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domingo, 11 de dezembro de 2016

4189) O Livro do Juízo Final (11.12.2016)




Doomsday Book (que acabei de traduzir para a Suma de Letras) ganhou os três prêmios principais da FC norte-americana: o Hugo, o Nebula e o Locus. O livro é de 1992, e depois Willis publicou mais títulos nessa série de viagens no Tempo envolvendo historiadores de Oxford: To Say Nothing Of The Dog (1998), Blackout (2010), All Clear (2010) e outros.

O livro é contado em paralelo, do ponto de vista de Kivrin Engle, a estudante que viaja no Tempo, rumo ao passado, e do seu professor, James Dunworthy, um historiador cinquentão para quem a idéia de mandar uma moça de vinte anos à Idade Média é condená-la à morte e a algo pior do que a morte.

Kivrin salta para o século catorze. No ano de 2050, de onde ela saiu, primeiro a Universidade e depois toda a cidade de Oxford são varridas por uma epidemia de gripe, tão perigosa quando a famosa Gripe Espanhola que matou dezenas de milhões. Natal sob epidemia e quarentena. Todo mundo doente, instalações interditadas. Como trazer a estudante de volta?

Willis é uma escritora bem humorada, e confessa uma influência das comédias screwball norte-americanas dos anos 1930-40, de Preston Sturges, Frank Capra, Howard Hawks e outros. Isso não a impede de narrar com eficácia longas sequências trágicas. Qualquer manual de escrita criativa preparado nos EUA nos adverte que o mais importante é fazer com que o leitor se importe com o personagem, se preocupe com ele, acredite nele.  Na maioria de suas histórias, ela consegue.

Esse veio de comédia (menos presente em forma de piadas, e sim nas interações entre os personagens, e em certas ações absurdas que as pessoas não conseguem deixar de executar) ajuda a diluir o sentimentalismo que nos faz simpatizar com A e antipatizar com B. Seus tipos começam caricaturais, mas Kivrin, ao conviver com os aldeões do século 14, tanto confirma informações livrescas que trazia como quebra a cara porque nem tudo é como tem no livro.

Mas a História (não a ciência histórica, mas isso que as redes sociais de hoje chamariam “a Narrativa, o arco civilizatório da humanidade”), para acontecer, precisa que a donzela desobedeça à proibição do pai (ou as advertências do sr. Dunworthy) e mergulhe no bosque escuro. Isso fica ainda mais interessante quando sabemos que Willis já praticava em 1992 o que alguns chamam agora a “Lei de (George R. R.) Martin”: quanto mais querido um personagem, maior o risco de vida que ele corre.

Connie Willis é uma escritora de gênero, ou seja, formada dentro da cultura de pulp fiction, dos fanzines e clubes, dos colecionadores e fãs. Um dos seus contos mais emotivos mostra, em Portales (New Mexico), turistas do futuro que vão àquele remoto sertão do faroeste porque foi lá que viveu grande parte da sua vida Jack Williamson (1908-2006), o veterano criador da “Legião do Tempo” e “Legião do Espaço”. Os turistas parecem já saber os menores detalhes da vida do escritor. Há uma corrente de emoção, mas subterrânea, na medida em que percebemos o significado de alguns detalhes, e de outros não.

Por outro lado, há momentos no Doomsday Book em que ela parece ceder ao zás-trás do melodrama. Um personagem, em menos de um mês, passa por severas doenças que quase o aniquilam, e fica com o cabelo completamente branco. Pelo que entendo, o cabelo pode até embranquecer, mas a partir daquel ponto apenas, começando a crescer já branco. Os cabelos que eram de outra cor não embranquecem em pouco tempo, a não ser em Ponson du Terrail ou Michel Zevaco.

Há uma hipótese em favor disso, indicando uma reação do corpo a algo contido no pigmento do cabelo, de modo que os cabelos com mais pigmento tendem a morrer e cair, enquanto o que há de cabelos brancos se mantém.

Talvez isso seja um detalhismo bobo, como o dos leitores de Julio Cortázar, surpresos pelo fato do personagem chegar depois de meses viajando e ligar a ignição do carro, na garagem, logo de prima. Cortázar dizia: ele deixou uma cópia da chave com algum vizinho, algum amigo, para ficar usando o carro, ou para dar-lhe uma esquentada de vez em quando. “Meus romances são fantásticos,” dizia ele, “não é por detalhes assim, é por outra ordem de coisas.”









domingo, 27 de novembro de 2016

4183) Uma vez numa terra remota (27.11.2016)




“Uma vez, numa terra remota, havia uma donzela. Ela morava perto de uma grande floresta.  E o pai dela disse: ‘Não entre no bosque’. Mas ela era uma menina má e não obedeceu. Ela queria saber o que tinha lá dentro. Ela achou que ia poder entrar lá somente um pouquinho. A floresta é muito escura, e cheia de barulhos que dão medo. A donzela falou assim consigo mesma: ‘Eu não gosto disto aqui’, e ela tentou voltar, mas ela não conseguia mais avistar a trilha por onde viera, e estava ficando de noite, e de repente alguma coisa pulou em cima dela! Era um urso. E o urso disse: ‘O que você está fazendo na minha floresta?’ ‘Oh, senhor Urso, por favor não me coma!’, disse a donzela. ‘Eu me perdi e não estou conseguindo voltar para minha casa.’ Agora: o urso era um urso bom, mesmo tendo cara de cruel, e ele disse: ‘Eu posso lhe ajudar a sair de dentro da floresta’, e a donzela disse, ‘Mas como? Está tão escuro’, ‘Bem, então vamos perguntar à coruja’, disse o urso, “ela pode ver no escuro’. Ela continuou a falar, inventando à medida que avançava, sentindo um estranho conforto naquilo.

O parágrafo acima é uma síntese de uma cena aparentemente banal, uma moça de vinte e poucos anos, solteira, botando para dormir um menina de cinco, à qual se afeiçoou. A autora é Connie Willis, uma escritora muito popular e premiada nos EUA, autora de contos ora engraçados, ora sentimentais, mas sempre com leveza. Este romance, O Livro do Juízo Final (Doomsday Book, 1992) deverá sair pela Suma de Letras, com tradução minha.

Willis tem mais formação literária do que científica. Não quer dizer que ela não entenda de ciências, mas quando ela inventa aqui no seu romance uma máquina do tempo, ela, como H. G. Wells, fornece apenas informações genéricas sobre como a máquina é posta a funcionar. Não se dá o trabalho de explicar como se obtém um resultado tão espantoso, nem parece perder muito sono com isto. (Em termos das redes sociais de hoje, Willis é uma escritora de Humanas.) 

Seu interesse é o paralelismo entre os tempos, as rimas de pequenos acontecimentos ou dramas refletindo um ao outro através dos séculos, e alguém sendo capaz de perceber isso. Esta sua série de narrativas sobre viagens temporais leva historiadores de Oxford a diferentes momentos da História. Uma espécie de Túnel do Tempo.

“Firewatch” (1982), o conto que deu origem a esta série, mostra um desses estudantes vindo do futuro para ajudar a proteger a Catedral de São Paulo, em Londres, durante os bombardeios alemães na II Guerra.  

Nesse conto inicial já se menciona, meio indiretamente, uma aluna chamada Kivrin, que acabou de chegar da Idade Média, bastante abalada. Doomsday Book é a narração do que aconteceu a essa personagem citada de passagem em alguns parágrafos do “Firewatch”

O parágrafo transcrito no começo deste texto, a história da donzela que mergulha na floresta escura, é a própria história da mulher que a está contando, uma estudante de História na faculdade de Brasenose, em Oxford, que recua ao século 14 para examinar as condições de vida do campesinato inglês durante a Guerra dos Cem Anos.

Kivrin Engle, a estudante, traz um sobrenome em homenagem a uma famosa autora de viagem temporal, Madeleine l’Engle, autora do clássico juvenil A Wrinkle in Time (1963), livro que a geração de Willis (ela nasceu em 1945) provavelmente leu na juventude.  

Kivrin tem algo de quase Nikita, quase uma Lara Croft crononauta. Estuda plantas medicinais, latim, religião, equitação, toma umas quinze vacinas diferentes, passa o pente fino na história e na geografia da época. Instala um tradutor simultâneo no cérebro. Instala um minigravador camuflado no pulso e ativado ao pressionar juntas as palmas das mãos. Desse modo, ao se misturar ao mundo do passado, poderá gravar seus relatórios enquanto dá a impressão de estar rezando em voz baixa.

Em alguns momentos, Kivrin me lembrou também a Psicóloga, de outro livro que traduzi, o Aniquilação (Ed. Intrínseca) de Jeff VanderMeer. Uma mulher jovem, expedita, imaginativa mas atenta, capaz de se virar sozinha, e um tanto introspectiva. Disposta a saltar num abismo e saber que, mesmo que continue viva, essa pessoa que ela é agora deixará de existir durante essa experiência.







segunda-feira, 14 de novembro de 2016

4179) As duas pontas do Tempo (14.11.2016)



Falei dias atrás sobre os paradoxos temporais, aquelas histórias de Viagem no Tempo em que o viajante faz alguma coisa (matar o próprio avô, por exemplo) que o impossibilita de nascer, de existir, e consequentemente de fazer a viagem onde praticou essa ação, gerando um loop contraditório, onde a conta nunca fecha.

Tem outro tipo de situação nessas histórias que não consiste num paradoxo, mas num momento de revelação ou de epifania. É quando o Viajante no Tempo se depara com um objeto ou uma cena que diz respeito diretamente ao mundo de onde veio, produzindo uma sensação mista de iluminação e de estranheza.

O filme Em algum lugar no passado (Somewhere in Time, 1980, de Jeannot Szwarc, baseado num romance de Richard Matheson) conta a história de um homem que se apaixona pela fotografia de uma atriz, tirada em 1912. O rosto lindo dela o encanta, mas principalmente o seu sorriso e o seu olhar, meio de lado, com uma expressão indefinível de ternura.

Ele dá um jeito de viajar para o passado, numa espécie de projeção mental, sem o uso de uma máquina do tempo. Chegando lá, encontra a atriz, declara-se a ela – o que a princípio a assusta – mas aos poucos vai se aproximando, conquistando sua confiança.

E então acontece uma cena em que a atriz vai posar para uma foto, e ele está em sua companhia. Afastando-se um pouco, ele espera que ela cumpra aquele compromisso profissional rotineiro, mas no momento em que a foto vai ser tirada ela olha de lado e o avista novamente. Então ela sorri, e a foto é tirada. É a foto pela qual ele se apaixonou. Ele se apaixonou por aquele olhar, aquele sorriso – e os dois eram dirigidos a ele.

É uma imagem delicada e significativa, e ilustra bem um aspecto dos “paradoxos temporais”, comuns nas histórias de viagem no tempo. Existe o chamado Paradoxo do Avô (um indivíduo volta no tempo e mata o próprio avô – mas nesse caso ele não teria nascido, etc.), que eu classifico como um “paradoxo negativo”: uma viagem ao passado que anula a sua própria possibilidade de acontecer.

No caso de Somewhere in Time, ocorre o contrário: um “paradoxo positivo”, em que certos fatos do passado aconteceram somente porque alguém do futuro  viajou no tempo e desencadeou os acontecimentos.

Histórias de viagens temporais mostram muitas dessas cenas de reencontros ou de reconhecimentos, em que o Viajante no Tempo se depara (em geral inesperadamente) com alguma coisa que lhe era familiar no futuro de onde veio, que de certa forma desencadeou sua viagem.

No romance de Connie Willis Doomsday Book (1992), a historiadora Kivrin Engle, de Oxford, viaja no Tempo até o século 14 para estudar o mundo medieval. Depois de alguns anos estudando-o em bibliotecas, ela decide (porque o ano em que vive é 2050, onde já existe a Máquina do Tempo) fazer sua pesquisa de campo.

Acontece que Kivrin vai parar por acidente na época da Peste Negra (1348) e daí em diante tudo vira uma aventura meio dark, cheia de perigos e de ocorrências trágicas. Kivrin não corre perigo (ela tomou todas as vacinas existentes em 2050), mas faz o possível para proteger o que eles chamam de contemps, os contemporâneos, as pessoas da época visitada.

Então acontece esta cena curta mas significativa. A certa altura, um mensageiro chega à casa onde ela está hospedada, e que já foi atingida pela peste. Ele traz uma mensagem do bispo local, avisando os moradores sobre a peste – um documento histórico:

O garoto tirou um rolo de pergaminho da sacola, e o atirou aos pés de Roche.
Roche abaixou-se e o apanhou na laje do piso, e o desenrolou.
- O que diz a mensagem? – perguntou ele ao menino, e Kivrin pensou: claro, ele não sabe ler.
- Não sei – disse o menino. – É do bispo de Bath, e ele mandou entregá-la em todas as paróquias.
- Quer que eu leia? – perguntou Kivrin.
- Talvez seja sobre o nosso amo – disse Roche. – Talvez ele esteja avisando que vai se atrasar.
- Sim – disse Kivrin, tomando a mensagem das mãos dele, mas sabia que não era.
Estava escrita em latim, numa caligrafia tão rebuscada que ficava difícil de ler, mas isso não tinha importância. Ela já lera a mensagem antes, na biblioteca Bodleian.

São detalhes assim que fazem a FC produzir em certo tipo de cientista aquilo que o pessoal chama às vezes de “um frisson”, um arrepio de emoção.

Eu tenho 11% de historiador em mim (quando fui morar na Bahia pensei em cursar História na UFBA, no campus de São Lázaro).  Duvido que um historiador de verdade não se emocione com esse momento em que uma personagem volta 700 anos no passado e de repente chega-lhe às mãos, novinho em folha, com a tinta quase úmida, um documento que ela manuseou, empoeirado, quase se esfarelando, numa biblioteca. São duas pontas do Tempo que se tocam.

É como a emoção de Robinson Crusoé ao ver, na areia da praia, a pegada de Sexta-Feira.