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sábado, 23 de março de 2013

3141) Dez anos (23.3.2013)





Não sou de comemorar datas. Nem mesmo meu aniversário eu comemoro. Prefiro comemorar façanhas: o lançamento de um livro, por exemplo. Aí, sim tenho a sensação de estar celebrando uma coisa concreta, real, e não uma simples coincidência aritmética. No presente caso, entretanto, acho que vale comemorar, porque as duas coisas estão juntas.

Hoje, 23 de março de 2013, completo dez anos como titular desta coluna no “Jornal da Paraíba”, para onde fui trazido, pela ordem de conversa, por Rômulo Azevedo, Luiz Carlos de Souza e Guilherme Lima. Orgulho-me de afirmar que, como bom jornalista, não faltei um dia sequer, e este é o artigo de número 3.141 (tenho todos devidamente salvos e com back-up). Além do mais, todos estão disponíveis no meu blog Mundo Fantasmo (http://mundofantasmo.blogspot.com), onde procuro postá-los diariamente, para quem se interessar. Duas coletâneas deles já foram publicadas: “A Nuvem de Hoje” (Editora Latus/UEPB, Campina Grande, 2011) e “A Arte de Olhar Diferente” (Ed. Hedra, São Paulo 2012).

Ao longo deste tempo o jornal passou por algumas reformas gráficas, e a partir de setembro de 2011 o tamanho máximo da coluna, que era de 3.000 caracteres com espaços, foi reduzido para 2.680.  De início chiei, porque para mim é mais fácil escrever muito do que escrever pouco; mas a gente se acostuma, quando tem que fazer algo todo dia. O que mais me incomodou foi o limite máximo de 21 caracteres para o título, porque muitas vezes não cabe o nome inteiro do filme ou do livro que a gente está comentando.

Me perguntam sempre: Como é que você consegue escrever um artigo por dia? Respondo dizendo que jornal é assim, tem que escrever, esteja inspirado ou não, esteja com boas idéias ou não. Às vezes a gente passa uma semana sem idéias, mas escreve. Às vezes tem seis idéias geniais antes do café da manhã, e nesse caso o melhor que faz é escrever logo todas seis e ficar com a semana pronta.

Agradeço aos leitores fiéis que acompanham esta coluna desde que ela começou, e aos outros que ganhei através do blog. Nem tudo que escrevo interessa ou agrada a todo mundo, e é bom que seja assim, para a gente não ficar esperando somente a aprovação, a concordância, o elogio. Quando eles vêm, são bem vindos e preciosos. Mas a gente não escreve para agradar, escreve para interferir, para provocar, para compartilhar, para prevenir. Escreve para deixar registrada uma informação que será importante daqui a mais dez ou vinte anos. Alguns escritores passam a vida redigindo um “Diário Íntimo”. Eu acho que vale mais a pena escrever um “Diário Público”, discutindo o que interessa a muita gente – ou pelo menos a intenção é esta.



quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

1576) Blog “Mundo Fantasmo” (1.4.2008)




Meus treze leitores reclamam de vez em quando que estes meus artigos são impossíveis de consultar, a menos que o cidadão se disponha a recortá-los diariamente com tesoura e guardá-los numa pasta. Coisa que nem mesmo eu consigo fazer. Tenho tudo no computador, numerado, datado, direitinho. Quando preciso encontrar alguma coisa, abro o Arquivo Geral e dou um comando de busca; em geral não me custa mais do que cinco minutos para achar um artigo específico.

Já me cobraram a publicação destes textos em livro, mas não sei se seria uma boa idéia. Quem compraria, fora aqueles treze apóstolos? Adquiri há pouco pela Internet o volume dos Essays and Reviews de Edgar Allan Poe, reunindo toda sua produção eventual na imprensa. É uma quantidade assombrosa de texto. São 1.544 páginas, escritas com pena e tinteiro à luz de lamparinas, por um cara que, além disso, produziu quase o mesmo tanto de laudas com contos e poemas que estão entre os melhores do mundo, e morreu aos 40 anos. Como levo uma vida bem mais cômoda do que a de Edgar, já estou com cerca de 1.570 artigos aqui no JPB. Poe acha (e merece) quem compre o calhamaço dele, mas eu não preciso correr o mesmo risco.

Vai daí, aproveitando as facilidades da cultura digital, comunico aos meus treze leitores diários, bem como aos eventuais, que dei início à publicação digital de todos estes artigos no JPB. Publicar não significa apenas imprimir num livro, mas tornar público e acessível a qualquer interessado. Caso o leitor seja um deles, recomendo-lhe dirigir seu Explorer ou equivalente para este endereço: http://mundofantasmo.blogspot.com/.

Não tem tudo, ainda, porque isso dá trabalho e eu não posso pagar alguém para fazê-lo. Sou o meu próprio secretário, meu próprio office-boy, meu próprio telefonista. Até esta semana, postei mais de 300 artigos que cobrem desde o meu dia de estréia aqui no jornal (23 de março de 2003) até abril de 2004. A grande vantagem do Blog é a possibilidade de pesquisar por um assunto específico. No fim de cada artigo coloco os marcadores que me parecem mais apropriados, sobre os temas que o artigo aborda ou cita de passagem. Este artigo aqui, por exemplo, provavelmente terá como marcadores “jornalismo”, “cultura digital”, “Paraíba”, “Edgar Allan Poe”.

Além disso, o leitor tem um espaço de busca (junto ao botão “Pesquisar blog”) onde ele pode pedir um tema específico (“ficção científica”, “forró”, etc.), um nome próprio (“Borges”, “Dylan”, etc.), ou palavras aleatórias. Com isto espero ir aos poucos atendendo aqueles leitores que me mandam email pedindo um artigo saído há anos sobre um tema qualquer. Por outro lado, o título de cada coluna traz a data original de publicação, portanto quem quiser citá-lo em artigos acadêmicos já tem a data de mão beijada. Fiquem à vontade para visitar meu blog, que irei abastecendo aos poucos durante este ano. Divulguem! E mais uma vez agradeço a leitura e a atenção de todos.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

0757) Eu blogo, tu blogas (21.8.2005)



O caro leitor ou a cara leitora tem um blog na Internet, ou já teve? Então está devendo um dólar a Jorn Barger, e se cada um desses numerosos devedores comparecesse na caixinha quebraria o maior galho para esse sujeito que é mais um dos heróis anônimos do ciberespaço. Já falei aqui nos blogs (“Blog”, 17.2.2005) e já homenageei Scott Fahlman, o cara que inventou o emoticon, aquela carinha engraçada tipo :-) feita com sinais de pontuação (“Os emoticons”, 15.8.2003). Pois agora quero tirar um chapéu metafórico para o sujeito que inventou a palavra “weblog” para esta mistura de diário íntimo e manifesto público, de caderneta de anotações e de discurso-numa-caixa-de-sabão no meio da praça, este sucedâneo da poesia mimeógrafo, do jornal mural e da carta pros amigos.

Barger tinha uma página na World Wide Web, “a rede do tamanho do mundo”, intitulada “Robot Wisdom”, onde ele colocava todas as coisas interessantes que achava na Internet, onde garimpava o dia inteiro. Isto era no final de 1997, e o título da página era “Robot Wisdom WebLog”. Vejam a colocação da maiúscula: ela indica que se trata de uma palavra composta de “web + log”, sendo que “log” significa diário, livro de anotações periódicas. Coube a Peter Merholz, em 1999, quebrar a palavra de maneira diferente: “we + blog”, criando um verbo novo: “nós blogamos”. Blogar virou sinônimo de manter uma página da Web onde o titular “posta” (verbo típico do jargão dos blogueiros) textos periodicamente, às vezes todos os dias e até várias vezes por dia, o que dá aos blogs adolescentes essa equivalência aos diários ou agendas onde registram suas emoções e os fatos do seu cotidiano. Um blog, tipicamente, permite a colagem de fotos e ilustrações, permite que se coloquem links para outras páginas da Web, e permite também que os leitores postem os seus comentários a qualquer material incluído no blog, os quais podem ser lidos por todo mundo. Um blog é um empreendimento pessoal, mas interativo.

Jorn Barger ainda mantém o seu “Robot Wisdom”, que pode ser acessado em: http://www.robotwisdom.com/ . Ele não é de postar comentários longos, e seu blog hoje é uma infindável coleção de links com descrições breves. Barger é um típico nerd da geração Internet (hmmm, acho que acabei de inventar uma palavra nova, “internerd”). Leitor de filosofia, de misticismo oriental, de James Joyce e de informática, sempre teve um problema danado com essa coisa irritante que é ganhar dinheiro (“mon semblable, mon frère!”). Bateu cabeça pra lá e pra cá, e meses atrás um jornalista o encontrou na rua com um cartaz: “Inventei a palavra blog e nunca ganhei um centavo”. Morava na casa de amigos, e sobrevivia com um dólar diário. Vamos, pessoal. Nós todos que usamos estes troços não ficamos comprando produtos da Microsoft? Vamos mandar um dólar para Jorn Barger. Alguma coisa me diz que estamos financiando a América errada.

terça-feira, 14 de outubro de 2008

0598) Blogs (17.2.2005)




Eu estava conversando com um grupo de amigos quando falei que tinha lido não-sei-o-que num blog, aí uma amiga minha disse: “Eu não acredito que você perde o seu tempo lendo essas coisas de menininhas adolescentes.” Eu falei: “Não, é um blog dum jornalista.” E outro falou; “Pois deve ser um jornalista muito desocupado – o cara tem tempo de fazer blog!” Isto tudo revela o tipo de preconceito de muita gente que ouve o galo cantar mas não sabe onde. Embora eu reconheça que existem hoje milhões de garotinhas adolescentes que fazem blogs para falar da briga que tiveram com o namorado, ou da sandália nova que compraram, ou do garoto com quem pretendem “ficar” na próxima festa.

Esses blogs na Internet estão substituindo aquelas agendas (cheias de adesivos, escritas com hidrocor); estão substituindo também os famosos livrinhos “Meu Diário” que tantas mocinhas já cultivaram, aqueles com uma fechadurazinha que qualquer mãe mais traquejada abre com um “biliro”. Mas é um grande erro imaginar que blog é apenas isto. Existem blogs literários onde escritores e críticos comentam livros. Existem blogs eróticos onde pessoas anônimas contam suas atividades e fantasias sexuais com um detalhismo que faria Henry Miller e Pierre Louys parecerem escritores evangélicos. Existem blogs feitos por escritores de ficção científica onde se debatem as possibilidades de novas engenhocas eletrônicas ou teorias cosmológicas. E assim por diante.

Em 4 milhões de blogs pesquisados recentemente, mais de 60% pertenciam a mulheres. A revista Time chamou o blog de “um quarto só seu no século 21”, aludindo ao livro de Virginia Woolf A Room of One´s Own, em que ela defende o direitos das mulheres de terem um aposento para ler, pensar, escrever, longe do tumulto doméstico e familiar. A Internet possibilita colocar um texto à disposição de milhões de pessoas. A tecnologia da maioria dos portais que oferecem blogs é rápida e sem mistérios. Qualquer dona-de-casa que saiba mandar um email consegue achar um tempinho para sentar ao teclado, digitar por meia hora, dar um clique, e fazer com que seus desabafos ou seus devaneios fiquem expostos nos muros da cidade virtual, à disposição de quem por ali navega.

Blogs pessoais estabelecem um hibridismo curioso entre o íntimo e o público. Eu fico estarrecido com o grau de franqueza e de auto-revelação que vejo em alguns blogs. Maridos ou esposas confessam nos menores detalhes suas brigas domésticas, suas separações, seus conflitos. Homens ou mulheres contam nos mínimos detalhes as práticas sexuais pouco ortodoxas a que se entregam com seus parceiros, ou com gente anônima pegada na rua. Basta olhar o cabeçalho, no entanto, para perceber que esses “diários públicos” continuam íntimos e privados, porque não se sabe o nome do autor (é sempre um pseudônimo), e, se ele não quiser, nem sequer o país de onde ele escreve. É o máximo de exibicionismo unido ao máximo de privacidade: o melhor de dois mundos.

sexta-feira, 7 de março de 2008

0011) Guerra com testemunhas (4.4.2003)

A televisão dá as últimas notícias e os primeiros comentários sobre a guerra, mas sou dos que crêem que catástrofes desse tipo só são entendidas dez anos depois. Enquanto isto, há saites da Internet que remetem a diferentes jornais, revistas e pontos de vista. O saite www.observatoriodaimprensa.com.br, atualizado às quartas-feiras, sempre traz uma grande variedade de articulistas. Os saites de nossas revistas semanais (http://revistaepoca.globo.com, www.zaz.com.br/istoe e http://vejaonline.abril.com.br) permitem comparar rapidamente a substância das reportagens e artigos, antes de passar na banca.

Na imprensa de fora, pode-se examinar as manchetes e os ensaios do New York Times (www.nytimes.com) e do britânico The Independent (www.independent.co.uk). As revistas eletrônicas Slate (http://slate.msn.com) e Salon (www.salon.com/index.html) sempre trazem material útil, a maior parte com acesso gratuito. Para quem quiser ter acesso a pontos-de-vista do lado oriental, um ponto de partida pode ser o saite www.arabnews.com, da Arábia Saudita, em doses proporcionais às do tradicional www.cnn.com, para equilibrar os pratos da balança.

O saite www.antiwar.com (“um saite dedicado à causa do não-intervencionismo, frequentado por libertários, pacifistas, esquerdistas, verdes, e independentes, bem como por pessoas de direita que mesmo assim concordam com suas idéias sobre o imperialismo”) tem links para artigos que analisam a política externa dos EUA, em jornais e revistas do mundo inteiro.

Um saite indiretamente ligado à Guerra do Iraque é www.terrorismanswers.com/home, mantido pelo Council of Foreign Relations, que publica a conhecida revista “Foreign Affairs”. O governo Bush nos tem sugerido que o Iraque estava envolvido nos atentados de 11 de setembro (isso nunca foi provado). Como a presente invasão se dá num contexto que inclui o terrorismo internacional, pode-se encontrar neste saite respostas rápidas e claras sobre aspectos ligados ao terrorismo: armas, filosofia, legislação, táticas, etc.

Para os que se interessam por tática e estratégia militar, há um blog (diário online) de um jornalista e ex-oficial do exército norte-americano, Phil Carter, em http://philcarter.blogspot.com. Carter analisa o lado militar do conflito, com a ajuda de colegas que contribuem com suas próprias informações. (Todo pretendente a pacifista deveria conviver civilmente com os argumentos das pessoas para quem a missão de um soldado é obedecer aos seus comandantes e à sua pátria, sem questionar se a guerra é justa ou não. Soldados têm um código de honra e de ética, e é um erro supor que são apenas fanáticos, robôs ou gente que gosta de matar gente. O mundo é mais complexo do que isto.)