Mesmo depois de abolida a escravidãoNegra é a mão de quem faz a limpezaLavando a roupa encardida, esfregando o chãoNegra é a mão, é a mão da purezaNegra é a vida consumida ao pé do fogãoNegra é a mão nos preparando a mesaLimpando as manchas do mundo com água e sabãoNegra é a mão de imaculada nobreza.
https://www.youtube.com/watch?v=3nId4SUxlns
Dias Perfeitos
me trouxe à memória outro filme recente, Paterson
(2016) de Jim Jarmusch, um cineasta com mais de um ponto em comum com Wenders.
O filme tem um protagonista parecido, um motorista de ônibus que lê Emily
Dickinson e William Carlos Williams, e escreve poesia nas horas vagas. A poesia
é um fio que une pessoas distantes: há uma cena em que o motorista encontra um
japonês, leitor de Williams, que veio conhecer a cidade sobre a qual ele
escreveu.
Harayama, no filme de Wenders, lê obras de William
Faulkner e Patricia Highsmith; e ouve rock antigo em fitas cassete. Fitas
cassete, no universo de Wim Wenders, são pequenos talismãs, pequenos objetos
mágicos, e deve ser por isso que o diretor faz um discreto cameo na cena da loja de fitas.
No filme Kings of
the Road (“Im Lauf der Zeit”, 1976), um personagem começa a cantarolar um blues de Robert Johnson e o outro
comenta: “Os ianques colonizaram nosso
inconsciente”. A música dos EUA é outro fio que costura quase todos os
filmes de Wim Wenders e estabelece uma “frequência de onda” aproximando pessoas
de universos afastados.
Harayama ouve suas fitas de rock enquanto dirige, e a câmera
fecha em seu rosto, mostrando o minimalismo de suas reações. E como a cena se
demora, comecei a pensar nesse impacto do repertório musical (que é
visivelmente o da memória afetiva de Wim Wenders).
A música cria uma espécie de canal telepático entre nós e
o personagem. Se eu estou olhando o rosto do ator enquanto ele escuta um pop japonês qualquer, eu o observo à
distância, com uma espécie de simpatia antropológica. Dou um crédito de
confiança ao filme, e admito que aquilo deve ter uma ressonância qualquer
naquele sujeito antípoda.
No entanto, quando a música que aparece é a voz de Patti
Smith cantando “Redondo Beach” ou a de Van Morrison cantando “Brown Eyed Girl”,
a cena muda 100%, porque através desse canal de memória compartilhada eu sinto
esse personagem muito próximo, muito na minha frequência de onda. A imagem é a
mesma, mas por uma espécie de “Efeito Kulechov sonoro”, o significado da imagem
é totalmente condicionado e definido pela música.
Para um instante da vida ser diferente, basta estar
tocando outra música.
(KOMOREBI: é a
palavra em japonês para o tremeluzir de luzes e sombras criado pelas folhagem
que se agita ao vento; existe uma vez apenas, e naquele instante)


