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sexta-feira, 30 de setembro de 2011

2675) Livros Proibidos IV (30.9.2011)



Checando as estatísticas de livros denunciados ou proibidos no período 1990-2010 nos Estados Unidos, temos números interessantes. Razão das denúncias: sexo explícito, 3.169; linguagem ofensiva, 2.658; violência, 2.289; livros inadequados para a faixa etária do grupo-alvo, 2.232. Drogas? Lá embaixo na lista, com 382. Política? Idem, com 319. Esses números claramente se referem ao universo escolar, infanto-juvenil, que é onde se exerce o peso da censura e do puritanismo nos EUA. Nesse mesmo período, os números dizem (por ordem decrescente) que a origem das denúncias veio das seguintes instituições: escola, 4.048; biblioteca escolar, 3.659; biblioteca pública, 2.679. Universidades aparecem com apenas 141 denúncias.

Nos EUA, existe liberdade para discutir idéias políticas, mas por outro lado o país é vítima de um puritanismo alucinado que cria as situações mais estapafúrdias. Tipo aquelas notícias em que um garoto de seis anos é acusado de assédio sexual porque beijou na escola uma coleguinha de cinco. Os EUA sempre me deram a impressão de um país onde é mais fácil publicar um livro propondo a derrubada do capitalismo do que um livro em que os personagens façam sexo oral.

No Brasil, já foram proibidos mais livros pelo seu conteúdo político do que por conteúdo sexual. Dizem que Feliz Ano Novo de Rubem Fonseca só foi proibido porque um figurão do governo militar se escandalizou com a linguagem e o tema do conto-título (marginais invadem uma festa de reveillon de ricaços, estupram e matam quem bem entendem) e não descansou enquanto o livro não foi proibido. Algo parecido ocorreu com Zero de Ignácio de Loyola Brandão. Não me lembro de livros infantis proibidos pela ditadura.

Aqui no Brasil está surgindo uma censura do politicamente correto em que indivíduos ou grupos se julgam insultados porque um personagem de um livro diz alguma ofensa contra eles, e pedem a proibição do livro. É a democratização da censura. Em breve chegaremos ao aperfeiçoamento final desse método, quando qualquer pessoa pode denunciar um livro e solicitar oficialmente sua proibição, alegando que foi prejudicado.

As filhas de Garrincha conseguiram proibir a biografia do jogador, escrita por Ruy Castro; Roberto Carlos conseguiu tirar das livrarias sua biografia escrita por Paulo César de Araújo. Ora, há uma porção de livros-de-fofocas e livros maledicentes por aí, sobre gente famosa. Como digo sempre, a liberdade de expressão significa, também, a liberdade de expressão para ao maledicentes – os quais, se for o caso, terão que pagar por isso de alguma forma. Nem toda censura é política, mas toda censura é censura.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

1936) Cançõezinhas de Roberto (23.5.2009)



Citei recentemente aqui dez canções que eu considero minhas 10 favoritas dos 50 anos de carreira de Roberto Carlos. O “Rei” é mais cantor do que compositor, de modo que nesses apanhados de sua obra estou registrando o que ele gravou, não apenas o que escreveu. Além de ter sido roqueiro e ser um bom autor/intérprete de canções românticas, uma coisa que faz o charme da obra de Roberto são certas cançõezinhas que talvez ele fizesse sem muita atenção e sem nenhuma pretensão. Cançõezinhas feitas de brincadeira mas que são lembranças caras a nós, os seus admiradores. Pois é, amigos, logo eu, tão exigente. Mas Roberto Carlos foi a trilha sonora de nossas vidas. Ideologias estéticas à parte, ele é parte da paisagem, é como o Pão de Açúcar, que nem precisava ser bonito para estar ao fundo de todas as fotos.

A simbiose (ou a promiscuidade) entre música popular e imprensa deu origem à canção “A Candinha”, em que RC tirava o chapéu para a fictícia redatora da coluna “Mexericos da Candinha”, ingênua precursora das revistas de fofoca de hoje em dia, que pegam pesado com todo mundo. A canção tinha versos (“A Candinha quer fazer da minha vida um inferno / já está falando do modelo do meu terno”) glosadas depois por Caetano em “Tropicália”. O clima brincalhão de algumas canções sempre atuou como um diluidor das doses de romantismo concentrado na obra de RC, e nunca ele foi tão divertido quanto em canções bobinhas como “É meu, é meu, é meu”, em que ele se declara o proprietário do corpo da amada “da sua cabeça até / a ponta do dedão do pé”, e diz: “Tudo que eu falei, meu bem / e o que eu não falei também / tudo que você pensar / é meu, é meu, é meu”.

O mesmo espírito de malícia infantil está em “Vista a roupa, meu bem”, em que ele, tentativamente, sugere que a amada está nua na cama e só depois revela, para o alívio da Família Brasileira, que os dois estão na praia. O jeitão de cantar, imitando os fox-trots de outrora, prefigura outra caricatura musical, “I love you”, em que ele faz alusão musical e poética a uma época ultrapassada: “...e eu vou vestir meu terno branco outra vez”. Eram canções em que ele começava a trocar as guitarras roqueiras por um estilo “retrô” mais de acordo com seu repertório futuro.

Músicas assim nos lembram que Roberto Carlos é geralmente visto como um roqueiro que depois se tornou um cantor romântico com tinturas religiosas. Mas o seu repertório, tanto como compositor quanto como intérprete, sempre foi mais variado do que isto, mesmo levando em conta o perfil cauteloso, conservador, politicamente correto e de “genro ideal” que ele sempre teve todo o cuidado de cultivar. Como ocorre em todas as carreiras não programadas, a de Roberto Carlos flutuou de acordo com as tendências de mercado e com os momentos da vida pessoal do artista. Mesmo suas canções ideológicas (Cristo, as baleias, etc.) têm a espontaneidade das mensagens que vêm da emoção, não do intelecto.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

1918) As HQs de Roberto (2.5.2009)



A Jovem Guarda, onda em que aprendi a surfar na prancha do rádio, foi um reduto de uma forma que está caindo em desuso: a canção narrativa. A canção que conta uma historinha como começo, meio e fim. Eram histórias bobas; mas uma parte do seu charme era essa ingenuidade de história em quadrinhos, de histórias de amor bobinhas, que pouco lembravam o rude mundo roqueiro de James Dean ou Marlon Brando. As letras da Jovem Guarda lembravam os quadrinhos de Marge, a criadora de Luluzinha & Bolinha. (Alguém ainda sabe tocar “A Festa do Bolinha”?)

Assim era o repertório de Roberto Carlos. “O Gênio” (“Andando um dia na rua notei / alguma coisa caída no chão...”) é a historinha divertida do cara que encontra a lâmpada de Aladim na rua, pede garotas e dinheiro, e vê o Gênio ficar com tudo para si e se instalar na sua casa. Em “Os 7 cabeludos” (“Tudo começou quando Lili foi à esquina / a turma da outra rua se empolgou com a menina...”) há uma tentativa de recriar brigas de rapazes por causa de uma garota: “Brigamos muito tempo / rasgamos nossa roupa / fugimos da polícia que já vinha feito louca”, mas são as briguinhas leves e sem consequências dos musicais de Elvis Presley.

“História de um Homem Mau” (“Eu vou contar pra todos / a história de um rapaz / que tinha há muito tempo / a fama de ser mau...”), com suas modulações ascendentes, é um faroeste que vai criando um suspense comparável ao de filmes como Matar ou Morrer ou Appaloosa. Mas a maior parte das historietas são pequenos episódios do cotidiano, como “Pega Ladrão” (“Estava com meu broto no portão / quando um grito ouvi: pega ladrão!...”). O narrador vê todo mundo perseguindo e subjugando um sujeito que roubou um coração. Sem acreditar nisso, ele interfere: “Não pode um coração alguém roubar!” Aproveitando a distração, o ladrão volta a fugir, e ele fica sabendo “que o tal coração / era uma jóia pendurada num cordão”.

Automóveis eram um dos temas preferidos de Roberto, tema que lhe deu clássicos desde “O Calhambeque” até “As curvas da estrada de Santos”. Um dos meus preferidos nesta linha é “Parei na contramão”: “Vinha voando no meu carro quando vi pela frente / na beira da calçada um broto diferente / joguei o pisca-pisca para a esquerda e entrei / a velocidade que eu vinha, não sei / pisei no freio obedecendo ao coração e parei – parei na contramão...” Ele buzina para a moça, e a buzina não funciona. O guarda cai em cima e lhe aplica uma multa. Ele vai embora sem ver mais o broto, mas diz que da próxima vez “a buzina vai funcionar”. No show, isso era pretexto para uma buzinaria vocal ensurdecedora: “bibí... bibí...”

E não esqueçamos a ficção científica de “O Astronauta”, em que ele diz que prefere “desligar os controles da nave espacial / para ficar para sempre no espaço sideral...” As canções-HQ de Roberto são o retrato mais inocente de um tempo épico, trágico, o ponto de mutação em que, para o bem e para o mal, o Brasil virou outro Brasil.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

1908) Dez grandes canções de Roberto (21.4.2009)



O Rei Roberto Carlos faz 50 anos de carreira. A imprensa fica pedindo listas das dez melhores canções. Difícil escolher. É como tomar um copo de água gelada num sábado de sol e alguém de prancheta em punho nos perguntar quais foram as dez melhores gotas. Mas o leitor gosta de comprar. Cheio de esperança, alinho-me entre os vendedores. E aqui vão dez, sem ordem de valor.

Primeiro, “O Calhambeque”, uma fascinante mistura do cantado com o falado, precursora de tantos “raps” de 30 anos depois, e com um irresistível “bip-bip!” para a platéia repetir em uníssono. Por trás, a chuckberryana saga urbano-adolescente do rapaz que, sartreanamente, só existe ao volante de um carro, nem que seja uma fubica. Depois, “Quero que vá tudo pro inferno”, que abre com um órgão arrebatador, um vocal lancinante, uma letra irreverente para a época. Uma canção pro cara cantar bêbado, de madrugada, embaixo da janela da respectiva, no melhor estilo “venha senão eu morro”.

Canções de amor são o forte do Rei, e aqui vai uma trinca de ases. “Como é grande o meu amor por você”, “Quase fui lhe procurar” (Getúlio Cortes) e “Ninguém vai tirar você de mim” (Edson Ribeiro & Hélio Justo) são canções que toco e canto desde que o vinil que as imortalizou ainda estava quente. Há outras melhores? Talvez. Mas estas são as minhas. Para complementar, o clássico “Detalhes”, sobre a qual já correu um itapemirim de tinta e não preciso comentar.

O Rio descobriu, num show de Caetano Veloso, que a pequena obra-prima “Debaixo dos caracóis dos seus cabelos” tinha sido composta por Roberto para ele, durante o exílio. É engraçado. Na época, todo mundo sabia disso. Só posso atribuir tal surpresa à faixa etária de imprensa atual. Outra canção-de-amigo que virou hino foi “Amigo”, para Erasmo Carlos, que mostra um lado importante das músicas de RC: a verdade autobiográfica. Eu, que tanto louvo o “Eu poético distanciado”, tiro aqui o chapéu para o poeta cujo Eu é geralmente ele mesmo.

Já vamos em oito, e até agora só falei títulos óbvios! Vou completar a lista com duas músicas que ninguém conhece ou lembra. Uma delas é “Do outro lado da cidade” (Helena dos Santos): “A cidade agora / do outro lado tem / alguém que vive sem saber / que eu vivo aqui também...”, com uma melodia simples e tocante. Uma canção de distância urbana, de jovem sozinho, sem paradeiro e sem amor, numa cidade sem sol que poderia ser a Seattle de Kurt Cobain ou a Detroit de Eminem. A outra é “Nasci para chorar”, versão de Erasmo para uma canção italiana: “Eu levo a minha vida chorando pelo mundo / talvez até tivesse algum desgosto profundo / procuro na memória, procuro me lembrar / mas eu não posso – nasci para chorar...” É uma canção dilacerada, adolescente, pessimista, mas de um pessimismo “pra cima”, revoltado, sem submissão ao Destino, o pessimismo rock-and-roll de quem diz “morro, mas morro atirando”. Acabou a lista? Mas rapaz, eu ainda tinha uma quarenta!