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quarta-feira, 29 de outubro de 2014

3644) O Banqueiro (29.10.2014)





(ilustração: Benedetta Bonichi)


Na sala do Banqueiro ouve-se música clássica o tempo todo, mas ele não sabe identificar o que está tocando.  A música está ali apenas para atrapalhar possíveis microfones de espionagem embutidos nas paredes.  O Banqueiro já chegou a fazer reuniões secretas num jatinho, dando voltas sobre a cidade, para ter certeza de estar a salvo de espiões. O Banqueiro não gosta de olhar o interlocutor nos olhos. Enquanto conversa, caminha o tempo todo.  Prefere trabalhar de pé, diante de uma bancada de madeira, onde escreve, digita no laptop, telefona, despacha com funcionários. 



Sua casa sempre foi repleta de arquivos, pastas, material de trabalho por toda parte. É vegetariano, e seu prato preferido são legumes cozidos. Acha um desperdício o hábito de comidas sofisticadas e bebidas caras: “É muito mais fácil gostar de qualquer coisa.”  Se os outros comensais pedem uma refeição fina, ele se contenta com salada de tomate com palmito.  Sob suas ordens, mais de 70 pessoas trabalham em quase absoluto silêncio.  Sem risadas, sem ninguém elevar a voz.  Pedem comida lá mesmo no escritório; todos têm hora para entrar mas não para sair.  O Banqueiro lembra saudoso ambientes bancários que conheceu na juventude: “Existia ali uma disciplina rigorosa, era tudo silencioso, quase monástico.”  O Banqueiro já tentou, sem sucesso, proibir que seus funcionários lhe dirigissem a palavra, mesmo para dar bom-dia.



O Banqueiro não passeia, não vai à praia, e seu maior luxo hedonista é comer um peixe grelhado. Seus exercícios físicos são feitos em casa, numa esteira.  Raramente vai ao cinema.  Costuma perguntar a uma amiga, frequentadora de teatro, por que ela assiste peças, já que “nada do que acontecia no palco era verdade”.  A última obra de ficção que se lembra de ter lido é o Ensaio sobre a cegueira de Saramago. Seu apartamento tem numerosos quadros dos maiores pintores brasileiros, mas ele não lhes dá muita atenção, pois estão ali apenas a título de investimento.  O Banqueiro admite que não tem muitas idéias de como gastar dinheiro, e diz que o seu objetivo e o seu prazer não são o dinheiro em si. “É o negócio,” explica.


O Banqueiro não é uma invenção da mente insone e paranóica de um escritor.  É o banqueiro Daniel Dantas, do banco Opportunity, cuja fortuna pessoal é de mais de um bilhão de dólares. (ver Revista Piauí, # 7, 2007).  Conhecido como um trabalhador obsessivo, um negociador cruel, um investidor esperto e pouco confiável, sempre tentando dar um jeito de ser a única pessoa a ganhar com o negócio que está sendo feito.  É o retrato da geração que está transformando o planeta inteiro num dinheiro que ninguém conseguirá gastar.




sexta-feira, 23 de novembro de 2012

3038) O Diário de Dilma (23.11.2012)



(ilustração: Caco Galhardo)


A revista Piauí tem uma página intitulada “O Diário de Dilma”, um pseudo-diário atribuído à presidenta Dilma Roussef. A gente tem o direito de achar que está numa democracia quando alguém ridiculariza o mandachuva do país e não é preso. O “Diário de Dilma” não ridiculariza a presidenta, até pelo irrealismo da proposta, mas faz uma engraçada justaposição entre o pessoa real e a personagem literária, uma perua sempre preocupada com o penteado, o vestido, a decoração; que reduz às mais terrificantes banalidades alguns episódios sérios do momento; que suspira de langor por um embaixador bonitão, ou por um ministro cujo charme a conduz a devaneios. A revista atribui o “Diário” ao jornalista Renato Terra, mas, como também o atribui, em primeiro lugar, à própria presidenta, uma coisa relativiza a outra, e talvez o texto não seja produto de nenhum dos dois.  Talvez o seu redator seja alguém insuspeito e improvável.

O “Diário” de outubro (na Piauí de novembro) vem sob o título “Malandro é o curupira, que só faz gol de calcanhar”.  É a reta final da campanha eleitoral, e “Dilma” comenta: “Tô cheia de usar vermelho por causa desses comícios! Encomendei uns blazers bacanas de verão, laranja, azul Klein, rosa-choque, mas o Lula insiste em me botar de vermelho.  Pareço um tomate”. No dia 4, após o primeiro debate entre Barack Obama e Mitt Romney, ela anota: “A Ideli não confessa, mas é louca pelo Romney. Cada vez que a tevê dá um close naquele queixo talhado a buril, ela dá uma tremelicada. É sutil mas eu percebo”.

Parece os diários das adolescentes que leem Thalita Rebouças. Em 5 de outubro ela se queixa: “Sabe onde me enfiaram agora? Na exposição de um tal de Caravaggio. Legal até, mas o povão está interessado nisso? Tive de fazer biquinho e cara de raciocínio, o que é péssimo para as comissuras. Vou mandar a conta do refil do botox para a União e não quero nem saber”.  No dia 17, ela fica matutando: “Tadinho do Zé Dirceu. Será que tem consulado do Equador aqui em São Paulo?”. Fica ansiosa para saber quem matou Max na novela Avenida Brasil, manda a Abin investigar, recebe a resposta e, na véspera de um comício na Bahia, diz que “dependendo do clima, incendeio a militância revelando o nome ali mesmo”.

O “Diário de Dilma” funciona um pouco como aquelas canções de Juca Chaves satirizando o governo Juscelino (eita, fui longe agora – talvez só eu e Dilma lembremos essa época!). É uma leitura galhofeira de fatos reais, e a verdade é que nada reafirma tanto a solidez de um regime quanto a magnanimidade com que tolera (quem sabe até financia) a atividade dos que o submetem à caricatura.