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quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

4310) Legendas de caricaturas (31.1.2018)



(by Bill Waterson)


Sempre fui um leitor voraz de humor, piadas, anedotas e tudo o mais nesse universo. Quando eu era menino havia revistinhas só de piadas,, que a gente comprava na banca. Coisas como Vamos rir!  Muitos anos depois, a editora Codecri, do Pasquim, publicou uma série de livretos de piadas, organizados por Ziraldo e outros, revivendo esta nobre tradição; houve uma série com o título magnífico de Tem aquela do....

Uma das minhas fontes era a revista Seleções do Reader’s Digest, da qual eu comprei uma coleção completa com meus primeiros salários no “Diário da Borborema” em 1965.

Seleções tinha várias seções de pequenas histórias cômicas enviadas pelos leitores: “Flagrantes da vida real”, “Piadas de caserna”, “Rir é o melhor remédio”, etc.

Uma delas dava o balanço nos cartuns e charges que saíam na imprensa norte-americana, e se intitulava: “Legendas de caricaturas”.

Essa seção criou um gênero de humor interessante: o humor visual que prescinde do visual. De certa forma, era um verdadeiro desaforo contra os desenhistas, porque transformava um cartum numa piada puramente verbal. Vou dar exemplos:

Mulher para o marido à janela, vendo cogumelo atômico sobre a cidade: -- Ainda bem que já fui ao cabeleireiro ontem.

Índio para outro, vendo à distância pessoas que recolhem apetrechos de piquenique embaixo de chuva: -- Precisamos estudar essa dança da chuva deles, sempre funciona.

Garoto com birra sentado à mesa, diante dos pais, com o prato cheio à frente.
Mãe: Se você não comer tudo, vamos jogar seu almoço para os cães.
Pai: Se você não comer tudo, vamos jogar você para os cães.

O que isto nos diz sobre o humor?

Ele diz de certa forma que esse tipo de piada consiste em dois elementos: contexto e frase. O contexto sozinho não é engraçado, e a frase sozinha não é engraçada. É a justaposição dos dois que cria a piada. E na nobre arte do cartum, o contexto é visual (desenho) e a frase é frase mesmo.

O que Seleções fazia era substituir o contexto desenhado por uma mera descrição. Era um processo de tradução, no sentido amplo. O desenho, mesmo que fosse o desenho de um mestre cartunista, podia ser traduzido. O leitor, decerto, perdia a fruição estética do traço de Fulano ou Sicrano; mas como a função do desenho era fornecer contexto, na maioria dos casos esse contexto podia ser fornecido  por uma descrição verbal.

O contexto (o desenho, ou a descrição do desenho) tem a função de (em termos de vôlei) levantar para a frase cortar.

("-- Não basta termos sucesso. Os gatos têm que fracassar!")

E nos melhores cartuns, eu diria, o leitor volta ao desenho, numa terceira etapa. Ele vê o desenho rapidamente e assimila o contexto, depois, lê a piada, percebe o humor, dá uma risada; volta ao desenho e (idealmente) reforça a impressão inicial, captando detalhes que na primeira olhada (impaciente para ler logo a legenda) ele não percebeu. A segunda olhada no desenho é o momento de ficar saboreando, degustando a piada após a descarga de riso.

Os norte-americanos transformaram esse cartum (desenho+frase) numa forma de arte específica, que bem mereceria um estudo aprofundado. (Besteira minha – a esta altura, já deve haver umas 200 monografias a respeito nas universidades de lá, desde a Johns Hopkins até a Bowling Green.)

Publicações como The New Yorker têm um espantoso arquivo de piadas de ótima qualidade, pequenas jóias deste subgênero.

("Está morno... está esquentando...")

A expressão usada nas edições brasileiras de Seleções, “Legendas de caricaturas”, é incorreta. O mais certo seria “Legendas de cartuns”. Esse tipo de piada que estou descrevendo chama-se cartum, “cartoon”. A palavra “caricatura” não designa uma piada do tipo imagem+texto: é um mero desenho, onde o humor é obtido por uma deformação expressionista de uma figura humana, aumentando ao máximo possível a distorção crítica (uma distorção visual que equivale a um comentário sobre a personalidade ou o contexto social do retratado) e a possibilidade de reconhecimento.

Na caricatura, deformação e reconhecimento são mutuamente excludentes. Quando aumenta um diminui o outro. A arte é equilibrar os dois. Há caricaturas (vejo muito as matérias sobre os premiados nos Salões de Humor) que são tecnicamente brilhantes  mas a gente tem que ver a identificação para perceber que o retratado é Quentin Tarantino ou Tite da Seleção.

Voltando à idéia inicial:

Curiosamente, conheci esses cartuns-sem-desenhos durante a década de 1950, que foi justamente quando floresceu um gênero literário híbrido: o filme recontado.

Revistas de cinema, naquela época, havia duas: Cinelândia e Filmelândia. A primeira, Cinelândia, era o que eu definia mentalmente como “revista para mocinhas”: fofocas da vida pessoal dos astros e estrelas de Hollywood, notícias sobre as produções em curso, comentários sobre os sucessos em cartaz, dicas de beleza, e fotos, muitas fotos.

Já a Filmelândia era a minha preferida. Nela a gente tinha novelizações de filmes: os filmes do momento, recontados em prosa, cena por cena, como se fosse um conto. Não era uma adaptação do roteiro (como temos hoje romances recontando filme de sucesso, mas com uma certa latitude de reinvenção própria): era o filme contado e pronto, em dez ou quinze páginas de texto corrido.


Filmelândia servia para divulgar os filmes em cartaz, contando sua história, e muitas vezes fiz questão de ver um filme porque tinha gostado de ler sua recontação na revista. Um exemplo aleatório que me vem à lembrança é O Irresistível Forasteiro, western meio cômico com Glenn Ford (uma espécie de avatar de Harrison Ford).

Era uma época em que pessoas contavam para as outras os filmes que tinham assistido, como Homero Fonseca inesquecivelmente descreveu em seu romance Roliúde (Ed. Record, Rio), sobre Bibiu, o matuto que via os clássicos do cinema e os recontava ao seu modo.



Tudo isto me conduz para a tese que defendo esta manhã:

Qualquer experiência estética visual (desenho, pintura, filme, encenação de palco, etc.) pode ser traduzida em palavras, de maneira a criar um substituto sofrivelmente satisfatório para um público meramente curioso.

Essas descrições nunca serão equivalentes, é claro, à obra original, mas no mesmo sentido em que a tradução de um livro para outro idioma também não o é.

Toda recriação verbal desse tipo implica numa perda, mas toda recriação verbal seja lá do que for implica numa perda.

Negar que se possa recontar verbalmente um cartum ou um filme é negar que se possa fazer o mesmo com qualquer aspecto da vida real, a qual, por definição, é sempre muito mais complexa que a mais complexa obra de arte.

Mulher de camisola, para o marido desgrenhado diante da prancheta em branco: -- Se não teve nenhuma idéia para o cartum de amanhã, vamos fazer sexo. É sempre na metade disso que você sai correndo e gritando ‘heureca!’.








domingo, 11 de janeiro de 2015

3708) A Gréia e a Zuêra (11.1.2015)



(foto: Christopher McKenney)

Todo humorista que trabalha e publica num país sob ditadura sabe que se falar mal do Grande Irmão pode ir para a cadeia, o hospital ou o cemitério.  Mesmo assim, humoristas do mundo inteiro topam correr esses riscos, e muitos se dão mal.  Tiro o chapéu para esses caras, porque se eu vivesse (como já vivi) num país sob ditadura eu provavelmente iria sair pela tangente e satirizar Nabucodonosor ou Calígula. 

E não me refiro apenas às ditaduras convencionais. O massacre do Charlie Hebdo em Paris, onde morreram vários desenhistas e funcionários do jornal, foi realizado por um tipo especial de ditadura que está crescendo no mundo.  Não é mais o ditador cuja estátua e efigie estão por toda parte, é o ditador oculto e às vezes anônimo, que quase ninguém ouviu falar. Não é a ditadura dos tanques de guerra na rua, é a ditadura de bomba na mochila.  Uma não é menos ditadura do que a outra.

Que o diga Salman Rushdie, perseguido durante anos por ordem de um aiatolá. O simples fato dele ainda estar vivo mereceria ser comemorado diariamente (inclusive porque é um ótimo escritor). A ditadura terrorista não é menos cruel nem menos absurda do que a Ditadura de Estado.  Não é onipresente como ela, mas por ser invisível parece estar a ponto de brotar em qualquer canto.

Todos devemos ter direito à Gréia (a deusa grega da Galhofa e da Esculhambação) e à Zuêra (a deusa africana da Gozação e do Escárnio). Sem elas, não poderíamos viver. Saber aguentar uma piada sem perder o sorriso e a pose é uma prova de traquejo social e de segurança íntima.  Quando o camarada reage com violência a uma piada, revela de pronto seu calcanhar de Aquiles.

Sendo o mundo o que é, porém, a piada é vista (e às vezes é feita) como mera ofensa sem humor, desaforo gratuito.  Humoristas vêm catucando onças com varas curtas desde que o mundo é mundo. Os humoristas deviam ser mortos, pelo que diziam?  Não. Deveriam ser proibidos de dizê-lo?  Não.  Mas todo humorista sabe que caminha em terreno minado; aceita o risco como o soldado que vai pra guerra está aceitando o seu. Que um cara tenha a coragem suicida de fazer isso é uma coisa admirável. Extremismos e fanatismos estão recrudescendo por toda parte. Esse humor demolidor e de escracho com símbolos alheios está sendo feito num contexto de guerra, mesmo uma guerra declarada unilateralmente, como a dos terroristas. Nosso verniz de democracia é tênue; às vezes basta o peso de um cartum para rachá-lo, e aí a verdadeira natureza do Poder se revela. Porque o país pode até ser uma democracia formal, mas o mundo, como um todo, continua sujeito à Ditadura do Terror.





sábado, 10 de janeiro de 2015

3707) Wolinski (10.1.2015)



E os extremistas mataram Wolinski, o único cartunista francês cujo nome e cujo traço eu sabia de cor.  Conheci a obra dele lá por 1980, em Olinda, quando eu me asilava na casa de Paulo Santos de Oliveira, perto do Alto da Sé.  Paulo era cartunista (hoje é romancista: A Noiva da Revolução) e junto à sua prancheta havia uma estante cheia de álbuns trazidos das andanças européias. Wolinski tinha aquele traço minimalista e acelerado que Henfil, entre nós, levou aos píncaros mais delirantes. Seu personagem típico era um cara careca de nariz batatudo, queixo noel-rosa, sempre cercado por sereias vulcânicas que ou se recusavam ao sexo com ele ou se ofereciam sem que ele percebesse. A sacanagem de Wolinski nada tinha da nossa sacanagem moreno-tropical, era o mundo daqueles magrelos e branquelos franceses, discutindo Godard ou Sartre mas pensando o tempo todo naquilo.  Me identifiquei no ato.

Depois saíram álbuns dele aqui, pela Editora Três, se não me engano. Foi um alívio, porque o francês daqueles baluns era um dialeto críptico muito diferente do francês do “Cahiers do Cinéma”, que eu conseguia decifrar às apalpadelas. O humor era escrachado, e, pro meu temperamento cauteloso, ousado demais.  Nem a turma do Pasquim pegava tão pesado quanto o daquelas publicações, o Charlie Hebdo, o Canard Enchainé, o Echo des Savanes, outros nomes que agora me vêm brotando na memória, por entre a fuzilaria.

Quando o sujeito passa 50 anos satirizando Deus e o Mundo, um destes dois acaba reagindo. Em geral não é Deus.  Vi uma piada ótima na esteira do massacre, um twitter em inglês dizendo: “Eu sou Deus Todo Poderoso, sou Onisciente e Onipresente, o criador dos Tempos e dos Espaços, e posso muito bem aguentar uma porra duma piada”. Já o Mundo, infelizmente, não tem o mesmo senso de humor do Pai Eterno. Não sei ainda (alguém chegará um dia a saber?) se os assassinos são fanáticos ressentidos ou se são paus-mandados para apimentar uma crise geopolítica. Ou uma terceira coisa, ainda pior que estas duas. Mas é no meu artista que penso, o artista cujo rosto só vi, pela primeira vez, nos necrológios.

Disseram os sobreviventes que os Ninja-do-Mal entraram de rifles em punho na redação e “fizeram a chamada”, mandando que todos se identificassem para serem abatidos. Nas linhas que a tinta da História deixa em branco, todo mundo é capaz de rabiscar a lápis a lenda que mais lhe agrada. Criei para mim a fantasia consolatória de que ao ouvir seu nome, pronunciado com ódio pelos enviados do ódio, Wolinski, 80 anos, uma vida plena, uma vida ganha, ligou o “foda-se”, ficou de pé e disse: “Wolinski sou eu.  Algum problema?”




quarta-feira, 23 de outubro de 2013

3324) "Sanitário" (23.10.2013)




O que leva as pessoas a fazer revistas de quadrinhos? Não rende dinheiro (pelo menos não nos primeiros dez anos). Dá um trabalho enorme, é esnobado por alguns intelectuais, é ignorado pela imprensa... Bastariam estes sintomas para provar que as HQs são uma forma de arte pela arte, feita por gente que descobriu que 1) sabe fazer aquilo; e 2) gosta de fazer aquilo. E isto são condições necessárias e suficientes para fazê-lo.

Sanitário (revista HQ de Campina Grande – www.coletivowc.com.br) está cheia desse entusiasmo nos seus roteiristas e ilustradores. Humor, imaginação, uma dose do cinismo e da brutalidade que são “o Espírito do Tempo”, e com os quais temos de conviver, porque os tempos agora são assim. A revista lançou dois números temáticos: 1) “O Mundo Ainda não Acabou” e 2) “Grandes Monstros da Humanidade”. Alguns têm mais técnica; outros, têm idéias mais surpreendentes, mesmo que a técnica ainda seja na base da tentativa.

Em HQ, a idéia é essencial. A história tem que ter interesse, os personagens não podem ser apenas ilustrações do texto. Os diálogos têm que ser uma destilação e concentração do que seria dito, pra não perder tempo. Muitas vezes o cara tem isso, sabe fazer isso, mas não é um grande desenhista. A solução, ao meu ver, é transformar suas limitações em qualidades. Ao invés de tentar desenhar com A ou B, concentrar-se nas virtudes que tem (seja traço, seja enquadramento, seja textura, seja figurativismo bem resolvido... o que for).

No universo brasileiro da HQ, da tirinha, do cartum, existem grandes desenhistas, de técnica refinada: Laerte, Mike Deodato, Mutarelli, Shiko, Rafael Grampá, Fábio Moon & Gabriel Bá... Cada um desenha de um jeito totalmente diferente dos outros, mas todos tem o que em música a gente chama “domínio do instrumento”. Por outro lado, alguns dos melhores quadrinhistas atuais são pessoas que tecnicamente ninguém chamaria de grandes desenhistas: Bruno Maron, Alan Sieber, André Dahmer, além de mestres de uma geração anterior, como os falecidos Henfil e Glauco. Não têm “essas técnicas todas”, mas, por-cima-de-pau-e-pedra, cada um criou um estilo pessoal.

Estilo é a tensão entre o que a gente sabe fazer muito bem e o que a gente não consegue fazer de jeito nenhum. Um Henfil não tem a mesma técnica figurativa de um Laerte, mas isso não importa, porque ele é capaz de dizer tudo que quer usando aquilo que tem. Entre a rapaziada do Sanitário há quem domine a técnica “oficial”, há quem esteja inventando uma técnica própria, e há que esteja na encruzilhada entre as duas coisas. É a foto da nuvem, de um momento que não se repetirá, porque cada um irá numa direção diferente.


sexta-feira, 21 de outubro de 2011

2693) Saul Steinberg (21.10.2011)


Eu tinha perdido no Rio de Janeiro esta exposição de desenhos de Saul Steinberg, As aventuras da linha, mas paguei essa dívida a mim mesmo indo vê-la na Pinacoteca de São Paulo. 

Quando estou sacolejando num metrô ou num ônibus rumo a um museu fico me perguntando por que diabo me dou esse trabalho todo na era da Internet, quando basta clicar um “abre-te sésamo” qualquer para que tudo apareça pixelando em nosso monitor. 

Uma das respostas possíveis, no presente caso, é que nenhum monitor pode dar uma sensação equivalente a ver uma faixa de papel com quatro metros de comprimento em que Steinberg traça uma linha horizontal e a vai recheando e rodeando de imagens, como numa imensa Tapeçaria de Bayeux que se desenrola diante dos nossos olhos. 

A faixa começa com o desenho de uma mão que empunha a caneta e traça essa linha horizontal que sucessivamente se torna o chão de um desenho, o céu de outro, o horizonte de outro, a linha do mar em mais um, uma balaustrada, um meio-fio, sempre a mesma linha que corre horizontalmente e é cooptada por uma série de imagens, cada uma dando a ela uma leitura diferente. 

Esta é apenas uma das muitas magias do Rei do Traço, o romeno que por ser judeu teve que fugir da Europa e buscar refúgio nos EUA, onde se tornou um dos mais famosos ilustradores e capistas da revista The New Yorker

Conheci o trabalho dele nos anos iniciais do Pasquim, quando Millor Fernandes, Ziraldo e outros reproduziam seus desenhos e entoavam alalaôs ao mestre. Mestre deles, virou mestre meu também; mesmo quem não é desenhista pode absorver da linha enxuta de Steinberg alguma coisa para sua escrita, assim como um músico pode lucrar o mesmo para o seu piano (eu diria que foi o caso de Erik Satie, se um não fosse tão anterior ao outro) e até um jogador de futebol pode usar algo em seu trato com a bola. (Eu diria que Sócrates, Zidane e Paulo Henrique Ganso têm momentos verdadeiramente steinberguianos.) 

A exposição em SP traz numerosos exemplos das famosas séries em que Steinberg pega um tema (um cowboy; uma perua; uma passeata; um gato; um casal; um casaco de peles) e o reproduz incansavelmente, cada exemplo com um tracejado diferente que sugere diferentes interpretações visuais, leituras críticas, piscadelas irônicas, citações rebuscadas, ou apenas (e sempre) o mero prazer de desenhar. 

Vi na exposição montes de crianças, acompanhadas pela professoras, deitadas no chão da Pinacoteca, lápis e bloquinho na mão, copiando, imitando, parodiando e distorcendo os desenhos do mestre. E vivendo na idade certa a descoberta do prazer de desenhar, um reino onde as possibilidades, como sempre, são infinitas.




quinta-feira, 7 de outubro de 2010

2367) Noites de Autógrafos de Reinaldo (7.10.2010)



Não entendo por que motivo ninguém leva os humoristas a sério. Vejam o caso do carioca Reinaldo, por exemplo. É um intelectual, conhecedor da melhor literatura, músico de jazz, mas o público só pensa nele como aquele sujeito de óculos que se veste de flamingo-cor-de-rosa no programa Casseta & Planeta. A própria imprensa, se exigida a apontar um intelectual na família, provavelmente indicará algum dos seus irmãos, como o escritor e tradutor Rubem Figueiredo ou o jornalista Cláudio Figueiredo, autor de uma ótima biografia do Barão de Itararé. E no entanto, e no entanto...

Noites de Autógrafos, o novo livro de Reinaldo (Editora Desiderata, Rio, 2010) é um passeio pelo mundo-pesadelo dessas ocasiões aparentemente festivas, em que o autor de um livro se submete à mortificação pública de ficar sentado, escrevendo dedicatórias para desconhecidos que ele logo descobre com horror tratar-se de amigos de infância, irreconhecíveis por trás de uma barba ou da ausência dela. Não há tormento maior para um autor do que perguntar, timidamente: “E o teu nome, como é?...”, apenas para ouvir algo como: “Ora, sou Fulano, teu editor, que publicou esse livrinho aí”.

Sem falar nos muitos casos em que a gente troca Leila por Lélia, Edilson por Adilson, coisas assim. Pensando nisto, as livrarias adquiriram o hábito de, na venda do livro, perguntar o nome do comprador e anotá-lo num papelzinho, para socorrer o infeliz. Mas basta o sujeito ter tomado uns chopes com o autor cinco anos atrás, para afirmar, confiante: “Não precisa! Somos amigos.” E não se sabe qual a decepção pior, a do autor ao constatar que não lembra ou a do fã ao descobrir que não é lembrado.

Parece que estou fazendo cerca-lourenço, mas não: o livro de Reinaldo é exatamente para explorar todas as gafes e desencontros possíveis nessas ocasiões. Só que, aqui, com autores consagrados. Stevenson escreve: “Para o dr. Jekyll, excelente figura humana...” enquanto Mr. Hyde brota do smoking do outro, facão em punho. Kafka contempla a barata morta diante da mesinha, junto à placa: “Esta livraria foi dedetizada”. Dom Quixote e Sancho pressionam Cervantes: “Autografa logo, porque o cavalo e o burro ficaram mal estacionados”. Jorge Luís Borges, cego, espera em vão numa mesa no centro de um enorme labirinto vazio. Machado se alegra ao ver um esqueleto: “Brás Cubas! Quem é morto-vivo sempre aparece!”. Ariano Suassuna, pedindo um autógrafo a Luís Fernando Verissimo, faz um longo discurso armorial diante do silêncio do colega.

São 61 cartuns com estes e outros personagens envolvendo-se em pequenas confusões e perplexidades diante de um livro a ser autografado. (Meus preferidos são os que envolvem Clarice Lispector, Ivan Lessa, Thomas Pynchon, Millôr Fernandes, Sartre, Lima Barreto). Todos com o traço anguloso e preciso de Reinaldo, todos revivendo a antiga arte de fazer da tragédia alheia a nossa comédia.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

2357) A situação e o desfecho (26.9.2010)


("Meu caro Watson, talvez fosse melhor a gente esperar o inspetor Lestrade")

O desenhista Gahan Wilson é um dos mestres do cartum fantástico. Este gênero talvez não esteja consignado nos compêndios, mas existe e prolifera nas revistas e jornais, alicerçado na obra de artistas como Edward Gorey, Charles Adams (criador da “Família Adams”), e muitos outros. 

Wilson ficou famoso por seu traço que alterna linhas de simplicidade aerodinâmica com áreas do desenho festivamente coberta de detalhes (muitas vezes horripilantes e hilários). Publicou em revistas de grande circulação como Collier’s, The New Yorker, Playboy e outras, mas foi através das páginas do The Magazine of Fantasy and Science Fiction que o conheci (bem como na edição brasileira dessa mesma revista, e da saudosa Galáxia 2000). 

O universo temático de Wilson é instantaneamente familiar a quem aprecia a obra de Ray Bradbury, Tim Burton, Roger Corman, Robert Bloch, Roald Dahl.


Wilson afirma (em http://graphicnyc.blogspot.com/2009/09/creepy-funny-absurdist-world-of.html): 

“O que é importante é escolher um tópico e apegar-se a ele. Digamos, duas pessoas numa mesa de restaurante. Não abandone isto para pensar noutra cena, porque se o fizer você vai ficar andando e não chega a lugar nenhum. Você tem que manter a decisão de achar algo engraçado naquele restaurante. E acaba achando”.


Numa entrevista à Locus em março de 1999, Wilson fez um comentário interessante sobre a arte do cartum (não necessariamente do cartum fantástico). Disse ele: 

“Um cartum é uma forma maravilhosamente complexa de arte visual e arte literária. É o único meio de expressão em que as duas coisas estão inteiramente entrelaçadas. Num cartum com legenda, um cartum realmente bem feito, se você remover a legenda o desenho não faz mais sentido, e se você remover o desenho a legenda não faz mais sentido. Eles são interdependentes. Mas acima de tudo um cartum é algo literário. Se ele é rico de significado e bem feito, o leitor pode imaginar o que vai acontecer em seguida ou como foi que aquela situação veio a acontecer. Ele é um momento dentro de uma história”.


Um cartum de Wilson mostra uma loja de animais empalhados, o cliente junto ao balcão onde há dois homens. Um deles aponta para o outro e apresenta: “Meu falecido sócio”. Só então a gente percebe que o outro está numa posição excessivamente comportada, mãos cruzadas sobre o balcão, olhar fixo. 

Se víssemos apenas a imagem talvez achássemos que ele estava distraído, indiferente à conversa. Por outro lado, a legenda sozinha não diz muita coisa. 

É um pouco o contrário do que Hitchcock preconizava para o uso do diálogo. O diálogo deveria ser meio irrelevante em relação à cena, para que essa própria irrelevância destacasse o que realmente importa, ou seja, o que estamos vendo. São receitas diferentes, mas importantes. Wilson: O diálogo deve ser complemento. Hitchcock: O diálogo deve ser contraste. O que não pode ser é redundância.








terça-feira, 7 de setembro de 2010

2340) Drummond: “Europa, França e Bahia” (7.9.2010)




(charge de J. Carlos em O Malho)

Minha primeira lembrança desta expressão foi no famoso poema de Ascenso Ferreira, “Oropa, França e Bahia”, do livro Xenhenhém (1951). 

Só depois de algum tempo percebi que ela já estava neste poema de Drummond em Alguma Poesia (1930), e bastou-me esfregar a lâmpada do Google para o Gênio emergir, de braços cruzados, e me informar que a frase já surgia no Macunaíma de Mário de Andrade, que é de 1927. Não pedi ao Gênio que buscasse mais longe; meu assunto se detém aqui.

O Modernismo brasileiro foi mais um de tantos movimentos (do Romantismo ao Tropicalismo, do Regionalismo ao Armorial) que tentou definir a brasilidade num país onde todos se sentiam estrangeiros e, ao mesmo tempo, diferentes de todos os estrangeiros que conheciam. 

Este drama de conceituar o que é ser brasileiro, claro, só ocorre às nossas elites, aos brasileiros que leem livros e discutem abstrações. O povo, mesmo, fala a sua Língua Geral, trabalha, brinca seu samba ou seu fandango, brasiliza 24 horas por dia, pratica o Brasil sem conhecê-lo de fora.

O poema de Drummond é uma contemplação irônica da Europa com que nossos “mazombos” sonham, felizes na sua ilusão de exílio, no seu consolo de serem elite no único lugar do mundo onde seriam elite: este continente exótico de gente escura e sem modos. 

Drummond faz caricaturas da França, Inglaterra, Alemanha, Itália, Suíça, Rússia... Seus versos são um equivalente verbal às charges políticas de Ângelo Agostini, J. Carlos ou Raul Pederneiras, aos cartuns políticos de revistas como O Malho, Careta e Fon-Fon

A Europa ilustre aparece aqui distorcida e cômica, vista pelo olho desafiador do “humour” (Drummond já usou a palavra assim, indicando sua conotação britânica, distanciada, cheia de “understatement”). Uma coleção de clichês sarcásticos em que a velha Europa aparece despida da grandiosidade colonial, reduzida à condição de Império em crise.

Drummond é quase profético, neste poema pós-I Guerra Mundial, ao descrever a Alemanha como um lugar onde “homens de cabeça rachada cismam em rachar a cabeça dos outros / dentro de alguns anos”, cabendo apenas a ressalva de que a II Guerra foi, claramente, uma continuação da primeira, após uma pausa para rearmamento. 

E demonstra uma simpatia de cineclubista-de-esquerda pelos “sujeitos com um brilho esquisito nos olhos (que) criam o filme bolchevista”, o que me lembra um soneto de Vinicius de Morais em homenagem a Eisenstein, talvez o único soneto da poesia brasileira cuja chave-de-ouro é em russo.

É um dos primeiros poemas em que Drummond define uma brasilidade às avessas: não descrevendo o Brasil, mas descrevendo o mundo lá fora e através disto criando, implicitamente, um olhar brasileiro, um modo brasileiro (irônico, deslizante) de encarar a Europa que nos criou e nunca deixou de nos fascinar. 

“Olhos brasileiros sonhando exotismos”: os exóticos são eles, o centro do mundo somos nós, mesmos que não saibamos quem somos.







quinta-feira, 24 de junho de 2010

2190) Glauco (16.3.2010)



Glauco Villas-Boas, assassinado na semana passada em Osasco junto com seu filho Raoni, foi um dos cartunistas que ressuscitaram o humor brasileiro durante a década de 1980. Era uma turma enorme de paulistas nascidos ou adotivos: Glauco, Angeli, Laerte, Adão Iturrusgarai, Paulo & Chico Caruso, Nilson, e tantos outros. Circularam em fanzines, depois em revistas como Circo, Chiclete com Banana, entraram para a imprensa diária (Folha, Estadão), colaboraram na TV, e depois cada um estava lançando sua própria revista. Faço esse arrazoado para deixar claro que, se Roberto Carlos e os Beatles são chamados “a trilha sonora de uma geração”, esses cartunistas foram o muro, o grafito, a porta-de-banheiro, as páginas-do-fim do caderno onde a História desta geração foi escrita.

Glauco foi sem dúvida um dos traços mais não-parecidos-com-coisa-nenhuma que já apareceram no cartum e nos quadrinhos brasileiros. Suas tirinhas do Geraldão eram no início um desafio para os meus olhos acostumados a tiras graficamente mais bem-comportadas, como as de Angeli (o que é uma boa medida do mau-comportamento desenhístico de Glauco). Geraldão era aquele maluco desvairado que passa o dia em casa vendo TV, tomando todas as drogas imagináveis, levando Playboy pro banheiro, metendo-se em confusões. Um primo distante dos Freak Brothers. Geraldão aparecia aplicando-se com seringa, e alguns meses depois já caminhava entre dois quadrinhos com meia dúzia de seringas, sem explicações, cravadas em pontos diferentes do corpo. Fumava e bebia, tudo bem, mas daí a pouco lá vai Geraldão atender a campainha com cinco cigarros fumegando na boca e meia-dúzia de copos equilibrados na cabeça.

O delírio cubista de Glauco foi chegando a limites que fariam recuar Picasso e Braque. Geraldão se locomovia num universo quântico em que todas as possibilidades coexistiam e se superpunham, Geraldão com dez braços bebendo, fumando, cheirando, falando ao telefone e desdobrando uma “centerfold” ao mesmo tempo. O traço de Glauco era rigorosamente não-figurativo, era esquemático e histérico, uma mistura da economia de Nássara com o frenesi de Henfil.

É impressionante que um sujeito com um traço tão anti-Belas-Artes tenha sido capaz de não apenas sobreviver, mas tornar-se nacionalmente reconhecido. Isso diz muita coisa boa sobre o Brasil, e especificamente sobre o ambiente de imprensa e cultura gráfica de São Paulo, onde talento conta muito. É no cartum e nos quadrinhos que a gente percebe, num choque instantâneo de reconhecimento, o que é “estilo” (literário, musical, cinematográfico, etc.). Estilo é a superutilização concentrada e intensiva de tudo que a gente sabe fazer, depois de jogar pela janela o que não sabe e não consegue. Não adianta dizer ao garoto, “desenhe igual a Michelangelo, ou a Crumb”. O estilo resulta da mão, do olho e do juízo acelerado de cada um, e o resultado é único, incomparável, insubstituível. Salve, grande Glauco!

terça-feira, 13 de outubro de 2009

1301) Reinaldo é nosso Rei (15.5.2007)



Quando ele apareceu no Pasquim, seus cartuns eram à base de texto, de piadas verbais, com bonequinhos resolvidos em poucos traços. Na época era costume adivinhar influências; eu dizia que o estilo de Reinaldo era uma imitação do de Dave Berg, da Mad. Os amigos retrucavam: “Tá maluco, não tem nada a ver”. De fato, o desenho não tinha nada a ver, mas o humor dos dois estava todo nos baluns, que em vez de apontar para personagens bem poderiam estar apontando para palavras: “Marido”, “Esposa”, “Guarda de Trânsito”.

O tempo passou e Reinaldo foi evoluindo, ou terá sido a minha percepção das coisas que se refinou. Saiu do Pasquim e fundou, com Hubert e Cláudio Paiva, o Planeta Diário – que os pernambucanos, bairristas como eles só, dizem ser uma simples imitação do recifense Papa Figo de Bione e Zé Teles (e pode até ser, visto que Teles é de Campina Grande). Depois, juntaram-se à turma de Bussunda, Marcelo Madureira “et caterva”, e criaram o Casseta & Planeta que hoje pontifica na Rede Globo. Tornaram-se milionários, e hoje todos têm contas bancárias nas Ilhas Cayman e vivem em condomínios fechados na Barra da Tijuca. Reinaldo, por exemplo, mora numa mansão desenhada por Steinberg. Diversificou suas atividades, que hoje incluem vestir-se de mulher diante de 50 milhões de telespectadores e tocar numa banda de jazz, embora esta última possa ser uma simples desculpa para que ele possa sair de casa à noite e retornar ao amanhecer exibindo leves traços de descoordenação motora.

A Teoria da Evolução pode ser confirmada cientificamente no livro Desenhos de Humor (Rio, Desiderata, 2007), que reúne em pouco mais de 120 páginas uma amostra de como a produção do desenhista se sofisticou tecnicamente. Alguns trabalhos são do tempo do Pasquim: aqueles baluns com vários hectares de extensão e texto em letras de imprensa que parecem ter sido traçadas com uma caneta-tinteiro antiga, daquelas Compactor ou Parker 51. A variedade de estilos é surpreendente, quando os desenhos são vistos de uma assentada só, comprimidos num espaço restrito (o único defeito do livro é não ter umas 600 páginas). Há inclusive uma seção sobre jazz, onde o autor afirma ser o único cartunista de jazz do país. Dois policiais contemplam um sujeito amarrado e de olhos vendados, sob uma lâmpada acesa pendurada no teto; um deles empunha um contrabaixo acústico e diz: “Chefe, acho que agora ele fala”. O outro brutamontes concorda: “É... Todo mundo começa a falar na hora do solo de contrabaixo”.

É um clichê dizer que o Brasil é “top de linha mundial” em três coisas: futebol, música popular e novelas de TV. A estas três categorias poderíamos juntar “humor gráfico”, ou que nome se queira dar ao que faz essa turma do verbo e do traço. Desde que Millôr, Appe e Borjalo começaram a me abrir os olhos no Cruzeiro e na Manchete Esportiva, nunca mais parei de tirar meu chapéu de linhas pontilhadas para esta galera cuja profissão é correr o risco.

segunda-feira, 23 de março de 2009

0909) A blasfêmia (14.2.2006)



A blasfêmia é um ato de libertação. Sofremos na infância uma lavagem cerebral (toda educação tem algo de lavagem cerebral) proibindo-nos sequer de pensar certas coisas. A religião católica ameaça com o fogo do Inferno e com tormentos indizíveis certas ofensas, mesmo mentais, à Divindade. Quando adolescente, eu passava noites em claro pensando coisas sacrílegas e pornográficas, mas não via trezentos raios de fogo trovejando do céu, reduzindo-me a algo menor que uma mosca torrada. Quando conheci o cinema de Luís Buñuel, um especialista em sacrilégios, entendi-o profundamente. Não, nunca tive raiva da igreja. Apenas queria ter certeza de que ninguém me eletrocutaria para sempre só porque visualizei a imagem de... Deixa pra lá, não quero escandalizar os leitores.

Em Memórias, Sonhos e Reflexões C. G. Jung narra um episódio de infância em que o esforço para aceitar a visualização de uma cena sacrílega (e, vista em retrospecto, bastante bobinha) produziu nele alguns dias de incessante terror que culminaram (quando permitiu por fim que a imagem se formasse em sua mente) num estado eufórico e quase transcendental de libertação íntima. Comento este episódio em meu livro O Anjo Exterminador (Ed. Rocco, 2002), porque ele tem relevância para discutir a tendência blasfema dos surrealistas parisienses em geral e de Buñuel em particular. A blasfêmia é um ato de afirmação da liberdade individual: “Eu penso no que eu quiser, e assumo a responsabilidade”.

Não é o caso de episódios recentes como a publicação num jornal dinamarquês de cartuns ofensivos ao Profeta Maomé. O que os dinamarqueses fizeram não é uma blasfêmia, porque para eles, provavelmente, Maomé é uma entidade tão exótica e distante quando o Padrinho Ciço ou Iemanjá. Não acho que um humorista dinamarquês (ou de qualquer país ocidental) tenha problemas íntimos em fazer gozações com o respeitável Profeta do Islã.

Este é um ingrediente ainda mais explosivo na revolta dos muçulmanos. Eles não apenas vêem seu ídolo ofendido, como percebem que os ofensores estão se lixando para o ídolo. Na verdade, nem sequer quiseram ofendê-lo: querem apenas ridicularizá-lo, porque não lhe dão nenhum importância. É essa atitude arrogante e desdenhosa do Ocidente para com seus valores sagrados que enfurece ainda mais os islamitas.

Um dos polêmicos cartuns, reproduzido na imprensa, mostra Maomé chegando todo enfarruscado no Paraíso, onde é recebido por Buda, Cristo e Jeová, que lhe dizem: “Liga não, eles fazem isso com a gente o tempo todo”. Ao contrário dos países do Oriente Médio, onde Igreja e Estado geralmente se misturam, as sociedades ocidentais têm essa atitude bem republicana de “colocar Deus no seu devido lugar”. O que os cartunistas dinamarqueses fazem não é heresia nem blasfêmia; isto só acontece quando agredimos algo em quem acreditávamos. E, não sendo blasfêmia, é mera pose, mero escracho, não envolve nenhum tipo de crescimento ou libertação espiritual.