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terça-feira, 12 de julho de 2022

4842) Novidades da "Pedra do Reino" (12.7.2022)


A Editora Nova Fronteira lançou há poucos meses uma nova edição do Romance da Pedra do Reino, de Ariano Suassuna, como parte das comemorações dos 50 anos do Movimento Armorial. O livro havia saído pela José Olympio no seu lançamento em 1971, mas as edições mais recentes são da Nova Fronteira, com uma concepção gráfica totalmente diferente, coordenada pela família do escritor (falecido em 2014).
 
Esta edição de agora traz um bônus mais-que-precioso: um Caderno de Textos e Imagens, ilustradíssimo, com 272 páginas. Um ótimo brinde para os leitores da Pedra, que podem até não ser muitos, mas compartilham a fascinação e a curiosidade por todos os detalhes referentes à obra..
 
O volume é organizado por Carlos Newton Júnior, a “pessoa a quem eu faço todas as perguntas sobre assuntos ariânicos”; tem direção de arte de Dantas Suassuna, e projeto gráfico de Ricardo Gouveia de Melo.
 
O material contido no livro é objeto de uma detalhada explicação e contextualização por Carlos Newton, em sua introdução, onde ele – que durante muitos anos trabalhou ao lado de Ariano Suassuna – reconstitui o longo e tortuoso processo de criação do romance. E Carlos apresenta a primeira grande “novidade” desta edição: o texto Sinésio, o Alumioso, um manuscrito reproduzido em fac-símile, na caligrafia do autor, e datado de julho de 1958.


Este texto é portanto a célula original do romance (os leitores devem lembrar-se que no fim do livro Ariano grava de forma indelével as datas de começo e fim: 19-VII-1958 e 9-X-1970). Este manuscrito sobre Sinésio, portanto, data do início da criação do romance. Carlos Newton lembra, contudo, que as datas celebradas assim por Ariano são mais simbólicas do que práticas, e em termos cronológicos são meramente aproximativas.
 
Em todo caso, é fascinante ler agora esse manuscrito ainda verde, ainda balbuciante, em que o narrador Quaderna afirma chamar-se “Dinis Henriques Cipriano Quaderna” (nome depois trocado pelo definitivo “Pedro Dinis Ferreira-Quaderna”), e Sinésio ainda é “Sinésio Barretto Garcia” (em vez de “Sinésio Garcia-Barretto”).
 
Por outro lado, no manuscrito já estão prontos, com nomes praticamente idênticos, os professores de Quaderna (Samuel e Clemente) dois dos personagens mais brilhantes inventados por Suassuna. E já temos em 1958 um princípio de mergulho da famosa “Filosofia do Penetral”, um capítulo hilariante do livro, e que no presente rascunho ainda mantém alguns conceitos tapuio-filosofantes carregados de mistério e transcendência – o que seriam, à luz do que sabemos hoje, “a Parentela do Plasma”, “o Aluir do Inopino”, “o Galarim do Prestígio” ou “o Nó das Serpentes”?!...


Esta seção de manuscritos e datiloscritos reproduz fotograficamente o prefácio escrito por Rachel de Queiroz para a primeira edição. Também uma carta de Ernst Fromm, da Editora Agir, agradecendo a Ariano o direito de poder avaliar a obra em primeira mão, mas abrindo mão dela para que o autor a entregasse a outra editora mais capaz de dar ao livro “a difusão que merece como obra literária que, indiscutivelmente, é.”
 
Segue-se uma longa seção de iconografia com fotos de Ariano em diferentes grupos e momentos; reproduções de quadros de artistas ligados ao Movimento Armorial, como Dantas Suassuna, Flávio Tavares, Sérgio Lucena, Aluísio Braga, J. Borges e o próprio Ariano; capas das diferentes edições do livro, no Brasil e no estrangeiro.
 
Em seguida, outra preciosidade do ponto de vista literário-narrativo. Quando a TV-Globo produziu a minissérie A Pedra do Reino, lançada em 2007, nos 80 anos do escritor, a equipe de adaptadores (Luiz Fernando Carvalho, Luís Alberto de Abreu e eu próprio) recebeu de Ariano um caderno manuscrito com a “Conclusão” da história.



Como quem leu o livro sabe, a narrativa das aventuras de Quaderna foi interrompida por Ariano depois de 1976, deixando um “buraco” de eventos não contados. O que teria acontecido entre 1935 (data da invasão de Taperoá pela Estranha Cavalgada, com Sinésio à frente) e 1938, quando Quaderna, na maior cara-de-pau, dá ao Juiz Corregedor seu depoimento sobre a confusão toda? Mistério.
 
Para que a minissérie também não se interrompesse nesse vácuo, Ariano escreveu em 2006, a nosso pedido, essa “Conclusão”, aqui transcrita e revelada ao público pela primeira vez, esclarecendo alguns dos mistérios deixados incompletos no romance. Algumas das cenas sugeridas por ele foram incorporadas à minissérie.
 
Há alguns detalhes pitorescos que mostram o caráter ambivalente (geminiano?...) de Quaderna/Suassuna. Veja-se a confusão causada sem-querer por Sinésio, quando diz à família ter se apaixonado por “uma moça clara” que vivia na Fortaleza; ele se apaixonara pela loura Heliana, e a família supõe que é pela irmã dela, que se chama Clara.

Esse episódio de folhetim é espelhado de forma picaresca quando Quaderna tenta dizer a Dona Carmen Gutiérrez Torres Martins que está apaixonado pela filha dela, a loura Margarida – e o faz de maneira tão canhestra que as duas imaginam que foi pela matrona que ele se apaixonou. Esta cincada vale a Quaderna o ódio eterno de Margarida, que futuramente servirá de escrivã no interrogatório de Quaderna pelo Juiz Corregedor.


(Irandhir Santos e Milene Ramalho: "Quaderna" e "Margarida" na minissérie)
 
Claro que, como todo ódio feminino de folhetim, o de Margarida também é solúvel em tintura-de-melodrama, e no fim da história ela cai nos braços de Quaderna.
 
Alguns detalhes da trama são esclarecidos nesse texto final, entre eles a portentosa questão do tesouro deixado por D. Pedro Sebastião Garcia-Barretto. Quaderna faz referência ao mapa da Paraíba e às letras nele contidas; uma solução não muito diversa da que aparece no filme Cinco Covas no Egito (“Five Graves to Cairo”, 1943) de Billy Wilder, filme que Ariano Suassuna  comentava ter visto.
 
O Caderno de Textos e Imagens é, assim um adendo essencial e indispensável ao Romance da Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue de Vai-e-Volta, este (no dizer de Quaderna) “romance heróico-brasileiro, ibero-aventuresco, criminológico-dialético e tapuio-enigmático de galhofa e safadeza, de amor legendário e de cavalaria épico-sertaneja”.
 
É um desses casos clássicos de obra inacabada mas que mesmo assim veio à publicação. Essa “história sem fim”, vai ficar eternamente rodando inconclusa, em loop, na memória e na imaginação dos leitores. Fica na honrosa prateleira dos livros deixados incompletos pelos autores: O Mistério de Edwin Drood (1870) de Charles Dickens, O Original de Laura (1977) de Vladimir Nabokov, 53 Jours (1989) de Georges Perec, Le Mont Analogue (1952) de René Daumal, O Processo (1925) de Franz Kafka, o poema Kubla Khan (1816) de Samuel Taylor Coleridge...
 
E para os que encontram alguma dificuldade na leitura do livro, ou no acompanhamento da minissérie, deixo aqui as palavras lúcidas e práticas de meu colega de roteiro, o dramaturgo Luís Alberto de Abreu:
 
“É preciso deixar claro para o espectador, desde o início, os códigos onde se apoia a obra. Se o sistema for simples e de fácil entendimento, não há dificuldade de compreensão. Esse sistema de código não pode ser aleatório, nem se transformar num quebra-cabeça intelectual. É preciso descobrir um sistema orgânico, natural. Se partirmos do princípio que toda a obra é construída a partir das lembranças de um velho homem, toda quebra de tempo e de espaço, fantasia e realidade, serão facilmente assimiláveis pelo espectador porque são determinadas organicamente pela memória de um personagem. Foi isso que fizemos.” (Luís Alberto de Abreu)


(foto de Gustavo Moura)
 






sábado, 9 de abril de 2022

4811) A ficção poética (9.4.2022)



 
Um recente livro de poemas de Fabrício Corsaletti (Engenheiro Fantasma, Companhia das Letras, 2022) parte de uma curiosa premissa ficcional, que o afasta do simples território do “livro de poemas” para o território, não tão distante assim, da narrativa em versos.
 
Fabrício Corsaletti (que não se perca pelas iniciais) propõe uma hipótese, não de FC, mas de “História Alternativa”. No prefácio, ele relata um sonho em que conheceu, num hotel de Buenos Aires, um homem de seus 60 anos, e percebeu em seguida que se tratava de Bob Dylan. O verdadeiro. O “outro”, o que circula por aí, ganhando prêmios e fazendo shows, é um mero dublê, um sósia – de recursos vocais bastante limitados, aliás.
 
Dylan teria dado um pontapé no showbiz e fugido com a família para Buenos Aires, incógnito. Lá escreveu um livro intitulado 200 Sonetos, e no sonho Corsaletti chegou a ver o livro numa banca de revistas, mas quando estendeu a mão para tocá-lo... acordou.
 
Começou então a escrever por conta própria os sonetos desse Dylan portenho, que constituem o presente livro, Engenheiro Fantasma (título de um fragmento inédito, que Dylan acabou transformando em outra canção).
 
É portanto uma espécie de poesia épica, por assim dizer – onde o que conta não é a expressão de sentimentos íntimos de um indivíduo, mas a produção de uma narrativa. Em Engenheiro Fantasma, os poemas não contam uma história: fazem parte de uma história mais ampla. Seria uma espécie de poesia ficcional, como os Cânticos de Ossian de Mac Pherson ou o Livro das Horas de Sóror Dolorosa de Guilherme de Almeida. Poemas ficticiamente atribuídos pelo autor a outra pessoa. (O pulo-do-gato de Corsaletti é atribuir tudo a um sonho, o que deixa a hipótese toda num território crepuscular.)
 
Curiosamente, são poucas as referências diretas e inequívocas a Dylan no livro, sendo a principal delas o soneto 27, que é praticamente uma paráfrase/recriação de “All Along the Watchtower”:
 
27
“os mercadores bebem do meu vinho
e falam alto, dando gargalhadas
eles pensam que a vida é uma piada
quero sair desse redemoinho”
 
disse o coringa, “procuro um caminho”
o ladrão respondeu: “não faça nada
nem diga falsidades, camarada
a hora está chegando, eu adivinho”
 
os príncipes na torre sentinela
vigiavam o panorama inteiro
entre mulheres e servos descalços
 
ouviu-se um gato na noite amarela
logo avistaram-se dois cavaleiros
o vento assobiou no cadafalso
 
Acho que vejo outras canções citadas en passant (“Leopard-Skin Pillbox Hat”, “Crossing the Rubicon”, “Dark Eyes”, “When I Paint my Masterpiece” etc). Porém, o que há de interessante no livro, além da premissa, é o verso fluente e coloquial do autor, que escreve “ao correr da pena”, sem pretensões simbolistas ou parnasianas, e vai cravejando pequenas frases brilhantes ou divertidas na estrutura do soneto.
 
17
(...) eu deveria acender uma vela
queimar meu passaporte e minha mala
 
12
ontem eu vi o show de umas garotas
os clássicos do tango com guitarras
panteras metafísicas com garras
forçando o leme e alterando a rota //
das melodias, bebi gota a gota
do melaço vocal livre de amarras
tomei um porre de cerveja em jarra
notei que a baterista era canhota (...)
 
18
estou sempre diante do mistério
quando te encontro, Senhorita M
seus olhos rimam, sua boca treme
o nariz aldeia, o cabelo império (...)
 
16
(...) estamos dentro de um instante raro
num café que é agora e é já lembrança
 
 
Corsaletti escreve sonetos à maneira moderna, abrindo mão das maiúsculas no início de verso, usando com frequência as rimas toantes (embora prefira as rimas exatas do modelo tradicional). Usa de ponta a ponta o formato clássico italiano, mais familiar a um brasileiro do que a um norte-americano como Dylan: ABBA-ABBA-CDE-CDE.



Outra experiência nessa mesma linha é um livro recente de Carlos Newton Júnior, Memento Mori - Os Sonetos da Morte (Nova Fronteira, 2020), em que ele reúne 100 sonetos atribuídos à Morte. (Quase todos em formato italiano, com um ou outro no formato inglês.) 
 
É ela quem se dirige na primeira pessoa a todos os humanos, ou ao leitor, ou a um grupo em especial... É a Morte quem fala o tempo inteiro, uma Morte irônica, coloquial, irreverente, às vezes cruel quando sugere os sofrimentos por que o leitor há de passar, às vezes desdenhosa quando comenta as tentativas fúteis de quem tenta escapar-lhe. Ora distante, ora cúmplice, ora solene, ora sarcástica, é ela quem dá as cartas:
 
31
Não há no meu palácio uma outra porta
que não seja a de entrada. Desde antanho
jamais eu solto o pássaro que apanho,
e o elo com o vivido aqui se corta.
 
Não há festa ao entrar. E o que me importa?
A tristeza profunda – eis o meu ganho.
A todos, amparando, eu acompanho,
quem me conhece logo se comporta.
 
O passado se foi: a fama, o nome,
agora nada conta ou interessa.
A luz, entrando aqui, em treva some.
 
A minha marca em todos tenho impressa.
Ninguém jamais se cansa, dorme ou come,
o tempo aqui não passa – e não há pressa.
 
A Morte não faz segredos daqueles que compõem, segundo ela, “minha milícia”: “Um qualquer assassino, um pistoleiro, / um chefão, um maluco, um genocida, / um cruel psicopata, um homicida, / desses que escondem corpos num bueiro”. Não faz segredos da sua indiferença pelas convenções humanas: “Às vezes colho a flor antes do fruto / e levo o filho sem levar o pai.”
 
Tem aqui e ali a lembrança de episódios clássicos de sua história:
 
Um dia, já faz tempo, um cavaleiro
ousou desafiar-me no xadrez. (...)
Achou que com seu jogo salvaria
algum jovem casal de saltimbancos;
percebi como agia pelos flancos
e ataquei com maior selvageria...
Ah, tão honrado e digno cavaleiro!
Pra contentá-lo eu o levei primeiro...
 
A Morte que escreve todos esses sonetos é portanto uma criação ficcional.  Assim como o livro de Corsaletti é atribuído a um “Dylan” que não passa de pretexto fabulatório do autor, a “Morte” de Carlos Newton faz o mesmo papel. Os dois livros não “contam uma história”: são conjuntos homogêneos e épicos de poemas que cumprem uma função narrativa, fabulatória, de ilustração a uma história subentendida.
 
E por que o soneto?
 
O soneto já foi a mais nobre e a mais popularizada das formas poéticas brasileiras. Imperou na segunda metade do século 19, mas não é exagero afirmar que grande parte dos sonetos mais impactantes de nossa poesia se deve a autores do século 20: Vinícius de Moraes, Jorge de Lima, Mario Quintana, Carlos Drummond, Ariano Suassuna, Manuel Bandeira, Glauco Mattoso...
 
Harry Mathews, numa conversa com John Ashbery, dizia que o soneto já foi difícil numa certa época, mas não é mais. É uma forma já familiar a todo mundo, e de certo modo já “domesticada”, já incorporada ao ouvido melódico do poeta e também do leitor. O soneto italiano é hoje, para um poeta brasileiro com domínio das formas fixas, quase tão simples de escrever como a sextilha do cordel. A forma em si deixa de ser um desafio a ser enfrentado; é um instrumento. Ou melhor, é um recipiente já pronto onde as “coisas a dizer” são derramadas.
 
Nasce daí uma crítica frequente à poesia em formas fixas – a de que, se métrica e rima são obrigatórias e estão sendo obedecidas, o autor se dispensa de usar linguagem “poética” e produz apenas uma espécie de prosa. Banal, opaca, diluída, sem graça – mas impecavelmente rimada e metrificada.
 
Não é o caso destes dois livros: neles, a forma “soneto” é adotada quase como um instrumento musical (poderia ser outro) para e execução daquela peça narrativa. O soneto isolado não é um fim em si, é um meio usado para compor um mosaico amplo de situações e idéias.
 


  




terça-feira, 12 de janeiro de 2016

4022) Poemas para o Quixote (13.1.2016)



Talvez sejam Dom Quixote e Sancho a dupla de personagens mais famosos da literatura, mais famosos até do que Sherlock Holmes e o dr. Watson, que a eles se assemelham. Desde 1605 e 1615, anos em que foram publicadas as duas partes do romance de Cervantes, viraram referências, símbolos, parâmetros. Em comemoração a esta última data, Carlos Newton Júnior compilou a antologia Poemas para Dom Quixote & Sancho (Recife, Editora UFPE, 2015), onde reúne poemas ou fragmentos de poemas de autores brasileiros e portugueses, do século 19 até nossos dias. Em alguns casos, são apenas menções passageiras numa obra que trata de outro assunto; em outros, a dupla de Cervantes é o foco principal do poema.

Além de vários poetas obscuros (para mim, pelo menos), a antologia traz versos de Machado de Assis, José Saramago, Ivan Junqueira, Cruz e Souza, Augusto Frederico Schmidt, vindo até autores mais recentes como Fausto Wolff, Alexei Bueno e Orides Fontela. De um modo geral, os poemas glosam os temas propostos por Cervantes; não cheguei a ver uma releitura, uma tentativa de dar uma nova versão dos personagens, a não ser no longo poema dramático “O amor de Dulcinéia” (1928) de Menotti del Picchia, que propõe um Sancho sonhador e um Quixote pragmático. Como regra geral, os autores aceitam a formulação de Cervantes e usam os personagens com a reiteração constante dos perfis que já conhecemos.

“De nós dois,” diz Carlos Drummond, “quem o louco verdadeiro? / O que, acordado, sonha doidamente? / O que, mesmo vendado, / vê o real e segue o sonho / de um doido pelas bruxas embruxado?”. A oposição maior entre os dois personagens é a polaridade sonho/não-sonho, glosada por quase todos os poetas. Ferreira Gullar diz: “Chamar-me de louco, ousas! / Loucos são todos, em suma: / uns, loucos por várias cousas, / outros por cousa nenhuma!”.  São, por assim dizer, poemas líricos sobre um tema épico, onde a grandiosidade do real e do sonho transparece em versos como os de Teixeira de Pascoaes: “A vida só é bela na montanha / só é bela no mar ou no deserto...”

Trechos de humor estão presentes, como quando Del Picchia descreve o cavaleiro montado em Rocinante como “um espeto em cima de um estrepe”, ou quando Drummond o faz exclamar: “Amigo Sancho, vai-te à merda!”.  Mas, por patéticos que sejam, os personagens são uma concentração inédita de vida, de sofrimento verdadeiro, de alegrias, de uma agitação fugaz não muito distante da nossa.  E o português João Manuel Simões adverte: “Considera, Sancho irmão / que é pouco, para viver, / todo o tempo que há no mundo. / Contudo, para morrer / (amarga constatação) / basta apenas um segundo.”




quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

3679) O pai caçula (9.12.2014)

Participei de algumas mesas de debates sobre Ariano Suassuna, e nelas se tocou num assunto que me deixou intrigado.  Como qualquer pessoa deve perceber, essas palestras são como cantoria de viola, metade é balaio pronto, a outra é improvisação.  E quando vêm perguntas da platéia isso faz chispar às vezes uma faísca.  Surge num instante uma resposta boa, mas que não foi preparada, não foi dissecada em tudo quanto contém, foi apenas uma rápida associação de idéias, em função de um exemplo, ou algo casual, e a gente diz aquilo à medida que continua pensando.  Exatamente o que faz um cantador repentista, só que ele improvisa em verso, e eu improviso em prosa.

Conheço uma rapaziada no Rio de Janeiro que é fã de Ariano mas de Ariano só conhece o Auto da Compadecida filmado por Guel Arraes.  Essas pessoas viram a minissérie ou o filme, talvez leram o livro, provavelmente acabarão vendo-a um dia no teatro (levarão os filhos, quando os tiverem), mas sempre associaram João Grilo, Chicó e companhia àquele ancião de cabelos brancos e ralos, ternos brancos ou rubronegros, voz rouca, costas encurvadas. 

Quem escreveu a Compadecida, no entanto, foi um rapaz de 28 anos, como lembrou Carlos Newton Jr. num debate recente.  Em 1958, quando começou a escrever o Romance da Pedra do Reino (1971), Ariano já estava ganhando dinheiro com as montagens de suas peças.  A primeira vez que o vi falando ao vivo foi quando ele fez a Aula Magna da UFPB no Teatro Municipal de Campina Grande, em 1972.  Ariano, de terno, falava em pé, andando de um lado para o outro, inquieto.  Tinha uma energia incontível.  Estava com 45 anos.  Já vi na Internet alguns vídeos dele nessa época: cabelo bem preto, cortado curto, descuidado, terno escuro, gravata, a voz rápida, cortante.  O filme de Vladimir Carvalho O Homem de Areia tem um pequeno trecho de diálogo com Ariano mais ou menos por essa época.

Por que lembrei disso?  Talvez porque o próprio Ariano percebeu um dia que já era mais velho do que seu pai João, que morreu assassinado aos 44 anos.  Ariano escreveu um texto onde lembra o conceito de “pai caçula”, termo sugerido por Albert Camus, que parece ter vivido uma situação parecida.  O pai morre jovem, e resta jovem para sempre.  O filho paga a vida envelhecendo.  E no fim, é sempre um ancião avaliando à sua maneira os arroubos de um jovem.  Assim ele escreveu, no poema “Dístico”, dedicado ao pai: “Se morreu moço e em sangue, teve tempo / de governar seus pastos e rebanhos, / e a feiosa velhice / jamais o degradou. // Glória, portanto, à Morte e a suas garras, / pois, ao sagrá-lo, assim, da vida ao meio, / do Desprezo o salvou (...)”.





quarta-feira, 19 de março de 2008

0285) O método de Josué (18.2.2004)



(BT e Carlos Newton Júnior)

Quando eu era universitário cheguei a pensar na possibilidade de estudar Letras. Como todo sujeito metido a bom escrevedor, eu achava que um curso de Letras me ajudaria a estudar técnicas, estilos, escolas literárias, etc., elevando ao quadrado meu talento. Por sorte ou por azar, alguns amigos meus entraram nesse curso antes de mim, e bastou acompanhar de-banda os estudos deles para que eu fugisse dessas tais faculdades como o diabo da cruz.

O curso me atraía porque eu sonhava com uma visão mais científica da literatura. Estava cansado da crítica literária que não dizia nada, tipo: “É um poema brilhante, cheio de belas imagens, onde o poeta Fulano demonstra mais uma vez sua habilidade no trato da palavra, e a sua sensibilidade para com os problemas humanos...” Expanda isto por dez páginas e você tem um exemplo da maioria das críticas que saía por aí. Falava-se, falava-se, e nada de substancial era dito. Daí o interesse que senti pelos textos críticos dos poetas concretos de São Paulo, e pelos teóricos elogiados por eles (Ezra Pound, Jakobson). Esses caras, pelo menos, iam direto à Palavra, à coisa concreta, real. Pela primeira vez (eu tinha 18, 20 anos) a literatura de Joyce fêz sentido; e consegui ler corretamente pela primeira vez poetas como Edgar Poe, que eu pensava que conhecia.

O problema é que a abordagem científica do texto acabou tornando-se uma franquia exclusiva de grupos estruturalistas, que transformaram o estudo da literatura numa mistura de ciência cabalística e bula-de-remédio. Criaram-se métodos e mais métodos que procuram explicar a literatura em termos que, francamente, me parecem nada ter a ver com ela. É como querer abordar uma pintura apenas fazendo a análise química das tintas de que é feita. Não é por aí, amiguinhos. A fonte de significados está um nível acima disso, ou um nível abaixo, dependendo do ponto de vista de quem olha.

Daí ser mais do que oportuna a bem-humorada crítica ao linguajar “academês” feita por Carlos Newton Jr. no capítulo “O método de Josué” de sua tese-romance “Vida de Quaderna e Simão”. Tendo-se metido na sinuca de ter de apresentar uma tese de doutorado sobre a obra de Ariano Suassuna, o crítico e poeta natalense-pernambucano deu uma de joão-teimoso e fêz da tese uma paródia ao estilo adotado por Suassuna no “Romance da Pedra do Reino”, reproduzindo, diante da banca examinadora, o discurso solerte, bajulador e megalomaníaco do narrador Quaderna diante do juiz-corregedor que lhe investiga as mutretas. Entre as muitas críticas que faz ao pensamento academista, Carlos Newton aponta (no que concordo plenamente) “a recusa sistemática a se enxergar até mesmo o óbvio, se este não resulta da aplicação de um método qualquer”. Nossos cursos de Letras não formam professores de Literatura ou críticos literários: formam técnicos especializados na aplicação de modelos importados de análise linguística... e o texto que se dane.