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sexta-feira, 15 de setembro de 2023

4982) Minhas Canções: "Meu Foguete Brasileiro" (15.9.2023)


Desde a adolescência eu vivo mergulhado em dois mundos aparentemente distantes, o da música popular brasileira e o da ficção científica. Primeiro como leitor e ouvinte, e depois como autor.

Muita gente me pergunta o que tem uma coisa a ver com a outra, e uma resposta que já forneci foi um artigo publicado na saudosa revista Isaac Asimov Magazine (Ed. Record), em que mostro como diferentes compositores da MPB (e do rock brasileiro, também) trataram os temas da FC. Temos Gilberto Gil (para mim o mais consistente e de cabeça mais “ficcientífica”), Raul Seixas, Caetano Veloso, Fausto Fawcett... Muita gente.

Temos a tendência a definir um gênero literário (cinematográfico, musical, etc.) a partir dos exemplos que conhecemos, e curiosamente às vezes tentamos atribuir ao gênero certas características das obras, que não são, em absoluto, típicas do gênero, e podem ser deixadas de lado.

Meu exemplo preferido é de quando me pediram um exemplo do ghost story brasileira e eu mencionei Dona Flor e Seus Dois Maridos de Jorge Amado, história de um morto que volta para fazer vadiagem com a própria viúva. Meu interlocutor queixou-se: “Mas isso não é uma ghost story... Não tem castelo em ruínas, não tem abadia gótica, não tem aparição noturna arrastando correntes...” 

Passei por experiência semelhante ao falar de músicas brasileiras de ficção científica e citar o clássico Eu Vou Pra Lua, gravado por Ari Lôbo: “Eu vou pra Lua, eu vou morar lá... Vou no meu Sputnik, do campo do Jiquiá”. O campo do Jiquiá ficava no Recife; era o lugar onde os zepelins ficavam atracados no auge da fama desses dirigíveis. A canção descreve uma ida para a Lua e lá o encontro com uma civilização que é uma versão satírica da nossa. Por que não pode ser ficção científica?

É o mesmo argumento que uso para defender esta minha simpática parceria com Antonio Nóbrega, “Meu Foguete Brasileiro” (no álbum Lunário Perpétuo, 2002). Na preparação do álbum, tínhamos feito um levantamento de temas e de estilos que podíamos abordar. Pensamos em fazer alguma coisa inspiradas nos cocos de embolada, e eu lembrei uma antiga canção de Manoel Serafim gravada por nossos amigos Cachimbinho e Geraldo Mousinho, “O Navio Brasileiro”, que tem o refrão:

Meu navio deu um tombo

que a proa abalou,

o mastro pendeu e tombou

lá no alto mar...



 

Confiram aqui a gravação:

https://www.youtube.com/watch?v=F1-yjP3hGiE&ab_channel=AcervoOrigens

 

É a descrição de um navio gigantesco, portentoso, que dentro de si contém máquinas fabulosas, edifícios, fazendas de gado, campos lavrados, residências, um despropósito de coisas de fazer inveja àquelas grandes embarcações dos EUA com não-sei-quantos andares, que fazem cruzeiro pelo Mar do Caribe.

O coco de Cachimbinho e Geraldo segue uma tradição, cujo antecessor mais provável é “O Avião Brasileiro” dos saudosos Antonio da Mulatinha e Dedé da Mulatinha, que vi cantar muitas vezes em Campina Grande. A professora Elizabeth Travassos (UFRJ) faz uma transcrição e análise do coco dos dois irmãos campinenses num artigo incluído em Ao Encontro da Palavra Cantada, org. Cláudia Neiva de Matos, Elizabeth Travassos e Fernanda Teixeira de Medeiros (Rio: 7Letras, 2006). 


Como os poetas já tinham lançado mão de avião e navio, só nos restou apelar para o foguete interplanetário, e acho que veio de Nóbrega a idéia de, em vez de usar o verso curto da embolada, usarmos o verso longo do “galope beira mar”. E logo veio o recurso de trocar o refrão final desse estilo (“cantando galope na beira do mar”) por “cantando galope e voando no ar”, visto que se tratava de uma espaçonave.

E fomos em frente, enfileirando situações utópicas e divertidas, na descrição desta super-espaçonave brasileira que sairia pelos arrabaldes do Sistema Solar, encontrando outros povos, fazendo trocas comerciais, desbravando novas paisagens.

É ficção científica? É, sim, mas em vez da ficção científica ufanista, desbravadora e colonialista (“a missão do Homem é civilizar o universo”) é uma ficção científica brincalhona, irônica, meio ingênua em suas imagens e meio madura ao lidar com essa própria ingenuidade.


 

MEU FOGUETE BRASILEIRO

(BT & Antonio Nóbrega – março-abril 2002)

 

https://www.youtube.com/watch?v=jHr3iojbb_s&ab_channel=AntonioN%C3%B3brega-Topic

 

1

Eu fiz um foguete de andar pelo espaço

igual um que eu vi pela televisão:

não sei se era coisa da França ou Japão

mas basta ver gringo fazer eu já faço!...

Mandei buscar logo cem chapas de aço,

latão, alumínio, ferro de soldar;

dez mil arrebites para reforçar

a parte de fora da infra-estrutura:

cem metros de longo, trinta de largura,

e dez de galope voando no ar.

 

2

Por dentro o foguete tem compartimentos:

setor de serviço, cabine da frente,

motor titular e o sobressalente

e pra equipagem mil apartamentos.

Canhões telescópicos mais de duzentos,

castelo de proa, sensor e sonar;

torre de comando, luneta, radar,

produto avançado da tecnologia:

pretendo acabá-lo e sair qualquer dia

cantando galope e voando no ar!...

 

3

Botei no foguete diversas antenas

para captar raios infra-vermelhos.

Na parte de cima um sistema de espelhos

que amplia as imagens de estrelas pequenas.

Motores na popa que servem apenas

pra tudo aquecer, e pra refrigerar.

Movidos a pura energia solar

tem computadores, TVs virtuais:

mil inteligências artificiais

que cantam galope, voando no ar!

 

4

Maior do que tudo é a parte cargueira

que leva produtos de exportação:

tem saca de açúcar, tonel de carvão,

baú de café, tora de madeira.

Tem pano de lenço, tem palha de esteira,

xampu, querosene, bebida de bar,

rede de dormir, colchão de deitar,

cueca de seda, calcinha de renda...

Achando quem compre, não tem quem não venda,

cantando galope e voando no ar!

 

5

Na parte de cima da carga pesada

tem carro, trator, “caterpilha”, caçamba,

tem alegoria de Escola de Samba,

carro de bombeiro, mangueira e escada.

Tem locomotiva recém-fabricada

e tem ponte pênsil pronta pra instalar;

tem ônibus-leito, tanque militar,

caixão de defunto, navio de guerra...

Um pouco de tudo que existe na Terra,

cantando galope e voando no ar!

 

6

Merece destaque o setor do varejo,

com mercadorias de boa saída:

barraca de praia, caixa de bebida,

ganzá, cavaquinho, tantã, realejo...

Lagosta, siri, corda de caranguejo,

tem carne de sol e tem frutos do mar;

cordão de ceroula, produtos do lar,

catálogo novo, preço de primeira:

daqui do país, só não vendo a bandeira

que vai hasteada, voando no ar...

 

7

Depois que enchi os porões do foguete

com mil toneladas de mercadoria

pensei que de nada adiantaria

trancar-me sozinho nesse palacete.

Não sou sacerdote, nem sou um cadete,

não sou da igreja nem sou militar...

Sou só um poeta doidim pra casar

ganhar cafuné, um cheiro, um carinho...

O diabo é quem sai viajando sozinho

cantando galope, e voando no ar!

 

8

Olhei sem demora os mapas solares

dos meus alfarrábios de Astrologia

e vi que de fato eu precisaria

de ter companhia nos céus estelares.

Eu que planejava sair pelos ares

buscando planetas pra colonizar,

somente podia vir a povoar

os mundos distantes, sem ter empecilhos,

com muitas mulheres me enchendo de filhos,

cantando galope, e voando no ar...

 

9

Ainda por cima, era necessário

por uma bem simples questão de harmonia

que as raças humanas que eu espalharia

surgissem de modo bem igualitário.

Fiz logo um harém multi-milionário

nos seis continentes mandei contratar

as deusas mais belas que pude encontrar

e fiz delas todas as minhas mulheres:

café da manhã com seiscentos talheres,

cantando galope e voando no ar!

 

10

Criei no foguete diversos setores:

indústria, comércio, serviços, lazer.

Fazendas de soja pra dar de comer

aos meus tripulantes e navegadores.

Conjuntos de vilas pros trabalhadores,

e até “piscinão” com água do mar;

meu grande foguete é obra sem par

maior do que a China, melhor que o Japão;

tão belo de ver que parece o Sertão,

cantando galope e voando no ar!

 

11

Depois eu sentei no meu tamborete

puxei a lavanca, pisei no pedal,

subi pro espaço com força total

fazendo tremer o motor do foguete.

Passei bem por cima do Empire State,

da Torre Eiffel, Monte Palomar;

e vi pela tela se distanciar

a mancha azulada do nosso planeta...

Pensei: “Minha Nossa!  Aqui vai Tonheta,

cantando galope e voando no ar!...”

 

12

Fiz logo uma escala no chão marciano

vendi rapadura, comprei tungstênio,

enchi os meus tanques de oxigênio,

parti outra vez no começo do ano.

Passei por Saturno, passei por Urano,

cheguei lá no fim do Sistema Solar;

desci em Plutão, tomei banho de mar,

botei gasolina comum e azul,

segui com destino ao Cruzeiro do Sul

cantando galope e voando no ar!

 

13

Foi tanta viagem, foi tanta aventura,

foi tanta Demanda, foi tanta Odisséia...

Eu posso jurar à distinta platéia

que tudo isso foi a verdade mais pura.

Também teve um pouco de literatura,

história inventada para relaxar;

mas eu que não minto não quero falar

e o resto eu só conto aqui pra você

no próximo show, ou em outro CD,

cantando galope e voando no ar!

 

 

 

 

 




sexta-feira, 18 de março de 2022

4804) Minhas canções: "A Viagem Maravilhosa" (18.3.2022)




Canções que misturam música e teatro têm que ser, por um lado, canções independentes, autônomas. E, por outro lado, precisam ser fragmentos de uma obra maior.
 
Quem conhece bem o musical clássico, os grandes musicais do teatro e do cinema, escritos por gente como Cole Porter, Irving Berlin, George & Ira Gershwin, Richard Rodgers e Oscar Hammerstein – e tantos outros, sabe que essa forma é uma espécie de popularização do formato da ópera. E que as canções nunca são desvinculadas da história que se conta.
 
O trabalho de Antonio Nóbrega, meu parceiro há tantos anos, vem de uma tradição diferente, a tradição ibérica que no Brasil se popularizou através de espetáculos de rua como o teatro de mamulengos, os entremezes cômicos, etc. E o trabalho artístico de Nóbrega, que até certa altura era uma espécie de “teatro com música” (peças teatrais contendo canções, como as nossas Brincante e Segundas Estórias) acabou evoluindo para uma “música com teatro”, shows basicamente de canções, entremeadas por pequenos esquetes.
 
No ano de 2000, Nóbrega montou o espetáculo O Marco do Meio-Dia, e uma de suas idéias era fazer a certa altura o personagem Tonheta viajar pelo Brasil, mostrando diferentes paisagens e vivendo diferentes aventuras. Tudo muito resumido e compactado, é claro, para caber no espaço de uma canção.
 
E ao mesmo tempo não podia ser apenas um roteiro turístico mostrando uns lugares bonitos que todo mundo já sabe quais são. Seria uma viagem geográfica, mas mais do que isso seria uma viagem pela História do Brasil. Com brincadeiras, com poesia, com dança, com cavalo marinho... E (sugeriu Nóbrega) o nosso costumeiro interlúdio rabelaisiano, em que o insaciável Tonheta se dedica a devorar banquetes pantagruélicos e ceias gargantuescas.
 
Foi mais uma parceria a três, porque Wilson Freire (nosso habitual comparsa) mandava versos do Recife, eu mandava versos daqui do Rio, e por fim Nóbrega arrematava tudo lá em São Paulo, enquanto preparava o arranjo junto com a banda.
 
A Viagem Maravilhosa é um dos números mais divertidos daquele espetáculo, e é a nossa viagem sentimental por um Brasil cada vez mais distante e cada vez maior.
 
 
*************************
 
YouTube:
https://www.youtube.com/watch?v=jKcNp5n8sbk
 
 
A VIAGEM MARAVILHOSA
(Wilson Freire / Antonio Nóbrega / BT)
 
I
Nosso Brasil
(acompanhe a minha idéia)
foi Atlântida e Pangéia
um Sertão que já foi mar.
Já foi Rodínia
foi Panótia e Gonduana, 
era belo e bacana
antes de Cabral chegar.
 
Também foi ilha
do Brasil, de São Brandão,
Vera Cruz, nome cristão
trazido de além-mar.
Foi Pindorama
foi Terra de Santa Cruz
Papagális, meu Jesus,
depois de Cabral chegar.
 
Nosso país
tem tesouros, tem arcanos,
tem mais de 30 mil anos    
de histórias pra contar...
São trinta mil
em que o índio teve vez,
500 que o português
e o negro chegaram cá...  
 
Aí um dia,
eu sentado na cadeira
um estalo-de-Vieira
clareou a minha mente!
Eu percebi
que tinha de procurar,
descobrir e encarar
minha terra a minha gente.
 
E sem demora
minha burra eu selei
pus um cabresto e montei
pus espelho e um radar.
Pus uma bússola
astrolábio e luneta
diário, mapa e caneta
e falei: "Vou viajar!"
 
E mesmo antes
do sol, do cantar do galo
do sino bater badalo
eu saí pelo caminho...
Os cascos dela
velozes matraqueavam,
pareciam que estavam
tocando "Brasileirinho".  
 
Refrão (2x):
Cavalgar, cavalgar,
eu cavalguei.
No país dos brasileiros
conheci o mundo inteiro
e por ele eu passeei.
 
II
No meu galope
mais veloz que um corisco 
eu cruzei o São Francisco
mergulhei no Iguaçu.
Fui despertar
no sol da Zona da Mata  
vestido de ouro e prata
sambando maracatu.
 
Passei por todas
as ladeiras de Olinda,
e muita morena linda
inda se lembra de mim...
Cantei seresta,
tirei verso na ciranda,
toquei tuba numa banda,
na outra toquei flautim.
 
No meu caminho
enchi o Brasil de pernas
até chegar nas cavernas
da Gruta de Maquiné.
Voltei de lá
com um papiro na mão
trazendo a decifração
dos segredos de Sumé.
 
Eu vi xamãs
dominando tempestades,
cavando Sete Cidades,
separando Marajó...
Vi o profeta
puxando com sua cruz
cada órfão de Jesus
que cruzou Cocorobó...
 
Refrão (2x):
Cavalgar, cavalgar,
eu cavalguei.
No país dos brasileiros
conheci o mundo inteiro
e por ele eu passeei.
 
 
III
Fiz um almoço
lá no "Buraco da Jia"
começou ao meio-dia
terminou pela manhã;
cuscus com fava,
bode assado, dobradinha,
macaxeira com farinha,
codorniz e ribaçã.
 
Bolo de milho
marisco no vinagrete
feijoada com croquete
kitut e baião-de-dois...
Comi de tudo
sem pressa, sem me cansar,
só para me preparar
para o que vinha depois...
 
Arroz de polvo
risoto de camarão
maionese e macarrão
salpicão, frutos-do-mar.
Feijão macaça
galinha de cabidela
e um bife de panela
bem leve, pra descansar...
 
Um ensopado
de carne com batatinha,
feijão verde e farofinha,
sanduíche de peru.
Pra terminar
um conhaque, um cafezinho,
mais um cálice de vinho
e três doses de Pitu...
 
Refrão (2x):
Cavalgar, cavalgar,
eu cavalguei.
No país dos brasileiros
conheci o mundo inteiro
e por ele eu passeei.
 
IV
Porém um dia
eu cruzei em meu caminho
com um cavalo-marinho
que era gêmeo com o meu!
Puxei a rédea
fiquei olhando pra ele:
ele achou que eu era ele,
eu achei que ele era eu!
 
Nesse momento
mais um galope se ouviu
outro cavalo surgiu
passando perto da gente.  
Uma figura
semelhante e parecida
mas como tudo na vida
tinha algo diferente.
 
E mais dois outros
chegaram no mesmo instante
mas logo mais adiante
outro ainda apareceu!   
Eu que pensava
que era único no mundo
encontrei num só segundo
muitos outros como eu!
 
Saí puxando
a Cavalhada Marinha:
parecia idéia minha
parecia carnaval...
Fomos dançando
na ponte do arco-íris
e quando eu rodei o pires
apurei quase um real...
 
Eu virei noite
galopando esse país
de metrópoles febris
e esquecida imensidão.
Vi a coragem
de quem enfrentou a morte,
vi um vento lá do Norte,
vi a vela em minha mão...
 
Vi uma luz
branca, azul, aparecida
e uma mulher parecida
com aquela lá do céu...
Vi tantas luzes
que lembrá-las é revê-las,
tantas luas e estrelas
entre as rendas do seu véu...
 
E da mão dela
uma luz se projetava
e essa luz me apontava
uma Tróia no sertão...
Uma muralha,
dentro dela uma cidade
fora dela a crueldade,
a morte, a escravidão.
 
Era o Quilombo
lá na Serra dos Palmares
erguendo alto nos ares
a bandeira de Zumbi...
Saltei da burra
devagar fui caminhando
me cheguei, fui escutando
o que acontecia ali...
 
Refrão (2x):
Cavalgar, cavalgar,
eu cavalguei.
No país dos brasileiros
conheci o mundo inteiro
e por ele eu passeei.
 
 
 
 








sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

4678) Minhas Canções: "Carrossel do Destino" (26.2.2021)




Minha parceria musical e teatral com Antonio Nóbrega tem uma longa história, que remonta ainda aos tempos de Campina Grande, de 1972 em diante, quando eu estava lendo pela primeira vez o Romance da Pedra do Reino e vi a primeira “aula espetáculo” de Ariano Suassuna, no Teatro Municipal de Campina Grande, fazendo a Aula Magna de abertura do ano letivo da Universidade Federal da Paraíba, Campus II.

Eu estava embebido de interesse pela música popular do Nordeste, e para isso somou-se o fato de que recentemente o Quinteto Armorial, criado no Recife por Ariano, tinha se transferido para Campina Grande, onde seus integrantes passaram a morar e dar aulas de música. Foi esse modo que virei amigo e companheiro de moderadas carraspanas no “Caldo de Peixe” com Antonio Madureira, Fernando Torres Barbosa, Fernando “Pintassilgo” Farias e Edilson Eulálio.

Pois é: um Quinteto com apenas quatro? Porque razões familiares e profissionais impediram Antonio Nóbrega, o quinto integrante, a ir morar em Campina. Ele continuou no Recife, e foi de todos o que conheci por último. E aquele com quem fiz a parceria mais sólida.

Não lembro quando conversamos a primeira vez, mas pode ter sido quando vi no Teatro Santa Isabel do Recife um dos seus primeiros espetáculos-solo. Ficamos amigos e voltamos a nos encontrar depois, quando já morava eu no Rio de Janeiro e ele em São Paulo.

Nosso trabalho conjunto começou no final de 1989, quando começamos a bolar um espetáculo reunindo Nóbrega, sua esposa e parceira-de-palco Rosane Almeida, e Raul Barretto. Eu ia a São Paulo quase todo mês e passava alguns dias com eles, discutindo piadas, gags visuais, pequenos entremezes, números musicais e de malabarismo...

Esse espetáculo nunca se concretizou; Raul Barretto foi trabalhar no grupo “Parlapatões”, e Nóbrega voltou-se para um espetáculo solo que se tornaria o Figural, um dos seus primeiros grandes sucessos.


(Brincante)

O nosso trabalho de criação prosseguiu, porém, e em 1992 estreou Brincante, onde fiz texto e diálogos, Romero de Andrade Lima fez cenários, figurinos e direção geral, Nóbrega e Rosane fizeram tudo. Em 1994 repetimos a dose com Segundas Estórias, já com uma equipe maior. E desde então, sempre fui chamado a colaborar nos espetáculos “tonhetânicos”, como os chamamos, com canções, pequenos esquetes ou números recitados.

Em 2002 Nóbrega lançou o CD Lunário Perpétuo onde está esta bela ciranda, “Carrossel do Destino”. Estávamos nos falando ao telefone com frequência, e eu recitei para ele umas estrofes que tinha composto. Ele me pediu uma cópia mas já foi compondo a música.

As formas fixas da poesia popular nordestina têm essa vantagem. Se o letrista diz “escrevi uns versos em décima”, basta ao músico “compor uma melodia em décima” e as duas se encaixam, mesmo que cada uma tenha sido feita sem conhecer a outra. São dez linhas, cada uma com dez sílabas de letra (=dez notas de música), com uma cadência específica. Como se diz na Paraíba, “não tem errada”.

Os versos foram escritos no final de 2001, e como outras coisas que fiz nesse período refletiam um pouco a tensão em que vivia o mundo após os atentados do 11 de setembro.

O mote da canção foi tirado, veja só, de Zé Limeira. Folheando o livro de Orlando Tejo sobre o Poeta do Absurdo, encontrei no final do Capítulo 10 esta décima de “despedida”:

Adeus, que já vou rodar

no carrossel do destino.

Eu vou tocar no meu sino

até o guarda apitar.

Barca feita de jucá.

Caminhão de melancia.

Cangaceiro, correria,

bacamarte e lazarina,

rege, regente e Regina,

adeus, até outro dia!

 

Do resto do verso não se aproveita nada, mas essas duas linhas iniciais se cravaram na minha memória. Dei uma leve ajeitada e produzi algumas estrofes. Nóbrega brincava sempre que a vantagem das minhas letras é que eu mandava sempre um caminhão de versos, de onde ele podia escolher os melhores para gravar.

Desde então, essa música tornou-se um número habitual nos shows dele, apareceu em ouros discos e DVDs.

Aqui, o link para uma versão oficial, com Nóbrega e sua banda:

https://www.youtube.com/watch?v=lOdnFlr-BPk&ab_channel=DIRETODOSMANGUEZAIS 

E abaixo a letra completa que fiz; os versos em negrito não foram gravados, mas eu canto às vezes quando a vez é minha.


CARROSSEL DO DESTINO

(Braulio Tavares – Antonio Nóbrega)

(negrito: versos não gravados)

(março 2002)

 

Deixo os versos que escrevi

as cantigas que cantei

cinco ou seis coisas que eu sei

e um milhão que eu esqueci.

Deixo este mundo daqui

selva com lei de cassino;

vou renascer num menino

num país além do mar...

Licença, que eu vou rodar

no carrossel do destino.


Romances e epopéias

me pedindo pra brotar

e eu tangendo devagar

a boiada das idéias.

Sempre em busca das colméias

onde brota o mel mais fino,

e um só verso, pequenino,

mas que mereça ficar...

Licença, que eu vou rodar

no carrossel do destino.

  

Enquanto eu puder sentir

o mundo com a minha mente

o tempo estará presente

passando sem resistir.

Na hora que eu for partir

para as nuvens do Divino,

que a viola seja o sino

tocando pra me guiar...

Licença, que eu vou rodar

no carrossel do destino.

 


Adeus, cadeia do mundo!

Morrer é a liberdade.

Deixo gotas de saudade

cair nesse mar profundo.

Deixo tudo num segundo,

instantâneo, pequenino:

o tempo que um cristal fino

leva para se quebrar...

Licença, que eu vou rodar

no carrossel do destino.

 

Não sou profeta nem louco

mas vejo o que ninguém vê

creio no que ninguém crê

pago e não espero o troco.

O que eu sei é muito pouco

mas o pouco que eu ensino

aprendi desde menino

sem ninguém pra atrapalhar...

Licença, que eu vou rodar

no carrossel do destino.

 

Adeus, carcaça do mundo,

vou procurar vida nova.

Faço a conta e tiro a prova

decifro o x num segundo.

Eu não sou Pedro II

que foi rei mas não menino;

sou barro de Vitalino

um dia serei luar...

Licença, que eu vou rodar

no carrossel do destino.

 

Quero deixar de ser eu

porque ser eu é ser muitos;

eu sou tantos outros juntos

que nenhum prevaleceu.

Eu tenho um lado judeu

tenho um lado palestino;

um lado novaiorquino

e outro de Kandahar...

Licença, que eu vou rodar

no carrossel do destino.

 


 








quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

4303) Dias de poesia e festa (9.1.2018)




Este ano, a tradicional festa dos cantadores em São José do Egito teve, como mote de homenagem, “103 anos de Louro / 100 anos de Zé Catota”. Louro é o famoso Lourival Batista, um dos grandes cantadores do Pajeú, nascido em 1915 e falecido em 1992; Zé Catota (José Lopes Neto) era um poeta local menos famoso, mas igualmente querido, e foi bonito ver no último dia um neto e quatro netas dele subirem ao palco para recitar e agradecer a homenagem.

Tenho ido à festa nos últimos cinco anos, meio que tentando tirar o atraso. Desde os idos dos anos 1970 que meus amigos violeiros me chamavam para ir lá, curtir dois ou três dias de versos e de libação, que eram ainda mais animados no tempo em que Louro era vivo, com sua hospitalidade, sua verve trocadilhesca, seu senso de humor ferino.

Convivi com Louro durante alguns anos, viajei com ele, vi-o cantar em uma dúzia de Estados brasileiros. Nunca o vi em São José do Egito, que era sua fonte e seu castelo. Mas é assim mesmo; toda história é tecida de fios e vazios.

Desta vez, o pretexto profissional da minha ida foi duplo. Fui lançar meu romance Bandeira Sobrinho – uma vida e alguns versos (Editora Imeph, Fortaleza), história de um cantador da geração de Louro, poeta fictício onde tentei reunir traços humanos de muitos poetas cinqüentões ou sessentões com quem convivi quando tinha vinte-e-poucos.



O segundo pretexto foi mediar uma mesa-redonda de estudiosos e amantes da poesia, cada qual com seu foco de interesse e seu estilo de abordagem.

Gilmar Leite, filho de São José do Egito, apresentou seu livro Corpo e Poesia – para uma Educação do Sensível, resultado de sua tese de mestrado. Um debate freqüente entre nós, admiradores da Cantoria de Viola e da Literatura de Cordel, é sobre a distinção entre palavra (e poesia) falada e palavra (e poesia) escrita. Gilmar lembrou a importância da fala para a inspiração poética, e puxou uma recordação de Zeto, poeta da região, genro de Louro, que quando cantava ou recitava mobilizava o corpo inteiro e parecia entrar em transe.

A fala de Gilmar me trouxe à memória uma resposta de Allen Ginsberg, o poeta beatnik de Nova York. Perguntaram a ele por que tinha usado versos livres tão extensos em seu famoso poema “Uivo” (“Howl”), e ele disse: “Cada verso tem a medida exata do ar dos pulmões; eu vou dizendo em voz alta o verso, e quando o ar acaba eu corto e começo a linha seguinte.”  O corpo (o pulmão) usado como régua da métrica.

Em seguida veio Antonio José de Lima, “Tõe Zé”, outra figura muito querida do Pajeú, que lançou o livro Legado Filosófico de Poetas e Repentistas Semianalfabetos, onde ele compara trechos e frases de filósofos e poetas, desde a Antiguidade até a era moderna, com os versos dos cantadores humildes do Nordeste, que por vias transversas e heranças orais acabam chegando a reflexões semelhantes.

Tõe Zé se fez acompanhar por uma dupla de violeiros jovens, Bondoso e Silvano. No livro ele, “apologista” de muitos anos, recorre à extensa memória para trazer versos antigos e esquecidos, mas também cita versos de João do Vale, Patativa do Assaré e outros. O termo “semianalfabeto” sempre gera alguma discussão, porque algumas pessoas o acham um tanto ofensivo. Todo mundo lembrou a resposta famosa de Pinto do Monteiro, quando um jornalista começou a dizer algo tipo: “Seus versos são incríveis, o senhor, semianalfabeto...” e Pinto interrompeu: “Não, eu sou analfabeto mesmo. Semianalfabeto é você.”

Finalmente, Antonio Nóbrega trouxe uma pesquisa longa e bem documentada com exemplos sobre as origens da décima, a estrofe mais cultivada pelos cantadores, seja para glosar motes, seja para fornecer o esquema de rimas para gêneros como o martelo agalopado, o galope beira-mar, o martelo alagoano e outros. As rimas da décima se organizam no esquema ABBAACCDDC, usado por Gregório de Matos no século 17, e que ainda está vivo no Nordeste, e ecoa diariamente no vale do Pajeú.

Tudo isso sem falar nos quatro dias de shows e recitações. A família Passos cantando e recitando versos em lembrança ao seu patriarca, falecido em agosto; um show inesquecível de Cátia de França, roqueira e baiãozeira vigorosa no esplendor dos 70 anos; Silvério Pessoa lembrando canções de Ivan Santos e Rosil Cavalcanti. 

Uma boa mesa de glosas comandada por Jorge Filó (sempre com presença feminina acentuada), e baiões de viola com Valdir Teles e Diomedes Mariano.  Vi uma banda de coco azeitadíssima de Triunfo (PE), com uma vocalista de rapidez e precisão impressionantes, e que se apresenta em versão eletrônica como “Radiola Serra Alta” e em versão acústico-percussiva como A Cristaleira.

Vi a bela voz de Aline Paes acompanhada pelo pandeiro de Bernardo Aguiar e pelo violão onipresente de Greg Marinho. Os shows da família Marinho, filhos e netos de Louro que (com a “Página 21”, do Recife) produzem o evento: desde Tonfil cantando MPB até Val Patriota cantando dor de cotovelo, Bia Marinho desfiando um belo repertório de canções suas e de outros, e seus filhos Antonio, Greg e Miguel Marinho liderando a banda Em Canto e Poesia, em cuja apresentação Nóbrega deu uma bela canja e me chamou para cantar estrofes (inclusive não-gravadas) de nossa ciranda “Carrossel do Destino”).

A festa de Louro é como a Lua: cresce agora, diminui mais tarde, depois volta a crescer, e se mantém há cerca de meio século abrindo com poesia o ano civil do Pajeú. Hoje são seus netos que tomam a frente, amanhã serão seus bisnetos. As crises políticas e econômicas vêm e passam, e a poesia continua firme e leve, fotografando a alma do tempo.

Um dia eu ainda vou recortar todos esses dias que passo na Festa de Louro, sair juntando todos os trechos e depois emendar o último no primeiro pra fazer um loop. Aí resolve tudo.

Quero deixar de ser eu
porque ser eu é ser muitos;
eu sou tantos outros juntos
que nenhum prevaleceu.
Eu tenho um lado judeu
tenho outro palestino
um lado novaiorquino
e outro de Kandahar...
Licença, que eu vou rodar
no carrossel do Destino.









terça-feira, 31 de março de 2009

0931) Ariano Suassuna e Caetano Veloso (11.3.2006)




No Carnaval de Recife, vi, no show de Antonio Nóbrega, uma cena que me deixou matutando. Na lateral do enorme palco, sentados lado a lado em cadeiras fornecidas pela produção, assistiam o show Ariano Suassuna e Caetano Veloso. Ariano, um dos homenageados oficiais do carnaval (juntamente com o grande Claudionor Germano); Caetano, visitando o carnaval de Pernambuco pelo segundo ano consecutivo.

No final, Nóbrega chamou Ariano ao palco para cantarem juntos “Madeira do Rosarinho”; depois, chamou Caetano. Juntos, os três cantaram o grande frevo-de-bloco “Evocação no. 1”, aquele que todo nordestino sabe de cor: “Felinto, Pedro Salgado, Guilherme, Fenelon, cadê teus blocos famosos?...” 

E uma multidão incalculável (eu pelo menos não consegui calcular), que se espalhava pelo largo do Marco Zero e pelas ruas que convergem para lá, aplaudiu a presença conjunta do criador do Movimento Armorial e do criador do Tropicalismo.

Isto significa que algum dos dois, ou ambos, estariam abrindo mão de suas idéias, de suas posições? Duvido. O Brasil inteiro sabe o que pensam os dois. Seus seguidores muitas vezes se engalfinham metaforicamente, e têm uma tendência a ver o lado oposto de forma redutora, caricatural e empobrecida. 

Eu, que me vejo equidistante aos dois, tenho consciência do quanto eles estão afastados, e do quanto se parecem. Ariano e Caetano são dois brasileiros raros: têm uma fé ilimitada no Brasil, na sua força, na sua possibilidade de um destino glorioso. O “Brasil” de cada um reflete, é claro, a origem de cada um. 

Ariano pertence à estirpe ascética e rija dos sertanejos, Caetano pertence à cultura hedonista e malemolente dos mulatos litorâneos. Ariano é um defensor da Tradição, do eixo vertical de uma acumulação cultural de séculos; Caetano é um buscador insaciável da Novidade, do florescer contemporâneo de mil novas formas de sentir e de pensar. 

Os interesses dos dois são tão afastados que ambos se tornam indispensáveis. Sem um dos dois, o Brasil seria caolho.

O que os une é essa paixão pelo Brasil e essa fé no Brasil (paixão e fé que invejo, porque as sei superiores às que sinto). Vendo-os a cantar juntos, vejo-os unidos também pela lembrança de Felinto, de Pedro Salgado, dos velhos blocos de rua, do carnaval como fonte permanente e inesgotável da alegria e da criatividade do povo, e das belas canções que celebram nossa gente e nossa cultura. 

Não porque estas sejam ou pretendam ser superiores à gente ou à cultura de outras regiões; mas porque são nossas, e um povo que não gosta de si próprio e não vê valor em si próprio não pode esperar respeito da parte de seu-ninguém.

Caetano está com 63 anos, Ariano com 78; suas carreiras têm sido divergentes, mas o espírito que as anima é o mesmo. Quando daqui a 100 ou 200 anos os compositores fizerem novas “evocações”, seus nomes aparecerão lado a lado, como os de Felinto, Pedro Salgado, Guilherme ou Fenelon. O futuro lhes agradece.






sábado, 15 de março de 2008

0253) Tonheta: vivo ou morto (11.1.2004)




Nada mais parecido com o Brasil do general Médici do que os Estados Unidos do presidente Bush. Talvez nas prisões americanas não se esteja torturando e assassinando indivíduos por terem lido “O Capital” (ou, no caso, o Corão); mas por outro lado Médici, ao que eu saiba, nunca construiu campos de concentração como o que nossos coleguinhas americanos estão mantendo em Guntánamo. A mais recente novidade, contudo, foi divulgada agora no finzinho do ano pela Associated Press. O FBI distribuiu um boletim para 18 mil centrais de polícia no país inteiro instruindo os policiais para prestar atenção, ao revistar suspeitos durante batidas, blitzes, etc., se eles conduzem almanaques.

Segundo o FBI, almanaques trazem informações sobre cidades e Estados, sobre rios, barragens, reservatórios, túneis, edifícios, etc., além de fotografias e mapas. No boletim, escrito em inimitável jargão burocratês, o FBI avisa: “A prática de pesquisar alvos potenciais é consistente com métodos sabidamente utilizados pela Al-Qaeda e outras organizações terroristas que buscam maximizar a probabilidade de sucesso operacional através de cuidadoso planejamento.” Beleza, né? Isso, amigos, chama-se reação freudiana à própria impotência. E me lembra o que um alto oficial da CIA confidenciou a um repórter, logo após o atentado do 11 de setembro: “O mais humilhante de tudo é sabermos que nós jamais teríamos tido a competência para organizar algo assim, e muito menos a coragem de fazê-lo.”

Essas limitações estão sendo compensadas agora (ou pelo menos é isso que eles acham) através da conhecida tática de matar barata com fuzil, ou curar virose com cirurgia. Um sujeito em atitude suspeita e com um almanaque no porta-luvas do carro tem tudo para ser terrorista. Fui consultar meu exemplar de 1999 do “Old Farmer´s Almanac” (meu pai colecionava almanaques, e eu herdei uma beirinha desse gene), em circulação desde 1792. Não vi nada que ameace a segurança nacional da brava América. Tabelas astronômicas de lunações e marés, previsões do tempo, piadas, curiosidades... Nada que não tenha no “Almanaque do Porto”, no “Almanaque Biotônico”, no “Almanaque Mundial”, no “Almanaque do Pensamento” e noutros. Vai ver que foi por isto que a Al-Qaeda nunca conseguiu explodir nada em nosso país.

Eita, Estados Unidos! É dura a vida, hem? 1984, quem diria, aconteceu em 2001. O perigo agora é Antonio Nóbrega inventar de levar para lá seu show “Lunário Perpétuo”. Quando o FBI descobrir que o show se inspira num almanaque sertanejo, vai logo pensar que por trás de Nóbrega está D. Pedro Quaderna, e por trás de Quaderna está Antonio Conselheiro, e por trás de Antonio Conselheiro está Osama bin Laden. E aí danou-se: lá vai o pobre do Tonheta ficar pendurado numa gaiola de ferro em Guantánamo, e pra soltar ele vai ser preciso uma força-tarefa de peixeira em punho formada por Ariano Suassuna, Orlando Tejo e Zé Nêumanne. Aí é que eu quero ver, Donald Rumsfeld!

segunda-feira, 10 de março de 2008

0191) Cordel na sala de aula (31.10.2003)




Caros leitores, espero que não me censurem por fazer neste discreto espaço a publicidade de minhas atividades profissionais. Na próxima semana estarei em João Pessoa participando do Fenart, numa mesa-redonda sobre Cultura Popular na terça (dia 4), e realizando uma oficina sobre Cordel de quarta a sexta-feira (dias 5 a 7), sempre à tarde. A Oficina, parece-me, será aberta ao público em geral, mas se dirige principalmente a professores do nível fundamental e médio. Seu título é: “Cordel: como escrever, como ensinar”. Mais informações com a Funesc, no Espaço Cultural.

Ministrei esta oficina nos últimos anos em São Paulo, por iniciativa de Antonio Nóbrega, meu parceiro em canções e peças teatrais. A idéia de Nóbrega, com seu Teatro Brincante, é ministrar oficinas sobre cultura popular brasileira para professores que lidam com crianças e adolescentes em São Paulo. Como estes professores geralmente são paulistas, têm dificuldade em abordar o folclore, a arte nordestina em geral. Daí, o teatro faz oficinas diferentes a cada mês. Por exemplo: em março os alunos estudam Frevo, em abril estudam Artesanato em Barro, em maio estudam Bumba-meu-boi, em junho estudam Mamulengos, etc.

Num desses meses, estudam poesia popular nordestina: o Romanceiro e a Literatura de Cordel. Noções elementares de métrica e rima (que muitos poetas profissionais, acreditem, às vezes ignoram), história do romanceiro ibérico trazido pelos colonizadores, e noções práticas da arte da poesia. Alguém já saiu desta Oficina (ou de qualquer outra) diplomado como poeta? Duvido. O objetivo é transmitir as regras do cordel, as noções básicas de como escrevê-lo, e alguns truques postos em prática por quem joga esse jogo há vários anos.

Mais do que formar poetas, oficinas deste tipo (que hoje acontecem em muitos pontos do Brasil) querem ajudar o professor a transmitir para crianças e adolescentes o gosto descompromissado pela poesia, pela expressão verbal, pela brincadeira com rimas e com ritmos, pela possibilidade de se expressar através da “linguagem enriquecida” que é a poesia. Não estou muito a par do que as escolas de hoje ensinam sobre poesia. Quando eu tinha 12 anos tinha que decorar o que era écloga, ditirambo, arcadismo. Foi em casa que aprendi a contar sílabas, a escolher uma rima, aprendi a fazer quadrinhas e pés-quebrados, e aprendi que poesia não tem receita. Existe o verso livre, o metro livre; e existem formas fixas, com regras claras. O cordel é uma destas. Afora isto, temos todo o direito de escrever o que nos dá na telha. O cordel nordestino nasceu porque um bando de nordestinos humildes, sem títulos acadêmicos, muitas vezes autodidatas que jamais sentaram num banco de escola, sentiram-se no dever de aprender a fórmula, e no direito de escrever o que lhes dava na telha. Que esse dever e esse direito sejam restaurados para os meninos nordestinos de hoje, é o mínimo que podemos desejar.