Vem daí uma das cenas famosas do
filme. Desalentado e sem grana, impedido de entrar na pensão onde estava em
dívida, ele caminha de madrugada pelas ruas desertas da cidade, na companhia de
um norte-americano negro, trumpetista, um dos muitos soldados do exército dos
EUA que se deixaram ficar na Itália depois do fim da guerra. Os dois se
deparam com uma moça ao violão (apresentada como “a grande artista brasileira,
Moema”) que não é outra senão Vanja Orico, que poucos anos depois ficaria
famosa aparecendo em O
Cangaceiro (1953), de Lima Barreto.
(Vanja Orico)
É curioso ver no filme de estréia de Fellini uma cantora
entoando “Meu Limão, Meu Limoeiro” em puro português. Não é surpreendente, no
entanto – é bom lembrar que a década de 40, entrando pela de 50, foi o auge do
baião de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, e muitos filmes estrangeiros da
época incluíam canções brasileiras em sua trilha. Foi também o caso de Noites Brancas (1957) de Luchino
Visconti, onde escutamos “Muié Rendeira”, a composição de Zé do Norte tornada
famosa em O Cangaceiro.
E o próprio Lattuada viria a incluir em seu Anna (1951) um nímero musical cantado
por Silvana Mangano, “El negro Zumbón”, um dos mais conhecidos baiões compostos
fora do Brasil – a música é de Armando Trovajoli, grande “trilheiro” do cinema
italiano, e letra de Francesco Giordano.
Aqui, “Meu Limão, Meu Limoeiro”:
https://www.youtube.com/watch?v=CoKUmGP9FCw&ab_channel=gelsomminna
E aqui, “Sodade, Meu Bem, Soidade” (O Cangaceiro):
https://www.youtube.com/watch?v=_rqMBScsrgY&ab_channel=RADIOSANTOS%28REM%29
Fellini, mesmo em seu primeiro filme (e um filme
co-dirigido por um amigo mais experiente) já era o cineasta do grotesco e do
bizarro. Encontrei aqui neste filme uma cena de submundo que seria depois
recriada na tela pelo carioca Miguel Borges. São os homens que “dormem na
corda”, ou seja, sentados num banco comprido e debruçados sobre uma longa corda
amarrada horizontalmente. Quando o dia amanhece, o dono do pulgueiro desamarra
a corda, todo mundo tomba para a frente, levanta e vai embora.
E há a cena inesquecível de quando a companhia de vaudeville se apresenta numa cidadezinha
e desperta a simpatia de um ricaço local, que convida a todos para jantar, na
esperança de exibir seus próprios dotes artísticos (cantando o “Figaro”) e de
tirar uma casquinha da desejada-das-gentes, Liliana. A companhia está
esfaimada, e o jantar é uma longa cena em que a câmera percorre a mesa
mostrando uma dúzia de rostos que mastigam com concentração, voracidade e
êxtase, sem trocar uma palavra sequer.
https://www.youtube.com/watch?v=CoKUmGP9FCw&ab_channel=gelsomminna
https://www.youtube.com/watch?v=_rqMBScsrgY&ab_channel=RADIOSANTOS%28REM%29
