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quarta-feira, 13 de maio de 2020

4579) A palavra Kodak (13.5.2020)




Alguns anos atrás, ao traduzir para o selo Alfaguara o clássico de H. G. Wells A Máquina do Tempo, tive um susto a certa altura.

O livro é de 1895, e supõe-se em princípio que é mais ou menos nessa época que o Viajante no Tempo inicia o seu trajeto rumo ao futuro, onde chega primeiro ao ano 802.701 e depois faz uma breve incursão a um remotíssimo futuro, onde tem o vislumbre, durante alguns minutos, da agonia do nosso Sol e do nosso planeta.

Quando está ainda no primeiro trecho da viagem (cap. 6), ele se mistura aos simpáticos Elois, a raça de rapazes e moças meio inocentes que vivem na superfície, por entre as ruínas.  A certa altura, descobre um poço vertical e desce por ali, cheio de curiosidade. Vai parar no mundo subterrâneo dos Morlocks, as criaturas monstruosas que movimentam máquinas incompreensíveis e gigantescas. E o Viajante no Tempo comenta:

Desde então tenho pensado no quanto eu estava mal-equipado para uma experiência como aquela.  Quando parti na Máquina do Tempo, foi com a noção absurda de que os homens do futuro estariam sem dúvida muito à nossa frente em todos os aspectos práticos.  Eu viera sem armas, sem remédios, sem nada para fumar – houve momentos em que o tabaco me fez uma falta angustiante – e até mesmo sem fósforos em quantidade suficiente.  Se pelo menos eu tivesse me lembrado de trazer uma Kodak! Poderia ter registrado aquele vislumbre do Mundo Inferior em um segundo, para depois examiná-lo com calma.  Mas, do jeito que tudo ocorreu, vi-me ali provido apenas das armas e dos poderes com que a Natureza me dotara: mãos, pés, e dentes; e quatro palitos de fósforo, que eram tudo que me restava.


(The Time Machine, primeira edição, 1895)

Uma Kodak!  Dei um pulo diante de um anacronismo tão brutal. Certamente eu estava lendo uma versão espúria do romance (não era; era uma edição da Penguin britânica; mas eu já encontrei erros em edições assim). Felizmente havia uma nota explicativa garantindo que as primeiras câmeras portáteis Kodak tinham sido introduzidas no ano de 1890. A patente original norte-americana, de George Eastman, data de 1888.

Às vezes descobrimos uma menção a um detalhe que tem datação nítida – como nesse caso, uma invenção tecnológica – mas talvez seja uma das primeiras menções, quando aquilo ainda não se consagrara como um termo comum da linguagem cotidiana. Quais serão, na literatura brasileira antiga, as primeiras menções a “gilete”, “brahma”, e outras marcas que viraram substantivos comuns?

Quando na canção “Desafinado” (de Tom Jobim e Newton Mendonça) João Gilberto cantava “Fotografei você na minha Rolley-Flex...” não faltou certamente quem visse nisso um merchandising subliminar, com algum dinheiro escuso trocando de mãos por baixo do pano.

A Kodak, no tempo de H. G. Wells, já parecia ser algo suficientemente popularizado para que ele não se desse o trabalho de explicar que era uma máquina fotográfica. O nome e o contexto narrativo bastavam para não deixar dúvidas.

E depois, fazendo uma consulta casual noutro clássico, me vem este outro exemplo.


(Drácula, primeira edição, 1897)

É de 1897 a primeira publicação do Drácula de Bram Stoker, um clássico à altura do livro de Wells. Como se sabe, grande parte do livro consiste nas anotações do diário de Jonathan Harker, o bem intencionado agente imobiliário que sai de Londres para os confins da Transilvânia a fim de negociar a compra de imóveis londrinos por parte do conde.

Não indicarei página, porque as edições do livro são legião; é logo no começo do livro, na data de 7 de maio, quando o diário de Harker registra suas observações sobre a casa que encontrou, e que está tentando vender ao Conde Drácula:

Em Purfleet, numa estrada vicinal, acabei encontrando um local como o que procurava, e onde era visível uma placa muito estragada indicando que estava à venda. Era cercado por um muro alto, de estrutura muito antiga, construído com pesadas pedras, e há muitos anos não sofria reparos. Os portões fechados eram de carvalho e ferro, carcomidos pela ferrugem.

O local chama-se Carfax, sem dúvida uma corruptela da antiga expressão Quatre Faces, visto que a casa tem quatro fachadas, voltadas para os pontos cardeais. Inclui ao todo uns vinte acres de terreno, bem protegidos pelo muro de pedras que mencionei. Há muitas árvores, o que torna o local sinistro em alguns pontos, e há uma pequena lagoa escura, profunda, evidentemente alimentada por fontes subterrâneas, porque a água é limpa e flui numa correnteza de bom tamanho. A casa é muito grande e data de diferentes períodos do passado, eu diria que até os tempos medievais, porque uma parte dela é de pedras, com paredes imensamente grossas e janelas muito altas, com pesadas grades de ferro. Parece parte de um torreão, e fica próxima de uma antiga capela ou igreja. Não consegui entrar, porque não estava de posse da chave da porta que dá acesso a esta parte da casa; mas com a minha kodak tirei algumas vistas de várias direções. A casa foi acrescentada a essa estrutura em época posterior, mas de forma desorganizada, e posso apenas calcular por alto o terreno que abarca, e que parece bastante extenso. Há poucas outras casas nas redondezas, sendo uma delas um casarão de construção recente e que é usado como um asilo privado para lunáticos. Ela não é visível do terreno, porém.
(trad. BT)

O romance é contemporâneo do de Wells, mas aqui a Kodak também brota inesperadamente, só que em outro contexto: um contexto de passado, de decadência, de mistério gótico, que afinal é o clima do romance: o mistério gótico invadindo o coração do Império Britânico em seu apogeu. O termo “kodak” se destaca ainda mais, por efeito de contraste.

Na última década do século 19, a Kodak já fazia parte do vocabulário comum de escritores como H. G. Wells e Bram Stoker, a ponto deste último usar a palavra com inicial minúscula. Ou pelo menos está assim na cópia em PDF que baixei; na tradução que tenho (Tecnoprint, Edições de Ouro, 1960?, trad. David Jardim Júnior) o parágrafo está bastante enxugado, e a palavra “kodak” não aparece.


Procurando por aí ("Wikisource") achei novas menções da palavra em obras de língua inglesa, como The Cruise of the Snark (1911) de Jack London e Tante (1912) de Anne Douglas Sedgwick.

Essa familiaridade se estendia até o Brasil.

Em Minha Formação (1900), Joaquim Nabuco narra (no episódio “Massangana”, também já publicado de forma independente):

Muitas vezes tenho atravessado o oceano, mas, se quero lembrar-me dele, tenho sempre diante dos olhos, parada instantaneamente, a primeira vaga que se levantou diante de mim, verde e transparente como um banho de esmeralda, um dia que, atravessando por um extenso coqueiral atrás das palhoças dos jangadeiros, me achei à beira da praia e tive a revelação súbita, fulminante, da terra líquida e movente... Foi essa onda, fixada na placa mais sensível do meu Kodak infantil, que ficou sendo para mim o eterno cliché do mar.”


Este trecho é comentado por Flora Sussekind em Cinematógrafo das Letras (São Paulo: Companhia das Letras, 1987) onde ela esmiúça de variados ângulos as respostas literárias e paraliterárias dos escritores e intelectuais brasileiros diante nas novas tecnologias que brotavam e que se expandiam à sua volta: a fotografia, o cinema, o jornal ilustrado, o “reclame”, etc.

Nabuco (diz ela) recorre a imagens como “kodak” e “clichê” quando tenta descrever os processos de fixação mental da sua memória de criança. As novas tecnologias tornam-se novas metáforas do pensamento, porque de imediato reconhecemos nelas esses processos de percepção, enquadramento, registro, preservação, reprodução, acesso...

Não havia como não pensar numa Kodak ao se evocar o processo indelével das memórias afetivas. O caso é que, como sempre acontece na literatura, ninguém costumava se exprimir assim, mas quando um autor o faz pela primeira vez (ou pelo menos a primeira vez no interior de um público específico) o reconhecimento é instantâneo. A imagem já estava no subconsciente coletivo. O artista a evoca. O público reage: “sim, é exatamente assim.”

A técnica nos supre novas metáforas, novas maneiras de comparar processos que dominamos sem entender de todo, como é o caso da memória, da imaginação, do raciocínio, das emoções.

Infelizmente não guardei a fonte desta citação de John R. Searle, professor de filosofia, copiada de alguma revista, ou de algum saite da web (talvez o excelente “A Word A Day”, de Anu Garg):

Por não entendermos muito bem o modo como a mente humana funciona, somos tentados o tempo inteiro a compará-la com o tipo mais recente de tecnologia.  Na minha infância, sempre nos asseguravam que a mente era uma espécie de central telefônica – o que mais poderia ser, afinal?  Depois, descobri, divertido, que Sherrington, o grande neuro-cientista britânico, comparava a mente a um sistema telegráfico.  Freud a comparava com freqüência a sistemas hidráulicos e eletromagnéticos.  Leibnitz a comparava a um moinho, e agora, evidentemente, a metáfora é o computador digital.

Para Wells e para Bram Stoker a “Kodak” era um objeto utilitário, comum, já fazendo parte do seu cotidiano; no texto de Joaquim Nabuco, ela é metáfora da lembrança. Já está – eu diria – num grau ainda mais profundo de integração à vida do escritor.



P. S. - Em mais um exemplo anglófono, Rudyard Kipling usou o verbo "kodaking" em "The Village that voted the Earth was flat", na coletânea A Diversity of Creatures (1917). Segundo as notas a uma edição desse livro, o Oxford English Dictionary registra o uso deste verbo desde 1891.


















domingo, 1 de junho de 2014

3514) Castelo de Drácula (1.6.2014)



O Castelo de Bran, na Romênia, está à venda por 73 milhões de euros.  Se eu tivesse o dobro disso sobrando, era negócio fechado, na certa.  É um castelo interessante, a julgar pelas fotos da matéria num saite português (aqui: http://tinyurl.com/q94ho8a). Duas imagens de um pátio interno lajeado, com um poço circular a céu aberto, para onde convergem claustrofóbicos cubículos, lembram o castelo de Drácula no Nosferatu (1979) de Werner Herzog. O castelo de Bran certamente serviu como modelo cenográfico a Herzog, porque é “o” castelo associado à figura histórica do sequioso Conde.  Havia outro, mas virou areia.

O castelo atrai 500 mil turistas por ano mas a manutenção é cara. Talvez ele valesse hoje apenas um quinto desse assombroso total, se não fossem os pesadelos que o semi-inválido (na infância apenas) Bram Stoker suportou, e o livro, em que ele os transfigurou em algo mais deliberadamente inventado e mais real.  O Drácula do romance de Stoker tem só uma beirinha factual em comum com o Conde Vlad histórico, mas tal como nos casos de Lampião, Alexandre e outros heróis, o vulto histórico é uma mera isca, um ímã inicial para produzir o primeiro movimento da imaginação.  Um indez de idéias.

Sabemos mais fatos históricos a respeito do Vlad Tepes real do que do Jesus Cristo real, do Homero real, do D. Sebastião real, e nem por isso estes todos são menos reais para nós.  Seria interessante se um Magomante da Crisoféia Sagrada daquela época pudesse ter chamado o conde Vlad ao Porão Encantatório, onde lhe mostraria na bola de cristal que seu nome no futuro estava associado a um dos maiores mitos satânicos daquele século não muito distante.  O Conde veria passarem no hipnoscópio todos aqueles rostos de dentes arreganhados, virar-se-ia para o Mago, diria apenas: “Isso não sou eu”. E o inocente do cientista seria empalado.

Vlad era um guerreiro cruel. Iria estranhar aquilo, porque não quereria ser outra pessoa (se pudermos pelo menos aceitar dando-de-ombros a premissa de uma tecnologia futurista para que ele tivesse tal acesso: aos dráculas dos quadrinhos, do cinema, do cartum, da pornografia, do gibi juvenil, da pulp fiction de operário e comerciário, dos videclips milionários, dos games humorísticos ou sadomasoquistas, etc.)  Vlad era um guerreiro rude, quase um urso armado.  Repeliria com brutalidade essa imagem dândi.  Ele era capaz de pôr abaixo a machado um pequeno bosque, e fazer dele um cemitério de prisioneiros empalados, mas não entendia que um homem pudesse ser tão capacho a ponto de cortejar uma mulher, efeminado a ponto de morder-lhe o pescoço, anormal a ponto de beber seu sangue.


domingo, 24 de março de 2013

3142) O Vampiro Predador (24.3.2013)





O vampiro é um arquétipo múltiplo, que vai recebendo diferentes projeções conforme ressurge em cada época, em cada cultura.  Cada medo customiza o vampiro de que precisa. Se o medo, como dizem os psicólogos, é um desejo ao contrário, tem a mesma força do desejo, a mesma energia vital do desejo, a mesma dinâmica do desejo. 

Quando Bram Stoker publicou Drácula (1897), saiu catando fragmentos de folclore da Europa Oriental, da Irlanda, do Oriente. Havia precedentes literários importantes (Richard Francis Burton, John Polidori, Sheridan Le Fanu, etc.), mas há um certo consenso de que a obra de Stoker foi dentro do mito o que se chama de uma “mudança qualitativa”. O jogo inteiro foi zerado em função das novas premissas.

Numa palestra recente no evento “Noites com Vampiros” (Caixa Cultural, Rio), com Júlio França e Júlio César Jeha, discutimos algumas dessas máscaras que o vampiro usa, ou melhor dizendo rostos, porque o vampiro, sendo um mito, não tem existência física a não ser no rosto que dele enxergamos. O mito é um feixe de estímulos potentes, contraditórios, imperiosos. A experiência do mito é sempre única, intransferível, porque é a soma do estímulo (um livro, um filme, uma imagem, etc.) com a nossa resposta a ele.

O vampiro criado por Stoker acabou se encarnando num aristocrata da Europa Oriental, um trecho sempre problemático do império britânico, aquele “onde o sol nunca se punha”. A Transilvânia parece um local onde o sol nunca nasce, pelo menos na severa iconografia que o livro de Stoker inspirou. É um lugar atrasado onde se acredita em bruxas, maus-olhados e feiticeiros. 

Já a Inglaterra era a Inglaterra de Allain Quatermain, Sherlock Holmes, a Inglaterra hoje romantizada e até desmedulizada numa parte do Steampunk, que esquece o lado cruel daquele processo todo, um Casa Grande & Senzala muito mais brutal. 

A Inglaterra onde o Conde Drácula surge como um aristocrata cada vez (no cinema) mais sofisticado, mais byroniano, mais baronial, mais carismático e magnético, o nobre capaz de dar uma ordem com um simples olhar – a outro nobre.

É mais simples dizer que o poder de Drácula é o poder que a Europa já teve e com o qual sonha, com seu Impossível Retorno.  Mas numa sociedade cada vez menos aristocrática e mais propensa a mitologizar o aristocrático, Drácula tem o poder e o carisma do patrão cruel visto pelos olhos do escravo agradecido.  É a versão masculina da Ayesha de H. Rider Haggard: Aquela A Quem Devemos Obediência. O cavalheiro de olhar penetrante, o herói byroniano diante de quem todos se curvam, e se curvam com gratidão e maravilhamento.



quinta-feira, 21 de março de 2013

3139) Livros pirateados (21.3.2013)





Em 1907, Mark Twain estava de passagem por Londres, indo para Oxford, onde receberia um título “honoris causa”, e aproveitou para se encontrar com seu amigo Bram Stoker. Os dois conversaram sobre vários temas e Twain deu conselhos ao autor de Drácula sobre como escrever histórias fantásticas: “A única maneira de escrever histórias de bruxaria é surrupiá-las por inteiro da obra de Balzac. O francês atingiu a perfeição em um dos seus ‘Contes Drôlatiques’... conheço uma livraria no Strand onde você pode comprar uma edição pirata, reproduzida por câmera fotográfica, por apenas meia coroa”.

Esse detalhe, reproduzido na biografia de Barbara Belford (Bram Stoker, Phoenix Giant, 1996), dá uma pista da desenfreada pirataria de livros que alimentava os grandes mercados editoriais do Ocidente há cem anos. Se entendi bem, os piratas não se davam o trabalho de recompor um livro no linotipo: fotografavam a página aberta em duas, e reproduziam as imagens, certamente com um mínimo de qualidade que pelo menos permitia a leitura. Mais ou menos como a galera pirateia filmes inteiros hoje em dia levando câmaras (ou mesmo celulares) para o cinema (todo mundo já viu piratas onde se avistam as cabeças dos espectadores à frente da imagem).

Twain e Stoker já tinham sido sócios numa empreitada editorial falida do primeiro. Twain foi uma espécie de Monteiro Lobato – torrava todo o dinheiro dos seus best-sellers em empreitadas editoriais mirabolantes, que acabavam dando com os burros nágua. Em 1898, ele convenceu Stoker e seu patrão, o grande ator Henry Irving (dono do teatro Lyceum, do qual Stoker era o gerente), a comprar ações do projeto de uma máquina de composição tipográfica (o “Paige Compositor”) que concorreu com o linotipo lançado por Mergenthaler, e foi derrotada por ele.  Twain trabalhou muitos anos como tipógrafo, e era um entusiasta dos novos modos de produção gráfica – consta que a primeira obra literária que chegou à editora numa versão datilografada foi o seu Vida no Mississippi (1883).

Aliás, isto pode ter influenciado Bram Stoker a dar à máquina de escrever portátil um papel importante em Drácula (1897), pois é nela que Mina Harker escreve parte do seu diário que narra a caça ao vampiro. E um grande impulso para a popularização do romance de Stoker foi que, por causa de um detalhe técnico, Drácula sempre esteve em domínio público nos EUA desde seu lançamento. Cem anos atrás, edições piratas e direitos autorais de livros impressos eram um território tão fluido quanto é, hoje, o dos livros eletrônicos. Os sucessos desse período mostram um momento em que qualidade e venda não foram antônimos.

domingo, 11 de outubro de 2009

1298) Máquina de escrever (11.5.2007)




Daqui a um milhão de anos, os arqueólogos da futura Humanidade estarão desenterrando, junto com ossadas de iguanodontes e crânios de tiranossauros, os arcabouços enferrujados das máquinas de escrever do século 20. Simpósios e mais simpósios serão organizados para discutir qual a serventia que teriam tido aquelas engenhocas tão intrigantes e perturbadoras quanto o Mecanismo de Antikhytera. 

Mal saberão eles que foi em cima dessas barulhentas contrapções que milhões de escritores gemeram, suaram, sofreram, viveram, se desesperaram, atravessaram os sete céus e os sete infernos de que fala o poeta.

Sofrimento de tal ordem que deu origem a um dos clichês cinematográficos mais desgastados em filmes sobre escritores: o cara datilografa, pára, começa de novo, pára, arranca a folha de papel, amassa, joga do outro lado do escritório, bota outra folha, amassa de novo... aí depois de fazer isso algumas vezes se desespera – e arremessa a máquina pela janela! 

Todo filme mostra esse clichê, e eu duvido que na vida real algum escritor já tenha feito isso.

Penso em Jack Kerouac pegando um rolo de papel contínuo com centenas de metros, enfiando a ponta dele na máquina e escrevendo On the Road do início ao fim, ao longo de três semanas, na base do café e da benzedrina, sem precisar trocar de folha. 

E penso em Raymond Chandler aos cinqüenta anos, um executivo desempregado tentando virar escritor, e mandando para a editora manuscritos (ou datiloscritos) em que ele se preocupava em alinhar todas as linhas na margem direita, porque pensava que se não fosse assim o livro poderia ser recusado.

Uns com tanta intimidade, outros com tão pouca. Intimidade com máquina de escrever se conquista aos poucos, através dos olhos, das mãos, dos dedos, ganhando-lhe a confiança e retribuindo-a com carinhos, como dizia Mário de Andrade, ao escrever na máquina uma carta para Manuel Bandeira em 1925: 

“E agora já sabe: quinze minutos que seja de descanso, estou na frente da Manuela batendo tipo sem parar. Manuela é o nome da máquina, por causa de você. Inventei agorinha mesmo isso. Não refleti nem nada: ficou Manuela”. 

Em pleno Modernismo nossos escritores tateavam com timidez no mundo high-tech do teleco-teco do teclado, isso quando Mark Twain já tinha se tornado em 1883 o primeiro autor a submeter um “manuscrito” à editora sob a forma de um texto datilografado (o livro era Life in the Mississipi, e Twain não datilografou ele próprio o texto, pagou alguém para isto).

E não só os escritores devem sua vida a ela; a partir de certa época, também os personagens. 

Já em 1897, Bram Stoker fazia sua personagem Mina Harker, a vítima principal do Conde Drácula, ter à sua disposição uma máquina de escrever onde ela registra em 62 páginas tudo que lhe aconteceu, com todas as informações necessárias para que o Conde seja descoberto, e diz, no Capítulo 26: “Oh, como sou grata ao homem que inventou a máquina de escrever Traveller’s!”