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segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

1657) Acredite, Fluminense (4.7.2008)




Peço desculpas mais uma vez aos meus vinte e poucos leitores, principalmente leitoras, que não se interessam por futebol. Tenho que voltar mais uma vez ao assunto, mas não tem outro jeito, é uma disputa atrás da outra: final de Copa do Brasil, Eurocopa, Taça Libertadores... Esta última, curiosamente, me fez experimentar emoções novas, algo que um torcedor calejado como eu julgava impossível de surgir a esta altura de tantos campeonatos. Na quarta-feira 2 de julho, na casa de amigos, diante de um telão gigantesco e de cerveja farta servida por solícitos garçons, assisti a partida final travada no Maracanã entre Fluminense e LDU do Equador. E me vi, eu flamenguista de DNA, torcendo, sofrendo e me abatendo com a vitória-derrota do tricolor.

O Fluminense perdera o primeiro jogo por 4x2. Precisava ganhar por dois gols para empatar a disputa e ir para os pênaltis. Levou um gol aos cinco minutos de jogo, o que transformou o placar acumulado (critério que se usa nesse torneio) em 5x2 para a LDU. Pois o tricolor correu atrás, e Thiago Neves entrou para a História, fazendo três gols que viraram o placar para 3x1 (ou seja, 5x5). Mas aí vieram os pênaltis. Os aziagos, os fatídicos, os inapeláveis pênaltis. Dizem que pênalti é loteria. Não é. Pênalti é treino e tranqüilidade, duas coisas que obviamente faltaram aos cobradores do tricolor. O Flu perdeu três, todos eles mal batidos. Um por Conca, o melhor do time; outro por Thiago, o homem dos 3 gols históricos, e o último por Washington, um centroavante que admiro, mas que fez nessa noite talvez a pior partida de sua carreira. Na hora de bater, estava visivelmente acabrunhado e sem forças.

Teve outra coisa. O goleiro da LDU, que já tinha defendido o primeiro pênalti (Conca), fez uma catimba no segundo. Quando Thiago partiu para a bola, ele abandonou o gol caminhando e dirigiu-se ao juiz fingindo que ia reclamar algo. O chute entrou, mas o juiz, desconcertado, mandou repetir a cobrança. Isso matou o Fluminense. Quando um jogador bate um pênalti numa circunstância como aquela, ele concentra toda a adrenalina que lhe resta (após 120 minutos de esforço) naquele único chute. Se for obrigado a repeti-lo, chuta sem força, sem convicção, extenuado. Foi o que aconteceu com o bravo Thiago Neves, que na segunda vez chutou fraco, em cima do goleiro. Isso desorientou de vez o Flu, e na cobrança seguinte Washington também chutou fraquinho, no goleiro. Acabou, fim de jogo, chau e bença, bata o prego na tampa do caixão.

Chorar? O cara sempre chora (eu, flamenguista, quase chorei vendo o drama alheio em redor). Mas ergam a cabeça, colegas. O Flu foi vice-campeão, e cumpriu jornadas memoráveis, no Maracanã e fora dele. Caiu lutando, de cabeça erguida. Quem pagou mico foi o Flamengo, naquele vexame de 3x0 contra o time do México. Se meu time tinha que perder na Libertadores, quem me dera que fosse da maneira como o Fluminense perdeu.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

0651) Fluminense 6x5 Volta Redonda (20.4.2005)



Entre os mandamentos que aprendi com o Budista Tibetano, há um que me consola nos domingos à noite: “Cada vitória, uma comemoração. Cada derrota, uma lição”. Tentarei portanto extrair algo de bom desta derrota que nem precisava ser minha, pois sou Flamengo. Mas torci contra o Fluminense por dever de ofício, e principalmente torci pelo Volta Redonda, pois torcerei sempre por qualquer time do interior contra qualquer time da capital, numa decisão de título. Mesmo que fosse contra o Fla, eu teria preferido a vitória do Voltaço.

A lição que extraio, infelizmente, é uma que eu já sabia desde que nasci: quase todo time que entra para empatar perde. Por que? É um dos mistérios do futebol. Vejam o presente caso. No primeiro jogo da decisão, o Fluminense botou 2x0 com cinco minutos de jogo. A torcida começou a gritar “é campeão”, e o time recuou para garantir o resultado. Diante disto o Voltaço avançou e virou o jogo para 4x2. Achou que estava bom, e aí foi sua vez de recuar. O Flu avançou de novo e marcou mais um gol no finzinho, gol que acabou sendo importante na contagem final.

No segundo jogo, o Voltaço entrou com 4x3 a seu favor (era uma decisão com soma de resultados). Já entrou recuado, portanto, na esperança de conseguir o sonho dourado de 99% dos técnicos e jogadores brasileiros, que é rebater bolas para a lateral durante 90 minutos, sem precisar fazer gol. No primeiro ataque, fez 1x0, ou seja, 5x3. O que fez então? Recuou mais ainda, enquanto era a vez de sua torcida gritar: “é campeão!”. O Fluminense empatou no finzinho do 1o. tempo (gol irregular, aliás), no segundo foi todo pra cima e merecidamente virou pra 3x1, o único placar que lhe interessava. Mas se o jogo durasse mais 10 minutos, tenho certeza de que o Flu ia recuar, o Volta ia avançar, faria 3x2, e ficaria com o título.

Por que essa coisa suicida de recuar, de chamar o adversário para dentro de sua área, de pedir para conceder 20 escanteios num jogo, de pedir para ficar cercado durante 90 minutos, vendo a bola sobrevoar sua pequena área, sofrendo bombardeios, e torcendo para que o adversário erre? A única explicação para isto é que técnicos e jogadores sabem que é mais difícil atacar do que defender. É mais difícil construir do que destruir, fazer do que desmanchar. É mais difícil ser Governo do que ser Oposição, mais difícil ser artista do que ser crítico. No futebol, o erro é mais frequente do que o acerto. Para você fazer um gol é preciso acertar num espaço específico, super-defendido. Para evitar um gol, basta bater na bola em qualquer direção. Ouso imaginar que se neste jogo final o Flu tivesse feito 2x0 (placar que lhe daria o título), teria recuado, e o Volta Redonda, cujo time é coletivamente melhor, teria que ir para cima, “buscar o resultado”. Mesmo com o resultado atravessado aqui, cumprimento o Fluminense. Neste jogo final, fez o que todo time deveria fazer: perseguir o gol, o gol, o gol.