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quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

5223) Wells e o mundo do futuro (26.2.2026)



(A Máquina do Tempo, de George Pal, 1960) 

 
Desde o ano passado abri uma filial do “Mundo Fantasmo” na plataforma Substack, onde nossas postagens são enviadas em forma de newsletter para os assinantes. (Apareçam lá – o material que publico lá é diferente do daqui.). 
 
O link:
https://substack.com/@brauliotavares
 
Um dos autores que me animaram a assinar (gratuitamente) o Substack (além da insistência de Marcos Lobato – valeu, meu nobre!) foi Ted Gioia, cujos textos sobre música e eventualmente literatura eu já acompanhava há tempos. Gioia tem seu mural The Honest Broker, cujas publicações gratuitas venho seguindo desde que lá pus os pés. 


Nesta semana, o título da newsletter dele me trouxe arrepios, os quais se converteram em calafrios e tremores depois que comecei a ler seus “30 Fatos Sobre a Infância de Hoje Que Vão Horrorizá-lo”. Na amostra, copiei oito. Meu instinto de conservação me aconselhou a não consultar as 22 restantes. É demais para mim. Quem quiser se arriscar, vá em The Honest Broker. Resumo abaixo (excluo os comentários e dados estatísticos; podem ir direto à fonte). 
 
1) A média das crianças de hoje brinca fora de casa uma média de 4-7 minutos por dia.
2) O tempo que os jovens passam com amigos caiu pela metade.
3) Crianças entram na escola com sintomas próximos do autismo devido ao uso de aparelhos eletrônicos.
4) Crianças entram na escola com pouco vigor físico, retardo na fala, ossos com pouca densidade.
5) 70% das crianças abandonam a prática de esportes organizados por volta dos 13 anos.
6) Taxas de obesidade entre crianças foram às nuvens em anos recentes.
7) Algumas crianças chegam à escola sem força física para usar um lápis, ou para empunhar faca e garfo.
8) Algumas crianças são incapazes de usar sozinhas o toalete, pendurar seu casaco, e até de reconhecer o próprio nome.
 
Exagero, alarmismo, mimimismo, vitimismo? Não sei, mas todo mundo que tem filhos cedo ou tarde pega uma lista assim e a cada tantos ou quantos itens murmura: “Bingo”. 
 
As crianças e adolescentes estão enfraquecendo, não por subnutrição ou maus tratos, mas por um excesso de proteção mal direcionado, falta de experiências autônomas, receio de tudo que seja “presencial”, de atividades físicas, e principalmente de desconfortos físicos. A eletronização da percepção física (visão, ouvido, coordenação motora, orientação espaço-temporal) é um problema também, mas não é o único. A culpa não é “do videogame”, ou “do celular”. 
 
O pessoal da web criou o apodo sarcástico de “alecrins dourados” ou de “bolas de neve” para ridicularizar essa juventude débil, tartamuda, assustadiça, passivo-agressiva. 
 
Duas coisas me vieram à memória.


 
Os sinhôzinhos das Casas-Grandes dos engenhos de antanho, tão cruelmente e ternamente descritos por seu maior cronista, Gilberto Freyre: 
 
Mimos que em certos casos prolongavam-se pela segunda infância. Houve mães e mucamas que criaram os meninos para serem quase um maricas. Moles e bambos. Sem andar a cavalo nem virar bunda-canastra com os muleques da bagaceira. Sem dormir sozinhos, mas na cama-de-vento da mucama. Sempre dentro da casa brincando de padre, de batizado e de pais das bonecas das irmãs. O Padre Gama nos fala de meninos  que conheceu sempre “empapelados e envidraçados”, e tratados com tantas “cautelas de sol, de chuva, de sereno, e de tudo, que os pobres adquirem uma constituição débil, e tão impressionável que qualquer ar os constipa, qualquer solzinho lhes causa febre, qualquer comida lhes produz indigestão, qualquer passeio os fadiga, e molesta”. 
(Casa Grande & Senzala, Ed. Record, 40ª. edição, p. 426) 
 
Famílias medianamente abastadas apressam-se a proteger-se, defender-ser, guardar-se das menores ameaças; e com isso definham, perdem a energia que seus antepassados tiveram. 


(A Máquina do Tempo)
 

Sociedades inteiras podem se tornar assim, e neste caso valem as reflexões do Viajante no Tempo de H. G. Wells, que salta do ano de 1895 para o de 802.701 e se depara com um mundo aparentemente povoado apenas por jovens louros, sorridentes, pacíficos, inofensivos, cuja língua ele não entende, mas cujos hábitos começa a querer decifrar pela mera observação. 
 
São os Eloi, uma espécie de hippies do futuro. Um povo cuja finalidade nessa Terra do século 8000+ é um dos segredos do livro, sobre o qual não darei spoiler. Basta registrar a perplexidade do Viajante no Tempo diante daquela vida aparentemente tão despreocupada e inocente. Diz ele, no capítulo 4 (trad. BT): 
 
Tive a impressão de estar encontrando a humanidade na sua fase de lento declínio.  Aquele por-do-sol me levou a pensar no crepúsculo da própria espécie humana.  Pela primeira vez comecei a perceber uma consequência bizarra dos esforços sociais nos quais estamos mergulhados em nossa época.  E não obstante é uma consequência bastante lógica.  A força é um resultado da necessidade; a segurança conduz ao enfraquecimento.  O esforço para melhorar as condições de vida – o verdadeiro processo civilizatório que torna a vida cada vez mais segura – tinha avançado até atingir o clímax.  (...) 
 
Com essa mudança de condições vem, inevitavelmente, a necessidade de adaptação às novas condições produzidas pelas mudanças.  Qual é, a menos que nossa ciência biológica seja uma montanha de erros, a causa da inteligência e do vigor da raça humana?  Uma vida livre enfrentando condições adversas, condições nas quais os indivíduos ativos, fortes e sagazes sobrevivem, e os fracos são condenados; condições que premiam a capacidade dos homens para o esforço conjunto e solidário, além do auto-controle, da paciência, da capacidade de decidir.  E a instituição da família, e as emoções que ali são geradas, o ciúme, a ternura pelos filhos, a devoção dos pais, tudo isto é justificado e explicado pela presença de perigos que ameaçam os mais jovens.  E agora – onde estão esses perigos?  Há um sentimento crescente, e que irá crescer ainda mais, contra o ciúme conjugal, contra a dedicação exclusiva à maternidade, contra as paixões de qualquer espécie; coisas desnecessárias agora, e que nos deixam desconfortáveis.  São resíduos da vida primitiva, e se tornam dissonâncias na vida refinada e agradável de hoje. 
 
A visão de Wells é uma visão influenciada pelos pensadores de sua época: Darwin, Spencer, Marx, etc.  A percepção das mudanças biológicas e sociais foi a cara desse século em que era possível, com certa segurança científica (sempre ilusória, porque contingente, mas necessária) imaginar o futuro. 
 
Pensei na delicadeza física daquelas pessoas, na sua falta de inteligência, e nas ruínas que via por toda parte; isto aumentou a minha crença numa conquista total da Natureza.  Porque após a batalha vem a quietude.  A humanidade tinha sido forte, enérgica, e inteligente, e tinha usado essa vitalidade exuberante para alterar as condições do mundo em que vivia.  E agora vinha a reação do mundo que tinha sido alterado. (...) 


(A Máquina do Tempo


Calculei que há anos sem conta tinha deixado de existir ali qualquer risco de guerra ou de violência pessoal, qualquer perigo de ataques de animais selvagens, nenhuma doença grave a requerer uma constituição forte, nenhuma necessidade de trabalhos braçais.   Para uma vida assim, os fracos eram tão capacitados quanto os fortes, e nem podiam mais ser chamados de fracos.  Eram até mais bem capacitados, pois os fortes seriam perturbados por uma energia para a qual não havia uso.  Não havia dúvida de que a beleza peculiar dos edifícios que eu via eram o resultado dos derradeiros impulsos dessa energia na humanidade, energia agora desnecessária, depois que ela repousava numa harmonia perfeita com as condições ambientes: o último florescer do triunfo que resultou na paz definitiva.  Tem sido sempre este o destino da energia humana em condições de perfeita segurança: derivar para a arte e o erotismo, e depois para a languidez e a decadência. 
 
Mesmo o impulso da arte não duraria para sempre, e estava quase extinto naquele Tempo de que fui testemunha.  Adornar-se com flores, dançar, cantar à luz do sol: era tudo o que tinha sobrado do espírito artístico.  E mesmo isto estava condenado a desaparecer, no fim, dando lugar a uma complacente inatividade.   Mantemo-nos sempre afiados quando somos submetidos ao esmeril da dor e da necessidade, e agora me parecia que esse mecanismo fatídico tinha finalmente sido despedaçado! 
 
A narrativa de Wells acaba se desdobrando por terrenos inesperados, mas de momento o que me interessa é essa percepção, na Era Vitoriana, de que uma das armadilhas (são várias) do Progresso é a falsa sensação de dever cumprido, problema resolvido. 
 
Nenhum futuro nos trará a sensação de “a batalha foi ganha, podemos agora relaxar”. 
 
A sensação tentadora do “fim da História”, de que já se chegou ao estágio ideal de abundância, e que agora basta deixar a máquina do Estado ser manipulada pela mão invisível do mercado e tudo vai fluir em céu de brigadeiro (não vai). 
 
 



segunda-feira, 25 de novembro de 2019

4526) "Enfim, capivaras" e a sala de jantar (25.11.2019)




(Luisa Geisler)

Existem muitos tipos de censura. Tem a censura política, a censura sexual, a censura religiosa...00

E existe um tipo de censura que seria, digamos, uma censura comportamental. Proíbe-se um livro (filme, canção, etc.) porque nele as pessoas se comportam de uma maneira que a autoridade proibidora considera inadequada, ou usam uma linguagem inadequada.

Foi o que aconteceu há pouco tempo com a escritora Luisa Geisler, convidada para a Feira do Livro de Nova Hartz (RS) e desconvidada dias depois porque alguém da prefeitura local (patrocinadora do evento) achou que o livro dela tem “linguagem inadequada”.

No livro, Enfim, Capivaras, um garoto mentiroso alega ter uma capivara de estimação. A história conta as aventuras dele e de seus amigos, durante uma noite inteira, tentando achar uma capivara de verdade.

O problema não é político, nem religioso, nem sexual. É a atitude de “vamos proteger o jovem”.  Diz Luisa (“O Globo”, 14.11.2019):

Dentro disso, há personagens confusos sexualmente, relacionamentos mal resolvidos, álcool, salgadinhos e, claro, capivaras de gravata em carrinhos de mão. Os personagens falam como adolescentes falam. Usam gírias e palavrões. Não pedem “por favor”, nem dizem “obrigada”. Eles se xingam. Alunos me informaram que seus professores disseram que esse tipo de linguajar não pode existir em livros. Não é apropriado.

Jovens ouvem palavrão e veem comportamentos “inconvenientes” na televisão de casa, nas televisões da rua, no cinema, nas revistas, nos vídeos de seus próprios celulares. Mais do que isso: veem na vida real. Não é um livro que vai ensinar um adolescente a dizer “é bom pra caralho” ou “vai tomar no cu”. É a vida.

As autoridades querem poupar os jovens de ouvir frases terríveis como essas, mas proibir um livro não vai adiantar nada.

Milhões de jovens passam o dia ouvindo palavrão, mas não dizem palavrão porque não gostam de falar assim – e estão certos. 

Tem outros que falam, porque o palavrão os ajuda a expressar seus sentimentos – e estão certos também. 

Cada pessoa cria seu próprio estilo de falar.

Por outro lado, já vi argumentos no sentido contrário. Há professores, pais, etc. que dizem: “A rua já está um horror, uma agressividade enorme, todo mundo falando palavrão. Por que trazer isso para a literatura? A literatura é um espaço que deveria privilegiar os bons sentimentos, os bons exemplos, as boas lições.”

Quem quiser difundir o bom comportamento e os bons modos tem uma solução muito boa: basta escrever e publicar livros onde isso aconteça, sem a necessidade de proibir a leitura dos demais. Se, por essa lógica, basta um garoto ou garota ler um livro onde aparecem palavrões para começar a usá-los, pela mesma lógica basta ele(a) ler um livro onde os personagens falam linguagem educada para começarem a falar educadamente também.

A literatura não pode ser menos suja do que a vida real, menos violenta, menos conturbada, menos chata, menos qualquer coisa. A literatura é uma destilação da vida, mas não no sentido de pasteurizá-la, e sim no sentido de se tornar um “concentrado” de vida. Um concentrado onde numa gota (uma gota de 120 páginas, digamos) se encontra experiência suficiente de uma vida inteira.

Como diz a autora do livro:

Acima de tudo: o que tem na realidade dos jovens em escolas municipais hoje em dia? Muito mais do que palavrão e capivara. Quando vocês falam que uma linguagem mais informal não merece ser sequer lida, estão dizendo que o jeito que esse jovem fala é inferior, sem valor. Você fala que o rap não tem mérito como parte da cultura. A linguagem é plástica e complexa na sua completude; o mundo é plástico e complexo na sua completude.

Os livros são uma extensão da vida real. No dia em que inventarem um filtro impedindo que a vida real passe para dentro deles, eles serão impressos em branco.

A atitude de “vamos proteger a literatura” me lembra um dado social muito curioso que eu observo desde garoto, desde meus 10 ou 12 anos, quando eu era tão inocente que não dizia “puta que pariu”.

Nas nossas casas de classe média havia, e há, o costume de comprar móveis melhores para a sala de jantar: uma mesa grande de madeira escura e boa, às vezes toda entalhada; cadeiras de espaldar alto, na mesma madeira, combinando; uma cristaleira com frente e prateleiras de vidro, cheia de jarras, sopeiras, terrinas, pratos, taças, xícaras, talheres de boa qualidade.

A família comprava isso... mas não usava. Eu ia estudar na casa dos meus colegas e quando era convidado para almoçar ou jantar era na mesa grande da cozinha, que era onde a família comia diariamente. Às vezes eu perguntava pela sala de jantar, e me explicavam: “São móveis caros, coisas caras, só podem ser usados nas grandes ocasiões.”

Eu não sentia falta, porque me sinto super à-vontade numa casa onde as pessoas se reúnem na cozinha, comem na cozinha, conversam, bebem, riem, se divertem na cozinha. Acho super normal. Mas convivi muitos e muitos anos com esses amigos e ficava espiando com o rabo do olho para aqueles cadeiras soturnas, empurradas para baixo das mesas; para aquelas terrinas de porcelana, aqueles copos lindos onde ninguém bebia, aqueles pratos onde ninguém comia.

Não devíamos fazer a mesma coisa com a literatura.











quinta-feira, 17 de março de 2016

4078) O crime de Raskólnikov (18.3.2016)



Numa entrevista ao Brasil de Fato, o paraibano Paulo Bezerra, um dos nossos principais tradutores do russo, foi perguntado sobre o melhor livro para iniciar a leitura de Dostoiévski.  Ele respondeu: “Sempre sugiro Crime e Castigo, que tem como personagem central Raskólnikov, um jovem excluído que pensa como jovem, filosofa como jovem, e como jovem tem um amor verdadeiro pela vida, pelo ser humano (especialmente as crianças) e acaba amando Sônia de verdade.”

Ora, Raskólnikov ficou para muita gente como símbolo do assassino frio e cruel que, depois de praticado o crime, começa a se roer de remorsos. (O “castigo” do título é o tormento mental do personagem; o desfecho jurídico se dá apenas nas 20 últimas páginas.) Paulo Bezerra está descrevendo apenas o lado bom de Raskólnikov, um jovem brilhante e arrogante que foi atraído pelo lado negro da Força. Ou seja: pela húbris, pela crença de que é superior aos demais, pela crença de que a satisfação de um desejo seu é mais importante do que a vida de alguém.

A raiz das ações dele está no artigo “A respeito do crime” que Raskólnikov publicara, meses antes, num jornal. Nele, o rapaz explica que há dois tipos de indivíduos, os ordinários e os extraordinários; e que estes últimos têm direitos morais mais amplos do que os primeiros. Isso não significa (diz ele) que Isaac Newton, um extraordinário, tivesse o direito de sair matando ou roubando qualquer um que encontrasse na rua.  Mas Newton, tendo feito descobertas cruciais que trariam um enorme benefício à humanidade, se visse essas descobertas sendo bloqueadas ou impedidas por “um, dez, cem ou mais homens”, teria todo o direito de eliminar esses homens, para levar sua descoberta a toda a humanidade.

Dostoiévski incrusta essa teoria, no romance, através de um artigo publicado pelo personagem. Raskólnikov na verdade não sabia que o artigo (enviado para um jornal que acabou falindo) tinha sido publicado. Só depois do crime alguém o avisa de que essa justificação teórica tinha sido dada a público. Raskólnikov, assim, trai a si mesmo, chama atenção da polícia sobre si mesmo, como se o “demônio da perversidade”, de Edgar Allan Poe, tivesse baixado sobre ele.

Esse mesmo efeito de imprevisto se dá na cena do crime. Ele entra, mata a velha usurária que guardava jóias e dinheiro em casa, mas esquece a porta aberta ao entrar. A irmã da velha entra, vê tudo, e ele a mata. Não importa se o primeiro crime era filosoficamente justificável. No segundo, prevaleceu apenas a necessidade fatal de não deixar testemunhas. O crime se ampliou, como sempre se amplia, numa direção que ele jamais imaginara.



domingo, 14 de fevereiro de 2016

4050) Doce pássaro (14.2.2016)



Doce pássaro da juventude, comido no espeto à beira de uma fogueira de acampamento de praia, eu com a pele inflada de bolhas dolorosas, antes daquela noite de insônia-à-milanesa em que pensei a frase “ninguém desliga o mar”. Ribaçã salgada e suculenta, mordida com fome no balcão da Rodoviária velha, antes do copo espumante e gelado da décima saideira da noite. O corvo eterno, leit-motiv de madrugadas e firmamento, e o abutre que numa lenda alternativa era devorado todo dia pelo fígado de Prometeu.

A juventude é pássaro porque voa, porque logo se faz passar? Outra leitura possível é: a juventude não é algo que somos, é algo que de vez em quando pousa em nós, quando lhe dá na veneta, e vai embora mal erguemos os olhos. Todo sujeito tem o direito de sentir-se jovem uma vez por década, como acontece com certas torcidas de futebol. Doces pássaros, salgados pássaros, crocantes frangos à passarinho, desbastados por incisivos cuidadosos, vasculhando em cada minicâmara e desvão no meio de tantos ossinhos, pela carne, a tenra carne, a carne enquanto está quente e tem tanto a nos dar. 

Sweet bird of youth, é o nome do filme baseado na peça de Tennessee Williams. Por que a juventude é um pássaro?  “Happiness runs”, canta Mary Hopkin, a mesma que fez sucesso cantando que “bons tempos foram aqueles” (“Those were the days”). Uma cena que eu vi uma vez no trabalho, o diretor dizendo: “Olha, pessoal, nós temos exatamente a quantidade de película necessária para esse último take, são trinta e poucos segundos, vamos ensaiar direitinho, porque é uma só, sem poder errar.” Pense em trinta segundos pra passar voando. Pois mesmo assim é a juventude da gente. O tempo em que a gente é perigoso, e não existe um tempo melhor do que esse.

É um pouco como tibungar em piscina: você pula, segue-se um absurdo, e daqui a pouco você volta a ser você mesmo lá adiante, vivinho da silva. A mocidade passa rápido. É interessante que a juventude não lamente a perda da infância, pelo menos no mundo da poética pop, mas a maturidade lamente tanto a perda da juventude.  Os Rolling Stones (erodidos, sugados, reciclados por uma Ultra Ciência a serviço das empresas-de-tour) já fizeram rockzinhos adolescentes para umas quatro gerações sucessivas de jovens britânicos, que dificilmente não serão expostos a essa banda em algum momento da sua vida social. Você não pode fazer a juventude durar eternamente. Acho que se dermos um balanço bibliográfico serão bem poucas as histórias em que alguém aceita a imortalidade sem exigir que seja acompanhada de aparência jovem. Ninguém quer viver mil anos ao preço de envelhecer mil anos.



sexta-feira, 3 de outubro de 2014

3620) A Revolução das Umbrelas (3.10.2014)




São guerras festivas: uma revolução dos cravos, uma revolução das umbrelas. Uma cidade tomada por um milhão de guarda-chuvas abertos, enfrentando os policiais com seus cães e seus escudos.  A revolução é uma espécie de rito sazonal que dá a volta ao mundo de tantos em tantos meses.  Em Hong-Kong, os jovens querem votar.  Para eles, como para qualquer bando de idiotas que fique, digamos, uns vinte anos sem votar, eleger um Presidente é uma conquista.  Se contentarão com essa duvidosa honra, quando a conseguirem, ou terão coragem de encarar todo este resto?



Um poeta desfolha a bandeira, uma moça desabrocha a sombrinha, e o fato de ser jovem e estar num epicentro qualquer a eleva nos ares como uma Mary Poppins interpretada por Michelle Yeoh.  Era uma hongkonguiana qualquer, uma menina filha dum pessoal e que estudava num colégio, até então uma garota como qualquer outra.  De repente podia votar.  De repente podia escolher em quem queria votar.  De repente, um belo dia, podia estar pedindo aos outros que votassem nela.



O fato de poder quantificar vontades individuais (em eleições, referendos, etc.) é útil principalmente num mundo em que temos de um lado cidadãos sem noção dos seus mínimos direitos diante dos demais, e do outro lado cidadãos sem noção dos seus mínimos deveres diante da sociedade.  Tem gente que acha que está lá para ser capacho mesmo, e a vida não poderia jamais ter sido outra coisa.  E tem gente que, como se diz por aí, “é só venha-a-nós, e ao vosso reino nada.”



Outra faceta disso é que o voto do cientista político vale tanto quanto o do analfabeto, o do governador tanto quanto o do mendigo, embora longe da urna tudo volte à proporção anterior. Além do mais, as eleições são uma maneira de provocar uma febre artificial no povo, estudar suas reações, programar-se para montá-lo.  O povo é um cavalo cheio de venetas, aguenta mil coisas mas de vez em quando manda um pro espaço.  Quem ambiciona montá-lo tem que estudar seus corcoveios – e suas preferências gastronômicas.



Eu não acho que o sistema do voto seja garantia de democracia.  Poder votar é poder opinar, mas um voto no meio de dezenas de milhões perde peso, quase desaparece.  Deve ser emocionante viver numa cidadezinha tão pequena que uma eleição de vez em quando seja decidida por um voto, como um jogo de basquete por um ponto.


E as umbrelas revolucham, revolucham sem parar.  A chuva pode ser lacrimogênea, o granizo de granito, mas as valorosas umbrelas estão ali, defendendo uns hongkonguianos quaisquer não sabemos quem são, mas não duvido que ali no meio também estejam Guy Fawkes, Gene Kelly, Darth Vader, Indiana Jones, Che Guevara, Homem Aranha, Hulk.


terça-feira, 16 de setembro de 2014

3605) Quando Deus não olha (16.9.2014)



Quando se fala em literatura jovem, em prosa de ficção escrita por jovens (autores com menos de 30 anos), parece haver (já vi isso ser dito entre editores, críticos, autores) um pressuposto de que serão livros falando em sexo, drogas e rock-and-roll.  Eu nada tenho contra estes importantes fatores, mas, vamos e venhamos, nada disso é privilégio jovem. Esqueçam o clichê. Cada jovem tem seus problemas e seus horizontes, no que diz respeito à literatura.  Literatura não é ilustração de uma tese sociológica. Literatura é seiva da vida espremida até se tinturar de sangue.

O maior problema do jovem, diria eu, é tornar-se adulto: jogar o jogo adulto. O romance de Débora Ferraz, Enquanto Deus não está olhando (Record, 2014, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura) é a história de uma moça de vinte e poucos anos e seu difícil ajuste de contas com a vida: com a perda do pai, com a possível perda do namorado, com um trabalho onde se sente enjaulada e encolhida, com a opção de ser artista plástica (coisa que a família estranha e não assimila) e assim por diante. É um livro de ação constante, de idas e voltas, procuras, derrotas, desencontros, aquela agitação que todos conhecemos: no fim do dia se tem a sensação de que vinte coisas foram resolvidas e não se avançou um passo.

O livro transcorre numa João Pessoa jamais nomeada, e só reconhecível por sabermos que é lá que a autora mora. Cenas como a do reveillon na praia, por mais que a reconheçamos, não devem ser muito diferentes em outras cidades. Não há nomes de ruas, de praças, mas é uma João Pessoa palpável e familiar, tal como a Campina Grande que José Nêumanne descreve, também sem nomear, no seu O Silêncio do Delator.

Não sou grande leitor de livros longos, mas o fato é que tracei sem cansaço ou esforço as 366 páginas do livro.  São jovens que tomam cerveja, conversam sobre o futuro, queixam-se dos pais. A ausência de nomes próprios (seja de bares, de canções, de marcas, de lojas, de pessoas da cultura pop e da TV) dá ao livro um aspecto curiosamente realista, numa literatura que, anêmica de sentido, torna-se cada vez mais referencial, atulhada de marcas, nomes e citações. A realidade onde os personagens circulam em suas espirais intermináveis, que nunca avançam, é uma realidade feita de ações, pessoas, sentimentos; aquilo poderia ser o Irã ou a Bélgica.  Apesar disso, e na verdade por causa disso, é um livro essencialmente paraibano (sem regionalismo, mas é a Paraíba por onde caminho hoje em dia) e provavelmente brasileiro.  Nessa cidade transparente e neutra, os personagens são só eles mesmos, e é só com isto que podem contar.


quinta-feira, 24 de abril de 2014

3481) Os jovens acomodados (24.4.2014)



(foto: Klaus Pichler)

Um artigo de Bruce E. Levine (aqui: http://tinyurl.com/k6zrjsz) discute o conformismo, a passividade e a acomodação por parte da juventude dos EUA, que já foi mais combativa, mais disposta a lutar por causas sociais. Os oito sintomas e causas que ele aponta são locais, mas alguns podem ser extrapolados para outros países, como o Brasil.

Um: débito educativo, e o receio que ele provoca. Cerca de dois terços dos universitários têm uma dívida média de 25 mil dólares, sendo que em alguns casos isto chega a 100 mil.  O sujeito que deve tanto ao governo (e lá essas coisas são cobradas pra valer) pensa duas vezes antes de sair à rua com cartazes de protesto. Dois: patologizar o protesto. Entre outras, a “Oppositional Defiant Disorder” (ODD) é uma doença oficialmente reconhecida: o doente “frequentemente desafia ou recusa-se a cumprir exigências ou regras dos adultos, (...) discute com frequência, (...) deliberadamente faz coisas para aborrecer outras pessoas”. Tarja-preta nele, numa cumplicidade entre pais, médicos e escola.

Três: escolas da obediência. Todo o sistema de ensino tem se voltado para fazer o jovem cumprir regras, atingir metas, temer punições, obedecer. As escolas ensinam teorias democráticas, mas são autoritárias em sua prática. Quatro: educação competitiva. Programas como “No Child Left Behind” e “Race to the Top” estimulam a ansiedade e a competição, e minimizam a curiosidade, a espontaneidade de ação, o pensamento crítico.

Cinco: valorização cada vez maior do ensino formal, em detrimento do aprendizado na família e na rua; mentalidade “quem não tem diploma não sabe de nada”. O autor diz que vai longe o tempo de Mark Twain, que dizia: “nunca deixei a escola interferir na minha educação”.  Seis: normalização da vigilância. Os jovens estão achando cada vez mais normal que a vigilância eletrônica permeie sua vida e suas atividades. Pais controlam a vida dos filhos através de CPS e câmeras domésticas, além de vigiar sua vida escolar via websaites. Isso produz nos jovens uma atitude generalizada de “De que adianta?”.

Sete: televisão (que inclui TV, computadores e celulares). Mídias cada vez mais controladas pelas corporações, programações desviando a agressividade e a energia dos jovens para atividades dissipativas que não envolvem críticas ao regime. Oito: religião fundamentalista, consumo fundamentalista. O consumo torna-se “ópio do povo”, produzindo uma população voltada para o culto ao que é produzido e massificado, e a uma vulnerabilidade maior à linguagem, argumentos e técnicas da propaganda.  Poucos espaços da vida do jovem não são ocupados pela máquina ideológica corporativa.


terça-feira, 28 de janeiro de 2014

3407) Lima Barreto: o Motim (28.1.2014)



“O cocheiro parou. Os passageiros saltaram. Num momento o bonde estava cercado por um grande magote de populares, à frente do qual, se movia um bando multicor de moleques, espécie de poeira humana que os motins levantam alto e dão heroicidade.  Num ápice, o veículo foi retirado das linhas, untado de querosene e ardeu. Continuei a pé. Pelo caminho a mesma atmosfera de terror e expectativa. Uma força de cavalaria de polícia, de sabre desembainhado, corria em direção ao bonde incendiado. Logo que ela se afastou um pouco, de um grupo partiu uma tremenda assuada. Os assobios eram estridentes e longos; havia muito da força e da fraqueza do populacho naquela ingênua arma. E por todo o caminho, este cenário se repetia.”

Não são as manifestações de 2013 no Rio e nas capitais; é o Rio de Janeiro, sim, mas o de um século atrás, o Rio da Revolta da Vacina de 1904, que Lima Barreto transformou na “Revolta do Calçado” no romance de 1909 Recordações do Escrivão Isaías Caminha. Existe, na sucessão das gerações humanas, uma certa recorrência de padrões, uma certa semelhança de procedimentos, talvez porque só quando estamos envolvidos numa ação intensamente coletiva (um jogo de futebol, um show de rock, uma manifestação de rua) sejamos capazes de, sintonizados com a multidão, acessar uma memória coletiva que existe em todos e só emerge numa multidão de verdade.

“Da sacada do jornal,” diz Isaías Caminha, “eu pude ver os amotinados.” (Não, ele não fará menção à máscara de Guy Fawkes nem aos Black Blocs. Mas vejam que olho futurista o do escritor.)  “Havia a poeira de garotos e moleques; havia o vagabundo, o desordeiro profissional, o pequeno burguês, empregado, caixeiro e estudante; havia emissários de políticos descontentes. Todos se misturavam, afrontavam as balas, unidos pela mesma irritação e pelo mesmo ódio à polícia, onde uns viam o seu inimigo natural e outros, o Estado, que não dava a felicidade, a riqueza e a abundância.”

E ele explica: “O motim não tem fisionomia, não tem forma, é improvisado. Propaga-se, espalha-se, mas não se liga. O grupo que opera aqui não tem ligação alguma com o que tiroteia acolá. São independentes, não há um chefe geral nem um plano estabelecido. Numa esquina, numa travessa, forma-se um grupo, seis, dez, vinte pessoas diferentes, de profissão, inteligência, e moralidade. Começa-se a discutir, ataca-se o Governo; passa o bonde e alguém lembra: vamos queimá-lo. Os outros não refletem, nada objetam e correm a incendiar o bonde.”  Em 1909 não havia redes sociais, celulares, TV ao vivo, Rádio AM.  A tecnologia está sendo absorvida pelo modo-de-ser da multidão, e não o contrário.


domingo, 26 de janeiro de 2014

3406) Ler por prazer (26.1.2014)



Eu geralmente leio por prazer, o prazer antecipado de quem compra um livro já prevendo que vai gostar (pelo autor, pelo tema, etc.). Quando essa expectativa não se confirma, largo o livro e pego outro. Se não estou gostando, não forço. Isto não se aplica, é claro, às leituras de trabalho. Se quero um conto de Fulano numa antologia minha, geralmente leio um livro inteiro dele, 15 ou 20 contos, para escolher o mais adequado. Nem todos são bons, mas meu interesse ali é conhecer melhor Fulano, “sentir a mão” dele como escritor, avaliar suas qualidades e suas limitações.

Jorge Luís Borges tem um texto famoso sobre o prazer de ler, repetido em numerosas coletâneas.  Diz ele: “Fui professor de literatura inglesa por vinte anos na Faculdade de Filosofia e Letras da Universidade de Buenos Aires e sempre aconselhei a meus alunos: se um livro os aborrece, larguem-no; não o leiam porque é famoso, não leiam um livro porque é moderno, não leiam um livro porque é antigo. Se um livro for maçante para vocês, larguem-no; mesmo que esse livro seja o Paraíso Perdido – para mim não é maçante – ou o Quixote – que para mim também não é maçante. Mas, se há um livro maçante para vocês, não o leiam: esse livro não foi escrito para vocês.”

É engraçado, porque eu digo o contrário. Borges não falava no contexto brasileiro de hoje. Talvez seus alunos fossem obrigados a ler Sêneca e Ovídio no original, sem poder criticá-los.  Hoje, porém, a situação é outra. Os jovens são desestimulados ao esforço intelectual e empurrados para um entretenimento sem fim.  Deveria aparecer um Borges que lhes dissesse: “Galera, vocês estão fazendo poupança com dinheirinho de Banco Imobiliário. Quando precisarem, nada terão. Esse entretenimento passa sem deixar marcas, a não ser a resposta automática diante de clichês e de situações já conhecidas... E esse cansaço-prévio mental diante do novo, do diferente, do difícil.”

Não há resultado sem esforço, e a inteligência não brota espontaneamente, tem que ser cultivada pelo uso. Borges se preocupava com aqueles jovens argentinos que queriam, por exemplo, fazer teatro, mas seus professores os obrigavam a aprender grego para ler Ésquilo no original, senão não entenderiam o texto. Hoje, jovens montam Brecht ou Shakespeare sem os ler, leem adaptados para a linguagem moderna, uma diluição, uma versão resumida e mutilada “para ficar ao alcance de vocês”.  Fazem o teatro descer até o jovem, e com isso o jovem nunca subirá até o teatro. Sem esforço não há resultado. O prazer de ler não é uma adrenalina instantânea, é uma conquista, uma vitória pessoal de cada leitor sobre a própria insegurança e a própria preguiça.


sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

3404) Ódromo (24.1.2014)






Pode-se contar a história de um idioma através das palavras que ele inventa quando precisa dizer algo pela primeira vez.  Isso vem desde a invenção da fala, então já estamos acostumados.  Uma coisa curiosa nesse processo são certos memes etimológicos, não sei se é este o termo, mas em todo caso – certas estruturas-de-formação-de-palavras-novas que se reiteram, se reproduzem.  Quando o Rio de Janeiro construiu a atual Passarela do Samba feita de concreto (substituindo as passarelas de armação desmontável que havia na Marquês de Sapucaí até o começo dos anos 1980), logo surgiu o nome “sambódromo”, dado (ao que parece) por Darcy Ribeiro. Não por semelhança ao hipódromo da Gávea, creio, mas porque na época o autódromo de Jacarepaguá vivia seus dias mais ruidosos.  (Também o nome da Praça da Apoteose, aliás, deve-se a um arroubo retórico de Darcy, numa de suas euforias criativas.)

Ódromo começou a significar “lugar adequado para tal coisa”.  Deve ter sido com o aumento das campanhas anti-fumo nos anos 1990 que cada escritório ou local de trabalho passou a ter um “fumódromo” onde os funcionários davam um tempo após cada cafezinho.  E Brasília inaugurou há algum tempo o Beijódromo, o Centro Cultural Darcy Ribeiro, o que mostra como um meme-palavra fica girando feito satélite em volta de um cara, até depois de morto.

Quando fizeram o camelódromo da Rua Uruguaiana sabiam que o fenômeno ia transbordar da Rua Uruguaiana, o que não imaginavam é que o nome fosse transbordar por cima de todo o Brasil.  Toda capital ou cidade de médio porte ou já tem um camelódromo, ou está construindo, ou ainda não sabe que precisa.

E foi aí que surgiu essa conotação guetorizante. Quando o pau quebrou e o fogo ardeu nas ruas do Rio ano passado, discutiu-se a sério a possibilidade de construção de um “manifestódromo” onde se poderiam realizar agitações daquele tipo.  Proposta prontamente avacalhada nas redes sociais.  E agora, devido ao impasse dos jovens paulistas que querem dar um “rolezinho” nos shopping centers, surge a proposta: “Vamos construir um rolezódromo!” 

Se a sugestão foi a sério ou por zoação, é irrelevante.  Ela me lembra a piada dos irmãos Marx, num filme em que procuram, desesperados, um documento. Groucho grita: “Procurem na casa ao lado!”. Alguém: “Mas não existe casa ao lado!”. Groucho: “Então mandem construir, e procurem nela!”.  No caso brasileiro, todo mundo percebe o paradoxo lógico de um lugar onde as pessoas são autorizadas a fazer coisas-sem-autorização.  É como uma gravura de Escher.   A questão não é o bizarro da idéia, é que existe gente capaz de pensar nisso a sério e de construir isso, se tiver a chance.


segunda-feira, 8 de julho de 2013

3230) Mostra a tua cara (5.7.2013)




A última vez que a Avenida Presidente Vargas e a igreja da Candelária ficaram daquele jeito foi no famoso comício das “Diretas Já”, que dizem que deu um milhão de pessoas. Não importa quantas foram. Nunca se vira tamanha quantidade. Mas no comício sobre a Emenda Dante de Oliveira havia um esforço concentrado e consciente vindo de cima, vindo das elites políticas, dos caciques partidários, dos notáveis com cacife para opinião política. Havia um sistema de som, um planejamento de mídia, e acima de tudo um palanque, onde oradores diriam mais ou menos o que se esperava que dissessem. Havia um centro.

Nada contra essa visão do mundo, só que é muito copernicana. O mundo não funciona de maneira tão simples. O fato de existirem criaturas e sistemas com aspecto de mandala não quer dizer que esse seja o estilo preferido da Natureza. Vai ver que às vezes ela se baseia em algoritmos químicos. Vai ver que às vezes se baseia numa eletromagnética binária do espaçotempo, e por cima dela um sistema retroalimentador e motoperpetuante chamado Vida.

A multidão não tem um centro pelo simples fato de que grande parte das coisas da Natureza não o tem. Suas características são outras. A multidão pode ser vista como uma câmara cheia de gás, lacrimogêneo ou não, onde é possível comprimir cada vez mais o gás e fazer suas moléculas, mais apertadas umas às outras, movimentaram-se num ricochete cego como o de bolas de pinball.

A multidão não é centro, é fatia estatítica de um Todo que é cada vez mais mapeado e investigado com fervor. Daí a importância de institutos de pesquisas e de coleta de dados porta-a-porta, algoritmos qualificadores, sistemas de amostragem mais sutis. Hoje a Presidente Vargas fica cheia e não se vê sistema de som, político ou palanque. Não existe Big Bang, não existe centro, não existe o Monarca de qualquer regime político. A multidão mostra que por baixo dessas Unidades aparentes o mundo é torvelinho perpétuo. Não tem rosto, tem coreografia e fluxo.

Cada avenida dessas, dura de gente (como se diz na Paraíba), é uma espécie de holograma onde está pelo menos um exemplo de cada elemento do Todo. Graças à rua estamos sabendo quem é isto ou aquilo, pelo menos no momento, já que as paixões políticas são tão intensas quanto passageiras. Olhando a multidão passar fica mais claro quem é contra ou  a favor de Dilma, quem repete slogan centenário, quem puxa hino, quem oferece caipirosca, quem mostra suástica, quem mostra foice e martelo, quem mostra cruz. Se o mundo fosse um lugar justo, coisa que nem sonha, cada um de nós poderia sair em praça pública e dizer quem é, sem medo e sem arrogância.



quinta-feira, 20 de junho de 2013

3218) A rua pegando fogo (21.6.2013)




(foto: Rodrigo Motta)

Movimentos políticos de rua têm de tudo. Jovens preocupados com o futuro do país em que viverão um dia suas velhices (pensem nisto agora, amigos). Velhos relembrando os bons tempos da “revolução no ar”. Baderneiros e vândalos. Hippies, hipsters, ripongas, ripadores de animê. Tímidos que jamais soltariam um berro daqueles na Av. Rio Branco se estivessem sozinhos. Agentes de extrema-direita e de extrema-esquerda infiltrados. Gente descontente com os partidos. Militantes ingênuos para quem o único partido sem políticos corruptos é o seu.

Muitos que estão ali são meros curiosos, satisfeitos em participar de um momento fora do comum, porque terão uma história para contar no dia seguinte: “Olha, ninguém me disse: eu estava lá...”. Entre aquelas dezenas que erguem cartazes  e faixas, você vai encontrar lado a lado duas pessoas que, se parassem para acertar os ponteiros, passariam quatro anos discutindo sem chegar a um denominador comum. Mas erguem os cartazes, protestam, cantam hino, andam lado a lado, e cada um deles acredita que está indo na direção certa. Podem até estar.

Manifestação tem skinhead, aposentado, marqueteiro, universitário jubilado, balconista, comerciante, batedor de carteira, vendedor de picolé, trotskista, keynesiano, sadomasoquista, evangélico, flanelinha. Tem modelo-e-atriz, manicure, perua, piranha, filhinha da mamãe, filhinha do papai, socialite, socióloga,  feminista, doméstica, filósofa, poetisa, cobradora de ônibus.  Todos tentam, num momento assim, encontrar um movimento coletivo que lhes dê a sensação de serem um só, sem ao mesmo tempo desbastar as arestas de individualidade que os definem.

Em toda manifestação alguém vai depredar um prédio público ou um banco particular. Alguém vai queimar latas de lixo ou carros estacionados. Se a manifestação fizesse isso o tempo inteiro, ia se desmoralizar. Mas (vejam só as ironias da nossa civilização!) os carros incendiados e as vidraças partidas doem mais fundo nas autoridades do que as palavras de ordem ou as reivindicações ordeiras. Autoridades são zumbis. Enquanto puderem fazer de conta que estão mortas, fá-lo-ão. Um milhão de vozes bradando uma queixa justa podem ser ignoradas; mas a pira de labaredas consumindo símbolos civilizatórios  como carros ou placas da Fifa é algo que os horroriza na sua medula mais íntima. Eles veem que o Poder não os blinda por completo, e que para aquela multidão nem o que é mais sagrado merece respeito. E em homenagem a esse símbolo sacrificado em holocausto (“Queimaram carros!  Por que não queimam um sem-teto?!”) eles admitem que a Rua é real. E sentam para negociar.

(OBS. texto escrito na 4a-feira, 19 de junho, após o pronunciamento conjunto de Alckmin & Haddad)



segunda-feira, 17 de junho de 2013

3215) Não são 20 centavos (18.6.2013)




Tudo indica que esta semana também vai ser de gente protestando nas ruas e a polícia descendo o cassetete. Dizem as autoridades e uma parte da imprensa que as manifestações têm como objetivo o vandalismo. É mentira. Vândalos e desordeiros se infiltram em qualquer multidão, até em torcida de futebol comemorando título. Alguns são manifestantes que querem sinceramente protestar mas também aproveitam para descarregar a raiva em vidraças e lixeiras. Outros são os habituais arruaceiros inimigos infiltrados, agindo contra a manifestação para sujar sua imagem. (É o que em política partidária se chama a “turma da pesada”, que ganha para ir aos comícios dos adversários e aprontar confusão.) E existem baderneiros que nem sabem do que se trata, não estão nem aí para o motivo da passeata, querem apenas a adrenalina do confronto e da depredação. Nenhum protesto de rua consegue se vacinar totalmente contra esses três tipos, mas isso não é motivo para proibir os protestos.

Protestos na rua não agradam a todo mundo. Causam transtorno, sim. Já fiquei preso no trânsito, já perdi compromisso, já me prejudiquei. Quem está numa ambulância pode se prejudicar mais ainda. Mas a verdade é que certas mudanças só acontecem depois que o caldo entorna. Autoridades são meio surdas, não escutam indivíduos, mas escutam multidões. Se um governo pudesse apertar um botão e acabar com as passeatas, qualquer um deles – direita, esquerda, centro – faria isso. Governo não gosta de protesto, gosta de voto.

O aumento nos preços das passagens coincide com muitos outros problemas (educação, segurança, moradia, meio ambiente, saúde) e, numa conjunção perversa, com a Copa das Confederações. E aí fica insultantemente visível o compromisso dos nossos governos (federal, estaduais, municipais) e todos os partidos com o capitalismo internacional, representado neste caso pela Fifa. O povo gosta de futebol, mas não gosta do modo sobranceiro, arrogante e acintoso com que a Fifa entra na casa alheia ditando ordens, impondo seus esquemas de exploração comercial, tratando nosso governo e nosso povo como capachos.

A Fifa e seus estádios de um bilhão de reais, que vão ficar às moscas depois da Copa do Mundo, deixando, como sempre, buracos irremediáveis nos orçamentos, e ajudando o Brasil a subir no ranking da “Forbes” dos “países com maior número de milionários” – acho que ganharemos mais algumas centenas deles depois destas Copas. Não, o problema não são vinte centavos, são bilhões e bilhões de reais, trilhões talvez, que existem, foram pagos, e deveriam estar tendo outra utilização. Mas os governos só escutam quando há milhões de pessoas nas ruas dizendo a mesma coisa.


terça-feira, 11 de dezembro de 2012

3053) Diário de Classe (11.12.2012)




(Isadora Faber)


Houve um bafafá danado, de julho pra cá, por causa da página “Diário de Classe”, inventada por Isadora Faber, uma menina  de 13 anos. Ela criou a página do Facebook para reclamar dos problemas e dos defeitos da escola municipal onde estuda, em Santa Catarina. Pra quê que ela fez isso?!  Choveram reclamações, críticas, ameaças. A avó da menina foi atingida por uma pedra; ela própria foi intimada a prestar depoimento em uma delegacia, porque uma professora a acusou de calúnia e difamação.

A verdade é que ninguém gosta de ver divulgados os seus malfeitos, sejam ações desonestas ou simples negligências. No caso da escola da menina, não acho que os problemas sejam muito diferentes do que se vê na maioria das escolas, públicas ou particulares: orelhões quebrados, fios elétricos desencapados, falta de professores... Cada escola tem problemas diferentes, que no fundo são um só: falta de dinheiro ou má aplicação (por incompetência, descaso ou desonestidade) do dinheiro disponível.  Quem quiser conferir, procure no Facebook a página “Diário de Classe”.

Como tanta coisa na Internet, o página se multiplicou (diria um redator das antigas) “como fogo num rastilho de pólvora”. “O Globo” de domingo diz que já existem mais de cem páginas diferentes, criadas por outros estudantes, nos mesmos moldes. Isto é bom? É ruim? Como sempre acontece quando se bota uma tecnologia na mão de uma multidão, pode servir pra tudo. Estudantes moleques podem querer “trollar” a própria escola postando fotos tiradas em outros lugares e dizendo que foi lá. Alunos relapsos podem agredir a imagem de professores exigentes, por vingança. Alunos podem se sacanear uns aos outros postando fotos ou informações comprometedoras.

Ou seja: os riscos são os mesmos de quando foram inventadas as inscrições cuneiformes ou os hieróglifos egípcios. Qualquer nova maneira de multiplicar uma informação pode ser usada para o bem e para o mal.  O lado bom é que a Internet e as redes sociais, que tantas vezes são acusadas de servirem apenas de vitrine para narcisismos e irrelevâncias, mostram que podem ser também um instrumento de vigilância, de cobrança, de denúncia, etc., principalmente numa área crucial como a do ensino.

A educação federal, estadual e municipal (além das escolas particulares!) vem sendo sucateada há décadas. Se a Internet e as redes podem ajudar a pressionar os governos e as escolas privadas para que atenuem a catástrofe, tanto melhor. Nenhuma tecnologia é melhor ou pior do que o uso que lhe é dado. Os adolescentes estão mostrando que conhecem bem o funcionamento das redes sociais, e que sabem utilizá-las de uma maneira inesperadamente adulta.



domingo, 1 de maio de 2011

2544) O charme da transgressão (30.4.2011)



Todo mundo pensa que a intenção de Hitler ao criar o nazismo era se instalar no poder e fazer com que o seu III Reich durasse mil anos. Ledo engano. Ele sabia muito bem que isso era impossível. Quem matou a charada foi Jorge Luís Borges, no seu conto “Deutsches Requiem”. A intenção de Hitler foi trazer para o mundo o reino da violência, da guerra, da crueldade absurda e planificada, o reino do fogo e do metal. Como diz Otto Dietrich zur Linde, o oficial nazista que narra o conto: “Ameaça agora o mundo uma época implacável. Nós a forjamos, nós que já somos sua vítima. Que importa que a Inglaterra seja o martelo e nós a bigorna? O importante é que reine a violência, e não a servil timidez cristã”. O nazismo teria, assim, conseguido seu objetivo: transformar o mundo inteiro numa máquina de guerra e de violência insensata. Para destruir o Mal, o mundo teve que se tornar tão Mau quanto ele.

Acontece algo parecido com o conceito de transgressão. Minha geração cresceu num mundo que por um lado era asfixiantemente conservador e tradicionalista (na casa, na família, na escola, no trabalho) e por outro lado, devido à ditadura militar, brutalmente repressor (nas comunicações, nas artes, nas manifestações públicas). Daí que um dos principais valores endeusados por todos nós foi a Transgressão. Era preciso transgredir para continuar respirando. Era moralmente obrigatório transgredir para que a gente não ficasse se considerando o mais covarde dos vermes.

Essa geração criou todos os tipos de endeusamento à transgressão. Sob a forma de arte de vanguarda, de poesia marginal, de humorismo, de comportamento rebelde, de estética pessoal (cabelo, roupas), de uso do palavrão e da nudez (no teatro, p. ex.), de uso de drogas, etc. E, espalhando-se como uma nuvem ou uma neblina em volta de tudo isto, uma atitude transgressora permanente. Nossos filhos se impregnaram dessa neblina cultural sem saber muito por onde ou por quê. Herdaram aquela frasezinha-de-efeito: “Não confie em ninguém com mais de 30 anos”, e os que cunharam a frase têm 50 agora. A ditadura passou, o mundo virou pop. E aí está uma população jovem que ganhou a liberdade de graça e mantém uma atitude desafiadora, sarcástica. Às vezes apenas simbolicamente agressiva, outras vezes rancorosa e hostil (tudo depende do contexto em que nasce e vive cada um).

Criou-se um mito de que é preciso transgredir sempre, desobedecer sempre, ser contra tudo, ridicularizar sempre, continuamente, a quem quer que seja, ricos e pobres, velhos e novos, nacionais e estrangeiros. Não importa quem, e importa ainda menos por quê. É como uma geração criada na prisão, que ouviu dizer que é preciso arrombar as portas, e que depois que o fez saiu pela cidade afora, arrombando do mesmo jeito todas as portas que encontrava pela frente. Bem que se diz que na vida não existem prêmios nem castigos, apenas consequências.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

2290) Deterioração do caráter (10.7.2010)



Parece que há uma epidemia em curso no Ocidente, de achar que “o mundo não é mais o mesmo”, “as novas gerações se comportam de uma maneira que, no meu tempo, seria inadmissível” e assim por diante. Será verdade? Eu, pelo menos, acho; e vivo a repetir essas frases, mas repito-as com a consciência de que são o karma que cabe a cada geração de ex-candidatos a revolucionários. Os contestadores de hoje (cabelo moicano, tatuagens, promiscuidade, drogas) dirão daqui a 30 anos: “Esses jovens de hoje não têm noção de valores!”. E la nave va.

Li na Web (http://www.city-journal.org/2008/18_4_otbie-british_character.html) um artigo assinado por um gentleman com o irresistível nome de Theodore Dalrymple (que a revista informa ser médico, e autor do livro Not With a Bang But a Whimper) em que ele fundamenta críticas desse tipo com algumas argutas observações sobre o ser humano e as civilizações de língua inglesa. Teríamos muito a aprender com a decadência britânica, porque parece que todas as decadências se assemelham.

Mr. Dalrymple fala que sua mãe chegou à Inglaterra fugindo da Alemanha nazista e se encantou com os ingleses, com seu caráter, seu modo de ser. Diz ele: “Os britânicos lhe pareceram indivíduos centrados, controlados, respeitadores da lei, e ao mesmo tempo tolerantes com outras pessoas, por mais excêntricas que fossem, e com uma visão profundamente irônica da vida, que os encorajava a rir de si mesmos e a perceber sua própria desimportância no universo. (...) Eram polidos e atenciosos, em vez de intrometidos e presunçosos; os que eram seguros de si procuravam não humilhar os tímidos ou retraídos; e mesmo os mais bem-sucedidos tinham consciência de que seu sucesso era uma mera gota dágua num oceano de possibilidades, e bem que poderia ser ainda maior se eles tivessem se esforçado um pouco mais ou tivessem mais talento”.

Não sei se os ingleses são assim, mas se alguém é assim eu bato palmas. Mr. Dalrymple observa mais adiante que um inglês deve ser o único indivíduo que, quando alguém pisa no seu pé, ele pede desculpas. Mas ele registra com dissabor que “a cultura e o caráter dessa contenção tipicamente britânica transformou-se no seu contrário. Atitudes extravagantes, veemência de expressão, o hábito de se vangloriar, de se exibir, ausência de qualquer tipo de inibição... é isto que temos que admirar hoje, e a antiga modéstia é objeto de escárnio”.

Nada disto tem a ver com o Brasil, não é mesmo? Eu, pelo menos, acho que não. Ademais, essas coisas geralmente se manifestam em movimentos pendulares – numa hora vão na direção de Mais Bagunça, aí quando a coisa está bagunçada demais começa um movimento na direção de Mais Disciplina, que acaba por se tornar insuportável, e aí lá vem a Mais Bagunça de novo... Enfim, “mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”, como dizia Camões. Mas algo me diz que, se bem que o Brasil tenha esperanças, o império britânico (infelizmente) nunca mais será o mesmo.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

2231) O Ético e o Antiético (2.5.2010)


(As melhores coisas do mundo)
 
Algumas cenas do ótimo filme de Laís Bodanzky As melhores coisas do mundo (em cartaz na Capital) me deixaram com um pulga atrás da orelha. São cenas que se referem às atitudes éticas (ou antiéticas) de diferentes personagens, e são cenas cruciais, neste filme que discute, num roteiro cheio de variadas situações, as decisões éticas que os adolescentes vivem sendo forçados a fazer. 

Por exemplo – sacanear ou não sacanear um colega, só de gréia, só pra zoar? Denunciar ou não denunciar um colega que fez algo aparentemente errado? Espionar ou não espionar a vida de alguém que parece estar com problemas? E assim por diante. 

Há uma cena em que uma personagem revela um segredo pessoal, muito íntimo, para outra; e dias depois descobre que o Colégio inteiro ficou sabendo daquilo, o que está gerando problemas enormes para algumas pessoas. Diante das inevitáveis cobranças (“Mas como é que você comenta uma coisa dessa com Fulana, um segredo?”) a personagem desabafa: “Eu jamais imaginei que ela fosse espalhar isso pelo Colégio inteiro. Não é ético!”. 

Um problema frequente nas pessoas que procuram (sinceramente, honestamente, não da-boca-pra-fora) ter um comportamento “pautado pela ética” é que isso se torna tão obsessivo que elas acabam se esquecendo de algo muito simples: que as outras pessoas não são assim. Que muitas pessoas não estão nem aí para o que é ou não é ético, e que, como nesse exemplo acima, a maioria das pessoas é capaz de jogar seus escrúpulos éticos pela janela, em troca de uma fofoca “quente”, da revelação de um segredo desses de fazer arregalar os olhos de quem escuta. 

Em outro momento do filme, uma professora elogia um aluno cuja tese está orientando e alguém sugere, em tom brincalhão, que ela está tendo um caso com o aluno. Ela reage indignada: “Uma orientadora não pode ter um caso com o aluno! Não seria ético!”. Mas o filme dá o exemplo de outro personagem, um professor que acaba tendo um caso (e um caso homossexual) com um aluno a quem serve de orientador. E nada no filme nos leva a crer que esse caso é condenável. Pelo contrário: aceitamos, porque entendemos que foi uma paixão recíproca e sincera entre duas pessoas, e que os papéis de orientador e aluno, nesse caso, recuaram para segundo plano. 

O difícil em ser ético é que não existe uma fórmula pronta, aplicável de modo uniforme a todas as situações. Em ética, como em tantas coisas que envolvem julgamento de situações humanas complexas, cada caso é um caso. Isto não significa que não há valores éticos universais, mas que esses valores, que existem e devem servir sempre de crivo para o comportamento humano, existem justamente para serem aplicados a cada caso, existem para serem testados pelas demandas específicas de cada situação humana. 

O Bem e o Mal, o Certo e o Errado, o Justo e o Injusto são conceitos universais que só têm sentido se passarem pelo teste de cada complexa situação humana, porque é para resolvê-las que eles foram criados.






2229) “As melhores coisas do mundo”(30.4.2010)

Este filme de Laís Bodanzky (em cartaz na Capital) é um dos filmes brasileiros mais simpáticos dos últimos tempos, um filme sobre adolescentes que fala sem preconceitos sobre sexo, drogas e rock-and-roll. Fala sobre homossexualismo, sobre pais que se separam deixando os filhos apavorados; fala sobre garotos e garotas que experimentam drogas, e que se envolvem em fofocas e maledicências via celular. E fala de uma maneira equilibrada, descontraída, sem lições de moral. Me digam qual é o jovem que dá ouvidos a um adulto que tenta dar-lhe lições de moral. Ele pode prestar atenção e dizer “sim senhor” por uma questão de afeto e respeito. Mas na hora de agir, seja lá em que for, vai agir de acordo com a totalidade das informações que tem, com a totalidade das influências que recebe. E aí, meu amigo, é uma área onde os pais não podem ter controle total. A última geração de pais que teve esse controle foi no Sertão, cem anos atrás. O filme tem roteiro de Luiz Bolognesi e se baseia numa série de livros juvenis escritos por Gilberto Dimenstein e Heloísa Prieto. A história é basicamente o que acontece ao longo de alguns meses com dois irmãos, Pedro e Mano, que estudam no mesmo colégio, e cujos pais, professores universitários, acabaram de se separar. Pedro é mais velho, já transou, tem namorada fixa, faz música, faz teatro. Mano é mais novo, ainda é virgem, não tem namorada, está aprendendo violão quando na verdade queria tocar era guitarra, é apaixonado por uma garota bonita que sai com todo mundo menos com ele. A história tem pequenos episódios que vão desenvolvendo essa situação inicial, e o mais notável do filme é a espontaneidade que existe nos diálogos, nas ações, no contracenar de uma turma de atores muito jovens, simpáticos, descolados. A maior parte do filme acontece dentro do colégio, e é interessante ver como as aulas são apenas um pano-de-fundo. São algo que acontece ali, mas o que é realmente importante para essa galera (e como isso é verdade!) é o que ocorre no recreio, na chegada ou saída das aulas, nos intervalos, até mesmo nas conversas e torpedos trocados durante a aula. O que é o colégio, nessa idade? É um bode que alguém amarrou no meio da sala. Um dia o bode vai ser tirado dali. Enquanto isso, tenta-se aproveitar ao máximo o resto do tempo que não é ocupado pelo bode. Era assim que eu pensava quando adolescente, e algo me diz que, com variantes, é isso que a galera de hoje continua pensando. As melhores coisas do mundo é bom pela fluência narrativa, pela verdade emocional dos atores, pelos diálogos rápidos e criativos, mas acima de tudo porque não fala de drogas e de sexo, mas de escolhas éticas. A todo instante esses garotos e garotas de 14 ou 15 anos estão sendo forçados a fazer escolhas éticas que têm uma importância de vida ou morte para eles. A adolescência é uma idade em que o mundo se acaba dez vezes por dia, e o pior é que no dia seguinte começa tudo de novo.

domingo, 27 de junho de 2010

2197) A história de César (24.3.2010)



César (usarei este nome, que não é o dele) estudou comigo no Ginásio, numa turma em que vim parar por esses remanejamentos escolares que nos jogavam, às vezes, no meio de um grupo de outros quarenta adolescentes que nunca víramos mais gordos. Fazer amizades era um processo relativamente rápido, pois nos primeiros dias de aula já se desenhavam os grupos que as marés das afinidades amontoavam em torno de um centro gravitacional comum: aqui os Comportados, ali os Palhaços, lá adiante os Brigões, e os Estudiosos, os Riquinhos, os Proletas, os De Família, os Amulherados, os Líderes, os Babões...

Vi logo que César pertencia aos Palhaços (era sempre o primeiro a desferir uma graça-sem-graça lá do fundo da sala, durante as explicações das professoras tímidas), aos Brigões (brandia o dedo no nariz de quem se opusesse a ele e chamava pra brigar na saída), aos Proletas (falava errado, a farda era toda cerzida, às vezes tentava tomar o lanche de alguém porque não podia pagar). Fazia de tudo para aparecer; sua vida era um chega-pra-lá permanente para afirmar seu próprio espaço. Era magro, rosto cheio de espinhas, branquelo igual a mim. Tinha uma voz estridente, forçada, e costumava entrar na sala gritando: “Eita calor fela da p... que faz nessa p... desse colégio!” – e dava um chute na primeira carteira que estivesse à sua frente, surdo às reclamações do “inquilino”.

De vez em quando ia às tapas com um ou outro. Por mais de uma vez me ameaçou por uma bobagem qualquer. Como eu falava pouco (viera de outra turma, não tinha nenhum amigo antigo ali), me chamava “o Recalcado”. Quando comecei a tirar notas boas em algumas matérias, parou de me insultar, não por respeito, mas para nos dias de prova sentar perto de mim e ficar pedindo cola – que eu fornecia, quando não corria risco de ser pêgo. Vi-o brigar algumas vezes no recreio. Era cruel mas desorganizado; brigava mal, mas fazia um tal alarido que suas brigas eram logo encerradas pela intervenção de alguém. Voltava das suspensões como se nada tivesse acontecido, gritando impropérios e chutando as carteiras.

Um dia estávamos no pátio conversando com uns caras de outras turmas. César estava com a corda toda, sarcástico, incômodo. Um dos sujeitos cruzou os braços e desferiu esta: “Engraçado, César agora é todo metido a homem, no ano passado era todo mariquinha: quando apanhava choraaaava...” Durou só um segundo; mas vi que ele vacilou, bambeou, meio que acusando o golpe; por alguns segundos seus olhos de cascavel transpareceram um medo sem nome, um susto sem fim. Vi ali o pavor de quem era fraco no bom sentido, de quem era medroso no bom sentido, de quem na verdade gostaria de ser algo diferente do que foi no ano passado e do que está sendo agora, mas nunca achou o caminho. Logo logo César bradou um palavrão e armou uma escaramuça. Continuou o mesmo, mas naquele instante eu aprendi alguma coisa que não sei bem o que foi, estou dizendo aqui para ver se alguém sabe.