Mostrando postagens com marcador profissionalismo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador profissionalismo. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

3338) Pague o músico! (8.11.2013)




Circula pela web (recebi via Twitter do ilustrador Renato Alarcão) um email assinado pelo músico N. J. White, endereçado a uma tal “Zoe”, de um canal de TV britânico, que, aparentemente, escreveu para ele pedindo a liberação, sem pagamento, de alguma música ou trecho de música de autoria dele, para inclusão em algum tipo de trabalho. Esses detalhes não ficam muito claros, mas não importa. Importa a resposta do músico e seus argumentos. Faço pequenos cortes na mensagem original, que é bem mais extensa, mas o essencial vai aí abaixo.

“Prezada Zoe: (...) Estou de saco cheio desse papo furado, dessa inevitável frase: ‘Infelizmente não temos verba para a música’, como se alguma permanente Lei do Universo tivesse proferido um triste e imutável veredito impedindo você de destinar verba para a música. É a SUA empresa quem determina as verbas. Foram vocês que decidiram não destinar verba para a música. Vivo recebendo mensagens desse tipo, toda semana, enviadas por uma indústria de mídia rica, globalizada.

“Por que é assim? Vamos dar uma olhada em quem somos, eu e você. Eu sou um músico profissional, vivo da minha música. Levei metade da vida para aprender minha técnica, e anos para subir na estrutura da profissão até chegar a um ponto de receber mensagens de estranhos como você. Minha música é uma propriedade conquistada com muito esforço. Já licenciei música minha para alguns dos maiores programas, marcas, games e produções de TV, desde Breaking Bad até Os Sopranos, da Coca-Cola a Visa, da HBO até Rockstar Games. Você teria coragem de abordar um Diretor com um currículo assim, e, com uma simples frase cínica, pedir-lhe que trabalhasse de graça?

“É o menosprezo pela música, culturalmente impregnado na SUA profissão, que leva vocês a desdenhar o quesito ‘música’ sempre que possível. Vocês pagarão, sem questionar, a qualquer pessoa envolvida numa filmagem, (...). O músico? Ele que trabalhe de graça. (...) Você trabalha numa empresa financeiramente próspera, bem sucedida, reconhecida no mundo inteiro, com um portfólio cheio de sucessos. (...) Vocês têm dinheiro, sim, e fingir o contrário chega a ser um desaforo. E me manda esse pedido esfarrapado, “dê-me seu trabalho de graça”. (...) A resposta é um sonoro e definitivo NÃO”.

White termina a carta dizendo que está remetendo cópias para vários websaites e blogs voltados para a música, e encorajando os colegas a fazerem o mesmo. É o que estou fazendo. Dona TV (etc.), pague o músico! Pague o poeta, o escritor, o ilustrador, o fotógrafo, o ator... Nenhum email dizendo “Não temos verba para roteiro” já foi enviado por uma pessoa que estava trabalhando de graça.


quinta-feira, 25 de julho de 2013

3247) Artista profissional (25.7.2013)


Duas coisas que correram estes dias nas redes sociais me chamaram a atenção. 

Uma delas dizia respeito a um divertido post (cuja leitura aconselho) no blog “Recordar, repetir e elaborar” de Camila Pavanelli (em: http://bit.ly/1amO2EZ). O título já diz tudo: “Gente de humanas que faz um monte de coisa que não dá dinheiro”, onde ela relaciona e comenta algumas dezenas ou centenas de atividades que não dão dinheiro (eu próprio me enquadro numas 35). 

O outro foi um comentário de Fábio Cabral, da loja Passadisco (Recife), sobre um rapaz que lhe anunciou que ia montar uma banda e gravar um disco em 2015.

O cara que em 2013 já determina que vai gravar um disco em 2015 (por mais que gravar discos tenha se tornado fácil ultimamente) é claramente um futuro artista profissional, ou pelo menos tem a intenção de sê-lo. Está com um cronograma de compromissos. (O primeiro deve ser: “Compor doze músicas”). Será que está botando o carro adiante dos bois? Se ele tiver talento, até que não. Sei de muita gente que preparou cronogramas assim e depois sentou e produziu obras de alta qualidade.

Acontece que isso não é o comportamento típico da “gente de humanas” citado no post de Camila. “Gente de humanas”(leia-se: que estudou Ciências Humanas, em vez de Ciências Exatas ou Ciências Médicas) já é uma expressão irônica com que o pessoal designa a minha tribo, o pessoal que estudou artes, comunicação, ciências sociais, letras, filosofia, etc. 

Eita pessoalzinho desprovido de magnetismo financeiro. Se colocarem a gente a meio metro de distância de uma moeda de 1 real, a moeda não se move um milímetro. Por outro lado, existem profissões em que o dinheiro literalmente corre atrás do sujeito.

Scott Fitzgerald já disse: “A gente não escreve porque quer dizer alguma coisa, escreve porque tem alguma coisa para dizer”. Parafraseando: a gente faz músicas, e um dia vem a necessidade de gravar um disco; mas existe gente que se compromete a fazer um disco (para ganhar dinheiro, claro) e isso o obriga a fazer músicas. A ordem desses dois fatores altera o produto. 

Gente-de-humanas pensará primeiro nos aspectos humanos das coisas que lhe passam pela cabeça, e só muito depois irá avaliar se aquilo dá dinheiro ou não. Para o artista “de humanas”, o dinheiro é consequência. 

Para certos artistas profissionais, o dinheiro é o objetivo, e a arte é uma mera obrigação tediosa.  (E eu sou um profissional, portanto a crítica que faço não é ao profissionalismo em si, mas à mentalidade que coloca o profissionalismo acima de tudo. Torna-se muitíssimo mais fácil manipular ou subornar um artista “profissional” do que um artista “de humanas”).





quinta-feira, 20 de outubro de 2011

2690) Profissional vs Amador (18.10.2011)



(foto: Yanik Chauvin)

Foi uma dessas semi-gafes em que sou especialista. A gafe é involuntária, é quando a gente paga um mico, mas agindo com a maior inocência. A semi-gafe é quando a gente pensa “se eu fizer isso vai ser uma saia-justa danada”, mas faz assim mesmo. Faz uns quinze anos, eu estava em São Paulo numa reunião cultural qualquer. Um cara colocou na minha mão uma revista enorme, em papel cuchê, a cores, com uma programação gráfica de cair o queixo, e disse: “É o número 1 da revista que estamos lançando, tem os melhores fotógrafos, os melhores ensaístas...” Folheei, fiquei de queixo caído; vi no índice os nomes de colaboradores dos mais ilustres, uma galera que abrangia desde catedráticos da USP até poetas independentes do Bexiga. Elogiei, o cara disse: “Pois é, nosso esforço foi para fazer uma revista literária de nível profissional, e acho que conseguimos. Você poderia nos mandar uma colaboração?” Perguntei quanto eles pagavam por um artigo. O rapaz pigarreou, ajeitou o nó da gravata: “Olha, como nós estamos ainda começando, essa questão da remuneração dos colaboradores ficou para mais adiante, quando a revista estiver mais estruturada”. Eu devolvi o exemplar para ele e disse: “Sei como é. Então quando passar essa fase amadora, e começar a fase profissional da revista, quem sabe eu mando uma colaboração”. O cara deu uma risada, um tapinha nas minhas costas e nunca mais falou comigo.

Eu vejo por aí as pessoas usarem os termos “profissional” e “amador” de um modo totalmente inadequado. Para elas, profissional é tudo que é super bem feito, super competente; amador é tudo que é tosco, desajeitado, imaturo. Eu discordo e proponho a seguinte fórmula: profissional é todo trabalho que é pago, e amador é todo trabalho que é feito de graça. Em ambos os casos existem gradações que vão do mais sofisticado ao mais tosco. E nenhum de nós é totalmente profissional ou totalmente amador. Eu mesmo todos os dias me alterno entre trabalhos profissionais (como esta coluna, pela qual recebo um salário) e trabalhos amadores, que não me rendem um tostão, mas que eu faço por amor à arte, ou por amizade, por desfastio, por curiosidade, por qualquer outro motivo que não seja um depósito bancário.

Tem muito trabalho profissional que é labrojeiro – a gente chama um encanador pra ajeitar um vazamento e uma semana depois tem que chamar outro, porque o conserto ficou igual à cara de quem fez. E muitos catedráticos escrevem artigos amadores de alto nível, porque a USP lhes paga um belo dum salário e lhes permite escrever de graça para revistas onde o único profissional é o cara que embolsa os lucros.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

2483) O Oscar (18.2.2011)




Uma crítica que se faz aos filmes de vanguarda é que são filmes que só interessam a quem faz cinema. 

Filmes onde existe pouca história, pouca narrativa, pouco trabalho de ator, e a ênfase é toda na linguagem, ou melhor, na meta-linguagem, no exibicionismo do diretor através de suas imagens, seus cortes, seus movimentos de câmara. Até suas indisciplinas narrativas acabam sendo saudadas como inovação e assimiladas pelos diretores mais jovens. 

Isso ocorre em todas as artes, é claro. Quanto mais inventiva a linguagem de um autor, mais os outros autores (ou pretendentes a autor, ou críticos de gosto refinado) se apaixonam por ela. 

Um romancista como Proust, um pintor como Picasso, um músico como Stravinsky, todos eles são gurmês cozinhando para gurmês. Em inglês existe até uma construção frequente – chama-se a Fulano “a poet’s poet”, ou “a filmmaker’s filmmaker”, para dizer que é um poeta feito à medida para ser apreciado por outros poetas, ou um cineasta para ser visto por outros cineastas.

Eu diria que o cinema industrial também é assim, não é só o cinema de vanguarda. Todo espetáculo, toda produção industrial, tudo que envolva grandes recursos, grandes equipes, grandes problemas técnicos e grandes responsabilidades, tem um fascínio próprio, que é o desafio de fazer bem feito. 

Isso não tem nada a ver com Arte; tem a ver com profissionalismo, com artesanato (vá lá esse termo tão polêmico), com desempenho técnico. Isso está num comercial de TV, num desfile de modas, num treino de Fórmula 1. 

Há uma tarefa complexa e delicada a ser executada, e um erro pode custar muito caro. O desafio é executá-la com perfeição. Fazer isso com pouco dinheiro é difícil, com muito dinheiro é difícil também.

Isto explica por que motivo o Oscar, esse boneco tão superestimado, fascina tanto as pessoas que o criaram e que garantem sua fama, ou seja, os membros da famosa Academia de Hollywood. 

O Oscar não tem nada, rigorosamente nada a ver com a Arte cinematográfica como eu a entendo. É um prêmio técnico, concedido e votado por técnicos, e que premia a competência técnica. É um prêmio corporativo no bom sentido, porque as pessoas que o votam sabem o quanto é difícil criar um efeito especial, interpretar um personagem, inventar um cenário, pesquisar um figurino, bolar uma história original. A Arte é importante; mas isto que estou descrevendo também é, por que não?

O Oscar é um prêmio que ignora o lado transcendental da Arte e premia os “artesãos competentes”, que trabalharam duro e fizeram um filme dar certo. 

Premia o envolvimento emocional das pessoas, suas noites em claro, seus dias de sangue, suor e lágrimas, suas ausências da família. Premia seus anos de estudo e treinamento, sua paciência inesgotável para trabalhar em equipe correndo contra o relógio. 

As longas listas de nomes nos agradecimentos explicam o que é o Oscar. Não é um prêmio para os artistas, é um prêmio para os profissionais, e é só neste aspecto que tem valor.





segunda-feira, 14 de junho de 2010

2149) Profissão: repentista (27.1.2010)



(Santino Luiz, cantador de viola, em foto de Roberto Coura)

Foi sancionada pelo Presidente Lula, neste começo de ano, uma lei, de número 12.198, aprovada pelo Congresso, que reconhece a atividade de repentista como profissão artística. O texto publicado no Diário Oficial da União define repentista como "o profissional que utiliza o improviso rimado como meio de expressão artística cantada, falada ou escrita, compondo de imediato ou recolhendo composições de origem anônima ou da tradição popular". A lei lista quatro tipos de profissionais que se enquadram na sua definição: 1) os cantadores e violeiros improvisadores; 2) os emboladores e cantadores de Coco; 3) os poetas repentistas e os contadores e declamadores de causos da cultura popular; 4) os escritores da literatura de cordel.

Espero que essa chancela jurídica se reflita positivamente no exercício da profissão. Violeiros já me contaram que, anos atrás, cantador não conseguia pegar um táxi a menos que escondesse a viola, porque todo cantador de viola era bêbado e desordeiro, aos olhos da população. Cordelistas eram interpelados em plena feira por fiscais que os mandavam embora, ou cobravam propina, ou pediam “o alvará de funcionamento”, ou apreendiam os folhetos. Cantorias dentro de um boteco eram suspensas com a chegada da patrulha, porque “gente que se reunia para ouvir violeiros podia provocar distúrbios”. E assim por diante. Sem falar em situações menos graves mas não menos constrangedoras. Um cantador amigo meu entrou num ônibus para uma viagem interestadual, colocou a viola (encamisada) no bagageiro acima das poltronas e sentou ao lado de uma bonita morena, que lhe perguntou, com jeito coquete: “O que é isso?”. Para sofrimento e opróbrio junto à própria consciência, o cantador respondeu: “É um violão”. Acabaram namorando; o mundo não se acabou quando ela descobriu a verdadeira identidade profissional do galã.

Ser cantador repentista é tão nobre, tão difícil e tão sofisticado quanto ser músico de jazz. É fazer uma coisa extremamente complexa e que poucas pessoas conseguem fazer bem (por isto que existem tantos cantadores medíocres e tantos músicos de jazz medíocres). E, mais do que isto, é exercer uma forma de arte que só existe no Nordeste do Brasil, ou que pelo menos nasceu aqui e daqui se expandiu para o resto do país. Ser repentista não é o mesmo que ser trovador medieval, ou jogral renascentista, ou bluesman norte-americano, ou bertsolari basco, ou inúmeras outras atividades com afinidades de DNA. Quantos povos, quantas regiões, quantas comunidades humanas podem se gabar de ter inventado uma forma de Arte? Muito poucas, eu acho. A Cantoria envolve elementos da poesia, da música, da literatura oral, do teatro e da performance. É algo raro, rico, difícil. Pouco importa se os cantadores de hoje estão batendo píno e deixando de improvisar, pouco importa se o decoreba está tomando conta dos Festivais. O que foi criado aqui nasceu aqui, e tomara que não morra nunca.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

1528) O cinema do efêmero (5.2.2008)


(O fim do sem fim)

Um dos melhores documentários que vi este ano, já comentado nesta coluna (23.10.2007), foi O fim do sem fim, filme de Lucas Bambozzi, Beto Magalhães e Cao Guimarães. É um filme sobre profissões em declínio: lanterninha de cinema, calígrafo, fotógrafo lambe-lambe, etc. Com ótimas entrevistas, bem editadas, o filme tem uma fotografia e uma edição que tiram a secura jornalística da abordagem, criando uma atmosfera narrativa em que chegamos a pensar ser aquilo um filme de ficção com personagens aleatórios e que não se relacionam uns com os outros.

Por mais que o filme seja satisfatório (para mim é plenamente) ele reforça uma idéia preconcebida que continua vigorando sobre o documentário, a de que ele existe para preservar, “resgatar”, registrar coisas antigas e em via de desaparecimento. Basta ver a idéia que o chamado “público em geral” tem sobre documentário. Já vi alguém responder à pergunta “O que é um documentário?” dizendo: “Documentário é um filme nacional curto, entrevistando gente velha e pobre”. É um daqueles casos de uma resposta totalmente errada e totalmente correta.

O filme dos três cineastas paulistas me sugeriu a possibilidade de fazer o seu contrário. Um filme talvez intitulado “O começo do sem começo”, registrando profissões que não existiam há alguns anos e que agora existem; profissões que surgiram de repente e que a gente ainda não sabe no que vão resultar. Alguém sabia o que era um webmaster em 1990? Outros exemplos: acupunturista, “personal trainer”, atividades que entraram na moda de alguns anos para cá. Temos casos mais extravagantes, como “psiquiatra de cães” e outras profissões que gravitam em torno dos muito ricos. Na verdade, basta circular no meio dos muito ricos para descobrir inúmeras profissões novas, pois onde quer que o dinheiro se acumule a sua força gravitacional irá atrair gente esperta, interessada em transferi-lo para os seus próprios bolsos. E também circular entre gente pobre. Se nossa criatividade é estimulada pela perspectiva de ganhar um milhão de reais, o mesmo ocorre com quem precisa descolar cem reais no fim do mês, senão morre.

O cinema documental serve para captar essas transformações no momento em que estão acontecendo. São atividades humanas que surgem de maneira inesperada, fixam-se na vida de alguns grupos durante alguns anos, e depois desaparecem quando as condições econômicas ou os modismos sociais voltam a mudar. Documentá-las enquanto existem é tão legítimo e importante quanto documentar o mico-leão dourado, o boto cor-de-rosa e outras espécies ameaçadas de extinção. Em síntese, o documentário não é apenas arqueologia, não serve apenas para resgatar o passado ou nos trazer informação sobre atividades que deixaram de existir. Ele faz o mesmo com o presente, ele capta essas camadas passageiras de que o presente é feito, e que nós imaginamos que serão eternas, porque temos a mania de imaginar que tudo que existe agora existe para sempre.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

1456) O violão de Ingres (13.11.2007)


Num universo alternativo, talvez abríssemos o jornal para ler que o famoso clarinetista de jazz Woody Allen costuma relaxar nos fins de semana dirigindo pequenos filmes com sua câmera digital, usando os amigos como atores. Virando a página, leríamos uma entrevista do artista plástico Carlos Alberto Parreira, recém-chegado de sua exposição individual em Florença, dizendo que o futebol é sua paixão secreta e estava treinando um time amador do Rio. Interrogados por um repórter, eles poderiam comentar: “Pois é, mas essa outra atividade é o meu violão de Ingres”.

Esta expressão francesa surgiu, ao que se diz, pelo fato de que o pintor Ingres costumava tocar violão nas horas vagas, para relaxar, para desopilar (eita verbozinho horroroso). A pintura era seu ofício, sua profissão, a atividade na qual ele se sentia submetido às maiores pressões e às maiores cobranças. Dele todo mundo esperava sempre a próxima obra-prima. Mas quando sentava no terraço e sobraçava o violão, mestre Ingres ficava por ali, sem compromisso, bebericando um bordô e cantando seu “Frère Jacques”, ou sei lá que músicas se podia cantar ao violão na França do século 19.

Todo mundo precisa de uma atividade paralela feita à sombra, longe da atenção do público. Advogados que desenham, médicos que escrevem romances policiais, políticos que jogam golfe, futebolistas que tocam cavaquinho, professores que fazem teatro... Todo mundo precisa dessas duas coisas: uma profissão e um hobby. Ingres certamente não tocava violão tão bem quanto Paulinho Nogueira ou Luís Cambeba, mas tocava por puro e simples prazer, sem se sentir com a menor obrigação de ser um craque como eles. Einstein não tocava violino? Richard Feynman não tocava bongô?

O ideal seria fundir as duas coisas, porque muitas vezes a profissão oficial do indivíduo é cumprida a contragosto – pelo dinheiro, por um senso de obrigação social, ou porque o cara já criou para si todo um círculo profissional do qual não consegue escapar. Mas ser bem pago para fazer o que mais gosta é algo que qualquer indivíduo colocaria, em princípio, como um objetivo de vida.

Ingres, por exemplo. Um dos seus quadros mais famosos é “A Banhista”, uma mulher seminua, de costas, sentada na beira de uma cama. O surrealista Man Ray criou uma foto retocada intitulada “O Violão de Ingres”, um brilhante trocadilho visual com tudo que comentei acima. (Ver em: http://angesetdemons.canalblog.com/images/violon_ingres.jpg. Ele mostra uma mulher nua, numa posição semelhante à da modelo de “A Banhista”, tendo desenhadas nas costas aquelas aberturas sinuosas em forma de “S” alongado que existem nos violinos, violoncelos e outros tipos de instrumentos de cordas, e que servem como uma espécie de guelras para a respiração sonora do instrumento. Um corpo em forma de violão; a mulher, a pintura, a fotografia e a música fundidas numa imagem única, onírica, absurda mas atraente, síntese inalcançável dos desejos contraditórios.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

1426) O que faz escrever (9.10.2007)




Todo escritor se depara de vez em quando com a obcecada pergunta: “O que o faz escrever? Ou seja, qual a sua principal motivação enquanto escritor?” 

Se fizéssemos a pergunta equivalente a um camioneiro, a um alpinista, a um político, a um médico, talvez encontrássemos algumas das respostas que os escritores nos dão. 

Assim como um camioneiro, um escritor gosta de tentar reunir o máximo de duas coisas antagônicas: liberdade e responsabilidade. Ele gosta dos grandes espaços abertos (do espírito, no seu caso), do desafio constante de ir a lugares onde nunca foi, da excitação de rever lugares onde passou muito tempo atrás, e durante todo o tempo sentir-se responsável por algo muito valioso que não lhe pertence (uma tradição literária) mas da qual ele é, naquele instante do seu trabalho, o único defensor e guardião.

Assim como um alpinista, o escritor é seduzido pela possibilidade de ser O Maior, de atingir alturas que os seres humanos comuns nunca alcançaram. Ele sabe que quanto mais sobe mais seu raciocínio fica inebriado pelo ar rarefeito; que corre o risco de morrer de solidão e de frio; que um passo em falso pode precipitá-lo no abismo. Mas ele sempre acredita que pode dar mais um passo, ou seja, que pode escrever mais uma página. 

Um político dirá que tem uma responsabilidade para com um grupo de pessoas que acreditam nele, acreditam na sua capacidade de fazer coisas importantes e de melhorar o mundo. Pouco importa se o mundo tem sido muito pouco melhorado, seja por políticos, seja por escritores. O importante é achar que, se há ainda muita coisa a ser feita, nada melhor do que alguém candidatar-se a fazê-la.

Enfim: cada profissional tem razões múltiplas para fazer o que faz, mas ao que parece é apenas aos escritores que se faz essa pergunta. Parece que seguir qualquer profissão é algo óbvio, cuja necessidade não precisa ser explicada, mas ser escritor é uma missão misteriosa, desnecessária e que deve ser justificada tintim-por-tintim..

Talvez a melhor resposta, para qualquer profissão, seja: faço isto por que gosto, e porque é o que sei fazer melhor. Jogadores de futebol dizem isto o tempo inteiro: “Sou um sujeito de sorte, porque me pagam um bom salário para que eu faça a coisa que mais gosto”. Ninguém pergunta a um jogador por que motivo ele joga. Pressupomos que ele descobriu em si mesmo aquela habilidade, e que não viu motivo para se dedicar a outra coisa.

Com um escritor dá-se o mesmo. Ele descobriu muito cedo que 1) gosta daquilo; 2) sabe fazer aquilo bem; 3) vê naquilo a possibilidade de juntar duas coisas importantes, o útil e o agradável, ou seja, uma profissão que lhe dê sustento e uma atividade prazerosa que lhe dê algum tipo de realização pessoal. 

Escritores, no entanto, criam para si mesmo a imagem de alguém que sabe respostas secretas e bombásticas sobre as perguntas mais banais. Podem até saber, mas a resposta que melhor os explica é esta aqui acima, a mais banal de todas.






sábado, 29 de março de 2008

0326) Profissionalismo (6.4.2004)


(A escola no ano 2000 - gravura francesa)

Antigamente as pessoas aprendiam a fazer fazendo. Entrava-se numa profissão porque o pai e o avô já faziam aquilo, de modo que o futuro fazedor daquilo crescia num ambiente saturado de informação, motivação, vivência. Outras vezes, descobria-se precocemente num garoto um certo talento para alguma coisa (tocador de alaúde, ferreiro, domador de cavalos), e o garoto promissor era encaminhado a um Mestre no ofício, que tornava-se uma espécie de segundo pai e ensinador de tudo. Ou então o sujeito era forçado a trabalhar para manter a família, e não escolhia vocação: pegava o que aparecia, e aprendia o ofício na dura lei do dia-a-dia, da tentativa-e-erro.

Isso, no entanto, era em 1900-e-cocada. Hoje em dia, inventou-se uma palavra mágica: o Curso. Tem curso para tudo no mundo, a maioria deles nas universidades particulares, que brotam no solo brasileiro mais rapidamente do que as favelas. Não nego que a idéia por trás dos cursos universitários seja uma boa idéia. De boas idéias está cheio o mundo e a escalação da Seleção. Resta ver o que acontece na prática. Em teoria, o candidato a aprendiz iria passar 4 ou 5 anos de sua vida estudando, de forma concentrada e intensiva, tudo que dissesse respeito à sua futura profissão. Uma lavagem cerebral do-Bem. Quando saísse dali, estaria pronto para arregaçar as mangas e atender a clientela. Mas deve ter um bug qualquer no meio do processo, porque o Brasil está cheio de administradores que não sabem administrar, advogados que não advogam, filósofos que jamais filosofarão. Pode ser um problema de mercado de trabalho; mas pode ser o fato de que em algum trecho do processo a intenção se perdeu, e o cara não passa de um leigo com diploma.

Hoje em dia, todo futuro artista diz aos jornais: “Eu pretendo seguir a carreira artística, e já me inscrevi em cursos de Dicção, Empostação da Voz, Interpretação, Canto, Dança e Mímica.” Tem curso para tudo. E o jovem artista acredita, com toda a sinceridade dos verdes anos, que basta fazer um curso para ficar sabendo tudo que os outros sabem. Que me perdoem os jovens, mas eu acho que estão latindo na árvore errada. Eles acham que passar alguns meses ou anos cochilando na última fila de um cursinho é uma maneira prática de adquirir conhecimentos.

Eu ainda acho que futebol se aprende no campo, jornalismo na redação, música no palco e natação na água. Não sou contra os cursos e as escolas: sou contra a idéia simplória de que quem fêz um curso sabe mais da profissão do que quem não o fêz. Tem meia dúzia de profissões (Medicina, Odontologia, Engenharia, etc.) onde vai ser muito difícil o sujeito ser um autodidata competente, mas estas são as exceções, não a regra. Criou-se no mundo uma idéia de profissionalismo que não passa de um corporativismo disfarçado. O verdadeiro profissionalismo é o que valoriza o exercício competente da profissão, no universo da própria profissão, independentemente de como a profissão foi aprendida.