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quinta-feira, 29 de dezembro de 2022

4898) Nove detalhes sobre Pelé (29.12.2022)



1
Eu nunca vi Pelé pessoalmente, nem mesmo no gramado. Me arrependo de não ter dado uma fugida da farra, do trabalho ou do passeio para ir ao estádio numa das vezes em que ele jogou pelo Nordeste, ou visitou o Maior São João do Mundo. Nunca vi Pelé. Vi (no estádio) alguns de seus companheiros de geração jogarem: Garrincha, Djalma Santos, Rivelino... Pelé, nunca.

Muitos anos atrás li um artigo, de algum cineasta talvez, explicando que na nossa memória formam-se dois aposentos contíguos de lembranças: a) o das experiências vividas diretamente, em primeira mão, em carne e osso, presencialmente; e b) o das experiências a que temos acesso de forma indireta, por imagens, fotos, filmes, gravações, textos, relatos de outras pessoas... 
 
É interessante tentar avaliar qual desses aposentos é maior, qual deles está mais entulhado de referências. A verdade é que nossa “memória de carne e osso” funciona a todo vapor, 24 horas por dia, registrando coisas, mas apenas nos ambientes aonde nosso corpo nos conduz. E a “memória de imagem, ou de palavras” nos dá acesso ao planeta inteiro, ao mundo virtual ou ficcional inteiro, aos milênios de História, às galáxias. É uma memória construída, ficcionalizada, maior (talvez) do que a outra.
 
Philip K. Dick, nas suas impagáveis divagações, dizia que muitas partes do mundo na verdade não existem – são construídas às pressas quando vamos fisicamente para lá. Como no Show de Truman, ou como num videogame, em que a paisagem se recompõe (ou se cria) magicamente no horizonte, enquanto avançamos.
 
Eu e Pelé jamais existimos no mesmo universo físico, jamais estivemos no mesmo lugar ao mesmo tempo. 
 
2
Falei acima que Pelé já jogou na Paraíba. Meus amigos de outros Estados talvez não saibam que um dos orgulhos ficcionais dos paraibanos é o fato de que Pelé marcou seu gol número 1.000 em João Pessoa, num amistoso noturno com o Botafogo-PB, cobrando um pênalti. O famoso gol marcado no Maracanã, contra o Vasco, é a “versão chapa-branca” do fato, a lenda que se publica quando a realidade é menos cativante. Para a imprensa brasileira, era muito mais cativante que esse gol fosse feito no Maior Estádio do Mundo, diante do Vasco (time de coração do Rei), num goleiro argentino que fez o possível para alcançar aquela bola.... A lenda, sem dúvida, dá mais Ibope. 
 
No jogo com o Botafogo, a imprensa afirmava que Pelé tinha naquele momento 998 gols. Toda vez que Pelé dava um passe em profundidade para um atacante do Santos os jogadores do “Belo” se afastavam da bola, na esperança de que ela fosse direto para o gol. Nunca ia. Cometeram um pênalti, em desespero de causa. Longas confabulações. Pelé bateu, fez o gol, e foi substituído. Era (de acordo com a imprensa) o gol 999. No domingo seguinte, jogou contra o Bahia na Fonte Nova, e um zagueiro do tricolor salvou uma bola em cima da linha. No meio da outra semana, veio o gol no Maracanã.
 
Refizeram as contas depois, havia um gol antigo que não tinha sido computado... Mas quem vai reescrever a História só para dar uma glória dúbia ao Botafogo de João Pessoa? Eu, pelo menos, acho desnecessário.
 
3
Um episódio sem nada a ver com futebol é o encontro improvável entre Pelé e John Lennon. Os dois estavam morando em Nova York nessa época – Pelé recém-contratado pelo Cosmos, e Lennon em sua politizadíssima fase pós-Some Time in New York City. Encontraram-se casualmente nos corredores de uma escola de idiomas. Pelé estava aprendendo inglês. Lennon estava fazendo aulas de japonês, algo que certamente teve vontade desde que começou a viver com Yoko Ono. 
 
Consta que os dois se cumprimentaram cordialmente, aquele papo de “sou muito fã seu”, normal entre gente que vive sob os holofotes da fama (e gente que percebe, no outro, a genialidade que os fãs do outro às vezes nem entendem direito). E Lennon confidenciou que, quando a Copa do Mundo de 1966 foi realizada na Inglaterra, os Beatles, então se preparando para lançar Revolver, tiveram a idéia de fazer uma visita à Seleção Brasileira, então bicampeã mundial – mas a burocracia da CBD os desaconselhou. 
 
E eu fico imaginando um universo paralelo onde exista uma daquelas fotos com dois grupos misturados, intercalados: os Beatles e a seleção com Pelé, Garrincha, Gilmar, Bellini, Gérson...
 
Uma pequena digressão: é interessante que nenhum dos quatro Beatles, todos eles liverpudlianos, tenha sido um torcedor fervoroso de futebol. O único futebolista na capa do Sgt. Pepper’s é Albert Stubbins (1919-2002) – do Liverpool, claro. Ao que se diz, alguém sugeriu colocar um jogador de futebol, e Lennon o escolheu porque quando garoto achava o nome dele engraçado. Stubbins é, na famosa capa do disco, o sujeito de rosto rubicundo logo abaixo de Karl Marx e um pouco acima de Marlene Dietrich. 
 
4
Outro encontro improvável de Pelé, que sempre me fez divagar, foi o que ocorreu em Araraquara, numa tarde de domingo de 1960. Numa praça central da cidade, cruzaram-se dois grupos que se entreolharam à distância. Um deles acompanhava Pelé e o time do Santos, que se encaminhava para um jogo com a famosa Ferroviária de Araraquara. O outro acompanhava os escritores Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir, que se dirigiam, por sua vez, para uma palestra na Faculdade de Filosofia local. 
 
Já escrevi com maiores detalhes a respeito desse encontro inusitado:
https://mundofantasmo.blogspot.com/2008/03/0045-um-encontro-em-araraquara-1452003.html
 
 
5
A violência no futebol é como a violência em qualquer esporte de contato, de disputas corporais acirradas. Varia de acordo com o estilo dos jogadores e dos técnicos, com o ambiente, com o peso das ambições transformando um simples jogo numa batalha de vida ou morte. Há grandes jogos em que a violência campeia de parte a parte, e grandes jogos em que se vê futebol-arte do começo ao fim, sem nenhuma falta mais ríspida. Tudo isto faz parte da vida. 
 
Tenho duas imagens de Pelé que se não são “um exemplo para as gerações futuras” ilustram bem o lado “testosterona pura” do futebol. 
 
A primeira é a caçada que Pelé sofreu no histórico jogo Brasil 1x3 Portugal, que tirou o Brasil da Copa de 1966 ainda na fase de grupos. Portugal mereceu a vitória, porque a Seleção daquele tempo era aquilo que os coleguinhas da crônica esportiva gostam de chamar “um amontoado de jogadores”. Mas o que Pelé apanhou não está no gibi, e em grande parte não são as faltas comuns, na disputa brusca pela bola, na imposição de uma força sobre outra força. São faltas planejadas, onde o jogador pensa “vou pegar no joelho”, e o faz. Naquele tempo o futebol não permitia substituições. Pelé ficou mancando em campo, só para fazer figuração, até o fim.
 
Na Copa seguinte, em 1970, há outro episódio (que tal como o outro pode ser encontrado no YouTube) no jogo Brasil 3x1 Uruguai. Pelé sofre uma falta, rola no chão. Enquanto está caído, um uruguaio passa por ele, assim como quem não quer nada, e pisa no seu joelho. Pelé marca o cara, e logo depois, quando os dois perseguem uma bola longa lá na ponta esquerda, espera que ele se aproxime, e mete o cotovelo na sua testa, com toda força, antes de rolarem os dois pelo chão. O juiz não viu nada. Deu falta a favor do Brasil. 
 
Isso é feio? Sim, a vida é feia. Todos nós sonhamos com a possibilidade de um mundo futuro onde não existam a violência, os terremotos e as baratas. Viver não é apenas perigoso, viver é cruel.
 
6
O melhor livro sobre Pelé (não que eu tenha lido muitos) talvez seja Viagem ao Redor de Pelé, de Mário Filho, que li adolescente. Foi numa época em que meu pai comprava todos os livros sobre futebol que apareciam na Livraria Pedrosa. Mário Filho escrevia brilhantemente a última página, enorme, da Manchete Esportiva. Eu lia e relia todas.  Juntamente com seu irmão Nelson Rodrigues e com João Saldanha, ele encarna a simplicidade e a riqueza imagística de quem sabe escrever sobre o futebol brasileiro. Destes três, para mim, derivaram todos os que contam histórias futebolísticas e interpretam o mundo fantasioso do futebol, cada qual com sua paleta própria, e a todos li com prazer: Sandro Moreira, Armando Nogueira, Eduardo Galeano, Fernando Calazans, Juca Kfouri, etc. 
 
7
Tem um provérbio segundo o qual “Dinheiro pouco é problema muito, e dinheiro muito é problema muito também”. Pelé ganhou rios de dinheiro, tal como os Beatles. E, tal como os Beatles, poderia ter ganho o dobro ou o triplo se desde o começo a sua fortuna crescente fosse administrada por alguém que tivesse essa rara combinação de qualidades: honestidade, lealdade pessoal e competência.
 
Tem um personagem, hoje obscuro, na história de Pelé, que era conhecido como “Pepe Gordo”. Foi empresário ou contabilista das empresas de Pelé durante anos, e deixou um rombo gigantesco. A imprensa da época dizia que Pelé tinha abandonado o futebol mas teve que voltar, e assinar com o Cosmos, para tapar o buraco deixado por Pepe Gordo.
 
Virou uma expressão de gíria entre alguns amigos meus. Às vezes algum conhecido nosso ficava rico, arranjava um empresário, e alguém comentava: “Ih... o cara tem um jeitão de Pepe Gordo...”  Alguns anos atrás, o bardo Leonard Cohen, com 70 anos de idade, tinha deixado a administração de seus negócios na mão de uma empresária de confiança, Kelley Lynch, a qual raspou o fundo do tacho e sumiu com a grana. E quando eu li a notícia pensei: “Pepe Gordo ataca novamente”. 
 
8
Muita gente criticava Pelé pelo seu hábito de se referir a si próprio na terceira pessoa: “Ah, o Pelé acha isso, o Pelé acha aquilo...”  Para muita gente, é sinal de vaidade, de auto-engrandecimento. Muita gente famosa adquire esse cacoete, que desperta antipatia nas pessoas. 
 
Eu acho meio chato também, mas entendo que isto nasce da consciência de que o personagem admirado pelas multidões é uma coisa, e o “eu”, “a minha pessoa”, é uma coisa diferente. É sempre assim. Pelé fazia com frequência a distinção entre “o Pelé” e “o Edson”. Ele sabia que o público precisa do personagem para fantasiar seus próprios desejos, suas expectativas, seus sonhos, seus medos, seus preconceitos a-favor ou contra... E sabia que a pessoa é sempre um mero portador do personagem. 

9
Uma das expressões mais vívidas sobre a época de ouro do Santos foi uma declaração do próprio Pelé. O Santos, nos anos 1960, era um assombro futebolístico comparável ao que foram em épocas recentes o Barcelona (na era entre Romário e Messi), ou o Real Madrid “galáctico”. Clubes pelos quais a gente não torcia, mas fazia questão de acompanhar os jogos porque sabia que coisas memoráveis iam acontecer naquela tarde, naquela noite. 
 
Era o Santos que tinha a famosa linha atacante com Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe.  Não somente esses. Havia o atacante Pagão, que era o preferido de Chico Buarque. Havia Toninho, um artilheiro nato, matador, no estilo de Pedro (Flamengo) ou Germán Cano (Fluminense). O Santos era um assombro.
 
O jornalista perguntou a Pelé, já idoso, quais as coisas de que ele sentia saudade da época do futebol. E Pelé respondeu: “Eu tenho saudade da sensação que a gente tinha no início de todos os jogos, quando as equipes tomavam posição, a gente botava a bola no centro, se preparava para dar a saída, e então eu levantava a cabeça e olhava o time adversário. E via o medo nos olhos deles. O medo que eles tinham do Santos.” 
 
 
 
 
 
 






domingo, 27 de novembro de 2011

2725) Os gols perdidos (27.11.2011)




Uma das curiosidades da história de Pelé é o endeusamento que os torcedores fazem dos famosos gols perdidos por ele na Copa de 1970. Chamar de gols perdidos é injustiça, aliás. Gol perdido é aquele que é facílimo de fazer e o cara não consegue. No caso de Pelé, foi justamente o contrário. Foram gols quase impossíveis de fazer e que ele quase fez. Aí reside a arte e o mistério.

O primeiro foi no jogo de estréia do Brasil na Copa, contra a Tchecoslováquia, país que sempre foi bom de bola. Pelé dominou a bola no centro do campo e viu que o goleiro estava adiantado. Mandou um chute por cobertura que ao descer passou raspando a trave, desnorteando o goleiro, a torcida e os câmaras de TV, nenhum dos quais estava preparado para fazer aquele movimento num lance tão “sem perigo de gol”. Daí em diante, dezenas de jogadores já fizeram esse gol. Só Pelé não fez. Mas o gol é dele, não é mesmo?

Os outros dois foram na partida semifinal, quando ganhamos do Uruguai por 3x1. Um deles veio de um tiro de meta batido pelo goleiro uruguaio, Mazurckiewicz, que em vez de dar um chutão para o alto cometeu a imprudência de mandar a bola para o meio do campo a meia-altura. No meio do caminho estava Pelé, que, sem dizer água-vai, rebateu a bola para o gol com um chute fortíssimo, que o goleiro só defendeu porque era, na época, um dos melhores do mundo.

Mais tarde, Pelé foi lançado em profundidade, perseguido pelos zagueiros, e o goleiro saiu ao seu encontro. Como a bola vinha em diagonal, todo mundo pensou que Pelé ia dominá-la puxando-a para a esquerda, no que seria o movimento natural, pelo fluxo da jogada. Ele simplesmente passou por cima da bola sem tocá-la, rodeou o goleiro, alcançou a bola pelo lado oposto e chutou para o gol, A bola saiu, raspando a trave. Zico fez esse gol, anos depois; outros jogadores já devem tê-lo feito. Mas a quem pertence o gol?...

A obra de arte pertence a quem primeiro teve o vislumbre de sua existência e a trouxe, mesmo incompleta, ao mundo. Eram jogadas que não existiam no futebol, e a genialidade de Pelé (“data vênia” os muitos gênios do futebol que vieram antes ou depois dele) estava não somente na execução das jogadas, mas na invenção. Pelé foi um artista inventor, no sentido que Ezra Pound atribuía a alguns poetas. Esses gols que ele não marcou brotaram de improvisos geniais, feitos em fração de segundo, talvez pensados antes, como todo grande improviso, mas sem poder saber quando as circunstâncias certas ocorreriam. “A bola não quis entrar”? Paciência. Esses gols entraram para a arte e a técnica do futebol, e é para isso que existem os poetas-inventores.

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

2649) O líder que deixa liderar (31.8.2011)



(Garrincha, Didi e Pelé)

O designer Bruce Mau criou The Incomplete Manifesto, um conjunto de instruções para enfrentar situações em que a criatividade emperra. O texto (está completo aqui: http://tinyurl.com/yamtgvd) tem 43 itens, e aqui vai mais um, comentado por mim.

“10) Todo mundo é líder. O crescimento é algo que acontece. Quando acontecer, deixe que brote. Aprenda a segui-lo quando ele fizer sentido. Permita que qualquer um possa liderar”.

Estas poucas linhas me lembram episódios em que a liderança de um trabalho foi momentaneamente assumida por um subordinado, e o líder natural do grupo, ao invés de sentir-se ofendido ou ameaçado por isso, teve a lucidez de dar um passo de lado e ceder essa liderança a quem tinha uma proposta melhor que a sua.

Na Copa do Mundo de 1958, o Brasil estreou vencendo a Áustria (3x0) e empatando com a Inglaterra (0x0). O time tinha na reserva o adolescente Pelé, com 17 anos, e o imprevisível Garrincha, com 24, considerado por alguns cartolas um irresponsável, porque jogava para se divertir. 

Na véspera do jogo com a Rússia, que decidiria nossa classificação, Feola foi procurado pelos jogadores mais experientes do time: Nilton Santos, Didi, Gilmar, etc. Os jogadores o convenceram de que com Pelé e Garrincha o time ficaria imbatível. 

Feola não usava terno Armani à beira do campo, não era truculento, não se achava o dono da verdade. Aceitou o conselho dos jogadores, “e o resto é História”.

Em 1980, a diretora Tizuka Yamasaki estava realizando seu primeiro filme, Gaijin – Os caminhos da liberdade, história da imigração japonesa no Brasil. O roteiro original (que contava em linhas gerais a vida da avó da diretora) terminava com a impossibilidade do casamento entre ela e um namorado brasileiro (como ocorreu na vida real). 

Perto do fim das filmagens, Tizuka foi abordada por atores e membros da equipe técnica. Eles queriam que o filme terminasse com o casamento da japonesa e do brasileiro. Tizuka argumentou que na vida real não fôra assim; eles contra-argumentaram que o filme era a favor da miscigenação e da união entre as duas culturas, e que neste caso a fidelidade à biografia de uma única pessoa era de importância menor. A diretora aceitou, mudou o fim do filme, e o filme ficou muito melhor.

Um amigo meu, engenheiro elétrico, estava coordenando a construção de um conjunto habitacional popular. A certa altura surgiu um problema com a distribuição das redes elétricas dos blocos. As soluções padrão, que ele e os outros tinham aprendido na faculdade, não se aplicavam ali. Um morador local, que era eletricista nas horas vagas, propôs uma solução pouco ortodoxa. Eles ficaram um tempão avaliando e resolveram tentar. 

Deu certo. “Era uma solução típica de quem não aprendeu as soluções mais óbvias”, disse ele. “Mas funcionou, e fim de papo. Nosso mérito foi apenas o de dizer: ‘Vamos tentar a solução do cara’, e esquecer que ele estava ali como mero ajudante.”







terça-feira, 22 de setembro de 2009

1277) A via-crucis de Romário (17.4.2007)



Escrevi aqui (“A romaria de Romário”, 6 de fevereiro) sobre a campanha do grande Baixinho rumo ao seu milésimo gol. Tudo estava bem encaminhado. Romário marcou 9 gols em apenas 3 jogos, contando até (ninguém me convence do contrário) com uma pequena colaboração dos juízes (marcando pênaltis e mais pênaltis) e de alguns goleiros que iam nas bolas sem muita convicção, em jogos cujo resultado já estava definido, e um gol a mais não faria diferença.

Quando ele atingiu o 998, o Rio de Janeiro (cidade movida a marketing) se mobilizou inteiro para o milésimo. Quem não mora na cidade não tem a proporção da coisa; ouve o alarido das tevês e das rádios, mas ouve à distância. Num dos jogos em que ele poderia ter o feito o Gol Mil, saí passeando pelas ruas do bairro do Flamengo, num domingo às seis da tarde, e onde houvesse um TV ligada as calçadas estavam cheias de cadeiras, e de gente em pé, assistindo e esperando. E não eram apenas os futeboleiros habituais. Vi famílias inteiras, o cara levando a mulher, os filhos pequenos sentados no colo... Tudo isto para quê? Para um dia o menino dizer, aos cinqüenta anos: “Eu vi o gol mil do Romário”.

Por enquanto ninguém viu ainda, e eu culpo o próprio Baixinho. Na semana que antecedeu o jogo Vasco x Flamengo, quando ele tinha 998, o “Globo Esporte” descobriu um gol que a equipe dele não tinha computado, o que elevaria o número para 999. Marrento, ele recusou e devolveu o presente: “Fica de lambuja”, disse ele ao microfone. No domingo, o Vasco deu uma sapatada de 3x0 no Flamengo, e ele fez o terceiro gol, um golaço. Tivesse aceito o gol recém-descoberto, aquele teria sido o Gol Mil, e era um gol para entrar na História, o terceiro de uma vitória esmagadora sobre o maior rival. Haveria flashes espoucando até agora.

Mas não quis. Não quis, e daí em diante, como dizem os jogadores, “a bola não quis mais entrar”. Jogos e mais jogos sem nada acontecer, inclusive este último Vasco 4x4 Botafogo, em que durante os 90 minutos Romário ficou com a bola (segundo a TV-Globo) exatamente 10 segundos, o tempo de driblar um zagueiro e chutar por cima do gol. O Vasco perdeu nos pênaltis, caiu fora do Campeonato, e a equipe de produção do Baixinho ficou com uma festa adiada nas mãos. Pior são os técnicos de marketing dizendo cobras-e-lagartos dele, dizendo que o rapaz amarelou. Pois é, agora, só em maio.

Quando vocês revirem os gols e as jogadas fantásticas de Pelé na Copa de 70 (o chute a gol do meio de campo, o drible de corpo no goleiro uruguaio, o salto de dois metros para cabecear contra o gol da Itália) lembrem que aquele cara tinha 29 anos e mil gols no currículo. Estava num clímax que ninguém jamais igualou. Romário merece fazer mil gols, e até mais. O que não merece é passar por um sofrimento tão grande. O peso do marketing está sendo excessivo para um cara que tem 41 anos em cada panturrilha.

sábado, 28 de março de 2009

0927) Política literária (7.3.2006)




(Ernest Hemingway & Fidel Castro)


Política literária é tratar cada leitor como um político trata um eleitor. 

Dar-lhe atenção, quando abordado, mesmo que não disponha de muito tempo. 

Ouvir o que o leitor tem a dizer. 

Procurar dizer-lhe algo em que ele possa ficar pensando, e que lhe seja útil. 

Tratar a imprensa com atenção, mas sem promiscuidade. 

Não misturar relações profissionais com relações pessoais. 

Tratar bem os concorrentes de hoje, que podem ser os aliados de amanhã, e vice-versa. 

Saber que tudo que se diz em público pode vir a ser lembrado e repetido (e será, com certeza, se for algo inconveniente).

Existem escritores de gênio que são péssimos políticos, e somente a genialidade faz com que sejam lembrados hoje. Em geral, quem suaviza sua escalada é um grupo de pessoas mais próximas (família, agentes literários, editores, amigos) que se encarregam de aparar arestas, administrar o cotidiano do artista, cuidar de sua imagem (porque ele não cuida), e de um modo geral fazer com que ele se dedique a fazer a única coisa que faz bem: escrever.

Outros são excelentes políticos. Guimarães Rosa, Garcia Márquez, Arthur C. Clarke, Machado de Assis, Octavio Paz, Jorge Amado, são exemplos que me ocorrem assim meio ao acaso. Indivíduos equilibrados, afáveis, bem falantes, hábeis no trato com o homem da rua, com a imprensa, com os poderosos. 

Praticaram, ao longo de suas carreiras, a difícil arte de andar no convés de um navio, em plena tempestade, sem derramar uma gota sequer do seu coquetel. Alguns foram malhados pela crítica ou perseguidos por polemistas profissionais; mas nunca sofreram sequer um “knock-down”. 

Há escritores que são assim, mas cuja obra não têm muita densidade. Estes, tipicamente, atingem o auge da glória quando em vida, mas uma vez sumidos, sumido seu charme, sumido o vigor impositivo de sua presença, some a obra também.

Fico pensando em auto-sabotadores contumazes como Edgar Allan Poe, Arthur Rimbaud, Lima Barreto... Pode-se fazer qualquer elogio a eles, menos dizer que eram hábeis na administração da própria carreira. 

Foram perseguidos por uma combinação nefasta: temperamento impulsivo, vícios, egocentrismo, ambiente preconceituoso, conflitos familiares... Sobre eles parecia pairar uma maldição cuja fórmula dizia: “Não serás popular. Conquistarás poucos admiradores, e mesmo estes acabarás afastando de ti. Muitos te admirarão; mas na hora H, ninguém estará do teu lado”.

Ser político é uma dimensão inevitável de qualquer sujeito, mesmo um pedreiro ou um balconista. Não ocorre só na literatura. 

Outras atividades nos mostram parelhas de talentos com diferentes destinos: Pelé x Garrincha, Luiz Gonzaga x Jackson do Pandeiro, Paulo Coelho x Raul Seixas. 

A diferença entre o que acontece a uns e a outros não é uma diferença de talento, mas uma diferença de habilidade política, de capacidade para administrar a si próprio. Para o público não faz muita diferença, mas para eles, fez, e muito.





sexta-feira, 7 de março de 2008

0045) Um encontro em Araraquara (14.5.2003)




Um encontro único na História ocorreu no dia 2 de setembro de 1960, numa praça da cidade paulista de Araraquara. Quem o relata é Ignácio de Loyola Brandão, natural dali, e autor de livros notáveis como Zero, Não Verás País Nenhum e muitos outros. 

Era um domingo à tarde: Araraquara estava em festa com a presença do Santos de Pelé, que vinha enfrentar a Ferroviária num jogo pelo Campeonato Paulista. Às vésperas de completar 20 anos, Pelé, campeão mundial aos 17, já era aclamado por grande parte da imprensa como o maior jogador do mundo. 

As façanhas que vinha acumulando justificavam esse entusiasmo, embora ele ainda viesse a conquistar mais outros quatro títulos mundiais (dois pelo Santos, e mais dois pela Seleção), e estivesse ainda a dez anos de sua melhor participação em Copas do Mundo. 

Foi no trajeto entre o hotel e o estádio que Pelé, cercado pela costumeira caravana de fãs, atravessou a praça e percebeu outra romaria que se aproximava em sentido contrário. Em vez dos barulhentos torcedores, esse outro grupo era composto por homens de terno, e mulheres usando os comportados vestidos da época. Uns eram idosos, outros bem mais jovens, e caminhavam sem perder de vista e de ouvido o casal que avançava no centro do grupo: um homenzinho de óculos, com a pálpebra esquerda denunciando o olho prejudicado, e a mulher mais alta do que ele, de pele muito branca e sardenta, traços delicados, olhos concentradamente sérios. 

O casal Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir estava em viagem pelo Brasil. Ciceroneados por Jorge Amado, os dois iam naquele instante rumo à Faculdade de Filosofia de Araraquara, onde Sartre proferiria uma palestra sobre sua recém-lançada “Crítica da Razão Dialética”. 

O cruzamento fugaz dos dois grupos foi testemunhado por Loyola Brandão, pelo diretor José Celso Martinez Corrêa, pelas tias do dramaturgo Mauro Rasi (recentemente falecido), e por dois estudantes que seguiam a comitiva sartreana, chamados Fernando Henrique e Ruth. 

Fernando Henrique, que naquele instante só tinha olhos para o pai do Existencialismo, não teve tempo de imaginar que, 34 anos depois, seria eleito Presidente da República derrotando o maior líder das esquerdas operárias brasileiras, e que um dos ministros do seu governo seria aquele jovem jogador negro, que dava autógrafos sem perder o sorriso. 

É assim – não é mesmo? – a vida das pessoas. Na hora, tudo é casual, tudo é normal, tudo é comum. Visto em retrospecto, depois que sabemos como aquilo terminou, tudo ganha significado, as associações e comparações podem ser feitas com clareza, tudo parece “ironia do destino”, ou premonição. 

Depois que sabemos em quem aquelas pessoas se tornaram, o simples fato de que elas se cruzaram um dia numa praça é algo mágico. Mágico como a imagem surrealista do encontro entre um guarda-chuva e uma máquina de costura sobre uma mesa de dissecação. 

Como diriam os Existencialistas, só tem sentido porque aconteceu.