Estava na minha mira há muitos anos Em Busca do Absoluto (1834) de Honoré de Balzac. Eu imaginava, de início, que se tratava de um alquimista em busca da Pedra Filosofal. Outros comentários, depois, me alertaram para o fato de que não era isso: era o relato de uma aventura científica nos primórdios da ciência experimental moderna.
Numa tarde de sábado no final de agosto do ano de 1812, uma mulher estava sentada numa ampla poltrona, junto a uma das janelas que davam para o jardim. (Cap. I, trad. BT)
Mas antes de passar à descrição dessa casa, talvez não seja desnecessário introduzir aqui, em defesa do autor, um protesto em favor dessas preliminares didáticas pelas quais o leitor ignorante e impaciente manifesta tmanho desagrado. Há pessoas que anseiam por sensações, mas não têm a paciência necessária para submeter-se às influências que as produzem; pessoas que prefeririam ter flores sem precisar de sementes, e crianças sem necessidade da gestação. A arte parece consistir, para elas, em produzir o que a natureza não pode. (Cap. I)
A matéria inorgânica consiste em cinquenta e três elementos simples, e todos os seus produtos são formados pelas várias combinações entre eles. Será possível que os elementos constitutivos sejam mais numerosos, quando os resultados variam tão pouco? Meu mestre afirmava a existência de um elemento único, comum a todos esses cinquenta e três corpos; e que uma força desconhecida, que não está mais em ação, produziu essas modificações aparentes; essa força, dizia ele, poderia ser descoberta e novamente aplicada, pelo engenho humano. (...) Assim, posso deduzir a existência do Absoluto! Um único Elemento, comum a todas as substâncias, modificado por uma única Força – esta é a conceituação mais simples possível do problema do Absoluto, um problema que, a meu ver, pode ser resolvido pela inteligência humana. (Cap. VI)
Um materialismo altamente refinado é o traço mais distintivo da vida dos flamengos. (...) No temperamento desse povo encontram-se duas das principais condições para o cultivo da arte: a paciência, e essa capacidade de suportar o sofrimento, necessária para que a obra do artista possa prosperar. (...) É inútil esperar, desta região de elevada poesia, alguma verve para a comédia, para a ação dramática, para o gênio musical, para os voos mais audaciosos da poesia épica e da ode; ele se inclina muito mais para a ciência experimental, para as polêmicas prolongadas, para os trabalhos que exigem tempo e que têm cheiro de lâmpada a óleo. Todas as suas pesquisas são de natureza prática, e devem conduzir necessariamente ao bem-estar físico. (Cap. I)
O vício e o gênio produzem resultados tão semelhantes que as pessoas comuns costumam confundi-los. O que é o gênio, senão um tipo de excesso que consome tempo, dinheiro, saúde, energia física? É um caminho para o hospital ainda mais curto do que o do perdulário. A humanidade, além disso, parece ter mais respeito para com o vício do que para com o gênio, porque nega-se a dar a este o devido crédito, ou confiança. É de se pensar que o indivíduo de gênio estabelece para si mesmo objetivos tão remotos que a sociedade se recusa a levá-los em conta durante seu tempo de vida; e vê aquela pobreza e desgraça pessoal como algo imperdoável. A sociedade não quer de forma alguma ter algo a ver com um gênio. (Cap. II)
O maior encanto da mulher consiste em um apelo constante à generosidade do homem, no reconhecimento gracioso de sua própria condição indefesa, que estimula nele o orgulho masculino e desperta seus sentimentos mais nobres. (Cap. VI)








