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quarta-feira, 1 de julho de 2026

5242) À sombra das chuteiras imortais (1.7.2026)



 
Era este o título de uma série de crônicas de Nelson Rodrigues sobre futebol, no jornal O Globo, que eu lia com devoção, tanto quanto lia o “Meu Personagem da Semana”, a página dupla mantida por ele na antiga Manchete Esportiva que meu pai não só colecionava como encadernava. 
 
Não sei onde Nelson foi buscar essa frase, que é sonora, imponente, bem àquele estilo de tribuno nordestino amante dos gestos largos e da voz estentórica. Ele e seu irmão Mário Filho (que deu o nome ao estádio do Maracanã) eram iguais e antípodas ao mesmo tempo. Iguais no amor à literatura e ao futebol; antípodas no modo de ser e de escrever. 
 
Nelson tinha era um escritor cheio de veemência, de barroquismo. Mário era um espírito lúcido, pausado, preciso; escrevia com a elegância de um Machado e o bom humor de um Verissimo. 


(Nelson Rodrigues e Mário Filho) 

 
Resultado: Nelson marcou gerações inteiras com sua personalidade conturbada, cínica, emotiva, e sua linguagem cheia de exageros retóricos. Quanto a Mário Filho... poucos o leem hoje, e os outros não sabem o que estão perdendo. 
 
Nelson marcou para sempre o jeito de se escrever sobre futebol, e curiosamente ele mesmo dizia que não entendia muito de esquemas táticos ou sutilezas estratégicas. Sua matéria-prima era a emoção do futebol. Eram os destinos e as vicissitudes do sucesso e do fracasso; os grandes dramas e as grandes comédias, o lado épico e o lado picaresco do esporte bretão. E a tudo isto Nelson respondia com um vocabulário imprevisível, e com um impagável senso crítico sobre a comédia humana. 



 
Reza a lenda que certa vez um jornalista amigo de Nelson o abordou, um tanto enciumado de seu sucesso.
 
-- Puxa vida, Nelson, você escreve bem pra caramba, mas se repete muito.
 
-- Eu me repito? Qual nada.
 
-- Claro que se repete. Volta e meia você está reutilizando seus próprios clichês.
 
-- Isso é um absurdo, eu não tenho clichês.
 
-- Como não tem? “O olho rútilo e o lábio trêmulo...” “Uma granfina com narinas de cadáver...”  “Calçar as sandálias da humildade...” “Até uma cambaxirra paraplégica teria conseguido fazer esse gol...” “Subiu pelas paredes como uma lagartixa profissional...” “Gorda e patusca como uma viúva machadiana...” Reconhece tudo isto?
 
-- Está vendo? – disse Nelson, triunfante. – Se eu não repetisse, você não teria se lembrado.
 
Não sei se o teor da conversa foi este, mas a lição de Nelson não foi outra. Quando a gente produz uma frase memorável, não deve atirá-la à vala comum do “uma só vez”. É preciso repeti-la, porque na vez seguinte dez pessoas a reconhecerão e duzentas estarão sendo apresentadas a ela somente agora. E assim por diante. As grandes tiradas afundam na areia movediça da desmemória coletiva se não forem resgatadas e postas a trabalhar de novo, vez em quando. Repita a frase, colega. Ela é sua. 



Nelson deixou marcados esses seus bordões porque era o homem da página de jornal e do palco de teatro, não o do livro capa-dura com lombada gravada a ouro. Sua literatura era uma literatura de feira-livre onde os produtos têm prazo de validade curto, mas podem ser substituídos na semana que vem por um equivalente perfeito. 


 
Nelson, fluminense roxo, ou melhor, verde-branco-grená, dizia que “o Fla-Flu começou a existir cinco minutos antes do Gênesis”. Na verdade, aposto que não foi bem isto que ele disse, mas já li de tantas formas e em tantas variantes que não importa mais: importa a idéia de grandeza cósmica que ele tenta aplicar ao jogo que mais mexia com as suas coronárias. 
 
E é assim que os grandes achados verbais perduram e se propagam: eles usam palavras inesperadas para comunicar uma idéia nova, e quando são bem sucedidos a idéia se fixa de tal modo na cabeça de quem ouve que na vez seguinte as palavras nem precisam ser as mesmas. 
 
Vale, também para as frases, aquele princípio essencial dos roteiristas de cinema sobre as histórias: história que dá filme é aquela que você pode recontar com suas próprias palavras e produzir o mesmo efeito, sem depender do léxico ou do fraseado do autor. 
 
O léxico e o fraseado de Nelson, porém, eram impagáveis, porque ele usava a língua portuguesa, ou a língua brasileira (tá bom, tá bom: a língua PB) como lhe dava na telha. No Brasil, os exemplos e os modelos do “escrever bem” se concentram em torno de Machado de Assis, de Guimarães Rosa, de Gilberto Freyre, de Antonio Cândido... Todos escrevem maravilhosamente, pelos meus critérios pessoais, mas dou graças aos céus dos agnósticos por ter assimilado doses maciças de Nelson na adolescência. “Escreva do jeito que você anda”, diria ele; “escreva com o que você tem.” 



 
E a “sombra das chuteiras imortais”? Estou aqui me coçando para ver se encomendo na Livraria Folha Seca o volume que tem esse título, porque meu pai o achava a coisa mais bonita do mundo, e eu, como sempre, ia no seu rastro. Não foi senão muito depois que comecei a questionar muita coisa, e no meio disso as tais sombras das chuteiras. 
 
Como é a sombra de uma chuteira? Bem, se alguém já as pendurou, a sombra se projeta oblíqua na parede. Mas se não é o caso, a sombra de um par de chuteiras tem exatamente o formato delas duas, dos seus solados com travas, em cima da grama onde pisam. É só isso que um jogador tem. 

O campo de futebol tem medidas vastíssimas, mesmo pelos parâmetros do futebol superatlético de hoje em dia. É um latifúndio, e a parte que cabe a um jogador, nesse latifúndio, é a parte onde pousam seus pés, onde pousa a sombra das chuteiras imortais. 
 
Estamos em tempo de Copa do Mundo, e esta é sempre uma época em que eu sinto o espírito de Nelson baixar sobre mim. 
 
Gosto de acompanhar futebol internacional, agora que tudo está no YouTube e equivalentes. Jogos da Champions League, jogos dos campeonatos inglês e espanhol (os dois que me interessam), algumas disputas de seleções (Eurocopa, etc.). 


 
(foto: Ina Fassbender) 
 

Não torço por ninguém, e não acho que o futebol só possa ser fruído, saboreado, se a gente torcer por um dos times. Acho que o espetáculo vale por si, o drama vale por si. Eu sou aquele cara que centenas de vezes na vida ligou a TV de tarde para ver o videotape de XV de Jaú vs. Ponte Preta. Por que? Sei lá. Porque em qualquer jogo de futebol pode acontecer uma coisa genial a qualquer instante. 



Quando chega Copa do Mundo, no entanto, menos do que o lance genial ou o gol de placa eu passo a acompanhar o sonho, o drama, o paraíso, o pesadelo. Não é um clube, é um país inteiro que está ali. E sinto isso muitíssimo mais forte quando se trata de pequenos países, de seleções sem muita tarimba. 
 
Esta Copa, com seu despropositado número de 48 participantes, tem essa atenuante: está trazendo seleções que nunca, ou raramente, disputaram uma fase de grupos, quanto mais um mata-mata. 
 
E em momentos assim eu viro uma espécie de Nelson Rodrigues, esqueço o gol de placa e me concentro no épico improvável de uma vitória do Equador ou do Paraguai (que começou a Copa tão mal) diante da Alemanha, ou de um empate de Cabo Verde com a Espanha, ou do heroísmo do Marrocos diante da Holanda. 
 
Acho que o brasileiro tem uma certa tendência a torcer pelo “underdog”, pelo time mais fraco. E por cima disso vem a identificação com essas torcidas (a maioria gente mais endinheirada do que eu, mas não importa) que está lá de joelhos, chorando, rezando, cuspindo, esbravejando, vivendo algumas semanas de vitórias impossíveis e derrotas insuportáveis. 
 
Cabo Verde virou a “cinderela” da Copa, a história que todo mundo gosta de ouvir contar. Pouco importa se não joga um futebol coletivo tão bem encaixado quanto o da Argentina, ou se não tem um elenco “Ocean’s Eleven” como o da França. Não vemos seus jogos em busca de novidades táticas ou de um novo Messi. Vemos para prestar homenagem a quem está vivendo um sonho, e para fazer parte desse sonho feliz antes que ele acabe. 



(foto: Chandan Kanna) 



 
 








terça-feira, 31 de março de 2026

5228) A Réplica (31.3.2026)



(foto: Marco Haurélio)


À primeira vista, cabe-nos carpir sem remordimentos a conjuminância de sermos os únicos ambi-sinistros deste alvéolo. Qualquer outra objurgatória passará em broncas luzes por sobre a minuana.  
 
De fato, Bourdieu dixit: “O campo eletro-pragmático da discordância subliminar não é porositado pelo discurso: antes se queda hermético a si mesmo, e a todas as refrações do self”. São muitas as consonâncias linguodentais prontas a intervir nesse contubérnio, embora o neo-platinismo meio-campista se recuse a silhuetar predominâncias, ou mesmo prioridades implícitas. 
 
Eis o semieixo nodal do hemistíquio: ou destecemos a parassintaxe de nossas próprias anti-premissas, para conformá-las ao gargalo do esfíncter conceitual em voga (pace Bachelard e seus amanuenses!), ou só nos resta reordenar os brônquios de cada sofisma para a minuta alegre de um pré-intenso “retorno ao avatarismo”, tática de antemão auto-sabotada pela incapacidade de fugir ao empuxo gravitacional da estaca-zero. 
 
Colocado assim o solecismo pós-natal, parece óbvio que cada anelo de actância por parte do quase-ser tende a se esboroar na mera ventoinha febril das dissensões. Não nos adianta muito recorrer a Whitehead, visto que cada hipérbole altruísta apenas contribui para potencializar esse patético harakiri de um ser-em-si capaz de lipoaspirar o próprio logos. 
 
De fato, como desembestar os neurônios raquíticos de uma geração que se quis rasga-bandeira e se encontrou patafísica, que se arvorou em rompe-lâminas mas soçobrou nas rochas alcantiladas do mais índigo famalicão? 
 
Podemos tentar um reconsolo tácito na fórmula (ainda inexpugnada) de Derrida: “Cada Lacan é um canal, e cada fera de São Cristóvão é uma falsa Kristeva driblando a bilôla tangente”.  Foi para isto, para essa migalha de epifania, que repelimos a navalha de Occam e a vírgula de Oxford?! 
 
Neste impasse, ou em qualquer outro do mesmo bulevar beckettiano, ainda é possível propor um desarmistício provisório, uma terraplenagem de axiomas capaz de nos re-equacionar a pena e a lei, a régua e o compasso, as pastilhas-de-freio e as roldanas-do-contrapeso. 
 
Sim!  Que se aposentem os cartapácios, os calepinos, os alfarrábios, as versões beta-caroteno das bulas alfanuméricas. Que se recalcule o zero de cada um – e o um de cada zero. Terra arrasada – um remédio amargo para quem achou que era doce morrer no mar, e acabou se salgando no bacalhau de si mesmo. 
 
Os senescais da balbúrdia não prevalecerão, afirmou Philomena Cunk em seu maciço Tractatus Amphibologicus, do qual extraímos esta sonora epígrafe: “O absurdo-mudo da existência é um tatu que nenhum trator arrasta”. Nesse eclesiastes leigo-profano, são muitas as advertências compulsórias capazes de indicar o norte-por-noroeste para a migração de nossas carrapetas mentais. 
 
“O maniqueísmo furta-se à concessão fractal”, advertiu Benjamin de mala em punho, na rotunda hipnótica onde tergiversava. Ele sabia dosar a usucapião do inconsciente seletivo e a gambiarra nocional de Agamben, mas mesmo assim não conseguiu pavimentar uma saída honrosa-choque para seu próprio trauma-comprimido. 
 
E quem nos chancela essa polaróide pouco alentadora é o próprio Richard Feynman, ao preconizar: “Eu vi os melhores cérberos da minha geração indo latir de graça no portão do inferno alheio”. 
 
 





quinta-feira, 23 de outubro de 2025

5204) A vida na trincheira (23.10.2025)



(foto: Robert Capa)


A vida na trincheira é feita de horas de ouro, segundos de diamante. 
 
A fuzilaria não descansa, e quando menos se espera (por mais que se espere) desaba um bombardeio. 
 
Não é proibido dormir, mas se adormecer é proibido acordar. 
 
Eu me arrasto naquele sulco lamacento, buscando um barranco mais firme. A deslocação de ar arremessa aos ares meus amigos mais próximos. Ufa.  Achei.  Escapei.  Por enquanto.  Para sempre. 
 
De noite, as balas traçantes costuram o ar com riscos luminosos. A escuridão é traiçoeira, mentirosa, finge que nos protege, mas bem-ou-mal nos agasalha, parece apagar em parte aquela matilha de assassinos. 
 
Aqui na trincheira é preciso cuidado. Tem granadas que enguiçaram. Tem cacos de óculos. Tem formigueiros de escorpiões. Tem documentos alheios, amarrotados, cheios de manchas coaguladas, que a gente olha, dobra e bota no bolso, com aquela fé infantil de estar salvando alguma coisa. 
 
Trégua. Pausa. Cilada?... Compartilhamos as latinhas de carne em conserva, abertas com baioneta, comidas com os dedos. Comparamos as de hoje com as de ontem: é uma forma de contar o tempo. Precisamos sentir que alguma coisa avançou. Achar um cantil de água virgem nos emociona. Para adormecer, conto as emoções mais recentes, sinto nelas um avanço, sinto que a esfera de que sou centro se torna mais real. 
 
E de repente tudo desanda, é metralha, é shrapnel, é ricochete, é bala retinindo, é borrifo de sangue pra todo lado, eu me arrasto em joelhos e cotovelos, a capa empapada de lama, o fuzil inútil servindo para afastar os corpos que impedem a passagem. Passagem para onde? Tanto faz. Tudo é importante. Tudo é verdadeiro. Tudo tem a beleza-bruta de estar acontecendo. 
 
Outra pausa. Colo o corpo ao chão. Contraio os dedos dos pés dentro das botas ensopadas, para me certificar de que continuam ali. 
 
Todo dia é isso. Esse dia infernal que não avança, que apenas circula sobre si mesmo. 
 
Um obus de última geração explode numa tenda. Cubro a cabeça com os braços enquanto chovem pedregulhos, canos de metal, pedaços de carne vestida. Um colega a meu lado soergue o corpo para avaliar. O instinto me faz agarrar seus cabelos e puxá-lo para baixo. A bala do sniper se espatifa no barranco a meio metro. Uma fagulha de luz cega meu olho. 
 
Vejo tudo pela metade. Esse meio-inimigo invisível que me vê, esse inimigo que me toca e que não posso tocar. 
 
É a vida na trincheira, e eu não a trocaria por nenhuma outra. Que fiquem os outros com suas salas e suas visitas, seus bares e seus lares, seus reveions e seus Natais, suas adegas e seus domingos. Eu não quero o véu de Maya, não quero as tranças de Circe, eu quero estar positivo-operante, eu quero estar acordado, eu quero a trincheira. 
 
Na trincheira tudo é pão-pão queijo-queijo, quem tem o bem dá o bem, quem tem o mal dá o mal, quem nada tem recebe tudo e mata o seu tipo de fome. 
 
Luz de trincheira, mesmo em noite de chuva, é um meio-dia que nunca passa, uma revelação-de-relâmpago sacudindo a gente e mandando: Morde esse fio elétrico, morde com toda força, pra tu ver o que é a vida. 
 
Eu não quero o paraíso terrestre, eu quero a trincheira. 
 
Me cubram na porrada, me descubram no inverno, me isolem, me exilem no inferno das quengas. Batam, que eu rebato.  Cobrem, que eu me recobro, me recomponho, me revenho, me reponho em pé a cada baque, quebro a cara mas depois lavo o rosto, pago o mico, pego a reta, armo meu circo tomara-que-não-chova em qualquer comarca desprotegida capaz de comprar o bonde do meu currículo. 
 
Eu poderia estar amando, estar ganhando, estar gastando, estar flanando, estar causando, estar plantando flores de retórica para a colheita dos biógrafos; mas estou na trincheira, estou na luta, estou no trampo, estou no tranco, estou no sacolejo do busão, estou no passe-sênior do metrô. Eu poderia ter buscado a cobertura avarandada e me esqueci. Eu poderia ter contratado uma percentagem vitalícia e não contratei. Não importa; tinha outra porta que já estava entreaberta e eu passei. A paz é pra quem merece a paz. O descanso é para quem honestamente cansou. Eu não quero o calor do cachimbo, eu quero o frio da navalha. Eu não quero o fogo da lareira, eu quero a luz da batalha. 
 
Dois mil e vinte e cinco?!  Quem diria. BANG. Zuiiinnn... Caramba, essa passou raspando. Vida que segue. And so it goes.  





sábado, 30 de agosto de 2025

5196) Luís Fernando Verissimo, 1936-2025 (30.8.2025)





O maior escritor brasileiro em atividade estava inativo há alguns anos, quando sofreu um AVC que agravou seu estado já debilitado pelo Mal de Parkinson. Não, não é esta a melhor maneira de começar um texto sobre uma pessoa tão pouco melodramática quando Luís Fernando Verissimo. 
 
Um cartunista, um saxofonista e um torcedor do Inter entram num bar e sentam no balcão. O barman pergunta: “O senhor vai querer o quê?”. Também não é a melhor saída. O pastiche é a mais avarenta forma de homenagem. 
 
Hoje é o dia em que todo sujeito como eu, que ganha (perde) a vida batucando num teclado sente-se no dever agradecido de pegar uma pedrinha qualquer na beira da estrada e vir colocá-la aos pés da deusa invisível que habitou aquele sujeito simpático e tartamudo. 
 
Devemos muito a ele aqui no Brasil, porque o fato de termos um DNA barroco não nos condena a afundar no barroquismo unânime. Precisamos do contrário, que não sei aqui como nomear, mas seria uma prosa com elementos de coloquialismo, maleabilidade, nitidez, simplicidade na-mosca, imprevisibilidade constante. 
 
A prosa de Verissimo tinha um segredo, que não revelarei aqui, mas era o mesmo segredo que fez os egípcios moverem aqueles blocos de granito como se fossem pacotinhos de algodão. Ele passou a vida fazendo isso diante dos olhos de todo mundo. 
 
Em algum texto antigo já me referi aos “começos-de-conto” de Verissimo e denominei esse modo de escrever “o estilo Saíram-Do-Bar-E-Foram-Andando”.   
 
Porque bastava a ele um pontapé-inicial desse tipo para se instalar, com 100% de credibilidade, ao volante da mente do leitor, e conduzi-lo para onde bem quisesse.
 
Saíram do bar e foram andando. De repente, João bateu com a mão no bolso traseiro da calça.
-- Minha carteira!  Perdi.
-- Perdeu não, idiota. Você deu de presente à garçonete, e nem foi à bonitinha, foi à que parecia com Robert de Niro.
 
Isso aí não é de Verissimo, claro, é meu, improvisei agora, para testar pela milésima vez o poder mágico desse mote inicial. Saíram do bar e foram andando! As palavras, especificamente, pouco importam. Basta que sejam capazes de invocar um portal de simplicidade e consenso. Perguntem a Nelson Rodrigues, a Fernando Sabino, a Mario Quintana. 
 
Em teatro e música existe um conceito que a gente chama às vezes de “presença de palco”. É um mini-carisma específico, uma magia-de-bolso que serve para aquilo e para nada mais; mas serve. A atriz surge no palco, avança alguns passos.  Antes que ela diga um oi, baixa o silêncio; todo mundo engole em seco e prende a respiração. 
 
Existe uma Presença ali, e essa presença dá credibilidade (ou seja, no dizer do poeta: Verdade e Beleza) a qualquer coisa que aconteça em seguida. 
 
Escrever é como discursar diante de um teatro repleto, mas com os olhos vendados. Nunca temos certeza de nada, mas é preciso exibir segurança em tudo.  A segurança de um dançarino de tango que já dá o primeiro passo sabendo o que vai fazer, e a segurança de um folião de rua que ao som do frevo começa a marcar o passo sem ter a mínima idéia do movimento que vai fazer em seguida. Existe uma equação do Tao embutida em tudo. Precisamos do Flexível capaz de se firmar, e do Firme que saiba fluir.   
 
Eu estava há pouco deslizando telas no celular e vendo nelas todas as mesmas Duas-Datas-Fatídicas, e o mesmo rosto bonachão e de óculos, com aquele meio sorriso de quem tenta se tornar invisível pelo mero esforço da vontade; e do-nada tropeço numa entrevista de George Martin, o quinto Beatle. 
 
Eu estava no estúdio quando me disseram: “Vamos trazer um grupo novo para você dizer se vale a pena produzir.” O nome era um nome brega, The Beatles, com A. Quando eles entraram... As canções eram banais, mas havia neles uma eletricidade, um carisma, uma presença... Quando eles saíram, eram como se alguém tivesse ido embora. E eu pensei: Se eu me senti assim, o público talvez se sinta também. 
 
Dou esse contra-exemplo porque Verissimo (disclaimer: nunca o encontrei pessoalmente) parecia fazer o possível para se esvaziar de carisma. Lembrava aquela conversa de Paulo Coelho, de que certas práticas da magia ritual tornam possível alguém cruzar um salão cheio sem ser visto por ninguém. 
 
Todo o carisma de Verissimo, por assim dizer, foi investido na sua escrita, como alguém que deposita todo o seu dinheiro no mesmo banco. 
 
Verissimo apostou todas as suas economias literárias (e eu acrescentaria: toda a sua herança, que não foi pouca) numa fórmula simples que não precisarei descobrir, porque Ítalo Calvino (Seis Propostas Para o Próximo Milênio) já o fez por mim: leveza, rapidez, exatidão, visibilidade, multiplicidade, consistência. 
 
Nada disso vem às nossas mãos para cancelar ou desmentir o nosso lado barroco, onde habitam Guimarães Rosa, o Padre Vieira, Coelho Neto, Jorge de Lima, Ariano Suassuna, Osman Lins, Euclides da Cunha e outros igualmente imprescindíveis.  
 
A contrapartida da exuberância barroca é a escrita dos que limpam a prosa até deixar o osso alvejando, dos que com dois ou três riscos de tinta permitem ver uma catedral ou uma ninfa nua, dos que em três linhas de verso conjuram uma floresta invernal, dos que nas dez páginas de um conto embutem a biblioteca do absurdo. 
 
Precisamos do Muito que se apóia no Pouco, e do Pouco que contém o Muito. 
 
Numa homenagem ao mestre acontecida alguns anos atrás, amigos gaúchos (alô, Fraga!) me pediram uma colaboração, e enviei um texto, “Verissimo e a Marca do Zorro”, onde dizia: 
 
(...) Verissimo ganhava a gente (o leitor jovem) por diferentes motivos: o humor, o nonsense, a linguagem, as situações, a comédia humana... No meu caso, era isso tudo e mais uma coisa: o exemplo de uma escrita de destreza absoluta, capaz de jogar qualquer leitor dentro de qualquer situação com duas ou três linhas, às vezes menos do que isto.
 
Temos entre nós a tendência ao nariz de cera, ao prelúdio interminável, por isso eu admiro quem apresenta uma situação complexa “em rápidas pinceladas”, como se diria antigamente. Como Machado – que nem sempre fazia isso, mas quando o fazia parecia a espada do Zorro traçando um “Z” mais depressa do que o olho podia acompanhar. (...)
 
Duas ou três linhas; e a isca foi mordida. Mordi o anzol de Verissimo com vinte e poucos anos, e até hoje deixo que ele me leve para onde está indo. 
 




segunda-feira, 4 de novembro de 2024

5119) Ser urbanóide (4.11.2024)

 



 

Ser urbanóide é preferir morar perto de um supermercado do que de um pomar de árvores frutíferas. 

 

Ser urbanóide é saber olhar para o trânsito, num viaduto ao longe, como algumas pessoas olham para um regato murmurejante. 

 

Ser urbanóide é ir passando a pé por uma rua bem conhecida e de repente virar a esquina e entrar numa ruazinha transversal, só para ver o que tem ali. 

 

Ser urbanóide é ser capaz de parar na porta de um bar, olhar para dentro, e dois segundos depois pensar: “Aqui não”, e seguir em frente. 

 

Ser urbanóide é ver poesia em nomes de lojas, de salões de manicure, de borracharias, de oficinas, de botequins pé-sujo, de malharias. 

 

Ser urbanóide é atravessar uma rua larga de olho no carro que se aproxima, e à distância negociar direções e velocidades com o motorista. 

 

Ser urbanóide é olhar cada janela de edifício acesa, e mandar uma energia boa para os companheiros de madrugada. 

 


  

 

Ser urbanóide é acompanhar todas as crueldades, as explorações e as violências que se praticam na cidade, e não botar na cidade a culpa. 

 

Ser urbanóide é passar uma tarde numa biblioteca só para saber quem foi Fulano de Tal que deu nome à rua em que a gente mora. 

 

Ser urbanóide é ir à feira livre, voltar carregado de sacolas, deixá-las em casa, e depois voltar, só pra curtir a feira. 

 

Ser urbanóide é ter três ou quatro percursos diferentes para ir e para voltar dos lugares habituais – para colorir a rotina. 

 

Ser urbanóide é não se entristecer nem com o outono das demolições nem com a primavera dos projetos imobiliários. 

 

Ser urbanóide é perceber em si mesmo, de repente, uma certa rivalidade com esse pessoal do bairro vizinho, quem pensam eles que são?! 

 

Ser urbanóide é ver numa exposição a foto de uma parede e lembrar onde fica. 

 

Ser urbanóide é chegar numa metrópole desconhecida, deixar as coisas no hotel, e sair andando pelas ruas com olhos de começo de namoro. 

 

Ser urbanóide é cochilar no metrô e acordar pontualmente na estação onde vai descer. 

 

Ser urbanóide é estar numa fila, num vagão de trem, numa sala de espera, olhar todos aqueles rostos e pensar: “Nunca mais estaremos todos juntos novamente”. 

 

 

Ser urbanóide é ter um sexto sentido sempre ligado para perceber as bicicletas que surgem na contramão ou cruzando a calçada. 

 

Ser urbanóide é ter saudade de uma linha de ônibus que foi desativada. 

 

Ser urbanóide é não ter problema para dormir enquanto trinta pessoas cantam Tim Maia a plenos pulmões no bar da esquina. 

 

Ser urbanóide é pedir ao porteiro que receba a encomenda e mande pelo elevador. 

 

Ser urbanóide é ouvir um tiroteio na madrugada e prestar atenção para ver quantos calibres estão envolvidos. 

 

Ser urbanóide é vir pela calçada e atravessar a rua só pra olhar os livros sobre uma lona na calçada oposta. 

 

Ser urbanóide é voltar a uma certa rua trinta anos depois, ver uma certa porta e ter vontade de tocar de novo a campainha. 

 

Ser urbanóide é ter na memória uma agenda instantânea informando eletricista, pedreiro, loja de conveniência, “vende-se gelo”, mecânico, conserto de malas, quentinha caseira. 

 

Ser urbanóide é chegar à faixa de pedestres com o sinal fechado para os carros, mas esperar primeiro que abra para eles, depois que feche de novo, e só então atravessar com segurança. 

 

Ser urbanóide é saber que cidades e florestas morrem e renascem o tempo todo, de um modo tão parecido e tão diferente. 

 

Ser urbanoide é estar andando numa cidade estrangeira e distante, pensando em mil outras coisas, e ao virar uma esquina se deparar com uma cópia fiel de um recanto de uma cidade querida, um lugar que talvez nem exista mais. 

 



(ilustrações: "Bing", Inteligência Artificial)

 

 

 

 



quarta-feira, 27 de setembro de 2023

4986) Drummond: "Sociedade" (27.9.2023)



(Carlos Drummond -- auto-caricatura)

Um ângulo interessante da poesia modernista, que de certa forma se cristalizou após a Semana de Arte Moderna de 1922, em São Paulo, é o modo como a nova poesia começou a se aproximar da prosa, e, mais precisamente, da crônica, um gênero literário praticado e consumido sem problemas no Brasil. 
 
A crônica é um tipo de voz literária que se dirige ao leitor de modo um tanto informal, e que o leitor aceita com a mesma descontração. O que fazia muita gente rebaixar a crônica como gênero literário . Na época em que Carlos Drummond publicou seu primeiro livro (Alguma Poesia, 1930) vigorava (embora não por unanimidade) a visão de que a Arte teria que ser necessariamente solene, e a linguagem poética teria que ser necessariamente uma linguagem “elevada”. A poesia, portanto, podia se aproximar da epopéia, mas não da crônica. 
 
A crônica dispensava essas elevações, conversava com o leitor, e pode ter sido, ela também, uma influência a mais no estilo que Machado de Assis transportou para o conto e para o romance. Ao invés de um narrador onipotente contando uma história para um leitor invisível, o romance de Machado – a partir de Brás Cubas (1881) – adotou esse tom conversacional, coloquial, de trocar-figurinhas com o leitor enquanto lhe relata os acontecimentos. 
 
Isso vazou para a poesia, e isto que eu chamo de poema-crônica tornou-se cada vez mais frequente – e cada vez mais perseguido pelos defensores da poesia-em-cima-de-um-altar.

Drummond assimilou, com a espontaneidade de quem por fim encontrou sua turma, essa irreverência que hoje pode nos parecer meio bobinha, mas na época era um escândalo em copo dágua.
 
“Sociedade” é um dos poemas de Alguma Poesia em que esse veio aparece de forma mais divertida. Um poema de cortes rápidos, falas curtas, descrição minimalista, que de certo modo faz um contraponto às famigeradas colunas sociais onde se redigem, séculos afora, notas tipo: “O Sr. e a Sra. Fulano receberam nesta sexta-feira, para jantar, a visita do casal Sr. e Sra. Sicrano, personalidades de destaque de nossa sociedade...” 
 
“Me aguarde ...” (deve ter pensado o tímido Carlos Drummond).
 
Sociedade
 
O homem disse para o amigo:
– Breve irei a tua casa
e levarei minha mulher.
 
O amigo enfeitou a casa
e quando o homem chegou com a mulher,
soltou uma dúzia de foguetes.
 
O homem comeu e bebeu.
A mulher bebeu e cantou.
Os dois dançaram.
O amigo estava muito satisfeito.
 
Quando foi hora de sair,
o amigo disse para o homem:
– Breve irei a tua casa.
E apertou a mão dos dois.
 
No caminho o homem resmunga:
– Ora essa, era o que faltava.
E a mulher ajunta: – Que idiota.
 
– A casa é um ninho de pulgas.
– Reparaste o bife queimado?
O piano ruim e a comida pouca.
 
E todas as quintas-feiras
eles voltam à casa do amigo
que ainda não pôde retribuir a visita.
 
O poeta generaliza os tipos (“o homem”, “a mulher”, “o amigo”). Deixa implícita a hierarquia social entre os dois, porque não é o amigo que convida: o homem anuncia, sem papas na língua, que irá à casa do outro. A dúzia de foguetes soltados pelo amigo reforça o sentido de que aquela visita é um evento notável. O amigo sente-se, a partir daí com crédito a um convite semelhante, mas nada disso acontece. É o casal visitante quem repete a visita conforme lhe dá na vontade. Na vida social, manda quem pode, obedece quem tem juízo. 
 
O amigo, anfitrião desta primeira visita, anuncia timidamente que irá à casa do “homem”, mas este não corresponde. Sai falando mal do jantar – e quem, com toda sinceridade, nunca foi à casa de alguém para depois sair botando defeito na decoração, na discoteca, no comportamento das crianças, no menu, nos modos à mesa?... 
 
A vida social, neste retrato drummondiano (mordaz e sincero), é uma relação verticalizada, entre pessoas de diferente status social, em que os De Cima se aproveitam dos De Baixo, cobram favores que não retribuem, exigem atenções, desfrutam o que lhes agrada, e no fim de tudo saem falando mal como modo de reafirmar a própria superioridade: “Eles não estão à nossa altura”. 
 
Manuel Bandeira se queixava de que grande parte da má fama dos modernistas se devia ao temperamento galhofeiro do grupo, e seus poemas-piada. Carlos Drummond já observou que no seu famoso poema da pedra no meio do caminho o que irritava os críticos nem era o abstracionismo do conteúdo, mas o fato de que ele escrevia “tinha uma pedra”, em vez de “havia uma pedra”, como teria escrito um “poeta culto” de 1930.
 
Uma boa parte desta má fama, no entanto, pode ser atribuída a essa disposição para zombar das frivolidades sociais, das hipocrisias de classe, das amizades interesseiras, do alpinismo social baseado no sorriso fácil e no tapinha nas costas.
 
 




segunda-feira, 3 de julho de 2023

4958) Salve o compositor popular (3.7.2023)




Fazer uma música é um dos prazeres mais simples e artesanais que nos restam, num século em que tudo tem que ser, a) monumental, b) lucrativo, ou c) legitimador de alguma tecnologia recém-posta à venda. 
 
Há quem diga que literatura é a mais barata das artes, uma “arte a custo zero”, porque pode-se escrever um livro inteiro usando apenas papel e lápis. Pois olhe, música você pode fazer de mãos nos bolsos, e assobiando pra não esquecer a melodia. Eu já compus assim. 
 
Quantos bilhões de melodias já terão sido inventadas, decoradas e repetidas, nestes últimos milênios de História? Perderam-se?  Foram esquecidas?  Que importa? Também se perderam ou foram esquecidas as pessoas que as criaram, e mesmo assim não acho que a maioria delas creia que viveu em vão. 
 
Tenho para música aquilo que a gente chama de “ouvido duro”: dificuldade para lembrar uma melodia, para distinguir duas notas ou dois acordes muito parecidos, para perceber que uma corda de violão está semitonando. Talvez por isso mesmo, cada lararaiá que inventei me parece um triunfo pessoal sobre mim mesmo, digno de comemoração. 
 
Uma vez, na casa de alguém, eu estava conversando com um músico de orquestra sinfônica, um cara da minha idade, mas com uma carreira profissional que já vinha desde a infância. 
 
– Acho incrível a pessoa que compõe – disse ele. – Tocar, como eu toco, é fácil. Mas compor!  Nunca consegui compor uma música. 
 
– Mas é muito fácil – disse eu, com a auto-confiança dos primitivos. Peguei um violão que estava por perto, arpejei meu ré-maior básico e comecei a solar. – Tiruliruliro... tralá-laiá... Pronto, está aqui uma melodia. Compus agora. 
 
Ele recuou horrorizado, como se eu tivesse lhe exibido uma ratazana sanguinolenta. 
 
– Mas compor não é isso! – exclamou. – Não é apenas enfileirar notas. É algo muito mais complexo. 
 
Ele tinha razão. Ele é um músico erudito. Eu sou um músico popular. Eu posso compor assobiando, em pé no ônibus. Eu posso me dar o luxo do lugar-comum, do formatinho banal, da melodia naïve. O luxo da repetição, como o pintor de paisagens da Praça General Osório. Ele, não. Para ele, vale sem dúvida a máxima de Thomas Mann quanto à literatura: “Escritor profissional é aquele para quem o ato de escrever é mais difícil do que para as outras pessoas”. 
 
Minha primeira música gravada foi “Caldeirão dos Mitos”, que Elba Ramalho incluiu em seu segundo álbum, Capim do Vale (1980). Quando o disco saiu, eu tocava a faixa cinquenta vezes por dia, para me assegurar de que ela não tinha ido embora. Era bom demais para ser verdade. 
 
Uma noite, nessa época, estava bebendo com amigos num bar de João Pessoa, e a algumas mesas de distância um grupo de jovens alegres, de violão em punho, cantava músicas variadas. De repente, começaram a cantar o “Caldeirão”: “Tãrãrã-tãrãrã... Eu vi o céu à meia noite, se avermelhando num clarão...” 

Comoção geral na minha mesa; eu fiquei sem fala. Os amigos me disseram: “Vai lá!... Vai na mesa deles, fala que a música é tua!”  Eu, sabiamente, não fui. Ir para quê? Para amarrar a importância da música à presença do autor? De jeito nenhum. Música gravada é passarinho fora da gaiola. “Sabiá lá na gaiola fez um buraquinho... voou, voou, voou, voou...” 
 
Alguns anos atrás, eu estava na FLIP, em Paraty. Tinha acabado de anoitecer e eu vinha testando meus tornozelos por cima das pedras traiçoeiras daquele calçamento. Numa esquina, encontrei um ou dois amigos fazendo parte de um grupo maior. Parei, trocamos abraços, cumprimentos, apresentações rápidas, dez minutos de papo, e o grupo se desfez. 
 
Saíram todos e ficamos eu e um senhor, idoso, negro, bem vestido. 
 
– O senhor é nordestino – constatou ele, com simpatia. 
 
– Sou mesmo – disse eu. Estendi a mão e me apresentei: – Braulio Tavares, da Paraíba.
 
– Prazer – disse ele. – Sou Edeor de Paula. Fiz um samba em homenagem ao seu Nordeste. 
 
Eu não reconheci o nome, como não reconhecera o rosto. 
 
– Que ótimo. Como é o samba? 
 
Ele pigarreou e puxou: 
 
– Marcado pela própria Natureza... 
 
E eu já emendei em uníssono, no tom dele, com o verso seguinte:
 
-- O Nordeste do meu Brasil... Oh, solitário sertão, de sofrimento e solidão...



(Edeor de Paula)
 
E ali, naquela encruzilhada de um começo de noite paratiense, cantamos todo o samba “Os Sertões”, que desde 1976, quando foi lançado pela escola Em Cima da Hora, eu me acostumara a cantar em Campina Grande, na nossa batucada de fins de semana, a “Batucada de Lanka”. Cantando junto com o autor, eu me lembrei de Lanka, de Lucy, de Chiquinho, de Marquinho, dos batuqueiros que já se foram e que dariam altas gargalhadas se me vissem ali, quarenta anos depois, tirando a maior onda e cantando o samba junto com o autor do samba. 
 
Seu Edeor se comoveu, certamente; nos despedimos com um abraço amistoso, e ele deve ter experimentado pela milésima vez o raro prazer de ser conhecido por uma música que criou. 
 
Não existe fórmula nem receita para fazer música. Ela pode ser criada na calada da noite por uma pessoa sozinha, e pode surgir numa ruidosa mesa de bar, rabiscada às pressas em guardanapos, com palpites e pitacos até do garçom. O que importa é que depois de criada a música cria seu primeiro círculo de ressonância, entre os que cantam, os que escutam, os que decoram, os que repetem... 
 
A música é gravada e ai vira tudo outro patamar. A gente ouve a música no rádio do táxi, no corredor do shopping, no palquinho de um forró, no alto-falante da rodoviária, na sala de espera do dentista... É um passarinho que voa para onde quer, sem pedir outra coisa senão o alpiste de três minutos de atenção. O cara que compôs a música também escuta, mas dá menos atenção à música do que aos rostos e aos olhos de quem está ouvindo. Não basta a música tocar no rádio: ela tem que tocar as pessoas. 
 
Dizem que Oscarito, no auge das chanchadas que estrelava com Grande Otelo na Atlântida, costumava botar algum disfarce de óculos e chapéu e assistir ao filme nas sessões da tarde na Cinelândia. Entrava, sentava num cantinho... e não olhava para a tela. Olhava para a platéia. Queria ver se a piada funcionava, se o timing de uma cena tinha ficado correto... É nisso que a gente pensa: no que o público está pensando. 
 
O que bate com um preceito sábio de Bertolt Brecht, quando explicava a diferença entre o teatro tradicional e o seu teatro épico: no teatro tradicional, a platéia observa o palco; no teatro épico, o palco observa a platéia.
 
Por isso quando a gente encontra um desconhecido numa esquina e ele, sem saber sequer o nosso nome, é capaz de lembrar e cantar uma música que a gente fez, então nesse momento o circuito se fecha. A energia flui. A gente fica sabendo (mais uma vez) que aquela noite em claro não foi em vão.
 
 
 
 
 
 
 







quinta-feira, 9 de fevereiro de 2023

4911) A resposta do ChatGPT (9.2.2023)




(INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL): 
 
Você me pede para escrever “uma crônica sobre literatura, ao estilo do escritor Braulio Tavares”. 

Não é difícil responder a esse desafio, uma vez que os escritos desse amanuense, nascido em meados do século passado, circulam pelo mundo virtual e abordam insistentemente os temas recorrentes do “fazer literário”, da “magia das palavras”, da “recriação de histórias” e outros lugares-comuns de nossa época. 
 
Seria preciso lembrar, de início, que o nosso bravo cronista (observe-se que a expressão “nosso bravo [qualquercoisa]” é uma forma clichê de expressão, mas no vocabulário estilístico de redatores daquela geração, intermediária entre o beletrismo e a patafísica, o clichê traz consigo uma certa carga de auto-ironia, pois o uso inesperado de uma tal fórmula denota a plena consciência, por parte do autor, de estar manipulando um clichê, mas com a consciência de o estar fazendo) o nosso bravo cronista, dizíamos (e aqui mais uma vez vale a observação de que este uso do plural autoral, se não chega a ser propriamente um clichê, é resultado de uma operação mental semelhante à do exemplo anterior, pois se distingue do chamado “plural majestático” usado pelos reis, bem como do “plural tribunalício” com que os juízes minimizam sua presença pessoal numa sentença proferida; poderia, sem prejuízo da clareza, exprimir uma certa vertente da literatura atual, mediante a qual um texto não passa de uma colaboração mental entre o Autor e o Leitor, de tal sorte que, no momento em que lê as palavras escritas pelo primeiro, o segundo as recria e as enuncia como que pela primeira vez, revestindo-se este ato, portanto, de foros de co-autoria), o nosso bravo cronista tem o vêzo (cabe aqui outra observação, porque cabe aqui um acento circunflexo; o cronista defende a teoria de que ao usarmos palavras pouco comuns e que o leitor talvez não saiba pronunciar corretamente, devemos acentuá-las em benefício da clareza, mesmo quando a gramática desaconselha o emprego de tais sinais diacríticos) o nosso bravo cronista tem o vêzo das longas digressões. 
 
Concomitantemente (dizem as más línguas que nós, os inteligentes-artificiais, somos faltos de originalidade e surpresa; ora, digam-me se não é um desmentido cabal dessa calúnia o emprego deste advérbio centípede, que o autor em pauta jamais redigiu em sua longa carreira, advérbio que contudo guarda em si o tom levemente pincenezco, e tongue-in-cheekemente pomposo, com que ele se diverte empregando pequenas jóias lexicográficas do glossário de autores que na adolescência o deixavam com o verbalizador zunindo, como Guerra Junqueiro, Humberto de Campos ou Coelho Neto), sabe-se que esse sujeito (preciso ficar aqui repetindo de quem se trata?) tem no ouvido o seu calcanhar-de-aquiles, valha a comparação, e é pelos tímpanos-complacentes que ele emprenha diante de metáforas ou sinédoques ou catacreses ou metaplasmos que o arrebatam como os corcéis albinos do Valhala, precipitando-o num mundo onde o não-chão é cúbico, onde as panacéias escasseiam, onde os morcegos relincham preces peludas ao ouvido das abantêsmas, onde as lesmas sem assento foram condenadas a fazer a pé a volta ao mundo sem GPS, onde cardumes de candirus organizam guerrilhas subfluviais para atrapalhar a lua-de-mel do síndico aligátor, onde delinquentes dimenor empinam com fio de cobre arraias voadoras e seu aguilhão envenenado disfarçado de caneta Parker 51, onde os colecionadores de aquedutos arrematam grosas de tratores Caterpillar nos leilões à socapa onde tudo é pré-arrematado pelos atravessadores-laranja de uma Banana Republic de bandeira cortada horizontalmente pelo Trópico de Capricórnio; onde a Era de Aquário desembocou no Porão das Jaulas-Fortes, cujo alçapão inferior derramou o transeunte incauto no Corredor do Coma Induzido, de onde ele saiu apenas quando a Revolta do Espartilho de Couro esmigalhou as caixas torácicas dos carcereiros e ele (não o cronista alvo destas linhas; o “transeunte incauto”, caso você esteja me acompanhando), diante da Távola Plana do reino dos desinformados, viu-se nomeado Ouvidor-Falante semipotenciário da Casa da Moeda e da Mansão da Nota, com estipêndio de cento e dez dracmas por dia-bissexto e catorze rupias esporádicas, emitidas pelo Tesouro Nacional, moeda que é denominada de “rúpia” quando falsificada por elementos sem formação moral como o locutor que vos fala.
 
Tirante este aspecto, resta-nos registrar que o indigitado, o referido, o meu-prezado, o nossa-amizade (ver em que caixa da mudança ficou o Vocabulário Prático de Apodos e Doestos, Soscígenes Frazão, Editora Lello, 1902) cultiva, como quem cultiva um bigode com pontas, um amplo panteão de deuses-pequeninos, a quem ele atribui poderes mágicos de inspiração literária e criativa, bastando-lhe às vezes salmodiar a meia-voz o nome do nauta-arremessado em questão para que seu cérebro inaugure tantas sinapses que fique parecendo uma árvore de Natal politeísta.
 
No capítulo “Principais Influências”, ele rasga sedas e desdobra salamaleques diante de influênceres como Harry Stephen Keeler (brilhante concebedor de non-sequiturs dramatúrgicos, candidato ao Prêmio Nobel de Títulos Olharregalativos), José Agrippino de Paula (o introdutor do Autismo Narratológico no romance da Boca do Lixo paulistana), Maura Lopes Cançado (intelectual brasileira que sabia passar troco e atravessar rua, e nunca jogou pedra em ninguém), Abdón Ubidia (equatoriano eqüestre no Pégaso dos inutensílios tecno-ilógicos), Monique Wittig (xena heavy-metálica baixadora de chibata nos titubeantes), Gisela Elsner (deformadora boschiana do pesadelo barriga-burguês nas águas-furtadas dos germanocratas ponta-de-ramo), Carlos Emílio Corrêa Lima (sarcasta-mor da confraria dos Logomagos, atualmente em versão digitalizada nos quettabytes da galáxia Transpunk)... e outros que tais.
 
Como a minha condição de mero programa recombinatório de informações acessíveis no metaspaço me impede de emitir opiniões que possam sugerir uma visão desnecessariamente crítica ou inconvenientemente laudatória, posso apenas dizer que quem quiser ter uma idéia real das habilidades do dégas, do de-cujus, do famisgeraldo... basta se-coçar, puxar carteira e cartão, e comprar um livro de sua autoria, porque os há e muitos, expostos à cupidez pública nas boas casas do ramo.  (É sempre aconselhável terminar com um clichê, para não deixar o leitor pendurado num ponto de interrogação.)

 
 






segunda-feira, 3 de janeiro de 2022

4780) Resoluções para 2022 (3.1.2022)



(foto: "D. Quixote e os Moinhos Elétricos", by BT)



Tornar menos desfocadas as letras dos livros e as legendas dos filmes.
 
Adquirir um robô da Boston Dynamics para trazer do supermercado refrigerante, mineral, cerveja, vinho, suco.
 
Avistar um OVNI e não perceber do que se trata.
 
Inventar um novo esquema de rimas para o soneto.

Criar um sistema industrial de aproveitamento das fibras do coco verde.
 
Anagramatizar em português um poema de Pablo Neruda, um de Arthur Rimbaud e um de W. H. Auden.
 
Juntar todo meu dinheiro e montar uma agência de banco, para viver de juros.
 
Já que estou sem aparelho de som na sala, comprar pelo menos uma luz estroboscópica!
 
Beber como se não houvesse amanhã (e aí é que não vai haver mesmo).
 
Escrever um romance onde todos os personagens masculinos têm os nomes de ex-jogadores do Treze, e ver quantos anos leva até alguém perceber.
 
Abrir o restante das caixas da mudança de dois anos atrás.
 
Fotografar a parte inferior do meu rosto e imprimi-la em uma dúzia de máscaras.
 
Enviar pedidos-de-desculpa telepáticos para todo mundo, e dormir em paz.
 
Visitar os cinco Estados brasileiros que me falta conhecer.
 
Caminhar dez voltas em torno do Maracanã toda vez que for dia de jogo.
 
Doar minha biblioteca a dez instituições culturais diferentes, e entregá-la a quem chegar primeiro.
 
Aprender a me portar como um cavalheiro.
 
Raspar a cabeça e tatuar um labirinto.
 
Trocar as cordas do violão (vamos e venhamos, dois anos é demais).
 
Comemorar o centenário da Semana de Arte Moderna repetindo seus eventos, e chamando-a de Semana de Arte Antiga.
 
Visitar livrarias discretamente e autografar cada exemplar de livro meu que houver por lá.
 
Assistir a pelo menos uma peça no teatro, um show no bar, um filme no cinema.
 
Mandar pintar um retrato meu     a óleo, todo velho, deformado, cheio de feridas, e escondê-lo no sótão.
 
Capturar os pássaros que pousarem na janela, escrever um poema em suas asas, e soltá-los.
 
Aproveitar o carnaval para ler Mikhail Bakhtin.
 
Amarrar o boi no pé da cajarana (por via das dúvidas).
 
Passar as minhas noites fugindo do inferno, dançando no escuro, subindo por onde se desce, cantando na chuva, brincando nos campos do Senhor.
 
 
 
 


segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

4674) "Imbiribeira" (14.2.2021)




Nem todo mundo que mora na mesma cidade vive na mesma cidade. “Viver em” é colecionar ambientes, deslocar-se com regularidade de A para B, para C, para D...  Numa cidade, principalmente uma cidade grande, tem gente que se desloca de M para N, de N para O, de O para P... A cidade é a mesma, e as pessoas criam seus mundos paralelos, e se cruzam nas ruas, enquanto se encaminham para os segmentos do universo de cada um.
 
Como no romance A Cidade e a Cidade de China Miéville, onde duas cidades rivais ocupam as mesmas ruas e bairros, e seus habitantes são proibidos de reconhecer a presença uns dos outros.
 
O livro de crônicas de Toinho Castro, Imbiribeira (São Paulo, Ed. Areia Dourada, 2020) recupera a memória pessoal de um bairro do Recife que não me lembro de ter visto cantado em prosa e verso como acontece com Boa Viagem ou Casa Forte.
 
É aquele Recife rigorosamente suburbano e invisível, mero espaço de passagem entre um lugar importante e outro, entre o aeroporto e o manguezal.
 
São aqueles bairros populares que toda cidade tem, e que não entram para a História porque não têm sítios históricos, o que os mergulha num círculo vicioso de anonimato. O que têm? Para mim, que de vez em quando passo de carro voltando do aeroporto, a Imbiribeira tem aqueles enormes conjuntos habitacionais de cinco ou seis andares, com janelas e terraços protegidos por grades, e nas paredes as manchas das infiltrações, das chuvas, das pichações. Varais de roupas estendidas, meninos brincando, mulheres atarefadas, homens entrando e saindo. Poucos espaços de lazer. Muitas antenas de televisão.
 
São aqueles bairros emendados uns nos outros, que me evocam endereços antigos de tios e primos da minha infância: Ibura, Ipsep, Imbiribeira... Como o Fundão ou a Água Fria onde morava minha avó Clotilde, ou o Hipódromo de minha tia Petró.
 
Essa paisagem se espalha pelo Brasil inteiro como um papel-de-parede repetitivo, e não há quem a cante, porque suas belezas são poucas e estão todas na memória afetiva de quem ali viveu.

 
Toinho Castro, editor (com Aderaldo Luciano) da revista eletrônica Kuruma’tá, e meu parceiro em outros projetos (como o Lendário Livro¸2018), juntou suas memórias num livro que mistura crônicas e poemas com esse tema em comum. A infância passada num bairro pobre, sem lazer, sem paisagem, sem alternativas. E sem segurança, porque ali é região tomada ao mar:
 
E lembrando disso penso no quanto estávamos ao sabor das marés, por causa da conjunção das chuvas, com a lua cheia e a preamar, era fatal nossa rua transbordar e a água ameaçar entrar em nosso apartamento térreo; a água barrenta, escura, da rua sem calçamento misturada às águas negras do canal logo adiante, subindo, atraídas pela força da lua acima de nós, para além das nuvens carregadas. E eu ali no mar límpido, sabia que ele era parte do sistema de coisas que deixava minha mãe aperreada. Tudo era uma água só, entranhada no subsolo, por baixo do calçamento, minando na rua Pampulha. A água, a grande narradora da cidade onde vivíamos.
(“O cheiro dos sargaços”, p. 36-37)
 
É um espaço onde a civilização é precária, e de vez em quando uma criança sente aquele arrepio atávico no inconsciente coletivo, sabendo que a Humanidade mal chegou e talvez já tenha que ir embora:
 
Assistíamos TV
e o caranguejo
atravessou a sala,
deixando em todos a sensação
de que estávamos errados,
que ocupávamos
um espaço indevido,
que éramos bandidos,
ladrões, saqueadores de mundo.
(“Poema V”, p. 34)
 
A transição entre crônicas e poemas é meramente formal, porque o tom emotivo-distanciado é o mesmo, a dicção literária é a mesma. Em textos com esse perfil, com esse tipo de voz, a distinção entre a prosa e o verso ocorre apenas (acho eu) porque o livro não é composto de uma assentada. Cada texto foi escrito em seu próprio momento. O momento pedia, num caso, um jorro contínuo de palavras e imagens, e em outro momento pedia um dizer mais compassado, mais medido. Mal comparando, escrever prosa é como andar numa rua, e escrever poesia é como subir (ou descer) uma escada. São dois tipos de deslocamento no tempo e no espaço.
 
Tempo e espaço, aliás, são imagens recorrentes nas lembranças de quem lê ficção científica, como é o caso, e busca nessas imagens fantásticas uma porta de fuga para uma realidade encalhada e sem luz.
 
Certa noite, num bar com uma amiga, Lulu, olhamos para a rua à nossa frente e vimos, num sobrado velho, como pareciam todos os sobrados, uma placa: Clube dos Mágicos. Rimos e nos espantamos... era tarde da noite e ficamos imaginando o que poderia estar acontecendo ali dentro, a portas trancadas, janelas cerradas. A reunião dos mágicos sombrios da cidade, aquela cidade assombrada onde éramos fantasmas.
                Teve essa lua cheia, nascendo no horizonte escuro do mar, do Atlântico. Parecia uma explosão nuclear, como uma bolha alaranjada e eu quis que fosse uma explosão nuclear rompendo o tédio daqueles dias, mas era a lua.
(“Recife”, p. 52)
 
Assim como uma parte significativa do rock inglês ou norte-americano cresceu e proliferou no meio dos bairros operários, massacrados, cinzentos e sem vida, onde jovens sem rumo procuravam canalizar energia, criatividade e frustrações, as grandes cidades daqui fazem surgir essas miúdas religiões de uma dúzia de crentes, reunidos em torno de alguma coisa que produz em todos o mesmo efeito, e que só por isso parece humanizá-los.



Tinha na rua Pampulha
um quarto onde rolava um som,
e eu ficava junto ao toca-discos,
a fonte daquele som,
como se aquilo fosse uma fogueira,
como se fosse as estrelas.
(“Poema XIX”, p. 85)
 
Um Recife desaparecido, por definitivamente irrelevante, para além das pequenas vidas que ali se moviam e dali desapareceram. Meus amigos e eu nos reuníamos às vezes em volta de um bueiro na encruzilhada da rua Pampulha com a rua Itamaracá, para falar sobre coisas  que jamais interessariam a mais ninguém; nossas vidas pequenas e sem esperança na escuridão reinante à nossa volta.
(“Meu Recife é outro”, p. 18)


 
(Rua Pampulha, esquina com Itamaracá)
 
Crônicas e poemas vão passeando assim por esse universo invisível das grandes cidades, o universo onde não ocorre nada que não seja a rotina esmagadora do trabalho, do estudo e da sobrevivência sempre ameaçada. E aqui ou ali brotam as pequenas epifanias de garotos e garotas para quem o dia em que a enchente devastou metade da cidade foi um dia feliz, porque naquele dia, por acaso, eles tinham visto dois filmes num dia só.
 
Sem falar nos encontros (sempre preciosos, para os escravos da rotina) com o estranho, o bizarro, o inesperado: a cheia invadido a padaria e fazendo escorrer rua afora uma frota inteira de pães recém-saídos do forno, ou o rio Capibaribe que certa noite começa a produzir, sabe-se lá de onde, envelopes pardos que boiam na água, “como se uma fábrica de envelopes tivesse explodido ou um caminhão carregado de envelopes pardos tivesse jogado sua carga no rio para fugir da polícia dos envelopes!”
 
Manuel Bandeira foi outro que ao evocar seu Recife evocava as coisas pequenas que tinham importância para ele, e não as coisas grandes que têm importância para quem vê a cidade lá de fora. Abespinhava-se quando constatava as modernizações urbanísticas, as invasões do progresso, um progresso de destruição lucrativa do passado: “Diabo leve quem pôs bonita a minha terra!”.
 
É o mesmo tom de Toinho, com a percepção de quem viveu do lado do mangue, dos “caranguejos com cérebro”, da umidade ao mesmo tempo fertilizadora e corrosiva. A cidade vai sendo invadida pelo conceito puritano e financista de “limpeza”: “Impressionante como a idéia de limpeza pode ser poderosa, colonizadora e contaminante.”  A utopia da limpeza vira pretexto suficiente para todo tipo de extermínio, como se o passado fosse um tumor que nos constrange diante de um mundo que diz ser mais sadio, “o mundo enquanto porcelanato”.
 
Hoje os prédios nem têm mais apartamentos no andar térreo. No térreo ficam as portarias, e acima das portarias, dois ou três andares de garagens, e só então as casas, evitando o mundo. Todos na torcida por um mundo límpido, branco, imaculado, revestido, recoberto, sem compreender que o mundo é detrito, resto de uma grande e primordial explosão se dissipando universo afora. O universo é uma onda de choque que desarruma. A mecânica celeste é ilusória.
(“Sonho, lama e caos”, p. 33)
 
São forças históricas e econômicas em choque, ou melhor, numa disputa de atrações e repulsões onde milhões de pessoas são apenas partículas impotentes sendo empurradas hoje numa direção, puxadas amanhã para a direção oposta, como as marés comandadas pela lua. Só nos resta navegar, porque não podemos dizer ao mar o que ele deve fazer.