Mostrando postagens com marcador Barack Obama. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Barack Obama. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

3104) Dumas e Django (8.2.2013)





(Alexandre Dumas)

Muitos que assistiram Django Livre, de Quentin Tarantino, talvez tenham saído do cinema estranhando um diálogo. Alexandre Dumas era negro? De certa forma, sim, e no contexto de ódio racial do filme, era importante que um alemão mostrasse a um norte-americano que não existem “raças inferiores”, como ele imaginava. (Nada de mais – os norte-americanos vivem dizendo isso aos alemães há 50 anos; no cinema então nem se fala.) Um fazendeiro sulista e alourado trata os negros como animais, é todo metido a admirador da França, embora não fale dez mirréis de francês; bota o nome de D’Artagnan num escravo, e não sabe que o autor dos Três Mosqueteiros era mulato, da cor da Brunhilde von Shaft em volta de quem decorre o terço final do filme?

O pai de Alexandre Dumas era um general caribenho, nascido em São Domingos, vizinho ao Haiti. Foi o primeiro general francês com essa origem étnica; ganhou cargos importantes mas entrou em decadência por perseguições, inclusive por parte de Napoleão. Era, pelos retratos, um desses caribenhos de rosto cheio, nariz abatatado, bigodes e cabelos negros e fartos, um tipo como Gabriel Garcia Márquez ou como o Sargento Garcia do “Zorro”. Um tipo que esperamos mais de um mexicano ou colombiano do que de um francês.  Alexandre, assim como o pai, tinha o rosto bochechudo, e ao que parece aquela pele morena que chamam “cor de oliva”, que aqui no Brasil passa despercebido, mas na França destaca mais do que um letra maiúscula.

A mãe de Dumas era francesa, filha de um estalajadeiro. O filho dela foi produto de um intercurso étnico não muito diferente, em linhas gerais, do que produziu Barack Obama, filho de um queniano negro ilustre com uma anônima estudante branca no Havai. Alexandre Dumas enfrentou dificuldades em sua carreira, mas se impôs pelo espantoso sucesso popular de seus romances-folhetim, e pelo fato de que sabia usar sua riqueza para viver bem e agradar aos outros. Dumas talvez fosse da cor de Machado de Assis. Fico pensando qual dos dois chamaria mais atenção pelo aspecto mestiço, se um no Rio ou o outro em Paris.

Tarantino põe um alemão usando um exemplo francês para ensinar a um norte-americano como tratar os africanos. Ótimo.  Mulatos claros como Dumas, Machado, Obama, tenderão a passar cada vez mais despercebidos, a serem mais “default” a cada década que passar em paz naquele país, ou no nosso. Django Livre é um filme de vinganças. O ódio racial gera pessoas que diante de um copo de café-com-leite chamam aquilo de só-café; e outras chamam de só-leite.  O filme mostra que algumas das relações mais honestas e solidárias podem ser entre pessoas de cores diferentes.




sexta-feira, 9 de novembro de 2012

3026) Obama (9.11.2012)




Fiquei acordado até as 5 da manhã (o que para mim, admito, não custa muito esforço) até assistir o discurso da vitória de Barack Obama na eleição dos EUA.  E fiquei lembrando de quando fiz a mesma coisa, em 2008. Quatro anos atrás. Era outro mundo. Mudou o mundo, mudei eu, mudou o Natal, mudou Machado de Assis, mudou o rio de Heráclito, mudou Barack Obama, que havia prometido aos norte-americanos “esperança e mudança”. A mudança que houve talvez não tenha sido a desejada, mas as urnas mostraram que a esperança continua. Foi uma escolha entre a insatisfação e a catástrofe. Romney é o representante de uma geração que não liga para o risco de destruir o mundo, contanto que eles continuem bilionários (talvez a última geração de bilionários a existir no planeta).

O destino do mundo depende em grande parte dos EUA e das suas decisões internas, principalmente sobre economia e sobre a questão ambiental. Se Obama não está correspondendo, Romney seria muito pior. Nem falo de outras questões, também importantes para qualquer país: migração, direitos civis, projetos de saúde, desemprego, drogas, violência, aborto, recessão econômica... O mundo tem dois problemas de vida-ou-morte hoje em dia.  O primeiro: nas próximas décadas, pode haver uma crise econômica capaz de zerar a fantasia financeira em que vivemos todos nós. O segundo: pode haver alguma catástrofe ambiental gigantesca, específica, dentro da destruição geral que já está em marcha. Estas duas questões são as mais importantes para o mundo. Obama não nos garante a salvação, mas o partido de Romney iria trabalhar (cegamente, egoisticamente) para piorar ainda mais as coisas.

Thomas Friedman, do NY Times, escreveu que o Partido Republicano estava visivelmente fazendo de tudo para que o governo Obama fracassasse, “para, então, dar o bote e catar os cacos”.  É a atitude que se pode esperar de uma elite de bilionários, milionários (e aspirantes a ambos), para a qual não importa se centenas de milhões de pessoas vão despencar na miséria, desde que eles continuem onde estão. Os problemas dos EUA (ou do Brasil, ou do mundo) não se resumem a isto, mas isto está na raiz de no mínimo metade dos demais problemas. Friedman disse que a vitória de Obama foi devastadora para os republicanos: “um país com quase 8% de desemprego preferiu dar ao presidente uma segunda chance do que dar a Mitt Romney a primeira”. Este resultado de Obama (uma vantagem de menos de 3 milhões de votos) pode significar uma pequena mas decisiva vitória da esperança, um sinal de que os EUA estão se tornando menos elitistas, menos racistas, menos suicidas.


sábado, 7 de maio de 2011

2550) Obama vs. Osama (7.5.2011)



Depois da execução sumária de Osama Bin Laden num aparelho subversivo instalado numa cidade do Paquistão, saiu na Internet: “Não confunda Obama com Osama. Um deles é o líder de um grupo terrorista. O outro está no fundo do mar.” A morte de Bin Laden não foi muito diferente de morte de Carlos Marighella ou de Carlos Lamarca, dois dos mais famosos terroristas brasileiros. Terroristas, em geral, escolhem morrer mediante uma execução sumária, impiedosa. Eles sabem disso. Foram eles que impuseram, aos regimes que combatiam, as regras do combate. As regras dos terroristas são sempre adotadas pelos governos que os perseguem. Essas regras envolvem: violência planejada; desprezo pelas tecnicalidades jurídicas e pelos preceitos constitucionais; ação rápida, implacável, cruel; intensa participação da mídia, para que o maior número possível de pessoas saiba o que aconteceu; retórica bombástica, salvacionista, sempre invocando princípios abstratos e clichês com que pessoas de mente rudimentar podem se identificar sem muito esforço.

Isto é posto em prática tanto pelos insetos quanto pelos descupinizadores; vale para as “almas sebosas” e para os “justiceiros”. O terrorismo não pertence ao universo da política, pertence ao universo da literatura de terror. Seu objetivo não é substituir um governo por outro, um partido por outro, um regime por outro. Seu objetivo é produzir o terror. Acho que todo mundo conhece aquela fábula do escorpião que pede carona a um sapo para atravessar um rio. O sapo diz: “Eu, hein, você é capaz de me ferroar durante a travessia”. O escorpião retruca: “Ora, eu não sei nadar, se eu ferroar você eu morro afogado”. O sapo acha que aquilo tem lógica, bota o escorpião nas costas e começa a atravessar o rio. No meio da travessia, o escorpião o ferroa. Morrendo envenenado, o sapo grita: “Mas assim você vai morrer também!”. E o escorpião: “Eu sei, mas, não posso evitar, é minha natureza”.

É da natureza do terrorismo morrer, desde que alguém mate. É de sua natureza transformar o mundo da paz no seu mundo da guerra, o mundo da tranquilidade no seu mundo do medo, o mundo do contrato social no seu mundo com sangue nos dentes e nas unhas. Osama Bin Laden quer mostrar ao mundo que quem governa o mundo não são as intenções de Barack Obama, mas as suas. Vejam só que terrível e cruel ironia a História nos proporciona. Barack Obama subiu ao poder nos EUA prometendo extinguir a prisão de Guantánamo, prometendo acabar com as guerras, prometendo, sei lá, uma porção de coisas. Talvez tenha acreditado (como tanta gente acredita, inclusive no Brasil) que ser presidente dos EUA é ser “o homem mais poderoso do mundo”. Já bombardeou a Líbia, torturou prisioneiros em Guantánamo, invadiu o Paquistão, executou um homem desarmado, destruiu provas, jogou (ou alega ter jogado) seu corpo ao mar. Obama virou Osama, e isso mostra que Osama venceu.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

1946) O livro de Obama (4.6.2009)



Li com atenção e proveito o livro de Barack Obama Dreams from my Father, já traduzido aqui como A Origem dos meus Sonhos. Em geral não ligo para livros escritos por políticos. Acho que quem os escreveu foi um ghost-writer qualquer, contratado a peso de ouro. Duvido que Bill e Hillary Clinton tenham sentado ao teclado para escrever suas autobiografias recentemente editadas. Não os estou chamando de burros. É porque é uma gente muito ocupada. Se tivessem tempo e sossego talvez produzissem livros razoáveis. Mas não têm.

Quem os tinha era Obama na época em que produziu seu volumezinho de memórias. Acredito que ele próprio o tenha escrito, porque o livro saiu em 1993, quando ele tinha 33 anos, era advogado, e trabalhava com comunidades carentes na área de Chicago. A oportunidade do livro surgiu quando foi eleito presidente da Harvard Law Review, uma publicação universitária tradicional, que jamais tivera um presidente negro. Barack nem sonhava em entrar para a política partidária, quanto mais tornar-se senador e presidente.

Suponhamos então que o livro foi mesmo escrito por ele; não é improvável. (Já não digo o mesmo de A Audácia da Esperança, publicado depois de sua entrada na política). É um livro cheio de observações detalhistas que denotam um olho agudo, uma percepção intuitiva e atenta das emoções, uma disponibilidade em examinar com critério de adulto acontecimentos da infância e da adolescência, sem soterrá-los com explicações ou justificativas. Obama narra sua infância, retrocede para narrar o encontro de seus pais, um estudante negro do Quênia e uma estudante branca do Kansas, que se casaram no Havaí. Descreve o desconforto gradual de um negro numa sociedade branca, num jogo onde, diz-lhe um negro mais idoso, “eles fazem as regras, e, quando você aprende a jogar pelas regras deles, eles mudam as regras”.

O livro de Obama, se não fosse escrito pelo atual Presidente dos EA e sim por um escritor negro obscuro, já seria um documento revelador sobre a situação racial nos EUA – e também no Quênia, país onde, no terço final do livro, ele vai em busca de suas origens e de sua família paterna. Seu livro é (como o Chronicles, de Bob Dylan) uma memória romanceada. O autor lembra uma manhã de 20 anos atrás e descreve as nuvens do céu e o pássaro que estava cantando, registra a cor das roupas de uma pessoa vista num café, descreve os cheiros que sentiu.

Livros assim, mistura de lembrança e reinvenção, revelam nossos processos mentais de evocar memórias. Metade do que lembramos está sendo improvisado no momento da lembrança; e da próxima vez que lembrarmos aquilo, já lembraremos o fato misturado ao que estamos improvisando agora. Quanto mais lembramos uma coisa, mais o presente modifica o passado. Ironicamente, quanto mais recordamos um fato mais nítido ele fica, e mais distante do fato que ocorreu. Quando nossa memória fotografa algo, deleta o objeto, e guarda apenas a foto.

sábado, 27 de março de 2010

1833) O novo funcionário (23.1.2009)



Dias atrás um novo funcionário público passou a ocupar, nos EUA, o cargo que a imprensa chama de O Homem Mais Poderoso do Mundo, e muitos ocupantes acreditam. Barack Obama é um personagem interessante, mas, antes de falar dele, falemos do cargo, porque à primeira vista Obama desmente tudo que vivo afirmando sobre a Presidência de uma República. A coisa que mais horrorizava as pessoas quando as repúblicas começaram a substituir as monarquias era a impessoalidade dessa forma moderna de governar. As pessoas estavam acostumadas a dois sistemas – a Substituição Sanguinolenta (Fulano matava Sicrano e tornava-se rei) ou a Eternização Bocejante (soberanos que passavam 40, 50 anos no trono, como D. Pedro II ou a Rainha Vitória). Esse negócio de haver uma substituição de quatro em quatro anos (diziam) nem dá tempo da gente se acostumar com a cara e os cacoetes do governante.

A República Presidencialista (sistema que acho muito inferior ao parlamentarismo) é uma tentativa de salvar um pouco desse espírito monárquico em que tudo gira em torno de um nome, um rosto e uma vontade. O Presidente é, mitologicamente, um rei de paletó e gravata. (Ariano Suassuna, que cultiva um monarquismo estético, muito diferente do monarquismo político, fala de sua decepção na infância quando viu o Rei da Bélgica vestindo terno, e sem coroa.) A República é um esvaziamento de toda a pompa icônica e simbólica que cerca a monarquia. Esteticamente, toda monarquia é católica e toda república é protestante.

E aí passamos para um patamar superior do mito que cerca os presidentes em regimes presidencialistas. É o mito de que quem toma as decisões é ele. Como um rei. Ora, nem os reis eram voluntaristas desse jeito, nem mesmo um rei faz tudo que quer (OK, alguns imperadores faziam – Nero, Calígula, Heliogábalo...) De vez em quando aparece um presidente querendo criar, mas na verdade presidente não cria, presidente escolhe. Governar é escolher entre as opções A, B, C, D e E que lhe são oferecidas por ministros e generais (e olha que nem sempre as escolhas são tantas).

Obama está sendo saudado como Salvador da Pátria, como foi Lula aqui no Brasil, por sindicalistas, povão, setores de esquerda, etc. O candidato sempre chega com um discurso de mudança. (São raros os momentos tão positivos que permitam a alguém fazer campanha dizendo “votem em mim, não vou mudar nada, garanto que fica tudo como está”.) Depois que bota o pé lá dentro, o eleito tem uma reunião a portas fechadas em que lhe mostram a real situação do país, e o que acontecerá ao país (e a ele, e à família dele) se ele cumprir as promessas de campanha. Não sei se é bem assim, sei que o candidato sai dessa reunião transformado. O Lula de 2002 era um, o de 2003 em diante era outro. Saudemos Barack Obama, um cara simpático e provavelmente bem intencionado. Saudemos esse mulato sorridente que nos traz tantas esperanças, porque de agora em diante talvez nunca mais o reencontremos.

domingo, 14 de março de 2010

1788) Obama x Roberto Dinamite (2.12.2008)



Eu tinha registrado o título acima no caderno onde anoto temas para estas colunas. O título já diz tudo, e eu considerei a possibilidade de sugerir ao JPB que publicasse o título e deixasse o resto do espaço em branco. Para que chover no molhado? Mas, ai! Folheando o “Globo” no café da manhã, deparo-me com a coluna do impagável Agamennon Mendes Pedreira, e a foto de Barack com a legenda “Roberto Dinamite”. Agora vou ter que me explicar publicamente.

A eleição de Dinamite para presidente do Vasco da Gama e de Obama para presidente dos EUA me produziram emoções entrecruzadas. Por um lado, tive a alegria pela vitória de um candidato que, não importam os defeitos que certamente tem, é infinitamente melhor do que o presidente que o antecedeu. (E olha que eu nem torço por Vasco e EUA – sou Flamengo e Brasil.) Por outro lado, o desespero de ver o quão pouco essa vitória vai adiantar. São vitórias de Pirro. Roberto e Barack assumem o comando de entidades sangradas, enfraquecidas, dilapidadas. Um Vasco moribundo, uma Norte-América agonizante. Suas vitórias lembram, melancolicamente, a entrada de Napoleão em Moscou, que ele supunha uma invasão triunfal, e que se limitou ao desfile de um exército exausto por uma capital que os próprios habitantes incendiaram antes de evacuar. Que raio de vitória é essa?!

George W. Bush e Eurico Miranda (como eu gostaria de ver um curta-metragem com esses dois caras frente a frente, numa mesa de bar!) fizeram com suas respectivas entidades a política da terra-arrasada, de deixar para o sucessor um cabide de papagaios e micos, um jacá de pepinos e abacaxis. Bush deixa um país refém das próprias guerras, com a coluna vertebral econômica partida e sem chances de cura no horizonte. Eurico deixa um Vasco sem time, sem dinheiro em caixa, e infiltrado de sabotadores a seu soldo, destinados a minar tudo que for tentado pelo novo presidente, para produzir na torcida (como já está produzindo) aquela sensação de “Pois é, com O Outro era melhor...”

Lembra a frase sarcástica de Borges, ao narrar a derrubada do ditador Perón, inimigo de sua família: “Não se sabe com quanto dinheiro conseguiu fugir”. Eurico já bateu em retirada e está por aí, “guardado por Deus, contando os seus metais”. Bush ainda tem pela frente dois meses de melancolia a sós na Casa Branca (todo mundo o desertou, segundo a imprensa, menos Condolezza Rice) antes de mergulhar no oblívio. Queira Deus que não volte a beber; nem a ele desejo isto. Enquanto isso, os novos presidentes terão que remar contra uma correnteza de dívidas, problemas, projetos insensatos, desconfiança interna e externa, cobranças desesperadas de quem já não aguenta mais. São anos e anos de despautérios, de bombas-relógios armadas pelo antecessor e que pipocarão nas mãos dos recém-eleitos. Como diz a antiga frase: “Cuidado com o que você deseja, porque o conseguirá, mas não como pensou que ia ser”.

quinta-feira, 11 de março de 2010

1776) O escritor Barack Obama (18.11.2008)



O presidente eleito dos EUA, Barack Obama, virou de uma hora para outra uma espécie de Papai Noel ao contrário. É magro, mulato e de terno preto, mas mesmo assim parece desembarcar no mundo, neste fim-de-ano, trazendo um gigantesco saco de presentes que ainda não imaginamos o que sejam, mas já nos levam a comemorar alguma coisa. Obama pode se revelar um presidente decepcionante, como já ocorreu com tantos, mas a aura que cerca sua candidatura é a do carisma. Para ficar apenas no exemplo dos EUA, não me lembro de nenhum candidato democrata recente que tenha carregado tamanha aura consigo. Os derrotados John Kerry, Michael Dukakis, Al Gore, e mesmo o vitorioso Bill Clinton, nenhum deles parecia ter esse brilho de predestinação e sonho-realizado que Obama projeta.

Além de tudo, Obama é escritor! O ex-vice Al Gore foi provavelmente o primeiro Presidente dos EUA (cargo que exerceu interinamente de vez em quando, na era Clinton) que já ganhou um Oscar e um Prêmio Nobel (da Paz). Pois Obama é com certeza o primeiro que já ganhou um Grammy – pela versão em áudio-book de seu livro de memórias Dreams of my Father. Este livro (já traduzido como “A Origem dos meus Sonhos”, Editora Gente) é interessante porque é anterior à entrada de Obama na política. Ele o escreveu quando era um advogado de Chicago que trabalhava com populações carentes, e lhe pediram um relato autobiográfico. O livro, ao que parece, se concentra na sua infância no Havaí, e na história pessoal de seu pai, o qual se separou de sua mãe quando Barack tinha cerca de 2 anos, e voltou para o Quênia. O livro reconstitui esta história familiar, e foi motivado em parte pelo reencontro dos dois quando Barack tinha dez anos de idade, além de uma visita posterior que fez ao Quênia para conhecer sua família paterna.

Sobre seus hábitos como escritor, o presidente diz; “Eu sou uma ave noturna, e escrevo geralmente depois do meu dia de trabalho no Senado, quando a família já foi dormir. Ou seja, das 9:30 da noite até uma da madrugada. Primeiro preparo uma escaleta, uma relação de temas a serem abordados, ou de histórias que quero contar, e escrevo tudo à mão, num bloco de folhas amarelas. Depois, passo a limpo no computador, editando e corrigindo o texto enquanto digito”.

Obama cita entre seus livros preferidos Moby Dick de Melville, e obras de autores contemporâneos como Toni Morrison, E. L.Doctorow e Philip Roth. Outros títulos que ele elogia (e que desconheço) são Gilead de Marilynne Robinson e Team of Rivals de Doris Kearns Goodwin (sobre Abraham Lincoln). Seus filmes favoritos são Casablanca e Um estranho no ninho. Além disso, Obama confessa “ter uma queda” pelos romances de espionagem de John Le Carré, coleciona gibis do Homem Aranha e de Conan, O Bárbaro, e leu com suas filhas toda a série de livros de Harry Potter. Nem precisava o resto; bastaria este último item para fazê-lo dar uma goleada intelectual em George W. Bush.

terça-feira, 9 de março de 2010

1770) O lixo da História (11.11.2008)



Falei aqui sobre o filme Sob o domínio do mal (The Manchurian Candidate) de John Frankenheimer, um thriller político de 1962 em que um oficial do exército americano, preso pelos chineses na Guerra da Coréia, sofre uma lavagem cerebral que o transforma num assassino em potencial. Depois que ele volta aos EUA, os chineses mexem os pauzinhos para que ele assassine um candidato à presidência, facilitando a subida ao poder do marido de sua mãe, um anti-Comunista ferrenho que na verdade está a serviço dos comunistas.

Revi este filme em DVD nesta semana que antecedeu as eleições presidenciais norte-americanas. Revi-o pensando, como penso com frequência, na veia de irracionalismo e brutalidade que corre ao longo de um dos povos mais racionais e cordatos que existem. Existe uma veia gótica no organismo da América, por onde corre um sangue sanguinário, um sangue de tragédias macbethianas, de poder conseguido pelo força e mantido pela opressão, mesmo no seio dos cavaleiros-andantes da democracia ocidental. Nós também, aqui em nosso país tropical e afetivo, temos os nossos cromossomos escravagistas e chacinadores. Todo povo tem. O que fascina nos americanos é a linguagem única que eles usam para sarjar em público seus abscessos e expulsar os demônios que os atormentam, como John Frankenheimer faz neste filme.

Em seu livro The Dustbin of History, Greil Marcus comenta longamente o filme de Frankenheimer, lançado um ano antes de Kennedy ser assassinado em Dallas. Marcus comenta outros assassinatos políticos (ou tentativas mal-sucedidas) que ocorreram depois: Medgar Evers, Malcolm X, Martin Luther King, Bob Kennedy, Andy Warhol, George Wallace, Gerald Ford, George Moscone, Harvey Milk, John Lennon, Ronald Reagan. Todos foram vítimas, fatais ou não, de pesadelos indiretamente semelhantes ao pesadelo (ilógico, incoerente, exagerado) da conspiração de The Manchurian Candidate. Diz Marcus: “O filme pode fazer parte destes acontecimentos incompreensíveis, ou deste evento inexplicavelmente mas totalmente inteiro, completo, singular, desta corrente subterrânea em nossa vida pública: a transformação do que era tido como uma vida pública aberta e visível em crimes privados ou conspirações ocultas”.

As “forças ocultas” que Jânio Quadros denunciou renunciando, em 1961, geraram este filme-pesadelo, geraram a série de crimes políticos citados por Greil Marcus, e transformaram a segunda metade do século 20 num vitrine cheia de luzes e de música berrante, encobrindo manobras escusas, “tenebrosas transações”, tramas secretas em que vultos sem nome e sem rosto traçam o destino das nações e eliminam, da maneira mais tosca, mais descuidada e mais impune, quem se atravessar na sua frente. A Guerra Fria real não é travada entre o Ocidente e o Oriente, e sim entre Os Que Mandam Na Sombra e nós, que vivemos na luz, que tudo enxergamos e pouco compreendemos. Boa sorte, Barack Obama.

1767) O Presidente Negro (7.11.2008)



São 3:20 da madrugada de terça para quarta-feira (horário de verão no Rio), e acabei de ver o discurso de Barack Obama em Chicago, como presidente eleito dos Estados Unidos. Às 2 horas, a CNN já tinha proclamado o resultado, baseando-se nas projeções das pesquisas. Às 2:20 o senador republicano McCain subiu ao palanque para reconhecer publicamente a derrota, num discurso calmo, comedido e emocionado. A vitória de Obama parece ter sido aplastante (ainda não saíram os números definitivos, mas a esta altura vocês já devem saber). Senti nesta noite a emoção de ver a História acontecer diante dos meus olhos, como a senti quando o homem chegou à Lua, quando caiu o Muro de Berlim, quando um operário nordestino foi eleito presidente do Brasil.

É engraçado um sujeito tão desiludido com a política brasileira ainda marejar os olhos quando vê coisas aparentemente boas acontecerem em países distantes. Acho que a política dos EUA me emociona porque é colorida e distante como um filme, e é fácil emocionar-se com um simples filme, com uma coisa que não alcança nossa vida real. É como um jogo de futebol, cujo resultado não muda rigorosamente nada no mundo, e que por isso mesmo permite que nos entreguemos sem prudência à euforia e ao desespero. O Brasil não emociona porque sabemos como é o jogo, sabemos o quanto as cartas estão marcadas, conhecemos aqueles personagens e não conseguimos ver neles um super-herói. Mais fácil enxergá-lo em alguém que noutro país, no Olimpo dos Super-Heróis, e que no frigir dos ovos não tem carne nem osso, é apenas uma imagem eletrônica como tantas outras.

Por outro lado, a vitória de Obama me emociona porque, como todo escritor de ficção científica, eu tenho a deformação profissional de achar que o mundo é mais importante do que o meu país. Comparada a uma eleição presidencial norte-americana, que muda o perfil do mundo, a eleição de um presidente brasileiro é uma mera substituição de barnabés obscuros. Os EUA, queiramos ou não, gostemos ou não, detêm Poder. São os “senhores do baraço e do cutelo” cantados pelos poetas antigos. Nunca pensei que viveria para ver um presidente negro ser eleito dessa forma, com uma campanha limpa e equilibrada, num momento em que o país se afunda num pântano moral e definha numa hemorragia econômica.

Obama será um salvador da pátria? Duvido. Não existem salvadores. Existem funcionários escolhidos pelo povo para resolver seus problemas. O funcionário cujo mandato (ilegalmente conquistado através de fraude nas urnas) se encerra em janeiro próximo não passou de um mamulengo daquilo que existe de pior em seu país, e ajudou a precipitá-lo em guerras inúteis, mal-intencionadas e cruéis. A eleição de Obama pode reconquistar um pouco de respeito pelos EUA no resto do mundo, dependendo, é claro, das políticas que adotar, das decisões que tomar. A História está em movimento, e é emocionante ver quando a História, este paquiderme reumático, dá um passo à frente.

sábado, 6 de março de 2010

1751) A maldição do poder (21.10.2008)



Um amigo meu, aqui no Rio, votou em Fernando Gabeira no primeiro turno das eleições municipais. Apurados os votos, ficou definido que disputarão o segundo turno Gabeira e Eduardo Paes do PMDB. Encontrei meu amigo ontem, e perguntei se estava animado com as chances de Gabeira. “Vou votar em Paes”, disse ele. E diante da minha surpresa: “Gabeira é um homem de bem. Não quero vê-lo no Poder. Os homens de bem devem ficar sempre na Oposição, porque o Poder é um veneno para eles”.

Todos nós ficamos perplexos com as guinadas sofridas por alguns políticos depois de eleitos. Parece que o Poder tem um miasma, um agrotóxico invisível, um amianto solerte que se infiltra nos cérebros e nas consciências, trazendo danos irreversíveis. Sugeri essa teoria e meu amigo concordou: “Exatamente. Se eu fosse americano, votaria em McCain, porque esse já está perdido. Mas um rapaz decente como Obama não pode entrar na atmosfera insalubre da Casa Branca. De jeito nenhum! Nem Jimmy Carter escapou”.

Toda vez que um político de oposição chega ao poder ele descobre que na verdade o seu exército não derrotou o exército adversário. Ele ganhou a guerra, e foi nomeado general do exército adversário! Mal chega ao poder ele percebe que a tal da “máquina da corrupção” que ele jurou combater permanece encastelada nas mesmas posições onde se encontra há séculos, e que não é a chegada dele e do seu Partido que vai desenraizar esse feudo.

O que acontece, então? Ele e o seu Partido começam a se adaptar, minoria que são, às leis secretas e aos procedimentos internos dessa poderosa máquina. Não importa quem seja o titular do cargo: o Poder é da máquina, e quando o titular do cargo não se comporta de acordo com ela, a máquina dá um jeito de sabotar-lhe o mandato, comendo pelas beiras todas as suas boas iniciativas, espalhando cascas de banana administrativas e diplomáticas, fazendo-o incorrer em erros e omissões, iludindo-o aqui com promessas de apoio fácil, vergastando-o acolá com denúncias sempre que ele mete os pés pelas mãos. A Máquina são milhares de legisladores, lobistas, funcionários públicos, empreiteiros, publicitários, juízes, promotores... E para cada um desses indivíduos bote algumas dezenas de assessores, familiares, amigos, apaniguados, protegidos em geral. Eis a Máquina.

“Com correligionários assim ninguém precisa de Oposição,” deve ter meditado mais de um governante aqui e em Istambul, na Bósnia-Herzegovina e na Guatemala. Como diz meu irmão Pedro, “triste do Poder que não pode”, e essa é uma descrição patética do poder republicano num país onde a corrução se instalou como uma dinastia de cupins onipresentes. Iludimo-nos imaginando que basta “ser dono da caneta” para fazer o que bem quiser. A caneta assina, mas não se sabe ao certo quem redigiu. Gabeira e Obama que se cuidem. Às vezes a vitória nas urnas é apenas A Porta Para o Abismo.