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terça-feira, 14 de julho de 2015

3866) A Floresta lá fora (15.7.2015)



(ilustração: "Biodome", by Shadow-Trance, em www.deviantart.com)

O objetivo da civilização é expandir-se fisicamente até ocupar o mundo inteiro, quando então o mundo entrará em colapso, visto que seu metabolismo não pode sustentar uma malignidade desse porte. Millôr Fernandes dizia que o homem era um câncer da Natureza, e mesmo que não seja algo tão grave pode ser algo tão incômodo como uma “impinge”. O que é bom para a Humanidade? Me lembra aquela piada onde um compadre pergunta o que é bom para úlcera e o compadre responde: “Cigarro, bebida, carne assada, pimenta...” O outro diz: “Danou-se, e isso é bom?”  “É bom pra ela,” disse o outro, “ela cresce, fica mais forte, sai tomando conta de tudo”.

Daí que um dos traumas fundamentais da espécie humana seja essa tentativa psicótica de negar o universo, seja considerando-o território seu e preparando-se para colonizá-lo, seja criando toda uma cultura do homem como espécie necessariamente superior, e disso decorrem uma ética, uma moral, uma estética condizentes. Talvez a imagem equivalente disso na FC seja Trantor, a cidade-planeta de Asimov, cobrindo a superfície inteira do planeta homônimo.

Um artigo de Alexandre Nodari (citado no blog A Bacia das Almas de Paulo Brabo, aqui: http://tinyurl.com/nuvn6wg) fala na semelhança de origem entre a palavra floresta e o conceito de “fora” (forest, forêt). A floresta é tudo que está lá fora, o covil dos ainda-não-civilizados, os morlocks e os ghouls e todos os monstros do lado externo da cúpula transparente e pressurizada que nos protege, e é mais fácil a gente morrer do que dela abrir mão.

Mas toda mão se abre com a morte, como se vê no cinema americano. Se a humanidade se extinguir por completo será por uma Big Crise seguida de fome e epidemias. Não será do dia para a noite. Levará séculos de encolhimento e regressão tecnológica, o que ironicamente retardará a contaminação de alguns grupos significativos, cujo ocaso pode vir a ser rodeado de portentos.

Lá fora as florestas, as árvores ainda não aplainadas em livro, e o que está fora dos livros não tem valor, é uma mera floresta de letras e de sons, moeda sem dono que não merece confiança. A floresta (diz Nodari) “tem espaço para a deserção, a fuga, para a desobediência civil de Thoreau”. A sanha hileicida do modelo econômico global adota a pose fotográfica de quem limpa uma sujeira acumulada há milênios embaixo do tapete do mundo, de quem está extinguindo os últimos redutos de selvageria de-fato que instabilizava as existências de-direito. (Pode-se ver também nas periferias, alagados e favelas um contra-ataque da selva-selvagem comendo a cidade pelas beiras. Uma floresta de madeira que passou pela mão humana.)



sexta-feira, 3 de abril de 2009

0942) A verdade do corpo (24.2.2006)






(a cabana de Thoreau)



Quando menino li um texto sobre a vida de Sir Walter Scott, o autor de Ivanhoé (que até os 40 anos de idade eu pronunciei como se escreve, até que uma inglesa me sugeriu dizer “áivan-rú”). No fim da vida, Scott estava muito doente, e endividado pela falência de sua editora. Sua única saída para pagar milhares de libras era escrever livros e mais livros, porque todo livro seu vendia bem. Ele escrevia deitado na cama, sem forças para se levantar, gritando devido às dores horríveis. Um secretário ficava sentado ao lado, com pena e papel. Quando as dores cessavam, Scott parava de gritar e retomava a história do ponto em que havia parado, até que novo acesso de dores viesse. E assim viveu seus últimos anos (a dívida foi quitada por direitos autorais, alguns anos depois de sua morte).

Isto sempre me pareceu (e ainda me parece) um belo exemplo do domínio do espírito sobre a matéria, da força de vontade sobrepondo-se às limitações do corpo, etc. Mas podemos muito facilmente encontrar exemplos contrários, ou seja, casos em que a mente vai de encontro às necessidades do corpo. Drogas, bebida, dissipação; excesso de sedentarismo ou excesso de trabalho; falta de cuidados com a saúde. Nesses casos, não posso deixar de comparar a mente ao Governo e o corpo ao Povo. O Governo é, em tese, um subproduto do Povo, eleito para administrar seus interesses, mas bem depressinha começa a cultivar interesses próprios e egoístas – e o Povo que se dane. Com a Mente acontece a mesma coisa. Ela é um software de instruções que se destina a proteger e bem administrar o corpo, mas quantas vezes fazemos com ela justamente o contrário! Inviabilizamos nossos tímpanos ouvindo rock no walkman. Entupimo-nos de batatas Pringles e de Coca-Cola, por preguiça de comer uma refeição de verdade. Estragamos nossa vista passando o dia em frente da TV ou do computador. Et cetera.

Tem horas em que o corpo começa a dar sinais de exaustão. “Pára, pelo amor de Deus, dá um tempo, são 4 da madrugada, não tô agüentando mais”, e a Mente, como uma elite arrogante e orgulhosa, queixa-se em altos brados: “Ora que saco! Eu aqui precisando ler as últimas 100 páginas de um livro importante, e você aí atrapalhando meus estudos!” Intelectual tem esse problema. Força os limites físicos até não poder mais. Quando começam a pipocar as dores, o cansaço, o mau funcionamento, a Mente põe logo a culpa no Corpo, que é egoísta, não a deixa funcionar em paz.

Thoreau, o naturalista e escritor americano, dizia: “Se você quer ficar animado, com a mente cheia de energia, faça uma longa caminhada sob um temporal, ou através de uma floresta coberta de neve. Entre em contato com a natureza bruta. Sinta frio. Sinta fome. Sinta cansaço”. Masoquismo? Não, camaradinhas. É uma maneira de “cansar o corpo pro coração repousar”, de fazer com que a mente (que, dizem, consome 60% da nossa energia física) ajude o corpo a ficar mais forte, e vice-versa.