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terça-feira, 21 de abril de 2020

4572) Meu curso de Natação (21.4.2020)





Fiz um curso intensivo de natação, num centro cultural que tem aqui entre Ipanema e o Leblon. Nem estava muito interessado, mas um amigo meu fez um trabalho para eles e ganhou algumas bolsas para alunos. Me ofereceu uma, e lá fui eu, por mera curiosidade.

As aulas foram à noite, de segunda a sexta. Na primeira noite tivemos uma conferência massa, de um figurão cujo nome esqueço, mas foi até de terno e gravata. Ele falou sobre “A Origem da Água”, assunto que nunca tinha me despertado a curiosidade, mas só naquela hora vi como era fascinante.

Claro que ele não estava falando na origem física da água, que afinal sabemos ser o famoso H2O presente na Natureza, e sim a origem dessa relação lúdica que o ser humano tem com a água. A água, explicava ele, se constituía como universo fluido do prazer, e como desafio carinhoso ao movimento corporal. Citou Gaston Bachelard, citou Jean Baudrillard, e outros nomes que anotei para futura referência.

Na segunda noite veio outro professor, que nos explicou “Os Segredos do Movimento”. Se a primeira conferência tinha sido filosófica, esta segunda teve um perfil de natureza mais técnica. Abriu com um Power Point minucioso a respeito dos músculos dos braços e das pernas, falou sobre os impulsos elétricos que o cérebro envia aos músculos, etc.  Depois exibiu uma animação mostrando exemplos de movimentos coordenados de braço, perna e pescoço, com contra-exemplos do “que não se deve fazer”.



Aula muito intrutiva, eu inclusive não sabia que temos dois hemisférios no cérebro, e que cada uma dessas metades coordena a metade oposta do corpo!  A esquerda comanda a direita, e a direita comanda a esquerda.

A terceira aula tinha como título (ainda guardo o programa, muito bem impresso) “O Mito de Sísifo”, e eu cocei a cabeça sem saber como encaixar aquilo no tema proposto. Mas a professora (uma francesa, que falava muito bem o português, com sotaque encantador) deu um banho, sem trocadilho.


Porque o mais importante na natação, disse ela, é o objetivo a ser alcançado, e a concentração mental a ser desenvolvida: ela citava o mito de Sísifo (aquele cara que empurrava uma pedra para o alto de um morro e quando ia chegando lá em cima a pedra escapulia, toda vez) para ilustrar que certas atividades podem parecer insensatas quanto à sua finalidade, mas se descobrirmos sentido e prazer na atividade em si, o meio torna-se um fim e isso nos traz a paz interior.

Voltei para casa transformado; um novo homem. Eu sentia uma verdade íntima muito grande no olhar dela quando cruzava com o meu. Os olhos dela eram cinza-azulados com reflexos índigo, uma coisa impressionante.


Na quarta aula, demos uma geral na história da natação. O professor era um sujeito pequeno, troncudo, meticuloso, de bigodinho bem aparado, que usava uma vareta de metal telescopável para apontar os gráficos, as tabelas de nomes e de números.

Ele dividiu tudo em vários períodos, que copiei diligentemente, mas agora só lembro o Período Empírico, o Período Olímpico, o Período Pré-Científico, o Período Científico... Lembro do momento em que ele apoiou a ponta da vareta na palma da outra mão, empurrou-a para dentro do cabo e disse com ar ameaçador: “E precisamos nos preparar para o Período Pós-Científico”.


A quinta e última aula foi com outra professora, uma senhora sessentona, de óculos, muito bem vestida e com excelente didática. Foi uma abordagem, como direi? Uma abordagem de cunho pessoal. Via-se que era uma ex-atleta, uma pessoa que apesar da idade mantinha um ritmo regular de atividade física. Alguém cochichou no meio da turma que ela era famosa, tinha ganho medalhas não sei onde.

Nadar, demonstrou ela, produz em nós um estado alterado de consciência. Nenhuma outra atividade envolve de modo tão radical nosso corpo, nossa mente, nossos instintos mais básicos, porque quem nada está escapando à morte em cada segundo e está empenhando cem por cento do seu Ser nessa conquista. Andar é falar a própria língua, comentou ela; nadar é dominar uma língua estrangeira. Mas – e aqui ela erguia um dedo de unha bem manicurada – uma língua estrangeira que é também a nossa Ur-Linguagem, nosso idioma primordial, no oceano esférico da placenta.

No final houve a entrega dos certificados, e um breve coquetel, em que confraternizamos. Gostei muito da experiência, e na semana que vem já me inscrevi para o curso de “Reportagem Jornalística”.











domingo, 21 de fevereiro de 2016

4055) Queremos a censura (20.2.2016)




(ilustração: Rubem Grilo)


Estão se multiplicando, principalmente nos EUA, os pedidos para que o Estado ou as autoridades locais exerçam algum tipo de censura sobre livros e textos em geral, para proteger a estabilidade emocional nos leitores. Um artigo de Isabel Lucas (aqui: http://tinyurl.com/zuth66b) cita vários exemplos. Obras clássicas como as “Metamorfoses” de Ovídio, a peça “Lisístrata” de Aristófanes e outras são tidas como ofensivas por estudantes conservadores. Eles pedem que os livros sejam eliminados das bibliotecas ou que pelo menos “surjam com uma advertência na capa, chamando a atenção para o ‘perigo’ para o ‘bem-estar mental’ que representam os seus conteúdos, potencialmente causadores de sofrimento, trauma ou angústia’”. Segundo o artigo, humoristas como Jerry Seinfeld estão se recusando a dar espetáculos nas universidades, alegando que os estudantes “não são capazes de suportar uma piada”.

A mania chega a extremos surrealistas. Estudantes de Direito de Harvard pediram que não fosse ensinada a lei sobre estupro, alegando que a visão desta palavra poderia reacender o trauma em estudantes que pudessem ter sido vítimas desse tipo de abuso. (Essa paranoia de negação traz à mente imagens como o avestruz que enterra a cabeça na areia diante do perigo ou o marido traído que manda tirar da sala o sofá onde a traição foi flagrada.) Para a psiquiatra Manuela Correia, “estamos diante de uma excessiva psiquiatrização da sociedade”. Os ditames protetores da psiquiatria tomam o lugar da religião, a quem cabia, até certa época, esse tipo de controle. Isso seria indício de uma infantilização da sociedade, diz ela: uma “sociedade que não consegue lidar com o medo ou a pluralidade da linguagem”.

Se a pessoa é incapaz de suportar a mera visão da palavra “estupro” (tendo sido ou não estuprada), tem todo o direito de evitá-la, é claro. Todo mundo tem fobias ou angústias. Mas nesse caso, por que diabo vai estudar Direito? Não seria melhor estudar algo mais distanciado da realidade social, algo que não a obrigasse a refletir sobre o mundo, a convivência, o atrito ideológico do dia-a-dia? Outro detalhe que inquieta é que para muitos desses espíritos defensivos não basta evitarem os temas, querem que os temas sejam proibidos inclusive para os que não têm trauma nenhum e querem se informar sobre os tais assuntos. É uma regressão emocional perigosa. São pessoas a quem o mundo de hoje assusta (e acreditem, amigos, assusta a todos nós) e preferem fazer de conta que o mundo não existe, preferem refugiar-se numa bolha de segurança fictícia que nem uma ditadura militar seria capaz de manter intacta por muito tempo.

sexta-feira, 15 de maio de 2015

3814) Ser professor (15.5.2015)



Uma lojinha estreita, de uma porta só; uma tenda. Não a tenda “barraca de acampamento”, mas a tenda que é um quartinho instalado no rés-do-chão de um sobrado ou de um edifício de poucos andares sem elevador. Um pé-de-escada espaçoso e com pouca circulação de gente.  Em certa década, um rapaz de bigode preto começou a usar aquele espaço para prestar pequenos serviços de consertador de alguma coisa: sapatos, relógios, motocicletas, tudo que na vida humana precisa de manutenção e reparos. O mundo pisca um olho, e anos depois quem atende ali já é um velho de barba branca.

Ser professor é um pouco assim. (Claro que tem o outro lado, o rosto solar, a faceta operística, o viés peroratório do magistério. Quem não gosta de auditório cheio? Duzentos clientes, todos precisando de pelo menos meio ponto!) Mas tem o lado lunar do professorado, que é justamente o que na minha utopia (este é um conto de ficção especulativa) eu chamo o “professor de tenda”.

A tenda pode ser em qualquer canto. Centro da cidade, ou transversal da avenida principal do bairro. Ele está ali sentado, às três da tarde, botando meia sola num calçado qualquer, quando chega um casal de alunos, ele indica uns tamboretes, os dois sentam. Precisam fazer um trabalho, o assunto é tal e tal. O mestre escuta, a boca segurando os pregos que os dedos recolhem de um em um, enquanto ele martela a sandália feminina em decúbito. No último prego ele pigarreia, manda gravar, pronuncia meia dúzia de títulos, números especiais de revistas, edições específicas. Dá o email para acompanhamento da consulta. Erguem-se todos, ele busca a maquininha, a moça passa o cartão, guarda o recibo – hesita – sorri – tira um livro da bolsa: “O senhor podia assinar pra mim?”.  “Claro,” diz ele, abre o livro devagar, dá uma risada: “Você é como eu, não é? Lê sublinhando.”

Na parede desse professor há um quadro-negro tipo tabela, com a lista dos serviços, e a lista dos preços, que nunca sobem mais do que o necessário. Um metalinguístico calendário-de-oficina com Rose di Primo no auge. Um cartaz (original) de filme, renovado toda segunda-feira. Há um espelho com uma foto recente dele pregada bem no centro. Um alvará caligrafado por Steinberg. Um termômetro e um barômetro solidariamente lado a lado. Uma vitrine (o casal quase não se desgruda dali) com alguns manuscritos dele, e primeiras edições.  Uma telona digital, ladrilhada em quatro: noticiário via cabo, browser, canal Classimovies e uma fractal em loop, bem repousante. Um assum preto digital cantando preso noutra telinha. O diploma de professor emoldurado. A flâmula com o escudo do meu time do coração.




terça-feira, 12 de maio de 2015

3812) O que é ser analfabeto (13.5.2015)



Um amigo meu passou uma semana no Japão. “Descobri o que é ser analfabeto,” disse ele. Pensou que tudo lá tinha letreiro em inglês, mas tem muito pouco. “É terrível você ficar olhando aqueles insetozinhos escritos, saber que aquilo significa alguma coisa, mas não ter nenhuma pista. Nunca senti tanta falta das linguagens ideográficas, como os hieróglifos, onde pelo menos a palavra passarinho parece um passarinho”. Ironia maior pelo fato de que o japonês começou como linguagem ideográfica, mas foi se sofisticando. Hoje, alguém pra ler precisa ser alfabetizado.

Viver numa cidade grande e não saber ler é como ser jogado no mar com os braços amarrados. Em “Um Assassino entre Nós" ("A Judgement in Stone", 1977), Ruth Rendell conta a história de uma empregada doméstica inglesa que, por motivos variados, nunca se alfabetizou e chegou à idade adulta sem que ninguém percebesse essa deficiência. Numa infância desorganizada pela guerra, Eunice Parchman trocou várias vezes de escola, interrompeu os estudos, e durante a adolescência seu objetivo não era mais aprender a ler, e sim esconder que não sabia. E (diz a autora) a vantagem de ser analfabeto é que o indivíduo adquire uma excelente memória visual e se força a ser capaz de lembrar de tudo. Povos inteiros fazem isto desde que o mundo é mundo.

Uma velha piada apócrifa diz que Rui Barbosa saiu de casa às pressas, esqueceu os óculos, e ao chegar à rua São Clemente perguntou a um homem humilde, na calçada, que bonde era aquele que estava se aproximando. O homem respondeu: “Desculpe, eu também não sei ler”. Quem não sabe ler geralmente alega “um problema na vista” e pede para alguém lhe repetir em voz alta bilhetes, recados, tudo. Aprende a distinguir os números, acostuma-se a reconhecer palavras nas placas e letreiros públicos, mas não conseguiria reproduzi-las com lápis e papel, se lhe pedissem. Vive (diz Rendell) “numa misteriosa e sombria liberdade feita de sensações, instinto, e ausência da palavra impressa”.

O analfabeto que precisa esconder sua condição vive num estado permanente de alerta, porque de um instante para outro podem tentar obrigá-lo a decifrar alguma coisa; precisa de um repertório permanente de desculpas, evasivas. Acostuma-se a perguntar. Cultiva fama de distraído, esquecido. Conversa pouco, para que lhe façam menos perguntas. Diz Ruth Rendell: “O hábito de se isolar estava entranhado nela; não era mais consciente. Todas as fontes de calor humano e gestos de afeição e de entusiasmo tinham secado. O isolamento era algo natural agora, e ela não entendia que aquilo começara quando ela começou a se afastar da palavra impressa, dos livros, das coisas escritas à mão”. 



quinta-feira, 24 de abril de 2014

3481) Os jovens acomodados (24.4.2014)



(foto: Klaus Pichler)

Um artigo de Bruce E. Levine (aqui: http://tinyurl.com/k6zrjsz) discute o conformismo, a passividade e a acomodação por parte da juventude dos EUA, que já foi mais combativa, mais disposta a lutar por causas sociais. Os oito sintomas e causas que ele aponta são locais, mas alguns podem ser extrapolados para outros países, como o Brasil.

Um: débito educativo, e o receio que ele provoca. Cerca de dois terços dos universitários têm uma dívida média de 25 mil dólares, sendo que em alguns casos isto chega a 100 mil.  O sujeito que deve tanto ao governo (e lá essas coisas são cobradas pra valer) pensa duas vezes antes de sair à rua com cartazes de protesto. Dois: patologizar o protesto. Entre outras, a “Oppositional Defiant Disorder” (ODD) é uma doença oficialmente reconhecida: o doente “frequentemente desafia ou recusa-se a cumprir exigências ou regras dos adultos, (...) discute com frequência, (...) deliberadamente faz coisas para aborrecer outras pessoas”. Tarja-preta nele, numa cumplicidade entre pais, médicos e escola.

Três: escolas da obediência. Todo o sistema de ensino tem se voltado para fazer o jovem cumprir regras, atingir metas, temer punições, obedecer. As escolas ensinam teorias democráticas, mas são autoritárias em sua prática. Quatro: educação competitiva. Programas como “No Child Left Behind” e “Race to the Top” estimulam a ansiedade e a competição, e minimizam a curiosidade, a espontaneidade de ação, o pensamento crítico.

Cinco: valorização cada vez maior do ensino formal, em detrimento do aprendizado na família e na rua; mentalidade “quem não tem diploma não sabe de nada”. O autor diz que vai longe o tempo de Mark Twain, que dizia: “nunca deixei a escola interferir na minha educação”.  Seis: normalização da vigilância. Os jovens estão achando cada vez mais normal que a vigilância eletrônica permeie sua vida e suas atividades. Pais controlam a vida dos filhos através de CPS e câmeras domésticas, além de vigiar sua vida escolar via websaites. Isso produz nos jovens uma atitude generalizada de “De que adianta?”.

Sete: televisão (que inclui TV, computadores e celulares). Mídias cada vez mais controladas pelas corporações, programações desviando a agressividade e a energia dos jovens para atividades dissipativas que não envolvem críticas ao regime. Oito: religião fundamentalista, consumo fundamentalista. O consumo torna-se “ópio do povo”, produzindo uma população voltada para o culto ao que é produzido e massificado, e a uma vulnerabilidade maior à linguagem, argumentos e técnicas da propaganda.  Poucos espaços da vida do jovem não são ocupados pela máquina ideológica corporativa.


sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

3374) Violências de hoje (20.12.2013)



Nunca pensei que redes sociais através de computadores despertassem, em pessoas que a gente presume civilizadas, e que muitas vezes conhece pessoalmente, esses picos de agressividade, de descortesia, de violência verbal. Pessoas se intrometem com-quatro-pedras-na-mão num bate-papo de desconhecidos, insultando a uns e outros que não concordam com os pontos de vista lá delas. Insultos e ofensas estouram quando menos se espera. Por que?

Geralmente se diz que a causa é a distância física e o anonimato. Comentar num blog nos dá a possibilidade de ofender alguém que dificilmente vai ter a chance de afundar nosso nariz com um soco, mesmo porque jamais saberá quem somos – estamos assinando aquilo com nomes tipo GrimRaper ou NecrófagoDeAluguel. Tipo assim. Deitamos e rolamos, e a possibilidade de rebordosa física (a única capaz de nos atingir, porque moralmente somos um simples vapor rarefeito) é remota.

Na “Carta Capital”, Luiz Gonzaga Belluzo escreveu algum tempo atrás: “Nos comentários da internet, vai ‘de vento em popa’ o que Herbert Marcuse chamou de ‘automatização psíquica’ dos indivíduos. Os processos conscientes são substituídos por reações imediatas, simplificadoras e simplistas, quase sempre grosseiras, corpóreas. Nesses soluços de presunção opinativa, a consciência inteligente, o pensamento e os próprios sentimentos desempenham um papel modesto. Convencidos da universalidade do seu particularismo, os internautas comentaristas distribuem bordoadas nos que estão no mundo exatamente como eles, só que do lado contrário.”

Isto me lembrou uma nota que li muitos anos atrás, de que na Suíça, país auto-controlado e politicamente correto, havia lugares onde o sujeito pagava uma taxa fixa, entrava numa sala e tinha ali uma imensidão de porcelanas baratas que ele podia sair arrebentando com uma barra de ferro. Depois de 50 minutos e mil francos suíços, o cara ia para casa repousado, descarregado, pacífico como um bebê Johnson.  As redes sociais devem ter para alguns este mesmo efeito descarregador de tensões. O cara vai lá, arregaça, pontifica, esculhamba com meio mundo, e vai dormir. Seu único problema agora é que o ego não cabe na cama.

O passeio na web é uma viagem onde estamos rigorosamente sozinhos, diante de uma página colorida cheia de avatares, de bonecos. Tratamos esses bonecos de acordo com nossos impulsos mais íntimos, como nossa maneira em-bruto de ser. Há uma pergunta terrível que diz: “Do que você seria capaz, se tivesse certeza que ninguém nunca descobriria?”. A Internet parece perguntar: “Do que você seria capaz em público, se tivesse a ilusão de estar sozinho?” A resposta está aí.


sábado, 2 de fevereiro de 2013

3099) Dia de prova (2.2.2013)





Foram encontradas estas passagens, entre as anotações do Budista Tibetano:

“Últimos instantes. Todo mundo se arrumando nas cadeiras, experimentando o assento. As provas estão empilhadas na mesa. Não posso me impacientar.  É o momento de repassar a estratégia. Primeira hora, ir de A a Z matando o fácil, o óbvio, ou seja, resolvendo os cinco ou seis tipos de problemas que eu estudei. E, misturados a eles, aqueles outros tão idiotas que até eu descubro a resposta. O meu problema não é nem não saber a resposta, na verdade, porque em geral eu sei, só que não me ocorre justamente no instante em que me seria mais necessária.

“Depois de uma hora: voltar ao começo. Cuidar daqueles que requerem releitura cuidadosa. Ver as sutilezas e as armadilhas de enunciado.  Pegar os mais acessíveis e avançar em sua solução, tentando de verdade ir até o fim.  Quando se deparar com um muro total, um branco total, passar para o próximo. Se ainda tiver um palpite, uma intuição de que está indo no caminho certo, melhor permanecer, pode ser que depois não lembre exatamente de tudo que está lembrando agora.

“Com um pouco de sorte, eu diria que estas duas primeiras passadas já deixariam resolvidos 50% dos problemas.  Isso depende, claro. Tem gente que se sente mais à vontade em raciocínios longos e coordenados, e têm dificuldade em entender problemas de mais curto alcance. Mas este é o momento, se você é um desses felizardos que se interessam pela matéria sim, que acham aquilo importante sim, que estão dispostos a virar umas noites em cima de um livro sim, alguma coisa vocês acabarão entendendo. Chama-se a isso a Perpetuação da Chama do Saber. O sujeito é aprovado com louvor em Cabala Tridimensional e diz: “O meu segredo é que eu gosto do que faço”.

“Se você gosta do que faz, começa aqui a melhor parte da prova, porque ali está o filé dos problemas complicados – porque exigem memória, ou cálculo, ou engenhosidade, ou dialética – dos problemas desafiadores e que serão como uma muralha entre você e seu destino. Os que você derrubar, passam a fazer parte do seu território. Os que o fizerem tombar a cabeça exausto e adormecer, são os que dizem: “Não Trespasse”.

“Grandes vitórias já foram obtidas nos derradeiros segundos, quando a mente febril e a mão em cãibras terminavam de rabiscar, de modo minimamente legível, as linhas finais de um raciocínio límpido e inquestionável, e no qual, dez minutos atrás, ele próprio nunca tinha pensado. Se a nota obtida foi a que o aluno precisava? Isto é questão secundária. Uma prova é como um salto de trampolim, aquilo tem que ser perfeito, e se algum momento de perfeição ocorre, pra que nota? O que é uma nota?”



sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

3074) Didáticos eletrônicos (4.1.2013)





Nas discussões sobre o livro eletrônico (os Kindles, e-books e assim por diante) tem havido uma ênfase muito grande sobre o modo como essa nova mídia vai afetar a Literatura. Fala-se, p. ex., no perigo da disseminação rápida e incontrolável de versões não-revisadas (ou cheias de erros) de clássicos literários. O erro não é privilégio do texto eletrônico: eu tenho antologias-de-papel de Drummond e de Augusto dos Anjos, lançadas por editoras respeitáveis, com erros de revisão, versos fora do lugar, etc.  Fala-se, pelo lado positivo, na possibilidade de versões em hipertexto (edições críticas, p. ex.) desses mesmos clássicos, pois o livro eletrônico permite encher um texto de notas, observações, variantes, links informativos, etc., e esconder isso tudo com um simples toque numa tecla. Quando o leitor quiser ter acesso a isto, outro toque e o material crítico reaparece. Pra mim, isso é uma maravilha.

Existe outro departamento, contudo, onde o livro eletrônico tem tudo para crescer: é o livro didático.  Pensem em livros de Matemática, Biologia, Física, História, Geografia, Química, em que seja possível ramificar e ampliar indefinidamente a discussão de cada assunto. Pensem na possibilidade de livros didáticos que se tornem mini-enciclopédias em processamento constante, atualizando conteúdos (principalmente nas ciências humanas – História, Geografia, etc.). Pensem em livros eletrônicos de Matemática ou Física em que os problemas possam ser organizados de diferentes maneiras – por grau de complexidade, por tema, etc. Pensem na possibilidade de estudar Química ou Geometria com pequenas (e baratíssimas!) animações através de Flash ou de imagens Gif.

Já fiz parte de equipe de uma enciclopédia, e lembro que quando começou a tal da Internet nossos olhos brilhavam ao imaginar que finalmente o que fazíamos não estaria desatualizado e superado pelos fatos dentro de poucos meses. Além disso, todo mundo que tem filhos na escola reclama do alto preço do livro didático. É talvez o mercado mais disputado do mundo editorial, briga de cachorro grande. Esses big-dogs bem que poderiam se eletronizar, se agilizar, começar a investir na criação de webs paralelas em que o material de estudo fosse adquirido por assinaturas anuais. Conteúdos interativos, permanentemente atualizados, com enormes bancos-de-dados com exercícios, testes, problemas, links externos e tudo o mais para quem quisesse aprofundar as questões.  Ao invés daquelas mochilas cheias de livros pesadíssimos, vergando a espinha dos adolescentes, pequenos tablets com milhões de informações ao alcance de um toque. As possibilidades, como sempre, são infinitas.



terça-feira, 11 de dezembro de 2012

3053) Diário de Classe (11.12.2012)




(Isadora Faber)


Houve um bafafá danado, de julho pra cá, por causa da página “Diário de Classe”, inventada por Isadora Faber, uma menina  de 13 anos. Ela criou a página do Facebook para reclamar dos problemas e dos defeitos da escola municipal onde estuda, em Santa Catarina. Pra quê que ela fez isso?!  Choveram reclamações, críticas, ameaças. A avó da menina foi atingida por uma pedra; ela própria foi intimada a prestar depoimento em uma delegacia, porque uma professora a acusou de calúnia e difamação.

A verdade é que ninguém gosta de ver divulgados os seus malfeitos, sejam ações desonestas ou simples negligências. No caso da escola da menina, não acho que os problemas sejam muito diferentes do que se vê na maioria das escolas, públicas ou particulares: orelhões quebrados, fios elétricos desencapados, falta de professores... Cada escola tem problemas diferentes, que no fundo são um só: falta de dinheiro ou má aplicação (por incompetência, descaso ou desonestidade) do dinheiro disponível.  Quem quiser conferir, procure no Facebook a página “Diário de Classe”.

Como tanta coisa na Internet, o página se multiplicou (diria um redator das antigas) “como fogo num rastilho de pólvora”. “O Globo” de domingo diz que já existem mais de cem páginas diferentes, criadas por outros estudantes, nos mesmos moldes. Isto é bom? É ruim? Como sempre acontece quando se bota uma tecnologia na mão de uma multidão, pode servir pra tudo. Estudantes moleques podem querer “trollar” a própria escola postando fotos tiradas em outros lugares e dizendo que foi lá. Alunos relapsos podem agredir a imagem de professores exigentes, por vingança. Alunos podem se sacanear uns aos outros postando fotos ou informações comprometedoras.

Ou seja: os riscos são os mesmos de quando foram inventadas as inscrições cuneiformes ou os hieróglifos egípcios. Qualquer nova maneira de multiplicar uma informação pode ser usada para o bem e para o mal.  O lado bom é que a Internet e as redes sociais, que tantas vezes são acusadas de servirem apenas de vitrine para narcisismos e irrelevâncias, mostram que podem ser também um instrumento de vigilância, de cobrança, de denúncia, etc., principalmente numa área crucial como a do ensino.

A educação federal, estadual e municipal (além das escolas particulares!) vem sendo sucateada há décadas. Se a Internet e as redes podem ajudar a pressionar os governos e as escolas privadas para que atenuem a catástrofe, tanto melhor. Nenhuma tecnologia é melhor ou pior do que o uso que lhe é dado. Os adolescentes estão mostrando que conhecem bem o funcionamento das redes sociais, e que sabem utilizá-las de uma maneira inesperadamente adulta.



sábado, 21 de abril de 2012

2850) Temple Grandin (21.4.2012)




Temple Grandin é uma mulher autista, e tem 64 anos.  Na infância teve professores especiais, mas depois estudou em escolas de crianças normais.  Como se sabe, crianças “normais” não perdoam crianças que sejam um pouquinho diferentes delas. Quando percebem que Fulano é “estranho”, elas mangam, zoam, perseguem, às vezes dão porrada.  Temple Grandin diz hoje que tinha dificuldade em entender a razão daquilo: “Eu pensava que todo mundo pensava igual a mim, e não entendia por que eles me tratavam daquele jeito”.  Todo autista é uma pessoa completa, e toda pessoa é diferente.  Quando alguém tem uma condição especial como autismo, isso é apenas 10 ou 20%, e os outros 80 ou 90% dela são tão imprevisíveis quanto os de qualquer pessoa.  Nenhum ser humano pode ser definido exclusivamente em função de alguma condição especial que possua, seja ela qual for.

Temple estudou Psicologia e tornou-se uma defensora dos “direitos humanos dos animais”, se bem me exprimo.  Planejou fazendas, currais e matadouros menos estressantes para o gado. Mesmo reconhecendo a necessidade do sacrifício do gado para nos alimentar, ela resume sua reivindicação para eles em “uma vida digna e uma morte indolor”.  Incapaz de sentir emoções, como muitos autistas, ela mesmo assim fez muito mais pelos bichos do que muita gente que se comove com a tragédia deles mas não move uma palha em seu favor (eu, por exemplo).

Aqui está uma palestra dela (com legendas em português: http://bit.ly/HLYZQs), “O mundo necessita de todos os tipos de mentes”. É uma mulherona grisalha, com camisa florida de cowboy, um jeito meio masculino. Vi-a pela primeira vez anos atrás, num documentário da TV que mostrava uma engenhoca bizarra que ela construiu, a “máquina do abraço”, uma coisa feita de traves de madeira, roldanas e tudo mais. Ela entrava naquela estrutura, movia controles, e as partes de madeira pressionavam partes diferentes das costas, das pernas e dos braços dela, produzindo-lhe “uma indescritível sensação de bem estar”. Deve ser o que as crianças normais sentem quando são abraçadas e acarinhadas pelos pais.  O fato de Temple ter precisado inventar uma trapizonga mecânica para obter esse efeito mostra, como diria Drummond, que “cada pessoa é diferente e somos todos iguais”. 

Os autistas se fixam em pequenas obsessões, diz ela: animais, automóveis, livros. Pode-se usar essas obsessões para lhes ensinar matemática, desenho, história, etc.  Infelizmente nosso ensino não é (nem tem como ser) personalizado. Existe um conjunto de fórmulas que todos devem assimilar até a graduação e o diploma. Quando os autistas forem maioria (estão aumentando!), talvez isso mude.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

2565) A escola na retaguarda (25..5.2011)



A indústria cultural ultrapassou a escola, nas últimas décadas, como instrumento formatador das mentes de crianças e adolescentes. Existe um cabo-de-guerra permanente entre pais e filhos com relação ao tempo de estudo e tempo de lazer. A garotada passa cinco horas na escola; quando volta, quer jogar videogame ou ver televisão. Os pais insistem para que eles vão fazer os deveres, vão estudar, e os guris esperneiam: “Pô, passei a manhã inteira na escola, chego em casa vou ter que estudar de novo?!”. Assim que conseguem, correm para a TV ou o PlayStation e entram numa frenética atividade mental. Se pudéssemos botar em nossos filhos um capacete de eletroencefalograma-em-tempo-real, veríamos que nas duas ou três horas em que passam jogando “Fallout” produzem a mesma quantidade de energia mental dispendida em 150 horas estudando matemática.

Eliminar os aspectos negativos da indústria cultural é uma missão impossível, pois seria preciso bloquear sua sequiosidade vampírica pelo lucro, ou seja, seria preciso negar sua própria natureza, sua própria razão de ser. O símbolo da indústria cultural poderia ser o Fabricante de Jujubas. Ele sabe que a jujuba não alimenta coisa nenhuma, não traz nenhum bem ao organismo, em grandes quantidades pode até fazer mal; mas jujuba é o que ele sabe fabricar... Sendo assim, pau na máquina e jujuba no mundo. Quando alguém o questiona, ele diz: “Mas o povo gosta!” A indústria cultural é uma gruta-de-ali-babá com milhões de jujubas alimentares, televisivas, recreativas, tóxicas, o escambau. Cada um fabrica uma jujuba diferente e nega ser responsável por qualquer problema; se alguma jujuba está fazendo mal, é a do vizinho, não a dele.

Tanto a escola tradicional quanto a indústria cultural têm aspectos positivos e negativos. O difícil é juntar os aspectos positivos dos dois e eliminar os negativos. Existe um pensamento generalizado de que a escola, do jeito que é, segura cada vez menos a atenção e o interesse da meninada. O lazer gratuito (eletrônico) é cada vez mais abundante. As aulas são chatas (giz... quadro-negro...). As matérias são consideradas incompreensíveis ou irrelevantes. Os professores dão as mesmas aulas, ano após ano, com estoicismo, com resignação, em busca da sensação (que nem sempre lhes chega) de que cumpriram com o seu dever. Ganham uma merreca; se perderem o vislumbre do idealismo, de que estão formando os jovens do futuro, o que lhes resta? É difícil eliminar os aspectos negativos da escola tradicional porque eles se referem principalmente a pilares estruturais como conteúdos, legislação, metodologia, composição curricular, reorganização do tempo e do espaço físico, etc., e mexer nisso corre o risco de derrubar o edifício inteiro.

Como dizia Bob Dylan: “É um mundo engraçado, este que está surgindo; parece doente e faminto, parece cansado e andrajoso. Dá a impressão de que está morrendo, mas mal acabou de nascer”. Vai ver que é isso mesmo.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

2561) As notícia tão errada (20.5.2011)



(Mário de Andrade, por Baptistão)

Tem causado polêmica o livro Por uma vida melhor de Heloísa Ramos, Ed. Global, em que supostamente o MEC estaria ajudando a destruir a língua portuguesa e prejudicando a alfabetização das crianças. É a campanha política de sempre, procurando más intenções nas menores coisas feitas pelo Governo. Acho um absurdo manchetes ou chamadas tipo “Livro usado pelo MEC ensina aluno a falar errado”. Não é isso, absolutamente. O livro, pelo que vi, faz o que eu faço nestas minhas colunas: defender a fala informal, coloquial, como uma maneira paralela de usar a língua, que pode muito bem conviver com a Norma Culta. Mas eu acho que todos lucraríamos se o enfoque político, mero pretexto para “meter o pau no Governo”, fosse substituído por um enfoque voltado para a língua portuguesa, que é o que está em questão. Eu critico todo Governo, mas neste caso os dois lados merecem críticas.

Diz a autora do livro: "O importante é chamar a atenção para o fato de que a ideia de correto e incorreto no uso da língua deve ser substituída pela ideia de uso da língua adequado e inadequado, dependendo da situação comunicativa". Concordo com isto, menos num detalhe, a expressão “substituída”. Não podemos perder a idéia de correto e incorreto, porque existem coisas que são flagrantemente incorretas. E não se pode dar a ninguém a impressão de que a Norma Culta da língua (que também defendo, consistentemente, nesta coluna) não serve para nada, e pode ser substituída pela norma coloquial, ao gosto do falante. (O livro não defende isto, claro. Mas os termos que usa abrem espaço para que alguém o acuse disto.)

Cada um fala do jeito que lhe apraz. Eu digo o tempo todo coisas como: “As pessoa pensa que a Gramática é um bicho de sete cabeça”. É assim que eu pronuncio as palavras quando estou falando, resíduo plebeu de quem foi criado em rua sem calçamento. Mas se eu for escrevê-las vou escrever como Camões escreveria, resíduo elitista de quem foi criado em casa com biblioteca. A não ser que eu esteja escrevendo, num romance ou numa peça, um diálogo de um personagem que fala assim. Então, tenho que escrever assim.

O livro tem a boa intenção de diminuir o enorme sentimento de culpa, de inadequação, de complexo de inferioridade, em milhões de alunos pobres que são escarnecidos diante da turma por terem escrito ou pronunciado uma palavra da única maneira que aprenderam, e que não é a da Norma Culta. O “preconceito linguístico” existe, e existe forte. Nosso dever é legitimar as falas coloquiais, regionais, etc., sem dar a impressão de que se está dispensando o ensino, o estudo e a prática da Norma Culta. A Norma Culta é a âncora da língua, que a mantém firme no centro de uma consciência coletiva e compartilhada. A Norma Culta evita que ela se estilhace em milhares de falares regionais ou, pior ainda, em milhões de indivíduos falando uma língua pessoal que só eles entendem.

sábado, 10 de julho de 2010

2254) Os pais monstros (29.5.2010)



O “Globo” de domingo passado deu uma matéria que, se conseguíssemos eliminar o tom descontraído de um artigo de jornal, poderia facilmente se transformar numa história de terror. O jornalista fala sobre um novo tipo de problema que está aparecendo no meio educacional do Japão: os pais monstros, pais que interferem de todas as maneiras possíveis na educação que seus filhos recebem nas escolas. Ao que parece, há uma faixa de pais (não muito larga, mas muito atuante) que toma para si uma responsabilidade excessiva quanto à educação dos filhos, e não deixa em paz nem a escola nem os professores. Segundo a matéria de Claudia Sarmento, nos EUA esses pais são conhecidos como “pais helicópteros”, porque fazem muito barulho e espalham poeira quando chegam.

Alguns pais plugam gravadores no uniforme dos filhos para gravar todas as aulas e em casa, à noite, examinar o que os professores disseram, e, muitas vezes, discordar deles. Como a cultura japonesa é extremamente formal, uma reprovação no fim do ano é quase uma catástrofe familiar. Nas competições esportivas, os colégios são coagidos a distribuir medalhas com os alunos de acordo com as expectativas ou as ansiedades destes (para que o fracasso não os traumatize), e não com o resultado das provas.

Diz a matéria: “Há mães que exigem que professores busquem seus filhos em casa ou lavem seus uniformes; outras obrigam o colégio a refazer o álbum de fotos escolar porque seus filhos apareceram ao lado de coleguinhas mais bonitos”. E há episódios hilários como o da montagem de uma peça de “Branca de Neve e os 7 Anões” sem anões (ninguém quis o papel) e em que todas as meninas faziam o papel da Princesa. Quando eu vejo essas coisas, sinto um profundo alívio por ter desistido de seguir a carreira de professor.

Pressão sobre professores não é raridade aqui no Brasil. Quem mexe com educação sabe que saímos de um século em que a regra eram professores tirânicos que perseguiam, oprimiam e apavoravam os pobres alunos, para um século em que alunos tirânicos apavoram, oprimem e perseguem os pobres professores. Ninguém é bonzinho a priori. Em escolas públicas de periferia, vemos professores pacatos, fatigados por excesso de trabalho, sofrendo para ajeitar a vida dentro do salário minguado que recebem, e tendo que enfrentar adolescentes belicosos, desafiadores, insubordinados e que muitas vezes vão para a aula drogados ou com armas. E em escolas caras, escolas selecionadíssimas, onde se formam nossas elites econômicas e políticas, já vi professores se queixando de serem humilhados pelos alunos riquinhos. Uma amiga minha ensinou numa escola, aqui no Rio, em que todos os alunos dela vinham para a aula de carro blindado e motorista particular. E quando levavam uma nota baixa ou uma repreensão em sala, diziam: “Vou me queixar de você ao meu pai, você tem idéia de quem é meu pai?”. É assim, amigos. Num país que perdeu seu centro, tudo é periferia.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

2192) Mais pérolas do vestibular (18.3.2010)




A realização recente de alguns vestibulares trouxe novamente à baila a questão do despreparo dos nossos estudantes, principalmente quando se trata de responder perguntas por extenso, usando suas próprias palavras. 

 Ninguém mais discute que o nefando método quantitativo (o método do xizinho, ou da múltipla escolha) destruiu o sistema neuronial de várias gerações sucessivas. Os jovens não são mais capazes de dizer o que pensam, se é que pensam. Não têm mais opiniões e nunca aprenderam a tê-las, porque sempre foram estimulados a responder com qual opinião alheia, num conjunto de cinco, eles concordam. 

São nossos frankensteins. Mangamos deles, e deve existir alguma entidade metafísica mangando mais ainda de nós. Eis algumas das pérolas mais recentes.

HISTÓRIA GERAL

“O Egito era especializado em obras faraônicas que continuam de pé a milhões de anos”. 

“A Guerra da Sucessão nos Estados Unidos colocou em pontos contrários os escravagistas e os tabagistas”. 

“Durante a Revolução Francesa foram guilhotinados inúmeros reis e rainhas e inclusive gente do povo mesmo”. 

“O Rei Luís XIV criou o Museu do Louvre para abrigar os tesouros do Iluminismo”.

ECOLOGIA: 

“A floresta amazônia está no meio dos ambientes ameaçados pelo gás estufa”. 

 “Devido ao esquecimento global, nossas forestas estão em petição de miséria”. 

“O governo federal faz somente promugar novas leis de desmatamento mas a serração continua”. 

“Desde a morte de Chico Mendes a floresta amazônica nunca mais foi a mesma”.

MATEMÁTICA: 

“Números primos são números ímpares que não se deixam dividir”. 

 “Raiz quadrada é o processo para adivinhar qual foi o número que elevado ao quadrado deu aquele”. 

“A Álgebra surgiu para satisfazer uma necessidade da mente humana de resolver problemas complexos usando letras simples”.

PORTUGUÊS: 

“Oração principal é aquela mais importante nos momentos de maior necessidade, como por exemplo o Pai Nosso”. 

“O português teve origem no Latim vulgar, que era a língua falado pelos centuriões romanos enviados para Portugal”. 

“A Reforma Ortográfica veio promover a opressão das consoantes mudas e dos assentos diferenciados”.

LITERATURA BRASILEIRA: 

“Durante o apogeu do Modernismo, virou moda fazer versos sem rimar, a menos que o poeta quisesse”. 

“João Cabral de Melo Neto ficou mundialmente famoso pelo seu poema da Pedra no Caminho”. 

“O Romantismo e o Realismo são as duas escolas mais importantes da literatura, com a diferença que cada uma não acha a outra importante”.

Achou graça, amigo? Eu também achei. Recebo pela Internet tantas besteiras atribuídas aos nossos vestibulandos! Boa parte delas deve ser produto não da ignorância dos coitados, mas da galhofa de redatores de humor desocupados, como o locutor que vos fala. Inventar estas frases me divertiu enormemente, e vou me divertir mais ainda quando as reencontrar daqui a alguns anos, atribuídas aos pobres coitados que herdarão o que restar do nosso país.






terça-feira, 8 de junho de 2010

2118) A casa, a escola e a rua (22.12.2009)



(grafitos de Vitche e Flip)

São nossos três palcos de aprendizado, os três ambientes onde nos ensinam o básico (ou seja, nos ensinam a aprender e a utilizar o aprendido) e depois nos mandam às feras. Cada um desses ambientes tem primazia em diferentes épocas da nossa vida. A primeira infância pertence toda à Casa. Os pais e a família concêntrica passam pro bebê as primeiras noções de qualquer coisa, num processo que muitas vezes vai até a vida adulta. O rapaz ou a moça que sai da casa paterna (geralmente para casar) aos vinte e tantos anos de idade está partindo um cordão umbilical que é real, não tem nada de simbólico. É um cordão psicológico, mas tão real que tem gente que não consegue parti-lo nunca.

A Escola começa quando chega a hora do pirralho ser enviado para seu primeiro jardim-de-infância, onde começa a ser deixado sozinho (longe dos pais), a bater de frente com outros pirralhos que estão passando pelo mesmo susto e desmame, e a ter lições formais num ambiente formal. Escola tem sempre uma conotação chata. Nossos filhos sempre perguntam, principalmente dos 12 anos em diante: “Mas pra quê que eu tenho que estudar essas coisas? Pra que é que eu vou precisar disso?” Não sei, e até a idade em que estou não precisei extrair nenhuma raiz quadrada ou cúbica, não precisei saber quem eram os membros da Regência Trina Provisória, nem alguém jamais me perguntou quais eram os elementos químicos monovalentes, bivalentes ou trivalentes. Mas respondo: “Estudar essas coisas ensina disciplina de estudo, não ensina as coisas em si. Ensina você a enfiar a cara num livro e aprender alguma coisa, e vai precisar disso um dia, quando se defrontar com coisas que lhe interessam mas que exigem esforço para serem assimiladas”.

E finalmente vem a Rua. Essa está sempre presente, de um modo ou de outro, mas é a partir da adolescência que ela rapidamente bota as outras duas no bolso e impõe ao garoto ou à garota suas leis inescapáveis. O mais danado da rua é que ela é sedutora de um modo que Casa e Escola nunca são. Ou talvez devêssemos reconhecer que a Rua parece ter as respostas para as perguntas que os hormônios ficam fazendo 24 horas por dia, 60 segundos por minuto, dentro dos metabolismos turbilhonantes dos nossos filhos. É fácil dizer que essas respostas são o sexo, as drogas e o rock-and-roll. Pelo que me lembro, de quando passei por essa encarnação, o que a rua tinha de mais fascinante era a solidão. O fato de eu saber que ali estava entregue a minhas próprias forças e espertezas, e que na hora de um problema não poderia contar com meus pais, nem com o surrado recurso de “ir me queixar na Secretaria do Colégio”. A Rua é fascinante porque é o nosso destino final. Quando chegamos nela, nunca mais saímos. É para viver na Rua que Casa e Escola nos preparam, é para atuar na Rua que estávamos estudando não importa o quê (frações, pronomes, Tordesilhas, co-senos), porque as perguntas que a Rua nos fará nunca são as que esperávamos.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

1704) Educação e Cultura (28.8.2008)



Quando eu participava uma vez de um desses seminários sobre questões culturais, alguém da platéia perguntou qual era afinal a diferença entre Educação e Cultura. Respondi, meio de improviso, que Educação é tudo aquilo que a gente aprende a fazer porque alguém nos obriga, e Cultura é o que a gente aprende por interesse próprio. Reconheço tecnicamente que não é uma definição aceitável, mas ela aponta uma distinção importante. A Educação é um processo formalizado pelo Estado e por variados grupos (religiosos, militares, etc.), que procura preparar os cidadãos para a vida. Comparada a ela, a Cultura quase que faz parte da Natureza: é uma superposição caótica de experiência a que qualquer um é sujeito desde o instante em que abre os olhos.

A Cultura é aleatória, a Educação é planejada. A Cultura é difusa, a Educação é focalizada. A Cultura está em toda parte, a Educação se dá em recintos específicos. E, evidentemente, as duas também se misturam. Dentro de uma sala de aula, no momento mais formalizado possível da Educação, tudo que ocorre ali faz parte, simultaneamente, da Cultura: o jogo de poder, a competição, o modo de enfocar a matéria, as perguntas, os exemplos, o modo como aquele assunto toca ou não a vida real de cada aluno. A Cultura é tudo, e inclui dentro de si a Educação, que é uma radicalização de seus propósitos (integrar o indivíduo na atividade coletiva). A Cultura é uma educação informal; a Educação é a Cultura sistematizada e administrada segundo um planejamento.

Imagino que as escolas surgiram da necessidade de sistematizar a Cultura. Havia milhões de conhecimentos flutuando na sociedade, era preciso escolher os mais importantes. Na Idade Média havia um grupo de três disciplinas humanísticas (o “trivium”: gramática, retórica, dialética) e outro de quatro disciplinas técnicas (o “quadrivium”: aritmética, astronomia, geometria, música). Sempre que li sobre isso achei interessante que naquele tempo ninguém ensinasse coisa hoje básicas como História ou Geografia. Por outro lado, é normal a ausência das disciplinas científicas de hoje (Física, Química, Biologia, etc.), que na época não existiam – os conhecimentos a respeito eram englobados numa nebulosa Filosofia Natural ou coisa parecida.

Volto sempre a pensar nisto quando percebo a enorme antipatia dos jovens em geral para com as matérias que fazem parte dos currículos escolares. E lhes dou razão. Eu sobrevivo muito bem sem jamais ter estudado Física ou Química. Aliás estudei, mas no âmbito da Cultura, por desejo próprio, lendo livros de ficção científica e precisando de duas ou três leituras paralelas para poder entender o que acontecia ali. Conhecimentos tão especializados deveriam vir assim, quando se fizessem necessários, e não numa lavagem cerebral obrigatória. Seria o mesmo que obrigar todo mundo a estudar Filosofia, Latim ou Orquestração. Para quê? Melhor deixar para os que realmente se interessam.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

1503) O peixe e a pescaria (6.1.2008)


(ilustração: Julie Paschkis)

Todo mundo conhece aquela frase: “Se um homem está com fome, melhor do que dar-lhe um peixe é ensinar-lhe a pescaria”. Claro que depende das circunstâncias – se o sujeito está desfalecendo de fome e mal pode se mover, dar-lhe um prato de comida pode ser mais importante, num primeiro momento, do que oferecer-lhe um emprego. Esse processo reproduz mais ou menos o que fazemos com nossos filhos. Assim que nascem começamos a dar-lhes tudo: alimentação, cuidados médicos, carinho, educação. Aos poucos, vão adquirindo habilidades, responsabilidades, desenvoltura. Até que chega o dia em que consideramos que eles já sabem pescar, e os abraçamos, dizendo: “Vai, meu filho! Vai, minha filha! Voa alto, porque tuas asas já estão prontas e fortes!” (Problema é que essa cena tão bonita nunca acontece – são eles que decidem por conta própria cair fora, e somos os últimos a ficar sabendo).

Isto me vem à mente quando, por inusitado que pareça, estou vendo certas manifestações artísticas de qualidade constrangedoramente ruim. São os versos tatibitates da poetisa jovem, são os vídeos caóticos do aprendiz de cineasta, são as músicas banais do recém-compositor de MPB, são as peças de teatro estudantis que não passam de uma sucessão de clichês recitados com voz pomposa e postura rígida. O que devemos fazer diante disso? Encorajar? Criticar? Mandar mudar de vocação?

Talvez nessas horas a gente deva distinguir entre duas atitudes. Devemos perguntar: “Essa pessoa está me oferecendo um peixe que pescou. O que é importante, o peixe ou a pescaria?” Quando o jovem artista está ainda procurando seu caminho, devemos deixar de lado a qualidade do peixe, porque não é ele que conta. O peixe pode ir para o lixo, se não prestar, como é para o lixo que vão nossos rascunhos insatisfatórios, nossas cenas mal filmadas, e assim por diante. O produto é o que menos importa, porque ali se trata de um processo de aprendizado, de uma pescaria onde só conta a educação do pescador.

O problema é quando esses trabalhos já se dão dentro de um contexto profissional ou oficial, num contexto em que se pressupõe que o sujeito já é capaz de produzir obras ou trabalhos ao nível dos que constituem o que uns chamam O Mercado, mas que podemos chamar (atenuando o aspecto mercantilista da coisa) de A Cena Cultural – o ambiente em que obras são exibidas a sério e apreciadas pra valer. Aqui, parte-se do princípio de que o pescador já está pronto, e o que passa a ter importância é a qualidade do peixe que ele fornece. Um filme exibido num cinema, um romance enviado a uma editora profissional, uma peça que reserva pauta num teatro, um show que cobra ingressos – tudo isto deixa subentendido que seus autores não estão mais aprendendo a pescar. A benevolência que poderíamos ter para com suas limitações ou seus erros se dilui no momento em que eles nos tentam, literalmente, vender seu peixe.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

1380) A Idade da Ignorância (16.8.2007)





(C. P. Snow)

O jornal “The Observer” convidou três escritores, três cientistas e dois apresentadores de TV para responderem perguntas básicas sobre ciência. A intenção era dar um balanço de como andam os nossos conhecimentos gerais. 

As perguntas são relativamente simples, mas para meu enorme embaraço percebi que não sabia as respostas certas para a maioria delas. Aliás, não só eu. A maioria dos entrevistados também. 

As perguntas eram: Por que o sal se dissolve na água? Qual a idade da Terra? O que acontece quando você acende uma lâmpada? Um clone é o mesmo que um gêmeo? Por que o céu é azul? Qual é a Segunda Lei da Termodinâmica? Eu acertei duas, mas não direi quais.

O jornal propunha um debate – que já vem rolando há décadas – sobre a divisão do mundo ocidental em duas culturas, uma humanista e artística, e outra científica e tecnológica. Em geral, quem faz parte de uma ignora e desdenha a outra. 

Essa denúncia foi feita pelo britânico C. P. Snow em seu livro As Duas Culturas e a Revolução Científica (1959). Snow combatia a ignorância científica dos intelectuais britânicos de sua época.

Dizia ele: “Muitas vezes compareço a reuniões de pessoas que, pelos critérios tradicionais, são consideradas muito cultas, e que se espantam com a falta de cultura dos cientistas. Uma ou duas vezes, reagindo a provocações, eu lhes perguntei o que eles sabiam a respeito da Segunda Lei da Termodinâmica, ou a Lei da Entropia. A resposta sempre foi fria, e negativa. E na verdade eu estava perguntando o equivalente científico a: Vocês já leram alguma obra de Shakespeare?” 

Neste ponto, os grandes cientistas saem ganhando – todos eles demonstram uma grande amplitude de leituras e de apreciação artística (música, pintura, etc.).

A certa altura da vida, todo indivíduo bem sucedido social e financeiramente acha que o que sabe já dá pro gasto, e que não precisa aprender mais nada. E no entanto se saíssemos fazendo perguntas desse tipo por aí, teríamos um retrato patético do que são nossos “intelectuais”. 

Não me refiro a ir fazer esse tipo de pergunta no metrô ou na calçada. Bastaria fazê-las nas Academias literárias, nas redações de jornais, no Congresso Nacional, nos Conselhos Universitários. Cada um só sabe as coisas do seu ofício – e olhe lá!

No meu livro O que é ficção científica (1986) citei uma frase de Arthur C. Clarke: “Uma pessoa que conheça tudo sobre as comédias de Aristófanes e nada sobre a Segunda Lei da Termodinâmica é tão inculta quanto aquela que dominou a teoria quântica mas pensa que Van Gogh pintou a Capela Sistina”. 

Nosso conhecimento do mundo será sempre imperfeito e deformado. É ilusão pensar que alguém, em algum momento, já entendeu o que é o mundo. Aristóteles, Hegel, Einstein, Marx, Freud... cada um deles descreveu uma unha do pé do elefante, e olhe lá. Mas isto não é razão para que a gente esnobe quem procura estudar o elefante, nem para que a gente se recuse a admitir que o elefante existe.





sábado, 18 de julho de 2009

1162) Quem nos ensinou a ler? (3.12.2006)




Perguntam-me com freqüência por que motivo a Paraíba tem uma tradição literária desproporcional ao seu tamanho ou à sua economia. Tudo que posso fazer são suposições em voz alta.

Penso que o Nordeste teve duas frentes de colonização: a do litoral e a do interior. A do litoral era a colonização oficial, feita de navio, de porto em porto, trazendo as autoridades do Brasil Colônia, do Brasil Reino, do Brasil Império, do Brasil República. A do interior se deu ao longo do Rio São Francisco, com bandeirantes, caçadores de índios, criadores de gado.

Beirando os numerosos rios dos sertões, os desbravadores criaram uma civilização rude, aguerrida, ascética, onde a presença do Estado (fosse em que século fosse) era nula.

Atrás deles, vinha a Igreja Católica, trazendo a alfabetização e a instrução. Esses pioneiros desconheciam a existência das Capitais. Nunca pediram nada a governo. Não vieram de navio, vieram por dentro, chupando imbu.

No Nordeste surgiram estas duas civilizações cujos primeiros choques políticos, econômicos e militares ocorreram no século 19, e cuja crise mais grave foi a Revolta de Princesa – e a Revolução de 30. Cearenses, baianos e pernambucanos talvez discordem, mas, paciência, esta coluna só tem 3 mil toques.

Canudos, Padre Cícero, Guerra de Doze, tudo isto são os grandes épicos do nosso faroeste da vida real, que não deve nada a John Ford ou Howard Hawks.

E por baixo disto tudo, silenciosamente, vinha o Livro.

Pensem, por exemplo, no que foi a explosão da Poesia Barroca em pleno sertão, com os poetas que criaram o Romanceiro Popular Nordestino a partir de 1850: Silvino Pirauá, Ugolino e Nicandro Nunes, Germano da Lagoa. Cantadores como Romano do Teixeira, capazes de compor décimas barrocas de improviso.

E os padres que fundavam colégios em lugares que só vieram ter prefeituras décadas depois. Colégios de onde meninos sertanejos saíam compondo sonetos e declinando em latim.

No livro Editora Globo, sobre esta casa editorial gaúcha, Elizabeth Torresini transcreve um documento de 1927 que diz:

“Há Estados também para os quais essa taxa de analphabetismo fica abaixo de 75,5%. É principal destes o Rio Grande do Sul, onde esse coeficiente é de 64,2% vindo depois Parahyba do Norte com 68,8%, e, depois, sucessivamente: Território do Acre e São Paulo com 70,2% cada um, Santa Catharina com 70,5, Pará 70,7, Mato Grosso 70,9, Paraná 71,8, Amazonas 73,4, Rio de Janeiro 75,3”. 

Foi neste Brasil desigual que surgiu o Romance Regionalista dos anos 1930.

Quando entramos em Campina, há uma placa orgulhosa da Pitu: “Esta é a terra de Clementino Procópio”. Outras cidades celebram seus filhos famosos, que saem na TV e figuram nas enciclopédias. Eu me orgulho do fato de minha cidade se orgulhar desse professor anônimo, que do Cajá em diante ninguém sabe quem foi. Campina deve a ele (e a todos que ele aqui simboliza) a grandeza que já teve um dia e que pode voltar a ter.






domingo, 1 de março de 2009

0854) Meus Ateneus (11.12.2005)



Uma coisa que me chama a atenção nos colégios de hoje é o fato de que os garotos estudam sempre em turmas da mesma faixa etária. Um garoto ou garota de 13 anos que esteja na 6a. série, por exemplo, estuda ao lado de outros cuja idade varia de 12 a 14 anos, não muito mais do que isto. Um aluno de 15 ou 16 anos numa turma assim já seria considerado uma anormalidade. É claro que, no colégio como um todo, as idades se misturam no pátio, no recreio, nas atividades em geral. Mas dentro de cada sala de aula, onde passam a maior parte do tempo, é todo mundo “do mesmo tope”, como paraibanamente dizemos.

Pois, por falar em Paraíba, eu me lembro que quando eu tinha essa idade e cursava essa série (que então se chamava “segundo ano ginasial”) eu fazia parte de turmas onde havia alunos de 18 ou até 20 anos de idade. Por que isto? Há algumas razões sociológicas. Carência de escolas no interior, e quando as famílias se mudam para a cidade grande o filho está defasado. Índice de repetência alto: o sujeito leva dois anos na primeira série, três anos na segunda, os outros da mesma idade seguem em frente e ele fica estudando com garotos mais novos. E assim por diante.

Isto fazia com que nossas turmas se dividissem em dois grupos (os próprios professores usavam estes termos): “os grandes” (cerca de 20% a 30% da turma) e “os pequenos”. Com doze ou treze anos de idade eu disputava espaço (e comparava minhas notas escolares) com sujeitos que já tinham servido o Exército, que já trabalhavam, que tinham noiva, que freqüentavam a Zona, que bebiam, que fumavam... Muitos deles eram gente boa. Outros eram brutamontes que se impunham aos “pequenos” na base da ameaça física. Os recordistas de repetência tinham problemas com as matérias. Uns exigiam “cola” na hora da prova (“Me passa as respostas, senão vou te pegar na saída”); outros chegavam na véspera e pediam: “Vem cá, tu que sabe, me explica esse negócio aqui...”

Ouso afirmar que essa convivência me foi mais educativa do que as matérias em si, ensinando-me o mundo real, o jogo de política, violência e esperteza que eu iria encontrar na vida adulta. Sempre fui um dos “pequenos” e agradeço aos “grandes” as lições que recebi, mesmo sob a forma de um soco na cara. Foram úteis, e não foram esquecidas. Aprendi como o mundo funciona. Também tive lições de amizade, da parte de sujeitos tarimbados e malandros que juntavam os “pequenos” para explicar-lhes os mistérios da vida, desde o sexo até a bebida, desde ganhar a vida por conta própria até entrar sem pagar no campo do Treze. A convivência masculina nos colégios de então era mais áspera, por causa dessa mistura entre os profissionais calejados e os dentes-de-leite. Eu não a trocaria pelos guetos etários dos colégios de hoje, por mais que os educadores me convençam de que a fórmula atual é a mais indicada. Nos colégios em que estudei, vigorava a lei da Rua, ensinavam-se as lições da Rua, e sou-lhes grato por isto.