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sábado, 9 de novembro de 2024

5121) O Jardim do Xadrez (9.11.2024)

 


Acabei nestes dias a leitura de um romance de Fantasia Urbana diferente de tudo que li nesse gênero, talvez por ser de um autor que não pertence ao universo editorial “de gênero” nos EUA – aqueles autores que frequentam convenções, correspondem-se com fãs, concorrem a prêmios, etc. 

 

Brooks Hansen, o autor de The Chess Garden (1995), é um autor mais próximo do mercado editorial mainstream do que da fantasia e ficção científica. The Chess Garden  foi considerado um dos “Livros Notáveis” do ano pelo New York Times,  tal como outros três livros seus (Boone, 1990; Perlman’s Ordeal, 1999; The Monsters of St. Helena, 2003). 

 

É uma história que transcorre em dois planos – o mundo real, onde tudo acontece como num romance qualquer, e um plano de Fantasia onde o protagonista tem acesso (e nós com ele) a um mundo radicalmente diferente do nosso, e acompanhamos suas aventuras nesse mundo bizarro. 

 

O Dr. Gus Uyterhoeven é um médico holandês do século 19, cuja vida científica é descrita de maneira envolvente: nascido em 1824, ele tem uma crise intelectual com a morte do pai, interessa-se por biologia, filosofia, homeopatia, e em certo momento adquire dois “vícios” não muito graves: o xadrez e o ópio. Apaixona-se pela filha de um barqueiro nos canais dos Países Baixos, e lhe faz a corte até casarem e terem um filho. Perdem esse filho, e moram em várias capitais da Europa até se transferirem para os EUA – mais precisamente para Dayton (Ohio). 

 

Ali, instalam-se numa casa espaçosa, com um enorme jardim, e o Dr. Uyterhoeven resolve transformar esse jardim no Clube de Xadrez aberto a todas as pessoas da cidade. Como ele coleciona jogos de xadrez, jovens e adultos de Dayton passam a frequentar o Jardim e usar as dezenas de tabuleiros que ele possui. O Doutor e sua esposa Sonja tornam-se pessoas queridas e respeitadas por todos. 

 

Toda esta parte da narrativa é contada como uma narrativa realista do século 19, sem nada de fantástico, mas com um notável senso de ambiente cultural e filosófico, ao descrever as polêmicas científicas em que o Doutor se envolve; e com muita finura psicológica retratando seu relacionamento com esposa, amigos, colegas, família. 

 

Por volta de 1901, o Dr. Uyterhoeven, já com mais de 70 anos, resolve surpreendentemente viajar para a África do Sul, onde os ingleses estão em guerra com os “bôeres” locais (colonos descendentes dos holandeses), porque acha que pode ser útil, por ser holandês e médico. Pega um navio e ruma para lá. 



Começa então, após essa viagem, a parte fantástica do romance. O Doutor começa a enviar para D. Sonja uma série de cartas, nas quais revela que, na verdade, empreendeu esta viagem por ter encontrado entre seus documentos, de modo misterioso, o mapa de uma região fantástica chamada Os Antípodas, e decidiu-se a descobri-la e desbravá-la. 

 

Nesse continente imaginário ocorrem suas aventuras daí em diante, narradas em doze cartas que D. Sonja lê em voz alta, uma a uma, à medida que chegam, para seus vizinhos de Dayton e suas crianças, em sessões coletivas no Jardim do Xadrez, reunindo dezenas de pessoas, todas acompanhando fascinadas as aventuras surreais do Doutor, um homem sobre cujo caráter, inteligência e credibilidade não paira nenhuma dúvida. 

 

Logo nas primeiras cartas do Doutor, descobrimos que esse continente fantástico é habitado basicamente por peças de jogo: peças de xadrez, de damas, de dominó, de jogo de dados, de gamão, etc.  Essas peças, contudo, são também pessoas: vivem, pensam, falam, têm sentimentos.  Podem ser comparadas às cartas de baralho de Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll, uma influência marcante neste livro. 

 

Perambulando por esse mundo, o Dr. Uyterhoeven faz amigos, desafetos, corre perigos, mete-se na vida alheia, encontra a todo instante situações e conflitos inexplicáveis, e se aprofunda cada vez mais na vida daquelas criaturas, que em geral o recebem bem e o ajudam como podem. 



O livro de Brooks Hansen não é um desses romances que trazem revelações surpreendentes ou desfechos trovejantes em suas últimas páginas. É o livro horizontal, sem saltos acrobáticos de dramaturgia. A história de um homem aparentemente comum, mas com um universo mental fora do comum, o que não o impede de ser querido e respeitado por todos. Sua história é uma história de revelações e descobertas íntimas, que trazem uma luminosidade gradual à história contada. 

 

Um dos aspectos mais eficazes do romance é a estrutura de seus capítulos. O resumo que fiz acima está por ordem cronológica, “de A a Z”, como se diz. O livro se abre com um excelente capítulo inicial com a morte da Sra. Uyterhoeven, uma inundação na cidade de Dayton, e a releitura das primeiras cartas, que a família guardava cuidadosamente. Daí em diante, os capítulo vão se alternando: a biografia do Doutor, e as cartas dos Antípodas, duas séries paralelas de revelações que mais de uma vez se explicam ou se enriquecem mutuamente. 

 

Essa alternância entre a narração do presente e a narração do passado do personagem é um recurso interessante, que lembro de ter encontrado em Os Despossuídos (Ursula Le Guin, 1974), cujos capítulos se alternam desta forma. Um efeito curioso disto é que estamos vendo a história do meio para o fim (a narração do presente) e ao mesmo tempo do começo para o meio (a narração do passado), de modo que há uma forte compulsão, fechado o livro, a ler tudo de novo. 

 

Que cartas são essas que o Doutor manda para casa? “Na vida real” ele está presenciando a Guerra dos Bôeres, na África do Sul. Que Antípodas são esses onde ele foi parar? 

 

A fascinação pelo xadrez explica uma parte dessa fantasia do doutor. Outra parte pode ser explicada pela sua descoberta dos escritos de Swedenborg. Como o Doutor, o sueco Emanuel Swedenborg (1688-1772) foi ao mesmo tempo um cientista (foi autor de numerosas invenções tecnológicas) e um visionário, que afirmava visitar com frequência o mundo dos espíritos, anjos e demônios. 

 

Brooks Hansen parece sugerir que o Dr. Uyterhoeven partiu para a guerra com o intuito de adentrar pouco a pouco o reino da morte, conforme o via o místico sueco. 

 

Para Swedenborg (valho-me aqui do artigo de Jorge Luís Borges em Prólogos con un Prólogo de Prólogos, Buenos Aires, Torres Aguero, 1975), quando um indivíduo morre pensa que ainda está vivo, e é transportado para um mundo semelhante a este de cá – um mundo que hospeda em alguns trechos o Paraíso e em outros o Inferno. Julgando que continua aqui na Terra, o morto recente (e desavisado) faz suas escolhas.  

 

Diz Borges:

 

Se o morto é mau, agradam-lhe o aspecto e o trato dos demônios, e não tarda a juntar-se a eles; se é um justo, escolhe os anjos. Para o bem-aventurado, o orbe diabólico é uma região de pântanos, de cavernas, de choças incendiadas, de ruínas, de lupanares e tabernas. Os réprobos não têm rosto, ou têm rostos mutilados e atrozes, porém acreditam-se formosos. O exercício do poder e do ódio recíproco é sua felicidade. Vivem entregues à política, no sentido mais sul-americano da palavra. 

(trad. BT)

 

O Além é uma expansão do mundo que coligimos para nós mesmos ao longo de nossa vida; e isto parece ser a mesma percepção que inspirou a Gilberto Gil os versos: 

 

Basta ver-te em teu mundo interno
pra sacar teu inferno: teu inferno é aqui. 

(“Pessoa Nefasta”) 

 

Se isto se aplica ao romance de Brooks Hansen, os Antípodas em que o Dr. Uyterhoeven mergulha (enquanto seu corpo físico atravessa a Guerra dos Bôeres) são o seu Paraíso particular. Um mundo onde a vida está sempre sujeita ao mistério, ao absurdo, ao inexplicável; um jogo cujas regras passamos a vida tentando descobrir. 

 

Ironizando seus colegas acadêmicos deterministas, o doutor diz a certa altura: 

 

Parece haver uma sutil mas profunda confusão que martiriza todos os que partilham a crença determinista, metodista e racionalista: a confusão entre o desejo de observar a agitação do universo – o que é perfeitamente admirável – e o desejo de explicá-lao que é patentemente absurdo. (The Chess Garden, pág. 144, trad. BT) 




Os jogos em geral constituem ilhas de coerência onde o absurdo penetra com dificuldade: mesmo os jogos que envolvem a sorte o fazem sob regras estritamente controladas. O jogo nos dá uma ilusão de segurança, de praticar uma atividade cujos propósitos e limites estão definidos com clareza, o que não se pode dizer da Vida. 

 

No mundo dos jogos, conflitos e decepções e até violências não estão ausentes; mas esse mundo, feito de conjuntos de regras, consegue estabelecer um limite entre ordem e caos. 

 

Ele não via a história do pensamento e do conhecimento como um registro do esclarecimento, mas um desfile de planilhas e esquemas em constante mudança e em constante disputa entre si, e nenhum deles era capaz de definir uma idéia sem ao mesmo tempo obscurecer outra.

(p. 121, trad. BT) 

 

É o tipo do livro capaz de gerar em torno de si uma espécie de fã-clube de gente disposta a analisar cada um de seus personagens e episódios para descobrir as correspondências entre o mundo real do Doutor e o seu mundo de fantasia – tal como vemos, por exemplo, em O Mágico de Oz, onde grande parte da população de Oz é um reflexo das pessoas com quem Dorothy convive na sua fazenda do Kansas. 

 

O Doutor é um cientista e um visionário, ao mesmo tempo, e produz ao longo de sua vida uma relação tensa, esticada, entre realidade e imaginação, como um elástico que mantém unidas duas formas de ver que tendem a se afastar uma da outra. Ou seja, mais ou menos o que a literatura fantástica (ou literatura “do insólito”, “da imaginação”, “de fantasia”, etc.) procura fazer. 

 

Outra coisa em que vim a acreditar é que a verdade nos é concedida exatamente na medida e na forma apropriadas a cada um de nós, individualmente. Além disso, creio que a tendência da verdade não é, como pode às vezes parecer, sumir e depois mostrar-se novamente. A tendência da verdade é manter-se constante. Desse modo, quando um homem se dispõe a fitar de frente o que quer que esteja à sua volta – seja isto o que fôr – ele encontrará a verdade ali, à sua espera. Fui claro? 

(p. 413, trad. BT)

 




 

 




quarta-feira, 6 de dezembro de 2023

5009) Exu, o viajante no tempo (6.12.2023)





Um ditado popular afirma que “Exu matou ontem um pássaro com uma pedra que jogou hoje.”
 
E por que não poderia? No meu entendimento, Exu é o abridor (e fechador, quando lhe interessa) de caminhos, o portador de mensagens ou de mercadorias. É o Hermes dos gregos e o Mercúrio dos romanos.
 
Uma de suas funções é de pegar alguma coisa em A e transportar para B. É um viabilizador de procedimentos, como diria algum desses geniozinhos corporativos de terno-e-camisa pretos e cabelo desenhado. “Exu entrega,” garantiriam eles, eufóricos com a miragem de metas-de-desempenho.
 
Preciso desde logo deixar claro que, para mim, a discussão sobre quem é Exu, e o que faz Exu, está em pleno domínio do simbólico e do anímico, da imaginação personificadora. Eu não perco o sono imaginando se Exu existe. Para mim, ele existe no mesmo plano de realidade que Édipo, Sherlock Holmes, Super-Homem, Dr. Who... É um personagem, um arquétipo, um ícone.



Não é algo em que a gente “acredita”, é algo que a gente concebe, examina, usa para tirar conclusões, para imaginar variantes. A “imagem” de cada um deles (“imagem” total, muito mais além da simples representação visual) é como a senha de acesso para o desencadeamento de um processo criativo que envolve memória, associação de idéias, imaginação, desejo, aceitação, recusa.
 
Exu é igual a porta, portal, porteira, ponte, passagem? Tenho essa imagem meio esboçada na imaginação. Salvo melhor juízo, Exu pode ser também um facilitador, um zangão do Detran, um coiote da fronteira Texas-México, um guia-esperto-para-turistas-indefesos. Um removedor de coágulos.  Um desengasgador de gargalos. (E, sempre, o contrário disso tudo. Quando lhe convém.)
 
E, vejam só: por este raciocínio, Exu é um desembargador.
 
Porque esta palavra vem de “des + embargar”, e embargar é “embarricar”, “criar barricadas”, “trancar com barras”, “encher de obstáculos”, “impedir a passagem”. E, reversamente, desembargar é facilitar o fluxo, liberar a via, dizer para a multidão: “Bora, pessoal – circulaaandooo!...” 
 
E os nossos Desembargadores, é claro, são discípulos humanos manipulando o poder do exuísmo. Embargam quem os incomoda. E desembargam quem os favorece.
 
Exu é uma Rua da Passagem. Se Exu é personificação desse conceito abstrato, isto significa que ele não é limitado, quando está em pleno uso de seus poderes, pelas restrições normais de tempo, espaço e causalidade. Exu é capaz de desafiar o fluxo unidirecional do tempo, e a própria Segunda Lei da Termodinâmica.
 
A Segunda Lei da Termodinâmica diz que o Universo como um todo está se encaminhando para uma morte térmica, uma dissipação irremediável de energia, que ocorrerá quando todas as estrelas existentes tiverem consumido o combustível nuclear que as alimenta. Não haverá mais pontos de fogo e de luz no Universo, e ele se tornará um espaço indiferenciado, escuro e frio.
 
Exu acende um cigarro, bota os pés em cima da escrivaninha, e argumenta: “Beleza, mas vamos lembrar que a Segunda Lei da Termodinâmica, como qualquer outra lei, tem os seus pontos fracos, as suas brechas, os seus interstícios. Dá pra negociar. Dá pra transgredir aqui e ali... e escapar impune.”
 
Quebrar a flecha do tempo, para Exu, é besteirinha.
 
Ele se evade das restrições físicas de tempo e de espaço, pulando para uma dimensão extra a que não temos acesso. Exu é como o cavalo do jogo do xadrez – o único capaz de pular por cima das casas vazias e das casas ocupadas por outras peças. Para o restante das “peças pedestres” do jogo, o cavalo é um orixá mágico. Vejam só – ele está num ponto, e logo em seguida, magicamente, sem ter transposto o espaço intermédio, aparece num ponto mais à frente. Ou mais atrás.




O nosso conceito de tempo (nosso – seres humanos, demasiado humanos, sujeitos à velhice, e Segunda Lei da Termodinâmica) se parece com o dos peões do xadrez. Andamos somente uma casa de cada vez, e sempre em frente, não podemos andar de lado, nem pegar uma transversal oblíqua, e muito menos andar para trás.
 
O tabuleiro de xadrez é uma boa metáfora para o universo onde convivem seres naturais (os peões = os humanos) e seres sobrenaturais (=as outras peças) que podem ir de um lado para outro, transpor enormes distâncias, ir para a frente (=o futuro), ir para trás (=o passado), cada um deles submetido às suas próprias regras e limitações, mas com uma liberdade que nós, meros peões, nem sequer imaginamos.
 
E o cavalo tem uma liberdade a mais que todos: a de saltar usando os túneis de outra dimensão.
 
O tempo de Exu não é uma seta em direção perpetuamente única.  É uma espiral, onde ele vive eternamente indo e voltando, consertando aqui, complicando acolá, voltando atrás para resolver um problema, pulando à frente para retomar o caminho, curando uma situação passada, correndo para evitar um efeito colateral futuro. Feito aquele pessoal da escola de samba, que durante o desfile, enquanto a escola avança como um rio vagaroso, fica correndo pra frente e pra trás, coordenando, mandando acelerar, mandando segurar um pouco...
 
O tempo não é uma linha, pelo contrário, é um tabuleiro de muitas dimensões onde Exu passeia dentro de sua própria jurisdição. Abrindo caminhos. Transportando energia. Administrando trocas. Puxando a ponta de cada elástico para gerar uma tensão-de-necessidade, um traslado de forças que deverá ser cumprido.
 
Recebendo a bola rebatida pelos zagueiros e acionando os pontas-de-lança. Exu não precisa necessariamente fazer o gol. Ele até prefere deixar isso para entidades mais visíveis e famosas, que só fazem isso mesmo, empurrar a bola do Acaso para dentro da rede do Destino. E que por isto ficam com a fama de Onipotentes, de Resolvedores, de Supremos Poderes.
 
Que nada. Têm seu poder, sim, mas nada seriam sem a costura incansável de Exu. Carregador de piano. E que, quando é preciso, faz a ligação entre a defesa e o ataque, conduz de uma área até a outra; esconde a bola, sem permitir o desarme; ou toca a bola de primeira, lançando vertical, em profundidade.  
 
Daí que lhe seja possível viajar no Tempo, mexer no código-fonte dos acontecimentos, banhar-se de novo no mesmo rio, retroagir no interior de um evento até transformá-lo no seu inverso.
 
Claro que Exu (ou qualquer ente capaz de viajar no Tempo) não é onipotente, não pode executar tudo que desejaria; mesmo ele tem limites. Mas ele obedece à seta do Tempo como nós, humanos, obedecemos à Força da Gravidade, que funciona por igual sobre todas as coisas, mas que conseguimos eludir. Porque afinal de contas somos capazes de erguer balões de gás, foguetes, dirigíveis, asas-delta. Domesticamos forças capazes de contrabalançar a atração da gravidade, e as usamos em nosso benefício.
 
Assim fazem os viajantes no Tempo: conseguem, de maneira localizada, específica, contrabalançar a seta do Tempo e acessar, de maneira limitada mas bastante útil, momentos específicos do futuro e do passado.
 
E conseguem voltar trazendo uma prova. Uma flor?  Não; talvez um pássaro. Exu mata a ave e mostra a pedra.
 



sábado, 26 de dezembro de 2020

4657) "O Gambito da Dama" (26.12.2020)




Prefiro traduzir assim o título da minissérie The Queen’s Gambit, na Netflix. É a história de uma menina que descobre aos 9 anos ter uma capacidade fora-do-comum para o jogo de xadrez. Introvertida, meio selvagem, criada num orfanato, ela é vítima de uma série de acasos benignos muito comuns nos romances de Charles Dickens, e possíveis da vida real. Torna-se uma supercampeã, mas paga o preço do doping, porque ao longo da carreira se vicia em bebida e drogas.
 
Aprendi o xadrez por volta dos dez anos, com meu pai. Ainda hoje tenho aqui em casa a caixa com as mesmas peças de madeira com que jogávamos, na casa da rua Miguel Couto, 60 anos atrás.

 
Não tenho é tabuleiro. Faz trinta anos que não jogo com ninguém. Não sou bom jogador: tenho preguiça de planejar jogadas. Jogo improvisando, como quem percorre um labirinto. Não entendo de aberturas, defesas, etc. Mesmo quando pegava um livro e reproduzia uma partida clássica, só entendia uns 30% daquilo. Não é meu formato de inteligência.
 
O xadrez era para mim como a Ciência e a Música Clássica. Não entendo nada de música erudita, mas tão musicais quanto as sinfonias e as sonatas eram aqueles nomes: Rimsky-Korsakoff, Prokofiev, Scarlatti, Rossini, Stravinsky, Khachaturian...  Era como estar ouvindo falar em Heisenberg, Schrodinger, Gell-Mann, Bohr, Feynman, Freeman Dyson...
 
Do mesmo jeito existe até hoje para mim uma música misteriosa, cheia de promessas de enigmas e prodígios, por trás dos nomes dos grandes enxadristas, e com certo alívio (porque a idade avançada nos insensibiliza) descobri durante a minissérie que ainda me arrepiava ouvindo os nomes de Capablanca, Alekhine, Morphy, Philidor, Botvinnik...
 
Mesmo quando não entendemos certas “ciências exatas”, somos capazes de perceber a nuvem, o casulo de “ciências humanas” que sempre as envolve – e reagir a ele.




(Reshevsky, aos 8 anos)

Os enxadristas foram os
nerds do século 19, aquela geração de pessoas cujo gráfico mental-emocional é um horizonte liso, perturbado a certa altura por um pico descomunal numa área específica. São mentes quase autistas, introvertidas, desatentas para com as banalidades do mundo. Toda sua energia é para alimentar aqueles bilhões de neurônios em forma de quadradinhos preto-e-branco.
 
A série é muito boa ao retratar esse lado de “nerdice”, e não me surpreende que seja baseada num livro de um escritor de ficção-científica. Walter Tevis certamente conhece essa fauna desengonçada do fandom, onde as pessoas se vestem de qualquer jeito mas discutem horas sobre diferenças mínimas na capa de edições diferentes de um mesmo livro.
 
Comparei o xadrez, acima, com a música erudita e a física atômica. Não é por acaso. São domínios dos quais entendo pouquíssimo, mas entendo o bastante para saber por alto o que está se passando; é como ver um filme estrangeiro sem legendas. E um dos grandes trunfos da série é compreender isto, e ser acessível a quem não joga xadrez, porque não discute as jogadas em si, mas as reações conflitantes que essas jogadas produzem nas pessoas em redor do tabuleiro.


Millôr Fernandes, o Escarninho, dizia que o jogo de xadrez ajuda muito a desenvolver a capacidade de jogar xadrez. Tem razão, por um lado. Mas podemos dizer o mesmo de mil coisas. Um detalhe comovente da série é quando ficamos sabendo que a mãe adotiva de Beth Harmon (a ótima Marielle Heller) tocava piano bastante bem, mas desanimou do instrumento devido a um casamento pavoroso. Para que serve tocar piano? Para nada, talvez. E para tudo. Ao ver o talento da filha no xadrez, ela decide investir naquilo. Para que servem o xadrez, o piano? Para aproximar duas pessoas tão diferentes.
 
Gosto muito do modo como os jovens enxadristas conversam na minissérie. Depois de meses sem se ver, eles se reencontram. “Ôi.”  “Ôi, tudo bem?”  “Tudo. Não entendi porque você não usou o bispo naquela final com Fulano, há dois meses.”  “Usei o peão, para ele pensar que eu queria proteger o cavalo.”  É assim que nerd conversa: não tem preâmbulos, não tem “chat social”, perguntar pela família, comentar que está calor... Nerd vai logo ao que interessa. É um alívio conversar com gente assim.



(Isla Johnston)
 
As atrizes que fazem Beth são excelentes. A transição entre a Beth aos 9 anos (Isla Johnston) e a Beth daí em diante (Anya Taylor-Joy) é fluida. Existe uma continuidade na expressão, concentrada e relaxada ao mesmo tempo, uma economia de gestos e expressões porque 99% da CPU está ocupada pensando. O olho que rapidamente vai de torre a torre, registrando tudo. A contração dos lábios, geralmente nos momentos em que ela reprime uma resposta problemática.
 
A economia de emoções deixa transparecer a tensão quando vemos Taylor-Joy nervosa, insegura, apanhada de surpresa por um adversário mais cheio de recursos. O olhar vagueia, o rosto enrubesce de raiva. Mas quando ela consegue compor sua armadilha, quando se sente dona-do-pedaço, assume a pose da foto do cartaz: dedos entrelaçados sob o queixo, e aquele olhar de: “Vamos, espertinho, me mostre como vai sair dessa”.
 
Em termos de narrativa, a série é totalmente convencional. Tem o famoso roteiro em forma de N maiúsculo, preconizado nos manuais de escrita. O personagem começa embaixo, sobe até conhecer o cheiro do sucesso e ser obrigado a dobrar suas apostas, sofre em seguida uma queda problemática e no trecho final decola para uma vitória consagradora.
 
É o que ocorre com Beth Harmon, cuja “jornada do herói” segue o mesmo esqueleto de tantos outros roteiros da Sessão da Tarde. Aparecem na história as previsíveis surpresas, as reviravoltas obrigatórias que a gente enxerga quilômetros antes como uma curva da estrada; quem sustenta a narrativa é o charme ingênuo dos personagens. Ajuda bastante ser uma série “de época”. Um tal argumento soaria impossível num roteiro ambientado no século 21. Mas nos anos 1960 acreditávamos que tanta coisa era possível.



(Moses Ingram e Anya Taylor-Joy)

À medida que a série avança, vai se tornando mais hollywoodianamente previsível, marchando na direção do Final Feliz, esta versão moderna da tragédia grega, daquela força superior a que ninguém (no caso, os roteiristas) pode desobedecer.
 
Em termos enxadrísticos, ela começa no estilo Beth Harmon (pessoal e ousado) e vai encaretando para um estilo Borgov (defensivo e conservador). Gostei da série toda (sou um velho espectador da Sessão da Tarde), mas como roteiro os melhores episódios são os dois primeiros, onde ainda se tem aquela sensação do tudo-pode-acontecer.
 
Comparei acima o xadrez com a Física Sub-Atômica. Não é apenas a questão da complexidade, mas o fato de que um dos méritos da série é justamente ter como tema algo que não pode ser mostrado, e que podemos conhecer apenas pela reação que produz nas pessoas envolvidas. Ninguém precisa jogar xadrez para entender a irrupção de Harmon no mundo do jogo: basta observar o impacto das jogadas dela nos rostos dos homens mais velhos que a cercam. Nesse sentido, a série vale como uma síntese entre o empoderamento dos jovens diante dos “mais velhos” (um tema dos anos 1960) e o das mulheres diante dos homens (um tema dos anos 2020).



A matemática cruel do jogo impõe uma disputa de poder escancarada, uma disputa entre ataque e defesa, uma luta de destruição recíproca. Todas as metáforas do xadrez são metáforas de guerra. The Queen’s Gambit é uma história típica da Guerra Fria, e reflete a vivência do autor do romance original, Walter Tevis (1928-1984).  Pelos comentários que li, a reconstituição dos ambientes dos torneios, bem como das partidas em si, é impecável. Acredito.
 
A certa altura, Benny Watts (Thomas Brodie-Sangster), o campeão norte-americano que se torna um dos mentores de Beth, comenta sobre os enxadristas russos: “Eles são bons porque jogam coletivamente. Todos treinam juntos e corrigem os defeitos uns dos outros. Nas partidas adiadas, analisam cada jogada, conjuntamente. Nós norte-americanos acreditamos no talento individual, que ganha tudo sem a ajuda de ninguém”. Eles adotam o sistema russo, e batem os russos. Nessa reflexão não me parece haver uma intenção de comparar o individualismo capitalista e o socialismo soviético. (Claro que quem quiser interpretar assim tem pano para as mangas.)
 
O importante, que se concretiza no capítulo final, é o fato de que na URSS o xadrez fazia parte da cultura popular, e nos EUA não. Na URSS o xadrez era jogado por centenas de velhinhos, na praça, ao ar livre, num frio de zero grau. Os campeonatos eram transmitidos e comentados pelo rádio como se fosse uma Copa do Mundo. Num ambiente assim, mais do que o nacionalismo político o que se impõe (como tantas vezes ocorre na arte e no esporte) é o amor ao talento. Depois de derrotar o campeão russo, Harmon é agarrada em delírio pela multidão de russos. Por que? Porque eles sentem ali a presença do talento, da Grande Arte.


 
É como quando vi a torcida sueca comemorar a derrota de 5x2 para o Brasil de Garrincha e Pelé, ou quando vi Lionel Messi destroçar o time do Real Madrid, no estádio Santiago Bernabeu, e sair de campo aplaudido pela torcida adversária. O amor ao jogo (a um valor abstrato, não utilitário, mas dotado de uma ética, uma estética e uma moral próprias) pode ser, em casos muito especiais, um elemento capaz de transpor fronteiras e neutralizar parcialmente os conflitos de outra natureza.
 







sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

3742) Um problema de xadrez (20.2.2015)



(As brancas jogam, e dão mate em dois lances)

Quem não é aficionado de xadrez pensa que um problema de xadrez é a mesma coisa que uma partida de xadrez, mas não é.  Uma partida é um jogo entre adversários. Como em qualquer jogo, parte de uma situação inicial sempre a mesma, e vai refletindo a disputa de forças que passa a acontecer.  Um problema de xadrez é outra coisa.  É uma situação imaginária, proposta numa revista ou jornal. Envolve poucas peças, e o desafio: “As brancas dão xeque-mate em três lances”, ou “as pretas deixam o jogo empatado com dois lances”, coisas assim.

A graça do problema é você saber, pelo enunciado, que existe, sim, uma combinação de jogadas que conduz ao resultado anunciado.  Fogo é encontrar, porque às vezes é preciso um raciocínio meio não-convencional para achar a resposta.  No problema, aliás, isso é até mais fácil de acontecer, porque não houve toda uma partida cheia de peripécias e de intenções não-alcançadas, para chegar até ali.  Numa partida de verdade é mais fácil ficar preso à narrativa que aquele momento do jogo está propondo.  Num problema, não: chega-se emocionalmente zerado ao que na verdade é um desfecho.

Nos romances de Raymond Chandler, um dos hobbies do detetive Philip Marlowe é o xadrez, mas não me lembro de nenhuma história em que Marlowe dispute uma partida com quem quer que seja.  Ele volta para casa à noite (mora sozinho), toma banho, ouve música no rádio, prepara comida, come, depois pega o tabuleiro e arma um problema, ou reconstitui uma partida inteira entre dois mestres do passado, como um pianista que volta a tocar um Noturno para não se esquecer.

Um problema é uma pequena obra de ficção enxadrística.  Como no romance, imaginamos a existência de uma imensa teia de narrativas prévias, não-contadas, que desaguam naquele texto que começamos pelo “Capítulo 1”.  Um romance é uma história que vai acontecer, e um problema de xadrez é uma história de que não vimos o começo mas vamos ter que adivinhar seu possível fim.  Teoricamente seria possível prolongar indefinidamente aquela partida, mas a certeza da existência de uma solução radical, uma guilhotina instantânea, leva o jogador a não descansar enquanto não a encontra.

Jogar xadrez é um duelo intelectual, uma relação densa e aguerrida entre duas mentes.  Um problema de xadrez é o contrário disso: é um prazer solitário.  Uma minipartida abstrata entre o cara que publicou o problema no jornal, e o cara que vai tentar resolvê-lo.  Parece muito com a literatura, e parece mais ainda com a literatura policial.  É um detalhe sutil de Chandler, fazendo uma homenagem discreta aos grandes mestres do romance detetivesco.




quarta-feira, 1 de outubro de 2014

3619) O sucesso irritante (2.10.2014)



(Edição de "Lolita" na Turquia)


Vladimir Nabokov disse uma vez: “Conan Doyle  preferia ser conhecido como o autor de uma história de África, que achava bem melhor que o seu Sherlock Holmes”.  Deve estar se referindo ao romance A Tragédia do Korosko, um navio de europeus tomado como reféns por tuaregues revoltosos. Num programa de entrevistas na TV francesa (aqui: http://tinyurl.com/ozxtunu) ele diz isso respondendo a uma pergunta sobre o sucesso do romance Lolita (1965), se isso o deixava incomodado.  Disse que se incomodava mais com o fato de Lolita, que ele vê como uma pirralha muito desinteressada em sexo, ter sido transformada, pela ilustração e pela publicidade, numa modelo de pernas longas. 



Ele diz que a fenda da porta é a “brânquia mais importante da literatura”, já que é por ali que verdades são conhecidas, segredos são vazados, mistérios são desvendados. Diz que muitas das aparentes complicações de seus romances podem se tornar mais simples se encaradas como problemas de xadrez.  Mais do que enfrentar adversários, emboraele se diga capaz, de vez em quando, num torneio de clube, de fazer com que um campeão caia em sua armadilha, mas o que gosta mesmo é de criar aqueles problemas de revista: “As brancas dão mate em três lances.”  Segundo ele, especializou-se em problemas suicidas, aqueles em que as brancas obrigam as pretas a derrotá-las.



O terno, os óculos e o rosto grande o deixam às vezes parecido com Guimarães Rosa, enquanto disserta sobre espelhos, diz que gostaria de ser “um obscuro entomologista”, explica um xibolete de dicção para reconhecer um moscovita. “O castelo foi queimado por camponeses demasiado zelosos”, diz ele, lembrando como a fortuna do pai desmoronou. 



Perguntado sobre sua língua preferida, diz: “A língua dos meus antepassados ainda é a que me sinto mais à vontade. Mas nunca me arrependerei da minha metamorfose americana.”  A certa altura ele parece recitar uma frase, o entrevistador pergunta se ele está citando, ele diz que sim, e que é uma tradução “muito, muito boa”. (É, ninguém decora o nome de todos os seus tradutores.)


Cita suas leituras infanto-juvenis em inglês: Wells, Kipling, Shakespeare, a revista “The Boys on Paper”.  Nabokov, Jorge Luís Borges, Luís Buñuel, todos têm a mesma idade, talvez tenham lido certos autores ou certo tipo de livro na mesma época.  Nabokov era um fidalgo no exílio, o inglês que tinha foi afiado ao longo de uma fila de professoras e governantas.  Ele e Isaac Asimov (nascido em 1920) são dois russos de nascimento que tornaram-se autores de sucesso nos EUA escrevendo na língua dos anfitriões, e representando polos opostos da arte de escrever.



domingo, 16 de maio de 2010

2047) O respeito ou o afeto (30.9.2009)




Eu estava passando um fim-de-semana na casa de praia de uns amigos, anos atrás. Aliás, éramos eu e a torcida do Flamengo, porque tinha gente dormindo até na sala, e o almoço era em duas rodadas, cada qual com a mesa toda ocupada. 

A filha dos donos da casa, que teria uns 15 anos, tinha um jogo de xadrez bem bonitinho e chamava todo mundo para jogar. Joguei uma partida com ela no terraço, meio distraído, enquanto o pessoal tocava violão perto. Eu jogava, cantava um pouco, tomava cerveja... Levei xeque-mate, e a menina ficou super-orgulhosa. 

Cedi meu lugar a outro amigo, digamos que se chama Beto. Ele sentou-se, arrumou as peças, e mal começou a partida partiu pra cima “como a vaca partiu pra mestre Alfredo”. Massacrou o exército adversário e deu xeque-mate em cinco minutos. A menina recolheu as peças e recolheu-se, melancólica, para dentro de casa. 

Falei com Beto: “Devia ter deixado ela ganhar, como eu deixei.” (Mentira: se desse pra ganhar, eu tinha ganho.) Ele perguntou: “Pra quê deixar ganhar?” Eu: “Ela ficaria gostando de você.” Beto: “Eu não quero que ninguém goste de mim. Eu quero é que me respeitem”.

Esse dialogozinho de auto-ajuda ficou durante anos caraminholando no meu juízo, porque parecia uma conta de dividir com números primos, não fechava nunca um resultado definitivo. Tudo nessas frases é altamente questionável. 

Primeiro, a minha mentirazinha inofensiva. 

Segundo: a gente fica gostando de alguém a quem derrota num jogo? 

Terceiro: ser derrotado num jogo é a melhor maneira de ser gostado por alguém? (Se fosse, o Campinense seria o time mais querido do Brasil.) 

Quarto: quando a gente arrasa alguém num jogo, fica sendo respeitado? 

Quinto: o que é melhor, ganhar o afeto dos outros, ou ganhar-lhes o respeito? Sexto: uma coisa exclui a outra?

Desse mini-episódio me ficou a impressão de que eu era um deficiente afetivo. Facilitava a vitória de uma garota, num jogo bobo, apenas para que ela saísse dali pensando que eu era “um cara legal”, não por qualquer virtude visível em minha pessoa, mas porque eu entrara, como-Pilatos-no-Credo, num pequeno episódio de afirmação pessoal lá dela. 

E eu não “era legal”, na verdade; apenas quando alguém falasse um dia em mim ela se lembraria de um episódio “legal” que tinha vivido, derrotar um adulto num jogo. E eu era tão carente de “ser legal para os outros” que uma idiotice desse tipo era contabilizada como lucro em meu livro-caixa.

Por outro lado... E Beto, era carente do quê? Carente de respeito, como ele próprio deixou claro. Preferia ser temido a ser amado. Talvez sua truculência tivesse um aspecto positivo: eu podia ser tomado como hipócrita, ele não. Com ele, era pão-pão, queijo-queijo. Não estava ali a fim de representar, de ser bonzinho com ninguém. 

Queria respeito, exigia respeito, precisava desesperadamente de respeito, como um náufrago à deriva precisa de água potável, de preferência gelada, de preferência água-de-coco.






terça-feira, 11 de agosto de 2009

1194) O xadrez como arte (10.1.2007)



O valor simbólico do xadrez como estilização da guerra é um lugar comum. Algumas pessoas estão levando isto a um notável grau de estetização. Os artistas Debbie e Larry Kline estão colocando à venda no saite MegaChess (http://www.megachess.com/sunusualstuff.htm) um jogo de xadrez intitulado "The Game at Hand", em que as peças brancas e pretas simbolizam respectivamente a coalizão liderada pelos EUA no Iraque/Afeganistão e os terroristas islâmicos. As peças são feitas manualmente, uma a uma, o que faz com que o jogo completo, incluindo tabuleiro, caixas, etc., custe a pechincha de 4.350 dólares.

O mais interessante do jogo (que aliás não me parece muito "jogável", do ponto de vista de quem vai usá-lo para uma partida de verdade) é a concepção que os artistas dão a cada uma das peças, feitas em cerâmica. Vejamos as Brancas, em primeiro lugar. O Rei é representado por três pilhas de moedas douradas, de diferentes tamanhos, que vistas de certo ângulo parecem duas e lembram um pouco a silhueta do falecido World Trade Center. A Dama ou Rainha é uma reprodução estilizada da Estátua da Liberdade. Visto em conjunto, o casal real é simbólico e expressivo. Os Bispos brancos são representados por duas figuras religiosas: um Papa católico e um Rabino judeu, com vestes longas, bem parecidas. Os dois Cavalos são representados por um tanque e um avião-caça pilotados por dois soldados. As duas Torres são, adequadamente, representadas por duas construções bem sólidas: uma miniatura do Pentágono e outra da Casa Branca. E os oito peões, claro são pequenos soldados de metranca em punho.

E quanto às peças pretas? Aqui vem um pulo-do-gato da imaginação dos artistas. Em vez de tentar encontrar equivalentes aos personagens das peças brancas (sob a forma de minaretes, califas, aiatolás, etc.) eles criaram dezesseis peças pretas praticamente iguais entre si, silhuetas negras vestidas de burka e chamadas de "Extremistas Islâmicos". É impossível distinguir quem é rei, dama, peão, cavalo, torre, bispo... Só é possível saber quem é quem se memorizarmos, ao longo da partida, onde cada peça estava na formação inicial -- o que não é tão difícil assim, para um enxadrista experimentado. Mas é um estresse a mais. E reproduz (pelas intenções dos artistas) a sensação de incerteza permanente de quem combate terroristas.

O xadrez fabricado pelo casal Kline não tem pretensões de jogabilidade, mas de alegoria. Suas peças brancas, representando o Ocidente capitalista, são fortemente individualizadas, distinguíveis entre si, e carregadas de um valor simbólico que se percebe ao primeiro olhar. Já as peças que representam as Pretas, o Oriente misterioso ou “o Eixo do Mal” como afirma George Bush, são incógnitas. Exprimem a ameaça onipresente. Exprimem a impessoalidade de criaturas sobre cuja natureza nunca podemos ter certeza alguma. Exprimem a maior ameaça ao Ocidente: sua imensa ignorância sobre o inimigo que enfrenta.

sábado, 13 de dezembro de 2008

0662) O xadrez quádruplo (3.5.2005)



Minha adolescência ociosa e inquieta me conduziu a incontáveis tarefas de Sísifo, aqueles projetos grandiosos e intermináveis que só nos parecem factíveis porque somos jovens e o excesso de energia em nossas veias nos dá uma sensação inebriante de onipotência e eternidade. O xadrez quádruplo não foi a menos insensata das coisas que tentei inventar aos dezesseis anos.

A idéia inicial, como de hábito, não era minha. Colhi-a num romance policial de Anthony Boucher que tinha o improvável título de O caso do valete amarrotado. No meio da trama, que ocorre (para variar) na mansão de um milionário onde se dá um crime misterioso, menciona-se várias vezes que o tal Mr. Garnett costumava convidar amigos “para jogar partidas de xadrez quádruplo”. Naquele tempo não havia Google nem Internet, e eu não tinha como verificar se esse tal jogo existia ou não. Na dúvida, decidi fazer com que existisse. Ainda tenho uma dezena de folhas de papel rabiscadas a lápis onde tracei-lhe as primeiras regras.

O tabuleiro foi a primeira coisa. Está na cara que o tabuleiro comum de 64 casas não comportaria os quatro exércitos envolvidos (que, se não me engano, estabeleci que seriam Brancas, Pretas, Verdes e Vermelhas). Aumentar algumas casas do tabuleiro era indispensável, mas os primeiros esboços que fiz deixavam os peões “de quina” em relação uns aos outros, ameaçando-se mutuamente. Daquele jeito, em vez de começar com um tradicional P4R as partidas já começariam com vorazes trocas de PxP. Minha solução ainda hoje me parece a mais correta: um tabuleiro central de 100 casas (10x10), com mais 64 casas adicionais distribuídas pelos lados, em quatro grupos de 16 casas onde ficariam aquartelados os quatro exércitos, nas posições convencionais.

A primeira jogada seria das Brancas, depois jogaria a equipe à sua esquerda, digamos que fossem as Verdes; depois as Pretas, e por fim as Vermelhas. O jogador que sofresse um xeque teria que esperar sua vez para defender-se; e não seria impossível que uma jogada anterior à sua o livrasse do xeque, ou o agravasse em mate. Lembro-me que levei muito tempo pare decidir o que ocorreria com as peças dos dois primeiros exércitos a sofrerem mate, se ficariam simplesmente congeladas em suas posições até o final (o que parece mais lógico e mais fiel à história da partida), ou se com a derrota suas peças seriam retiradas do tabuleiro, o que sem dúvida equivaleria a quase que zerar o jogo.

Não o entediarei mais, caro leitor, com estas experiências de escultura em fumaça. Hoje parece uma perda de tempo; mas jamais o foi para aquela mente jovem que zumbia febrilmente 24 horas por dia, no deslumbramento de reinventar um mundo que mal começava a descobrir. Criar o xadrez quádruplo nunca me pareceu mais absurdo do que escrever poemas surrealistas, compor rocks, imitar os roteiros de Glauber Rocha, estudar filosofia com Padre Maia, latim com Sevy Nunes e sociologia com Beatilo. Era tudo uma coisa só.

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

0531) A máquina pensante (1.12.2004)


(do saite "Thinking Machine")

Uma das características mais interessantes do jogo de xadrez (como da maioria dos jogos, mas, concentremo-nos num só) é o fato de existir uma hierarquia estratégica que se sobrepõe à mera probabilidade matemática dos movimentos. Essa hierarquia se refere aos movimentos que deixam o jogador mais próximo de derrotar o oponente. Antes de cada movimento, existe um número gigantesco (embora finito) de possibilidades, em função do movimento de cada peça e das casas disponíveis para ela. Matematicamente, todos estes movimentos se equivalem. Estrategicamente, uns são mais relevantes do que outros.

Podemos então dizer que há três tipos de jogadas. Primeiro, a jogada possível: qualquer movimento para a frente, para trás ou para o lado, que seja permitido pelas regras, independentemente de sua utilidade. Segundo, a jogada obviamente útil: a jogada que tem mais probabilidade de ameaçar o oponente ou de conquistar para o jogador uma posição vantajosa. E terceiro, a jogada surpreendente: uma jogada pouco óbvia, que à primeira vista parece totalmente absurda, mas que pode desencadear uma combinação improvável de movimentos e dar a vitória ao jogador.

Quando um computador é programado para jogar xadrez, os movimentos do primeiro tipo são facilmente programáveis: o bispo pode ir para estas e estas casas, mas não pode ir para aquelas. Os movimentos do segundo tipo também podem ser programados, desde que se possa prever, para cada situação possível no tabuleiro, quais os caminhos mais rápidos para obter a vitória. Os movimentos de terceiro tipo são os mais difíceis. Eles são mais elegantes, mais ricos, mais surpreendentes, e possuem não apenas um valor estratégico, mas um valor estético. São o pulo-do-gato.

O saite “Thinking Machine 4” (em: http://turbulence.org/spotlight/thinking/chess.html) oferece um interessante recurso para ilustrar o modo como uma máquina pensa o xadrez. A cada jogada, linhas coloridas vão surgindo na tela indicando os movimentos mais prováveis para responder à jogada feita pelo adversário. À medida que a máquina “pensa”, algumas linhas vão ficando mais encorpadas, mais nítidas, porque um número maior de manobras passa por ali, até chegar o momento em que a máquina responde à jogada que fizemos.

Assim como no campo verbal podemos distinguir uma linguagem mais previsível e mais “pobre” (a linguagem normal do dia-a-dia) e uma linguagem menos previsível e mais “rica” (a linguagem poética), os movimentos no xadrez podem ser classificados em graus de previsibilidade e riqueza. Os melhores movimentos são os que cumprem uma função estratégica, possuem uma simplicidade estética (como a “elegância” das fórmulas matemáticas) e guardam um grau maior de imprevisibilidade. Escrevem por linhas tortas. Criam um atalho imprevisto. São inexplicáveis à primeira vista, mas na seqüência das jogadas o adversário percebe qual era a armadilha – quando já é tarde demais.

quinta-feira, 3 de julho de 2008

0431) O maluco Bobby Fischer (6.8.2004)




O leitor habitual desta coluna já terá percebido a esta altura que eu tenho uma admiração especial pelos sujeitos a quem falta um parafuso, ou que o têm meio frouxo. Podem conferir: é Bispo de Rosário, Augusto dos Anjos, Campos de Carvalho, Stanley Kubrick... Alguém irá protestar: “Mas são geniais!” Concordo. São geniais, mas eu não deixaria nenhum deles tomando conta de um bebê enquanto eu fosse na esquina comprar cigarro. Não é por nada não. É porque corria o perigo de quando eu voltasse pra casa eles tivessem ensinado o menino a escrever hai-kais, ou a jogar xadrez.

O que nos traz ao nosso doido de hoje, Bobby Fischer, o ex-campeão mundial de xadrez que foi recentemente preso no Japão por estar portando documentos irregulares. Eu tinha 20-e-poucos anos quando Fischer foi campeão mundial, quebrando uma hegemonia de décadas dos enxadristas russos. Naquele longínquo 1972, o xadrez russo era como o atual vôlei brasileiro ou como Schumacher na F-1: sobrava, “não tinha pra ninguém”. Fischer era um “enfant terrible”, temperamental, imprevisível, desorganizado, autodidata. Pegou o campeão Boris Spassky e fez com ele o que Mike Tyson fez com muita gente. Ficou rico e famoso da noite pro dia, remédio infalível para virar pelo avesso um juízo que já não regulava bem.

Num recente artigo no “The Wall Street Journal”, o atual maior jogador de xadrez do mundo, Garry Kasparov, comenta o impacto do surgimento de Fischer. “Ele mudou o xadrez como ninguém o fazia desde o século 19,” diz Kasparov; “A distância que separava Fischer de seus contemporâneos era a maior que já se vira.” Estimulado pelo governo e pela mídia dos EUA, numa época crucial da Guerra Fria, Fischer virou herói nacional, o Homem Que Mostrou Aos Comunistas Quem é O Melhor. Política à parte, Kasparov (que tinha seis anos quando Fischer virou o tapete do mundo do xadrez) reconhece que o americano maluco tinha muitos fãs na União Soviética. “Respeitavam seu xadrez, é claro, mas muitos deles admiravam discretamente sua individualidade e sua independência.”

Fischer recusou-se a colocar o título em jogo e acabou sendo destituído pela Federação de Xadrez. Para Kasparov, Fischer tinha um talento destrutivo. “Ele demoliu a máquina enxadrística soviética, mas não foi capaz de construir algo em seu lugar. Era o desafiante ideal, mas como campeão foi um desastre.” Nos anos mais recentes, Fischer só tem aparecido ocasionalmente na imprensa através de atitudes estapafúrdias: queixa-se de uma conspiração dos judeus para desmoralizá-lo, aplaude os atentados de 11 de setembro, trava brigas intermináveis com as autoridades dos EUA e com os próprios amigos, por motivos fúteis. Fischer foi um sinônimo de brilhantismo, intuição pura, talento puro derrotando a escola russa, tida como imbatível. Hoje, irritadiço, paranóico, egocêntrico, parece cada vez menos com aquele Bobby Fischer, e cada vez mais com os Estados Unidos de George W. Bush.

terça-feira, 8 de abril de 2008

0358) Calvino e a visibilidade (13.5.2004)



Italo Calvino vê dois tipos de processos imaginativos: o que parte da palavra para chegar à imagem (quando lemos um livro e visualizamos suas descrições , p. ex.) e o que parte da imagem para chegar à palavra (quando presenciamos um fato ou vemos um filme, e tentamos descrevê-lo). 

O pensamento verbal, analítico, se realimenta constantemente com a nossa percepção e nossa memória visual. Ser capaz de visualizar o inexistente é uma arte, e ele abre sua conferência sobre “Visibilidade” nas Seis propostas para o próximo milênio citando Dante, poeta universalmente louvado por sua impressionante capacidade de imaginar o fantástico. 

Diz ele (Purgatório, XVII, 25): “Chove dentro da alta fantasia...” A imaginação é um lugar onde as imagens parecem chover, chegar até nós.

A visibilidade a que Calvino se refere é mais a capacidade de fazer ver com a mente do que a de fazer ver com os olhos, mas as duas estão ligadas. Calvino descreve a gênese de muitas de suas obras como uma imagem visual que brota sem explicação: um homem que só tem a metade esquerda do corpo; um homem que vive andando de árvore em árvore, sem tocar o chão; uma armadura vazia, mas que fala e anda. 

O que acontece em seguida é o desenvolvimento de uma voz narrativa adequada a essa imagem, e essa empostação verbal vai se apossando do escritor à medida que ele desenvolve o texto, não restando à imaginação visual senão seguir a reboque das palavras. A imagem visível deflagra o processo criativo, que a partir daí é administrado pela carpintaria verbal.

Calvino é um dos escritores contemporâneos que mais freqüentam e melhor entendem o mundo da Ciência. Sem aceitar a falácia da oposição entre Ciência e Arte, ele afirma sensatamente que a mente do poeta e a do cientista funcionam de maneira muito semelhante, propondo-se problemas e resolvendo-os através de um processo de associação de imagens, que para ele é “o sistema mais rápido de coordenar e escolher entre as formas infinitas do possível e do impossível.” 

É um raciocínio intuitivo e instantâneo muito parecido ao dos jogadores de xadrez (ver “Xadrez sem mestre”, 31.5.2003; “O xadrez e o repente”, 14.9.2003). A fantasia é para ele “uma espécie de máquina eletrônica que leva em conta todas as combinações possíveis e escolhe as que obedecem a um fim. Ou que simplesmente são as mais interessantes, agradáveis ou divertidas”.

O Autor recorda a infância, quando mergulhava nas histórias em quadrinhos dos jornais italianos (Sobrinhos do Capitão, Gato Félix, etc.), antes mesmo de saber ler, inventando os diálogos ou interpretando as situações de acordo com as figuras – processo que retomou depois ao usar o Tarot e a pintura clássica para sugerir o enredo de O castelo dos destinos cruzados

É interessante que a maior parte dos narradores intuitivos prefira usar pontos-de-partida visuais, aleatórios, carregados de conteúdo emocional, e em seguida elaborá-los verbalmente.





sexta-feira, 28 de março de 2008

0316) O xadrez transgênico (25.3.2004)




Quando garoto, eu me admirava ao ver nos livros de xadrez as partidas sendo concluídas com a rubrica: “Abandonam”. Acostumado à ética brutal dos jogos de pelada no campinho das Barreiras, eu perguntava a meu pai: “Ei, que história é essa? As Brancas correram-com-medo?” Aí vinha a explicação de que o xadrez é um jogo de tal exatidão que em certo momento, depois de uma jogada decisiva, ambos os jogadores percebem que não há alternativa possível para evitar o xeque-mate dentro de um, dois ou mais lances. Qualquer que seja o caminho a seguir, o desfecho será um só. Não é preciso continuar. O resultado final é inevitável.

Comecei a pensar no assunto e me ocorreu que à medida que fosse aumentando o poder de antevisão das jogadas (com o uso dos computadores, por exemplo), seria possível prever o fim de uma partida com 10, 20, 30 jogadas de antecedência. Talvez chegássemos ao ponto em que um cara jogaria “Peão 4 de Rei” e o outro diria: “Abandono!” O xadrez perderia a graça. Ficaria parecendo com aquela cidadezinha do interior, onde todas as piadas eram conhecidas e numeradas, e bastava alguém dizer: “187” pra todo mundo rir. (E o forasteiro diz: “126”, ninguém ri, e aí explicam que a graça da piada está no jeito de contar.)

O xadrez é um jogo de multifurcações estratégicas onde cada jogada provoca uma mudança qualitativa radical. Em cada posição temos milhões de jogadas possíveis, milhares aceitáveis, e um punhado de jogadas que nos permitem chegar onde queremos sem que o adversário, que está vendo tudo, nada perceba. Vi há algum tempo uma entrevista na TV com Gary Kasparov onde ele fala que o uso de super-computadores está tornando o xadrez uma simples disputa de velocidade no cálculo de probabilidades, e que por isto Bobby Fischer teria sugerido alterações pequenas mas radicais nas regras, para trazer uma certa novidade e imprevisibilidade ao jogo. Bastaria, por exemplo, mudar a posição inicial das peças – digamos, invertendo as posições relativas do bispos e das torres. Bastaria isso para evaporar quase todas as estratégias provadas e comprovadas até agora, fazendo o xadrez recomeçar quase do zero.

Mais recentemente foi noticiado (em “The Guardian”, 4 de março) que pesquisadores da Suécia e da Austrália têm examinado mudanças nas regras do xadrez, não para serem aplicadas no jogo em si, mas como complemento a estudos de estratégia militar. Uma mudança interessante, para tornar o jogo mais parecido com a guerra, é o que eles chamam “incerteza informacional”. Os jogadores, por exemplo, jogam “às cegas” e são impedidos de conhecer os dois últimos movimentos do adversário. Outra mudança permite aos jogadores vários movimentos simultâneos, como ocorre numa batalha real. Este xadrez “transgênico” talvez não venha a ser assimilado pelos torneios oficiais ou pela teoria ortodoxa, mas pode ajudar a revitalização do jogo entre seus praticantes mais calejados (e entediados).

segunda-feira, 10 de março de 2008

0151) O xadrez e o repente (14.9.2003)



Entre as fotos antigas de meu pai havia uma em que ele estava sentado diante de um tabuleiro de xadrez; um sujeito de terno, em pé, estava pegando numa peça para fazer a jogada. 

Eu perguntei porque o outro cara não jogava sentado, e Seu Nilo explicou que esse cara era um campeão espanhol ou mexicano que veio a Campina Grande e jogou as chamadas “partidas simultâneas” contra 20 ou 30 pessoas, lá no extinto e saudoso Campinense Clube. 

Se o leitor não é enxadrista, precisa saber que as simultâneas são uma tradição no mundo do xadrez. Um Mestre do xadrez é capaz de enfrentar “x” pessoas em “x” tabuleiros, e vencer a maioria das partidas. Ele faz a primeira jogada no primeiro tabuleiro, e deixa o adversário pensando. Aí joga no segundo, e passa adiante. Quando completa a rodada, volta ao primeiro tabuleiro para ver qual foi a resposta do adversário; e recomeça tudo.

Esse estilo vapt-vupt parece em desacordo com o espírito do xadrez, jogo de profundos raciocínios, imensa concentração, e demoras intermináveis. Todo cartunista já desenhou um tabuleiro de xadrez com duas múmias, ou dois esqueletos, ou dois sujeitos envoltos em teias de aranha, pensando, pensando... Então, que história é essa de jogar contra 20 ou 30 caras, e jogar na base do pêi-bufo?

O número de combinações possíveis depois da 10ª jogada é de trilhões, quatrilhões, sei lá. É impossível um jogador avaliar todas as possibilidades. Depois que ensinaram xadrez aos computadores, as máquinas começaram a experimentar todas as soluções possíveis na base da “força bruta” (ver coluna “A solução Herodes”, de 5 de julho), e de fato têm derrotado muitos campeões. 

A essência do xadrez, contudo, não é a força bruta: é a intuição estratégica e estética do grande jogador, um talento que faz com que ele rapidamente descarte 99% das jogadas possíveis e se concentre naquelas, mais improváveis, que podem iludir a vigilância do outro e lhe render um xeque-mate. 

A criatividade no xadrez se assemelha à criatividade na matemática. Os grandes matemáticos, ao conceberem uma nova fórmula, muitas vezes não sabem sequer que utilidade ela pode ter, mas sabem que ela possui “elegância” (termo muito frequente no raciocínio matemático), e portanto deve ser útil. Elegância matemática (e enxadrística) é quando se consegue reunir numa fórmula um mínimo de elementos e um máximo de possibilidades criativas.

O Mestre que joga 20 simultâneas se beneficia, ironicamente, do fato de que ele tem menos tempo para pensar do que os seus adversários. Ele não poderia enfrentar, dessa maneira, 20 Grandes Mestres. Ele joga, passa adiante, e deixa o outro sujeito ali, se aperreando. Ao chegar diante de cada tabuleiro, ele “fotografa” a posição das peças e intuitivamente percebe que deve explorar este ou aquele lado, bloquear este ou aquele setor... 

Como um legítimo repentista, ele pega a deixa e responde na hora. O verso já estava pronto, há mais de mil anos.







sexta-feira, 7 de março de 2008

0060) Xadrez sem mestre (31.5.2003)




Certa vez eu estava com uns americanos, conversando sobre ficção científica, e por algum motivo começamos a falar sobre xadrez. Um deles perguntou: “And you, Braulio, do you play chess?...” Ao que eu respondi: “Badly and pigly.” Eles não sabem o que é “mal e porcamente” em português, mas riram assim mesmo. 

E na verdade jogo xadrez mal e porcamente, do mesmo jeito que falo inglês. Jogo de olho, e falo de ouvido. Algumas pessoas me mostraram o básico, e daí em fui em frente, na base da intuição, da memória, e do prazer de tentar uma coisa sem saber se vai dar certo. Não tenho a preocupação de acertar sempre. Quando erro, tento descobrir como teria sido o certo, anoto, e sigo em frente.

O xadrez é a mais velha metáfora da vida. Na infância, decorei um verso de Omar Khayam nos seus “Rubayat”: 

Inermes peças nós, no jogo que Ele joga 
no da Noite e do Dia enorme tabuleiro. 
Ora nos move ou prende, nos retém, nos solta, 
e depois, um a um, à caixa faz voltar. 

Jorge Luís Borges evocou noutro poema essa imagem do tabuleiro como o conjunto dos dias e das noites; e Bob Dylan ironizou numa canção o assassino de um líder negro do Mississippi dizendo: “He´s only a pawn in their game.”

Para mim, no entanto, o xadrez é metáfora para tudo. Para a literatura, o futebol, a política, a vida amorosa. 

Uma das primeiras coisas interessantes que aprendi no xadrez foi: “Nunca mova uma peça tendo apenas um objetivo em mente.” É perda de tempo, desperdício de munição. 

Um bom movimento serve para, por exemplo: 

a) ameaçar uma peça inimiga; 
b) abrir espaço para que uma peça sua possa se deslocar daqui a pouco; 
c) desviar a atenção do adversário para o flanco esquerdo, porque você está preparando mesmo é uma investida pela direita; 
d) impedir que o adversário mova uma peça que pretendia mover, pois se movê-la estará se auto-colocando em xeque; 
e) ameaçar uma casa que o adversário precisaria ocupar mais tarde, na linha de ação que vinha seguindo; e assim por diante.

Pense numa coisa parecida com poesia! Muitas vezes um trecho de um poema serve para: 

a) preparar uma rima obrigatória que virá a seguir; 
b) criar, no interior do verso, um contraste rítmico com algo que vem antes, ou depois; 
c) retomar uma imagem visual sugerida no começo do poema, e agora revista por outro ângulo; 
d) usar uma palavra com forte referência cultural específica (uma citação, uma gíria, um arcaísmo, um termo erudito, etc.); e assim por diante. 

Os manuais de roteiro cinematográfico ensinam que toda cena deve servir para uma destas três coisas, melhor ainda se forem as três: 

1) avançar a ação; 
2) aprofundar o personagem; 
3) ilustrar a idéia. 

O presente artigo, por exemplo, complementa uma idéia sugerida no de 8 de abril (sobre decisões estratégicas), reforça uma proposta feita em 26 de abril (atividades mentais simultâneas), e amplia a psicologia do jogador comentada em 13 de maio. A longo prazo, vocês vão ver como tudo se encaixa.