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domingo, 6 de outubro de 2024

5109) "Pat Garrett e Billy The Kid" (6.10.2024)



 
A morte recente de Kris Kristofferson me levou a procurar de volta este filme dirigido por Sam Peckinpah em 1973, e que na época me levou correndo ao cinema, menos para ver os tiroteios de Peckinpah, que eu já conhecia de vários filmes, do que para ver Bob Dylan “vivo e bulindo”, que eu praticamente não vira até então.
 
Dylan fez uma ponta, e fez a trilha sonora do filme, com alguns instrumentais em estilo country, e duas boas canções: o clássico “Knockin’ on Heaven’s Door”, e “Billy”.





(Bob Dylan, como "Alias")     


O western é um gênero revisionista por excelência, um palimpsesto. Uma superfície única onde cada geração escreve o que bem entende, por cima do que foi escrito pela geração anterior. Parece engraçado que uma civilização tão urbanóide como a norte-americana procure estabelecer seu DNA num gênero rural como é o western, mas a polaridade neste caso não é entre rural/urbano, e sim entre desbravador/cultivador. Entre o aventureiro que ultrapassa limites, expande fronteiras, e o homem prático que se fixa no terreno conquistado e procura tirar dali o seu sustento.
 
O primeiro deles é o herói; o segundo é o vencedor.
 
Talvez a principal forma dessa dicotomia no western não seja entre o xerife e o bandido, e sim entre o vaqueiro desempregado e o fazendeiro empregador. Não muito distante, aliás, da mesma dicotomia na Literatura de Cordel: quantas histórias não conhecemos sobre o vaqueiro jovem, simples, honesto, que vai trabalhar para um fazendeiro poderoso, exigente, avaro, e que tem uma filha linda-de-morrer, pela qual o pobre Severino inevitavelmente se apaixona?!



(O verdadeiro Pat Garrett)


Pat Garrett e Billy the Kid conta a tragédia de dois desses vaqueiros (“vaqueiros” no sentido mais amplo, de mão-de-obra-pouco-qualificada do meio rural) que começam como amigos e terminam como inimigos num duelo de morte. Um diálogo do filme lembra um momento em que Pat Garrett era acusado de um crime, e Billy The Kid estava do lado da lei, porque trabalhava sob as ordens do poderoso fazendeiro de gado John Chisum. Pouco depois, Billy rouba gado de Chisum, para se ressarcir do atraso de um pagamento qualquer; é declarado fora-da-lei, e o governador contrata Garrett para prendê-lo ou matá-lo.
 
Bandidos e polícia são um mesmo grupo social, com os mesmos valores, a mesma origem, as mesmas conexões familiares, as mesmas vivências, a mesma linguagem – só que trabalham para patrões diferentes.
 
Billy The Kid é um dos bandidos mais famosos do far-west, não pelo que foi em vida, mas pelo que resolveram fazer dele após a morte – através de canções, baladas, filmes, romances. Nunca foi um estrategista como seu contemporâneo Jesse James. E certamente nunca foi o personagem (alavancado por Kris Kristofferson) do filme de Peckinpah – bonito, gentil, namorador, ético (amigo-dos-amigos), respeitador dos rivais...
 
O palimpsesto da história sempre aguenta mais uma escrita. Verossimilhança histórica é o de menos: historicamente, na noite do confronto mortal, Pat Garrett tinha 31 anos, Billy the Kid tinha 21. No filme, os dois são interpretados respectivamente por James Coburn, 44, e Kris Kristofferson, 37. Que importância tem isto? Muito pouca. Não é biografia, é mitologia. Mais sensato é o ajudante de Garrett que, ao ser convocado para o atentado final contra Billy, suspira, morrendo de medo, e diz: “Só espero que não escrevam meu nome errado no jornal.” É o máximo que se pode esperar da posteridade.




(Jason Robards, como "Lewis Wallace") 


Quem dá a ordem final para que Billy seja executado é o governador do Novo México, Lewis Wallace, interpretado no filme por Jason Robards. Tive que ir à web para me certificar. Sim, é ele mesmo: Lewis Wallace, o militar que escreveu Ben-Hur, o maior best-seller da literatura dos EUA no século 19, superando até mesmo A Cabana do Pai Tomás. Foi o autor desse romance que mandou matar Billy The Kid.
 
O filme de Peckinpah foi feito em péssimas circunstâncias, constrangido e sabotado pelos diretores da MGM. A versão que vi na época, no Cine Capitólio de Campina Grande, foi a versão mutilada que rodou o mundo. A que vi agora é a melhor versão possível hoje: a de 115 minutos, que recuperou uma parte do material cortado pelos produtores.
 
Peckinpah está inteiro neste filme, com sua brutalidade e seu lirismo, seu olhar sádico sobre a natureza humana. Ele mostra pistoleiros brincando de tiro-ao-alvo com galinhas enterradas com a cabeça de fora; mostra crianças brincando de se balançar na forca onde Billy vai ser enforcado no dia seguinte. (Ou melhor, ia: piscaram o olho, ele matou dois e já está longe.) Imagens que lembram a clássica imagem de abertura de The Wild Bunch (1969), crianças brincando com escorpiões e depois ateando fogo a eles.
 
Lirismo? Sim, no western há poucos momentos de tanta beleza lírica quanto a cena do velho xerife (Slim Pickens) baleado no estômago, sentando-se à beira do rio para morrer, olhando o rio, olhando o crepúsculo, sendo olhado pela esposa que chora em silêncio, enquanto a trilha sonora toca “Knockin’ on Heaven’s Door”.  




(Slim Pickens) 

 
Presente também com o seu machismo, que recorre menos à diminuição da mulher do que à apologia da camaradagem entre iguais. O western é um dos territórios mais favoráveis às demonstrações da comovente devoção mútua masculina. São homens da lei e homens fora-da-lei, mas acima de tudo são homens que devem favores a outros. O favor e a gratidão estão entre as moedas mais valorizadas numa sociedade informal.
 
Na noite do confronto fatal, Billy está dentro da casa, na cama com uma mulher. Pat Garrett se aproxima da casa, chega à varanda, ouve os sussurros, entende tudo... e senta na cadeira de balanço do terraço, esperando que o outro termine, para poder matá-lo. Depois da execução, volta a sentar na cadeira de balanço, até o dia clarear. Calado. Pensando.



(James Coburn e Sam Peckinpah)

 
É uma forma de respeito entre homens, que não tem nada a ver com outros valores: quando o caçador de recompensas (John Beck) salta sobre o cadáver para arrancar-lhe um dedo e guardar de souvenir, Pat Garrett o desmonta com uma porrada, jogando-o à distância. É a mesmíssima atitude de Augusto Matraga, no conto de Guimarães Rosa (em Sagarana, 1946) e no filme de Roberto Santos (1966), protegendo o cadáver do adversário Joãozinho Bem-Bem, depois de matá-lo.
 
Do mesmo jeito que acontece aqui (na dita “vida real”), no universo desses personagens existe uma luta cósmica entre criadores de gado, políticos, grandes comerciantes, banqueiros. Essa luta pouco inteligível para pessoas como Pat e Billy é quem vai determinar se um deles está com o Bem e o outro com o Mal, ou vice-versa; é quem vai determinar quem vai ser pago pelo governo para matar o outro.



(foto, de autenticidade posta em dúvida, onde aparecem Pat Garrett e Billy The Kid, respectivamente o primeiro e o quarto, da esquerda para a direita) 

 
Por isso, talvez, a perseguição de Garrett a Billy chegue a se parecer com outra estória rosiana, “O Duelo” (também em Sagarana). É uma peregrinação lenta, de vilarejo em vilarejo, o Perseguidor perguntando a um e outro, colhendo informações, mudando de rota, às vezes cruzando com a presa sem perceber, cada um tentando adivinhar o que o outro está fazendo, mandando recados curtos e provocativos. “Diga a ele que eu e você tomamos uma dose juntos.”
 
Um crítico (Gene Siskel) fala em “letargia”, e é uma palavra que define um aspecto do filme. Sim, é uma perseguição, mas não é uma perseguição de guepardo atrás de antilope. Pat Garrett sabe que vai cumprir sua obrigação de xerife, mas ao mesmo tempo não tem a menor pressa de matar o ex-amigo. Billy sabe que pode fugir, e que dois dias depois estará no México, ou no fim do mundo; mas, e depois? Melhor ficar, e esperar para ver o que acontece. É uma perseguição letárgica, arrastada, que nenhum dos dois gostaria de levar até o fim.
 
No final, Pat Garrett dispara apenas dois tiros (fato histórico, registrado). Um mata Billy The Kid, o outro estilhaça sua própria imagem no espelho. O ex-bandido que se vendeu à Lei destrói a si mesmo quando mata um amigo para satisfazer homens que despreza. É um tipo de alegoria meio óbvia, mas cara ao universo rude do faroeste.
 
A última imagem do filme mostra Pat Garrett se afastando, depois de cumprida sua missão;  e um garoto do vilarejo corre atrás do seu cavalo, atirando-lhe pedras. É uma citação explícita ao final romântico de Os Brutos Também Amam (“Shane”) de George Stevens, quando o garotinho corre atrás do seu ídolo, do seu herói, gritando: “Shaaane!...”  Aqui, só há desprezo e vingança.






 
 
 
 






segunda-feira, 30 de setembro de 2024

5107) Kris Kristofferson, 1936-2024



 
Uma das lendas que se contam sobre Kris Kristofferson é que ele trabalhava de faxineiro num estúdio de Nashville para poder se aproximar de cantores ou bandas, e interessá-los nas suas canções. Limpando os cinzeiros cheios de baganas, varrendo o chão, arrastando amplificadores, esticando fios, ele ia se aproximando dos músicos, amparado naquele jeitão de caipira simpático, até aquele momento, no balcão da lanchonete do estúdio, em que podia enfiar a mão no bolso do macacão e puxar uma letra rabiscada: “Bem, por falar em composições...” 
 
Deve ser verdade, porque ele de fato fez esse trabalho; mas a esta altura ele já ganhara um diploma em Literatura Inglesa por Oxford (com dissertação sobre William Blake) e tinha sido piloto de helicóptero no Exército, de modo que a faxina não era exatamente por falta de oportunidades ou de qualificação. 
 
Kristofferson, que morreu no sábado passado, aos 88 anos, teve uma carreira irregular, tanto como músico quanto como ator de cinema. Em casos assim, são os pontos altos que fazemos questão de lembrar. Por que? Talvez porque coisas ruins qualquer um de nós é capaz de fazer, mas quantos de nós serão capazes de compor uma canção como “Me and Bobby McGee”? 
 
Aqui, a clássica gravação de Janis Joplin
https://www.youtube.com/watch?v=sfjon-ZTqzU





Uma canção-de-estrada que ficou clássica, todo mundo gravou (eu não gravei, mas fiz uma versão), mas o primeiro Grammy lhe chegou às mãos com “Help Me Make It Through The Night” (Melhor Canção Country). 
 
Aqui, na voz do próprio:
https://www.youtube.com/watch?v=CksF7Kr7Drw
 
Virou referência dentro da música country à qual ele trouxe algo de um folk-rock claramente urbano, cosmopolita, intelectual. Mas suas imagens nunca foram sofisticadas como as de Bob Dylan e companhia. Nick Cave o citou na canção “Frogs”, e explicou a citação em sua newsletter The Red Hand Files (# 289): 
 
“Kris Kristofferson passa por mim, chutando uma lata / com uma camisa que ele não lava há anos...”  Os fãs da música country irão entender esta referência à grande canção de Kristofferson sobre desolação espiritual, “Sunday Morning Coming Down”, na qual o narrador acorda num domingo de manhã, esgotado e com a maior ressaca, e veste “a mais limpa das camisas sujas”. Pode pesquisar.
(trad. BT) 
 
Como ator, ele nunca foi um Marlon Brando, e era modesto ao avaliar seu trabalho. Dizia que só aceitava um papel se entendesse o roteiro e o personagem; e depois tentava ser o personagem diante das câmeras. Foi mais ou menos o que fez nos filmes que vi com ele. 
 
Tinha aquele ar à vontade de quem está confortável no próprio corpo; e aquela masculinidade tranquila de quem exerceu muitas tarefas braçais e leu bastante. Uma coisa compensa os defeitos da outra, não é verdade? Era daquele time de atores que inclui Brando, Nick Nolte, Josh Brolin... Uma amiga minha dizia que ele “era masculino sem precisar fazer força”. 



(Kristofferson e Bob Dylan em Pat Garrett e Billy the Kid)
 
 
Vou procurar aqui se ainda tenho o DVD de Pat Garrett and Billy the Kid (1973, Sam Peckinpah), um filme curioso que não é uma grande obra cinematográfica, não tem uma trilha sonora excepcional (a não ser pelo clássico “Knockin’ on Heaven’s Door”), não é o melhor filme de seu diretor (eu votaria em The Wild Bunch) nem tem interpretações memoráveis do elenco: mas, com todos os seus defeitos é uma obra marcante. Por quê, ninguém sabe até hoje. 
 
Kristofferson fez nesse filme o papel título de Billy The Kid, o famoso assassino que matou 21 homens antes de morrer aos 21 anos de idade. Billy era um desses bandidos sem nenhuma faceta redentora: era só bandido mesmo, bandido cruel e meio obtuso, sem revolta social, sem atitudes românticas. O cinema tentou modificá-lo mais de uma vez. 
 
Para fazer a trilha sonora do filme, Kristofferson e seu empresário Bert Block convidaram Bob Dylan – de quem KK se tornara amigo desde os tempos dos estúdios de Nashville. (Há relatos de que na canção “Lay Lady Lay”, do álbum Nashville Skyline, era Kristofferson quem segurava o bongô tocado pelo baterista Kenny Buttrey.)   
 
Dylan hesitou, mas acabou aceitando depois que assistiu alguns filmes do diretor: Meu Ódio Será Tua Herança (“The Wild Bunch”), A Morte Não Manda Recado (“The Ballad of Cable Hogue”), Sob o Domínio do Medo (“Straw Dogs”) e principalmente Pistoleiros do Entardecer (“Ride the High Country”). 
 
Para fazer o papel do pistoleiro de 21 anos, Kristofferson, então com 37, teve que raspar a barba, o que, aliado ao seu rosto largo, acabou lhe dando um aspecto de “bebezão” no filme. Dylan, pequeno, meio desajeitado, barba rala, roupas desarrumadas, faz o papel de “Alias”, um coadjuvante sem muito a fazer, mas que visualmente lembra muito mais a figura de Billy. 


(Billy The Kid)



(Dylan como "Alias")


As filmagens foram um caos, e apenas duas coisas prenderam Dylan (a esta altura um astro-pop, milionário) até o fim. A primeira é que ele resolveu considerar este trabalho um curso informal e gratuito sobre como dirigir um filme – lições que ele iria pôr em prática depois, no não-muito-bem-sucedido Renaldo e Clara. A segunda foi a amizade com Kristofferson, que o ajudou a aguentar as explosões machistas e temperamentais do diretor. 
 
Diz Howard Sounes, em Dylan, a Biografia (Conrad, 2002, trad. Leila de Souza Mendes): 
 
Dylan e Kristofferson estavam na sala de projeção assistindo um copião quando Peckinpah mijou por toda a tela porque a imagem estava fora de foco. “Eu me lembro de Bob se virar e olhar para mim na reação mais adequada do mundo, sabe como é, em que diabo nós nos metemos”, diz Kristofferson. 
 
O que não impediu que ele voltasse a trabalhar com Peckinpah anos depois, no papel principal de Comboio (“Convoy”, 1978), onde ele faz um motorista de caminhão que se envolve numa rebelião coletiva de caminhoneiros perseguidos por policiais. A insurreição, violenta e festiva, guiada por rádio, lembra Corrida Contra o Destino (“Vanishing Point”, Richard Sarafian). 
 
Foi um dos últimos filmes do caótico Peckinpah, mas que David Thomson (A Biographical Dictionary of Film, 1981) considera “o filme mais descontraído de todos os que fez, flagrantemente bobo em sua dramatização da canção de C. W. McCall, mas divertido, com o aspecto de uma balada tradicional, e imbuído de um senso da beleza do deserto e do espetáculo dos caminhões, que lembram uma justa entre cavaleiros medievais”. 
 
De pistoleiro do faroeste a caminhoneiro, Kristofferson se dedicou a personagens parecidos com ele, rudes, aventureiros, lúcidos na avaliação das situações em que se metem, impulsivos o bastante para persegui-las até o fim, impondo-se em qualquer ambiente com uma presença masculina capaz de fazer os homens darem um passo atrás e as mulheres darem um passo à frente. 
 
Como compositor, foi sempre um rapaz da música country, das melodias simples dedilhadas no violão de cordas de aço, mais próximo de Tin Pan Alley do que do Greenwich Village, mas igualmente à vontade em ambos. Durante algum tempo fez parte do supergrupo “The Highwaymen”, um quarteto de pesos-pesados da música country. 



(The Highwaymen: Willie Nelson, Kris Kristofferson, Johnny Cash e Waylon Jennings)

 
Na juventude, Kristofferson tinha ambições de se tornar escritor – e quem não tem? Aos 18 anos, duas histórias suas foram premiadas num concurso do Pomona College, onde estudou. As duas (publicadas depois no Atlantic Magazine) podem ser lidas aqui: 
 
https://kriskristoffersonfan.com/sample-page/biography/kris-kristofferson-short-stories/
 
Sempre bem-humorado, ele recordava com gosto seus tempos de estudante e dizia: “Acho que eu e Bill Clinton conseguimos desfazer quaisquer ilusões que as pessoas tivessem sobre o brilhantismo dos alunos do Pomona College”.