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sexta-feira, 21 de junho de 2024

5074) A foto do instante irrepetível (21.6.2024)



(foto: Stanley Forman, 1975, Prêmio Pulitzer)

 
Um dos subgêneros mais interessantes da Fotografia é a famosa foto do “Instante Irrepetível”. A foto de algo que estava acontecendo diante do fotógrafo, ele clicou, e aquele brevíssimo segundo ficou capturado para sempre. 
 
São aquelas fotos que a gente olha e pensa: “Caramba... um segundo antes, ou um segundo depois, e seria impossível ter feito esta foto.” 
 
Dizemos também: “Puxa vida, que sorte haver um fotógrafo por perto, para captar um momento fugaz como esse!...” 
 
É o que acontece com a foto no início deste texto, em que Stanley Forman captou a queda de uma adolescente (que morreu) e um garoto (que sobreviveu), quando uma escada de incêndio se partiu ou se desprendeu de seus suportes, a julgar pela imagem.  Um segundo a mais, e não haveria foto. 



(foto: Robert H. Jackson, 1962, Prêmio Pulitzer)
 
 
Outro bom exemplo é a foto acima, de Robert H. Jackson. Ela também ganhou o Prêmio Pulitzer de melhor foto do ano, e registra o instante em que Jack Ruby matou a tiros Lee Oswald, o presumido assassino de John Kennedy. Não é uma foto “artística”, mas é o equivalente fotográfico a um furo de reportagem. 
 
Fotos desse tipo são feitas por profissionais que estão o tempo todo com a câmera pronta e engatilhada. Sua tarefa é estar atento, perceber a situação que se arma à sua frente, erguer a câmera, apertar o botão no momento certo. 
 
Comigo não vai acontecer nunca. Mesmo que eu veja a dez metros de altura um disco-voador com a bandeira do Treze, vou ter que parar na calçada, enfiar a mão no bolso da calça, tirar o celular, ligar, premir a impressão digital, tocar no ícone da câmera, erguer o aparelho... e a esta altura o Ovni já sumiu, ou ergueu uma bandeira do Campinense. Perdi a foto. 






(fotos: Josef Koudelka) 

 
Estas duas fotos do mestre Josef Koudelka mostram instantes assim. O menino praticamente deitado em cima do burro e os homens soltando foguetões são provavelmente cenas com que ele se deparou, fez uma porção de cliques e escolheu divulgar o que lhe pareceu mais bacana. Acredito que sejam fotos espontâneas, sem interferência dele. Talvez as pessoas nem percebessem que estavam sendo fotografadas. 
 
É diferente de uma “foto provocada”, como esta abaixo, do mesmo Koudelka, em que percebemos com clareza a interação provocativa, até brincalhona, entre o fotógrafo e os fotografados: 



(foto: Josef Koudelka) 


A foto “do instante” nem precisa ser uma grande foto, do ponto de vista da luminosidade, enquadramento e outros recursos. Às vezes é meio borrada, ou meio inclinada, mas não importa – é o registro do momento!  Um instante que nunca vai se repetir, e que alguém registrou. 
 
Será que é? Porque depois que a gente se acostuma com os truques e as espertezas dos fotógrafos, a gente começa a desconfiar. OK, essa pessoa estava ali, fez esse gesto... Mas será que não foi tudo combinado? Será que o fotógrafo não concebeu essa cena na cabeça, e depois conseguiu pessoas dispostas a “posar” com essa aparência de casualidade? 
 
Não é preciso que o modelo da foto seja alguém contratado pelo artista. Pode ser gente da rua, pessoas que não o conhecem, ou que nem sabem estar sendo fotografadas. É o caso das fotos abaixo, de Henri Cartier-Bresson, um craque nessa captação dos momentos bonitos do cotidiano. O fotógrafo vê uma poça dágua lisa como um espelho. O que faz ele? Fica discretamente de emboscada, esperando o pulo inevitável dos transeuntes. 






(fotos: Henri Cartier-Bresson) 


O fotógrafo fica à espera de que a foto aconteça, porque há um elemento (a poça dágua) que vai deflagrar a foto. Nas fotos abaixo, de Robert Doisneau (o autor da famosa foto do rapaz beijando a moça, em Paris, nas comemorações do fim da guerra), ele deixou a pintura da mulher nua, exposta na vitrine, como isca. E registrou as reações. 
 
Numa foto temos uma mulher indignada com “aquela pouca vergonha”; na outra temos uma mulher muito séria, mostrando outra pintura, enquanto o homem olha à socapa o quadro da mulher pelada. 





(fotos: Robert Doisneau) 


Essas lembranças me vieram à mente por conta de uma moda recente nas redes sociais. Fotógrafos registram quadros nas paredes do museus ou de galerias de arte, e na frente do quadro a presença de uma pessoa vestida nas mesmas cores, ou no mesmo estilo, ou reproduzindo, de alguma maneira, as formas do quadro que contempla. 
 
Tem vários exemplos; peguei alguns de autoria de Stefan Draschan: 








(fotos: Stefan Draschan) 


Isto é casual? É combinado? Pode ser qualquer uma das duas coisas. 
 
Para ser casual, seria preciso que o fotógrafo se postasse à frente de um quadro cujos elementos (cores, grafismo, etc.) pudessem aparecer nas roupas de alguém; ou ver a roupa de uma pessoa e segui-la museu afora, esperando por um quadro que “desse match”. 
 
Acho mais possível que sejam fotos construídas. Se fosse comigo, eu fotografaria algumas dezenas de quadros, expostos em lugares de fácil acesso, e mostraria aos meus amigos e amigas, sugerindo que arranjassem alguma roupa “rimando” com o quadro. 



(foto: Henri Cartier-Bresson) 

 
Isso é fake news, é charlatanismo, é má fé?  De jeito nenhum. É uma foto construída. Ela é feita para dar a impressão de foto casual, mas é um acaso fingido. O que conta ali não é a pretensão de ter flagrado um momento raríssimo, mas a revelação de uma simetria inesperada. 
 
Gostamos disso porque gostamos de tudo que rima, tudo que repete um efeito, tudo que cria uma semelhança entre duas coisas não-relacionadas. Não importa se foi aleatório ou se foi planejado, desde que o efeito pareça ser espontâneo. 
 
A pintura já fingia descobrir acasos. Veja-se este quadro de Norman Rockwell, “The Voyeur”. É uma cena imaginada e pintada com tinta a óleo, provavelmente durante dias inteiros, ou semanas. E no entanto seu charme principal é a aparência de espontaneidade, de descontração, de ser aquilo um momento fugaz da vida real que um artista registrou, não importa como. 



(Norman Rockwell, "The Voyeur") 

 
Algumas fotos parecem tão bem sincronizadas que fazem a gente erguer a sobrancelha, com desconfiança. Esta foto de Tomás de Micheli, em que Lionel Messi aparece com uma auréola angelical formada pela marca do pênalti, é certinha demais, conveniente demais. Já vi gente discutindo que foi posada pelo jogador, outros dizendo que a “auréola” foi feita digitalmente. 



(foto: Tomás de Micheli)

 
E daí? Não sei o que De Micheli argumenta em favor de sua foto, mas para mim o que vale aí não é o lado instantâneo, e sim o lado alegórico. Uma foto imaginada, planejada, executada para criar uma idéia; ela “parece” usar uma coincidência de posição, mas não é isto o seu valor principal. 
 
Um caso completamente diferente é o da foto abaixo, em que a camisa do rapaz e o forro do banco do ônibus são idênticos. Foto “armada”? Pode ser. Foto casual? Pode ser. Mas no caso de ser armada a foto não tem nenhum sentido simbólico ou alegórico como tinha a foto de Messi. É uma foto mais banal do que as fotos dos museus de Stefan Draschan. Uma foto cujo único foco de interesse é a igualdade entre os dois tecidos, e isso só teria graça verdadeira se fosse produto do Acaso. 



 
 






domingo, 18 de setembro de 2022

4864) "No País da Poesia Popular" (18.9.2022)



Começam hoje, domingo dia 18, as exibições do segundo episódio da série No País da Poesia Popular, no canal “Cine Brasil TV”. O Episódio 2, “História do Romanceiro Nordestino”,  será exibido nestes horários:
 
Domingo, 18 de setembro – 22:30
Terça, 20 de setembro – 22:00
Quinta, 22 de setembro – 23:30
Sexta, 23 de setembro – 11:30
Segunda, 26 de setembro – 19:30
Quarta, 28 de setembro – 13:00
 
A série, dirigida por José Araripe, e na qual sou roteirista e apresentador, é uma produção da “Truque”, de Salvador, e foi gravada em 2019. A pandemia e o resultante pandemônio encalharam por algum tempo a finalização, mas agora os 13 episódios de meia hora serão exibidos aos poucos no Cine Brasil TV.

COMO ACESSAR:
Aqui no saite do canal Cine Brasil TV é possível checar quais as operadoras:
 
https://www.cinebrasil.tv/index.php/localize-o-canal
 
O primeiro impulso de inspiração para esta série surgiu no longínquo ano de 1977, quando eu e Araripe nos conhecemos, fazendo parte do grupo Teatro Livre da Bahia, dirigido por João Augusto, no Teatro Vila Velha, de Salvador. Fizemos como atores inúmeras peças de teatro-de-rua inspiradas em folhetos de cordel como “A Briga do Fiscal com a Fateira” ou “A Chegada de Lampião no Inferno”.
 
Depois, parte desse material foi transposta por João Augusto para o espetáculo Oxente Gente, Cordel que fez várias temporadas em Salvador, e viajou no saudoso “Projeto Mambembão” para Rio, São Paulo e Brasília. Lembro também com saudade que fazia parte desse grupo o meu parceiro Zelito Miranda, outro maluco por cantoria de viola. Falecido no mês passado na Bahia, Zelito formava comigo na peça uma dupla de cantadores hilária, caricatural.


(BT e Zelito Miranda, em Oxente Gente, Cordel, Salvador, 1978)

 
Ou seja, já naquela época líamos e discutíamos ardorosamente a poesia popular. E herdamos um pouco do espírito meio anárquico e desafiador de João Augusto. Ele nos dizia o tempo todo que o cordel não estava morto, nem sequer doente; que a poesia popular não era uma coisa pura, trancada numa redoma de vidro, era uma força viva que morre e ressuscita um milhão de vezes por dia.
 
O programa No País da Poesia Popular começou a ser gravado em setembro de 2019, quando passei uma semana em Salvador. Araripe e sua equipe viajaram depois pelo Rio, São Paulo, Ceará, Paraíba e Pernambuco, num total de 17 cidades com 50 entrevistados.
 
É muito pouco, na verdade, diante das dezenas de milhares de poetas profissionais que atuam principalmente no Nordeste: folheteiros, editores, violeiros, emboladores de coco, aboiadores... Toda vez que a gente faz um trabalho tipo documentário sobre um assunto tão rico eu me lembro do comediante Zero Mostel, que queria vender uma casa e andava com um tijolo na bolsa, para servir de amostra.


(Bule-Bule, Bahia)
 

O meio acadêmico discute exaustivamente o que pode e o que não pode ser chamado de “poesia popular”. Uma discussão muito necessária. A Arte Da Palavra se manifesta de maneiras diferentes no hai-kai japonês, no soneto italiano, na rapsódia grega, no concretismo paulista, no surrealismo francês, nas trovas provençais, no rap urbano contemporâneo, no poema modernista... (E reparem, nem estou tocando na prosa, porque se entrar por aí a gente amanhece o dia.)
 
E se manifesta nas formas que a gente cultiva no Nordeste: o folheto de cordel, a cantoria de viola, o poema matuto, a mesa de glosa, o romance cantado, o aboio, o coco de embolada, e por aí vai.


[Mocinha de Passira)

 
Um pouco disto vai registrado nestes programas, cuja exibição começa com os 3 primeiros em setembro, e irá se estendendo pelos meses seguintes:
 
Episódio 01 - O Folheto e o Repente
Episódio 02 - História do Romanceiro Nordestino
Episódio 03 - O Jornal do Sertão
Episódio 04 - Quando os Bichos Eram Gente
Episódio 05 - Histórias de Amor e Sofrimento
Episódio 06 - A Fantasia Heróica
Episódio 07 - As Novelas e os Romances Clássicos
Episódio 08 - Incrível, Fantástico, Extraordinário
Episódio 09 - Os Bons, os Maus e os Feios
Episódio 10 - A Mulher no Cordel
Episódio 11 - Utilidade Pública
Episódio 12 - Humor e Sátira
Episódio 13 - Cordel e Ficção Científica



(programação do primeiro mês)
 

Todo mundo vai dizer: “Eita, faltou isso, faltou aquilo, faltou Fulano, faltou Sicrano”. E geralmente vai ter razão. Me lembro de uma vez que eu estava em Areia (PB) almoçando num bar e vendo no Globo Esporte uma matéria interessante sobre grandes batedores de pênalti do futebol brasileiro: Pinheiro, Pelé, Zico, Roberto Dinamite... Quando a matéria terminou, um bêbo no balcão cuspiu de lado e disse: “Se não falou em Luís Garapeiro, não disse nada.” E quem sou eu pra discutir? Eu vi ao vivo Luís Garapeiro batendo pênalti.



(Lirinha, São Paulo)

 
Toda esta lenga-lenga é para dizer que a poesia popular não é um panteão com uma dúzia de ídolos obrigatórios e mais nada. O programa procurou inclusive mostrar pessoas que dificilmente seriam mostradas num programa “A História da Literatura de Cordel”. Aqui estão amigos meus que são músicos, cantores, compositores, que devem muito à poesia popular, cada qual ao seu modo: Lenine, Numa Ciro, Antonio Nóbrega, Beto Brito, Lirinha, os irmãos Marinho... No Nordeste, pelo menos, poesia popular e música popular são vizinhos de porta.



(Felipe Canário, Campina Grande)


A possibilidade de uma segunda temporada é algo sempre em aberto, para séries de TV. Tudo que a gente não consegue enfiar na mala, deixa para procurar no ano que vem. Falei lá em cima a história do tijolo, representando uma casa. É mais ou menos isso. É um oceano. Você vai lá, e traz uma garrafa cheia, como amostra.


 
(Arievaldo Viana, Fortaleza, in memoriam)
 





 
 
 
 
 





sexta-feira, 15 de julho de 2022

4843) A resposta na ponta da língua (15.7.2022)

 


Quando os Beatles desembarcaram pela primeira vez nos EUA, em 1964, deram mil coletivas de imprensa. Um jornalista perguntou:
 
– Por que a música de vocês deixa as pessoas tão excitadas?
 
Houve um segundo de hesitação no grupo, e John Lennon disse:
 
– Não sabemos. Quando descobrirmos, vamos criar um novo grupo e ser empresários deles.
 
Os Beatles tinham uma enorme capacidade de improvisar respostas ao vivo. Não eram as respostas espertas, ensaiadinhas, das coletivas de hoje em dia. Hoje, todo artista tem alguns publicitários criativos em sua equipe, que lhes entregam uma lista das prováveis perguntas e das respostas espirituosas que ele deverá decorar para “ter na manga”.
 
E nos “encontros com a imprensa” de hoje, há, muitas vezes, um jornalista arraia-miúda a quem foi fornecida uma pergunta para ele fazer na hora H, servindo de “escada” ao artista, em troca de dois convites para o show. (Se eu fosse empresário de artista rico, subornaria jornalistas sem o menor remorso. Quem se vende é porque não vale nada.)
 
Os ingleses chamam de repartee a frase espirituosa dita num repente. Funciona tão bem que dá a impressão de que a pergunta (que era uma provocação) fica parecendo uma “deixa” para o cara exibir a resposta que trazia prontinha.
 
Não trazia. É improviso mesmo. Naquela mesma coletiva, alguém pergunta: “Quando vocês vão cortar o cabelo?” e George Harrison responde de bate-pronto: “O meu eu cortei ontem.”
 
É resposta decorada? Não. Provavelmente era verdade. Claro que os Beatles aparavam aquelas trunfas, principalmente antes de estrear uma turnê grande. E muitas vezes a verdade é a última coisa que se espera numa resposta assim.
 
O improviso espirituoso não é apenas uma resposta inteligente, é uma resposta que depende totalmente do modo como a pergunta foi feita. Muitas vezes a graça implica em distorcer o sentido de algum termo da pergunta. Nessa mesma coletiva (ou em outra) perguntaram aos Beatles: “Como vocês acharam a América?”. A pergunta, é claro, indagava sobre o estado de espírito dos fãs, à sua chegada. Lennon respondeu: “Virando à esquerda quando chegamos na Groenlândia”.



Bob Dylan, na sua fase sarcástica e sardônica de 1966 (aquilo que hoje está sendo chamado de “The Cate Blanchett Period”) era outro que não deixava por menos. Um pomposo entrevistador perguntou-lhe uma vez:
 
– Você tem idéia do alcance de suas canções?...
 
E ele disse:
 
– Olhe, tem as que alcançam três minutos, outras alcançam cinco, e outras, acredite se quiser, alcançam os dez ou doze minutos.
 
Muitos dos nossos melhores repentes, essas respostas instantâneas capazes de guilhotinar uma pergunta em um segundo, surgem assim porque já tínhamos pensado naquela pergunta e em nossa cabeça se formou, se não a resposta pronta e definitiva, pelo menos uma idéia de como essa resposta deveria ser.
 
Uma expressão francesa, “esprit d’escalier”, indica aquelas ocasiões melancólicas em que essas respostas arrasadoras, espirituosas, só nos ocorrem quando estamos na escada, indo embora da festa. Não importa. Perguntas embaraçosas ou provocativas costumam se repetir. A gente guarda a resposta boa. Eu já preparei uma resposta assim e guardei por mais de 25 anos; quando a pergunta veio, tirei-a do bolso sem pestanejar, e a mesa inteira aplaudiu.



G. K. Chesterton tem um ótimo livrinho de contos interligados, The Club of Queer Trades (1905), em que os personagens inventam profissões extravagantes, maneiras bizarras de ganhar a vida em Londres. A certa altura, menciona-se um cara que é “o Shakespeare do dito espirituoso”, a alma das festas, o cara que tem sempre uma frase engenhosa para desarmar o interlocutor.
 
Conto vai, conto vem, ficamos sabendo no final que esse cara espirituoso é apenas um dos clientes de um sujeito que prepara conjuntos de frases-e-respostas, e numa ocasião social qualquer, combinadamente, dá as “deixas” para que o cliente (qualquer um que pague bem) pronuncie sua frase de espírito e faça o maior sucesso. É a profissão dele: Facilitador de Respostas Espirituosas.
 
“Armações” à parte, a resposta de bate-pronto existe, e cada um de nós já presenciou inúmeros exemplos. Políticos mineiros são especialistas nisso: Tancredo Neves, Benedito Valadares, José Aparecido de Oliveira...


(busto de Antonio Marinho em S. José do Egito, foto BT)
 
Os cantadores nordestinos são, além de poetas, repentistas, ou seja, são capazes de raciocínio rápido e resposta perfeita. Conta-se que o mestre Antonio Marinho, de São José do Egito, tinha um compadre chamado Irineu. Um dia estava em casa e a esposa do compadre lhe surge à janela da rua, perguntando:
 
– Compadre Antonio, o senhor viu Irineu?...
 
E ele:
 
– Não. E fôro?...
 
É o tipo da coisa que só é engraçada na pronúncia dialetal sertaneja. “O senhor viu irem n’eu? (=irem em mim)?” – “Não!... E foram?!...”
 
O genro de Antonio, o famoso Lourival Batista, era um dos gatilhos-verbais mais rápidos do Nordeste. Lá vinha ele caminhando despreocupado pelas ruas de São José, quando um conhecido o saudou de longe, acenando da calçada oposta:
 
– Tudo bem, “Lourivarrr”?...
 
E ele, impassível:
 
“Regulal”...
 
São gracejos que ninguém poderia “trazer pronto” para responder no momento adequado; é algo concebido e executado no espaço de segundos. Nenhum de nós tem a verve repentística de Marinho ou de Louro, mas pode se dedicar à nobre arte de prever perguntas e preparar respostas.
 
E nesse aspecto lembro um caso contado pelo meu saudoso amigo Arievaldo Vianna, que vinha cruzando uma praça e dele se aproximou um doido que perambulava por ali pedindo dinheiro. O doido chegou e disse:
 
– Me dê uma grana pra provar que está com Deus. Se Deus estiver do seu lado, um bandido bota a arma na sua cabeça, aperta o gatilho, a arma encrenca e não dispara.
 
Arievaldo:
 
– Sim, mas e se a arma for novinha, e disparar?
 
O doido:
 
– Então é porque você estava pronto pra ir ao encontro de Deus!







sexta-feira, 3 de dezembro de 2021

4770) A arte do improviso (3.12.2021)



Eu não sei até hoje em que consiste, de maneira indiscutível, a arte de improvisar. 

A descrição mais simples desse processo seria: “Improvisar é criar alguma coisa sem planejamento prévio, criar em cima da hora, em tempo real.”
 
Mas o que quer dizer “sem planejamento prévio”? Um músico de jazz que sobe ao palco para dar uma canja num show de amigos pode já ter em mente o que vai fazer, porque vai tocar uma música que já tocou antes, talvez com alguns daqueles mesmos músicos, de modo que não começa rigorosamente da estaca zero. Ele pode até planejar algo de forma meio abstrata. Pode pensar: “Naquele trecho que faz assim-assim eu vou tentar acelerar as notas no início, mas a cada passada vou diminuindo a velocidade, e no final tentar criar uma frase qualquer em cima de tais ou tais notas...”
 
Ou seja: ele planeja, mas não planeja exatamente. Planeja em linhas gerais. Os detalhes serão resolvidos no calor do momento.
 
Pode ocorrer também que depois de tocar esse número alguém da platéia, ou da própria banda, sugira: “Agora vamos tocar XYZ.” E começa uma música que ele desconhece, num tom diferente, compasso diferente, e é aquele momento em que a gente olha e o cara está de pé no palco, à espera, deixando a música correr, o olhar baixo, concentrado, assimilando tudo, até chegar o instante em que ele ergue o instrumento e começa a tocar.
 
Num caso assim deve ser improviso mesmo, ainda mais se a música for desconhecida, uma canção que ele nunca tocou, nunca sequer ouviu. Como ele pode improvisar, então? Ora, nenhuma música é produzida da estaca zero. Toda música, por mais original que seja, passa por sequências de acordes que geralmente já são conhecidos por ele. Cabe a ele descobrir e tocar, em cima da hora, um fio melódico cujas notas se harmonizem com aqueles acordes subentendidos, que vão se sucedendo em sua mente à medida que são tocados pela banda.
 
Se for uma sequência complexa demais, talvez nem dê para ousar muito nessa improvisação – o simples fato de conseguir improvisar uma melodia que não entre em choque com os acordes nem com o “tempo” já é uma pequena façanha. É como no atletismo o cara completar um “100 metros com barreiras” sem derrubar nada, não importa quanto tempo levou.
 
Deve ser neste sentido que um cantador de viola me disse, muitos anos atrás: “Para improvisar é preciso muito boa memória”. "Por que?", perguntaria alguém. Se é improviso, é uma coisa totalmente nova, então depende mais da imaginação do que da memória, não é mesmo? Sim e não. A imaginação vai atrás. A memória vai na frente, fornecendo as matérias primas. Versos são frases, e sextilhas improvisadas oscilam o tempo todo entre os produtos da imaginação (um verso original, criativo, brilhante, que ocorre ao poeta no calor do entusiasmo) e os da memória – aquelas linhas ligeiramente burocráticas, sem muita poesia, que é preciso continuar dizendo para completar os versos.
 
Quando numa cantoria de viola a gente dá um mote, às vezes os cantadores olham o papelzinho escrito, deixam ali na frente, enquanto estão cantando outras coisas, mas mentalmente a cabeça já vai escolhendo rimas, separando, preparando frases. Quando começam a cantar pra valer, quanto tempo tiveram para se preparar? Alguns minutos?
 
Improviso não quer dizer instantaneidade. Algum tempo de preparação tem que haver antes do “improviso” ter lugar.
 
Isso nos leva a conceitos mais largos, como o de improvisação no cinema. Como improvisar na feitura de um filme? Num filme, o roteiro e o cronograma de filmagens são preparados meses antes. Na hora, é só chegar e executar a idéia que alguém botou no papel, e que já foi lida, discutida e assimilada por toda a equipe. Como improvisar?
 
Bem, aqui é onde entra a vida real com suas armadilhas. Planejamento de filmagem não é linha-de-montagem de fábrica, onde cada estágio, cada tarefa é executada mecanicamente, sempre da mesma forma. Visto de maneira mais realista, um roteiro e um plano de produção são sempre “cartas de intenções”. É como se dissessem: “No dia tal, vamos tentar gravar isto aqui, desta maneira.” Porque os imprevistos e as surpresas são mais frequentes do que se imagina.
 
Já vi casos em que na véspera de uma cena o ator quebrou e engessou a perna. A cena foi improvisada na manhã seguinte, e tudo que ele iria fazer andando foi reescrito para que fizesse sentado, e filmado da cintura para cima. (Às vezes dá. Às vezes não.)
 
Já vi ator cortar a mão num caco de vidro e, sem interromper a filmagem, usar a mão ensanguentada como parte da cena.
 
Já vi ator estar fugindo apavorado, tropeçar, cair, levantar-se rindo, olhar para a câmara, fazer cara de apavorado de novo e continuar correndo.
 
Quando alguém grita: “Ação!...” ou “Rodando!...”, tudo vira uma questão de vida ou morte. Claro que sempre existe a opção do take 2, take 3, take 4... Mas às vezes nunca se consegue repetir exatamente as coisas boas que aconteceram no take anterior, e cada “Rodando!...” é sempre um salto no escuro.
 
Um salto no improviso, porque mesmo quando se repete algo o fato de ser uma repetição coletiva introduz novos ruídos, novas interferências – pense cena de briga, cena de multidão, cena que envolve animais ou que é filmada na rua... Mesmo que tudo ocorra como foi planejado, é preciso estar sempre pronto para improvisar.
 
E para reconhecer o bom improviso. Já vi casos em que na conclusão de uma cena a atriz resolveu executar um gesto ou uma caminhada que não tinha feito nas vezes anteriores e o diretor, apressadinho, não percebeu e gritou “Corta!...”, olhando para o relógio... e o complemento perfeito se perdeu.
 
Tudo isto ainda está no capítulo de coisas improvisadas num espaço de segundos ou de minutos, como no jazz e na cantoria.
 
Existe também a necessidade de improvisar em larga escala. Quando se tem horas, dias inteiros para pensar, mas se está mexendo com algo tão coletivo e tão complexo que o que se cria nesses dias equivale a meses de preparativos.
 
Nas vésperas da filmagem, a locação combinada não está mais disponível, por alguma razão. A cena que ia acontecer num shopping vai ter que ser feita numa praça. Prancheta em punho, as pessoas traçam o novo posicionamento das câmeras, do som, e os deslocamentos dos atores. “Ah, não temos mais o parque, mas temos a praia”. Muito bem, vamos re-desenhar tudo e filmar na praia as cenas do parque.
 
É improviso também? Por mim, é, até porque todo o pessoal envolvido já tinha se preparado mentalmente para fazer a cena no espaço “X” e agora vai ter que se adaptar ao espaço “Y”, e não é tão fácil quanto parece para quem está de fora.
 


segunda-feira, 6 de setembro de 2021

4741) A cantoria segundo um cantador (6.9.2021)



 
Um sinal de amadurecimento na Cantoria de Viola é o fato de que quase todo ano aparece um livro a respeito da grande arte, só que não é escrito por um diletante “de fora” como eu, nem por um pesquisador acadêmico – é escrito por um cantador ou um ex-cantador, alguém que conhece o ofício pelo lado de dentro.
 
É diferente, não porque “só os cantadores podem explicar a cantoria”, mas porque quanto mais ângulos de visão e de interpretação tivermos sobre um fenômeno, maior a possibilidade de que surjam verdades a seu respeito. Tem coisas na cantoria que um cantador não enxerga, mas um jornalista pode enxergar, pela formação que tem; um sociólogo pode enxergar outras, com os instrumentos de que dispõe; um psicólogo; um musicista; um historiador; e pode ir armando a fila.
 
E o cantador tem, é claro, o seu lugar de fala, o seu lugar de olho privilegiado, de séculos de tradição assimilados desde a infância. E tem, no dizer de Camões, “um saber só de experiências feito”. Ter experiência não é necessariamente ter a “última palavra” sobre um assunto. Essa palavra pode até ser a da teoria pura. Mas sem ouvir a palavra da experiência, o que a teoria tem a dizer?
 
Desafio no Repente – A Poética da Cantoria na Contemporaneidade (Teresina: Gráfica e Editora Halley, 2019) é o livro do cantador Edmilson Ferreira, resultado da sua dissertação de mestrado no CCHLA da Universidade Federal da Paraíba, sob a orientação da Profa. Dra. Beliza Áurea de Arruda Melo.
 
O livro tem quatro partes, organizadas de acordo com o modelo clássico das teses. Na primeira, ele define o objeto de estudo, dando uma geral nas principais teorizações sobre a Cantoria – uma forma híbrida de arte, que nem todo mundo soube teorizar direito. Edmilson fornece uma boa bibliografia (cheia de obras desconhecidas que me deixaram com as pontas dos dedos coçando), e equilibra sua fontes entre os estudiosos clássicos do repente (Câmara Cascudo, F. Coutinho Filho, etc.), e pesquisadores contemporâneos (como minha amiga e mestra Idelette Muzart).
 
Vi com satisfação o tanto de vezes que ele cita os comentários de Paul Zumthor, um teórico muito importante daquilo que a gente chama “as Literaturas da Voz”. Um grande obstáculo para o entendimento correto da arte da cantoria por meio de livros é que um livro não tem como reproduzir o seu aspecto oral, vocal, sonoro.
 
Nem vou falar do som da viola, das toadas musicais, da riqueza de formas melódicas que há na cantoria. A mera articulação dos versos é um dado essencial para perceber o que os violeiros estão tentando fazer – inventar frases na hora, obedecendo a esquemas complexos de ritmo, rima, cadência, prosódia. E esse dado se perde no verso escrito. (Esta questão é abordada na Parte 3, “O Corpo Repentista”.)
 
A segunda parte tem um teor mais histórico, resumindo a evolução da poética do improviso entre nós. E Edmilson toca numa questão importante, a ausência de documentação a respeito desse fenômeno que, além de ser essencialmente oral, era praticado, ao longo dos séculos da colonização, por “gente sem importância” social. Há enormes buracos na história da cantoria. Ele observa:
 
Vale lembrar que mesmo as expressões artísticas vindas da Europa chegaram profundamente influenciadas pela passagem dos árabes no Ocidente europeu medieval. (...) Se o modelo basilar para a poética dos repentistas chega com os colonizadores e com os escravos, não é possível se pensar numa lacuna de quase três séculos para a aparição dos primeiros focos da cantoria de repente. (pág. 71)
 
Eu vejo de maneira parecida, embora a meu ver haja uma ilha solitária nesse mar de anonimato, que é a figura ímpar de Gregório de Matos (1636-1696), que não era um cantador no sentido moderno da palavra, mas é decerto um precursor da sua arte poética. Motes e glosas em setissílabo estão presente em sua obra, e dele se contam muitos episódios de versos feitos na hora por provocação ou desafio de pessoas em volta.
 
Como a arte da glosa declamada sempre foi viva em Portugal, não há porque duvidar que o luso-brasileiro Gregório, que vivia raparigando nos bares com uma viola a tiracolo, fosse também um praticante desse tipo de verso. Verso que duzentos anos depois iria florescer no sertão nordestino, em forma de arte e profissão.
 
A seguir Edmilson questiona um dos fatos mais estabelecidos (pelo que eu saiba) na historiografia do repente: a sua origem na Serra do Teixeira, em meados do século 19. Como eu sou paraibano, considero esse marco histórico algo mais indiscutível do que o Descobrimento do Brasil. Concordo com Edmilson, porém, ser muito improvável que uma tal floração de talentos amadurecidos e plenos, no espaço de poucas décadas, não tenha sido precedida por um vagaroso acúmulo de “massa crítica” que infelizmente não foi resgatada pela História.
 
Diz ele:
 
Atribuir ao Teixeira o gene da cantoria, considerando que se trata da continuidade de uma manifestação já existente há séculos, denota uma preferência pelo lugar escolhido. Tal preferência pode ser dos pesquisadores, mas também pode ser de quem os financia, de quem os acolhe, de quem os informa, de quem mantém com esses estudiosos vínculos de amizade. (pág. 72)
 
É a tragédia e a glória da historiografia em qualquer tempo e lugar: acabar contando a história dos informantes encontrados, das fontes disponíveis, dos sobreviventes, dos grupos ou das famílias que registram sua própria história, guardam fotografias e manuscritos, são capazes de fornecer certidões, documentos, recortes de jornal... Com isso, passam à frente dos que nada guardaram, nada preservaram, nada salvaram do vasto naufrágio social que é a memória brasileira.
 
Posso usar para a cantoria uma imagem que em outros textos já usei para a literatura fantástica produzida no Brasil: uma pirâmide soterrada. Um enorme repositório de informações que foi ocultado pelo tempo (em muitos casos, foi destruído pelo tempo). A história de nossa poesia improvisada é como um imenso lago onde ali aparece uma ilha, Gregório de Matos, acolá um pequeno arquipélago, a Escola do Teixeira, mais adiante outras ilhas afastadas, Inácio da Catingueira, Fabião das Queimadas... São os que por variados motivos (entre eles os que Edmilson aponta) escaparam do esquecimento.
 
Ainda na segunda parte do livro há uma sequência de capítulos importantes em que Edmilson aborda as formas contemporâneas de verso improvisado. Longe de substituírem a cantoria, elas são uma ampliação, uma extensão do mesmo impulso criativo, seguindo as formas tradicionais.
 
Existem, por exemplo, numerosos grupos de WhatsApp realizado disputas poéticas; ele cita o “Clube do Repentista”, “Clube do Repente”, “Repente de Canto a Canto”, “Rede Cordel e Repente”, “Amantes da Cantoria”, “Fã Clube dos Poetas”, “Divulgando a Poesia”, “Política Cordel Cantoria” e outros. Da página 87 à 147 há um rico material a respeito das várias modalidades de competição, inclusive com reprodução visual das mensagens em tela de celular.
 
Basicamente (cada grupo pratica variantes) o desafio ocorre entre uma dupla previamente escolhida, com data e hora marcada. Os participantes do grupo ligam-se todos no horário combinado, mas não participam, devendo guardar silêncio, enquanto o apresentador dá as instruções necessárias e fornece os motes e assuntos. Os versos são postados alternadamente pelos poetas.
 
Há disputas isoladas de A contra B, e há também os torneios, com os poetas (nunca em duplas – isoladamente) se enfrentando e se eliminando num sistema de chaves, como nos torneios de futebol, até o confronto final entre os dois que ainda não foram derrotados. Um júri acompanha o desenrolar do desafio, e em seguida (às vezes no dia seguinte) proclama o resultado.
 
Como se vê, é uma atividade muito diferente tanto da cantoria tradicional, “de pé de parede”, quanto dos festivais de repentistas. Os versos são escritos, e não cantados. A disputa é entre indivíduos e não entre duplas. Há muito mais tempo para pensar o verso... Tudo isso demonstra que não se trata de algo que venha a tornar a cantoria obsoleta. É uma modalidade a mais que se está criando – tal como as “Mesas de Glosa” ou “Rodas de Glosa” que tanto sucesso vêm fazendo nos últimos anos, principalmente no Vale do Pajeú.
 
A quarta parte do livro, “Repentista ou Repetista”, traz de volta a velha discussão entre os versos improvisados (a razão de ser da Cantoria de Viola) e os versos escritos, preparados, decorados, etc. Uma discussão que não vai acabar tão cedo. Penso que ninguém se torna um profissional estabelecido num meio competitivo como o do Repente sem ser capaz de improvisar pra valer, de maneira consistente, em qualquer ambiente, com qualquer platéia, durante anos seguidos.
 
Por outro lado, a própria necessidade de se manter no “grupo da frente”, como numa maratona, obriga qualquer cantador a ter um vasto repertório de versos preparados, sejam trabalhos escritos com este fim, seja a reciclagem permanente de versos que, improvisados pra valer em certo momento, foram memorizados, e incorporados à “munição de reserva” para as horas de aperto.
 
O livro de Edmilson Ferreira reúne citações bibliográficas dos teóricos da literatura oral e depoimentos de cantadores da velha e da nova geração – uma das características do “novo repente” é inclusive o aparecimento de mulheres poetas, bem representadas no estudo.
 
Um título muito importante para a bibliografia do repente, e que já me abriu meia dúzia de caminhos para novas pesquisas.
 
Para quem se interessar, eis aqui o link da minha conversa com Edmilson Ferreira, no seu canal do YouTube, “Prosa de Mestre”, no mês de maio passado:
 
https://www.youtube.com/watch?v=TZPHVmbgMEg&t=4736s


 












quarta-feira, 7 de abril de 2021

4691) "Cat Ballou", a mocinha e os três mocinhos (7.4.2021)


 

Este antigo faroeste dirigido por Elliot Silverstein, Dívida de Sangue (“Cat Ballou”, 1965) é uma curiosa mistura de faroeste, comédia e musical. Aquilo que a gente chamava de “um filme leve”, onde as coisas acontecem com uma certa dramaticidade mas a gente sabe que não existe a menor possibilidade de não ter um final feliz, onde as pessoas simpáticas são recompensadas e as antipáticas sofrem o devido castigo.
 
Foi o primeiro filme que vi com Jane Fonda, bem no começo de minha carreira de cineclubista, e um dos primeiros em que comecei a aplicar de forma conscienciosa os ensinamentos de livros preciosos como Elementos de Cinestética do Padre Guido Logger ou A Linguagem Cinematográfica  de Marcel Martin.
 
Cat Ballou é a filha única de um fazendeiro viúvo, que é assassinado por uma questão de terras, por um pistoleiro a mando dos ricaços locais. Ela junta um grupo de amigos jovens, contrata um pistoleiro para se vingar, consegue, mas continua a meter-se em sarilhos e é condenada à forca. Três minutos antes do fim do filme, escapa espetacularmente.


 
Lembro que na época a gente chegava a discutir se aquilo era um faroeste (porque a ambientação é de cowboys), uma comédia (porque há uma porção de cenas engraçadas), um filme romântico (porque um dos amigos de Cat procura conquistá-la durante o filme inteiro, e consegue) ou um musical (porque o filme é narrado musicalmente, com dois tocadores de banjo cantando cordelmente a vida de Cat Ballou).
 
Pode ter sido um dos filmes em que comecei a entender que os gêneros literários ou cinematográficos existem como conjuntos de elementos a que as obras podem recorrer ou não. Não faz sentido dizer “o filme X pertence ao gênero Y”. Um filme não “pertence” a nada, um filme usa elementos de um gênero, ou de mais de um, conforme a conveniência de quem o escreve e dirige.
 
Trinta anos depois eu estaria discutindo se Alien, o 8º. Passageiro, era um filme de horror ou um filme de ficção científica. E constatando que para muitas pessoas a única coisa importante para se saber de um filme é “A Que Gênero Ele Pertence”, e uma vez estabelecido isso, pode-se passar adiante e ir falar de outro assunto.
 
Revi agora Cat Ballou, meio achando que estava perdendo meu tempo em rever algo que já assisti duas ou três vezes quando tinha 17 anos. Melhor ir ver filme novo, não é mesmo? 

 
Foi bom ter visto, para apreciar melhor o lado cordelesco do filme. A crítica norte-americana sempre se refere aos músicos que narram a história (Nat King Cole e Stubby Kaye) como “uma espécie de coro grego”, que descreve situações, avisa o que vai acontecer e depois comenta o que aconteceu. Acho curioso que essa crítica se detenha tão pouco sobre os “cordelistas” do tempo do faroeste, que estão presentes (e com presença importante) em tantos filmes.
 
São os poetas ambulantes que escrevem em revistinhas baratas (chapbooks) as aventuras dos Billy The Kid e dos Bat Masterson de sua época. Fazem o que no Nordeste faziam Leandro Gomes de Barros, Francisco das Chagas Batista e João Martins de Athayde narrando as proezas e as crueldades de Antonio Silvino ou Lampião.


 
Logo no começo do filme vemos Cat Ballou sendo embarcada no trem por uma tia protetora, e abrindo um livrão escuro, encadernado, que ela comenta com o vizinho de cabine ser um volume de poesias de Tennyson. Segundos depois, escapa de dentro do livrão um chapbook barato onde se contam as aventuras do pistoleiro Kid Shelleen. Lá pelo meio do filme, depois que o pai é assassinado, ela reencontra o cordel e é através dele que se dispõe a contratar Kid Shelleen para executar sua vingança. Chega-lhe à porta um pistoleiro andrajoso, bêbado, um pistoleiro-pastelão. O desencanto dela é o de todos que confundem a lenda impressa com a vida real.  



 
Stubby Kaye Nat King Cole, por sua vez, são personagens que eu acho mais brechtianos do que gregos, porque eles estão de banjo em punho no meio da rua, dentro das salas, diante do cadafalso, a poucos metros dos personagens da história que narram. Estão cantando “The Ballad of Cat Ballou” numa mistura sedutora de improviso (porque os fatos que eles narram estão acontecendo naquele instante, à sua volta) e de balada tradicional (porque é este o ponto de vista narrativo).
 
E com isso eles colocam o filme no gênero que invento agora, o “Cordel do Faroeste”, e quem achar que é exagero assista Os Imperdoáveis (1992, “Unforgiven”) de Clint Eastwood, Um De Nós Morrerá (1958, “The Left Handed Gun”) de Arthur Penn e outros. Há sempre um cordelista de lápis e papel em punho, acompanhando os indivíduos que fazem História. 
 
Outro aspecto interessante é a distribuição de personagens masculinos servindo como ajudantes a uma personagem feminina que tem uma jornada a cumprir. Parece ser um arquétipo narrativo, não sei se típico da narrativa norte-americana.
 
Tomei consciência disso pela primeira vez lendo uma entrevista de Karen Joy Fowler (a autora de The Jane Austen Book Club) em que ela comentava seu (excelente) romance meio-fantástico, Sarah Canary (1991). Esse livro transcorre no Oeste norte-americano, na mesma época de Cat Ballou. Nele aparece “do nada” uma mulher estranha, que não entende inglês e não fala nenhuma língua conhecida. Ela ganha o apelido de “Sarah Canary” porque apenas emite uns piados de pássaro.


Essa mulher é recolhida a um asilo, foge, e passa a ser protegida por um grupo de indivíduos jovens, meio marginalizados: um chinês, um esquizofrênico paciente do asilo e um agente postal. Eles viajam a pé, são perseguidos, metem-se em aventuras, e aqueles três caras estão protegendo, de maneira até inexplicável para eles, aquela mulher feia, estranha, e que não se comunica com eles. (O leitor de FC deduz que ela é uma alienígena extraviada.)
 
Numa entrevista, Karen Joy Fowler comentou que concebeu esse estranho grupo de pessoas tendo como referência os personagens de O Mágico d Oz: A menina Dorothy, cercada pelo Homem de Lata, o Espantalho e o Leão Medroso. E disse achar interessante que nenhum crítico tivesse atentado para esse fato.
 
Bem, a Internet atentou recentemente para o fato de que existe uma distribuição parecida de personagens em Star Wars: a princesa Leia, cercada por Han Solo, Chewbacca e C-3PO.



Não duvido haver uma longa lista de histórias em diversos gêneros (fantasia, cavalaria, etc.) em que uma personagem feminina aparece acompanhada por “galantes cavaleiros” dispostos a tudo por ela. É o caso de Cat Ballou, que conta com a ajuda e a companhia afetiva de três rapazes: o "tio", o "sobrinho" e o índio, que a ajudam a contratar o pistoleiro Kid Shelleen e consumar sua vingança.