cinéfilo, fez crítica de cinema, deu cursos de roteiro, foi um dos criadores de uma famosa escola de cinema em Havana. O livro Como Contar um Conto transcreve suas conversas com seus alunos dos cursos de roteiro, e mostra o modo descontraído, tentativo, sempre aberto e sempre crítico, com que ele procura abordar as possibilidades de uma história a ser contada.

Esse primeiro parágrafo é muito cinematográfico ao descrever uma ação veloz e contínua, a disparada do cachorro através do mercado, como se a câmera o estivesse seguindo de perto. E ao mesmo tempo ele vai temperando a ação física imediata com aquelas informações gerais que só um ponto de vista distanciado, como o da literatura, pode fornecer: “filha única do marquês”, “para a festa de seus doze anos” – informações que daria muito trabalho “mostrar” e é mais simples “dizer”.

A história se passa em Cartagena das Índias, a cidade-porto onde Márquez viveu em diferentes períodos de sua vida, e já neste trecho inicial temos a convivência misturada entre marqueses e escravos, um dos eixos da narrativa.

E o cachorro-doido nos conduz, nesse trecho, à protagonista da história, essa menina de doze anos que se torna o epicentro de um torvelinho social, sexual e religioso.

Sierva Maria de Todos los Ángeles é filha de um nobre arruinado e depressivo, e de sua esposa espertalhona, uma matrona ninfomaníaca viciada em “mel fermentado e barras de cacau”. Os pais não gostam da menina. Esta é “adotada” pelos escravos, dorme na senzala com eles, canta suas cantigas, fala sua língua. E tem um temperamento indomável.


A mordida do cachorro produz suspeitas de hidrofobia que se estendem por toda a primeira metade do livro e levam o pai arrependido a pedir o socorro de um médico agnóstico e do bispo local. A menina é refratária a qualquer tratamento, e quando está ensandecida dana-se a praguejar em iorubá. O bispo diz que é caso de exorcismo, e a garota se transforma numa Linda Blair que precisa ser amarrada à cama.

Até que entra a segunda peça mais importante do jogo, o padre Cayetano Escudero que, encarregado de exorcizar a possessa, acaba deixando-se possuir (espiritualmente, pelo menos) por ela. E aí fecha-se um nó esboçado nas primeiras linhas do livro, porque, tal como o cachorro-doido, o padre Cayetano tem cabelos negros e com uma mecha branca por cima da testa. É ele, na verdade, e não o cachorro, o desencadeador da desgraça final.

O ambiente colombiano descrito por Garcia Márquez lembra muito o universo “casa grande e senzala” de Gilberto Freyre, com aqueles nobres cultos que falam latim e nunca trabalharam, vencidos pela indolência, amorrinhando-se na rede o dia todo à sombra das mangueiras, cedendo à promiscuidade com os escravos, vivendo em mansões semi-desmoronadas por onde passeiam galinhas e bodes.

Europa e África são os dois polos culturais da história, e Sierva Maria acaba se tornando um corpo europeu de menina branca, com quilométrica cabeleira ruiva, possuído por superstições africanas, folguedos africanos, um certo desprezo pela dor física e uma certa indiferença ao sofrimento moral.


Esse magnetismo africano é sugerido no terceiro parágrafo, quando se fala que naquele mesmo dia estava sendo posta à venda no mercado

...uma única abissínia, de sete palmos de altura, untada com melaço em vez do óleo comercial de rigor, e de uma beleza tão perturbadora que parecia mentira. Tinha o nariz afilado, o crânio acabaçado, os olhos oblíquos, os dentes intactos e o porte equívoco de um gladiador romano. Não a ferraram no barracão, nem anunciaram sua idade e estado de saúde; puseram-na à venda por sua beleza apenas. O preço que o governador pagou por ela, sem regatear, e à vista, foi seu peso em ouro.

Essa escrava reaparece perto do fim do livro, quando o Vice-Rei passa pela cidade e o governador lhe oferece um jantar. A escrava é trazida nua à sua presença, e o Vice-Rei, perturbado, afasta os olhos e diz: “Tirem essa mulher daqui”.

"Essa mulher" reflete, de algum modo, a potência do desejo sexual reprimido que leva à desgraça a menina selvagem de doze anos e o padre exorcista que se apaixona pelo demônio que o encarregaram de expulsar.











quinta-feira, 27 de agosto de 2015

3903) O dia da Abolição (27.8.2015)



(A Princesa Isabel; no destaque, Machado de Assis)


Em 1888, dias antes da assinatura da Lei Áurea, o pai de Lima Barreto, que era funcionário público, chegou em casa e disse ao filho: “A lei da Abolição vai passar no dia dos teus anos.”  

O que de fato aconteceu (Lima nascera em 13 de maio de 1881). O escritor estava na multidão diante do Paço Imperial, que aos seus olhos tinha a altura de um “sky-scraper” (ainda não tínhamos inventado o termo “arranha-céu”). Viu falar um homem, muito aplaudido, mas não tem certeza se era José do Patrocínio.

Diz ele: 

Havia uma imensa multidão ansiosa, com o olhar preso às janelas do velho casarão. Afinal a lei foi assinada e, num segundo, todos aqueles milhares de pessoas o souberam. A princesa veio à janela. Foi uma ovação: palmas, acenos com o lenço, vivas... Fazia sol e o dia estava claro. Jamais, na minha vida, vi tanta alegria. Era geral, era total; e os dias que se seguiram, dias de folganças e satisfação.

Ele lembra também a missa campal celebrada no Campo de São Cristóvão, quando então viu a princesa imperial mais de perto. Ela lhe pareceu “loura, muito loura, maternal, com um olhar doce e apiedado”.  Recentemente circulou nas redes sociais uma foto dessa comemoração em São Cristóvão, onde a princesa aparece cercada de autoridades, e muita gente viu num dos homens à sua volta o rosto de Machado de Assis.

É interessante ver as impressões de um dos nossos primeiros grandes escritores negros sobre este dia. Lima as escreveu num artigo de 1911 (republicado em Um Longo Sonho do Futuro, Graphia, 1993), e diz, com certa candura: 

Eu tinha então sete anos e o cativeiro não me impressionava. Não lhe imaginava o horror; não conhecia a sua injustiça. Eu me recordo, nunca conheci uma pessoa escrava. Criado no Rio de Janeiro, na cidade, onde já os escravos rareavam, faltava-me o conhecimento direto da vexatória instituição, para lhe sentir bem os aspectos hediondos.

Ele lembra a alegria da criançada no colégio em que estudava, à Rua do Resende: 

Com aquele feitio mental de criança, só uma coisa me ficou: livre! livre! Julgava que podíamos fazer tudo que quiséssemos; que dali em diante não havia mais limitação aos propósitos da nossa fantasia. Parece que essa convicção era geral na meninada, porquanto um colega meu, depois de um castigo, me disse: Vou dizer a papai que não quero mais voltar ao colégio. Não somos todos livres?

As grandes agitações políticas têm esse poder de nos jogar na euforia, quando na verdade temos apenas a idéia mais superficial e enganosa sobre o que de fato está acontecendo. As ilusões passam, mas se a alegria foi grande, a lembrança dela é o que fica. Não se cancelam as alegrias retroativamente.




quarta-feira, 26 de março de 2014

3456) Ferrovia subterrânea (26.3.2014)


“The Underground Railroad” foi uma organização clandestina criada nos EUA para facilitar a fuga de escravos.  Era uma série de endereços ao longo de uma linha, como uma linha de metrô onde em cada “estação” era possível esconder-se, descansar, alimentar-se, etc., mas o trajeto entre uma e outra geralmente era feito pelos fugitivos na base do “cruze os dedos e seja o que Deus quiser”.  Há um bom livro que reúne histórias de escravos e abolicionistas: Forbidden Fruit – Love Stories from the Underground Railroad de Betty DeRamus (New York, Atria, 2005).  De pouso em pouso, os escravos fujões se afastavam cada vez mais, indo rumo ao Norte, já que a maior parte da mão-de-obra escrava vivia no Sul.

Não sei se houve algo parecido aqui no Brasil, mas Joaquim Nabuco em Minha Formação (1900) faz referências às atividades abolicionistas de André Rebouças. No capítulo 21 de seu livro, Nabuco transcreve um itinerário redigido por Rebouças para a fuga de escravos paulistas rumo ao Ceará:

“Caminho de Ferro Subterrâneo do Alto São Francisco ao Ceará Livre. Estação inicial: São Paulo, junto ao túmulo de Luís Gama. Segunda estação: Pirassununga.  Terceira estação: Cachoeira de Mogi-Guaçu.  Quarta estação: Em pleno sertão, com rumo de Nordeste; o Sol deve amanhecer à direita e cair, à tarde, à esquerda.  Quinta estação: Piunhi, nascente do rio São Francisco, acompanhando sempre o belo rio, abundante de peixes e de frutos deliciosos.  Sexta estação: De um lado Goiás livre; do outro o sertão da Bahia, onde não há capitães-do-mato.  Sétima estação: Na Vila da Barra, onde começam as grandes cachoeiras do São Francisco.  Oitava estação: No varadouro das águas do São Francisco, para as do Parnaíba. Nona estação: no Paraíso – no Ceará Livre.”

Nabuco avalia esse texto de Rebouças como “pura fantasia, mas tão cheio para todos nós de vestígios de sua originalidade, de toques de sua generosa sensibilidade, quase impessoal”. 

Foi por acaso que descobri esse “exército das sombras” protegendo os negros dos EUA. Joguei “underground railroad” no Google para fazer uma pesca de livros de FC que usassem essa imagem. Por que?  Por causa do romance de Emilia de Freitas A Rainha do Ignoto (1899), descrevendo uma ilha no litoral do Ceará, onde se chega por um trem subterrâneo, num reino só de mulheres. O livro tem influências feministas e abolicionistas.  Na época em que a autora cearense escreveu, a expressão devia circular na imprensa abolicionista da época, e o que fez ela?  Recriou fisicamente essa expressão que antes era meramente metafórica.  No livro dela, entra-se numa gruta, pega-se o trem subterrâneo, chega-se à ilha.


quarta-feira, 19 de março de 2014

3450) Senhores e escravos (19.3.2014)




(Frederick Douglass, 1818-1885)


Maîtres et Esclaves foi o título dado em francês ao nosso Casa Grande & Senzala (1933)  de Gilberto Freyre.  Um livro clássico e polêmico desde o início, remexendo nas camadas inconscientes e coletivas da civilização do açúcar, e reorientando discussões sobre escravidão e raça.  

Já li Freyre escondido de alguns amigos, para os quais ele era um burguês que negava a existência de racismo no Brasil.  Freyre era um burguês, sim, mas, como ele mesmo observa em O Camarada Whitman (1948), “burguês não no seu sentido marxista mas no francês, no flaubertiano, em que se contrapõem não burguês e proletário, mas burguês e artista”.  É medida do seu talento e de sua complexidade ter sido burguês e artista com intensidade igual.

Freyre descascou muitas camadas emocionais dos séculos de contato íntimo entre famílias brancas e escravos pretos. Citei dias atrás Joaquim Nabuco, em Minha Formação (1900), falando dos laços de afeto entre senhores e escravos. Naquele livro, Nabuco anota em seu diário, em 1877, durante sua estadia nos EUA: 

“19 de junho. Os jornais têm hoje um fato interessante: a visita feita por Frederick Douglass ao seu velho senhor, que deixou na adolescência, para começar a vida de aventuras que o levou até a ser ‘marshall’ em Washington e o grande orador da abolição que foi. ‘Vim antes de tudo,’ disse Douglass, ‘ver meu velho senhor, de quem estive separado quarenta e um anos, apertar-lhe a mão, contemplar-lhe o velho rosto bondoso, brilhando com o reflexo da outra vida’”.

Nabuco diz que essa cena o comove mais do que A Cabana do Pai Tomás. A reconciliação entre o ex-escravo e o ex-dono, que ele não via desde os dezoito anos, se deu após a Guerra da Secessão e a emancipação dos escravos, quando Douglass já era escritor e orador famoso, e já tinha até se candidatado a vice-presidente dos EUA.  

E olha que, segundo os registros, o Capitão Thomas Auld, nos velhos tempos, entregou Douglass a um feitor tido como “amansador de escravos”, para meter a chibata no rapaz e fazê-lo desistir de ler e de discutir idéias. (Não conseguiu, claro.)

O episódio, que Nabuco considera “uma das mais profundas e penetrantes apresentações do fato moral complexo da escravidão”, se deu no contexto de uma nação ensanguentada e partida ao meio por uma Guerra Civil que deixou quase 700 mil mortos. 

Parece que naquele momento valeu mais a pena, para ambos, deixar que as feridas cicatrizassem, e tentar reunir cidadãos de boa vontade para renegociar o futuro. 

A escravidão foi um crime que só deixou três respostas possíveis: a vingança, o perdão e a justiça.  Difícil é definir a natureza e a medida de cada uma.






quinta-feira, 6 de março de 2014

3439) "Minha Formação" (6.3.2014)



Uma autobiografia é um livro onde um cara demonstra que quem tinha razão era ele; mas nem sempre. O clássico Minha Formação (1900), de Joaquim Nabuco, tem esse lado em seu terço final, onde o autor trata do movimento abolicionista, mas como o grosso da sua munição tinha sido usado no maciço O Abolicionismo (1883), estas memórias são, curiosamente, não as de um político triunfante, mas as de um escritor frustrado. A primeira metade do livro passa rapidamente pela infância e adolescência e decola quando Nabuco parte em 1873 para a Europa, cheio de aspirações políticas e literárias.

Seus capítulos sobre a França, a Inglaterra e os EUA são excelentes, inclusive nas comparações que faz entre estes últimos.  Hoje, um século e meio depois, elas se mantêm de pé, indicando que ele soube captar em poucas páginas o espírito de cada povo (ou traços essenciais desse espírito). Sobre o racismo e a abolição, falarei outro dia; o que me interessa aqui é observar o quanto esse escritor de cultura vasta e estilo admirável foi subtraído à literatura, por um lado pela premência dos compromissos políticos (herdados em grande parte da tradição paterna) e por outro (aqui é especulação minha) pela falta do talento fabulatório, ou seja, pela falta de jeito para inventar histórias.  

Nabuco conta seu nervosismo ao visitar em 1874, em Paris, seu ídolo literário, Ernest Renan (1823-1892), que o recebeu com carinho, elogiou-lhe os versos (“oui, vous êtes vraiment poète”) e lhe deu conselhos; mas esse incentivo foi contrabalançado por um encontro posterior com Edmond Scherer (1815-1889), que não emitiu nenhuma opinião direta sobre os versos, mas manteve um “silêncio frio, impenetrável, entretanto polido, atencioso, simpático”. Nabuco recorda essas ansiedades de juventude com altivez e compreensão. Sua autocrítica parece mais serena e mais sincera do que, por exemplo, a insistente modéstia de Gilberto Freyre em sua conferência proferida na UFPB em 1965, Como e porque sou escritor

São dois grandes escritores, na verdade; mas ser escritor não é o mesmo que ser ficcionista, e muitos não o percebem. Os dois perceberam, ou foram obrigados a isso pelas suas respectivas circunstâncias. Uns têm as histórias, mas falta-lhes o estilo; outros desenvolvem o mais exuberante e maleável dos estilos, mas dependem de que o mundo real lhes forneça as histórias.  Pode-se dizer que a literatura brasileira tende a ser uma estufa de criação de estilos, pois a formação dos seus grandes autores passa necessariamente pelos grandes do idioma.  A invenção de enredos, entre nós, é uma arte muito mais recente, e as duas aos poucos irão se harmonizando.


terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

3101) "Django Livre" (5.2.2013)





Este filme de Tarantino tem menos ousadia estrutural do que Cães de Aluguel ou Pulp Fiction, e não colide vitoriosamente contra a verdade histórica como Bastardos Inglórios. É uma espécie de exercício de estilo, e o que perde em inventividade consegue compensar com “panache”, como diria o Dr. Schulz.

O filme começa com um anacronismo estilístico: a ficha técnica passa, de tela em tela, em enormes letras vermelhas, algo que eu não via há uns 45 anos. A história tem uma sucessão linear de peripécias não-relacionadas, e nisto parece um romance picaresco ou de capa-e-espada, mais do que a estrutura afunilada e precisa do faroeste tradicional. O que aliás é muito adequado. Toda história de um escravo que conquista a liberdade e sai pelo mundo por conta própria se encaixa na tradição da narrativa picaresca.

Como Alexandre Dumas é citado, posso dizer que é uma espécie de história de vingança à la O Conde de Monte Cristo (Django tentando destruir os que maltrataram Hilde) e uma história de aprendizado como Os 3 Mosqueteiros (Django como aluno do Dr. King Schultz, um aluno que no final supera o mestre).

Tarantino só chama um ator se já sabe exatamente o que ele vai fazer. Todo mundo que trabalha nos filmes dele parece trabalhar com mais gosto, com mais “entrega”, como dizem os atores, do que nos filmes de outras pessoas.  Os personagens tornam-se imprevisíveis e verossímeis porque existe uma integração muito grande entre os ótimos diálogos dele e o modo como o dizem.

DL é um filme com muitos filmes. Quando no início Schulz diz a Django que está caçando 3 bandidos irmãos, pensei que o filme ia ser sobre isto. Que nada, os irmãos são abatidos em dez minutos. As aventuras são muitas, e Tarantino sabe fazer muito bem duas coisas: confrontos tensos em situações claustrofóbicas, com pessoas a ponto de serem desmascaradas, mas mantendo a encenação para salvar a vida, com todo sangue frio; e tiroteios furiosos, que é o que geralmente se segue a cenas assim.

“Eu sou um caçador de recompensas,” diz o alemão, “de modo que não sou muito diferente de um traficante de escravos, porque eu forneço carne humana em troca de dinheiro. Levo os cadáveres, e o governo me paga a recompensa”. O excesso de poder corrompe absolutamente, e ninguém pode dizer que no Sul dos EUA, antes da Guerra da Secessão, alguma coisa assim não aconteceu.

Uma das ironias do filme é reiterar a máxima de que um sujeito que só trabalha por dinheiro sempre se dá mal quando se mete a fazer um trabalho de graça para ajudar outra pessoa. A tragédia final de certa forma o redime das canalhices que praticou vida afora. 



sábado, 15 de janeiro de 2011

2454) Escravos e robôs (15.1.2011)




(O Homem Bicentenário, filme de Chris Columbus)

Os robôs, nos livros e filmes de FC norte-americana, vieram substituir historicamente os escravos numa sociedade que (como a nossa, aliás) se criou em cima da escravidão, com tudo que ela acarreta. 

Nós brasileiros nunca poderemos esquecer (mesmo com Rui Barbosa queimando os arquivos do tráfico, pra fazer de conta que nada daquilo tinha acontecido) que o nosso país foi construído ao longo de séculos de exploração e massacre de negros africanos e de índios. 

Eu, pessoalmente, nunca escravizei ninguém, nunca bati nem mandei bater de chicote em ninguém, acho a escravidão uma calamidade. Mas sou beneficiário dela, porque toda minha infância foi paparicada por negras e mais negras que ajudavam minha mãe no serviço doméstico e me tratavam como se eu fosse filho delas mesmas. Eram assalariadas, e ao mesmo tempo eram, naquela promiscuidade sociológica que já conhecemos, tratadas em parte como pessoas da família, com autoridade para nos repreender e nos proibir, com acesso à casa inteira, tornando-se confidentes e conselheiras das patroas. 

 Não sei o que é ser dono de um escravo, mas sei o que é ter dentro de minha casa uma pessoa de condição social supostamente inferior que me deve trabalho, respeito e obediência. Dentro dos parâmetros, é claro.

Nos primeiros contos de Isaac Asimov muitos robôs tinham funções parecidas às das escravas caseiras: exercer tarefas domésticas e cuidar das crianças. 

 Não é difícil, durante a leitura daqueles contos, abstrair o desajeitado corpanzil metálico do autômato, com seu cérebro positrônico, e ver no lugar dele uma crioula rotunda e bonachona, com paciência infinita para as infinitas perguntas dos sinhôzinhos, e sempre cumprindo ao pé da letra, com exatidão quase maníaca, as ordens que recebeu dos patrões. 

José dos Santos Fernandes, meu colega do Clube de Leitores de Ficção Científica, tem um conto intitulado “As Crianças Não Devem Chorar”, em que um criado-robô acaba adotando uma medida radical para evitar que as crianças chorem durante uma ausência dos pais.

Um robô é um escravo, seja ele a empregada doméstica Rose de The Jetsons, seja o Andrew de “O Homem Bicentenário” de Asimov (que evolui lentamente até se tornar um homem livre). De preferência é alguém que não tem iniciativa alguma, que obedece ordens sem discutir, que tem inteligência bastante para responder perguntas mas não para formulá-las, que é possuidor de reservas aparentemente inesgotáveis de força física e de concentração mental, alguém capaz de dar a vida pelos seus patrões, alguém que nunca irá questionar, divergir, discordar, desobedecer.

A literatura que fala de robôs se relaciona com a enorme necessidade de que exista uma classe servil para obedecer aos sinhôzinhos que foram, de maneira brusca, privados daqueles seres tão submissos e esforçados. Era como se os brancos de classe média pensassem: “Já que não posso mais comprar um escravo, vou tentar fabricar um”.








quinta-feira, 3 de junho de 2010

2112) “Navios negreiros” (15.12.2009)



A editora paulista Comboio de Corda lançou, num volumezinho pequeno e charmoso, com excelentes ilustrações de Maurício Negro, uma edição conjunta dos poemas homônimos “O Navio Negreiro”: um de Henrich Heine (1797-1856) e o outro de Castro Alves (1847-1871). A organização e os textos críticos são de Priscila Figueiredo, que examina e compara os dois poemas. Confesso que não conhecia o de Heine, nem sabia sequer que o poeta alemão tivesse escrito sobre tráfico de escravos. Este livro fornece informações sobre todo o contexto que inspirou os poemas, além de analisar as semelhanças e diferenças entre os dois.

O poema de Castro Alves é conhecido por todo brasileiro que se preza. Desde aquela clássica elisão que o faz começar com um apóstrofo: “’Stamos em pleno mar...” Tudo bem que era naquela época um recurso mais comum do que é hoje, mas não deixa de ser uma prova de coragem iniciar um poema com uma licença poética logo na primeira linha, na primeira palavra, no primeiro caractere! É um dos poemas mais bem estruturados do poeta baiano, ao qual a influência de Victor Hugo ensinou a compor poemas feitos de sucessivas partes, como os atos de uma peça, cada uma delas impondo um novo metro, um novo tom, numa concepção rítmica que dá ao todo a sensação de uma complexa suíte musical. É o caso deste poema, e também o de “Destruição de Jerusalém”, que foi escrito (fiquei sabendo agora, abismado) aos quinze anos de idade.

O poema de Heine é mais curto e mais simples. Dividido em duas partes, é uma sucessão de 36 quadras rimando ABCB. Seu tom é mais direto e menos oratório (previsivelmente!) do que o de Castro Alves. Heine nos mostra o navio através dos olhos dos traficantes que o conduzem, os quais se desesperam ao ver que a taxa de mortalidade dos negros só faz aumentar durante a viagem, e, para evitar que morram todos de banzo, trazem-nos para o convés e os fazem dançar, debaixo de chicote, ao som de instrumentos musicais tocados pelos tripulantes. É a mesma cena dantesca descrita pelo baiano (“Vibrai rijo o chicote, marinheiros! / Fazei-os mais dançar!”).

Priscila Figueiredo faz uma boa análise da frieza do espírito capitalista que move os personagens de Heine (“Seiscentos negros consegui / por uma nica, em Senegal; / à carne rija, aos tendões tesos / não há ferro que seja igual. // Ofereci em troca aguardente / miçangas, estanho e tecido. / Consigo quase mil por cento / se só metade houver morrido”). E lembra, com razão, que as três últimas estrofes do poema de Castro Alves estão entre as mais belas da poesia brasileira: “E existe um povo que a bandeira empresta / pra cobrir tanta infâmia e cobardia (...)... Auriverde pendão da minha terra / que a brisa do Brasil beija e balança (...)... Fatalidade atroz que a mente esmaga! Extingue nesta hora o brigue imundo (...)”. Um excelente exemplo do mesmo tema sendo trabalhado por duas inteligências e sensibilidades diferentes.