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quarta-feira, 24 de julho de 2024

5085) A exceção e a regra (24.7.2024)

 


 
Uma expressão popular diz que “toda regra tem exceção”. Há mesmo uma derivada desta: “Fulano é a exceção que confirma a regra”. 
 
Georges Perec usou de maneira muito pessoal esse conceito ao conceber seus romances sujeitos a regras arbitrárias e asfixiantes, aquilo que os franceses chamam de “contraintes”, ou restrições.


 
No imenso romance A Vida Modo de Usar (1978) Perec concebeu e executou uma porção de regras e as seguiu de maneira obsessiva. As regras são arbitrárias, ou seja, ninguém o obrigou a empregar essas regras e não outras; mas ele as criou e obrigou-se a segui-las, por impulso estético, por desafio intelectual, por divertimento maníaco. 
 
Como alguém que diz: “Vou escrever uma carta onde todas as palavras têm que começar com a letra C”. Guimarães Rosa escreveu uma carta assim para seu amigo João Cabral de Melo Neto.  Ninguém o obrigou a fazer isso. 
 
Leia aqui, na página do Templo Cultural Delfos, a “Carta ao Cônsul Cabral”:
https://www.elfikurten.com.br/2016/03/joao-guimaraes-rosa-carta-ao-consul.html
 
A literatura tem espaço para desafios desse tipo, e o maior desafio é produzir com isto uma história que se torne interessante para o leitor, que o faça ter vontade de continuar lendo sem parar, e não fechar o livro dizendo: “Ah, entendi. A regra é essa, e ele vai fazer isso até o fim... Tchau!...”. 
 
Não é só a regra. É o modo como a vida humana, mesmo submetida a regras bizarras, continua sendo a coisa mais interessante em um romance.  
 
Perec dizia, contudo, que não é apenas a regra que é obrigatória, mas a exceção. Nesse livro, por exemplo, ele descreve um edifício parisiense com dez andares e dez aposentos por andar; em tese, o livro deveria ter 100 capítulos, mas só tem 99.  Por que?  É a exceção obrigatória. 
 
Perec escreveu o famoso La Disparition (1969; traduzido no Brasil por Zéfere como O Sumiço) sem empregar a letra E em momento algum.  É possível, contudo, que em algum ponto do livro apareça, leve, serelepe, demente, uma letra E para ser essa famosa “exceção que confirma a regra”. Eu ainda não a encontrei. 
 
Perec comparou esse tipo de recurso à idéia do “clinâmen”, um nome latino atribuído a um conceito da filosofia grega, acho que formulado por Epicuro. 



(Epicuro)


A teoria dos gregos dizia que os átomos se movimentavam no espaço afastados uns dos outros, e num movimento uniforme, inalterável. Desse modo (questionava alguém) como os átomos poderiam ter começado a se misturar, produzindo a matéria como a conhecemos? 
 
A resposta é que em algum momento um átomo se desviava imprevistamente e se chocava com os átomos mais próximos, e daí começava um amontoamento, um turbilhão de choques, os átomos se recombinavam e a matéria surgia desse processo. Isto era o “clinâmen”. 
 
Ou seja: para que haja ordem é necessária a presença de um fator de desordem, de contradição, de desobediência à regra, de voluntarismo. 
 
Isto talvez não se aplique à Ciência e à moderna teoria atômica, mas é interessante quando aplicado à literatura, onde as regras são outras e, o que é melhor: são inventadas pelos escritores, e não impostas pela Natureza.
 
Siga a regra: mas deixe uma portinhola aberta para que por ali se infiltre a exceção. Para que? Para tornar a regra mais nítida. Como naqueles filmes em preto-e-branco onde “do nada” surge uma imagem de um objeto colorido (O Selvagem da Motocicleta, A Lista de Schindler, etc.). 



E também para mostrar que o mundo não comporta apenas o previsível, mas o inesperado. A natureza não consiste apenas numa Ordem, mas numa sucessão de Ordens e Desordens, equilíbrios e desequilíbrios, onde o excesso de um é compensado pelo surgimento do outro. 
 
Numa entrevista de 1981, Perec assim justificava a necessidade de “temperar” suas regras exigentíssimas com alguns deslizes propositais: 
 
É preciso, e isto tem muita importância, destruir o sistema das restrições, das regras. Esse sistema não tem que ser rígido, ele tem que conter um elemento de jogo... É como se diz: tem que ranger um pouco. Ele não tem que ser completamente coerente, é preciso que haja um clinâmen – algo que aparece na teoria de Epicuro sobre os átomos: ‘O mundo funciona porque, no seu início, existe um desequilíbrio’. Segundo Paul Klee, ‘o gênio é um erro no interior do sistema’”.
 
Uma grande parte das explicações do mundo o descreve como uma luta eterna entre o Bem e o Mal. A literatura vem glosando essa “batalha” há milênios: heróis e vilões, mocinhos e bandidos, gente do Bem e gente do Mal... 
 
Tudo isto existe, é claro, mas o mundo não se resume a isto. O Bem e o Mal são conceitos que se aplicam à vida humana, mas não ao universo como um todo. 
 
Não existe bem ou mal nas reações nucleares que fazem brilhar as estrelas, nem na força da gravidade, nem nas aglomerações de matéria que produzem planetas, cometas, etc.  O que existe ali é um cabo-de-guerra permanente entre a Ordem e a Desordem. 
 
A Ordem (vista do ponto de vista humano) pode ser uma coisa boa ou uma coisa ruim; a Desordem, idem. Os interesses humanos, sejam coletivos ou individuais, vivem mergulhados nessa oposição. 
 
Quando há um excesso de Desordem, é preciso que alguém imponha ali um pouco de regras, para que haja algum tipo de comunicação, de união coletiva, de esforço coordenado, de redução de esforços e otimização de resultados. O excesso de Desordem, o caos, leva à Entropia: à dissipação de energia do universo. 
 
Quando há um excesso de Ordem, é preciso que surja algum elemento perturbador, que desequilibra o que está imóvel, que vem “desafinar o coro dos contentes”, que pega aquela ordem adormecida e a desperta, extrai reações, faz com que ela volte à vida. O excesso de Ordem, o imobilismo, leva à Entropia: a dissipação de energia do universo. 
 
A Ordem absoluta não se distingue muito do Caos absoluto. Falta a ambos o elemento de contradição que põe o universo em movimento. 
 
A Vida (o surgimento de seres vivos) pode ser o clinâmen do universo. 




 
 


quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

3415) A Ordem e o Caos (6.2.2014)




As grandes batalhas cósmicas nos romances de Fantasia eram batalhas morais entre o Bem e o Mal.  Variam os sistemas éticos, mas a guerra é essa.  

Aqui, torna-se mais claro um equívoco que muitos moralistas, muitos autores e muitos leitores praticavam, e ainda praticam.  Dizem eles que a luta do Cosmos é para o Bem destruir o Mal.  Está errado.  O Mal faz parte da estrutura atômica e molecular do Bem. Deve se submeter ao Bem, e não a si próprio.  

O Bem não precisa destruir o Mal, aliás nenhum dos dois pode destruir o outro.  Eles têm um equilíbrio como o de cavaleiro e cavalo. O Bem doma o Mal.

Já outras fantasias mostram a batalha entre a Ordem e o Caos. Um trecho do Universo onde exista apenas Ordem (se isso é fisicamente possível!) é um espaço morto, e onde houver apenas Caos, idem idem.  

O mundo é um equilíbrio dinâmico constante entre milhões de sistemas físicos, químicos, biológicos, psicológicos, sociais, econômicos, etc., interagindo, competindo, cooperando e se influenciando sem parar.  Um sistema estagnado, onde nada acontece, precisa de uma injeção de Caos para voltar à vida.  Um sistema totalmente aleatório, browniano, precisa produzir padrões de estabilidade e de Ordem, para se alimentar deles, captar sua energia, e reinvesti-la de novo.  É assim que as formas físicas crescem.

O Senhor dos Anéis é um misto dos dois. Uma história cheia de discussões morais, claro, onde J. R. R. Tolkien, embora não faça uma alegoria religiosa tão explícita quanto a que seu amigo C. S. Lewis fez na série Crônicas de Narnia, conta uma história de fundo moral. 

Tolkien dá a ela um interessante volteio narrativo: para destruir o símbolo do Mal, é preciso ir de encontro ao Mal, ir à borda do motor ígneo de sua energia, seu núcleo radioativo, a montanha-vulcão de Mordor.  É preciso ir ao coração das trevas. 

Essa luta é também uma luta entre a Ordem e o Caos. De posse do Anel de Poder, Sauron, o Homogêneo, transformará o Universo num “continuum” indiferenciado multidimensional com um buraco-negro no centro. Ele e seu Anel sugarão todo o Poder para esse centro-vórtice onde tudo colapsa em ausência, estendendo atrás de si um manto de entropia exponencialmente maior. 

O Mal é uma monocultura hegemônica. O Bem é feito de pequenas coisas sem objetivos maiores e com necessidades específicas. Hobbits, anões, ents, humanos, elfos, gigantes, cavalos, elefantes, árvores, frutas, as águas dos rios e assim por diante.  

O Bem é a cosmodiversidade. O Mal (Sauron) parece desejar uma Singularidade de pixels cinzentos, parece desejar uma Ordem superior, mas acaba criando o Caos por superconcentração.