Mostrando postagens com marcador super-heróis. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador super-heróis. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 15 de julho de 2024

5082) O curso "Ficções do Espaço e do Tempo" (15.7.2024)



 
Uma das minhas atividades profissionais no momento é ministrar cursos de literatura, online, geralmente através do Instituto Estação das Letras, do Rio de Janeiro. A vantagem do curso online (além da comodidade de estar todo mundo em sua própria casa) é que atinge alunos do Brasil inteiro, e até de fora, já que não é presencial. 
 
O próximo curso começa amanhã, 16 de julho, e vai constar de quatro aulas, todas as terças-feiras (de 16 de julho a 6 de agosto), das 19 às 21:00.  Maiores informações, sobre preços, inscrições, etc., no telefone do I.E.L. (21) 99127-4088
 
Vale sempre lembrar que, no curso online, mesmo que o aluno não possa assistir à aula em tempo real ele tem acesso a uma gravação. 
 
O que são as ficções do espaço e do tempo? 
 
São, em primeiro lugar, as histórias que abordam espaços e tempos mais amplos (e mais especulativos) do que os que encontramos na vida real, e isto as conduz geralmente na direção do fantástico. 



Um aspecto interessante de tais histórias é que uma parte enorme delas consiste em “histórias de aventuras”, histórias que envolvem aquilo que geralmente chamamos de “a jornada do herói”. Tenho observado por aí que nos cursos de roteiro, de escrita criativa, etc., a “Jornada do Herói” é proposta como modelo para qualquer narrativa. É uma fórmula – que depende, em grande parte, das descobertas e teorias de Joseph Campbell – com um protagonista central envolvido numa demanda em grande escala, uma missão que irá exigir dele coragem, determinação, engenhosidade, etc. para poder alcançar seu objetivo. 
 
A Jornada do Herói é uma aventura, e este aspecto independe do gênero literário da história. Pode ser uma aventura de ficção científica, uma aventura de fantasia, uma aventura na vida corporativa, uma aventura de cowboys e índios, uma aventura de piratas, uma aventura de espionagem... Uma aventura é sempre uma jornada num espaço desconhecido e num tempo desconhecido – “tempo” entendido aí como uma situação cheia de imprevistos, em que é impossível ter certeza sobre o futuro. Aquelas situações na vida em que tudo pode acontecer, para o melhor ou para o pior. 
 
Grande parte da literatura popular se baseia nesse tipo de missão e nesse tipo de incerteza. 
 
Todo protagonista de uma narrativa é um herói? De jeito nenhum. Acho que o conceito de “herói” está se banalizando demais hoje em dia, principalmente devido ao excesso de uso no cinema, nas séries de TV, nas histórias em quadrinhos... Gosto de histórias de heróis, como todo mundo; mas o seu uso repetitivo e pouco inovador faz com que elas se tornem apenas um canal para fantasias narcisistas em que o “Eu” do leitor compensa suas frustrações e suas impotências na vida diária. 
 
Como já disse um crítico, Superman jamais faria sucesso se todo leitor não fosse um simples Clark Kent. 




Um outro aspecto dessas ficções aventurescas é que elas criaram ao longo dos séculos dois tipos de protagonistas a quem eu chamo os “Ícaros” e os “Dédalos”, em alusão aos personagens da mitologia grega. 
 
O que é um “Ícaro”? É alguém que se lança numa aventura sem ter medo do que lhe possa acontecer, e muitas vezes se dá mal por subestimar o perigo da morte, mas mesmo assim tem uma morte gloriosa. Ícaro pregou com cera suas asas artificiais, e ao voar aproximou-se do sol, de forma temerária. O sol derreteu a cera e ele morreu caindo no abismo. O aventureiro sempre sabe que corre esse risco, mas é da sua natureza encarar o perigo pela sedução da aventura. 



(Albrecht Durer, "Icarus and Dedalus") 
 

Já o “Dédalo” se inspira no seu pai, o construtor do labirinto de Creta. E esse tipo de personagem sugere outro viés da literatura: o indivíduo que mergulha em aventuras mentais, em vez de aventuras físicas. Um dédalo é alguém capaz de construir um labirinto, ou de decifrar um labirinto construído por outra pessoa. Um detetive, por exemplo, é um dédalo: alguém que penetra no labirinto misterioso de crimes e de pistas que são incompreensíveis para todos, mas é capaz de interpretar corretamente o que vê, e de encontrar o caminho no labirinto, e enfrentar o monstro (=o criminoso). 
 
Na narrativa policial, James Bond é um ícaro, e Sherlock Holmes é um dédalo. 



Esses arquétipos vêm de longa data, desde a antiguidade. Hércules era um ícaro, Édipo era um dédalo (quando decifrou o enigma da Esfinge). 
 
Data também da antiguidade um outro aspecto dessas “ficções do espaço e do tempo”: a antevisão de sociedades perfeitas, sociedades organizadas de acordo com algum princípio básico de ordem, progresso, limpeza, otimização do trabalho e das oportunidades, etc.  Em outra palavra: uma Utopia. 
 
O mais interessante é que toda Utopia é também uma Distopia. Toda sociedade perfeita é também uma sociedade asfixiante e autoritária para qualquer um que não se enquadre nas suas leis e nas suas obrigações. Utopia e Distopia, que são geralmente usadas como antônimos, em última análise são sinônimos, porque é impossível a existência de uma sociedade perfeita para todos. A não ser que todos os habitantes pensem igual – e pode haver algo mais distópico do que isto?! 
 
Com isto em mente, vamos dar uma passada nos argumentos de algumas utopias/distopias de autores brasileiros como Rodolfo Teófilo, Godofredo Barnsley, Emilia Freitas, Gulherme de Figueiredo, Manotti del Picchia, etc.  



 
Essas sociedades imaginárias situam-se em espaços e tempos muito afastados dos nossos, e servem como espelhos deformados não apenas da sociedade em que vivemos concretamente, mas também daquilo que consideramos uma organização ideal da vida coletiva. O que era utopia em 1900 não o é hoje, e o que pensamos ser utopia hoje não pensaríamos no ano 2124. 
 
Existe um outro tipo de espaço e tempo, contudo, e aí vamos numa direção totalmente diversa. O grande J. G. Ballard (autor de Crash, O Império do Sol, etc.) foi um dos autores britânicos que a partir da década de 1960 começaram a pregar, para a ficção científica, a necessidade de deixar um pouco de lado o “espaço exterior” (a Luz, Marte, o Sistema Solar, a Via Láctea...) e concentrar-se no “espaço interior” (“Inner space”). 



Dizia Ballard que o território especulativo ideal para a literatura de hoje (e não só a ficção científica) era a mente humana, individual e coletiva. A nossa relação com o inconsciente, com os instintos animais que nos controlam mais do que admitimos. A obra de Ballard é uma boa ilustração desse princípio – o melhor exemplo é Crash (filmado por David Cronenberg), abordando um grupo de pessoas que se excitam sexualmente ao presenciar ou imaginar colisões de automóveis e suas consequências nos corpos das pessoas. 




Outro aspecto do “espaço interior” que a literatura (e não só a FC, insisto!) tem abordado de forma criativa são os estímulos artificiais da mente, seja através de drogas, seja através conexões eletrônicas, etc.  A chamada literatura cyberpunk explodiu por volta de 1984, ano em que William Gibson publicou o Neuromancer; dali para cá, entraram em nosso vocabulário palavras como ciberespaço, realidade virtual, realidade aumentada (“augmented reality”), Inteligência Artificial. 
 
Também podem ser examinadas por este ângulo as obras que mostram como o espaço interior, o nosso espaço mental/perceptivo, é construído de fora para dentro e de dentro para fora com o uso das tecnologias tradicionais de comunicação: a arquitetura, a propaganda, a fotografia, a televisão, o design, etc.  



 
Autores de FC propuseram anos atrás o termo Media Landscape (“paisagem da mídia”) para descrever esse meio onde circulamos: eu traduzo esse termo em português como Mìdia Ambiente, para distingui-lo do “meio ambiente” natural. A Mídia Ambiente é esse conjunto de estímulos produzidos pela Cultura humana (e não pela Natureza), capaz de nos mergulhar numa paisagem que pode se tornar hostil, acolhedora, insidiosa, autoritária, infantilizadora, sedutora. Uma paisagem artificial, exaustivamente discutida e planejada em gabinetes, como estratégia de controle social permanente. 
 
Todos estes aspectos têm sido explorados na literatura, e não apenas na ficção científica. Basta dar uma passada-de-vista na obra de Thomas Pynchon, Italo Calvino, David Foster Wallace, Haruki Murakami, Don DeLillo, Michael Chabon, Kazuo Ishiguro, David Mitchell... Escritores que compartilham essa consciência do inevitável convívio entre Mente, Corpo e Máquina. 



Poucos escritores “mainstream” têm explorado o espaço e o tempo com a insistência e a profundidade de Jorge Luís Borges. “Funes, o Memorioso”, ao contar a história de um rapaz que tem memória total, mostra como a percepção que a mente humana tem do tempo depende de sua capacidade de lembrar e esquecer: nele, a recordação total do passado requer a eliminação do presente, por ocupar totalmente os minutos (ou horas) que dura a evocação. Em “O Milagre Secreto”, um homem consegue suspender a passagem do tempo (enquanto sua mente não pára, continua pensando) para concluir uma obra literária. Em “Utopia de um Homem Cansado” o protagonista viaja mentalmente para o futuro e de lá faz um balanço satírico do nosso tempo atual. 


 
A literatura de imaginação surgiu com as lendas e os mitos da Antiguidade, as narrativas cosmogônicas dos indígenas do mundo inteiro, as mil e uma formas da fantasia desenvolvidas na Idade Média e no Renascimento europeu, chegando modernamente até o “Scientific Romance” da Europa no século 19 e a pulp fiction norte-americana que floresceu na primeira metade do século 20. 
 
Meio “escanteada” pelos críticos, essa literatura-imaginativa, nas formas populares (folhetins de jornal, revistas, livros de bolso) era lida e admirada por esses autores que enumerei algumas linhas mais acima, autores que souberam assimilar sua ousadia imaginativa e dar-lhe um tratamento fabulatório à altura. 
 
São as Ficções do Espaço e do Tempo, e são um dos núcleos essenciais da literatura deste século que mal começou. 
 
 
 
 
 





sexta-feira, 15 de abril de 2022

4813) "The Batman": o Homem que Bate (15.4.2022)

 

 
Tenho boas lembranças de ler gibis do Batman em nossa antiga casa na Rua Miguel Couto. Mudamos dali em 1960, de modo que posso contar umas seis décadas de convivência com o Cruzado De Capuz. Li os gibis; assisti fartamente a série de TV com Adam West; voltei anos mais tarde pelas mãos de Frank Miller; vi alguns dos filmes (numerosos e desiguais) feitos dos anos 1990 para cá; li algumas graphic novels.
 
O filme recente de Matt Reeves tem suas ênfases neste ou naquele aspecto da lenda ou do lore do personagem. É o que se espera de cada nova abordagem. Uma coisa que ele mantém, em relação aos filmes recentes de Christopher Nolan, é o aspecto trevoso, a pirotecnia nas perseguições e nas catástrofes, o impacto sonoro das porradas.
 
E isto é o que acaba fazendo emergir em mim uma lembrança difusa de infância, de quando eu lia alternadamente gibis do Batman e do Superman, e raciocinava que Superman não tinha o direito de dar socos de verdade nos bandidos, porque ele tem superpoderes, supermúsculos e supernós-dos-dedos, e poderia desintegrar o crânio de alguém; mas o Batman pode, porque ele não passa de um ser humano, fisicamente normal.
 
E não está no gibi o que o Batman soca, esmurra, cotovela, chuta e espanca nesses filmes. Não são só os filmes dele, é claro. Poderíamos até diagnosticar a existência de um gênero chamado “Testosterona Thrillers”, onde história, tema e personagens são irrelevantes, por serem meros pretextos para tiroteios, explosões, perseguições de carro... e socos, muitos socos. Como bate esse pessoal.
 
“Bater era um prazer. Havia um prazer especial em sentir as coisas se partindo, em sentir as coisas afundando-se e cedendo. Com o soco-inglês metálico encaixado nas falanges, com os poderosos músculos contraídos no braço que parecia uma jibóia, o sangue latejando nas têmporas, as mãos dele eram como dois aríetes poderosos esboroando, rachando, botando abaixo as muralhas obtusas da História.” 
 
Há todo um Fahrenheit 451 a ser escrito sobre esse prazer profano dos homens jovens (principalmente), um prazer mais legalizado do que o de queimar.


Bater é um descarrego físico que cumpre alguma função terapêutica inconsciente. Muitos homens deveriam ter em casa um daqueles sacos de areia dos boxeadores, pendurados no teto, para poderem descarregar suas raivas e voltar a si. A criminalidade cairia. É um impulso primitivo, como o de cravar dentes ferozes num naco de picanha ensanguentada.
 
Uma vez um cara me disse: “Estou com vontade de aprender a tocar bateria.”  Eu disse: “Acho uma boa idéia, desde que você entenda que a bateria é um instrumento musical, e não um veículo para descarregar as frustrações da vida.” Ele disse: “O que eu quero é descarregar as frustrações da vida.” Tenho o direito de dizer que ele estava errado?...
 
“Bateria” é um nome curioso de instrumento, porque vem do verbo bater; no caso, espancar com bastões. Tocar tambores cumpre uma função parecida com a de esmurrar sacos de areia acolchoados. Cumpre uma função parecida com a daqueles estabelecimentos suíços onde o sujeito entrava, pagava algo como dez dólares, e podia ficar meia hora lá dentro, por entre milhares de pratos e utensílios de louça barata, arrebentando o que bem entendesse.
 
Alguém vai ponderar que a maioria das pessoas não sente esse impulso, e eu concordo, mas acho que um dos problemas do mundo está nas pessoas que o sentem.
 
Tudo isto parece estar na raiz do visível tormento existencial do Bruce Wayne interpretado neste filme por Robert Pattinson. Diferentemente da empáfia autossuficiente do Bruce Wayne de, por exemplo, Christian Bale, Pattinson evoca (o diretor-roteirista o confirma) o sofrimento passivo de um Kurt Cobain do “Nirvana”, um indivíduo arredio, introvertido, dono de um poder que não controla e de uma inteligência que não consegue apaziguar.
 
Este Bruce Wayne é um guerreiro gótico com vibe de emo, um personagem tragicamente híbrido. Uma mente criptográfica, introspectiva, hospedada a contragosto num corpo que quer inflar-se, quer explodir, quer pilotar a 300 km por hora, quer voar, quer bater, bater.
 
Quando ele está de terno ou de roupas comuns, parece magro. Tem aquela aparência insalubre de quem não vê o sol há séculos, é um tipinho nosferal, caligaresco. Em alguns momentos, quando as mechas rebeldes de cabelo escuro lhe caíam sobre a testa larga, imaginei estar vendo na tela John Cazale, aquele emblema da neurose humana.



Quando ele enverga a armadura de Batman... Aí sim, ele é só músculos, triunfal como um The Rock, maciço como um Everest, rápido como uma Lucas-ship fazendo manobras em "V" no vácuo. Um Mr. Hyde desabrochando em plena maldade, finalmente livre, sentindo-se, como diz a canção de Caetano Veloso, “feliz e mau como um pau duro”. Do Bruce Wayne agora escravizado restam sob a máscara apenas os olhos, dois botões de angústia, e a boca lacônica e crispada.  
 
O desespero de Wayne é perceber que sua atividade de “vigilante” gerou um copycat como o Charada, um imitador psicótico que, como todo psicótico, interpreta seu ídolo como uma versão não-censurada de si mesmo.
 
Quem combate a violência com violência gera um loop do qual não se foge. Ele tenta fugir quando, por pelo menos duas vezes, no filme, evita que a Mulher Gato mate um vilão. Quando os dois estão juntos, ela o chama de “bat boy”, trocadilho com “bad boy” que a legenda traduz como “morcegão”. (Talvez uma alternativa fosse: “É você de novo, amorcego?...”)
 
O Wayne de Reeve/Pattinson ganha um pouco daquela aura de herói trágico que tem o Paul Atreides de Duna (refiro-me ao livro original de Frank Herbert). O herói a contragosto, um dom-sebastião messiânico que se sente desconfortável na missão que lhe cobram, o jagunço-sniper que não quer ser chefe do bando... O cara de boa índole que aceita liderar uma guerra por temer que talvez ponham no lugar dele alguém que não tem os seus escrúpulos, os seus valores, o seu equilíbrio... E lá vai ele, o pacifista frustrado, começar mais uma guerra.
 
Não é muito diferente do drama de T. E. Lawrence, o da Arábia, que a certa altura das guerras no Saara tem que matar alguns inimigos... e descobre, horrorizado, que gostou.


(T. E. Lawrence)

Todos esses indivíduos experimentam em si (porque são, teoricamente, personagens com uma inteligência e uma sensibilidade superior à média) essa contradição entre primitivismo e civilização, ou entre os prazeres puros e não-censurados do primitivismo... e o mal-estar da civilização.
 
Bater, bater, bater... Uma vez primitivos, primitivos até morrer. O ser humano não é um fantasma dentro de uma máquina, é um vidente montado num tigre.
 
O Homem Que Bate, mesmo quando se ilude com o discurso de que está castigando malfeitores ou defendendo a ideologia correta, não consegue ocultar de si mesmo (e muito menos das câmeras de cinema, essas deusas mitológicas que tudo veem e tudo revelam) o prazer que sente ao esmigalhar cartilagens.
 
Qual a solução? Ninguém sabe. Mas vale lembrar que o verbo bater em inglês pode ser “to beat”, no que se aplica surras, socos, etc.; mas que a palavra “beat” pode significar “batida” no sentido musical. Pancada, mas pancada rítmica. Bateria, mas bateria de tambores.
 
E que o verbo imperativo “beat it” significa “cai fora, sai dessa, te manda”.
 
https://www.youtube.com/watch?v=oRdxUFDoQe0
 
Beat It (1983), um videoclip famoso de Michael Jackson (escrito e dirigido por Bob Giraldi), mostra Jackson interferindo numa briga de gangs e pondo os brigões para dançar.
 
Nem todas as formas de violência podem ser sublimadas em música, mas algumas podem. Nada impede que alguém faça um spin-off da saga de Gotham City e introduza um novo personagem, The Beatman. 



 







terça-feira, 25 de agosto de 2015

3901) "As Aventuras do Flama" (25.8.2015)




("O Flama": pelo filho, Mike Deodato, e pelo pai, Deodato Borges)

Foi o primeiro super-herói paraibano. Nasceu na novela de rádio homônima transmitida todos os dias pela Rádio Borborema; eu e minha irmã Clotilde ficávamos grudados no pé do rádio para ouvir as histórias escritas por Deodato Borges e interpretadas pelo “cast de rádio-teatro da Rádio Borborema”. 

Era um tempo em que praticamente todas as noites havia novelas de rádio escritas e interpretadas por artistas locais. Meu pai trabalhou na rádio alguns anos, e alguns desses atores frequentavam nossa casa. 

Lembro de ter ouvido uma adaptação de As Quatro Penas Brancas, romance de aventuras passado na Legião Estrangeira.

O Flama era um herói mascarado e usando capa, fisicamente no modelo do Batman. O rosto me sugeria uma certa semelhança com Errol Flynn, que era uma espécie de George Clooney daquele tempo. Suas aventuras ocorriam num ambiente que misturava elementos brasileiros e estrangeiros. 

No elenco de personagens, havia Eliana, sua noiva (era um tempo em que os super-heróis tinham noivas!), o garoto Zito (uma espécie de Robin), Bolão, um rapaz meio gordo que servia de “alívio cômico” pelas suas tiradas engraçadas, o Comissário Láurence (simétrico ao Comissário Gordon, do Batman), e havia um “Raposa” que usava uma metralhadora e chamava os bandidos de “os macacos”.

A novela foi patrocinada pelos Drops Dulcora (“quadradinhos, embrulhadinhos um a um!”). Criou um Clube do Agente Secreto, com carteirinha e tudo; e sorteava fotos do Flama e Zito, mascarados, de arma em punho, em contraluz, fotos feitas em estúdio. Era grande a audiência. 

O Flama (tal como o Dick Peter, de Jeronymo Monteiro) tanto enfrentava assaltantes de bancos quanto “monstros de ferro” que invadiam a cidade.

O sucesso foi tanto que Deodato lançou em março de 1963 a revista em quadrinhos, escrita e desenhada por ele. A esta altura eu, já com 12-pra-13 anos, não me interessei tanto, não colecionei, afinal já lia Conan Doyle e Julio Verne. Mas o sucesso foi grande! 

Agora, a Funesc (Fundação Espaço Cultural, de João Pessoa) lançou uma edição fac-símile do número 1 da revista, com uma HQ (“O Caso do Dragão Vermelho”), um conto (“Rapto!”) e algumas seções de piadas, curiosidades, sonetos.

A reedição do gibi vem com uma sobrecapa “moderna” desenhada por Mike Deodato, filho do autor, merecidamente famoso por sua atividade de desenhista no mercado internacional. 

Deodato faleceu ano passado (2014). Foi um entusiasta da cultura pop, como Jeronymo Monteiro, Rubens Francisco Lucchetti, Péricles Leal e outros pioneiros da literatura de gênero (policial / FC / terror / fantasia) que temperaram no fogo do medo os meninos e as meninas da minha geração.






sábado, 18 de abril de 2015

3792) Os Super-Heróis (19.4.2015)




Um super-herói, como os dos quadrinhos e do cinema, é como um ser humano comum refletindo-se nos espelhos deformados dos parques de diversões. O herói pertence a um mundo elástico onde certos detalhes podem ser hipertrofiados enquanto o restante tenta permanecer o mais normal possível. 

Todos os Super-Heróis têm uma ferida dolorosa em sua origem: um ficou cego, outro foi picado por uma aranha, outro perdeu os pais, outro perdeu os pais e o planeta. 

Os Vilões também não são vilões de nascença, cada um deles traz também uma ferida como momento de origem: um disparo, um acidente, um banho de ácido, a perda de uma pessoa amada, a perda de uma parte do corpo, uma traição sofrida... tudo isto também é o estofo de que os Vilões são feitos.

Os X-Men são mutantes sobre os quais caiu como um raio um superpoder aleatório, sem muita explicação. Por serem diferentes são cercados, por terem um poder são capazes de revidar. 

Alguns mutantes desenvolvem o superpoder mas não a capacidade de administrá-lo, o que os leva a praticar violências, crimes, ou então servirem como atrações ou fenômenos circenses.  Indivíduos realmente capazes de ler pensamentos passam a vida inteira enfrentando platéias broncas, acertando a leitura, e sendo vaiados como truque. 

Outros são mais espertos: Os Filhos do Átomo (1953) de Wilmar H. Shiras (há uma tradução brasileira, de 1969) mostra crianças dotadas de superinteligência que conseguem disfarçar essa condição e passar despercebidas, como crianças comuns.

Às vezes, a ferida do herói, o espinho encravado do seu desajuste, é apenas o reverso-da-moeda do dom espantoso que ele recebeu. Bênção e maldição descem juntas sobre a vida dele. O superdotado Grenouille, de O Perfume (1985) de Patrick Susskind é ao mesmo tempo um indivíduo sem cheiro, sem odor de espécie alguma, e o indivíduo de olfato mais apurado no mundo. É o homem que “vê” tudo menos a si mesmo. 

Grenouille é quase um sociopata, mas torna-se quase um cientista, guiado pelo superolfato que o mantém sob encantamento constante. Sua monstruosidade torna-se grandeza, sem deixar de ser monstruosa.

Hércules só realizou os seus famosos Doze Trabalhos porque eles lhe foram impostos como pena por ter assassinado a mulher e os seis filhos. William Burroughs (Almoço Nu) afirmou que até matar a própria esposa num acidente irresponsável ele era apenas um drogado igual a qualquer outro, mas aquela morte o tornou escritor. Despertou, pela dor da ferida, seus superpoderes, e lhe mostrou um caminho diferente. 

O Super-Herói não é apenas um poderoso, é alguém que desenvolve um poder extremo para compensar uma fraqueza extrema.






quinta-feira, 9 de abril de 2015

3784) Dupla identidade (10.4.2015)



Oscar Wilde, o rei do paradoxo, dizia: “Se quiser conhecer a verdadeira personalidade de alguém, dê-lhe uma máscara”. Faz sentido. Quando estamos mostrando nossa própria cara, estamos mostrando uma imagem presa a convenções e regras sociais, familiares, morais, etc.  

Cada um de nós é um personagem na convivência social com família, amigos, colegas de trabalho. Sabemos que qualquer passo em falso vai manchar a reputação dessa pessoa que somos, desse papel que é o único que temos. Nosso rosto e nossa imagem pública são esculpidas pelo Superego, pelas exigências que nos massacram de cima para baixo e de fora para dentro.

Quando botamos a máscara, a coisa muda de figura. No carnaval, machões se vestem de mulher, homens pacatos empunham armas de brinquedo e promovem massacres fictícios, mulheres recatadas viram odaliscas se oferecendo (de mentirinha) a qualquer um. 

Botam pra fora o que de fato são (ou uma parte importante e reprimida do que são) e vivem o alívio de uma fantasia permissiva e consolatória.

Freud comentou que a literatura popular, com seus heróis indestrutíveis e sempre triunfantes, é “a literatura do Ego”, destinada a celebrar e gratificar essa imagem idealizada de nós mesmos. Quando colocamos uma máscara, essa máscara vira “o Eu que gostaríamos de ser”; quando criamos um herói, acontece o mesmo. 

Histórias de heróis com dupla identidade são um clichê da literatura popular: Superman, Batman, o Zorro, o Sombra, o Homem Aranha e incontáveis outros têm uma identidade pública, pacata, civil, e uma identidade secreta e famosa, o herói que a cidade inteira teme e reverencia sem saber que se trata daquele mesmo indivíduo banal que todos cumprimentam sem saber que dentro dele se esconde o herói.

A saga do Super-Homem pode muito bem ser vista como um delírio de Clark Kent: um repórter desajeitado, grandalhão, de óculos, tímido, incapaz de arranjar uma namorada. 

Por um processo de compensação, Kent começou, a certa altura da vida, a desenvolver uma fantasia de que era na verdade um extraterrestre dotado de superpoderes. Todas aquelas aventuras são imaginárias, são um processo de autoindenização psicológica onde ele cura as feridas produzidas pelo trabalho e sabe-se lá pelo que mais. 

Na sua rotina de redação, Clark Kent embarca waltermittyanamente em devaneios e delírios onde salva vezes sem conta a cidade de Metrópolis e o planeta Terra. O Super-Homem é a máscara que ele usa para “ser ele mesmo”, ser o que ele de fato gostaria de ser. A máscara é o que o Eu gostaria de ver no espelho, mas precisa de uma máscara para isso.  Ninguém contou ainda a verdadeira história de Clark Kent.








segunda-feira, 6 de abril de 2015

3781) "Guardiões da Galáxia" (7.4.2015)



Advertência necessária: gosto de quadrinhos mas não distingo sequer entre a Marvel e a DC Comics, que no mundo das HQs são como a Microsoft e a Apple. 

Não presto atenção às guerras editoriais e corporativas, e quando ouço as palavras “Batman”, “Superman”, “Homem Aranha”, o que me vem à mente não é a fisionomia atual do herói, é uma compostagem de tudo que li e vi sobre eles nos últimos cinquenta anos.

Guardiões da Galáxia (2014) de James Gunn é um filme que resulta disso, de uma compostagem de tipos e situações conhecidos, rearranjados como os pedregulhos de um calidoscópio, de forma a produzir uma falsa impressão de ordem. 

A ficção científica é nesse universo apenas um eco distante, uma espécie de ruído de fundo. O cinema de heróis é um almoxarifado cenográfico onde se vão buscar personagens já prontos, dos quais basta trocar o nome, o ator e a roupa, e aí estão de novo Han Solo e Chewbacca e Indiana Jones e Hulk e outros, sem necessidade de pagar direitos. 

É um filme de ação interplanetária para o público infanto-juvenil – qualquer filme que tenha um guaxinim-falante pilotando uma espaçonave é infanto-juvenil, e ponto final. Sua relação com a FC é a mesma de certas histórias de Carl Barks estreladas pelo Pato Donald e seus sobrinhos.

Assistir esses filmes de ação ininterrupta (que eu, pelo menos, assisto com prazer) é como assistir as “Videocassetadas do Faustão”: ficamos olhando porque a fórmula nos garante que de dez em dez segundos alguma coisa movimentada vai acontecer. Essa promessa é cumprida em Guardiões da Galáxia, que é uma mistura de gincana, trem-fantasma, desfile no sambódromo, Keystone Cops e (como se tornou obrigatório na FC pós-George Lucas) duelos de aviõezinhos da I Guerra Mundial.

Entender a história não é possível, nem necessário, porque todas essas histórias giram em torno de um objeto fácil de reconhecer (neste caso “o Orbe”, uma esfera de metal com propriedades borgianas) que pode ser tomado, furtado, escondido, roubado, prestidigitado de mil maneiras. (Queria ver um filme desses cujo McGuffin fosse do tamanho de uma pirâmide.) 

É sempre arriscado emitir opiniões desdenhosas sobre franquias que têm fãs, porque todo fã é um talibãzinho em defesa dos produtos que adquire. Na verdade não sou fã de ninguém, sou fã das mitologias do nosso tempo, que botam no bolso as mitologias gregas ou nórdicas, pelo menos nos quesitos som, fúria e valores-de-produção. Assim como os gregos criaram o Monte Olimpo à sua imagem e semelhança, criamos nós Gotham City, Metropolis e essas galáxias tão parecidas com o mundo corporativo, manipulativo, cruel e bem assalariado que as imaginou.




sábado, 4 de outubro de 2014

3621) Salvar o mundo (4.10.2014)




(ilustração: Klaus Pichler)


Faz uns 25 anos que não escuto a frase “Deixa de ser besta, rapaz, você tá querendo salvar o mundo sozinho?”  Já ouvi muito e me ajudou a ponderar.  Não foi menino quem não sonhou em salvar o mundo, sozinho, saindo do banco aos 44 do segundo tempo, entrando, se atirando na primeira bola que vem e empurrando pra dentro o gol do título.  

Se eventos futuros o exigissem, eu aceitaria exércitos para cumprirem minhas ordens e multidões para me carregarem num andor. Já que a vida real se esforça para imitar os filmes de Cecil B. De Mille.

Um garoto de nove anos está lendo uma revista de FC em quadrinhos e descobre que um garoto de dez anos conseguiu meio casualmente detectar com seu aparelhinho de rádio montado em casa a frequência de onda que controla por sinais instantâneos a nave da frota que invadiu a Terra, o que permitiu ao exército construir em tempo recorde um potente transmissor e fazer tombar todas as espaçonaves bem longe, no Oceano Pacífico. 

Ao terminar de ler a palavra FIM, o garoto ergue os olhos para a parede e pensa: “Se ele pode, por que não eu?”  E assim começam, com uma fantasiazinha inofensiva, os grandes saltos da humanidade, as grandes quedas da humanidade.

Freud dizia que essa ficção popular sobre heróis e super-heróis era a ficção do Ego, projeção do que o leitor queria ser, do que queria que lhe acontecesse. Salvar o mundo é a fantasia recorrente nos pulp magazines, nos livrinhos de bolso, nas trilogias de fantasia e de space opera, nas novelas gráficas que fizeram upgrade em todo o panteão de heróis ingênuos dos “comics”.  

A ficção do Ego vai se ampliando com a idade, mas é uma mitologia, um espelho deformador, registrando algumas obsessões coletivas nossas.

O Fantástico parece se sentir mais em casa na ficção popular, que costuma ser essa “ficção do Ego”, do que na ficção “mainstream” praticada pelas cabeças pensantes de cada época (porque cada época tem um grupo que assim se intitula). 

A ficção popular é melodramática, exagerada, fala em salvar o mundo. A ficção pensante é cética, verossímil, fala em dar sentido à existência de um só indivíduo. São dois impulsos distantes, mas não contraditórios. 

Qualquer recurso de caráter realista pode ser absorvido pelas narrativas fantásticas, que não abrem mão da realidade; mas o realismo proíbe a si mesmo pegar material emprestado em troca.  Ele se torna um realismo pobre, criado pela exclusão de muita coisa, ao invés de um realismo abrangente de tudo, com um conceito de realidade que não tivesse problema em dialogar com o fantástico, que fosse capaz de conviver com o aleatório e de aceitar o aparentemente impossível.





segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

3388) Melodrama de ação (5.1.2014)



Melodrama de ação é toda narrativa baseada na aventura com ação física intensa, variada, exibicionistamente descrita. Por ação física entenda-se brigas individuais e batalhas coletivas, perseguições, fugas, travessia de lugares perigosos, condução de veículos em situações desfavoráveis, enfrentamentos com feras ou com flagelos da natureza... 

Ninguém captura isto tão bem quanto o cinema, e querer que não haja filmes de ação é bobagem de intelectuais desocupados. (O que, aliás, é um oxímoro. Todo verdadeiro intelectual tem sempre o que fazer, ao invés de ficar implicando com bobagens.)

O termo melodrama designava um tipo de teatro musicado (“melo” = música) que ficou associado a histórias implausíveis, com perigos exagerados, sentimentalismo, personagens “de papelão”, histórias cheias de improbabilidades, coincidências, fatalismos, sem preocupação de verossimilhança, e pretendendo apenas produzir sensações fortes, dar sustos, criar suspense... 

Uma boa sátira ao melodrama é o conto “A chinela turca” de Machado de Assis.

O melodrama tradicional é do tempo do romance folhetim (que redundou nas telenovelas e nas séries de TV, com sua estrutura de finais em suspenso) e do teatro de Grand Guignol, com sua violência gráfica, explícita, hoje transposta para filmes B de terror, “gory”, “slash”. 

Eu diria que o melodrama de ação mais importante de hoje é o filme de super heróis, e que os efeitos especiais cumprem uma função parecida com a que a música orquestral cumpria naquele teatro de 150 anos atrás.

O filme de super heróis é um melodrama onde tudo está subordinado à ação: roteiro, interpretação, direção. Movimentação incessante, destruição reiterada de objetos e cenários, e um plot que se limita a, mediante situações psicológicas extremas (vinganças, ódios, crueldades, ambições desmedidas, presença de vilões megalomaníacos) justificar ações extremas onde a violência está sempre pronta para explodir. 

Algumas características do gênero: 

1) o herói Doppelganger (homem pacato x justiceiro, duas pessoas que são uma só); 

2) uma galeria de vilões com traços inconfundíveis, grotescos; 

3) ação hipérbólica (não basta que dois personagens briguem, a briga precisa destruir um quarteirão inteiro); 

4) soluções mágicas para impasses dramatúrgicos (enredos tipo “com-um-puxão-Jack-partiu-as-cordas-que-o-aprisionavam”, segundo Peter Nicholls); 

5) cenas de 2ª. unidade obrigatórias (o estúdio exige cenas específicas para ocupar técnicos e laboratórios caríssimos); 

6) emoções grandiloquentes e vulcânicas engastadas num tecido de irrelevância, onde a platéia imatura possa aconchegar-se à idéia de que “é tudo brincadeirinha”.







sábado, 25 de agosto de 2012

2958) O Cavaleiro das Trevas (24.8.2012)



O terceiro filme da série Batman dirigido por Christopher Nolan tem competência e tem pequenas frustrações. É um diretor criativo querendo injetar novidade numa fórmula da cultura de massas. Ele não pode injetar tanta novidade que cause um estranhamento nas platéias.  Nolan e seus produtores sabem muito bem que o que a maioria dos fãs de Batman querem é “um pouco mais daquilo mesmo”, mas não são todos.  Se hoje em dia os fãs aceitam que Batman leve uma surra do vilão e tenha que passar um tempo se recuperando isto já é prova suficiente do amadurecimento mental (seja isto o que for) dessa platéia.

Nolan fez na sua trilogia uma espécie de compressão temática de tudo que compõe a mitologia Batman, utilizando um bom elenco fixo, e atraindo participações memoráveis. Um bilionário recluso, cercado por uma equipe high-tech de fazer inveja à de James Bond, decide combater o crime em sua cidade, em parte por motivos freudianos (a morte dos pais, o medo de morcegos).  As contradições e os desvãos escusos dessa decisão arrogantemente individual são explorados nestes três filmes, em que Batman deixa de ser um “cruzado de capuz” acima do Bem e do Mal. Ele se torna um livre atirador numa briga pesada que envolve a polícia, os gênios-do-mal e os pequenos transtornos (como a Mulher Gato) que se atravessam na sua frente.  E isto deixa mais visíveis as suas contradições como agente da lei. Bandido rico, bandido bem armado, mas bandido.

Batman é rico, é impaciente com a incompetência do Estado, e resolve criar um Estado-de-um-homem-só para salvar seus conterrâneos. O vigilantismo dessa atitude o deixou permanentemente em xeque. Ele não é um cruzado. É um bilionário que quer fazer administrar o mundo pelos seus próprios critérios.

O sucesso dos filmes mais recentes de Super-Heróis reflete dois processos.  Por um lado, o mundo real está ficando mais carnavalizado, mais decorativo, mais quadrinhesco; pessoas de 50 anos ficariam perplexas com o modo como nos vestimos, nos adornamos. Por outro lado, esse comércio forçado entre os dois mundos faz com que alguns heróis comecem a perder a invulnerabilidade infantil de sua fase “gibi” e passem a se contaminar de mundo real. Foi a novela gráfica de Frank Miller, “The Dark Knight Returns” (1986), que iniciou este processo. Agora, com os blockbusters do cinema, ele chega a um público maior. É uma lenta pororoca entre as mitologias e fantasias que criamos a respeito de nós mesmos, e o modo como elas deixam de ser fantasias consolatórias para serem fantasias neuróticas em que toda a energia do problema original ressurge intacta e resiste até à bomba atômica.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

2932) Massacre no cinema (25.7.2012)








Muita gente não tem a menor idéia de como um filme de longa-metragem é feito.  Não sabe, e não se interessa em saber.  Deve achar que é como filme de aniversário de criança: organiza-se a festa, chama-se o rapaz com a câmara, e no outro dia o filme está pronto pra passar.  Não é assim.  É um trabalho insano e cansativo, que envolve às vezes anos de preparação, meses e meses de execução, e no final deixa centenas de pessoas esgotadas de tanto esforço.  E custa (geralmente) milhões de dólares – sempre com a expectativa de render bem mais.

Quando a gente se queixa da violência dos filmes, da TV, dos videogames, está de certa forma se queixando não apenas da possível má influência mental que eles possam vir a ter sobre as pessoas, principalmente os mais jovens, mas também do paradoxo de que tanto dinheiro e tanto esforço se concentrem em produzir coisas assim, quando seria possível, talvez, ganhar dinheiro com filmes diferentes – afinal, comédias, filmes românticos, filmes de simples aventuras, tudo isso também costuma dar bons lucros, quando acerta com o “paladar” da galera.

A matança que aconteceu nos EUA na pré-estréia do novo “Batman” de Christopher Nolan não é uma consequência do filme, nem desse tipo de filme.  Os dois são sintomas de nossa fascinação permanente pela violência e pela destruição. Somos seres biológicos, de carne e osso, vulneráveis à violência, condenados à morte, e por isso pensamos nisso o tempo todo.  Somos o único animal que sabe que vai morrer e o único que (como diz o ditado) morre mil vezes de mentira antes de morrer de verdade. Batman, o herói desarmado que evita matar, é o Ego tentando reprimir os Coringas incontroláveis da crueldade, e sentindo sempre o horror de se saber semelhante a eles.

Cresci numa época em que a censura etária era mais rigorosa nos cinemas, e não havia a TV a cabo, como hoje, passando sexo pornô e esquartejamentos explícitos ao alcance de qualquer guri de 10 anos.  A galera de hoje sofre um verdadeiro massacre de violência, e não o faz a contragosto, faz (se bem recordo minha infância) por fascinação própria. Quando eu tinha dez anos eu queria ver isso tudo.  Não queria que acontecesse a ninguém, mas se acontecesse eu queria ver como foi. Não é de admirar que ao lado de 999 caras que querem somente “ver como foi” apareça 1 querendo fazer.  Somos animais de carne e osso com uma trágica consciência da dor, da maldade, da morte.  Um dia nos transformaremos em avatares eletrônicos dotados de consciência, mas enquanto isto não ocorre iremos sentir o que Augusto dos Anjos descreveu como “essa necessidade do horroroso / que é talvez propriedade do carbono”.

sábado, 16 de julho de 2011

2610) Superpoderes (16.7.2011)



Os heróis com superpoderes sempre nos fascinaram. Não há muita distância entre as Metamorfoses de Ovídio e os gibis da Marvel ou DC Comics. Freud escreveu um ensaio muito lúcido sobre o Herói na literatura popular. Quem é, pergunta ele, esse sujeito invencível, que conquista todas as mulheres, surra todos os inimigos, escapa de perigos catastróficos, deslinda mistérios impenetráveis? Ora (responde), é o Ego, é nosso rosto quando nos penteamos ao espelho, é aquilo que queremos ser. (Talvez não “queiramos” no sentido de ter isto como um objetivo concreto; mas fantasiamos sê-lo, para compensar nossas deficiências. Se você não pensar que é James Bond, não consegue azarar sequer a caixa do supermercado. Se você não pensar que é Napoleão, não consegue encarar uma reunião de condomínio.)

O filme Heróis (“Push”, 2009), de Paul McGuigan, mostra um grupo de pessoas com superpoderes desenvolvidos artificialmente por uma agência de espionagem. São tantos poderes que fiquei meio perdido e depois do filme fui consultar o saite. Olha só a lista dos poderes, de acordo com cada grupo:

“Movers”, que podem mover objetos com a força da mente. “Pushers”, que podem controlar os pensamentos de outras pessoas. “Watchers”, que podem ver o futuro. “Bleeders”, que emitem gritos em ultrassom, capazes de romper vasos sanguíneos do adversário. “Sniffs”, que podem rastrear pessoas. “Shifters”, que podem mudar temporariamente a aparência de um objeto aos olhos de outras pessoas. “Wipers”, que podem apagar memórias alheias. “Shadows”, que podem proteger a si mesmos e a outras pessoas próximas contra a detecção (dos Sniffs). “Stitchers”, que podem curar pessoas ou desfazer uma cura já feita.

É uma bela galeria daquilo que Freud apontou, no ensaio The Uncanny (“O Estranho”) como “a Onipotência do Pensamento”, a fantasia infantil de que somos capazes de modificar o mundo material com a mera força do pensamento, somos capazes de materializar idéias, de interferir no mundo físico sem mover um dedo. Os superpoderes do super-herói clássico, o Super-Homem, são da mesma natureza: poder voar, ser invulnerável, ter força descomunal, enxergar através das paredes, etc. A proliferação de histórias do gênero foi ampliando esse repertório. Em Scanners, os heróis são capazes de fazer explodir a cabeça de alguém. Em Jumpers, podem saltar fisicamente de um lugar para outro, bem distante. Se recorrermos ao repertório da Marvel e DC Comics, a lista não tem fim.

Cada superpoder das histórias de fantasia corresponde a uma impotência da vida real; cada um deles é inventado para suprir algo que somos incapazes de fazer. Cada superpoder é a compensação para os pequenos traumas da educação infantil, quando recebemos a terrível notícia de que não somos o Imperador do Mundo, não podemos fazer chover nem parar o sol no céu, não podemos comandar mentalmente o comportamento das outras pessoas, somos incapazes de mexer objetos sem levantar um dedo.

sábado, 29 de maio de 2010

2089) Um cotidiano à fantasia (18.11.2009)



A fotógrafa mexicana Dulce Pinzón abre no fim deste mês uma exposição em Nova York na qual retrata imigrantes mexicanos nos EUA executando trabalhos cotidianos com uniformes de super-heróis. Ela forneceu as fantasias e fez as fotos enquanto os mexicanos trabalhavam. Vai daí que vemos o Homem Aranha pendurado em cordas, limpando pelo lado de fora as vidraças de um arranha-céu; o Tocha Humana no balcão de um restaurante, flambando comida na frigideira; O Coisa empunhando uma britadeira numa construção civil; Batman com uma lanterna, no escuro de um estacionamento, iluminando o caminho para os clientes; o Incrível Hulk descarregando um caminhão de carga; o Super Homem fazendo entregas de bicicleta, a capa esvoaçando ao vento; a Mulher Gato servindo de babá para crianças louras; o Dr. Fantástico, o “homem elástico”, trabalhando de garçon, pegando um prato no balcão com um braço alongado e entregando na mesa com o outro.

Como se vê, as fotos são cuidadosamente ensaiadas e preparadas para “passar uma idéia”, harmonizando o super-poder de cada herói à tarefa de cada trabalhador. Diz a artista que os verdadeiros heróis são as pessoas que trabalham nos serviços simples do cotidiano, recebendo salários baixos e enviando parte deles para ajudar suas famílias na terra natal. As fotos podem ser conferidas aqui: http://tinyurl.com/yjnpewq.

OK, tudo não passa de uma encenação momentânea para produzir uma obra de arte. Mas isso alarga uma fresta importante em nossa cultura, fresta que talvez tenha sido aberta durante a década de 1960, com a Contracultura, o movimento hippie, etc. Naquele tempo, vigorava, na maioria dos países, uma certa padronização de roupas. Tenho fotos de meu pai em Campina Grande na década de 1940: cerca de cinquenta homens, numa solenidade de inauguração, ao ar livre, no pingo do meio-dia, todos eles vestindo ternos brancos. Hoje em dia, se você pegar um ambiente semelhante e pessoas semelhantes, cada um vai estar vestido como lhe apraz: manga de camisa, roupas de todas as cores. Alcancei o tempo em que caixa de banco não podia usar cabelo grande nem barba, e tinha que trabalhar de camisa social branca e gravata. Uma das imagens mais surpreendentes que me lembro de ter visto foi a da linha de montagem de uma fábrica inglesa nos anos 1980: uma porção de operários junto à esteira rolante, aparafusando peças, sendo que um deles é um punk com um gigantesco cabelo moicano pintado de roxo.

Chamo a isto uma tendência irreversível. As pessoas irão cada vez mais carnavalizando seu cotidiano, teatralizando suas indumentárias, indo ao trabalho, aos passeios ou ao cinema com roupas de super-herói ou “de personagem”. Sinais disso são o crescimento exponencial de decorações como piercings, tatuagens, etc. O mundo de daqui a algumas décadas será um baile à fantasia. Vou deixar prontos por aqui meu camisolão e cajado de Profeta.

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

0565) “Os Incríveis” (9.1.2005)



Assisti o desenho animado Os Incríveis, que recomendo a quem quer que tenha gostado de Toy Story e da série Pequenos espiões de Roberto Rodríguez, com Antonio Banderas. É uma mistura dos dois. Super-heróis correspondem ao perfil unidimensional da cultura de massas. Cada um é identificável por um superpoder: Fulano incendeia, Sicrano congela, Beltrano é super-veloz, Fulano tem visão de raio-X.... Fáceis de identificar e de catalogar, mais fáceis ainda de inventar.

Os Incríveis é para a galera de 8 ou 10 anos. Para a galera de 12 ou 15 anos, tem a série X-Men, que pega os mesmos personagens mas já projeta neles uma dose mais adolescente de violência, dramas psicológicos, um certo erotismo. Uma experiência recente e curiosa com esses personagens da Marvel Comics é a série em quadrinhos 1602, escrita por Neil Gaiman, mostrando o aparecimento de mutantes equivalentes aos X-Men, com os mesmos superpoderes, na Inglaterra elizabetana.

O que me levou a matutar: existem histórias de heróis com superpoderes escritas para adultos? Superpoderes físicos e mentais equivalentes aos dos X-Men? O que me vem logo à mente são clássicos da ficção científica como O Homem Invisível de H. G. Wells, ou o magnífico romance de Robert Silverberg sobre um telepata, Uma pequena morte (Dying Inside, Editora 34). Mas são, afinal de contas, histórias de ficção científica, onde os autores estão trabalhando dentro dos limites do gênero. Mesmo sendo grandes escritores, como é o caso, trabalham com um olho no texto e outro no contexto, nas regras não-escritas do gênero.

Na literatura fora das fronteiras de gêneros, encontram-se excelentes histórias de super-heróis. Lembro o formidável Grenouille criado por Patrick Suskind em O Perfume (Ed. Record), o sujeito que tinha o olfato mais sensível do mundo, capaz de distinguir milhões de cheiros a quilômetros de distância. Há O Passa-Paredes de Marcel Aymé, um sujeito capaz de atravessar paredes sólidas. Não sei se posso incluir nesta lista o protagonista de O Arco-Íris da Gravidade, de Thomas Pynchon, um sujeito cujos orgasmos são tão intensos que atraem bombas V-2 e mísseis para o local onde ocorrem. Há o protagonista de Fermata, de Nicholson Baker (Cia. Das Letras): um sujeito capaz de imobilizar o tempo, deixando as pessoas “congeladas” como estátuas, situação da qual ele se serve para, digamos, divertir-se inocentemente com as senhoritas à disposição de suas fantasias. Há Funes, o Memorioso de Jorge Luís Borges, o ujeito que tem memória total e é capaz de recordar tudo que viu, sentiu e pensou em cada segundo de sua existência.

Pessoas com super-poderes fazem parte de nossas fantasias e de nossa cultura. O cinema e os quadrinhos geralmente se concentram nas possibilidades de espetáculo e ação física que sua condição acarreta. A literatura explora sua carga mítica, suas fraturas psíquicas, suas inesgotáveis conexões simbólicas.

terça-feira, 1 de abril de 2008

0347) Os heróis esquizóides (30.4.2004)




Por que tantos heróis da cultura popular têm dupla identidade? Quando eu era garoto e lia quadrinhos, me parecia óbvio que fosse assim. Todos nós sabíamos que Clark Kent e Super-Homem eram a mesma pessoa; que Billy Batson se transformava no Capitão Marvel quando dizia a palavra mágica “Shazam”; que o milionário Bruce Wayne descia à Caverna do Morcego para sair dali disfarçado de Batman. A lista era longa. Durante muito tempo, me pareceu que todo herói tinha que ter uma face pública e pacata, e uma face oculta e sobrehumana.

Depois percebi que não era apenas nos quadrinhos. Nessa época eu era leitor devotado das aventuras do Zorro, bem como das histórias do “Coyote”, pistoleiro mexicano criado por J. Mallorqui, o qual na vida civil era o pacato fazendeiro Dom César Echagüe, mas quando se disfarçava era um justiceiro temido, que deixava um desenho em forma de cabeça de coiote nos locais onde fazia justiça, e costumava marcar os maus elementos arrancando o lóbulo de sua orelha com um tiro, para reconhecê-los depois.

Em seu inestimável volume de ensaios Seis Propostas para o Próximo Milênio, Italo Calvino usa a mitologia grega (inspirando-se em um livro de André Virel) para explicar essa dualidade do ser humano, e, por extensão (esta por minha conta), dos heróis da cultura de massas. Diz ele que o homem tem um lado Mercúrio (que representa a “sintonia”, a nossa troca de informações com o mundo à nossa volta) e um lado Vulcano (que representa a “focalização”, ou seja, o nosso pensamento concentrado e criador). (Sobre Mercúrio, veja-se a coluna “O deus das coisas certas”, 10.3.2004) Um é o nosso lado público, social; o outro o nosso lado íntimo e profundo. O fascínio exercido pelos heróis de dupla personalidade está no aparente paradoxo de que o “rosto oficial” (Bruce Wayne, Clark Kent) fica em segundo plano, enquanto que a personalidade secreta (Batman, Super-Homem) é o verdadeiro foco das atenções.

No fundo, é um retrato do artista criador, que é um super-herói conhecido e admirado por todos, capaz de façanhas espantosas... mas que, quando o encontramos em carne-e-osso, nos surpreende por ter os nossos mesmos defeitos, inseguranças, limitações. Pedimos o autógrafo, tiramos a foto com o braço sobre o seu ombro, e ficamos matutando se foi mesmo esse cara de roupa amassada, olhos cansados e barba por fazer que dirigiu aqueles filmes maravilhosos, escreveu aqueles livros impressionantes, compôs aquelas músicas que ficarão para sempre. O artista é um super-herói ao contrário. É um sujeito banal em público, mas que se transforma em alguém grandioso quando está a sós, no momento da criação. Mesmo que a gente tome um drinque ao seu lado, chegue mesmo a conviver com ele e ter amizade, é sempre o lado Clark Kent que ficaremos conhecendo. Como é ele quando se transforma em Super-Homem, nunca saberemos, mas a transformação ocorre, e a prova disto é o livro, é o filme, é a canção.