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domingo, 8 de setembro de 2024

5099) Minhas canções: "Lavadeira do Rio" (8.9.2024)




Compor canções, como qualquer outra atividade criativa, tem suas marés, suas idas e vindas. Tem, por exemplo, épocas em que a gente está concentrado em produzir coisas complexas, mais esteticamente ambiciosas, e épocas em que a gente se dedica a fazer coisas mais simples. Uma tarefa nos descansa da outra, em ciclos alternados. 
 
Compondo com Lenine, muitas vezes ficávamos tentando produzir letras mais complicadas – com temas de ficção científica, por exemplo – e melodias com três ou quatro partes diferentes. E outras vezes corríamos para o abrigo da canção popular mais básica. Como a gente dizia na época: “Uma música que poderia ser gravada por Jackson do Pandeiro ou Marinês”. 
 
Um exemplo nessa linha, que já comentei aqui, foi “A Roda do Tempo”, gravada por Elba Ramalho: 
https://mundofantasmo.blogspot.com/2019/12/4529-minhas-cancoes-roda-do-tempo.html
 
“Lavadeira do Rio” é uma música desse período, que foi sendo feita de modo intermitente, um trecho hoje, outro trecho daqui a mais um tempo, e ficou na gaveta até ser gravada por Elba Ramalho no disco Flor da Paraíba (1998), pelo próprio Lenine em Falange Canibal (2002) e por Maria Rita em seu disco de estréia Maria Rita (2003).   
 
Elba:
https://www.youtube.com/watch?v=tgEN-rD8P4s
 
Lenine:
https://www.youtube.com/watch?v=dlIZD6bj5RU
 
Maria Rita:
https://www.youtube.com/watch?v=2_Wdrqg87z8
 
Cantiga de lavadeira é uma coisa linda. 
 
A TV-Zero, do Rio de Janeiro, mostrou em sua preciosa série “O Som da Rua” um grupo de lavadeiras de roupa de Almenara (MG), na beira do rio Jequitinhonha, cujas cantigas de trabalho acabaram virando um espetáculo que correu o Brasil. Eis aqui um vídeo, apresentado pelo cantor Carlos Farias, que dá uma boa idéia da arte dessas cantoras: 
 
https://www.youtube.com/watch?v=SvaBe6SgYPQ
 
Recentemente, foi compartilhado no mural de Felix Rivera-Cabrera, no Facebook, um curto vídeo da cantora espanhola Buika escutando o canto de lavadeiras venezuelanas:
https://www.facebook.com/505332363/videos/1453560108629211/
 
O canto das lavadeiras é um dos muitos tipos do Canto de Trabalho, que por si só é um grosso capítulo na história da canção oral – a canção invisível, a que nunca é gravada, que surge espontaneamente para musicar um momento de vida e não tem o menor propósito de se transformar num produto comercial. 
 
Acaba se transformando, em muitos casos, e isso é bom, porque permite a gente como eu ficar sabendo o que cantam as mulheres venezuelanas quando lavam roupa ao ar livre. Cantam quadrinhas rimando ABCB, sempre com a mesma linha melódica (como nesse exemplo do Facebook), e a certa altura terçando vozes com uma afinação comovente. 
 
Quando nossa “Lavadeira do Rio” foi gravada por Elba Ramalho, um crítico comentou no jornal que eu e Lenine estávamos fazendo “macumba para turistas”, a conhecida expressão de Oswald de Andrade para designar a exploração do folclore (ou da cultura popular) para vender contrafações a consumidores desavisados. 
 
Um mal-entendido frequente nas nossas avaliações da música popular é achar que porque um sujeito é branco e de classe média ele cresce numa bolha impermeável e não convive com o que se chama “gente do povo”. 
 
Na minha visão, o contato entre classes sociais, pelo menos no Nordeste em que cresci, é muito mais intenso e constante do que se pode imaginar. Não só no Nordeste: eu diria que no próprio Rio de Janeiro esse contato existe, só que ele é mais pervasivo e habitual na Zona Norte (por exemplo) do que na Zona Sul, onde as classes se misturam na rua mas não se frequentam nas casas. 
 
No meu caso, as lavadeiras e suas cantigas foram parte da minha vizinhança desde os meus 11 anos, quando meus pais se mudaram para o Alto Branco, para as proximidades da Lavanderia Municipal, que fica a 20 ou 30 metros da nossa casa. O Alto Branco é uma colina muito úmida, com águas subterrâneas que descem o tempo todo, e afloram em certos trechos. 




Nas proximidades da Lavanderia, havia um trecho de poços dágua rodeados de grama (hoje essa área está toda coberta de casas), onde as mulheres lavavam roupa nos dias de sol. Além da Lavanderia oficial, esses poços atraíam mulheres que lavavam a roupa dos moradores em torno. E cantavam. 
 
Um detalhe interessante é que o Alto Branco sempre foi sujeito a ventanias, e de vez quando se armavam por ali alguns “redemunhos” violentos na direção dos poços dágua, arrebatando as roupas estendidas na grama e arremessando-as a dez ou vinte metros de altura, para desespero das lavadeiras. 
 
Menino não presta, e uma diversão nossa, quando um redemunho se formava, era correr para o terraço ou a calçada e ficar gritando: “Rapadura Preta!... Rapadura Preta!...”  Rapadura Preta é um nome popular do Diabo que mora no meio do redemunho, e chamando esse nome (teoricamente) estávamos atraindo o redemunho na direção dos poços, para ver os lençóis, as camisas e as saias rodopiando no ar. 
 
Minha mãe ficava furiosa e partia lá de dentro empunhando um cinturão ou uma chinela, ameaçando dar uma surra em quem chamasse o Diabo para atanazar as pobres lavadeiras. 
 
Outro detalhe relativo a esta canção é que ela acabou se misturando com outra música, “Rita”, que tinha o mesmo formato de estrofe (duas quadras + refrão) e melodia parecida. Pegar o violão para tocar uma delas sempre induzia a tocar a outra, e desse modo letras e melodias foram se misturando e resultaram numa música só. 
 
Aqui outra interpretação, com a cantora paraense Lia Sophia: 
https://www.youtube.com/watch?v=ZNUrZLNZWwA
 
Em todo caso, a origem da canção como um coco, a sua intenção de parecer com um coco que “poderia ser gravado por Jackson do Pandeiro”, acabou encontrando rumo quando a música foi regravada pela dupla Caju e Castanha no disco Professor de Embolada (2013). 
 
A gravação de Caju e Castanha: 
https://www.youtube.com/watch?v=8rFsE0vv_4Y
 
 
************* 
 
LAVADEIRA DO RIO
(Lenine / BT)
 
Ah, lavadeira do rio...
Muito lençol pra lavar!
Fica faltando uma saia
quando o sabão se acabar.
Corra pra beira da praia
veja a espuma brilhar
ouça o barulho bravio
das ondas que batem na beira do mar. 
 
Ê-ô, o vento soprou
Ê-ô, a folha caiu
Ê-ô, cadê meu amor
que a noite chegou fazendo frio...
 
Rita, tu sai da janela,
deixa esse moço passar...
Quem não é rica e é bela
não pode se descuidar.
Rita, tu sai da janela,
que as moça desse lugar
nem se demora donzela
nem se destina a casar...
 
Ê-ô, o vento soprou
Ê-ô, a folha caiu
Ê-ô, cadê meu amor
que a noite chegou fazendo frio...
 
 
 
 
 
 






sexta-feira, 14 de agosto de 2020

4610) Minhas canções: "Nordeste Independente" (14.8.2020)

 



Esta música ficou conhecida por caminhos meio tortuosos, até porque não surgiu com a intenção de “ser uma música”, nem de ser gravada.

 

Dentro do ambiente dos cantadores de viola e dos “apologistas” (os “defensores” da cantoria) é comum o habito de dar motes aos cantadores para que eles desenvolvam versos. O mote pode ter muitas formas. Vou explicar a forma usada nesta música, que é a do mote de dois versos decassílabos.

 

A estrofe de dez versos usada pelos cantadores de viola nordestinos é uma estrofe típica da poesia barroca da península ibérica, muito usada em Portugal e na Espanha, e trazida para cá pelos colonizadores. Uma prova disso é que em toda a América Latina a mesma estrofe é usada. Já a encontrei na poesia popular e nas canções da Argentina, Chile, Uruguai, Peru, Cuba e por aí afora.

 

Essa estrofe, chamada de décima, tem este formato, com as letras indicando a posição obrigatória das rimas:

 

1....................................A

2....................................B

3....................................B

4....................................A

5....................................A

6....................................C

7....................................C

8....................................D

9....................................D

10..................................C

 

Ou seja: cada estrofe desse tipo utiliza quatro rimas diferentes, uma nas linhas 1, 4 e 5, outra nas linhas 2 e 3, outra nas linhas 6, 7 e 10, e outra nas linhas 8 e 9.

 

O violeiro não tem apenas que improvisar os versos: ele tem que improvisar colocando as rimas exatamente nessa posição, porque se ele estiver cantando no sertão pode ter certeza que mais da metade da platéia conhece isso e vai perceber toda vez que ele errar. É como Ginástica Olímpica. Errou, perde ponto. (Simbolicamente, é claro – na cantoria ninguém conta ponto.)

 

Já com relação ao aspecto de métrica, o Nordeste Independente é uma letra feita em decassílabos, versos de 10 sílabas, que nesse estilo tem uma acentuação mais forte na 3ª., na 6ª, e na 10ª. sílabas.

 

I-ma-GI-no-Bra-SIL-ser-di-vi-Di(do)

Eo-nor-DES-te-fi-CAR-in-de-pen-DEN(te)

 

Coloquei em negrito as sílabas com acentuação mais forte. A última sílaba, que coloquei entre parênteses, não é contada por ser (no caso) uma sílaba átona – só se conta até a última sílaba tônica, que no exemplo acima são respectivamente DI e DEN.

 

Complicado? Sim, é uma estrofe que vem sendo elaborada e praticada há seculos. Difícil de fazer, ou até mesmo de compreender? Sem dúvida. Como diz Zé Ramalho, “se fosse perto, todo mundo ia”.

 

O mote é quando a gente sugere ao cantador a última ou as 2 últimas linhas do verso, para que ele improvise o resto. É uma tradição, um hábito, um desafio.

 

Você está bebendo num bar às 4 da manhã e o garçom se aproxima querendo fechar. A mesa está cheia de cantadores. Aí você diz:

 

Seu garçom, por favor, mais uma Brahma

que eu só saio depois do sol nascer!

 

Esse é o mote. Seriam as linhas 9 e 10 da estrofe, e aí todo mundo se assanha, cada um querendo fazer o verso mais “tampa”. Faz parte da cultura.

 

Em 1980, no Bar de Seu Manu (atualmente Bar de Genival), em Campina Grande, eu estava com alguns cantadores, e Ivanildo Vila Nova se queixava das discriminações contra os nordestinos, narrando algum episódio recente. No fim desabafou:

 

– Era melhor separar logo os dois, em dois países diferentes.

 

E eu disse:

 

– Pois vou lhe dar o mote: Imagine o Brasil ser dividido / e o Nordeste ficar independente.

 

Todo mundo achou graça. Ele estava de saída, mas decorou. No outro dia, trouxe algumas estrofes rabiscadas no papel. (Porque esses motes não são apenas para glosar de improviso. Se você gostar do mote, leva pra casa, e escreve. É como eu faço.)

 

Ele produziu várias glosas, eu escrevi outras, e um dia Elba Ramalho me viu cantando numa mesa de bar e decidiu gravar. Foi um grande sucesso no show Coração Brasileiro, no Canecão, em 1983 (quando eu já estava morando no Rio), e foi gravado ao vivo e incluído no disco seguinte dela, Do Jeito Que a Gente Gosta (1984).

 

Por que eu disse acima que “não é uma canção”?

 

Uma canção é uma coisa mais ou menos redonda, pronta, fechada. Depois de feita e gravada, ninguém mexe mais. (Há muitas exceções, é claro.)

 

Mas quando a gente dá um mote assim, o mote começa a circular. Outras pessoas começam a fazer glosas. Eu mesmo, quando vejo um mote bonito, decoro e quando chego em casa tento escrever algumas glosas. E é de bom-tom, de boa educação, citar sempre que possível o autor do mote. Embora muitos deles a gente não consiga rastrear de quem é.

 

Tem motes meus de 40 anos atrás que eu vejo hoje sendo sugeridos aos cantadores, eu estou na platéia, e ninguém sabe que o mote é meu. Não tem problema. Cultura oral. O poeta passa e o verso fica.

 

Depois da gravação de Elba Ramalho, Ivanildo lançou um disco com Severino Feitosa, onde gravou as estrofes dele. Porque eram muitas. Na época do show de Elba, eu mostrei para ela umas 20 estrofes diferentes e ela gravou 6. No disco dela, as primeiras 4 são de Ivanildo, e são minhas as duas últimas.

 

Depois disso, Ivanildo produziu muitas outras estrofes, e eu também.

 

Aqui, versos só de Ivanildo, gravados em dupla com o grande Severino Feitosa:

https://www.youtube.com/watch?v=CvMAJnwF16s


São minhas por exemplo, estas outras, que ninguém gravou:

 

Se São Paulo é a tal locomotiva

que carrega estes mais de 100 milhões

então deixe pra trás estes vagões

que lhe tornam a carga cansativa.

Eles vão ter a iniciativa:

ser puxados por boi, cavalo e gente

talvez andem bastante lentamente

mas seu rumo é seguro e conhecido;

imagine o Brasil ser dividido

e o Nordeste ficar independente.

 

Todo ano no Rio de Janeiro

chegam levas e levas de migrantes

são milhares de braços retirantes

que fabricam montanhas de dinheiro;

pois que o Rio prossiga em seu roteiro

e o Nordeste não seja um afluente

que conduz mil riquezas na torrente

e nem mesmo no mapa é conhecido;

imagine o Brasil ser dividido

e o Nordeste ficar independente.

 

Se houver essa tal separação

através de um acordo ou um tratado

o Brasil se verá desobrigado

de amparar esta imensa região;

e o Nordeste será uma nação

mais vistosa, mais rica e mais contente,

sem ninguém que lhe humilhe e lhe sustente,

sem um pai, um patrão ou um marido;

imagine o Brasil ser dividido

e o Nordeste ficar independente.

 

A música foi proibida pela Censura Federal (era o último ano da ditadura militar) por “pregar o separatismo”. E muita gente no próprio Nordeste adotou essa perspectiva: “Vamos separar!”.

 

Quando pedem a minha opinião sobre o assunto, digo sempre que a simples separação não adiantaria de nada se o Nordeste continuasse sendo o paraíso de desigualdade social que é ainda hoje. Se separarem, comecem fazendo uma Reforma Agrária rigorosa, taxando as grandes fortunas, moralizando a administração pública etc. Se não, continuarão iguais ao Brasil.

 

Acho possível que isso aconteça? Não. Essa canção, para mim, é uma canção meio de ficção científica, na base do “What if...” perguntando: “E se... (tal e tal coisa acontecesse, como seria?)”.

 

E atentem para o mote. Imagine o Brasil ser dividido. Imagine there’s no heaven. É um sonho hippie, impossível como tantos, necessário como todos.

 

Letra (gravação de Elba Ramalho):

 

Versos de Ivanildo Vila Nova:

 

1

Já que existe no Sul este conceito

que o Nordeste é ruim, seco e ingrato

já que existe a separação de fato

é preciso torná-la de direito.

Quando um dia qualquer isto for feito

todos dois vão lucrar imensamente

começando uma vida diferente

da que a gente até hoje tem vivido.

Imagine o Brasil ser dividido
e o Nordeste ficar independente.

 

2

Dividindo a partir de Salvador

o Nordeste seria outro país

vigoroso, leal, rico e feliz

sem dever a ninguém no exterior.

Jangadeiro seria o senador

o cassaco-de-roça era o suplente

cantador de viola o presidente

e o vaqueiro era o líder do partido.

Imagine o Brasil ser dividido
e o Nordeste ficar independente.

 

3

Em Recife o Distrito Industrial

o idioma ia ser Nordestinense

a bandeira de renda cearense

“Asa Branca” era o hino nacional

o folheto era o símbolo oficial

a moeda, o tostão de antigamente

Conselheiro seria o Inconfidente

Lampião o herói inesquecido.

Imagine o Brasil ser dividido
e o Nordeste ficar independente.

 

4

O Brasil ia ter de importar

do Nordeste: algodão, cana, caju,

carnaúba, laranja, babaçu,

abacaxi e o sal de cozinhar.

O arroz e o agave do lugar

a cebola, o petróleo, o aguardente:

o Nordeste é auto-suficiente

e seu lucro seria garantido...

Imagine o Brasil ser dividido
e o Nordeste ficar independente.

 

 

(Versos de Braulio Tavares:)

 

5

Se isso aí se tornar realidade
e alguém do Brasil nos visitar
neste nosso país vai encontrar
confiança, respeito e amizade;
tem o pão repartido na metade
tem o prato na mesa, a cama quente:
brasileiro será irmão da gente
venha cá, que será bem recebido...
Imagine o Brasil ser dividido
e o Nordeste ficar independente.

 

6

Eu não quero com isso que vocês
imaginem que eu tento ser grosseiro
pois se lembrem que o povo brasileiro
é amigo do povo português.
Se um dia a separação se fez
todos dois se respeitam no presente
se isso aí já deu certo antigamente
nesse exemplo concreto e conhecido,
imagine o Brasil ser dividido
e o Nordeste ficar independente.

 









domingo, 28 de junho de 2020

4594) Minhas canções: "Amanheceu" (28.6.2020)




Quando a gente começa a trabalhar profissionalmente numa atividade criativa é que a criação começa a vir de fora, e não de dentro. Começa a vir através de encomendas feitas por outros, e não da nossa mera “inspiração” (seja lá o que essa palavra representa). É um dos primeiros sinais de profissionalismo.

Receber uma encomenda de uma pessoa qualquer e entregar uma canção (um livro, um texto, etc.) à altura! É um pequeno triunfo pessoal. Às vezes um grande. Porque fizemos algo muito mais difícil. Se na criação autônoma o artista está captando sua própria emissora-de-rádio mental, na encomenda ele está captando uma emissora alheia, um sentimento alheio, a necessidade alheia por uma história. E de repente o camarada, feito um demiurgo, tira aquela história do nada.

É difícil, e nessa batalha diária as derrotas são tão numerosas quanto as vitórias. Os textos que a gente não conseguiu escrever, os livros que tentou adaptar, o mote para o qual não se achou uma glosa à altura, a melodia linda para a qual a gente fez uma letra e o compositor olhou, coçou a cabeça, cheio de dedos: “olha, tá bonita, mas... não era bem isso que eu estava pensando...”

Cada vitória nessa arte, tão difícil quanto a do trapézio, deve ser comemorada.

Nos primeiros meses de 1984 Elba Ramalho estava fazendo a pré-produção de um disco novo, logo após o grande sucesso do Coração Brasileiro. Ela já havia me avisado que nesse novo disco iria incluir a faixa Nordeste Independente, minha parceria com Ivanildo Vila Nova, que era um grande arraso no show Coração Brasileiro, cuja carreira começou no Canecão, do Rio.

Um dia, no entanto, chegou um bilhete dela com uma fita cassete. Era uma melodia de Zeppa, guitarrista da banda que a acompanhava, meu amigão. E ela pedia uma letra para a música, que era linda.


(Zeppa)

É nessas horas que começa o sofrimento. Quanto mais bonita a música mais a gente sofre, já com a certeza antecipada de que não vai ser capaz de produzir uma letra à altura. E eu fiquei durante dias escutando a fita, rebobinando, escutando de novo, e nesses casos começa um processo em que a música fica entranhada no ouvido da gente, rodando em loop na memória, o dia todo. Não é preciso mais ouvir a fita. O implante mental já foi feito.

Faltava o tema, e o tema que me vinha à cabeça era o de uma música que tocava no ar, que todo mundo ouvia; e pessoas que ficavam a noite acordadas e viam o dia amanhecer, ao som daquela música que ninguém sabia o que era.

E então, dias depois do início desse processo, aconteceu no Rio de Janeiro o famoso “Comício da Candelária”, que reuniu um milhão de pessoas na Avenida Presidente Vargas. A cidade em peso foi para lá. Todo mundo marcou, todo mundo combinou de se encontrar, todo mundo foi para o comício em que uma frente de políticos de centro e esquerda (e alguns de direita) pedia eleições diretas imediatas para Presidente da República.


Por que pediam? É bom explicar que o último Presidente eleito pelo povo tinha sido Jânio Quadros (o que já seria um bom motivo para proibir eleições diretas pro resto da vida; mas deixa pra lá.)  Mas isso foi em 1960! Já eram vinte e quatro anos de jejum, engolindo sapos fardados. Ninguém aguentava mais. Os próprios sapos estavam em busca de uma solução. O presidente daquela época, João Figueiredo, foi um dos mais relutantes feitores a tomar conta desta fazenda que já dura meio milênio ou mais.

Não importa; achávamos que bastaria podermos eleger um Presidente da República (e o palanque pululava de pretendentes) para resolver os problemas do país. Acreditávamos que o povo não se engana, que bastava deixar o povo votar e ele revelaria sua sabedoria profunda. O Brasil profundo queria ser ouvido.

A verdade é que tínhamos fé em algo que fugia à nossa experiência – eu estava com 33 anos naquela noite, e nunca tinha votado para Presidente. Não importa. Estávamos apaixonados pelo Brasil, achávamos que se deixássemos o Brasil profundo falar ele só diria coisas que bateriam com os nossos desejos, os nossos sonhos. Quando a gente está apaixonado, não vê os defeitos da criatura amada, vê somente as qualidades, principalmente as que a gente mesmo inventa. Não importa. Antes votar por amor do que votar por ódio. Antes a decepção de acreditar e depois ter um susto; melhor do que a decepção de desacreditar e ver que era isso mesmo e nada presta.

O comício entrou pela noite, a comemoração entrou pela madrugada. Amanhecemos o dia, ébrios de democracia, e como dizia Borges, “ébrios de insônia e de vertiginosa dialética”. E no dia seguinte eu fiz a letra da música, que teve um lindo arranjo do meu amigo, o maestro Zé Américo Bastos, e dois solos de trumpete de Nilton Rodrigues que me arrepiam até hoje.

..........................



AMANHECEU
(BT & Zepa)
Elba Ramalho, CD Do Jeito Que a Gente Gosta, 1984 


Veio devagar no vento
um pedaço escondido de canção...
Passeou no firmamento
no brilho de Vênus de manhã...
Carrossel de luzes, sons em carrossel
acendendo todas as cores do céu...

Veio de manhã cedinho
soando bem longe, lá do além...
Leve como um passarinho
trazendo um segredo pra alguém;
a natureza acordou assim
e a cidade inteira saiu pro jardim...

Amanheceu, amor.
Amanheceu, amor.
Foi me encantando quando me tocou...
Amanheceu, amor.
Amanheceu, amor.
Bateu no meu peito e me acordou...

Era como uma risada
na boca encarnada de arlequim;
carnaval inaugurado
no clarão prateado de um clarim.
Sol de meio-dia, castelos no ar,
luminosa melodia mais antiga que o mar...

Era uma canção somente
porém de repente floresceu;
turbilhão profundo,
era o rosto do mundo, e era eu;
multidão de sonhos, mutirão de paz,
forte como a ventania nos canaviais...

Amanheceu, amor.
Amanheceu, amor.
Foi me encantando quando me tocou.
Amanheceu, amor.
Amanheceu, amor.
Bateu no meu peito e me acordou...











quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

4545) Minhas Canções: "A Volta dos Trovões" (30.1.2020)



Esta música foi gravada por Elba Ramalho num dos melhores discos da primeira fase de sua carreira, Coração Brasileiro (1983), o disco que marcou também o seu primeiro grande estouro nos shows ao vivo. Foi a época em que o Canecão mandou ampliar suas arquibancadas laterais (reza a lenda) para comportar o público de Elba, porque os ingressos esgotavam com 15 ou 20 dias de antecedência. Não sei se é verdade; o que posso garantir é que todas as noites o show botava gente pelo ladrão, e todas as noites eu estava lá.

Acho que “A Volta dos Trovões” não estava no roteiro deste show; quem estava era “Nordeste Independente”, cuja história já contei em entrevistas até abusar. Mas “A Volta...” era para mim uma das melhores canções da minha parceria com Fuba, e uma gravação que acabou se tornando uma beleza. Sim, porque não são poucas as vezes em que um compositor vê sua música ser gravada de uma maneira completamente avessa ao que ele tinha em mente. Em casos assim acho que deve prevalecer a vontade do intérprete, que tem o direito a sua própria leitura da música. A qual, idealmente, poderá ser regravada e relida dezenas de outras vezes.

“A Volta dos Trovões” foi composta quando eu e Emilia Veras dividíamos com Fuba uma casa em Santa Teresa, perto do Largo das Neves. Muitas canções foram feitas durante o ano e meio, mais ou menos, em que moramos naquela casa da ladeira, no andar térreo, tendo no andar superior a vizinhança circunspecta e editorial de Jorge Chaves, que trabalhava na livraria Leonardo da Vinci.

A melodia, Fuba extraiu primeiro do violão, e passou meses tocando diariamente e abrindo concorrência para uma letra. É um dos casos em que o compositor faz um “monstro”, uma letra provisória e sem sentido que a gente aconchambra com o único propósito de dar apoio à melodia, para a gente cantar melhor e não ter perigo de esquecer. As frases finais das duas estrofes da música, “armas de estrondo e luz” e “a volta dos trovões” tinham suas seis sílabas cantaroladas por nós como “Gira Cascaviou”, que é do mesmo idioma de “Yolesman Crisbeles” ou de “Klaatu Barada Nitko”.

Lembro que nessa época a gente tinha na parede da sala uma foto do olindense Xirumba, mostrando índios deitados na rede. Muitas vezes as visitas lá na casa, que eram frequentes, comentavam historias de índios. Alguém nos contou que numa certa tribo, que ocupava um território muito valioso, um avião passou certo dia em voo rasante e jogou lá de cima, bem no centro da aldeia, várias sacas de açúcar, que estouraram, é claro, ao se chocar com o chão. Segundo essa versão, índios adoram açúcar, e meia hora depois aquilo estava fervilhando com a presença atarefada de todos os indígenas ao alcance da voz, recolhendo todo o açúcar possível.

E então o avião fez o seu segundo sobrevoo, exatamente na mesma rota, e ao passar sobre a aldeia jogou dinamite.

É interessante o choque entre civilizações quando existe não apenas um desnível tecnológico, mas uma irredutibilidade conceitual. Lembro o exemplo do cacique maia que derrubou em batalha o espanhol Pedro de Alvarado e, tendo abatido o cavalo do conquistador, deu-lhe as costas, imaginando (por não serem os cavalos conhecidos no Peru de então) que os dois eram uma criatura só; Alvarado ergueu-se e o matou.

A guerra dos maias contra a tecnologia armamentista dos brancos equivaleria a que?  Pensei: equivaleria a uma hipotética guerra desses brancos contra alienígenas (em vez de indígenas), uma luta já tantas vezes descrita na ficção científica menos ufanista. Não é muito difícil a um escritor de space opera imaginar “matadeiras” high tech que deixem no chinelo as pretensões  belicosas da Humanidade.

Reconheço que na letra da canção não ficou muito claro, mas a primeira visão da letra foi supor uma lenda cíclica, de algum povo nativo e de baixa tecnologia: uma lenda de que um dia, no futuro, gente armada descerá do céu sobre eles, com armas de estrondo e luz, e os derrotará para sempre, ou os dizimará, ou os escravizará.

Isso acontece, os brancos massacram os índios na parte 1 da música. Na parte 2, que começa com “Onça negra caminhou na trilha... vê-se a ocupação da terra dos índios pelos brancos, que não são muito mais gentis do que os “genocidas” do romance de Thomas M. Disch. E os remanescentes dos índios, escondidos em algum desvão da paisagem agro-terraformada, sonham com o momento em que a morte voltará a descer do céu, com ribombos e ofuscação – sobre os moradores atuais.

Foi, pelo que lembro, uma das faixas mais bem produzidas do disco, que é todo muito bom. O arranjo foi de César Camargo Mariano, que chamou os grupos Boca Livre e Céu da Boca para fazerem um vocal ao estilo de um canto indígena.

Do ponto de vista da técnica empregada, foi um desses casos em que a gente pega uma melodia 100% pronta e vai encaixando as sílabas da letra como quem encaixa ladrilhos num mural: de um em um.


***********


A VOLTA DOS TROVÕES  (Elba Ramalho)
(Braulio Tavares e Fuba)


Um tambor amedrontou a mata
quando o dia clareou.
Na clareira respondeu a flauta
um aviso de terror.

Um cacique descobriu pegadas
de um estranho caçador.
Uma tribo foi exterminada
onde o rio avermelhou.

Antes das chuvas,
quando um trovão
tombou das estrelas
e a selva escura
viu brilhar nas mãos de um deus
armas de estrondo e luz...
Como avisou a lenda:
armas de estrondo e luz.


2
Onça negra caminhou nas cinzas
da fogueira que passou.
Gavião voando contra a brisa
viu a mancha do trator.

Sobre o chão onde os pajés dançavam
uma vila se formou.
Todo dia longe ressoava
o machado lenhador.

Dentro da selva
pulsam os corações
dos guerreiros,
esperando a noite
em que os astros vão trazer
a volta dos trovões...
Como promete a lenda:
a volta dos trovões.














domingo, 5 de janeiro de 2020

4539) Minhas canções: "Miragem do Porto" (5.1.2020)




Nas músicas em parceria existe um consenso meio equivocado de que o parceiro “A” faz a letra e o parceiro “B” faz a música. Isso até acontece, mas está longe de ser uma regra.

Muitas das minhas canções com Lenine foram feitas assim, mas muitas outras foram feitas “tudo ao mesmo tempo agora”. Uma sala, duas poltronas, dois violões, duas canetas, duas folhas de papel. Todos dois tocando, cantarolando, rabiscando, procurando rimas, experimentando acordes, treinando levadas, anotando idéias, ao longo de horas. Geralmente com o apoio de garrafas térmicas cheias de uma poção mágica chamada café.

O fato de que Lenine é um excelente letrista e de que eu consigo me virar tocando violão faz com que as músicas muitas vezes sejam na base do “eu fiz 80% da letra e ele fez 80% da música”.

Mesmo assim, há muitas parcerias nossas que sou incapaz de tocar e cantar sozinho, porque apesar de ter dado idéias para a melodia não consigo tocar no violão. Faltam duas coisas que meus parceiros geralmente têm mais do que eu: repertório harmônico na mão esquerda e precisão rítmica na mão direita.

“Miragem do Porto” surgiu de uma toada lenta que Lenine havia composto por encomenda para um trabalho qualquer, não lembro se era a trilha para algum trabalho de TV. Como ele usou uma toada de sextilhas, sugeriu que a gente desenvolvesse mais versos, até pelo fato de que as toadas de sextilhas dos cantadores de viola são melodias anônimas, de domínio público.

Eu peguei os versos que ele tinha feito, ajeitei uma rima aqui, uma palavra ali, e saiu a primeira estrofe, a que fala no navio perdido no oceano.

Para a coisa não ficar repetitiva, usando a mesma melodia (algo que eu faço nas minhas músicas sozinho, que seguem o modelo folk de “mesma música com outra letra”), ele pegou a toada da gemedeira, que é uma sextilha com melodia diferente e o refrão lamentoso “ai ai, ui ui” antes do verso final. E veio assim a estrofe da ilha deserta.

É uma história de amor que não dá certo – o navio que não consegue chegar num porto, e a ilha “onde ninguém quer chegar”.

E aí a gente sentiu que precisava partir para algo diferente, que fosse ao mesmo tempo uma segunda parte e um refrão, sintetizando a idéia. E me veio o trecho de “Ê, lá no mar / eu vi uma maravilha...”, onde ele completou a letra.

Eu chamo isso o “sistema Lennon-McCartney” de compor: um faz a primeira parte da música, o outro faz a segunda. Era assim que os Beatles criavam, e entre muitos autores acho que Ian MacDonald, em Revolution In The Head, é o que melhor descreve esse processo.

John e Paul assinavam juntos mas muitas canções eram 100% de um ou de outro. Raramente um deles entregava uma letra pronta para ser musicada pelo outro, ou uma melodia para ser “letrada”. Muitas vezes, usavam o sistema do “eu faço uma parte, você faz a outra”.

MacDonald analisa exemplos bem claros. Como “We Can Work It Out”, onde Paul fez a parte “Try to see it my way...” e Lennon a parte central de “Life is very short…”.  O caso mais famoso é o de “A Day In The Life”, onde Lennon fez sozinho toda a parte do “I read the news today, oh boy”, e McCartney fez o “Woke up, fell out of bed...”.

Lançada por Elba Ramalho no álbum Encanto (1992),“Miragem do Porto” foi composta nos últimos meses de 1988. Lembro bem disso porque depois da canção estar pronta houve no reveillon carioca o famoso acidente com o “Bateau Mouche”, onde morreram várias pessoas. E eu ficava pensando nos versos, de início tão abstratos: “Quem vai lá no mar bravio não sabe o que vai achar...”.




(BT & Lenine)

Eu sou aquele navio
no mar sem rumo e sem dono
tenho a miragem do porto
pra reconfortar meu sono
e flutuar sobre as águas
na maré do abandono.

Ê, lá no mar
eu vi uma maravilha
vi o rosto de uma ilha
numa noite de luar...
Êta luar, lumiou o meu navio
quem vai lá no mar bravio
não sabe o que vai achar...

E sou a ilha deserta
onde ninguém quer chegar
lendo a rota das estrelas
na imensidão do mar
chorando por um navio
ai, ai, ui, ui
que passou sem lhe avistar.

Ê, lá no mar
eu vi uma maravilha
vi o rosto de uma ilha
numa noite de luar...
Êta luar, lumiou o meu navio
quem vai lá no mar bravio
não sabe o que vai achar...









quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

4529) Minhas canções: "A Roda do Tempo" (3.12.2019)




“A Roda do Tempo” não é minha primeira parceria com Lenine, que hoje talvez seja o parceiro com quem compus a maior quantidade de músicas gravadas. Outras vieram antes; mas esta foi nossa primeira música gravada por Elba Ramalho, minha eterna “madrinha”. Num momento importante para nós dois, numa dessas fases recorrentes em que você faz uma montanha de canções e ninguém se interessa por elas.

Foi composta no final de 1988, e gravada por Elba em 1989 no álbum Popular Brasileira, tendo Lenine participado da gravação tocando viola.

Na época a gente tinha umas idéias para composições mais complexas, que sempre avançavam mas não chegavam a lugar nenhum.

Lenine era, e é ainda, muito influenciado pelo universo musical do “Clube da Esquina” mineiro: harmonias complexas, melodias difíceis, letras introspectivas. E eu sempre tive o sonho (típico de quem foi adolescente na década de 1960) da “música pra ganhar festival”. Canções complexas em forma de suíte de 4 ou 5 partes sucessivas, com letras épicas, ritmo arrebatador.

E tome música que ficava pela metade!

Nosso objetivo era ter músicas gravadas por alguém, pois era no tempo em que discos vendiam muito. Ter uma música gravada por uma artista como Elba significava ter alguns meses de sobrevivência garantida, naquela época pré-filhos.

Aí resolvemos “ir às bases”.  Fazer uma música de Jackson do Pandeiro. Não uma imitação, mas usar as formas melódicas, as levadas rítmicas, o vocabulário poético usado por Jackson e seus compositores.

“A Roda do Tempo” foi uma dessas tentativas, e para mim foi bem sucedida, porque foi logo gravada. É aquela levada “tun-dun-dun” que eu chamo de “marcha quadrilha”. Jackson do Pandeiro chamava “marcha de arrasta pé”.

Pelo que me lembro, Lenine foi puxando a levada no violão e eu fui anotando quintilhas no papel. Chamo de “quintilhas” aquelas estrofes que na Cantoria de Viola são chamadas de Mourão de 5 Linhas, rimando ABCCB. E lembro que concordamos em ter um “responsório” depois dos primeiros versos, numa época em que a banda de Elba contava sempre com dois ou três vocalistas de apoio.

Daí veio:

Diz que o tempo é um mistério (deixa falar)
que cura qualquer paixão (deixa falar)...
Quem disse não conhecia
essa dor que noite e dia
martela meu coração.

Esse “deixa falar” (que retorna com variantes nas estrofes seguintes) está dentro daquele jogo de toma-lá-dá-cá entre o cantor principal e o coro, algo típico da música popular em geral, mas que Jackson do Pandeiro explorou com riqueza de variantes. E não só ele, aparece muito nas canções de Marinês (“Olê Laurindo”, “Balanceiro da Usina”), Trio Nordestino (“Na Emenda”), Genival Lacerda (“Noé, Noé”) e assim por diante.

Uma parte dessas letras é feita na base do clichê, da frase já conhecida, das frases falando em coração, amor, que vão se emendando por causa da rima e do encaixe na cadência. Têm a mesma intenção poética que um pão-com-manteiga tem de intenção culinária.  Como dizia John Lennon de suas composições pré-“Help”: “Era só besteira, a letra não dizia nada, o que importava era a levada, o som”.

Nem sempre. Relendo agora a segunda estrofe, lembro que era um tempo em que eu estava lendo sobre Tarô, mais precisamente o livro Jung e o Tarô de Sallie Nichols.


A imagem que me vem à cabeça quando penso nesta música é a capa da edição original de Cem Anos de Solidão de Garcia Márquez, capa de Carybé onde aparecem cartas de Tarô:



E veio certamente daí o verso que para mim é o verso principal da canção, que lhe dá o título, e que exprime (lá vou eu agora psicanalisar a mim mesmo!) a idéia que existe por trás dela.

A roda do tempo gira (deixa girar)
para a frente e para trás (deixa girar)
meu baralho eu já tracei
se você jogar um rei
eu tenho que jogar um ás.

A roda do tempo, que gira para a frente e para trás, é a mesma “Roda da Fortuna” do Tarô, que roda para cima e para baixo ao mesmo tempo. A roda da “Fortuna = Sorte, Destino”, e também “Fortuna = Riqueza, Dinheiro”. A roda que, infalivelmente, rebaixa uns para poder elevar outros. Uns empobrecem para que outros possam enriquecer. Ou como disse Chico Science, “o de cima sobe, e o de baixo desce” (até certo ponto do ciclo, pelo menos).

Essa idéia não é muito clara para algumas pessoas. Se você perguntar: “Num carro que anda normalmente na rua, as rodas dele estão girando para a frente ou para trás?”, as pessoas em geral respondem que obviamente as rodas estão girando para a frente, já que o carro está avançando.

E no entanto a resposta científica seria: “Cada roda está girando ao mesmo tempo para a frente, em seu semicírculo superior, e para trás, em seu semicírculo inferior, mas o carro só avança porque o semicírculo de baixo, o que toca no chão, está girando para trás, e, exercendo pressão sobre o solo nessa direção, impele o carro para a direção oposta, ou seja, para a frente”.

Os versos seguintes recorrem às cartas do baralho/tarô, com esta imagem: Qual é a carta mais poderosa: o ás ou o rei? Resposta: depende do jogo, porque esses valores de qualquer carta são atribuídos na natureza de cada jogo. A disputa mais interessante, contudo, é justamente entre a primeira carta, o ás, e a última, o rei. Se alguém perguntar: “Qual é a carta que, numa escala ascendente, vem depois do rei?” eu respondo: “O ás – num patamar superior”.

Aí vem a segunda parte da canção, ou parte intermediária:

Eu me criei escutando a melodia
da ventania castigando a beira-mar
me acostumei no tombo da ribanceira
quem sabe subir ladeira não tem pressa de chegar.

Esse trecho não tem nenhuma viagem esotérica, mas tem um detalhe biográfico divertido. Nessa época eu morava na rua Tavares Bastos, no Catete, e Lenine na São Sebastião, na Urca. Nenhum dos dois tinha carro. Tínhamos, em função do trabalho, um acordo de cada um ir na casa do outro, alternadamente. Eu saltava do ônibus perto da antiga TV Tupi e subia a São Sebastião; na vez dele, ele saltava na Rua do Catete e subia a minha rua.

Quem sabe subir ladeira não tem pressa de chegar. Pode ser uma metáfora para a vida de compositor, não é mesmo?

E aí vêm as estrofes finais:

Quem pensa que o céu é perto (deixa pensar)
e é só estender a mão (deixa pensar)
fica mal acostumado
vive com o braço esticado
e os pés fora do chão.

Mas a vida vai passando (deixa passar)
como o céu muda de cor (deixa passar)
cada curva do caminho
me leva devagarinho
mais perto do teu amor.

A estrofe de cima eu furtei de um mote antigo, que já dei em cantorias de pé-de-parede: “Quem pensa que o céu é perto / morre com o braço esticado”. E o resto da letra exprime aquela sensação do cara que, depois de uma tarde de trabalho (e uma música pronta, letra dobradinha no bolso da camisa) volta a pé, satisfeito, dever cumprido, pra jantar em casa.



A gravação original de Elba: