quarta-feira, 26 de agosto de 2026

5250) A ciência do palíndromo (26.8.2026)




 
Nos dias 14 e 15 deste mês tive a alegria, misturada ao fascínio e à surpresa, de participar do IV Encontro Brasileiro de Palindromistas, o evento denominado “La Una Anual”, patrocinado pela “Liga Ágil”, entidade que congrega a linha-de-frente dos praticantes desta Grande Arte. 
 
Não custa lembrar, didaticamente, que um palíndromo é uma frase que pode ser lida nos dois sentidos, para a direita e para a esquerda, e ser sempre a mesma. Com liberdade (ninguém é de ferro) para mexer na divisão de palavras, mexer na pontuação, ignorar acentos ou sinais tipo cedilha, etc. É a letra pura que vale. 
 
Um troço dificílimo de criar!  Quem o garante sou eu, que passei meia hora tentando inventar um, para servir de título a este artigo, e acabei desistindo.
 
E uma coisa que para alguns pode até não ser “facílima”, mas produz resultados de arregalar os olhos de quem tentou em vão. Como mostram esses exemplos (entre milhares!) dos craques com quem troquei idéias e tomei cerveja naquele fim de semana. 
 
Ana Lia
Oro e temo. Rezar? Tem medo? Paz? A guerra varreu Gaza. Podem me trazer o meteoro!
 
André Santiago de Araújo
A tal é detetive.  Evite.  Te delata.
 
Edson Kanashiro
Ô Ciro... Mané!  De namorico?
 
Fábio Cajueiro
Após o vômito, ó... Tô ótimo, vó!  Sopa!
 
Fraga
A dó, ré, mi, Tom Zé fez motim e roda
 
Giba Assis Brasil
O baronato Brasil, ao alisar, bota no rabo
 
Leo Cunha
É tal au-au! Ih... Chiuaua late.
 
Pablo Javier Alsina
Ah, Satanás, se é bêbado, se tem sedes, mete soda, bebe essa Natasha
 
Ricardo Cambraia
O decano zarpava pra zona cedo
 
Rommel Girão
Se Covid repassam à massa, perdi vocês
 
Sílvio Lourenço
A diva doa, por amar, o pão da vida
 
... e por aí vai.
 


Fui parar nesse conciliábulo de oulipoetas por obra e graça da dupla Fraga & Giba, cujo livro Só Nós eles me deram a honra de prefaciar.  Não sou palindromista, embora vez por outra tenha cometido meus atrevimentos. Sou, porém, um admirador, defensor e divulgador da Grande Arte. 
 
“Arte?!”, alguém pode se encrespar, ofendido. E eu respondo: Se um hai-kai japonês é arte; se um brinco de diamantes é arte; se um miniconto atribuído a Ernest Hemingway é arte; se um vídeo que concorre ao “Festival do Minuto” é arte; se uma sextilha de Pinto do Monteiro é arte... 
 
Por que (e para quê) negar essa condição artística a essas frases que parecem, no espelhamento de sua ida-e-vinda, encerrar em si uma fórmula mágica, uma descoberta lúcida, uma maneira nova de produzir a Beleza através da Ordem, e de encontrar a Liberdade através do Rigor? 




Os exemplos que citei acima são tirados dos livros que ganhei, publicados pela Editora Carótide (atenção para a grafia palindrômica!), de Sílvio Lourenço, e da revista ArtSinistra editada pelo grupo. A cada página dessas coletâneas a gente esbarra em verdades surpreendentes, delicadezas líricas, mordazes sátiras políticas, ou simples tiradas absurdistas de fazer gargalhar Alfred Jarry. 
 
Há dois tipos especiais de palíndromos, que de certa forma apontam em direções contrárias. 
 
Chamo de Palíndromo Oracular aquele que, mediante o uso de palavras obscuras e de repetições sonoras (difíceis de evitar pela própria natureza do processo) lembra aquelas frases crípticas dos oráculos da Antiguidade, como a famosa Pitonisa de Delfos. 
 
Fraga:
Letra consagra Vargas no cartel
 
Ana Lia:
O mínimo átomo, tão mínimo
 
Edson Kanashiro:
Reli o pseudovodu: é spoiler
 
Na maioria dos palíndromos, as frases pedem que as releiamos com cuidado, avaliando cada palavra e deduzindo a relação sintática entre elas, bem como a consequente formação de sentido. 
 
Lembram também, para além dos oráculos místicos, aquelas frases enigmáticas que parecem aparecer do nada e se tornam uma fonte permanente de perplexidade e tentativas de decifração. É o caso do tradicional lema da Banda de Ipanema, no carnaval: Yolesman Crisbeles, ou daquela clássica pichação que frequentou os muros cariocas durante décadas: Celacanto provoca maremoto. 


 
Como também é o caso de versos famosos da tradição poética. O famoso verso inicial do Canto VII do Inferno, de Dante Alighieri: “Pape Satàn, pape Satàn aleppe”.
 
É assim que o deus Plutão confronta Dante e Virgílio quando os dois poetas se aproximam do Quarto Círculo dos infernos. E, ao que se diz, não há dois tradutores que interpretem da mesma forma essa invectiva inexplicável. 
 
E versos de nonsense em geral têm esse curioso magnetismo. Soam como uma frase à espera de ser lida de outra maneira e assim revelar seu segredo cifrado. Como os famosos versos de I Am The Walrus  de John Lennon: “Elementary Penguin singing Hare Krishna...” 
 
Não deve ser outra a razão que fez o notável palindromista britânico Anthony Etherin botar o nome de Elementary Penguin na revista eletrônica, recém-fundada, para a qual pede colaborações em forma de palíndromos, anagramas, lipogramas, versos aliterativos e por aí vai. 
 
Aqui:
https://anthonyetherin.wordpress.com/wp-content/uploads/2026/08/elementary-penguin.pdf
 
O outro tipo de palíndromo com que me deparo o tempo todo (se bem que menos frequente que  outro) é o que eu chamo de Palíndromo Invisível. É aquela frase em que o autor conseguiu um certo grau de coloquialidade e fluência, obtendo uma dicção tão “normal” que só numa segunda leitura percebemos o artifício, e às vezes só o fazemos porque a frase está num livro de palíndromos, então... 
 
Ricardo Cambraia:
Rezar pode, tio, na noite do prazer?
 
Pablo Alsina
Omitiram o dado marítimo
 
Giba Assis Brasil
E a sua, pô, nem menopausa é
 
O palíndromo muitas vezes “entrega” de cara sua natureza artificial pela repetição de sons, que é inevitável, ou melhor, é obrigatória. Quando há muitas letras parecidas, o leitor experiente detecta isto sem muita demora. Quando em pontos simétricos da frase aparece um Z ou um X ou outra letra pouco usual, idem. 
 
Um palindromista hábil e persistente será capaz de infiltrar palíndromos não-identificados numa tese acadêmica, num artigo de revista, num título, numa postagem. E ficar na moita, à espera. Um dia, alguém perceberá a presença daquela criatura grega bifronte, e terá um susto: “Mas quem fez isto, para que fez isto, como fez isto, como alguém foi capaz de fazer isto? “ 
 
E não compreenderá.




quarta-feira, 19 de agosto de 2026

5249) "Backrooms" e os espaços liminares (19.8.2026)



 
A mitologia dos espaços liminares está se propagando com rapidez. Ela envolve a noção do ambiente fantástico em si, e de uma estranheza que não brota da presença de monstros, nem de seres sobrenaturais, mas da própria natureza do espaço em que transcorre a ação.  
 
O espaço liminar nos produz a impressão contraditória de ser um espaço humano e ao mesmo tempo não-humano, um espaço que à primeira vista parece banal e cotidiano, mas à segunda vista passa uma impressão de uma estranha morbidez, de algo “que não está certo”. 
 
A Internet e seus grupos de malucos obsessivos contribuiu muito para isto através do meme do “Yellow Room”, sobre o qual já falei aqui: 
 
“The Yellow Room”:
https://mundofantasmo.blogspot.com/2024/06/5068-os-espacos-liminares-362024.html
 
O recente filme Backrooms (Kane Parsons, 2026) deu uma esquentada nesse tema, o que aliás o jovem diretor de 20 anos já vinha fazendo através de uma série homônima de vídeos no YouTube, cujo sucesso fez surgir uma produtora capaz de bancar um filme dirigido com bastante segurança, apesar de várias concessões ao cinema-clichê (falo disso mais adiante). 
 
O conceito de espaço liminar flutua muito próximo do conceito de “Uncanny Valley” – aquela imprecisa região mental em que um rosto ou vulto nos parece estranhamente humano e ao mesmo tempo não-humano. Ou quando, de acordo com a descrição de Sigmund Freud (The Uncanny, 1919), vemos um manequim ou estátua e pensamos tratar-se de uma pessoa, ou vemos uma pessoa que nos dá a sensação de um ser artificial. 
 
No filme, Clark (Chiwetel Ejiafor) é um arquiteto frustrado que virou dono de loja de móveis. Ele separou da mulher, e está fazendo terapia com a dra. Mary (Renate Reinsve), a qual também tem lá seus traumas mal resolvidos. Ele descobre na parede da loja uma passagem para um “espaço liminar” surrealista, aleatório, inexplicável. E ali dentro acontecem coisas estranhas. 



(The Yellow Room)
 
Kane Parsons baseia sua paleta de cores e o senso de desorientação espacial na foto famosa do “salão amarelo”. É um espaço labiríntico, mas um labirinto desmiolado. Não parece destinado a confundir ninguém; ele próprio é confuso, ou é o produto confuso de alguma semi-inteligência super-poderosa. 
 
Sua geografia interna lembra o clássico exemplo de Jorge Luís Borges em “O Imortal” (1947): 
 
No palácio que imperfeitamente explorei, a arquitetura carecia de fim. Abundavam o corredor sem saída, a alta janela inalcançável, a porta aparatosa que dava para uma cela ou para um poço, as inacreditáveis escadas inversas, com os degraus e a balaustrada para baixo.
 
O conto de Borges vem influenciando gerações sucessivas, mas ele próprio já traz em si a influência de Piranesi, e talvez de seu contemporâneo M. C. Escher. 



Mais do que isto, porém, Kane Parsons, nascido em 2005, traz para seu labirinto o espaço dos jogos eletrônicos, o gamespace, algoritmicamente multiplicável, reprodutível, inexaurível. Há um excesso de espaço; não de um espaço preexistente, e sim de um espaço que se expande à medida que o jogador avança. Um espaço não-real, um espaço subjetivamente criado pelo desejo do jogador ao dar um passo à frente. 
 
O arquiteto Clark faz tentativas valentes de domesticar mentalmente este espaço: ele marca na parede os portais de entrada e saída, e tenta mapear os salões que percorreu. 








 
Backrooms tem sido chamado pela crítica de “Institutional Gothic”, que seria um “Gótico Corporativo” – um novo gênero que pode ser descrito (ou pelo menos evocado) a partir de um tipo específico de arquitetura. Cada época produz um tipo de arquitetura capaz de traduzir em si o delírio de grandeza que predomina nesse tempo. 
 
Clark descobre esse mundo de pesadelo ao atravessar uma parede, tal como a “Alice” de Lewis Carroll ou o “Orfeu” de Jean Cocteau atravessam o espelho. Depois de atravessar, ele se vê perdido num ambiente de espaços inúteis, espaços profissionalmente executados mas cheios de anomalias. 



 
Aquele espaço parece virtualmente inesgotável. É como o espaço aparentemente imensurável dos labirintos reiterativos de Doom, ou a planta baixa “que não bate” do Overlook Hotel de O Iluminado. 
 
E mais. Aqui e ali, salões vazios ocupados apenas por “coágulos de mobília”, ou móveis semi-afundados nas paredes ou no chão, como se tudo aquilo fosse feito de uma mesma massa informe, camuflada de materiais normais. Tudo começa a parecer uma tentativa de uma Inteligência Artificial de reproduzir um ambiente humano, mas cheio das aberrações que se pode esperar de um caso assim. 





O mesmo se aplica às criaturas aparentemente humanas que Clark encontra dentro dos “backrooms”.  Não são feitos de carne e osso, mas de um material indiferenciado, como uma espuma, só que (diz ele) uma espuma comestível. Elas lembram... o quê?  Lembram as aberrações gráficas produzidas pela Inteligência Artificial, que se atrapalha (ainda) ao reproduzir feições humanas, mãos, corpos. 





 
O filme oscila entre esse surrealismo arquitetônico e o filme-de-monstro convencional. Afinal de contas, o diretor tem vinte anos, e certamente está criando dentro dos horizontes de expectativa de sua geração – e o horizonte de expectativas dos grisalhos executivos da produtora não difere muito deste. 
 
O terço final do filme mostra Clark e a Dra. Mary sendo perseguidos por monstros nos quais identificamos pessoas do seu passado, o que nos leva inevitavelmente a ver naquele espaço fantasma (milhares de metros quadrados de área urbana, escondidos no interior de uma loja de móveis!) uma projeção simbólica do inconsciente deles dois. 
 
E como não faz muito sentido (num contexto assim) ter um labirinto e não ter um minotauro, o Monstro aparece, uma caricatura do próprio Clark, de sua agressividade, suas frustrações, etc. 
 
A minha diferença em relação ao público-alvo do filme é que para mim o labirinto bastaria; os monstros são uma concessão popularesca ao cinema-clichê. 
 
As últimas sequências sobem um nível em relação à narrativa central até aquele ponto, revelando uma moldura narrativa que projeta todo o enredo num plano de ficção científica – a revelação (ou pelo menos a insinuação) de uma “situação mais ampla” da qual a história daquele filme foi uma manifestação isolada. 
 
Filmes-sequência certamente virão. Este primeiro título tem muita coisa boa em termos de projeto visual, direção de arte, inserção esperta num universo “creepy pasta” (terror popularesco) que fervilha na Web, um senso intuitivo de desorientação espacial. 
 
É um filme híbrido, com uma premissa de Black Mirror e um terço final de Goosebumps. Em todo caso, é uma nova franquia que sai das telinhas do celular para a telona das salas, e tudo ainda está em aberto. Como num conto de Borges, é um universo invadindo outro, e quem viver verá. 











quarta-feira, 12 de agosto de 2026

5248) John Crowley, 1942-2026 (12.8.2026)




 
Um dos grandes estilistas da literatura fantástica partiu o cordão e foi-se embora. John Crowley era professor de literatura (Yale), roteirista premiado de numerosos documentários. E foi, principalmente, um autor que ao invés de tentar se apequenar para caber num gênero, ele expandiu o gênero para se ajustar aos horizontes-de-expectativa da literatura contemporânea. 
 
Escrevia aquilo que a imprensa dos EUA chama de “ficção científica literária”, que para alguns é uma contradição, um oxímoro; mas para mim é uma redundância tão grande quanto escrever “samba musical”. 
 
Tinha uma imaginação imprevisível, e atravessava as fronteiras dos gêneros literários como um automóvel passa através da chuva. 


 
Meses atrás terminei a leitura de Little Big (1981), um romance imenso e seu livro mais famoso, aquele que Harold Bloom considerava extraordinário. É um dos livros que aos meus olhos definem o gênero de “fantasia urbana”: um tipo de narrativa fantástica que pode incluir magia, entes sobrenaturais (elfos, ou outras coisas), mas que está ancorada numa realidade urbana contemporânea, moderna. 
 
Como dizia um autor: “é aquele tipo de história em que as fadas viajam no metrô”. 
 
Little, Big é a história da família Drinkwater, uma família excêntrica que mora numa gigantesca casa de campo no interior do Estado de Nova York. A família se relaciona com criaturas do reino das fadas, peixes falantes, cartas de Tarô, pássaros e insetos inteligentes; mas a história não tem nada de juvenil ou ingênua. É a história de uma família em vagaroso envelhecimento, de poderes sobrenaturais que vão se esvaindo, e de pessoas que se consideram reais até o momento em que começam a pensar que aquilo é apenas uma grande Estória sendo contada por alguém.  
 
Escrevi mais longamente sobre este livro, aqui: 
https://mundofantasmo.blogspot.com/2025/01/5145-little-big-e-fantasia-urbana.html
 
Ele imaginava, às vezes, se existiriam diferentes nomes para diferentes tipos de sonho. Este sonho de agora pertencia ao tipo em que você parece estar contando uma história a alguém, e ao mesmo tempo vivenciando a história que conta.
(“In Blue”, trad. BT) 
 
Crowley começou sua carreira com romances de ficção científica, curtos e densos (The Deep, 1975; Beasts, 1976; Engine Summer, 1979), propondo universos surpreendentes que tinham de ser decifrados passo a passo. Isto o marcou como um “autor difícil”, e ele nunca pôde ser escritor em tempo integral, teve que recorrer a outros empregos para se manter. 
 
Compensou parcialmente isto com o sucesso de Little, Big, que ganhou o “World Fantasy Award” e o “Mythopoeic Award”, tornando-se imediatamente um cult book nos EUA. 
 
Talvez sua obra mais ambiciosa seja o quarteto de romances “Aegypt”: Aegypt / The Solitudes (1987), Love & Sleep  (1994), Daemonomania (2000) e Endless Things (2007). Seu tema é a magia Renascentista (de magos-filósofos como John Dee), aplicada ao mundo moderno. 
 
Tenho um carinho especial por The Translator (2002), a estória de um misterioso poeta russo (será ele um ser sobrenatural?) que vai morar nos EUA e começa uma amizade com a jovem norte-americana a quem cabe traduzir seus poemas para o inglês. 



Comentei aquilo este belo livro:
https://mundofantasmo.blogspot.com/2010/01/1590-o-transleitor-1742008.html
 
Outra de minhas obras crowleyanas preferidas é a noveleta de viagem no tempo Great Work of Time (1989). Uma máquina do tempo é inventada e um homem tem a chance de viajar para o passado, sabendo que não vai poder carregar nada muito volumoso na volta. O que faz ele? Volta à Guiana Inglesa em 1856 e se apossa de um exemplar do “selo magenta” emitido naquele ano, e que agora é o mais raro e valioso do mundo. 
 
O cara quer apenas enriquecer, mas sua máquina do tempo acaba caindo nas mãos de um grupo determinado a evitar a queda do Império Britânico. Viagens no tempo e escaramuças entre grupos rivais se multiplicam. É uma grande aventura, e uma reflexão sobre a História e o determinismo. 
 
Não era apenas um mundo habitado por raças inteligentes de tipos distintos: era algo mais difícil de racionalizar. As vidas daquelas raças constituíam diferentes universos de significado,  diferentes construções da realidade; Era como se quatro ou cinco diferentes romances, romances diversos escritos por autores com diferentes limitações, estivessem se penetrando uns aos outros e se confundindo. Dentro de um gigantesco romance russo brotava uma novela policial seca e cortante, e no interior desta algo que vagamente lembrava Charles Dickens, algo repleto de enredos e humor e excentricidade. Um tal entrelaçamento de universos mutuamente excludentes podia ser até cômico, como uma tirinha da revista semanal; e podia ser trágico. E podia também não ser nada disso, podia ser apenas a vida do jeito que era, aquele estado de coisas de encontro ao qual todas as imaginações viriam a ser medidas: a realidade. 
(“Great Work of Time”, trad. BT) 
 
Falei que Crowley era um grande estilista, ou seja, “um cara que escreve bem”. No mundo de hoje, “escrever bem” é visto muitas vezes como escrever de maneira enfeitada, com palavras difíceis ou longos períodos intrincados, Convencionou-se que escrever bem é escrever parecido com Machado de Assis; ou com Guimarães Rosa; ou com Marcel Proust. Ora, escrever bem é como dançar bem: é conseguir o melhor resultado possível com o corpo que se tem. 
 
Aqui, dei exemplos comentados do “escrever bem” de John Crowley. Um autor que deve dar gosto de traduzir. 
https://mundofantasmo.blogspot.com/2010/02/1602-eyeball-kicks-152008.html
 
Pensando nisso, fui catar sua bibliografia no portal do ISFDB. Há apenas duas obras dele traduzidas em português. A noveleta O Manuscrito Perdido de Lord Byron, publicado em 2008 em Portugal pela Saída de Emergência (trad. Isabel C. Penteado); e o belo conto “Snow” (“Neve”) que traduzi e incluí na minha antologia Contos Fantásticos de Amor e Sexo (Rio, Ímã Editorial, 2011). 



 

 
 




terça-feira, 4 de agosto de 2026

5247) Contracapa de Claude (4.8.2026)



(Saul Steinberg, "Bicycles", 1968)

 
&  um vampiro com dentes de castor, que não param de crescer 
 
&  é a luta do Gardel do bordel contra o cartel de Bordeaux 
 
&  se o Ministério da Defesa não resolve, seria melhor criar um Ministério do Ataque 
 
&  o fundo de um lago tem mais revelações do que sua superfície 
 
&  a Genética ainda será capaz de nos fornecer peixes sem espinhas e galinhas com seis corações 
 
&  é aquela exceção que ajuda a tornar mais nítida a regra 
 
&  bem que os roteiristas podiam começar a considerar o conceito de Sub-Heróis 
 
&  o ar está cheio de pegadas do meu corpo 
 
&  quando o locutor diz “ainda tem muito jogo pela frente” é porque a coisa não está nada boa 
 
&  sapo que engole bomba pula mais longe do que pretendia 
 
&  meu preço por frase é dois reais – um real material e um real simbólico 
 
&  nós dois somos iguais e diferentes, como duas bolachas do mesmo pacote 
 
&  vagaroso como uma constelação se desmanchando 
 
&  a vela diminui de tamanho para que a chama permaneça a mesma 
 
&  aquela casa tem uma energia tão ruim que o sol chega na janela e não entra 
 
&  pelo menos ainda não inventaram a moda de todo mundo andar com um apito ao pescoço 
 
&  se derem um jeito de reunir a I. A. e a telequinésia, talvez eu me anime um pouco 
 
&  certas lembranças desaparecem tão lentamente quanto um corpo jogado no matagal 
  
&  quando estou comendo na casa alheia, minhas mãos viram dois pés descalços 
 
&  toda madeira já foi árvore, todo plástico já foi petróleo, todo vidro já foi areia 
 
&  galinha cega também põe ovo
 
&  a única coisa na Natureza que se reproduz espontaneamente é a besteira
 
&  a literatura não tem como base a palavra, e sim a frase
 
&  quem tem panela não tem medo de goteira
 
&  eu me preocupo mais em rua cheia do que em rua deserta
 
&  tem discussão em que a gente entra esmolambado e sai príncipe-rei
 
&  trabalhar assim é um pouco como comer com faca e colher
 
&  o que é simétrico dá às vezes a ilusão de que é certo
 
&  não, não é a luz no fim do túnel, acho que é a lua no fundo do tonel
 
&  será que os cavalos-robôs comem grama sintética?
 
&  o tempo do corpo é linear, o da mente é não-linear, o da imaginação é 3-D
 
&  você não vale uma baga de bagulho, uma casca de basculho, um farelo de carvão