Mostrando postagens com marcador Paraíba. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Paraíba. Mostrar todas as postagens

domingo, 16 de março de 2025

5162) Parolagens nordestinas (16.3.2025)




(pintura: Irene Medeiros, Campina Grande)
 

Dizem que os esquimós têm dezenove palavras diferentes para descrever diferentes tipos de neve. Pode ser que sim; palavras que aparecem com frequência na fala cotidiana acabam se desgastando um pouco, e gerando sinônimos, variantes, equivalentes. Sempre há algum temperamento mas criativo que introduz um jeito novo de exprimir uma idéia antiga. 
 
No linguajar nordestino, tenho observado a grande quantidade de expressões que se usa para exprimir o conceito de grande quantidade. É coisa que não acaba mais. 
 
"Assim de", por exemplo. Esta expressão é complementada pelo gesto de unir as pontas de todos os dedos em círculo e fazer pequenos movimentos de abre-e-fecha.    
 
"Rapaz, eu fui no comício ontem à noite. Disseram que ia ser fraco, mas a praça estava ‘assim’ de gente!"  
 
O gesto, pela convergência das pontas dos dedos, indica quantidade e aglomeração. É semelhante ao gesto que em outros lugares do Brasil os motoristas fazem uns aos outros, durante o dia, para alertar que o outro está com os faróis acesos, por distração.  Nesse caso, o gesto significa os raios de luz, e o piscar do farol.  Durante muito tempo, toda vez que eu via esse gesto nas avenidas ou nas estradas, pensava que queria dizer "o trânsito está ‘assim de’ gente lá atrás”.  
 
“Castigo”. Geralmente exprime uma grande quantidade de pessoas. Usa-se muitas vezes para exprimir o lado incômodo da presença de muita gente. 
 
"Detesto ir num Banco no dia 1º do mês, é aquele castigo de gente, cada fila enorme."  
 
"Pensei em ir na praia ontem, mas quando vi aquele castigo de gente passando nos ônibus acabei desistindo."  
 
Esse lado negativo expresso por “castigo” está presente também em “um horror”. 
 
"Passei três meses viajando, quando cheguei em casa tinha um horror de contas pra pagar." 
 
Embora também seja usado sem necessariamente dar uma idéia negativa. 
 
“ -- Aí pronto. O velho é assim.  Senta, paga um horror de uísque, me dá dinheiro e vai embora.” 
(Ricardo Soares, Nadir, pág. 127)
 
“Dar no meio da perna” (ou “... da canela”) é uma boa imagem visual.
 
“Rapaz, a festa foi demais, o uísque dava no meio da perna.” 
 
“De cambão aparece em linguagem de jogadores, em qualquer tipo de esporte ou de jogo, para indicar uma vitória de goleada, ou por grande diferença. 
 
“Eles disseram que iam armar o melhor time de todos, mas estão apanhando de cambão toda vez que jogam.”

“Em banda de lata” é outra imagem visual, se bem que na minha cabeça eu não entendo muito porque as bandas-de-lata implicam em grande quantidade. Enfim; usa-se muito, ainda hoje. 
 
"Rapaz, eu fui na festa de Fulana ontem, tinha gente em banda de lata."  
 
"No dia em que fizerem uma devassa no ECAD, vão prender gente em banda de lata." 
 
“Lote” e “magote” são palavras aparentadas não só pela rima, mas pela função: indicam em geral uma porção de gente, mas sempre com um viés desdenhoso ou pejorativo. 
 
“Ele chega de madrugada em casa com um lote de cachaceiros, acorda a mulher, e manda fazer comida pra todo mundo”. 
 
“Aquilo não é uma família, é um magote de desordeiros.”   
 
Certa vez, Martins Preto chegou à Fazenda Bonfim, onde seu filho, Pedro Martins, era o vaqueiro de maior confiança, procurou o proprietário, Antônio Nunes, e disse: 
-- Seu Antônio, eu estou muito aperreado porque Joaquim Aragão quer tomar minha terrinha e eu não sei o que vou fazer para sustentar o magote de moleque que eu tenho. 
(Pedro Nunes Filho, Guerreiro Togado, pag. 342)
 
“Outro tanto” exprime a mesma quantidade que acaba de ser mencionada.  
 
“Ele disse que Fulano vai pagar dois mil, e o pai dele outro tanto, para ajudar na sua operação.”   Também se diz “o mesmo tanto”. 
 
Quanto mais eles andavam
menos saíam do canto
porque o chão dessa ponte
avançava o mesmo tanto,
e eles não prosseguiam
pela força desse encanto.
(Braulio Tavares, A Pedra do Meio Dia, ou Artur e Isadora)
 
“Paiol” me parece um termo tipicamente paraibano, nunca vi sendo usado em outro lugar além de Campina Grande. 
 
"Eu não vou poder ir não, que estou com um paiol de coisas pra fazer nesse fim de semana."    
 
“Ruma” é termo bem antigo, e tem o sentido imediato de  monte, montanha, elevação de terra, com a conotação de grande quantidade.  
 
"Eu estou com uma ruma de provas pra corrigir em cima da mesa."    
 
Galinha põe todo dia
invez de ovos, é capão,
o trigo invez de semente
bota cachadas de pão,
manteiga lá, cai das nuvens
fazendo ruma no chão.
(Manoel Camilo dos Santos, Viagem a São Saruê)
 
Quando o chão está molhado
aparecem coisas boas:
se levantam cogumelos
que as capas parecem broas;
os sapos chocam de ruma,
bordam com cachos de espuma
os cenários das lagoas.
(Sebastião Dias, cit. em De repente, cantoria, de Geraldo Amâncio e Wanderley. Pereira, pág. 120)
 
“Só isso tudo?!” é uma exclamação irônica quando a gente se surpreende com algo além da conta, maior que as expectativas. Uma combinação de “Só isso?” com “Isso tudo?”. 
 
“-- Fulano, me empresta duzentos reais.  -- Só isso tudo?  Tá pensando que eu sou o Banco do Brasil?”   
 
“Só isso tudo?  Eu disse que gosto de doce de leite, mas se eu comer esse prato aí eu vou parar no hospital”. 
 
“Tem coisa que dá uma guerra” é um equivalente para “tem muita coisa, tem coisas demais.” 
 
“Na casa dele tem livro que dá uma guerra”. 
 
“Naquela novena de ontem tinha gente que dava uma guerra.”
 
A renovação constante da língua se dá por esta necessidade de inventar novas palavras ou novas expressões comparativas para exprimir idéias comuns. Ninguém aguenta passar anos a fio dizendo as coisas sempre do meso jeito. Ou melhor – muita gente aguenta, mas muita gente, também, procura criar uma maneira mais exagerada, mais visualmente vívida, mais forçosa, mais surpreendente, mais engraçada... 
 
É uma forma incipiente de criação literária, porque a literatura não consiste apenas na contação de histórias, envolve também o enriquecimento dos modos-de-dizer. Esse vocabulário do concreto é um desafio permanente para as pessoas que são verbalmente inventivas – e que tantas vezes, vejam só, são pessoas de baixa escolaridade, mas muita habilidade verbal. 
 
 
 
 
 
 



quarta-feira, 12 de fevereiro de 2025

5152) Um paraibano na Copa do Mundo (12.2.2025)




 
Ser o primeiro jogador paraibano a disputar uma Copa do Mundo é algo tão importante quanto ser a primeira atriz brasileira (ou a segunda) a ser indicada para o Oscar. 
 
No resto do mundo, fora do “universo de interesse”, fora dessa bolha (por maior que seja, é uma bolha), pode não ter a menor importância; mas só quem chega a esse patamar sabe a ladeira que subiu. 
 
A verdade é que se um filme brasileiro ganhar um Oscar ou um escritor brasileiro ganhar um Prêmio Nobel todo brasileiro (=um grande número de brasileiros) se sentirá implicitamente valorizado por essa premiação. Um pouco dessa glória choverá sobre nós, que compartilhamos com o premiado um parâmetro dos mais importantes: somos do mesmo país, do mesmo caldo cultural. 
 
Me lembro do que dizia Jorge Luís Borges: “Talvez algum átomo de oxigênio que eu respiro agora já tenha sido respirado por Shakespeare”. 




 
Se Fernanda Torres (que eu admiro muito) ganhar um Oscar, tenho o direito (poético) de imaginar que uma raspa da estatueta dourada choverá sobre meus cabelos, e poderei espalhá-la com o pente. Serei (poeticamente) oscarizado também. 
 
Se em vez da atriz for premiado o filme, comemorarei também. Meus amigos do-contra escarnecerão: “Ah, está comemorando vitória de um bilionário? Você não diz que combate eles?...” Em primeiro lugar, não combato bilionários, combato os mosquitos da dengue, uma luta onde pelo menos posso contabilizar relativas vitórias. E se a categoria “poder aquisitivo” me distancia do bravo Walter, somos aproximados pela categoria “colaborador-na-construção-da-muralha-da-China-levemente-absurdista-que-é-o-cinema-brasileiro,-uma-indústria-em-país-ocupado”. Fica uma coisa pela outra. 
 
Uma exposição que se abriu hoje em João Pessoa (Manaíra Shopping, em frente à Livraria Leitura) celebra o jogador Índio, do Flamengo, hoje meio esquecido pela imprensa e pela torcida. É compreensível. Eu mesmo, que sou paraibano, sou flamenguista, e ainda tenho o cacoete das estatísticas de futebol, lembrava o nome dele, mas somente como atacante do Flamengo, nem lembrava dessa passagem pela Seleção.
 
E hoje cá estou eu, cheio de orgulho retroativo, imaginando como eu-menino teria me sentido, se na infância longínqua tivesse sabido que ele era paraibano. 



(Índio, com a bola, entre Evaristo de Macedo e Didi)


A exposição é organizada por Fábio Henrique Alves, também autor da biografia Índio, o Herói de 57 (Livros De Futebol, 2022), e de um documentário sobre o jogador. 
 
Quando Índio teve seu auge no futebol, no Flamengo, em meados dos anos 1950, eu nem era gente ainda. Pelo clube rubro-negro ele realizou (entre 1951 e 1957) 202 jogos e marcou 134 gols. 
 
Meu pai colecionava revistas de futebol, entre elas a inesquecível Manchete Esportiva, e foi ali que ouvi falar em Índio pela primeira vez. Não sabia que era paraibano e, pensando bem, talvez se soubesse não tivesse dado importância. Quando eu era menino, Campina Grande e o mundo eram uma coisa só. 



(A batalha de Berna: Hungria 4x2 Brasil) 

 
Há dois grandes momentos na carreira de Índio na Seleção. Ele jogou na partida conhecida como “a Batalha de Berna”, na Copa da Suíça em 1954, quando o Brasil foi eliminado pela Hungria, num jogo de muitos pontapés, algumas expulsões, que terminou 4x2 para os húngaros. 
 
O segundo momento foi em abril de 1957. O Brasil disputava um mata-mata contra o Peru. Quem ganhasse iria à Copa da Suécia em 1958. No primeiro jogo, em Lima, o Brasil conseguiu empatar por 1x1, com gol de Índio; e classificou-se na volta com 1x0, no Maracanã, graças a uma folha-seca de Didi. 




Eu soube de tudo isto lendo na Manchete Esportiva, que meu pai encadernava. Já com 12 ou 13 anos, eu sentava na poltrona com um volume ao colo (era uma revista grande, maior que a Piauí) e ia descobrindo o imprevisível passado. 
 
Índio nasceu em Cabedelo em 1931, morreu no Rio de Janeiro em 2020, aos 89 anos. Além do Flamengo, jogou no Corinthians e no Espanyol (Barcelona). 




 
Toda vez que eu, como torcedor do Flamengo, via um jogador nordestino vestindo aquela camisa, sentia um orgulho particular, semelhante ao que muitos fãs do cinema brasileiro sentem quando veem Rodrigo Santoro, Sonia Braga ou Selton Mello trabalhando em grandes produções internacionais. Eu lembrava logo o alagoano Dida, o alagoano Zagalo, o sergipano Nunes, o paraibano Júnior, sem falar em vários baianos, desde Júnior Baiano até Hernane “Brocador”.  

E, é claro, o cearense Everton Cebolinha, o maranhense Wesley, e o potiguar Ayrton Lucas (“acelera, Ayrton!”). 
 
Aqui, no “Baú do Esporte” da TV Globo, uma entrevista com Índio, aos 81 anos, e imagens raras de um Flamengo x Vasco em que ele marca gol.
https://www.youtube.com/watch?v=70JfW_T9ilQ
 
A exposição ‘Índio – O Primeiro Craque’ será realizada no Manaira Shopping (em frente a Livraria Leitura), de 12 a 16 de fevereiro, das 14h âs 20h. A Realização é do Manaira Shopping e TV Cabo Branco, afiliada da Rede Globo, na Paraíba. A exposição terá uma série de objetos utilizados pelo ex-jogador durante a sua trajetória no futebol, acervo de Fábio Henrique Alves.
 




sábado, 3 de agosto de 2024

5088) Leituras 2024 - parte 2

 
Em geral faço no fim do ano estes pequenos balanços de minhas leituras, mas desta vez vou fazer diferente. Até porque quando chega dezembro tenho dificuldade para evocar detalhes de livros lidos nos primeiros meses... Enfim, vai ser desse jeito. 
 


“Um estranho tão familiar” de George Amaral (São Paulo: Bandeirola, 2023)

Dentro dos estudos sobre literatura fantástica, este ensaio de George Amaral usa o conceito de “estranheza” para comparar as estratégias narrativas de diferentes gêneros literários. Em capítulos claros e bem argumentados, vemos a “ostranenie” dos formalistas russos, o “distanciamento brechtiano” no teatro, o “uncanny” (“Unheimlich”) estudado por Freud, o “estranhamento cognitivo” com que Darko Suvin definiu a ficção científica... Em todas essas formas, a tentativa de “acordar” o leitor/espectador de sua modorra mental, fazê-lo ver algo familiar como se o estivesse vendo pela primeira vez, fazê-lo perceber, por uma nova contextualização (que no caso da FC pode envolver mudanças bruscas no Tempo e no Espaço) a verdadeira dinâmica dos fatos. 



 “Giacomo Joyce” de James Joyce (Paris: Gallimard, 1973, trad. Yves Malartic)

Oscar Wilde dizia ser capaz de resistir a tudo, menos a uma tentação; eu não resisti quando vi na barraquinha de livros da Praça Afonso Pena esta tradução francesa da noveleta romântica de Joyce, pelo preço bastante acessível de 3 reais. “Giacomo Joyce” é uma narrativa compacta, cheia de um lirismo distanciado, com olhos de lince para detalhes do ambiente e dos gestos humanos. Foi escrita entre 1911 e 1914, antes que o autor embarcasse no gigantesco projeto do Ulisses, e conta a paixão reprimida de um autobiográfico professor de inglês, em Trieste, por sua jovem aluna judia. Mais que uma narrativa é o registro impressionista de quadros sucessivos em que o professor rumina consigo mesmo seu encantamento pela “flor inodora” com quem convive. “Giacomo Joyce” já foi traduzido no Brasil por Paulo Leminski (Ed. Brasiliense, 1985) e por José Antonio Arantes (“Folhetim”, Folha de S. Paulo, 10-6-1984). É um pequeno camafeu, comparado à catedral do Ulisses, cheio de delicadas belezas e de surpresas intrigantes. 



“Riacho escuro” de Marta Pessoa (Sete Autores, 2024)

A literatura sertaneja se confunde às vezes com o gênero das “sagas familiares”, que se pratica em todos os continentes. Histórias de uma família ao longo de décadas e gerações; às vezes ao longo de séculos. Marta Pessoa (“Zignau”, “É Tempo de Cuidar”) é sertaneja e conhece de perto o peso desses vínculos de sangue, cartório, terras, lealdades, paixões e ódios. “Riacho Escuro”, seu primeiro romance, começa com o desaparecimento do filho de um fazendeiro e vai entrelaçando, ano após ano, uma rede de intrigas, vinganças, segredos e revelações. A prosa é segura e precisa, a ambientação é fiel sem carregar nas tintas do “nordestinismo”. Alguns dos segredos revelados são cruéis, mas como diria algum personagem, cruel é a vida. 



“Memorial do Esqueleto e Outros Contos” de Aldo Lopes de Araújo (Natal: Offset / Sebo Vermelho, 2024)

Aldo Lopes é contista e romancista no mesmo tecido e no mesmo corte. Igualmente à vontade na ambientação urbana e na rural, no realismo lógico e no realismo mágico, ele faz do Sertão um terreno fértil para o insólito, o grotesco, o brutal. Neste seu mais recente volume de contos, ele remexe no baú-sem-fundo das histórias de assombrações, superstições, maldições de família, onde reescreve episódios incrustados em nossa memória cultural, desde Machado de Assis (“Uns braços”) à Bíblia (“Estátuas de Sal”, “Adeus, Deus”). “A maldição de Princeza” é um gótico sertanejo arrepiante; “Memorial do Esqueleto” traz uma versão meio fescenina da lenda do homem que vende o próprio esqueleto antes de morrer. Duas histórias curtas têm uma concisão e um peso verbal admiráveis: a que abre o livro (“O gancho do teu braço em meu pescoço”) e o que o encerra (“Arquivos dos portais”). 



“Se um Viajante numa Noite de Inverno”, de Ítalo Calvino (1979; Círculo do Livro, s/data, trad. Margarida Salomão)

Este é um livro que sozinho rende um ano de Mundo Fantasmo, e certamente voltarei a ele no futuro. Calvino é um fabulador, bom contador de histórias, e consegue fazer um livro cheio de conceituações sobre o ato de escrever sem torná-lo um livro chato. Aqui, ele realiza seu sonho confesso de fazer um livro só feito de começos de livros. Um casal de leitores se depara com um livro misterioso cujo meio-e-fim estão sempre faltando, e cada vez que adquirem uma cópia se deparam com o “começo” de um novo livro, que também não acaba. Calvino discute fake news (sem usar esse termo – o livro é de 1979), literatura eletrônica, tradução, picaretagens editoriais, idiomas em desaparecimento, a arte da narrativa... Um livro para passar a vida relendo. 



“Traduzir-me”, de João Batista de Brito e Sérgio de Castro Pinto (João Pessoa: Idéia, 2024)

Este volume feito a quatro mãos é uma aventura tradutória de João Batista de Brito, crítico de cinema com respeitável carreira e vários livros publicados. Ele fez uma seleção de poemas de Sérgio de Castro Pinto, outro nome indiscutível nas letras paraibanas, e os verteu para o inglês. Os versos de Sérgio, curtos, sintéticos, extremamente concisos, parecem à primeira vista fáceis de traduzir.  Ledo engano, diz João Batista, porque o jogo de polissemias, que é uma das marcas características do poeta se esvai o tempo inteiro na tradução, onde dificilmente se pode encontrar uma palavra que contenha em si as mesmas duas faces. Ainda assim, o tradutor encontra caminhos e produz versões agudas, sólidas. Falei que era um livro a quatro mãos mas poderia dizer seis, porque um terceiro amigo se faz presente, o artista Flávio Tavares, com uma série de desenhos inspirados (não sei se todos) nos poemas escolhidos. O jornalista e poeta Astier Basílio assina o prefácio, o que torna este pequeno volume um instantâneo da cultura da Paraíba neste começo de século.  



“A exumação do corpo de Maria Saraiva de Araújo – Tramas e intrigas na Vila Nova de Pombal do século XVIII” de Jerdivan Nóbrega de Araújo (João Pessoa: Idéia, 2024)

A cidade de Pombal é, na Paraíba, uma das que têm sua história, memória e cultura mais bem documentadas, graças a um punhado de historiadores e memorialistas como Jerdivan Nóbrega de Araújo, José Tavares de Araújo e Werneck Abrantes. Em parceria ou isoladamente eles vêm cobrindo sem cansaço o passado histórico da cidade, seja numa visão geral da evolução desta, seja no registro de fatos e vultos específicos. “A exumação...” é o relato fascinante de um possível crime ocorrido em 1784, com a morte de Maria Saraiva, esposa do capitão-mor Francisco de Arruda Câmara, um potentado local com muito poder e numerosos inimigos. Depois de sepultada a defunta, brotaram boatos de que ela teria sido envenenada pelo marido, o que deu motivo para um inquérito, a convocação de dezenas de testemunhas e a exumação do corpo da suposta vítima. A reconstituição minuciosa feita por Jerdivan Nóbrega se apoia na transcrição de documentos da época e na comparação de fatos e depoimentos para extrair uma versão plausível dessa morte misteriosa, que já tem quase dois séculos e meio. É uma mistura de reportagem de crime real  e reconstituição histórica, mais um episódio fascinante (às vezes brutal) e bem documentado do passado da cidade sertaneja. 

 

 

 



segunda-feira, 6 de maio de 2024

5059) O falatório nordestino (6.5.2024)




(Corbiniano Lins, "Monumento aos Pioneiros", Campina Grande)

Acho oportuno lembrar que estas minhas compilações de palavras e expressões não têm o objetivo de afirmar que elas têm origem no Nordeste, ou na Paraíba, etc.  São expressões da minha linguagem afetiva, que ouvi pela primeira vez na infância ou adolescência, e depois descobri serem um tanto raras, principalmente na linguagem escrita. Claro que não são exclusividade do Nordeste. Fazem parte de um Nordeste que é só meu, mas que me dá prazer compartilhar com quem se interessa. 
 
 
Às folhas tantas
Expressão usada, geralmente pelas pessoas mais velhas, para dizer: "em dado momento...  foi então que..."  Entra na narrativa para indicar um sentido de passagem de tempo, de que houve uma certa duração entre o que houve antes e o que vai ser narrado a seguir.   "Eles entraram no bar e ficaram conversando, comeram alguma coisa... Às folhas tantas, Fulano tocou no assunto do pedido de emprego."    
 
Imagino que há uma relação com a expressão muito frequente no linguajar dos cartórios: "Está registrando no Cartório Tal, livro 16, às fls. 27-28..."    Neste caso, a intenção é apontar um local preciso, enquanto a expressão anterior simplesmente indica transcurso de tempo.  Eis um exemplo típico de como uma utilização pode ter acabado dando origem à outra: 
 
Até dois amigos mais íntimos de Mary McCarthy se surpreenderam com suas maravilhosas (e mal organizadas) memórias, ao contar que chifrou fartamente todos seus conhecidos amantes e maridos.  Às folhas tantas se pergunta se é promíscua, porque dormiu com quatro homens no espaço de tempo de 24 horas. 
(Paulo Francis, O Globo, 29-6-1995) 
 
 
Deforeta
“Tomar uma deforeta” (pronúncia: "deforéta") é dar uma relaxada, descontrair um pouco, descansar, ir à janela ou ao terraço para respirar um pouco de ar puro.  “Faz três horas que a gente está pegado com esse trabalho...  Vamos dar uma paradinha e tomar uma deforeta, daqui a pouco a gente volta.”   Quando éramos garotos, minha irmã Clotilde sentenciava: “Deve ser uma corruptela de diaforético”.  Indagada sobre o que seria isso, ela respondia: “Não sei, mas parece nome de remédio”.  Na verdade, "diaforético" diz-se de algo que provoca a transpiração.  Variante: "deforéte". 
 
O senhor de engenho, por sua vez, estagnava na rotina e na indolência.  Sair da rotina era coisa que parecia exceder de todo a sua capacidade de ação.  A indolência do corpo não era menor que a do espírito.  Durante o dia tirava largos deforetes na rede da sala ou, deitado sobre montes de bagaço, espiava pachorrentamente o engenho moer. 
(Horácio de Almeida, Brejo de Areia, pag. 106) 
 
 
Pabulagem
Jactância; hábito de contar vantagem.  “Não venha com pabulagem não, que todo mundo aqui sabe que você é muito do mentiroso”.  Existe o verbo “se pabular”: “O papo estava até bom, mas depois de uma certa hora Fulano começou a se pabular, contando riqueza, aí eu enchi o saco e vim embora”. 
 
De que serve o senhor se pabular
que só conta grandeza e valentia
já mostraste a tua covardia
e vai correndo com medo de apanhar
se fugires, eu corro até pegar
a minha volta ninguém se livra dela
com uma mão no peito e outra na goela
mas se o bruto salvar-se dessa vez
eu pego ele, tranco no xadrez
e o Pelado servirá de sentinela. 
(João Martins de Athayde, Peleja de João Athayde com Raimundo Pelado do Sul
 
Vai dormir, que teu mal é sono
Expressão brincalhona que se usa em várias ocasiões: quando a pessoa está de fato sonolenta; quando está de mau humor, sem motivo; quando está perturbando o sossego dos outros.  "Cala essa boca, menino, deixa a gente acabar de ouvir a história!  Vai dormir, que teu mal é sono!" 
 
Já peguei Josué na Catingueira
uma noite de São João numa novena
meia-noite o rapaz fazia pena
deu-lhe frio levantou-lhe até coceira
quis meter-se debaixo da fogueira
ficou logo sem sentidos, descorado
não podia estar em pé e nem sentado
eu lhe disse: "vá dormir, seu mal é sono
vá sabendo, no sertão só tem um dono
é Carneiro, este velho seu criado." 
(João Martins de Athayde, Peleja de Serrador com Carneiro) 
 
“Mulher, vem pra dentro que teu mal é sono!  Vem, pra dentro,
vem!  Vem, que teu mal é sono, e o meu também!” 
(Ariano Suassuna, A Farsa da Boa Preguiça, Ato I) 
 
 
Todo mundo quer ser bom, e a lua falta um pedaço
Equivale a: "Não há quem não tenha algum defeito".  Observe-se que a grafia mais correta será com acento grave: "...e à lua falta um pedaço".  Há variantes, como: 
 
Na propriedade alheia
outro de fora não manda.
Todo mundo quer ser bom
a lua falta uma banda.
E um dos meus carneirinhos
quem sabe em que lugar anda! 
(Severino Pinto, cit. em Um século e meio de repentes, de Edvaldo Muniz de Melo, pág. 97)
 
 
Não se cresça!
O mesmo que “Não se atreva!  Não se meta a besta!”  Usa-se geralmente no imperativo.  “Olhe, Fulano, você não se cresça comigo não, porque amizade tem limite.” 
 
Dizia o príncipe ao anão:
Vou abrir sua cabeça,
O anão dizia: príncipe
É melhor que se esmoreça
Se renda logo à prisão
Fique calmo e não se cresça
(Minelvino Francisco da Silva, “O filho de João Acaba-Mundo e o Dragão do Reino Encantado”, em Minelvino Francisco da Silva, pag. 102)
 
Pegado
Vizinho; diz-se de moradias. “Eu estou indo morar pegado com a casa de Seu Fulano”.  Variante: “encostado”. 
 
-- Essas duas casas são pegadas ao casarão onde o senhor mesmo mora?
-- São sim senhor!
-- É verdade que elas se comunicam por portas internas?
-- É sim senhor!
-- Sua casa é pegada, pelo outro lado, ao prédio da Biblioteca que o senhor dirige?
-- É sim senhor!  A Biblioteca fica na esquina.  Depois, do lado direito e pegada com a Biblioteca, fica minha casa.  Depois, pegada à minha pelo lado esquerdo, vem a casa do Professor Clemente.  E finalmente, pegada à de Clemente, fica a casa do Doutor Samuel. 
(Ariano Suassuna, Romance da Pedra do Reino, pag. 272)
 
Olhe a boneca!
Exclamação de zombaria que se usa quando alguém vem nos anunciar uma novidade que já é do conhecimento de todos.  “-- Minha gente, vocês não sabem da maior...  O Papa morreu!  -- Olhe a boneca!   Deu na TV faz mais de meia-hora.”   Vem acompanhada de um gesto -- a pessoa que dá a resposta agarra um pedaço de pano, geralmente da própria roupa, e o exibe ao “dono da novidade”, como se mostrasse uma boneca.
 
 
 





quinta-feira, 18 de abril de 2024

5053) Drummond: "Outubro 1930" (18.4.2024)




Entre os poemas do livro de estréia de Carlos Drummond (Alguma Poesia, 1930), este longo poema parece se destacar de todos os demais, e ao mesmo tempo permanecer invisível. Certamente estou “comendo mosca” estes anos todos, mas de tantas análises e críticas que já li sobre a poesia de Drummond lembro de pouquíssimas menções a “Outubro 1930”. 
 
É um poema um tanto longo, embora distante de ser um dos mais longos de Drummond. É um dos mais longos deste livro, contudo, e sua principal característica é a sua forma heterogênea, aparentemente desconjuntada. Uma estrutura quebrada, feita (propositalmente) de pedaços que parecem apenas se justapor uns aos outros, sem se encaixar com justeza. 



De propósito, é claro. O mês de outubro de 1930 foi o mês da famosa “Revolução de 30” que derrubou o governo de Washington Luís e levou Getúlio Vargas a passar 15 anos no poder. (Depois ele voltou, mas é outra história). A gota dágua, o fato desencadeador desse conflito militar foi o assassinato do “presidente” (governador) da Paraíba, João Pessoa, morto pelo seu desafeto João Dantas em 26 de julho. 
 
Estes fatos se articulam de maneira especial com a obra de Drummond, nesse tempo um poeta inédito de 28 anos (que ele completaria em 31 de outubro). 
 
Na “Cronologia” que figura em sua Obra Completa da Ed. Aguilar (1967), lê-se, no item referente a esse ano: 
 
Auxiliar de gabinete de Cristiano Machado, Secretário do Interior, ao irromper a Revolução de Outubro, que transforma aquela paragem burocrática em centro de operações militares; passa a oficial-de-gabinete, quando seu amigo Gustavo Capanema substitui Cristiano Machado. 
 
Drummond pegou em armas, no conflito? Certamente que não. O poema fala nas mortes, nos soldados, nas trocas de tiros, mas as imagens autobiográficas provavelmente são trechos assim: 
 
(...)
De 5 em 5 minutos um ciclista trazia ao Estado-Maior um feixe de telegramas contendo, comprimida, a trepidação dos setores. O radiotelegrafista ora triste ora alegre empunhava um papel que era a vitória ou a derrota. Nós descansávamos, jogados sobre poltronas, e abríamos para as notícias olhos que não viam. olhos que perguntavam. Às 3 da madrugada, pontualmente, recomeçava o tiroteio. 
 
É a rotina dos que, distantes das trincheiras, se encarregam das comunicações. Alguém já disse (nesse contexto bem século 20) que, na guerra, um telegrama na hora certa vale tanto quanto uma bala no lugar certo, e é verdade.  Drummond é o “funcionário deitado” a que ele próprio se refere; e seu poema, mesmo com as habituais ironias de jovem irreverente, tem o tom de quem está dentro dos acontecimentos, e não apenas observando-o de fora. 



(Recife, 1930)
 

Há um trecho especialmente real e tocante, um desses “flashes” que dispensam teorizações e mostram a crueza da guerra, como um Gif-animado em que vemos a mesma cena brutal, sem som, repetindo-se indefinidamente: 
 
Olha a negra, olha a negra,
a negra fugindo
com a trouxa de roupa,
olha a bala na negra,
olha a negra no chão
e o cadáver com os seios enormes, expostos, inúteis.
 
Morte gratuita, no meio da rua, que pelo menos a mim traz à lembrança uma cena famosa do cinema, a morte da personagem de Anna Magnani em Roma, Cidade Aberta (1945), de Roberto Rossellini. 
 
Aqui, a cena:
https://www.youtube.com/watch?v=FNnSUpm7CgM
 
Além do estado de guerra, emerge do poema um sopro de alerta histórico e geográfico, a sensação de “um Brasil se fazendo”, um país sendo consertado na-marra por quem se impacientou com sua situação até há pouco. Surge aqui, talvez pela primeira vez, uma imagem recorrente nos primeiros livros de Drummond: a enumeração de nomes de lugares, nomes talvez exóticos, de localidades remotas, mas que se somam uns aos outros e pressionam o poeta, como que dizendo: “Nós também somos Brasil.” 
 
A esta hora no Recife,
em Guaxupé, Turvo, Jaguara,
Itararé,
Baixo Guandu,
Igarapava,
Chiador,
homens estão se matando
com as necessárias cautelas.  
 
São os nomes que chegam nos telegramas. A guerra civil torna-se uma forma curiosa de irmanação patriótica, em que o poeta sente-se confusamente unido às pessoas desses lugares, de alguns dos quais certamente nunca ouvira falar antes da chegada dos telegramas de campanha. 
 
O poema tem um registro irregular, onde a agulha salta da angústia para a ironia, da compaixão para o desinteresse, e se encerra com um sentimento arraigado no poeta, uma mistura de ceticismo e resignação: 
 
Deus vela o sono e o sonho dos brasileiros.
Mas eles acordam e brigam de novo.
 
Fiquei sabendo que este poema apareceu apenas a partir da 2ª. edição do livro, e só então sua presença se encaixou no meu entendimento, porque me parece (não tenho informações mais precisas) que Alguma Poesia teve sua primeira edição antes do conflito armado. A “Cronologia” da Aguilar registra assim: 
 
1930.  Publica Alguma Poesia (500 exemplares), sob o selo imaginário de Edições Pindorama, criado por Eduardo Frieiro. A edição é facilitada pela Imprensa Oficial do Estado, mediante desconto na folha de vencimentos do funcionário. Amigos oferecem-lhe um jantar comemorativo, em que é saudado por Milton Campos. 
 
Do ponto de vista da técnica, o mais interessante deste poema é que ele, sozinho, inaugura na obra de Drummond um formato fragmentado a que o poeta iria recorrer várias vezes no futuro. Não se trata apenas de um poema longo (Drummond gosta de poemas longos), mas de um poema heterogêneo, composto de partes que do ponto de vista formal têm pouca relação entre si. 
 
“Outubro 1930” mostra, alternadamente, estrofes em verso e trechos em prosa. O verso não obedece a métrica fixa, mas reitera em cada linha uma extensão regular – é verso com intenção de verso, para maior contraste com o trecho seguinte, uma série de frases em prosa que parecem querer rebentar a camisa-de-força do verso para comunicar de forma instantânea a urgência dos acontecimentos. 
 
Esse tipo de estrutura heterogênea, misturada, irregular, tem a ver com uma certa concepção do poema que podemos talvez chamar de “cubista”, lembrando o costume de artistas como Pablo Picasso ou Georges Braque de colar, sobre a pintura a óleo, fragmentos meio aleatórios de folhas de jornal, fotografias, papéis de embrulho, provas tipográficas...  


(Picasso, Garrafa de Vieux Marc, Copo, Violão e Jornal, 1913)

 
Era uma pintura invadida e interferida por fragmentos indisciplinados do mundo moderno, “ruídos” que irrompem no interior da estrutura pacífica, milenar, da pintura clássica. Aqui, dá-se o mesmo com a poesia, cuja estrutura é forçada a assimilar a prosa não-poética do mesmo jeito que a sociedade era forçada a assimilar a guerra civil. 
 
Drummond continuou, ao longo da vida, a explorar esses poemas longos em que se misturam, como em colagens cubistas, poesia metrificada, prosa, poesia livre, trechos de diálogo, transcrições de documentos reais ou fictícios... 

Há bons exemplos da riqueza de recursos desse método em poemas como “O voo sobre as igrejas” (Brejo das Almas), “Nosso tempo” e “América” (A Rosa do Povo), “Os bens e o sangue” (Claro Enigma), “A um hotel em demolição” (A Vida Passada a Limpo) e certamente muitos outros. 



 




segunda-feira, 15 de janeiro de 2024

5022) A palavra gole (15.1.2024)




 
Um dos melhores sinônimos de literatura é a expressão popular “palavra puxa palavra”, porque as palavras nunca estão soltas. Estão presas umas às outras, como as contas de compridos colares que não acabam nunca, ou como os átomos que se prendem uns aos outros em moléculas. Você pega um deles com cuidado, quer somente ele, puxa devagarinho com a pinça... e todo o resto vem junto. 
 
Dias atrás eu estava lembrando dos tempos de farra lá em Campina Grande. Nessa época a nossa cachaça preferida era a Casa Grande, alternativa contestatória à predominância econômica da Caranguejo, fabricada às margens do Açude Velho. 
 
A gente estava num bar (não lembro qual) cujo dono se orgulhava de ter algumas cachaças especiais. Um conhecido nosso (não me lembro quem) tinha terminado de enxugar sozinho uma garrafa de Casa Grande, aí o dono do bar disse: 
 
-- Tou vendo que você aprecia a boa cachaça. Eu tenho uma cana-de-cabeça aqui que é do engenho do meu tio, é melhor do que Rainha. Quer provar?... 
 
Era uma provocação, porque o camarada já estava pra lá do meridiano 35, mas na voz de cana-de-cabeça ele se empertigou, focalizou o olhar, hesitou um pouco e, erguendo dois dedos no ar, imitando o gesto do Prof. Raimundo, de Chico Anysio, concedeu: 
 
-- Quero. Mas só um góipizim...
 
Palavra puxa palavra, e nesse mesmo dia eu lembrei outro fato. Na nossa casa do Alto Branco minha mãe dispunha de uma milícia informal de ajudantes domésticas que vez por outra prestavam algum serviço lá em casa. Eram as mulheres humildes que moravam espalhadas pela vizinhança, muitas delas nas casinhas de barro que ficavam por trás do muro do nosso quintal. Um lumpen-matriarcado composto de lavadeiras, engomadeiras, cozinheiras, arrumadeiras, prestadoras de serviços gerais que Mãe às vezes contratava com salário por alguns meses, e em outros momentos apareciam num dia de tarefa específica. 
 
E um dia eu estava zanzando por dentro de casa quando surge à porta dos fundos uma delas, trazendo à cabeça uma pesada trouxa de roupa lavada. Era um dia quente, de sol forte. Mãe a ajudou a botar a trouxa em cima da mesa e disse: 
 
-- Que calor, hein, Dona Maria?... Quer uma agüinha?...
 
E ela disse:
 
-- Só um góipizim, Dona Cleuza... 
 
Um góipe significa um golpe – e para mim era óbvio que um golpe significa um gole
 
As palavras são invisíveis para as pessoas que as usam sem prestar atenção. Eu sou daquele clube para quem elas são mais do que visíveis: são concretas, palpáveis, têm peso e dimensões, têm história e geografia, e, como dizia Guimarães Rosa, “têm canto e plumagem”. 
 
Não me passou despercebido que nas histórias em quadrinhos, toda vez que um personagem “engole em seco” (por nervosismo, constrangimento, etc.) a onomatopéia projetada no espaço é GULP!  E meu inestimável “Webster/Houaiss”, adquirido em 1987 quando comecei a traduzir para a Ed. Record, logo me informou que “to gulp” é de fato “engolir”. 




“Góipe” é uma corruptela de “golpe”, de “gulp”, de “gole”. Vale destacar que a lavadeira de minha mãe, quando usou essa palavra, o fez sem afetação alguma; era a palavra que ela conhecia, num contexto de conversa amigável com uma pessoa de sua convivência. E quando o bêbo aceitou a dose de cana-de-cabeça, usou a corruptela “góipizim” de forma espirituosa, como um gracejo. Ele não falava assim em sua vida normal. Era um daqueles professores jovens do Campus II da UFPB que no fim das manhãs de sábado iam para o Caldo de Peixe tomar umas e outras, e discutir tropicalismo, marxismo, armorialismo. 
 
Adivinhar as origens das palavras e os parentescos entre elas nunca é trabalho jogado fora, para quem quer ser jornalista, escritor, tradutor. Essa mania muitas vezes nos leva a cometer enganos, iludidos por semelhanças superficiais. (Dias atrás, comentei aqui minhas tentativas frustradas de descobrir se a palavra “obrigado” vinha do verbo “brigar”; não vem.) E pode nos proporcionar também uma diversão extra – inventar etimologias fictícias para uma palavra qualquer. 
 
Mas... voltando ao tema principal, como num sinfonia: de que maneira a palavra “golpe” adquiriu a pronúncia popular “góipe”? É um processo lento e sujeito às influências do Acaso, mas que pode ser rastreado. A Linguística tem certamente um termo específico para esse tipo de erosão fonética, ou de amaciamento sonoro. É algo que pode inclusive ser previsto, quando imaginamos como pode ser nosso idioma a 200 anos no futuro; e pode ser deduzido retroativamente, se nos projetarmos 200 anos no passado. 
 
Há uma certa tendência (corrijam-me os linguistas) amolecendo esse som de “L” (e às vezes de “LH”) num “I” que flui mais solto quando articulado em voz alta. (Lembrem-se, nada aqui tem a ver com letras escritas; estamos falando de sons.) 
 
Quando um nordestino pede na feirinha livre “um mói de coentro” ele está pedindo “um molho de coentro”. Quando ele diz que “Isso aqui é muito paia”, está dizendo que “é muito palha”, para dizer que não presta. E nem vou falar em termos como véio e véia, que todo mundo entende. 
 
Prefiro lembrar a piada clássica do barbeiro matuto, que depois de escanhoar o cliente pergunta, solícito: “Qué áico, táico, ou qué que mói?...” (“Quer álcool, talco, ou quer que molhe?...”). 
 
Tudo isto aqui está em formato de afirmações, mas são apenas hipóteses. Uma hipótese deve sempre vir em forma de afirmação, para despertar a sanha contestatória dos leitores, de onde tanto pode vir mero som e fúria, quanto um raio de luz nas trevas do nosso desconhecimento coletivo. 
 
Não tenho nenhuma hipótese de como a palavra “golpe” veio a significar “gole”, ou de como esta, que talvez seja mais antiga, acolheu essa variante. Registro apenas uma terceira ocorrência, muito próxima aos dois: o verbo “golfar” e o substantivo “golfada”. “O sangue golfava de um profundo ferimento que ele tinha no peito...”  “Traz um pano aí, o bebê está golfando...” Em ambos os casos, trata-se de pequenas quantidades de líquido, como num “gole”. 
 
É bom registrar que “golfada”  também sofre a mesma corruptela e aparece na linguagem nordestina como “goipada”, no sentido de “cuspida”, ou de “golfada de vômito”.


 
(DICIONÁRIO DE PARAIBÊS, Vicente Campos Filho)


Já na casa dos 20-30, folheando “bandas desenhadas” francesas, me deparei com a exclamação “Ta gueule!...” que minha inteligência artificial traduzia como “Tua goela!...”, ou seja, tua garganta. Aos poucos, por superposição de diferentes contextos, de Wolinski a Tintin, fui deduzindo um significado tipo “”Fecha essa matraca!...” Permaneceu, no entanto, a associação com “goela”, principalmente através da gíria campinense “bicho-güela”, no sentido de “sujeito falastrão, gabola, mas envolvente, com papo-de-derrubar-avião”.



 
E depois, vasculhando os dicionários à cata de uma palavra nova aqui, outra ali, fui percebendo a quantidade de palavras ligadas entre si por proximidade sonora/estrutural e vizinhança semântica. 
 
Goela = pescoço, garganta, falação 
Güelar = ganhar no papo, na conversa finória. “Preciso güelar um convite pra essa festa, vou dizer que sou músico-reserva da banda.” 
Gola = parte do vestuário em volta da garganta 
Gula = apetite excessivo 
Guloseima = comidinha gostosa 

... e por aí vai.
 
Ao verificar a relação entre “gueule / goela”, não pude deixar de pensar: “E a palavra pescoço?... Que papel desempenha nessa nuvem semântica?...”  
 
Claro que já havia uma certa pulsão rabelaisiana nessa linha de pesquisa, pois todo mundo sabe que “pescoço” em francês é “cou”; se não todo mundo, pelo menos Campina Grande inteira sabe, porque a quantidade de piadas, anedotas e gracejos envolvendo estas palavras daria um livro. 
 
Pescoço em francês é “cou”, mas também é grafado como “col” – e vejam como a Terra é mesmo redonda, a gente dá uma volta tão longa e retorna ao português. “Colo” é pescoço, sim, lembrem da personagem de Arsène Lupin, “Edite, colo de cisne”. Só que devido ao sacolejo dos séculos a palavra aqui foi se espalhando por toda a parte fronteira do corpo – falamos de uma mulher cujo decote a deixa “com o colo à mostra”, falamos de “trazer um bebê ao colo”, falamos de “sentar no colo”... Mas tudo isso, palpito eu, escorre do pescoço. “Colar” (o adereço) deve ter a mesma origem: algo que se usa ao pescoço. 



 
O trajeto dos dominós veio se encaixando assim: golpe / gole / goela / pescoço / cou / ... E num estalo completei mais uma volta e cheguei ao ponto de partida: golpe é francês é coup, de onde vêm as expressões famosas “coup de grâce” (“golpe de misericórdia”) e “coup d’état” (“golpe de estado”). Coup é associado ao verbo “couper”, cortar. Parece que os franceses têm uma tradição guilhotinadora, enquanto outros países optavam pelo fuzilamento e a cadeira elétrica. Quando fui verificar coup, no entanto, o que encontro como sentidos possíveis? 




O mesmo sentido que deu início a este passeio: “golpe” (coup) quer dizer “gole (de bebida)” (coup).
 
Claro que estas associações de idéias não são fixas nem têm todas as mesmas nuances. Cada cultura e, mais, cada pessoa projeta vibraçõezinhas diferentes em tudo que diz. Chego mesmo a concordar com Douglas Hofstadter, quando no seu incrível Le Ton Beau de Marot (1997, cap. 10), ele questiona: 
 
Um novaiorquino do Upper East Side fala a mesma linguagem de outro que é do Upper West Side? “Central Park” significa a mesma coisa para ambos? E o que dizer de “Broadway”? E de “cachorro”? E de “coisa”? E de “um”?
 
Um golpe, no meu dicionário afetivo, seria apenas um góipizim de cachaça que a gente vira, pra esquentar as brasas do juízo e colorir o rosto da Natureza.