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sábado, 15 de julho de 2023

4962) Escutem a voz dos doidos (15.7.2023)

 

(Ariano Suassuna)


O pensamento das pessoas chamadas normais é como os automóveis no trânsito, e o pensamento dos doidos é uma bicicleta.
 
O automóvel, teoricamente, poderia andar de ré em plena rua, poderia subir na calçada, poderia dirigir na faixa da esquerda e não da direita, e assim por diante. Poderia fisicamente, é claro. Não o faz porque existem leis, códigos, punições previstas; e existe um consenso geral de que é melhor assim, é melhor que haja proibições e restrições, desde que isso deixe as possibilidades mais claras, e facilite a vida de todo mundo.
 
A bicicleta, não. O ciclista é um ser estranho, meio esquizóide. Está montado num veículo mas se considera pedestre. Ciclista sobe na calçada, anda na contramão, enfia-se a toda velocidade por um grupo de pedestres, pedala do lado esquerdo, do lado direito... Todo mundo obedece regras, mas o ciclista só obedece sua própria conveniência.
 
O juízo dos doidos é assim também – pensa o que gosta e o que consegue, e danem-se as outras formas de pensar.
 
Quando digo “os doidos” não me refiro necessariamente às pessoas com problemas mentais, internas nos manicômios, etc.  Refiro-me a todas as pessoas que pensam “fora do esquadro”, pessoas cujo raciocínio segue leis próprias; e o fazem espontaneamente, e não de forma lúcida e deliberada como o fazem os poetas, escritores, etc.
 
Exemplo do pensamento de um doido: o primeiro dicionário de polonês foi publicado em 1746, e entre outras definições tinha esta:
 
“CAVALO – Todo mundo sabe o que é um cavalo”.
 
Este dicionarista é um doente mental? Provavelmente não, mas o raciocínio que o fez redigir este verbete é o típico raciocínio de um doido.
 
G. K. Chesterton tem algumas excelentes páginas sobre a doidice no capítulo “The Maniac” de Orthodoxy (1908). É dele a famosa frase de que “um doido é alguém que perdeu tudo exceto a razão”. Vale lembrar que Chesterton dizia isso lamentando o doido, e não para celebrá-lo. O sentido profundo de sua frase é de que um doido é alguém incapaz de pensar em diferentes categorias, de compreender um ponto de vista diferente do seu. O doido é alguém “cheio de razão”, como a gente diz na Paraíba para qualificar uma pessoa arrogante, prepotente, que se recusa a entender o ponto de vista do interlocutor.


Para Chesterton, a insanidade é quando uma pessoa começa a raciocinar sem partir dos princípios corretos; ela entra num vale-tudo mental, porque a sua razão é “uma razão sem raízes, uma razão que gira no vácuo”. Um pensamento insano, mesmo que articulado de modo aparentemente correto; como certas frases sintaticamente corretas mas que nada dizem, como no caso dos cambueiros que taliscam a bata de qualquer catalunga, sem perceber que o tirambó não calistura, nem as tragas fazem qualquer pinelo.
 
A doidice – essa doidice – seria um pensamento que perdeu a semântica mas mantém um arremedo de sintaxe.
 
Chesterton abomina o doido (“o maníaco”) porque, para ele, doido é quem não é cristão, quem não parte dos princípios corretos. Na análise dele não há lugar para o doido engraçado, o doido surrealista, o doido imprevisível. O tipo que ele descreve (com o brilhantismo de sempre) é o monomaníaco, o doido vazio, o doido sem graça. Por isso ele diz que “mesmo os delírios mais poéticos dos insanos só podem ser apreciados por uma pessoa sã; para o insano, sua insanidade é extremamente prosaica, porque é real”.




Acho que foi Henri Bergson, em sua teorização sobre o Riso, quem sugeriu esse ângulo para definir o Humor: é a nossa reação quando vemos alguém se comportar cegamente, de maneira mecânica, encalhada num só tipo de visão, de reação, de raciocínio. Neste ponto há uma convergência interessante com o pensamento de Chesterton, porque esse tipo de personagem é alguém que perdeu tudo, exceto a razão, perdeu qualquer capacidade de pensar, exceto aquele pensamento mecânico que o transforma num cego repetidor de clichês, de palavras-de-ordem ou de mantras que nem ele mesmo entende.
 
Existem doidos de toda qualidade. Dizer “o Doido” é tão inconclusivo como dizer “o Artista”, porque dentro desse termo cabe um milhão de tipos.

Guimarães Rosa exclama, através do seu narrador de “A Terceira Margem do Rio”: “Ninguém é doido. Ou então todos.” Rosa era fascinado pelos doidos, e um conto como “O Recado do Morro” (hoje incluído no livro No Urubuquaquá, no Pinhém) exibe uma galeria de doidos muito variada.




Tem o “Catraz”, cientista amador, o homem que inventou um automóvel ainda incompleto, porque só funcionava na descida, “na subida e no plaino ainda não é capaz de rodar.” O Catraz queria voar para a Lua montado numa catrevage puxada por urubus amarrados, bastando-lhe erguer na ponta de uma vara um pedaço de carniça, que faria os urubus levantarem voo para alcançá-la, e como a vara estaria igualmente se elevando, acabariam desembarcando na Lua ou além.
 
Tem o “Coletor”, doido que vivia rabiscando números nos muros da cidade, contabilizando suas cabeças de gado, suas terras, seus ouros...
 
A doideira dele era uma só: imaginava de ser rico, milionário de riquíssimo, e o tempo todo passava revendo a contagem de suas posses. Escrevia em papel, riscava no chão, entalhava em casca de árvore, em qualquer parte. (...) Aquele homem tinha uma felicidade enorme.
 
Nossos magnatas de fortunas eletrônicas, virtuais, compartilham dessa imaterial felicidade, e ai de quem sugerir recolhê-los ao Pinel. Me digam em que casca de árvore ficaram os bilhões de Eike Batista ou de Bernard Madoff. São doidos? Não, são espertalhões, mas eram menos espertos do que imaginavam. Dinheiro é um poderoso alucinógeno; ele proporciona visões deslumbrantes, mas também faz o sujeito atravessar a rua na hora errada.
 
No mundo de Chesterton não há lugar para o doido esperto. O doido esperto é simplesmente o esperto que se faz de burro para enganar os burros que se consideram espertos. O exemplo clássico é o Doidim que os caras da cidade chamam e mandam escolher entre uma moeda pequena de ouro e uma moeda grande de cobre – e ele sempre pede para si a moeda maior. Quando alguém vai lhe explicar que seria mais jogo pegar a outra, ele diz: “Se eu pegar a outra, eles param de me chamar”.
 
Esse é o doido esperto, o doido ciclista, que inventa um caminho mais útil para si mesmo, aproveitando-se do fato de que os outros só raciocinam de um jeito. Perderam todas as outras formas de pensar, e só lhes resta “a razão”. São previsíveis. Podem ser driblados.



Um clássico exemplo de doido esperto é Dom Pedro Dinis Ferreira-Quaderna, o narrador do Romance da Pedra do Reino (1971) de Ariano Suassuna, um personagem mercurial, escorregadio, que ao longo do romance se faz de doido, se faz de cego, se faz de besta, se faz de intelectual, se faz de qualquer coisa que lhe convenha a cada instante. Quaderna tem, como certos doidos, a mania de grandeza, de se acreditar o futuro Imperador do Brasil, por ser descendente dos fanáticos que degolaram dezenas de pessoas em 1838, na Pedra do Reino, para desencantar um castelo e trazer de volta Dom Sebastião. Quaderna acredita nisso? Depende. Acredita quando lhe convém. Tem mais juízo do que eu ou você.
 
Meu saudoso amigo Arievaldo Viana contava esta, de algum doidim cearense:
 
Hoje encontrei um doido que anda pedindo esmola aqui na Praça Pedro Américo. Sempre eu dou-lhe um trocado.
Ele botou a mão na minha cabeça e falou: "Se você tá com Deus, um bandido bota a arma na sua cabeça, aperta o gatilho e a arma não dispara."
Perguntei: "E se for uma arma boa e disparar?"
Ele foi rápido: "Era porque você estava pronto pra ir ao encontro de Deus".


(Arievaldo Viana)




quarta-feira, 21 de junho de 2023

4954) Primeiras Estórias: "Tarantão, meu patrão" (21.6.2023)



(João Guimarães Rosa)

A figura do doido é recorrente na obra de Guimarães Rosa, mas talvez fosse melhor dizer de um jeito diferente. Não é o doido propriamente dito, mas o personagem de comportamento amalucado. Não é o doido trancafiado no Pinel ou na colônia. É aquele camarada, meio vagueante do juízo, parado no ponto de ônibus, contando pra ninguém uma história que ninguém entende.  
 
O “doido solto”, como se dizia em Campina – o indivíduo que não vale a pena levar para o Manicômio, porque na verdade não é uma ameaça a si mesmo nem a ninguém. Uma figura imprevisível, que à gente às vezes tolera, mas com desconforto, porque sabe que de um instante para outro ele pode aprontar um surrealismo qualquer.  
 
Comentei dias atrás o conto “Darandina”, onde essa dualidade é pretexto para Rosa contar a história divertida do sujeito que entra no hospício, pede para ser internado alegando doidice, e, diante da negativa, volta para a rua, sobe numa palmeiras e lá em cima tira toda a roupa, jogando-a na multidão que se formou. Era doido ou não era?     
 
Algo parecido se dá com o penúltimo conto do livro, “Tarantão, meu patrão”, cujo narrador, conhecido por “Vagalume”, tem como patrão um fazendeiro que anda meio destrambelhado do juízo. A família o confinou na fazenda para esperar um médico, mas no abrir do conto o fazendeiro – “Iô-João-de-Barros-Diniz-Robertes!” – já está montando a cavalo e partindo, obrigando o pobre Vagalume a montar também e ir atrás. 
 
O patrão está “sem paletó, só o todo abotoado colete, sujas calças de brim sem cor, calçando um pé de botina amarela, no outro pé a preta bota; e mais um colete, enfiado no braço, falando que aquele era a sua toalha de se enxugar.”  Mas sua demanda preocupa: ele diz a Vagalume que está indo à procura do Magrinho para matá-lo. O Magrinho é o médico, sobrinho-neto dele, que dias atrás lhe aplicou uma lavagem intestinal. 
 
O patrão sai demente a cavalo, e Vagalume atrás, e ele alvoroça tudo por onde passa, seja porque já o conhecem, seja porque seus modos chamam a atenção. E ele vai convocando indivíduos para segui-lo. Faz gentilezas à mãe de um, conclama outro, faz discursos, e aos poucos a sua cavalgada vai crescendo. 
 
Que poder têm os doidos para atrair as pessoas? Não é qualquer doido, é o doido eloquente, porque essa combinação de imprevisto e veemência parece seduzir as pessoas que estão cochilando com a mesmice da vida. E ele vai de lugarejo em lugarejo. Desmancha uma procissão jogando dinheiro pro alto (“...a se curvar, o povo, em gatinhas, para poderem catar prodigiosamente aquela porqueira imortal”). E o séquito vai aumentando. 




As aventuras do Patrão são variadas, e nas mãos de um prosador com outro perfil renderia talvez um romance divertido como O Grande Mentecapto (1979) de Fernando Sabino. Vagalume segue o patrão como Sancho seguia o Quixote, sempre de olho, para que não se meta numa encrenca grossa. E ele também se entusiasma com o inédito daquilo: 
 
Todos vindos, entes, contentes, por algum calor de amor a esse velho. A gente retumbava, avantes, a gente queria façanhas, na espraiança, nós assoprados. A gente queria seguir o velho, por cima de quaisquer idéias. (p. 164)
 
O furor vingativo do velho não arrefeceu:
 
Ao que o velho sendo o que era por-todos, o que era no fechar o teatro. “Vou ao demo!” bramava. “Mato o Magrinho, é hoje, mato e mato, mato, mato!” – de seu sobrinho doutor, iroso não se olvidava. Súspe-te!  (p. 164)
 
Vagalume cavalga ao lado dele, e o tropel compassado dos cavalos vai fazendo brotar no texto a sugestão do título:
 
Me passei para o lado do velho, junto – tapatrão, tapatrão... tarantão... tarantão... e ele me disse: nada. Seus olhos, o outro grosso azul, certeiros, esses muito se mexiam. Me viu mil. “Vagalume!” – só, só, cá me entendo, só de se relancear o olhar. “João é João, meu Patrão...” Aí; e – “patrapão, tampantrão, tarantão…” (p. 164)
 
E assim segue a cavalgada, entre epopéias e onomatopéias, o grupo aumentando, até Vagalume se dar o trabalho de listar os “combatentes”, um prazer a que Riobaldo Tatarana se entrega várias vezes no Grande Sertão: Veredas:
 
E eu ali no mei. O um Vagalume, Dosmeuspés, o Sem-Medo, Curucutu, Felpudo, Cheira-Céu, Jiló, Pé-de-Moleque, Barriga-Cheia, Corta-Pau, Rapa-pé, o Bobo, o Gorro-Pintado, e o sem-nome nosso amigo.
 
E é essa “estranha cavalgada” que irrompe na casa do Magrinho, o sobrinho-doutor. E vejam só – a casa está em festa! É o dia do batizado da filha do Magrinho, e tudo ali é uma alegria só. Chega de repente esse Exército Brancaleone, empoeirado, suado, em bater de cascos e tinir de esporas. No meio a incerteza e da surpresa geral, o Patrão pede a palavra!
 
Todos, em roda de em grande roda, aparvoados mais, consentiram, já se vê. Ah, e o Velho, meu Patrão para sempre, primeiro tossiu: bruba! – e se saiu, foi por aí embora a fora, sincero de nada se entender, mas a voz portentosamente, sem paradas nem definhezas, no ror e rolar das pedras. Era de se suspender a cabeça. Me dava os fortes vigores, de chorar. Tive mais lágrimas. Todos, também; eu acho. Mais sentidos, mais calados. O Velho, fogoso, falava e falava. Diz-se que, o que falou, eram baboseiras, nada, idéias já dissolvidas. O Velho só se crescia. Supremo sendo, as barbas secas, os históricos dessa voz: e a cara daquele homem, que eu conhecia, que desconhecia. (p. 166) 
 
A festa termina assim em festa (Vagalume confirma: “Com alegria. Não houve demo. Não houve mortes”) e o conto se instala numa outra vertente da obra de Rosa, não muito comentada, mas presente. Como a define Paulo Rónai, em seu prefácio, “Os Vastos Espaços”, ao livro de Rosa: “o conflito esperado deixa de se cumprir”

Rónai identifica essa tendência dramática igualmente em “Famigerado”, “Os irmãos Dagobé”, “O Cavalo que Bebia Cerveja”, “Luas-de-Mel” e “Darandina”. 
 
Rosa é conhecido pelo sopro épico de suas batalhas de jagunços, seja nos duelos homem-a-homem, seja nos combates tropa-a-tropa. Nestes contos, no entanto, posteriores ao Grande Sertão, emerge o outro lado – o Rosa diplomata, o Rosa conciliador e negociante, o Rosa de sorriso zen-melífluo, o demarcador de fronteiras mutuamente concordadas, um homem com a preocupação-de-ofício de agüar os conflitos antes que eles peguem fogo.
 
Em “Tarantão”, ficamos sem saber o que o Patrão queria de fato – se ia mesmo matar o Magrinho e se comoveu ao ver o batizado – ou se tudo aquilo era esperteza prévia para alvoroçar meio sertão e arrebanhar uma “cruzada” de gente apanhada-a-laço. Mas tem quem possa saber o que um doido pensa?  Só se for doido também. Como o autor do conto (controladamente, estudadamente, bonacheiramente) devia ser.



(O último curso deste ano; quem se interessar se apresse)
 




sexta-feira, 27 de janeiro de 2023

4907) Primeiras Estórias: "Darandina" (27.1.2023)



Guimarães Rosa tinha uma certa fascinação pelos doidos, pelos indivíduos meio sem juízo, fora de esquadro. Não o doido furioso, porejando maldade: mas o doido manso, às vezes até articulado e bom argumentador, mesmo que por linhas tortas. O doido que se comporta de maneira aceitável, civil.  Como se a gente se encontrasse com ele para conversar, na calçada, mas cada um estivesse sendo personagem de um filme diferente. 
 
Talvez a melhor galeria de tais personagens esteja na noveleta “O Recado do Morro” (em Corpo de Baile, 1956), história de uma caravana morosa que ao longo do caminho vai se deparando com um lunático atrás do outro, e todos eles acabam se envolvendo com a misteriosa voz do Morro da Garça, que se vê no horizonte. A voz do morro! Como se o morro pudesse dizer alguma coisa! 
 
Em Primeiras Estórias (1962) os doidos mais comoventes são os personagens epônimos do conto “Sorôco, sua mãe, sua filha”, os doidos que não explicam nada: apenas cantam na hora da partida. Comentei essa história aqui:
 
https://mundofantasmo.blogspot.com/2020/04/4566-soroco-sua-mae-sua-filha-442020.html




“Darandina”, o décimo-oitavo conto do livro, é também sobre um doido e também, como “Sorôco...” parece evocar os tempos médicos de Guimarães Rosa no hospício de Barbacena, onde ele sentou praça por uns tempos na juventude.
 
O narrador trabalha no hospício, é um interno de plantão por entre enfermeiros e doutores, e está de manhã cedo à porta, esperando a entrega dos jornais, quando de dentro do hospício emerge um homem bem vestido, a passo rápido, e dá-se então um certo tumulto quando o homem parece ter afanado a carteira de alguém, ou quem sabe foi a caneta-tinteiro. O suposto ladrão foge, é perseguido, mas ele vai direto rumo a uma palmeira-real, majestosa, que há quase no meio da praça. E sobe de palmeira acima!
 
A multidão perseguidora se ajunta, todos de cara erguida, e começa aí um vai-não-vai, um foi-não-foi, que o autor estica espertamente por catorze páginas. Interrogando outro interno, o Adalgiso, o narrador fica sabendo que apesar de ter saído do prédio do hospício o homem não era um dos “hóspedes”, tinha ido ali apenas para pedir um favor.
 
Disse que era são, mas que, vendo a humanidade já enlouquecida, e em véspera de mais tresloucar-se, inventara a decisão de se internar, voluntário; assim, quando a coisa se varresse de infernal a pior, estaria já garantido ali, com lugar, tratamento e defesa, que à maioria, cá fora, iriam fazer falta... (...) Sabe quem é? Deu nome e cargo, Sandoval o reconheceu. É o Secretário das Finanças Públicas...
(p. 138, 3ª. edição)
 
Estamos num território bem pertinho da Itaguaí de Machado de Assis, com seu alienista, o dr. Simão Bacamarte, e sua Casa Verde onde depois de muito esforço ele se resignou a encarcerar os sãos de espírito, porque para caber os doidos era necessária a cidade inteira.
 
A confusão, porém, está formada, e as pessoas se agitam. Que necessidade tem uma pessoa da classe alta de se assubir numa palmeira?
 
A multidão exige que o doido desça. Como resposta, ele atira lá de cima um sapato.  E depois, outro.  Grita lá de cima uma série de palavras de ordem que talvez não pareçam tão doidas assim.
 
-- Viver é impossível! (pág. 140)
-- Pára!  (...)  Só morto me arriam, me apeiam!  (...)  Se vierem, me vou, eu... Eu me vomito daqui!  (pág. 142)
-- O amor é uma estupefação... (pág. 144)
 
De repente, chega esbaforido o verdadeiro Secretário das Finanças Públicas, restabelecendo a ordem no mundo. O homem da palmeira não era uma autoridade que endoideceu; era alguém que endoideceu de pensar que era uma autoridade, mas agora já se desveste todo. Tira calça, camisa, cueca, arremessa de coisa em coisa... E logo está nu em pelo lá em cima.
 
Guimarães Rosa conta, com riqueza de detalhes circunstanciais, essa curiosa fábula do homem que queria passar por doido e se internar na casa de saúde para se livrar da doidice do mundo aqui de fora; e depois, não conseguindo, foge para o alto da palmeira e se livra de toda a roupa civil que o incomodava.
 
Apenas proclamou: “Viva a luta! Viva a liberdade!” - nu, adão, nado, psiquiartista. (pág. 149)
 
Nu, adão, na(sci)do: a subida à palmeira é um renascimento, a ruptura com o mundo de antes para o surgimento de um ser novo, como a cobra que emerge da pele usada. Sem que isto implique, contudo, num milagre qualquer que zere os seus problemas anteriores:
 
Estava em equilíbrio de razão: isto é, lúcido, nu, pendurado. Pior que lúcido, relucidado; com a cabeça comportada.  Acordava!  Seu acesso, pois, tivera termo, e, da idéia delirante, via-se dessonambulizado. Desintuído, desinfluído – se não se quando – soprado.  Em doente consciência, apenas, detumescera-se, recuando ao real e autônomo, a seu mau pedaço de espaço e tempo, ao sem-fim do comedido.  (pág. 148)
 
Primeiras Estórias tem um punhado de narrativas urbanas que compõem um contraste positivo com os cenários sertanejos habituais em Rosa. Aqui, há sem dúvida ecos de sua escala em Barbacena, seu convívio com os doidos de lá (cujos exemplos ele cita em seus textos). Tal como ocorreu com André Breton na I Guerra Mundial, cuidar diariamente de doidos internados ajudou a abrir algumas portas na cabeça literária de Rosa.
 
Maria Luiza Ramos tem um ótimo ensaio, “Análise Estrutural de Primeiras Estórias” (O Estado de São Paulo, 30-11-1968, Suplemento Literário), incluído na coletânea Guimarães Rosa, Coleção Fortuna Crítica, Rio, Civilização Brasileira, 1983, pág. 519.
 
Ali, ela faz um levantamento da frquência verbal de termos “com que se tece o campo semântico” da prosa deste livro do autor:
 
(...) palavras e expressões como esquisito, espanto, milagre, pasmo, arregalar os olhos, estranho, assombrável, estatelo, estupefação, engano, surpresa, estarrecer, desatinado, espavorido, aparvoado, aturdir, irreconhecer, tremer, estremecer, encanto, enigma, confusão, sobressalto, mistério, fatalidade. (...) [T]odas convergem para a problemática central: a falta de lógica da existência, ou a angústia provocada pela insegurança da vida humana.

 






segunda-feira, 21 de novembro de 2022

4885) Primeiras Estórias: "A Benfazeja" (21.11.2022)




É um dos contos mais estranhos da obra de Guimarães Rosa; o décimo-sétimo conto de Primeiras Estórias (1962). 
 
Começa pelo enunciado narrativo. É um conto onde a voz que narra está insistentemente se dirigindo a um possível público, um possível interlocutor coletivo, a quem ele trata de “vocês”. Não há como não lembrar que o enunciado narrativo do Grande Sertão: Veredas é de um narrador que se dirige a um interlocutor único, um “doutor”, um ouvinte culto que o escuta atentamente.
 
Guimarães Rosa é conhecido pela empatia, pela simpatia com que descreve e examina pessoas pobres ou mesmo miseráveis: doidos-de-rua, mendigos, caboclos broncos dos grotões. Uma exceção notável são os “catrumanos” que o bando de Riobaldo encontra no Grande Sertão: Veredas. Criaturas infra, que chegam a parecer sub-humanas (“quadrúmanos”) de tão rudimentares em sua fala, em seu comportamento. Mas em obras como “O Recado do Morro” (em Corpo de Baile) já se vê uma sucessão de doidos andrajosos e simpáticos, de vagabundos curiosos e inofensivos.
 
Em “A Benfazeja”, no entanto, a dupla de mendigos (que depois se expande em trio, ao ser referido um terceiro personagem) lembra aqueles mendigos sórdidos de filmes de Luís Buñuel, como Viridiana ou Los Olvidados. Mendigos imundos, antipáticos, repelentes, que não despertam a compaixão.   


(Viridiana, de Luís Buñuel) 


A personagem do título é uma mendiga  chamada de Mula-Marmela, que se arrasta pela cidadezinha servindo de guia para um cego, o Retrupé, um cego azedo, buñuelesco, cruel.
 
O homem maligno, com cara de matador de gente. Sobre os trapos, trazia um facão, pendente. Estendia, imperioso, sua mão de tamanho. E gritava, com uma voz de cão, superlativa. Se alguém falasse, ou risse, ele parava, esperava o silêncio. Escutava muito, ao redor de si. Mas nunca ouvia tudo; não sabia nem podia. (p. 126)
 
Logo adiante, o narrador nos faz a revelação de que o Retrupé é filho do finado marido dela, o Mumbungo, um sujeito igualmente mau: “célebre-cruel e iníquo, muito criminoso, homem de gostar do sabor de sangue, monstro de perversias”. E que este tinha sido assassinado pela própria Mula-Marmela.
 
Dessa forma, o conto se coloca em torno dessa trindade de má aparência. Tudo que ele nos revela sobre os três mendigos é negativo. Chega a lembrar em certos momentos o modo como Riobaldo, no Grande Sertão: Veredas, se refere aos jagunços inimigos, os “hermógenes” e os “ricardões”, assim coletivizados, misturados na mesma essência-ruim dos seus líderes.
 
E de parágrafo em parágrafo o autor vai descascando camadas dessa situação desconfortável, revelando motivações subjacentes.
 
O pai, o Mumbungo, se vivia bem com a mulher, a Mula-Marmela, e se ela precisava dele, como os pobres precisam uns dos outros, por que, então, o matou? (...) Mas, quando ela matou o marido, sem que se saiba a clara e externa razão, todos aqui respiraram, e bendisseram a Deus. (...) Mas não a recompensaram, a ela, a Mula-Marmela, ao contrário: deixaram-na no escárnio de apontada à amargura, e na muda miséria, pois que eis. (...) A mulher tinha de matar, tinha de cumprir por suas mãos o necessário bem de todos, só ela mesma poderia ser a executora – da obra altíssima, que todos nem ousavam conceber, mas que, em seus escondidos corações, imploravam.  (p. 128)
 
Começa a se delinear, assim a razão desse dedo-em-riste do narrador, desse “vocês” com que ele se dirige a alguém – aos habitantes do lugar? Esse tratamento aparentemente respeitoso, do qual ele se serve para apostrofá-los:
 
E vocês não sabem que...
Vocês nunca desconfiaram...
Vejam vocês mesmos...
 
O horror despertado pela Mula-Marmela não é apenas o horror da repulsa pela sujeira e feiura. É um horror mesclado de remorso, por ter ela servido de executante da “obra altissima”, servido de carrasca em nome desse “vocês” sem rosto, eliminando o detestado Mumbungo. (Na França, dava-se ao carrasco oficial da República o título de “Senhor das Altas Obras”). 
 
Aos poucos, o narrador começa a fazer pequenas ressalvas sobre a criatura:
 
Ela cuida dele, guia-o, trata-o como a um mais infeliz, mais feroz, mais fraco. (p. 130)
 
Ela mesma o conduz, paciente, às mulheres, e espera-o cá fora, zela para que não o maltratem. (p. 132)
 
Mas, reparando com mais tento, veriam, pelo menos, como ela não é capaz de pegar estouvadamente em alguma coisa, nem deixa de curvar-se para apanhar um caco de vidro no chão da rua, e pô-lo de lado, por perigoso. (p. 131)
 
É uma situação clássica, a da personagem que é desprezada pelo grupo, mas usada por ele quando necessário, para “fazer o serviço sujo”. Referência maior: Bola de Sebo (1880), de Guy de Maupassant.
 
Dessa massa informe de degradação humana o narrador vai extraindo pequenas redenções, pequenos gestos de humanidade que ainda bruxuleiam na mendiga.




Na reta final do desfecho do conto (“no fino do funil”, como diz saborosamente o autor) o cego Retrupé, alucinado por uma raiva sem rosto, puxa a faca, tenta matar a velha, gira desferindo golpes na treva e no vácuo, enquanto ela se mantém afastada. Ele tomba no chão, aos choros: “-- Mãe... mamãe... minha mãe!” Ela recolhe o chapéu caído, coloca-o de volta na cabeça dele, limpa a poeira: “ – Meu filho...”
 
O desfecho é trágico – o cego Retrupé morre durante a noite, com uma crise de falta de ar, e não falta quem na vila afirme que ela o teria estrangulado durante o sono, para ver-se livre dele. Quem pode saber? Mal vista, mal pensada e mal querida, a Mula Marmela vai-se embora dali, no derradeiro parágrafo:
 
E, nunca se esqueçam, tomem na lembrança, narrem aos seus filhos, havidos ou vindouros, o que vocês viram com esses seus olhos terrivorosos, e não souberam impedir, nem compreender, nem agraciar. De como, quando ia a partir, ela avistou aquele um cachorro morto, abandonado e meio já podre, na ponta-da-rua, e pegou-o às costas, o foi levando – se para livrar o logradouro e lugar de sua pestilência perigosa, se para piedade de dar-lhe cova em terra, se para com ele ter com quem ou quê se abraçar, na hora de sua grande morte solitária? Pensem, meditem nela, entanto. (p. 134)
 
É um conto que se destaca na obra de Rosa, pela ambientação persistentemente repulsiva, incômoda, brutal. Mais uma vez, não me vem outro paralelo senão os filmes de Luís Buñuel sobre aquela multidão de aleijados, cegos, leprosos, arrastando-se esfarrapados pelas estradas poeirentas da Espanha ou do México. É a tragédia lumpen, a degradação dos que não têm nada, dos que horrorizam os olhos e malassombram a lembrança, mas onde o narrador (ao contrário dos interlocutores a quem se dirige o tempo inteiro) vê uma chamazinha de empatia e de humanidade.
 


("Mullholland Drive", de 
David Lynch


 





sábado, 3 de setembro de 2022

4859) Sete doidos (3.9.2022)



1
Camutanga, 44 anos, doido em Ibimirim (Pernambuco). Gostava de dar voltas na praça contando os próprios passos e arengando com quem se atravessasse na frente, atrapalhando sua aritmética. Era muito querido pelos vendedores de cavaco-chinês, porque quando via um deles pedia a qualquer passante: “Brasileiro, me paga um cavaco!”. Muita gente pagava. Morreu de gripe por causa de uma chuva que pegou na calçada (chove pouco em Ibimirim, ele não sabia o que era aquilo). Tremia de febre quando o dono do açougue e um policial o botaram num carro para levá-lo ao Pronto Socorro. “Você vai ficar bom,” disse o açougueiro para tranquilizá-lo. Ele sorriu sem medo e disse: “Já tou ouvindo os anjos batendo as asas.”
 
2
Vera Pollák, 44 anos, de Budapeste, viúva, herdou casa humilde que foi dos pais, mora com a filha Nádia de 10 anos, recebe uma pensão pequena que lhe basta para sobreviver.  Vive num mundo mental de conexões aleatórias. Alimenta-se e organiza-se como um hamster amestrado. Coleciona vislumbres. Ensinou a filha a ler sozinha, usando o catálogo telefônico de 1953. Todas as noites,  após o jantar, as duas mudam as posições dos móveis da sala para esperar o dia seguinte. A mesinha de compensado vai para o lugar da poltrona esfiapada, que vai para o lugar do relógio-vovô, que vai para o lugar da mesa-de-centro de fórmica, que vai para o lugar do porta-garrafas... Ritual de arrastos, espanador em punho, que as duas executam às risadas, e que a mãe explica: “Se deixar tudo igual, o outro dia não vem”.
 
3
Marrafa Graúda, doida na cidade do Porto (Portugal). Circulava pelas ruas envolta em velhos vestidos rendados, roídos de traças, coberta de colares e de pulseiras, bijuterias, uma faixa de miss achada no lixão, aros de latas de cerveja enfiados nos dedos. Andava devagar, solenemente, seguida por um séquito invisível de mucamas, e cumprimentava todos formalmente, inclinando a cabeça. Seu adereço preferido era o enorme leque vermelho e dourado com que se abanava, escondia o rosto, e que fechava com um golpe seco, impaciente, quando o trânsito demorava a dar-lhe passagem. Morava nos fundos de um mafuá. Comia qualquer coisa que lhe dessem. Ninguém na cidade sabia sua origem.
 
4
Bala Bala, 20 anos, doido manso do bairro de Jacarepaguá (Rio de Janeiro). Sua mania eram os jogos de pelada, que ele gostava de irradiar nos campinhos de terra, como se fosse locutor de rádio. Falava com uma velocidade hilária, um vocabulário próprio e o jargão do rádio e da TV. Quando não conhecia os jogadores, inventava nomes alusivos, “Calçãozão”, “Boné”, “Dentinho”. Seu nome vinha de um dos seus bordões preferidos: “Arremesso cobrado pelo flanco direito, bala bala, avança Zuzé com a pelota dominada, corta o primeiro, bala bala, foge pela intermediária, disputa com Danoninho, bola espirra para Quengo que parte no contra ataque, bala bala, sofre o cerco de Josias...” Perguntado sobre o que significava aquela expressão, coçou a cabeça e disse: “É pra fazer o jogador correr mais depressa. Pra dar um gás.”
 
5
Zito Coroinha, 18 anos, de Milagres (Bahia). Desde pequeno manifestou intensa vocação religiosa, fazia promessas de orações uma atrás da outra, prometia 50 Ave-Marias para o ônibus chegar logo, 200 Credos para tirar nota boa na prova, 300 Pai-Nossos para não apanhar quando chegasse em casa. Aos 14 anos arranjou uma batina marrom de cordão puído, e desde então peregrina pela cidade absolvendo pessoas. Um frentista do posto: “Eu te absolvo pelos teus pensamentos pecaminosos.” A verdureira: “Eu te absolvo por teres passado tanto troco errado.” Um cambiteiro de cana: “Eu te absolvo pela primavera, verão, outono e inverno.” Uma menina de olhos arregalados: “Eu te absolvo pelo mal que trarás ao mundo.” Um casal que passa de Bíblia em punho: “Eu vos absolvo por aquilo da noite passada.”
 
6
Abner Abrahams, 61 anos, aposentado, de Palatine (Ohio). Recolhe jornais, sub-repticiamente, enquanto passeia por estações de trem, pelos cafés, pelas drugstores, com seus bigodes oitocentistas, seu chapéu fedora, sua bengala de castão de osso, sua pasta de couro volumosa que sai vazia e volta cheia, porque Abner recolhe jornais já lidos ou esquecidos, qualquer jornal, ele os dobra e guarda sob o olhar discreto de quem já lhe sabe as manias, e quando alguém o interroga ele explica: “É para eu ler quando ficar velho”, com a mente visualizando o monte de jornais que o espera em casa, com metro e meio de altura, onde no fim da tarde ele deposita com ar de triunfo sua recolha diária, e do qual a resignada família subtrai quantidade equivalente enquanto ele ressona; mas quando acorda e toma seu café matinal, antes de trocar de roupa, ele pousa a mão paternal sobre aquele monte de papel, cofia os bigodes e sente-se invadido por uma sensação oceânica de paz futura.
 
7
Madá Tantã, 58 anos, de Divinópolis (MG). Vive de bordar e vender lenços com enfeites de fuxicos, nas escadarias da igreja. De vez em quando dá-lhe uma veneta e ao ver surgir um homem sozinho ela se dirige a ele e diz: “Meu noivo! Meu noivo estava atrasado!  Vamos casar que o padre está esperando!” Todo mundo na cidade já a conhece, de modo que muitos indivíduos se prestam à fantasia inocente de entrar na igreja de braço-dado com ela, ir até o altar, fazer uma reverência, fazer uma mímica perfunctória de que estão trocando alianças, trocarem um beijo casto a meia distância, até que no fim deste ritual ela o empurra sorridente e diz: “Gostei de você não, como marido! Pode ir!...”  E volta para o degrau da igreja, para começar tudo de novo.
 
 
 
 
 






sábado, 4 de abril de 2020

4566) ""Sorôco, sua mãe, sua filha" (4.4.2020)




No filme Deserto Vermelho (“Il Deserto Rosso”, 1964), de Michelangelo Antonioni, há uma cena em que a mãe (Monica Vitti) tenta consolar o filho pequeno, que está doente. O menino, ao que tudo indica, ficou paralítico da cintura para baixo. A mãe, para ajudá-lo a adormecer, conta a ele uma história.

Era uma vez uma garota que morava numa ilha distante, e gostava de nadar no mar o tempo inteiro. Um dia, ela está nadando quando vê aproximar-se da ilha um navio misterioso. Ela nada para perto dele... e vê que o navio está deserto, não há ninguém a bordo. O navio muda de direção sozinho e vai embora, mas a menina se assusta e, para se refugiar, nada para o interior de uma caverna cheia de rochas, à beira-mar, por onde o oceano penetra. E quando ela nada para o interior da caverna, ela começa a escutar vozes que cantam. E vê que as rochas são arredondadas; parecem formas humanas.

– Quem estava cantando? – pergunta o menino.

– Todos – diz ela. – Todos cantavam.

São as rochas (aparentemente) que cantam, para acolher a garota.

Aqui, a sequência inteira:

Esse canto misterioso, que parece brotar das rochas e que surge como uma espécie de acolhida, de proteção, não é explicado no filme, onde esta cena é isolada (“isola” = ilha), não se comunica com o restante do filme. Que, como todo filme de Antonioni, é um filme sobre a incomunicabilidade, a nossa incapacidade de “ser” o Outro, mesmo por um breve instante.

Giuliana, a mãe que conta essa história, queixa-se noutro momento do filme que quando uma pessoa se corta na mão outras pessoas não sentem a dor. E lembra depois que quando duas gotas de chuva se tocam, o resultado é uma gota maior: 1+1 = 1.  Por que não é assim conosco, com as pessoas?...



“Sorôco, sua mãe, sua filha” é o terceiro conto de Primeiras Estórias (1962) de Guimarães Rosa, e traz consigo, por mera coincidência, alguns desses temas de solidão, incomunicabilidade e música.

Sorôco é um homem corpulento, barbudo, que está conduzindo para a estação do trem a mãe e a filha, que são mentalmente perturbadas e vão para o hospício de Barbacena; veio até um vagão de trem especial para conduzi-las, “assim repartido em dois, num dos cômodos as janelas sendo de grades, feito as de cadeia, para os presos”.

Como em outros contos do livro, não estamos mais no miolo do Grande Sertão. Estamos naquelas franjas sob regência urbana, e o autor informa: ”Quem pagava tudo era o Governo, que tinha mandado o carro”. Pessoas e ações diretas dos governos são muito presentes em Primeiras Estórias.

O povo da vila observa o trajeto dos três com comiseração, lamentando a internação das duas, mas reconhecendo que é o jeito, “Sorôco tinha tido muita paciência”, “com os anos, elas pioraram, ele não dava mais conta, teve de chamar ajuda”.

Sorôco (“Senhor Oco”?) é um homem que perdeu a banda feminina de sua existência, é um homem sem “Anima”. Viúvo, tem que se desfazer agora da “velha” e da “filha”, e lá vem, “dando o braço a elas, uma de cada lado”. A mãe vem toda de preto. A loucura da filha é espalhafatosa: ela se enfeita de panos e papéis aleatórios, coloridos, roupas umas por cima das outras. “Sem tanto que diferentes, elas se assemelhavam”.

Sorôco é um elemento masculino que perdeu a mulher do Presente (a esposa) mas conserva consigo a do Passado (a mãe) e a do Futuro (a filha). Elas duas estão ali para preencher o “oco” que ele traz dentro de si.

As duas são vistas com estranheza, mas com simpatia. E quando o trio chega à estação do trem, a filha começa misteriosamente a cantar. Cantar o quê? Ninguém sabe: uma cantiga inventada, brotada da doidice dela mesma, mas que traz consigo um fascínio, uma atração:

A moça, aí, tornou a cantar, virada para o povo, o ao ar, a cara dela era um repouso estatelado, não queria dar-se em espetáculo, mas representava de outras grandezas, impossíveis. Mas a gente viu a velha olhar para ela, com um encanto de pressentimento muito antigo – um amor extremoso. E, principiando baixinho, mas depois puxando pela voz, ela pegou a cantar, também, tomando o exemplo, a cantiga mesma da outra, que ninguém não entendia.

Essa espécie de transmissão telepática lembra o conto “Pirlimpsiquice” (falarei dele qualquer dia destes), em que garotos estão fazendo improvisos num palco de teatro e, sem acerto prévio, pulam, quase telepaticamente, de uma história combinada para outra não-combinada.

Cantigas são parte importante da obra de Guimarães Rosa, que muitas vezes chega a escrever a letra que seus personagens estão cantando: é a “cantiga brava” dos bandoleiros em “Augusto Matraga”, é a cantiga do Siruiz, que evoca a Riobaldo os momentos épicos do Grande Sertão. Em “Sorôco”, a cantiga parece ser sem letra, uma modulação de voz somente,

“...o acorçôo do canto, das duas, aquela chirimia, que avocava: que era um constado de enormes diversidades desta vida, que podiam doer na gente, sem jurisprudência de motivo nem lugar, nenhum, mas pelo antes, pelo depois.”

O Trem chega, engata o vagão onde as duas já estavam instaladas, e vai embora.

Sorôco volta, e a população assiste seu regresso, com “as vistas neblinadas”. Mas aí alguma coisa acontece. Aquela cantiga da filha, tão sentida e tão sem-sentido que despertou a mãe, contagiando-a, fica ali também com o pai:

Num rompido – ele começou a cantar, alteado, forte, mas sozinho para si – e era a cantiga mesma, de desatino, que as duas tanto tinham cantado. Cantava continuando. (...)  E foi sem combinação, nem ninguém entendia o que se fizesse: todos, de uma vez, de dó do Sorôco, principiaram também a acompanhar aquele canto sem razão! E com as vozes tão altas!  Todos caminhando, com ele, Sorôco, e canta que cantando, atrás dele, os mais de detrás quase corriam, ninguém deixasse de cantar. Foi o de não sair mais da memória. Foi um caso sem comparação.

Todos, todos cantavam. Uma canção que brotou da Imaginação (a filha), contaminou a Memória (a mãe), e dali preencheu vazio do homem, que foi capaz de transferir esse canto para todos os que acompanhavam seu momento de tristeza.

Paulo Rónai, num dos seus prefácios rosianos, observa que os doidos são um grupo de personagens que fascinam o autor. Rosa vê neles uma espécie de irrupção do insólito no real, uma janela que se abre para outro mundo sem deixar de estar plantada neste.

Rosa é um brincalhão com palavras e, nesta releitura de agora, pequenos detalhes começaram a me chamar a atenção neste conto. A certa altura, as notas musicais começam a brotar, meio camufladas no discurso (entre as páginas 16 e 18 da edição original). Enumero abaixo as incidências, na ordem em que aparecem, dando destaque de negrito para a sílaba musical em cada frase:

Todos diziam a ele seus respeitos, de . (p. 16)
Por forma que, por força disso, agora iam remir com as duas... (p. 17)
“Ela não faz nada, seo Agente...” (p. 17)
Nem olhou. ficou de chapéu na mão... (p. 18)
O triste do homem, , decretado... (p. 18)
...parecia que ia perder e de si, parar de ser. (p. 18)
...de uma vez, de do Sorôco... (p. 18)

Estarei “viajando” ao escutar esse do-ré-mi-fá-sol-lá-si-dó num conto musical?

Não devemos esquecer o lado lúdico, gracejador de Rosa – autor capaz de colocar num índice os títulos dos contos por ordem alfabética, menos um conjunto de três, bem no meio, com as suas iniciais “J-G-R”.  Ou de chamar a atenção de João Cabral de Melo Neto para o uso pouco convencional de uma exclamação: “.!.” – assim, entre dois pontos, e explicar que era para sugerir visualmente o jato de sangue descrito na cena.

O problema com os grandes inventadores é que em tudo deles a gente fica querendo adivinhar invenção.











quinta-feira, 31 de outubro de 2019

4518) Carl Jung e Philip K. Dick (31.10.2019)




Durante uma fase crucial de sua vida, o psicólogo Carl G. Jung redigiu uma de suas obras mais intrigantes e menos conhecidas, onde ele próprio afirmou ter penetrado em regiões mentais desconhecidas e perigosas. Esse material só veio a ser publicado muitos anos depois de sua morte, sob o título de O Livro Vermelho (“The Red Book”).
A obra abarca “experiências imaginativas entre 1913 e 1916”, e os manuscritos são datados entre 1914-15 e 1917. Jung estava em plena maturidade, em torno dos 40 anos. Foi uma fase tensa de sua vida, seguindo-se ao rompimento de sua amizade com Sigmund Freud a partir de 1913, e logo em seguida o início da II Guerra Mundial.


(do "Red Book")

Jung afirma que nesse período teve uma série de visões e de alucinações controladas, em que ele se deparava com pessoas ou figuras arquetípicas, e travava longos diálogos que copiava depois em cadernos, chamados “The Black Books” pela sua encadernação preta.

Algum tempo depois, ele começou a passar a limpo esses textos para “The Red Book”, um volume de tamanho grande, encadernado em couro vermelho. Nessa páginas, de um papel especial, ele usava uma variedade de canetas, pincéis, e tintas, produzindo o equivalente aos manuscritos medievais com iluminuras. Jung tinha um talento apreciável para a caligrafia e a ilustração.


(do "Red Book")

O próprio Jung narra esse longo processo, com riqueza de detalhes e de exemplos, no seu livro autobiográfico Memórias, Sonhos e Reflexões, organizado por Aniela Jaffé, no capítulo “Confronto com o Inconsciente”.

Diz ele, a certa altura:

Foi no ano de 1913 que decidi tentar o passo decisivo – no dia 12 de dezembro. Sentado em meu escritório, considerei mais uma vez os temores que sentia, depois me abandonei à queda. O solo pareceu ceder a meus pés e fui como que precipitado numa profundidade obscura. Não pude evitar um sentimento de pânico. Mas, de repente, sem que ainda tivesse atingido uma grande profundidade, encontrei-me – com grande alívio – de pé, numa massa mole e viscosa. A escuridão era quase total; pouco a pouco meus olhos se habituaram a ela, que parecia um crepúsculo sombrio. Diante de mim estava a entrada de uma caverna obscura: um anão ali permanecia de pé. Parecia feito de couro, como se estivesse mumificado.
(Memórias, Sonhos, Reflexões, Nova Fronteira, 1978, trad. Dora Ferreira da Silva)

Conforme dizem Lance S. Owens e Stephan A. Hoeller, na Encyclopedia of Psychology and Religion, Jung percebeu que “sua atividade imaginativa focalizada podia evocar cenas visionárias autônomas, além de personagens e troca de diálogos”.


(do "Red Book")

De acordo com o Dr. Sonu Shamdasani, que supervisionou a edição recente de The Red Book, Jung empregou o processo de, evocando uma fantasia, plenamente desperto, passar a tomar parte nela, como se participasse de um drama. “Essas fantasias podem ser compreendidas como um tipo de pensamento dramatizado em forma de imagens.”

Me perdoem a informalidade, mas creio que o dr. Jung estava descobrindo um método de projeção mental que os ficcionistas em geral (romancistas, dramaturgos, roteiristas) põem em prática todo dia das 9 às 17, com pausa para o almoço. Para um cientista de um século atrás, todo cuidado era pouco ao contaminar uma atividade tão objetiva quanto a Ciência com suas fantasias subjetivas; mas em suma, era isto que Jung estava fazendo. Estava fazendo literatura.


(do "Red Book")

No extremo oposto disto (ou seja, quase se tocando) temos Philip K. Dick. Ele teve uma série de crises psicóticas entre fevereiro e março de 1974 (que em seus escritos ele chama de “2-3-74”) e dedicou os anos seguintes de sua vida a elaborar uma obra gigantesca a que chamou Exegesis, um texto com longas elucubrações religiosas e filosóficas, onde figuram inclusive diálogos com Deus.


(da "Exegesis")

Sobre a "Exegesis":
http://zebrapedia.psu.edu/#!/

Dick acreditava que estava de fato conversando com Deus? Não importa. Para um ficcionista profissional, era essa a forma mais espontânea e mais fluente de pensar. Ele estava praticando o que já fazia há trinta anos. Já o cientista Jung estava descobrindo um território novo, o território onde ele se sentia liberado, autorizado a inventar coisas que sabia que não existiam.

Jay Kinney, editor da revista Gnosis, de San Francisco, comenta a obra de P. K. Dick à luz das numerosas (alegadas) “revelações místicas” de figuras históricas que vão do renascentista John Dee à “besta do Apocalipse” Aleister Crowley e ao guru lisérgico Timothy Leary, antes de estabelecer um paralelo entre Jung e Dick.


(da "Exegesis")

Alguém pode torcer o nariz diante dessa comparação com o autor de Do Androids Dream of Electric Sheep?, mas o fato é que Dick era um sujeito de muita erudição, com vasta leitura de psicologia, filosofia e da cultura oriental, o que transparece o tempo inteiro em suas narrativas de FC sobre conspirações interplanetárias e universos paralelos.

Jung, psicólogo clínico, lidava o tempo inteiro com pessoas à beira da loucura, e tinha o dever profissional e pessoal de servir-lhes de guia, ou de farol, ou de qualquer outra metáfora para o papel de quem, conversando com uma pessoa transtornada, tenta dizer-lhe: “Continue, me explique o que está vendo, fique tranquilo, eu estou aqui”.


(do "Red Book")

Dick pertencia à contracultura californiana dos anos 1950-60, experimentou drogas até não poder mais (sua droga preferida eram os comprimidos farmacêuticos, em complexas combinações e enorme quantidade). Era ao mesmo tempo o doido que delira e o escritor que transforma o delírio em histórias de pulp fiction para pagar os boletos.

Jay Kinney comenta o caso famoso de um esquizofrênico, “Albert W.”, examinado (em The Exploration of the Inner World) pelo psicólogo Anton Boisen, e diz:

Em sua discussão de Albert W., Boisen nota o paralelo entre seu paciente e George Fox, o visionário fundador dos Quakers, e acaba concluindo que “não existe uma linha de demarcação entre as experiências religiosas válidas e as condições e fenômenos anormais que são, para o alienista, provas de insanidade.” Para Boisen, o que em última análise distingue a loucura do misticismo é a direção em que vai a vida do indivíduo afetado. Para o insano, a experiência resulta numa desintegração ainda mais acentuada; para o místico, ela conduz à unificação íntima e à cura.
(“Introdução”, In Pursuit of Valis: Selections from the Exegesis, Underwood-Miller, 1991, trad. BT)

A estes dois tipos, o Místico e o Louco, eu somaria um terceiro, o Escritor. Não todos os escritores, certamente, mas um tipo de escritor que produz numa espécie de “estado alterado de consciência”, que envolve visões, alucinações controladas, escutamento de vozes, convulsões emocionais intensas durante o ato da escrita.


(a HQ de Robert Crumb sobre as experiências de Dick)

Philip K. Dick conhecia bem a obra de Jung (a primeira tradução em inglês de Memórias... é de 1963). Além disso, tinha um profundo interesse por doenças mentais como modos alternativos de percepção da realidade, ou pelo menos da produção de uma interface possível entre o caos mental interno (de um psicótico, p. ex.) e o turbilhão de estímulos sensoriais fornecido pelo mundo externo.

Tanto Jung quanto Dick foram indivíduos corajosos que não hesitaram em abandonar a camisa-de-força da “sanidade mental” e cultivar uma loucura controlada que lhes serviu de energia criativa.

Jung escapou da loucura pela sua sólida formação científica e também (diz ele) porque o trabalho rotineiro e a vida harmoniosa em família lhe deram uma âncora, um fio de retorno à realidade mais concreta e mais consensual.

Dick provavelmente não escapou por inteiro (seus acessos de paranóia, seus casamentos desfeitos, suas brigas com os amigos atestam o tumulto pessoal em que sempre viveu), mas o ato da escrita o redimiu, e lhe deu um mínimo de controle sobre a ruptura da realidade que experimentou a partir de fevereiro e março de 1974 até sua morte em 1982.