Este simpático e devotado filme de Richard Linklater procura reconstituir, ou mitologizar, a criação do filme Acossado (“A Bout de Souffle”, 1959), de Jean-Luc Godard, um dos desencadeadores da “nova onda” do cinema francês, não por acaso um dos meus movimentos cinematográficos preferidos.
Em Campina Grande, era difícil ter acesso a esses filmes.
Eram distribuídos no Nordeste pela Franco-Brasileira, que tinha algum problema de contrato
com as duas principais redes exibidoras da Paraíba (Luciano Wanderley, dos
cinemas Capitólio/CG e Municipal/JP; e Cinemas Reunidos, dos cinemas Babilônia/CG
e Plaza/JP). Às vezes, os filmes vinham. Outras vezes, tínhamos que pegar o ônibus, viajar 4 horas e ver os
filmes no Recife. Era mais caro, mas era mais divertido.
Meus primeiros godards foram Masculino Feminino (1966) e Alphaville (1965), e talvez sejam (por isso
mesmo) meus preferidos.
O próprio Acossado eu
só vim assistir anos depois, quando morei na Bahia. Mas... e daí? Um dos traços
revolucionários da Nouvelle Vague é ter sido um movimento onde os cineastas
eram ex-críticos. Foi A Revolução dos Críticos (no caso, os que escreviam na
parisiense Cahiers du Cinéma), que se
transformaram em diretores e tomaram as rédeas do Poder.
Numa revolução assim, livros e artigos na imprensa são
tão importantes quanto os filmes em si; e isto não nos faltava. Godard,
Truffaut, Chabrol, Rivette, Resnais, eram os cineastas jovens em cujos textos,
citados, comentados, transcritos, traduzidos, revelava-se também um cinema
francês passado que para nós era tão inédito quanto o deles: o cinema de Jean
Vigo, Jean Renoir, Robert Bresson...
Um livro que para mim foi crucial foi a coletânea Jean-Luc Godard, ed. Haroldo Barbosa
(Rio: Gráfica Record Editora, 1968). São longas discussões sobre a obra já
considerável do diretor – entre 1959 e 1968 ele dirigiu cerca de 15
longas-metragens e outros tantos filmes curtos ou episódios.
Pouco importava se o leitor desconhecia os filmes. Os
exemplos eram descritos com clareza e argumentados com veemência e lógica. A
grande pergunta de Godard, a que sempre me seduziu, era: “Por que filmar este plano, e não outro?”. Por que filmar como todo
mundo filmava? A resposta padrão era:
“Porque é assim que todo mundo faz.” E ele: “Então vou fazer diferente”.
Curiosamente, é a mesma profissão-de-fé de Guimarães
Rosa, numa carta famosa a sua tradutora nos EUA, tentando sossegá-la.
No original, não há, praticamente, lugares-comuns. Tudo é atrevimento, estranhez, liberdade, colorido revolucionário. Todo automatismo de inércia, da escrita convencional, é rigorosamente evitado. Tudo pela poesia e por caminhos novos! Acabarão aceitando.(carta a Harriet de Onís, 3-4-1964)
O
dia de filmagem acaba cedo, a equipe é dispensada depois do almoço, enquanto o
diretor faz anotações em seus caderninhos. Quando vão usar o quarto de uma
pessoa como locação, alguém começa a arrumar o quarto. Godard pergunta: “Se a
gente fosse gravar os sons de uma floresta, começaria derrubando as árvores,
espantando os pássaros, para conseguir um som sem interferência? E então? Deixa
o quarto como está.”









